Apel Do Cirurgião Dentista Frente Aos Casos de Abuso Sexual Infantil: Uma Revisão Da Literatura
Apel Do Cirurgião Dentista Frente Aos Casos de Abuso Sexual Infantil: Uma Revisão Da Literatura
Kauany Derossoa
Orlando Luiz do Amaral Júniora,b
_____________________________________
aUnidade Central de Educação FAI, Itapiranga, SC, Brasil.
bPrograma de Pós-Graduação em Odontologia, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria,
RS, Brasil.
Autor correspondente: Orlando Luiz do Amaral Júnior E-mail: orlandodoamaraljr@[Link]
Data de envio: 04/07/2023 Data de aceite: 11/12/2023
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Revista da Faculdade de Odontologia de Porto Alegre, v. 65, e133694, jan./dez. 2024.
Kauany Derosso & Orlando Luiz do Amaral Júnior
RESUMO
Objetivo: Revisar a literatura a respeito do papel do cirurgião-dentista frente aos
casos de abuso sexual infantil, abordando sua importância na identificação e no
encaminhamento adequado das vítimas, além de discutir a necessidade de
conscientização e implementação de políticas públicas que abordem o tema. Revisão
de literatura: O ambiente odontológico é um ambiente propício para a identificação
de sinais de abuso sexual infantil, uma vez que o profissional tem contato direto com
a saúde bucal e facial das crianças. Desempenha um papel fundamental ao observar
e reportar esses sinais, contribuindo para a identificação precoce e o encaminhamento
adequado das vítimas. Discussão: A literatura prévia sugere a necessidade de
fornecer subsídios teóricos, aprofundados no tema, para contribuir na ampliação do
conhecimento nessa área. Sendo importante a conscientização e capacitação do
cirurgião-dentista nesse contexto, bem como a criação de políticas públicas que visam
uma abordagem multidisciplinar que contribua para a conscientização, prevenção e a
promoção de ações voltadas à proteção das crianças e ao combate do abuso sexual
infantil. Conclusão: O cirurgião-dentista desempenha um papel fundamental na
identificação e no encaminhamento adequado das vítimas de abuso sexual infantil. É
essencial que esses profissionais sejam devidamente capacitados e conscientizados
sobre a importância desse tema, além de estabelecerem uma rede de colaboração
com outros profissionais da saúde e serviços especializados.
Palavras-chave: Odontopediatria. Delitos sexuais. Serviços de saúde.
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Papel do cirurgião dentista frente aos casos de abuso sexual infantil: uma revisão da literatura
ABSTRACT
Aim: To review the literature regarding the role of the dental surgeon in cases of child
sexual abuse, addressing its importance in identifying and properly referring victims,
in addition to discussing the need for awareness and implementation of public policies
that address the issue. Literature review: The dental environment is a favorable
environment for identifying signs of child sexual abuse, since the professional has
direct contact with the oral and facial health of children. It plays a key role in observing
and reporting these signs, contributing to the early identification and proper referral of
victims. Discussion: Previous literature suggests the need to provide theoretical
subsidies, in depth on the subject, to contribute to the expansion of knowledge in this
area. It is important to raise awareness and training of dentists in this context, as well
as the creation of public policies aimed at a multidisciplinary approach that contributes
to awareness, prevention and promotion of actions aimed at protecting children and
combating child sexual abuse. Conclusion: The dental surgeon plays a key role in
identifying and properly referring victims of child sexual abuse. It is essential that these
professionals are properly trained and aware of the importance of this topic, in addition
to establishing a collaboration network with other health professionals and specialized
services.
Keywords: Pediatric dentistry. Sex Offenses. Health Services.
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INTRODUÇÃO
A violência infantil é um grave problema social e de saúde pública, que tem
aumentado significativamente ao longo dos anos, e que se apresenta de diversas
formas, como o abuso sexual1,2. Conforme o Ministério da Mulher, da Família e dos
Direitos Humanos nos quatro primeiros meses de 2022, foram registradas 4.486
denúncias de abuso sexual infantil, caracterizando 37 casos por dia, além disso, há
uma tendência de que este número seja ainda maior visto que apenas 10 em cada
100 casos são denunciados3. Ainda, de acordo com as informações do Anuário
Brasileiro de Segurança Pública no ano de 2020 para 2021 os números de estupro de
vulnerável aumentaram de 43.427 para 45.994, sendo que, 61,3%, foram cometidos
contra meninas menores de 13 anos3,4.
Os maus-tratos infantis podem ser caracterizados em quatro principais
categorias, os maus-tratos físicos, nos quais as crianças sofrem agressões físicas que
resultam em lesões ou dor, maus-tratos sexuais, que envolvem a exploração sexual,
abuso ou exposição a conteúdo pornográfico, maus-tratos psicológicos, que englobam
agressões verbais, humilhação, ameaças e manipulação emocional, impactando
negativamente a saúde mental e emocional da criança e a negligência, caracterizada
pela ausência ou falha dos pais ou responsáveis em prover necessidades
fundamentais, como alimento, abrigo, cuidados médicos ou supervisão adequada5,6.
Segundo a literatura prévia, a região da cabeça e pescoço é a região que ocorre
os maiores impactos físicos em casos de violência, correspondendo a 50% dos
casos5. Ainda, de acordo com outro estudo em termos de localização, dos 461
registros de lesão, 301 atingiram a região de cabeça e pescoço, correspondendo a
65,3%7. O cirurgião dentista é um dos profissionais que pode reconhecer, diagnosticar
e notificar possíveis casos suspeitos ou confirmados de abuso5,6. Porém, a maioria
dos profissionais não receberam orientação e apresentam pouca informação
relacionada ao assunto, e muitos não sabem como preencher a ficha de notificação
compulsória8. A falta de conhecimento sobre o assunto é preocupante, visto que a
identificação precoce e a notificação do abuso sexual infantil são fundamentais para
a prevenção e tratamento das sequelas físicas e emocionais das vítimas, prevenindo
e protegendo dos futuros casos de abuso5.
O abuso sexual infantil causa inúmeras consequências, além dos danos
imediatos resulta em traumas que acompanham as vítimas ao longo da vida, sendo
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MATERIAIS E MÉTODOS
Foram consultadas as bases de dados PubMed e Scielo e selecionados
estudos publicados em português e inglês considerando os últimos 20 (vinte) anos.
Utilizou-se para estratégia de busca os descritores “Odontopediatria”, “Serviços de
Saúde”, “Notificação de doenças”. “Maus-tratos infantis”. “Pediatric Dentistry”, “Health
Services”, “Disease notification”. “Child Abuse”.
A seleção foi realizada seguindo os principais critérios de relevância, como
estudos recentes e pertinentes ao tema, clareza e coerência do conteúdo para o tema
proposto e abordagem de aspectos relacionados ao papel do cirurgião-dentista frente
aos casos de abuso sexual infantil. Para tanto, foram adotados métodos de pesquisa
qualitativa, envolvendo revisão bibliográfica de estudos científicos, documentos legais
e diretrizes éticas relacionadas ao tema.
Os artigos foram analisados quanto a sua metodologia, resultados e
discussões, a fim de extrair informações pertinentes para o desenvolvimento do
trabalho, eliminando sistematicamente artigos que não tivessem relação íntima com o
tema, empregando 3 (três) critérios de exclusão:
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REVISÃO DE LITERATURA
O abuso sexual infantil apresenta uma diversidade de formas e contextos em
que ocorre, cada um com suas características distintas, abrangendo desde o contato
físico direto até a exploração online, podendo incluir atos como o toque inapropriado,
penetração sexual, exibição de material pornográfico, solicitação de fotos íntimas e
outros comportamentos sexualmente explícitos. Além disso, pode ocorrer em diversos
contextos, escolas, ambientes virtuais ou na própria residência, sendo o agressor
geralmente pessoa mais velha, do convívio familiar, ou próxima, ou até mesmo
estranhos5,7.
O abuso sexual infantil afeta milhares de crianças todos os anos, no contexto
mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1 em cada 4 meninas e
1 em cada 13 meninos em todo o mundo tenham sido vítimas de abuso sexual antes
dos 18 anos de idade, essas estatísticas alarmantes destacam a escala e a gravidade
desse problema global1. Já no Brasil, de acordo com as estatísticas divulgadas pelo
Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), em 2019, foram
registradas mais de 17 mil denúncias de violência sexual contra crianças e
adolescentes, estimando-se que cerca de 70% das vítimas são mulheres com idade
inferior a 18 anos4.
É importante ressaltar que esses números representam apenas os casos que
foram denunciados, e muitos outros casos podem permanecer não relatados, por
conta disso, esse tipo de violência requer uma abordagem multidisciplinar, envolvendo
ações de prevenção, proteção e punição dos agressores9. Sendo fundamental o
estímulo de políticas de conscientização e capacitação de profissionais para a
identificação, a fim de proporcionar um atendimento adequado às vítimas, garantindo
a denúncia segura e a eficiente investigação dos casos pelos órgãos competentes 10,11.
O cirurgião-dentista por trabalhar em contato direto com as regiões orofaciais,
que são as regiões mais expostas e frequentemente envolvidas em casos de
violência, deve realizar uma anamnese completa e detalhada, um exame físico
minucioso e se necessário, exames complementares, além de avaliar os
comportamentos da criança, desde o contexto em que a mesma está inserida 6,11.
Diante de qualquer lesão, deve se procurar saber mais, caso tenha uma natureza
suspeita, e essa revelação muitas vezes pode acontecer por parte da criança, por isso
o profissional deve estar atento aos sinais emocionais, tendo capacidade de
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interpretar tanto quanto os sinais clínicos mais evidentes9,12. Para assim, garantir o
possível diagnóstico, juntando as informações coletadas durante toda a consulta 9,13.
Diferentes sinais podem ser observados durante a consulta odontológica,
sejam eles sinais mais subjetivos, como mudanças repentinas de comportamento,
dificuldade de comunicação, ansiedade e medo excessivo e/ou sinais mais
específicos, clínicos orofaciais11,13. Podem aparecer como hematomas, lacerações,
queimaduras em tecido mole, envolvendo os lábios, além de fraturas dentárias,
geralmente em incisivos superiores6,10. Ainda, podem ser observadas manifestações
bucais de infecções sexualmente transmissíveis, como o condiloma acuminado
(HPV), herpes tipo II, sífilis e gonorreia6,10. A negligência em crianças com histórico
de violência é evidenciada ainda em quadros de saúde bucal precários, falta de
higiene bucal, lesões de cáries extensas, e alterações orofaciais de diferentes
complexidades, bem como a higiene corporal, roupas sujas e inadequadas em relação
a temperatura ambiente5,14,12.
A conduta do cirurgião-dentista diante de um caso de abuso sexual infantil,
tanto no ambiente público quanto no privado deve ser cautelosa para garantir a
proteção da vítima e contribuir para o seu bem-estar físico e emocional6,14. Ao se
deparar com essa situação, o profissional deve manter a calma e a discrição, evitando
qualquer reação que possa causar mais trauma à criança. Após a consulta, o dentista
deve seguir as diretrizes legais, buscando notificar os órgãos competentes, como o
Conselho Tutelar, a Polícia Civil ou o Ministério Público9,12.
A notificação pode ser através de uma ligação telefônica ou um relato por
escrito utilizando formulário especifico de notificação compulsória, preenchido em
duas vias6,5. É recomendado por lei, que a comunicação aos órgãos de proteção e
responsabilização não sejam feitas com a cópia da ficha de notificação, mas em uma
ficha padronizada que não identifique o profissional ou o serviço que notificou, visando
assim o sigilo profissional9,15. Dessa forma, tendo o conhecimento sobre a ficha de
notificação contribui para que os casos sejam realmente investigados e as denúncias
consumadas, aumentando as chances de identificação do abuso sexual infantil na
infância, pois o cuidado com a vítima e o cumprimento das obrigações legais são
elementos essenciais para a atuação ética e responsável do profissional nesse
delicado contexto10,15.
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DISCUSSÃO
O papel do cirurgião-dentista frente aos casos de abuso sexual infantil é uma
temática importante e que merece destaque7,8. Por ser um problema de saúde pública
que afeta muitas crianças em todo mundo é imprescindível que haja uma rede de
proteção para identificar e prevenir esse tipo de violência, sendo o cirurgião-dentista
um dos pilares dessa rede5,7. A abordagem multidisciplinar é fundamental, pois a
cavidade oral e facial é uma área frequentemente afetada, e os profissionais tem a
capacidade de identificar os sinais de abuso, como lesões orofaciais, traumatismos
nos dentes e boca, que podem servir como indicadores dessa violência11. Ao trabalhar
em conjunto com outros profissionais da saúde, como a assistência social e
psicologia, o dentista pode fornecer informações valiosas para um diagnóstico mais
amplo e um trabalho coordenado13,16,17. A colaboração multidisciplinar é essencial
para garantir o bem-estar integral da criança vítima de abuso sexual, abordando tanto
os aspectos físicos quanto os emocionais11,13.
A prática multiprofissional é necessária na abordagem desses casos e o
cirurgião-dentista desempenha um papel significativo nesse processo, pois além de
identificar e documentar as lesões orofaciais que podem ser indicativas de abuso, o
cirurgião-dentista faz parte na rede de proteção, atuando como um profissional de
saúde que frequentemente tem contato direto com crianças durante exames
odontológicos18. Sua habilidade em reconhecer os sinais de abuso e relatar suspeitas
é de suma importância para garantir a segurança e o bem-estar da criança,
desempenhando um papel essencial na notificação apropriada das autoridades
competentes, contribuindo para a investigação e intervenção em casos de abuso,
atendendo às necessidades físicas e emocionais da criança vítima de abuso sexual,
bem como para contribuindo na conscientização e prevenção desse grave
problema16,19,20.
A criação de políticas públicas associadas ao trabalho multidisciplinar se
apresenta como uma abordagem essencial para enfrentar a violência infantil, pois
busca assegurar o direito das crianças a uma infância segura, saudável e protegida,
na qual requer a atuação conjunta de profissionais de diferentes áreas 16. Essa
abordagem multidisciplinar permite uma análise geral das situações, garantindo uma
melhor compreensão das necessidades e dos direitos das vítimas, por meio de troca
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CONCLUSÃO
Este estudo revisa a literatura a respeito do papel do cirurgião-dentista diante
dos casos de abuso sexual infantil, sugere-se a importância do profissional, que
desempenha um papel relevante na detecção precoce, encaminhamento adequado e
apoio às vítimas, contribuindo para sua recuperação física e psicológica. A discussão
ampla deste tema é fundamental para sensibilizar a sociedade e promover uma
abordagem multidisciplinar no combate a essa violência. É imprescindível a
implementação de políticas públicas efetivas, com capacitação dos profissionais de
saúde, incluindo cirurgiões-dentistas, no reconhecimento e notificação de casos. A
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CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
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