Colégio da Polícia Militar Professor Poeta Luis Neves Cotrim
Aluna: Maria Luiza Pinheiro Nunes Turma: 1° ano B
Professor: SUB TEN França Disciplina: Filosofia
FILOSOFIA
Perguntas:
1. Explique o método da dúvida hiperbólica de René Descartes e qual seu objetivo
central.
2. Qual a primeira verdade inquestionável (o primeiro princípio da sua filosofia) que
Descartes atinge após aplicar a dúvida hiperbólica? Explique o raciocínio que o leva a
essa conclusão.
3. Descreva a distinção dualista cartesiana entre res cogita e res extensa.
4. Porquê Descartes precisou provar a existência de Deus em sua filosofia? Qual a
importância dessa prova para o método cartesiano?
5. O quê são as "ideias claras e distintas" para Descartes, e qual o seu papel como
critério de verdade?
6. Qual é a pergunta fundamental que Martin Heidegger retoma em sua obra Ser e
Tempo? Porquê, segundo ele, essa pergunta foi esquecida pela tradição filosófica
ocidental?
7. Explique o conceito de Dasein em Heidegger e Porquê ele é o ponto de partida para
a investigação do ser.
8. Diferencie os conceitos de "existência autêntica" e "existência inautêntica" no
pensamento de Heidegger.
9. O que significa a expressão "ser para a morte" para Heidegger? Como essa
consciência da finitude influencia a autenticidade?
10. Em contraste com Descartes, que busca o conhecimento de um "eu" isolado e
indubitável "kogito", como Heidegger aborda a relação do Dasein com o mundo e
com os outros entes?
Respostas:
1 - O método da dúvida hiperbólica de René Descartes é um processo de
questionamento radical e sistemático de todas as crenças prévias para encontrar
verdades indubitáveis. Seu objetivo principal é abandonar todas as opiniões duvidosas
para construir um novo sistema de conhecimento baseado em princípios sólidos e
absolutamente certos, que superem qualquer possibilidade de dúvida. Para isso, ele
aplica a dúvida a tudo, desde a experiência sensorial até a possibilidade de estar
sonhando, em busca de uma verdade clara e distinta sobre a qual não se possa duvidar.
2 - A primeira verdade inquestionável que Descartes atinge após aplicar a dúvida
hiperbólica é o "Penso, logo existo" (em latim, Cogito, ergo sum).
O propósito de Descartes não é instaurar um reino artificial de indecisão e relativismo,
mas o de iniciar um Saber que mereça esse nome, fundando-se a si mesmo e não
podendo ser posto em dúvida ou suspenso, nem mesmo se aceitarmos aquelas
entidades enganadoras. Se, pois, a cada vez que eu somo 2+2 me aparece ao espírito o
resultado 4, ainda assim, diz Descartes, não sei por que o número quatro resulta como
resposta necessária e universal; não tenho clareza sobre o fundamento daquela
evidência. O resultado aparece de modo súbito. Por outro lado, uma evidência que
correspondesse a seus próprio fundamento, ou seja, autofundamentadora (um Saber
que fosse uma Certeza) seria encontrada, para Descartes, na fórmula que afirma que
existo necessariamente se e quando penso. A ligação entre pensamento e existência é
indubitável – resiste até à hipótese de um gênio maligno e à suspensão do mundo
sensível. Se estou pensando, existo. Mesmo quando me engano, existo enquanto
penso; e na hipótese de o mundo sensível ser uma ilusão, enquanto penso, eu sou uma
coisa pensante verdadeiramente existente.
3 - René Descartes, porém, ardoroso defensor desta idéia, não confia no conhecimento
revelado através dos sentidos. Assim, para este filósofo há no mundo duas substâncias
- res cogitans ou res extensa. Da primeira esfera se destaca o universo do pensamento,
da reflexão, da atividade intelectual e da liberdade de agir; da segunda partiria o plano
da extensão, de tudo que está determinado de alguma forma, e da atitude passiva.
4 - Seguindo este raciocínio, Descartes afirmou, também, que um ser imperfeito não
pode ser a causa da criação de um ser perfeito, pois o menos não pode ser a causa do
mais. A idéia de perfeição nasce junto com o homem, é uma idéia inata. Resta a idéia
de que a perfeição não tendo sua origem no nada e nem tampouco em um ser
imperfeito por natureza, só pode ter sido posta na razão por um ser perfeito.
Um ser perfeito pode ser a sua própria causa, ao contrário de um ser imperfeito. A
idéia de perfeição posta na razão sugere a existência de um ser perfeito, pois seria
contraditória a existência da perfeição sem um ser perfeito que a tenha criado.
Assim, a existência de uma idéia de perfeição que existe em nossa mente, comprova a
existência de um ser perfeito que a criou e a colocou em nossa razão, ou seja, um ser
que pode ser chamado de Deus. Em suma, a existência de Deus é a pedra angular do
edifício do conhecimento cartesiano, fornecendo a segurança metafísica necessária
para validar o método da dúvida e a confiança na razão humana.
5 - Racionalismo Cartesiano é formado pelo pensamento e pela dúvida. É dessa
definição que Descartes forma uma das suas linhas de pensamentos mais conhecidas, a
ideia do “penso, logo existo”.
Através dessa ideia, Descartes propõe uma diferença entre as ideias claras e distintas, e
as ideias duvidosas presentes no universo. Para Descartes, essas ideias claras e
distintas são a representação das ideias inatas, que são tidas como verdadeiras.
Essas ideias são consideradas verdadeiras porque não são passíveis de erro, já que vem
de dentro, do próprio sujeito. Entende-se também que a verdade só é livre de dúvidas
depois que é questionada e duvidada.
Outra noção importante no Racionalismo Cartesiano é a ideia de que a consciência
(entendida também como pensamento) tem mais certeza de que a matéria (o corpo).
Essa matéria é também formada por uma possibilidade de conhecimento.
6 - Heidegger (2012) propõe, em sua obra, uma análise existencial por meio de sua
ontologia fundamental. Para ele, ser é o conceito mais universal, já que está
constantemente presente em nossa lida cotidiana com o mundo, mas é
simultaneamente o mais obscuro, exigindo, portanto, discussão e reflexão, já que a
compreensão de ser dada pela metafísica ao longo da história sedimentou-se. O
obscurecimento sobre a questão do ser se constituiu com o modo como a questão foi
colocada pela ontologia tradicional: ao se perguntar o que é o ser, lançamos mão de
uma compreensão prévia de ser no próprio interrogar. Na tradição filosófica ocidental,
o ser é concebido como simplesmente dado: visto que o ser se manifesta no ente, vem
sendo compreendido como um ente entre outros entes. Ao entificar o ser, o modo de
interrogar da tradição pressupõe nele um caráter de imutabilidade e de essência fixa
passível de ser encontrada ultrapassando-se a aparência. Tais pressuposições
atribuem-lhe uma substancialidade que restringe seu caráter acontecimental.
Ao refletir sobre esse modo de questionar, Heidegger (2012) aponta como as
interpretações prévias sobre o ser vão se impregnando na questão e propõe outro
modo interrogar: questionar o ser em seu sentido, que é primordial à compreensão das
coisas em nosso cotidiano. O indivíduo tem a capacidade de conhecer o ser, que não é
uma coisa fechada, padrão. A questão do ser põe em jogo duas dimensões: a ôntica,
referente ao horizonte de manifestação do ente, e a ontológica, referente ao horizonte
das possibilidades de ser de um ente (Heidegger, 2012). Heidegger argumenta que,
embora o sentido do ser não fosse mais um problema explícito na filosofia, ele
continua a permear todo o comportamento e a compreensão humana, o que justifica a
necessidade de retomar a pergunta, começando pela análise do único ente para quem
seu próprio ser é uma questão: o Dasein (o ser-aí, o ser humano).
7 - O Dasein é o ente que, sendo, des-cobre, revela o Ser (o quê e como algo é) a partir
de sua condição existencial. O Dasein é o ente para o qual o Ser se mostra. Em virtude
de sua compreensão do Ser, ainda que informal, vaga, o ser humano é ontológico. Essa
compreensão ocorre em meio aos demais entes (humanos e não-humanos) com os
quais o ser humano se relaciona, na forma de uma cotidianidade mediana. No
cotidiano, entretanto, o ser humano se coloca como mais um entre os entes, numa
relação de identidade com as coisas que o cercam, relação esta na qual a característica
ontológica fica encoberta. Na cotidianidade, o Dasein se mostra como sendo mais uma
pessoa entre as outras pessoas, ou seja, vive sua vida como "fulano de tal" que tem um
jeito particular de ser. Este nível cotidiano, da vida como sendo mais um entre os
demais, é chamado ôntico. O ser-ontológico do homem é ser a abertura (o ai) onde os
entes se mostram e ele - homem - se mostra para si mesmo. É neste nível que
Heidegger descreve o modo de ser humano, o Dasein; sem, no entanto, ignorar o nível
ôntico dos interesses cotidianos, das individualidades, da cultura. Logo, o nível
ontológico diz respeito ao Dasein, que é o modo de ser do homem; o nível ôntico diz
respeito ao desdobramento individual do Dasein, que caracteriza cada indivíduo ou
grupos humanos como, por exemplo, os brasileiros, os budistas, os psicólogos.
8 - Ao trazer à tona o sentido de poder-ser inautêntico, em contraste com poder-ser
todo em sentido autêntico do Dasein, nota-se inicialmente que não se trata de uma
relação de hierarquia em termos de superior e inferior, no sentido de que um indica
uma existência melhor e o outro não, isto é, não implica em uma valoração moral,
axiológica ou mesmo ontológica. Antes, estes conceitos se referem a determinados
modos de existir, que dizem respeito a possibilidades de ser-no-mundo, nas quais o
Dasein sempre tem compreensão. Ao cabo, destaca-se que o Dasein nunca está
irrecuperavelmente perdido na inautenticidade, pois, em última instância, o ser-no-
mundo – mesmo inautêntico – é, em essência, cuidado.
9 - A expressão de Heidegger "ser para a morte" (em alemão, Sein zum Tode) significa
que a morte é a possibilidade mais própria, incondicionada e extrema da existência
humana (Dasein). Ela não é um evento futuro e incerto, mas uma condição intrínseca
que permeia toda a vida do indivíduo, definindo sua finitude. Em suma, a finitude é o
horizonte que dá forma e urgência à existência, e o "ser para a morte" é a estrutura
ontológica que convoca o indivíduo a uma vida consciente e autêntica.
10 - O contraste fundamental entre Descartes e Heidegger reside na primazia do
sujeito (Descartes) versus a primazia do Ser e do estar-no-mundo (Heidegger).
Enquanto Descartes busca a certeza no "eu pensante" isolado, Heidegger critica essa
abordagem por negligenciar a conexão essencial do ser humano com o mundo e a
questão do próprio Ser.