FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS
CURSO DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
DISCIPLINA: Estatística
TRABALHO DE CAMPO
TEMA: Resolução de Exercícios de Estatística
Antônio Francisco Caliche
Beira 2026
1. INTRODUÇÃO
A Estatística constitui uma ferramenta fundamental para a tomada de decisão em
contextos de incerteza, sendo amplamente aplicada em diversas áreas do conhecimento,
incluindo a Administração Pública. A capacidade de organizar, analisar e interpretar
dados permite aos gestores públicos fundamentar as suas decisões em evidências,
aumentando a eficiência, a transparência e a eficácia das políticas e serviços públicos.
O presente trabalho tem como objetivo a resolução de um conjunto de exercícios práticos
de Estatística, abrangendo diferentes áreas desta ciência: organização e apresentação de
dados, medidas de posição e dispersão, separatrizes, curtose, cálculo de somatórios e
probabilidades.
Especificamente, pretende-se:
Agrupar dados em classes e construir tabelas de frequências;
Calcular medidas de tendência central (média, mediana e moda);
Determinar medidas separatrizes (quartis, decis e percentis);
Calcular medidas de dispersão (desvio médio, variância, desvio padrão e coeficiente de
variação);
Determinar e classificar o coeficiente de curtose;
Resolver exercícios envolvendo somatórios;
Aplicar conceitos de probabilidade em diferentes contextos.
A resolução dos exercícios segue uma abordagem passo a passo, com a apresentação das
fórmulas utilizadas e dos cálculos intermédios, permitindo uma compreensão clara do
raciocínio estatístico subjacente.
2. RESOLUÇÃO DOS EXERCÍCIOS
2.1. Exercício 1: Análise de Estaturas
Enunciado: Numa turma do 1° Ano da UniSCED, estão matriculados X estudantes. O
levantamento das fichas biométricas revelou as seguintes estaturas em centímetros:
(Nota: Como o enunciado não apresenta os dados concretos, para efeitos de resolução
deste trabalho, consideraremos o seguinte conjunto de dados hipotéticos, representativo
de 40 estudantes:)
Dados (estaturas em cm):
152, 155, 158, 160, 160, 162, 163, 165, 165, 167, 168, 168, 170, 170, 170, 172, 173,
175, 175, 175, 178, 178, 180, 180, 180, 182, 183, 185, 185, 185, 188, 188, 190, 190,
192, 193, 195, 195, 198, 200
a) Agrupamento em Classes e Tabela de Frequências
Passo 1: Determinar o número de classes (k)
Utilizando a Regra de Sturges: k = 1 + 3,3 × log(n)
Onde n = 40
k = 1 + 3,3 × log(40) = 1 + 3,3 × 1,602 = 1 + 5,287 ≈ 6 classes
Passo 2: Determinar a amplitude total (AT)
AT = Valor máximo - Valor mínimo = 200 - 152 = 48
Passo 3: Determinar a amplitude do intervalo (h)
h = AT / k = 48 / 6 = 8
Tabela de Frequências:
Classes Frequência Ponto Frequência Frequência
(cm) Absoluta (fi) Médio (xi) Relativa (fr) Acumulada (Fac)
152 ⊢ 160 4 156 0,100 4
160 ⊢ 168 7 164 0,175 11
168 ⊢ 176 9 172 0,225 20
176 ⊢ 184 8 180 0,200 28
184 ⊢ 192 7 188 0,175 35
192 ⊢ 200 5 196 0,125 40
Total 40 - 1,000 -
b) Medidas de Posição
Média Aritmética (𝑥̄):
𝑥̄ = Σ(fi × xi) / n
Classes fi xi fi × xi
152 ⊢ 160 4 156 624
160 ⊢ 168 7 164 1.148
168 ⊢ 176 9 172 1.548
176 ⊢ 184 8 180 1.440
184 ⊢ 192 7 188 1.316
192 ⊢ 200 5 196 980
Total 40 - 7.056
𝑥̄ = 7.056 / 40 = 176,4 cm
Mediana (Md):
Classe mediana: onde Fac ≥ n/2 = 40/2 = 20 (classe 168 ⊢ 176)
Md = Lmd + [(n/2 - Facant) / fmd] × h
Onde:
Lmd = limite inferior da classe mediana = 168
Facant = frequência acumulada anterior = 11
fmd = frequência da classe mediana = 9
h = amplitude do intervalo = 8
Md = 168 + [(20 - 11) / 9] × 8 = 168 + (9/9) × 8 = 168 + 8 = 176 cm
Moda (Mo):
Classe modal: classe com maior frequência (168 ⊢ 176)
Mo = Lmo + [Δ1 / (Δ1 + Δ2)] × h
Onde:
Lmo = limite inferior da classe modal = 168
Δ1 = frequência modal - frequência anterior = 9 - 7 = 2
Δ2 = frequência modal - frequência posterior = 9 - 8 = 1
h=8
Mo = 168 + [2 / (2 + 1)] × 8 = 168 + (2/3) × 8 = 168 + 5,33 = 173,33 cm
c) Medidas Separatrizes
Primeiro Quartil (Q1):
Posição: n/4 = 40/4 = 10 (classe 160 ⊢ 168)
Q1 = Lq + [(n/4 - Facant) / fq] × h
Q1 = 160 + [(10 - 4) / 7] × 8 = 160 + (6/7) × 8 = 160 + 6,86 = 166,86 cm
Segundo Quartil (Q2): (coincide com a Mediana)
Q2 = 176 cm
Terceiro Quartil (Q3):
Posição: 3n/4 = 3×40/4 = 30 (classe 176 ⊢ 184)
Q3 = 176 + [(30 - 20) / 8] × 8 = 176 + (10/8) × 8 = 176 + 10 = 186 cm
Quarto Decil (D4):
Posição: 4n/10 = 4×40/10 = 16 (classe 168 ⊢ 176)
D4 = 168 + [(16 - 11) / 9] × 8 = 168 + (5/9) × 8 = 168 + 4,44 = 172,44 cm
Septuagésimo Percentil (P70):
Posição: 70n/100 = 70×40/100 = 28 (classe 176 ⊢ 184)
P70 = 176 + [(28 - 20) / 8] × 8 = 176 + (8/8) × 8 = 176 + 8 = 184 cm
d) Medidas de Dispersão
Desvio Médio (DM):
DM = Σ(fi × |xi - 𝑥̄|) / n
Classes fi xi xi - 𝑥̄ |xi - 𝑥̄| fi × |xi - 𝑥̄|
152 ⊢ 160 4 156 -20,4 20,4 81,6
160 ⊢ 168 7 164 -12,4 12,4 86,8
168 ⊢ 176 9 172 -4,4 4,4 39,6
176 ⊢ 184 8 180 3,6 3,6 28,8
184 ⊢ 192 7 188 11,6 11,6 81,2
192 ⊢ 200 5 196 19,6 19,6 98,0
Total 40 - - - 416,0
DM = 416,0 / 40 = 10,4 cm
Variância (s²):
s² = Σ[fi × (xi - 𝑥̄)²] / (n - 1) (para amostra)
Classes fi (xi - 𝑥̄)² fi × (xi - 𝑥̄)²
152 ⊢ 160 4 416,16 1.664,64
160 ⊢ 168 7 153,76 1.076,32
168 ⊢ 176 9 19,36 174,24
176 ⊢ 184 8 12,96 103,68
184 ⊢ 192 7 134,56 941,92
192 ⊢ 200 5 384,16 1.920,80
Total 40 - 5.881,60
s² = 5.881,60 / 39 = 150,81 cm²
Desvio Padrão (s):
s = √s² = √150,81 = 12,28 cm
Coeficiente de Variação (CV):
CV = (s / 𝑥̄) × 100% = (12,28 / 176,4) × 100% = 6,96%
Interpretação: A dispersão dos dados em torno da média é baixa (CV < 15%), indicando
que o conjunto é homogéneo.
e) Coeficiente Quartílico de Curtose
Fórmula: C = (Q3 - Q1) / [2 × (P90 - P10)]
Cálculo do P10:
Posição: 10n/100 = 10×40/100 = 4 (classe 152 ⊢ 160)
P10 = 152 + [(4 - 0) / 4] × 8 = 152 + (4/4) × 8 = 152 + 8 = 160 cm
Cálculo do P90:
Posição: 90n/100 = 90×40/100 = 36 (classe 184 ⊢ 192)
P90 = 184 + [(36 - 28) / 7] × 8 = 184 + (8/7) × 8 = 184 + 9,14 = 193,14 cm
C = (186 - 166,86) / [2 × (193,14 - 160)] = 19,14 / [2 × 33,14] = 19,14 / 66,28 = 0,289
f) Classificação da Distribuição quanto ao Grau de Achatamento
Se C = 0,263 → distribuição mesocúrtica (curva normal)
Se C > 0,263 → distribuição platicúrtica (mais achatada)
Se C < 0,263 → distribuição leptocúrtica (mais alongada)
Como C = 0,289 > 0,263, a distribuição classifica-se como platicúrtica.
2.2. Exercício 2: Cálculo de Somatórios
a) Σ(i² + 1) para i = 0 até 1
Σ(i² + 1) = (0² + 1) + (1² + 1) = (0 + 1) + (1 + 1) = 1 + 2 = 3
b) Σ[6(i - 14)] para i = 0 até 1
Σ[6(i - 14)] = 6(0 - 14) + 6(1 - 14) = 6(-14) + 6(-13) = -84 + (-78) = -162
c) Σ[1/(n(n+1))] para n = 1 até 1000
Este é um somatório telescópico. Sabemos que:
1/[n(n+1)] = 1/n - 1/(n+1)
Σ_{n=1}^{1000} [1/n - 1/(n+1)] = (1/1 - 1/2) + (1/2 - 1/3) + (1/3 - 1/4) + ... + (1/1000 -
1/1001)
Os termos cancelam-se, restando apenas o primeiro e o último:
= 1 - 1/1001 = 1 - 0,000999 = 0,999 (ou aproximadamente 1)
d) Σ[(-1)ⁿ/(1+n)] para n = 0 até 4
Para n=0: (-1)⁰/(1+0) = 1/1 = 1
Para n=1: (-1)¹/(1+1) = -1/2 = -0,5
Para n=2: (-1)²/(1+2) = 1/3 ≈ 0,333
Para n=3: (-1)³/(1+3) = -1/4 = -0,25
Para n=4: (-1)⁴/(1+4) = 1/5 = 0,2
Soma = 1 - 0,5 + 0,333 - 0,25 + 0,2 = 0,783
e) Σ(2i) para i=0 até 3 menos Σ(i - x) para i=0 até 3
Primeiro somatório: Σ(2i) para i=0 até 3 = 0 + 2 + 4 + 6 = 12
Segundo somatório: Σ(i - x) para i=0 até 3, onde x parece ser uma variável não definida.
Considerando x como constante:
Σ(i - x) = (0 - x) + (1 - x) + (2 - x) + (3 - x) = 6 - 4x
Resultado final = 12 - (6 - 4x) = 6 + 4x
2.3. Exercício 3: Probabilidade com Reposição
Enunciado: Em uma bola há 20 fichas numeradas de 1 a 20. Tira-se uma ficha que em
seguida é recolocada na bolsa, logo após retira-se a outra ficha. Qual é a probabilidade de
se tirar duas vezes a mesma ficha?
Resolução:
Espaço amostral: 20 × 20 = 400 possibilidades (com reposição)
Evento A: "tirar a mesma ficha nas duas extrações"
Para cada ficha, há uma combinação favorável: (1,1), (2,2), ..., (20,20) → 20 casos
favoráveis
P(A) = casos favoráveis / casos possíveis = 20 / 400 = 1/20 = 0,05 = 5%
2.4. Exercício 4: Probabilidade de Eventos Mutuamente Exclusivos
Enunciado: Um grupo de 50 estudantes universitários é formado por 30 estudantes de
Direito, 15 estudantes de Psicologia e 5 estudantes de Matemática. Escolhendo um desses
estudantes ao acaso, qual é a probabilidade de que ele estude Psicologia ou Matemática?
Resolução:
Total de estudantes: 50
Estudantes de Psicologia: 15
Estudantes de Matemática: 5
Evento A: estudar Psicologia ou Matemática
Como os eventos são mutuamente exclusivos (um estudante não pode estar em dois
cursos ao mesmo tempo), temos:
P(Psicologia ∪ Matemática) = P(Psicologia) + P(Matemática) = 15/50 + 5/50 = 20/50 =
2/5 = 0,4 = 40%
2.5. Exercício 5: Probabilidade Condicional (Moeda - 3 lançamentos)
Enunciado: Uma moeda é lançada, sucessivamente, três vezes. Qual é a probabilidade
de ocorrer pelo menos uma coroa, sabendo que saiu cara na primeira jogada?
Resolução:
Espaço amostral para 3 lançamentos: 2³ = 8 possibilidades
Condição: saiu cara na primeira jogada → espaço amostral reduzido (C _ _ ):
CCC
CCK
CKC
CKK
Total: 4 possibilidades
Evento B: pelo menos uma coroa (nos dois últimos lançamentos)
Casos favoráveis: todas as sequências com pelo menos um K nos últimos dois
lançamentos:
C C K → tem K
C K C → tem K
C K K → tem K
Total: 3 casos favoráveis
P(B | C no 1º) = 3/4 = 0,75 = 75%
2.6. Exercício 6: Probabilidade Condicional (Moeda - 4 lançamentos)
Enunciado: Uma moeda é lançada quatro vezes seguidas. Qual é a probabilidade de
conseguirmos pelo menos uma cara, sabendo que no primeiro lançamento foi obtido cara?
Resolução:
Espaço amostral para 4 lançamentos: 2⁴ = 16 possibilidades
Condição: saiu cara na primeira jogada → espaço amostral reduzido (C _ _ _ ):
Total: 2³ = 8 possibilidades para os 3 últimos lançamentos
Evento B: pelo menos uma cara nos 4 lançamentos
Sabendo que já saiu cara no primeiro lançamento, a condição "pelo menos uma cara" já
está automaticamente satisfeita, independentemente do que ocorrer nos restantes
lançamentos.
Portanto, todos os 8 casos do espaço amostral reduzido são favoráveis.
P(B | C no 1º) = 8/8 = 1 = 100%
2.7. Exercício 7: Probabilidade de Filhos do Sexo Feminino
Enunciado: Determine a probabilidade de um casal ter 3 filhos, todos do sexo feminino.
Resolução:
Assumindo que a probabilidade de nascer uma criança do sexo feminino é 1/2 (50%), e
que os sexos dos filhos são eventos independentes:
P(3 filhas) = P(1ª filha) × P(2ª filha) × P(3ª filha) = (1/2) × (1/2) × (1/2) = 1/8 = 0,125 =
12,5%
3. CONCLUSÃO
A realização deste trabalho permitiu a aplicação prática dos conceitos fundamentais da
Estatística, consolidando a compreensão teórica adquirida ao longo do módulo e
desenvolvendo competências essenciais para a análise de dados no contexto da
Administração Pública.
No exercício 1, foi possível percorrer todas as etapas da análise estatística descritiva:
organização dos dados em classes, construção da tabela de frequências, cálculo das
medidas de tendência central, medidas separatrizes, medidas de dispersão e análise da
forma da distribuição através do coeficiente de curtose. Este exercício evidenciou a
importância de cada uma destas medidas para a caracterização completa de um conjunto
de dados.
Os exercícios de somatórios (exercício 2) permitiram rever operações fundamentais para
a estatística, nomeadamente o cálculo de somatórios simples e telescópicos, que estão na
base de muitas fórmulas estatísticas.
Os exercícios de probabilidade (exercícios 3 a 7) proporcionaram a aplicação dos
conceitos de probabilidade condicional, eventos mutuamente exclusivos, independência
de eventos e cálculo de probabilidades em espaços amostrais finitos. Destaca-se a
importância da distinção entre situações com e sem reposição, bem como a correta
delimitação do espaço amostral em problemas de probabilidade condicional.
Para o futuro administrador público, o domínio destas técnicas estatísticas é fundamental
para a tomada de decisão baseada em evidências. A capacidade de organizar, analisar e
interpretar dados permite avaliar a eficácia de políticas públicas, compreender fenómenos
sociais, planear intervenções e comunicar resultados de forma clara e fundamentada.
Em suma, a estatística apresenta-se não como um fim em si mesma, mas como uma
ferramenta ao serviço da boa governação e da melhoria dos serviços prestados aos
cidadãos.
4. BIBLIOGRAFIA
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Martinez, E. Z., & Nascimento, A. F. (2019). Bioestatística para os Cursos de Saúde.
Elsevier.
Murteira, B., Ribeiro, C. S., Silva, J. A., & Pimenta, C. (2015). Introdução à
Estatística (3ª ed.). Escolar Editora.
Pagano, M., & Gauvreau, K. (2021). Princípios de Bioestatística (3ª ed.). Cengage
Learning.
Pestana, M. H., & Gageiro, J. N. (2020). Análise de Dados para Ciências Sociais: A
Complementaridade do SPSS (7ª ed.). Sílabo.
Reis, E. (2018). Estatística Descritiva (8ª ed.). Edições Sílabo.
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