Marcelo Costa de Lima
Nota 5: Dinâmica Relativı́stica
Tempo próprio
Uma partı́cula que executa movimento sub-luminal descreve intervalos do tipo-tempo no espaço-tempo.
Com efeito,
ds2part = ηµν dxµ dxν = dt2 c2 − u2x − u2y − u2z = dt2 (c2 − u2 ) > 0 ,
pois u < c, por hipótese, neste sistema. Dado que o intervalo é um invariante de Lorentz, qualquer outro
observador O′ concordará que o movimento da partı́cula é sub-luminal.
Podemos então definir o escalar de Lorentz, o qual tem dimensão de tempo,
dspart 1q
dτ := = ηµν dxµ dxν , (1)
c c
o tempo próprio da partı́cula. No sistema de referência de O, é representado por
s
u2
dτ = dt 1− = γ −1 (u) dt , (2)
c2
enquanto que no sistema de O′ , no qual a velocidade da mesma partı́cula é ⃗u ′ , será expresso por
s
u′2
dτ ′ = dt′ 1− = γ −1 (u′ ) dt′ ,
c2
estando a invariância garantida, por construção,
dτ ′ = dτ . (3)
Embora a partı́cula, em movimento genérico, não defina um referencial inercial, sempre existirá em cada
ponto um referencial inercial momentaneamente comóvel, o R.M.C., O′′ , no qual dτ ′′ coincide com o
intervalo de tempo transcorrido no relógio (não inercial) da partı́cula, no ponto em questão. Daı́ deriva o
nome “tempo próprio”.
Qualquer sistema de referência inercial pode caracterizar a cinemática da partı́cula através de uma
quádrupla dxµ /dτ , a qual é, por construção, um quadrivetor. Com efeito,
dx′α ∂x′α dxµ ∂x′α dxµ
= = .
dτ ′ ∂xµ dτ ′ ∂xµ dτ
O que temos aqui é o quadrivetor velocidade, introduzido anteriormente, que pode ser agora propriamente
definido como
dxµ
uµ := . (4)
dτ
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Explicitando-o em termos da velocidade ⃗u e seu correspondente γ(u), encontramos a expressão γ(u)(c, ⃗u)
antes apresentada sem maior justificativa. Da definição (4) é agora trivial constatar que sua norma é c2 .
Com efeito
dxµ dxν dspart 2
u2 = ηµν uµ uν = ηµν = = c2 .
dτ dτ dτ
De modo similar, definimos o quadrivetor aceleração como,
duµ d2 xµ
aµ := = . (5)
dτ dτ 2
Explicitado em termos da velocidade ⃗u, seu correspondente γ(u) e aceleração ⃗a, encontramos a expressão
antes apresentada.
Demonstramos a ortogonalidade minkowskiana entre uµ e aµ
ηµν uµ aν = 0 , (6)
notando que,
d dc2
(ηµν uµ uν ) = = 0.
dτ dτ
Mas
d
(ηµν uµ uν ) = ηµν aµ uν + ηµν uµ aν = 2ηµν uµ aν ,
dτ
em que usamos o fato de que a métrica é simétrica. Assim,
ηµν uµ aν = 0 , c.q.d.
Seja qual for o movimento da partı́cula, sempre existirá um R.M.C. no qual as expressões (??) e (??) se
reduzem à
u′′µ = (c, 0, 0, 0) , a′′µ = (0, ⃗a ′′ ) .
Nesta condição é ainda mais imediato constatar o caráter tipo-tempo do primeiro, (??), tipo- espaço do
segundo, (??), e a ortogonalidade minkowskiana (6) entre ambos. Como são resultados sabidamente invari-
antes, valerão em qualquer outro sistema que não o R.M.C.
Na falta de um “tempo universal” usamos τ por parecer conveniente e natural, por se tratar da descrição
cinemática daquela partı́cula em questão. Mas não mandatório. É lı́cito ao observador O parametrizar
os dxµ em qualquer parâmetro invariante (λ = λ′ ) que lhe convenha. No novo parâmetro, o quadrivetor
velocidade não estará “normalizado” à c2 . Com efeito, se definimos, no mesmo sistema de referência,
dxµ dτ dxµ dτ µ
wµ := = = u ,
dλ dλ dτ dλ
chamando dτ /dλ = ψ, virá que,
wµ = ψ uµ , =⇒ w2 = ψ 2 c2 .
Será, portanto, invariavelmente do tipo-tempo. Também o quadrivetor aceleração poderá ser definido no
novo parâmetro, dwµ /dλ. Porém não mais será ortogonal ao quadrivetor velocidade wµ (mostre!).
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O MRUV relativı́stico
Será possı́vel admitir um movimento uniformemente acelerado relativı́stico? Para caracterizarmos o
problema vamos, por simplicidade, tomar uma partı́cula de velocidade inicial,
⃗u0 = (0, 0, u0 ) ,
conforme caracterizada pelo observador O. Está acelerada na direção z, com aceleração
⃗a = ( 0, 0, a) ,
sendo a = u̇ = du/dt, segundo as réguas e relógios deste observador. A partı́cula seguirá acelerada sempre
na direção z, neste sistema de referência, sendo
{uµ } = γ(u) ( c, 0, 0, u) , (7)
u
µ 4
{a } = γ (u) a , 0 , 0, 1 , (8)
c
a expressão dos quadrivetores velocidade e aceleração, neste caso. No R.M.C. o quadrivetor aceleração se
reduz à,
{a′µ } = a′ ( 0 , 0 , 0, 1) ,
sendo a′ a aceleração própria de partı́cula acelerada. Este número é um verdadeiro escalar, pois,
′
ηαβ a′α a′β = −a′2 .
Definiremos então o movimento uniformemente acelerado, no contexto relativı́stico, como aquele no qual a
aceleração própria é constante,
a′ = a0 .
Esta definição, embora invariante por construção, faz referência explı́cita ao referencial no qual a′ está sendo
medido (o de repouso local). Para caracterizá-lo de forma explicitamente invariante teremos a condição,
ηµν aµ aν = −a20 . (9)
Determinemos as equações horárias do movimento, conforme caracterizado no sistema de referência de O.
A partir de (8) teremos, !
u2
2 8 2
a0 = γ (u) u̇ 1 − 2 = u̇2 γ 6 (u) ,
c
e virá, então, a equação de movimento,
u̇ γ 3 (u) = a0 ,
ou
1 du
= a0 . (10)
(1 − u2 /c2 )3/2 dt
Resolvendo para a velocidade u teremos
Z u
du
= a0 t ,
u0 (1 − u2 /c2 )3/2
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cuja solução é,
γ0 u0 + a0 t
u(t) = q , (11)
1 + (γ0 u0 + a0 t)2 /c2
q
na qual γ0 = 1/ 1 − u20 /c2 é o fator de Lorentz associado à velocidade inicial. Nova integração fornecerá,
s
c2 (γ0 u0 + a0 t)2
z(t) = z0 + 1+ − γ 0 . (12)
a0 c2
Temos aı́ as equações horárias z = z(t) e u = u(t). Podemos ainda eliminar t nas duas últimas equações,
obtendo um correspondente relativı́stico da equação de Torricelli:
( −2 )
a0
2 2
u (z) = c 1 − γ0 + 2 ∆z . (13)
c
Se assumirmos que a partı́cula passa pela origem momentaneamente em repouso, isto é, que o referencial
O coincide com o R.M.C. em t = 0, teremos
u0 = 0 → γ0 = 1 , z0 = 0 .
As equações do movimento se reduzirão à,
s
c2 a20 t2
z(t) = 1+ −1 , (14)
a0 c2
a0 t
u(t) = q , (15)
1 + a20 t2 /c2
( −2 )
a0
2 2
u (z) = c 1 − 1+ 2 z . (16)
c
É possı́vel, portanto, conceber um movimento uniformemente acelerado, no contexto da relatividade especial.
Porém, diferentemente do que ocorre na fı́sica pré-relativista, esta aceleração própria constante não é capaz
de elevar a velocidade da partı́cula desde o repouso até a velocidade da luz. Com efeito, conforme (15), isto
iria requerer um tempo infinito
a0 t
lim u(t) = lim → c.
t→∞ t→∞ a0 t/c
Este comportamento assintótico é elegantemente ilustrado pelo diagrama de espaço-tempo assocido ao
movimento desta partı́cula. No parâmetro t, a sua linha de mundo será espressa por,
xµp = xµp (t) = (ct, 0, 0, z(t)) . (17)
De acordo com (14) esta será uma hipérbole, no plano (ct, z), definida pela equação
!2 !2
c2 2 2 c2
z+ − c t = ,
a0 a0
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Figura 1: Hipérbole, a linha de mundo da partı́cula uniformemente acelerada. As retas tracejadas são linhas de mundo tipo
luz, as quais são assı́ntotas da hipérbole em t → ±∞.
e ilustrada na Figura (1).
A linha de mundo pode, também, ser parametrizada no tempo próprio da partı́cula. Notemos inicialmente
que a mesma hipérbole pode ser escrita na forma paramétrica como,
c2 c2
z(λ) = (cosh(λ) − 1) , ct(λ) = sinh(λ) ,
a0 a0
sendo λ um parâmetro real. Encontremos a relação entre λ e o tempo próprio τ da partı́cula. Com
efeito, pela forma paramétrica anterior,
r
1 p 2 2 c c
dτ = c dt − dz 2 = cosh2 λ − sinh2 λ dλ2 = dλ ,
c a0 a0
donde virá,
a0
τ , λ =
c
sendo que escolhemos τ = 0 para t = 0. Deste modo,
c2 a0 τ a0 τ
xµp = xµp (τ ) = sinh , 0, 0, cosh −1 , (18)
a0 c c
é a expressão da linha de mundo da partı́cula, parametrizada no seu tempo próprio.
A terceira lei de Newton revisitada
Ao admitirmos a inexistência da ação instantânea à distância esvaziamos o conteúdo da terceira lei de
Newton para a interação de duas partı́culas espacialmente afastadas. A ação da primeira sobre a segunda
simplesmente não tem conexão causal com a ação da segunda sobre a primeira, no mesmo instante. Não é
racional considerá-las um par ação/reação.
Na colisão elástica das duas partı́culas, entretanto, a situação é diferente. Temos aı́ um evento.
Na relatividade de Galileu, a invariância da lei de convervação do momento,
p⃗1i + p⃗2i = p⃗1f + p⃗2f , (19)
em que “i” (inicial) se refere à antes da colisão e “f ” (final) após a colisão, sob mudança de referenciais,
depende crucialmente de dois fatores: a invariância das massas das partı́culas envolvidas e a composição
aditiva das velocidades envolvidas. Ela não está sozinha: como a colisão é elástica, temos ainda a lei de
conservação associada à energia das partı́culas envolvidas:
p21i p2 p21f p22f
+ 2i = + . (20)
2m1 2m2 2m1 2m2
À luz da exigida invariância de Lorentz, porém, surge de imediato a dificuldade de que a composição de
velocidades não é mais aditiva, conforme (??), ou mesmo no caso simples da translação xx′ (??).
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Podemos afirmar que massa de uma partı́cula medida em repouso no referêncial deve ser um invariante
de Lorentz. Do contrário, uma mesma massa padrão poderia ser usada para identificar o estado de movi-
mento do referencial que a transporta, por medidas feitas no próprio referencial. Isto viola o princı́pio da
relatividade. Esta é a massa própria. Denotando-a por m0 , devemos então ter quer para O, quer para
O′ ,
m′0 = m0 , (21)
para a mesma partı́cula. Uma vez em movimento qualquer observador somente poderia inferir a medida da
massa da partı́cula por meios indiretos, a partir do conhecimento das leis que regem o movimento. Uma
massa imprópria. Conhecida a massa própria naturalmente poderemos definir
pµ := m0 uµ , (22)
o qual é, por construção, um quadrivetor,
∂x′ν µ
pµ =⇒ p ′ν = p . (23)
∂xµ
Terá, portanto, as mesmas propriedades de transformação que (ct, x, y, z) sob transformações de Lorentz.
Este é o quadrivetor momento-energia da partı́cula. É o candidato natural para postularmos a lei de
conservação relativı́stica procurada, associada à colisão elástica das partı́culas 1 e 2. No sistema de referência
de O, teremos então,
pµ1i + pµ2i = pµ1f + pµ2f . (24)
Sob transformação de Lorentz, cada termo se transforma conforme (23), no que resultará, igualmente,
p ′ν ′ν ′ν ′ν
1i + p 2i = p 1f + p 2f , (25)
para O′ , conforme o desejado.
Inspecionemos o significado de pµ para esclarecer de que modo as noções de momento e energia de uma
partı́cula são aqui modificadas. No setor espacial, encontramos o vetor cartesiano,
p⃗ = m0 γ(u) ⃗u , (26)
o chamado momento relativı́stico. Este não é o momento newtoniano, mas se insistirmos em encará-lo
como “massa × velocidade” seremos levados a introduzir,
m0
m(u) := γ(u) m0 = p . (27)
1 − u2 /c2
De volta a (22), vejamos agora o que dizer sobre
p0 = m0 γ(u) c .
Eis aqui uma quantidade sem correspondente aparente na mecânica de Newton. Da lei de conservação
(24) esperamos obter (20), no limite apropriado, associada ao componente µ = 0 da lei de conservação
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relativı́stica. Estaria p0 então relacionado à “versão corrigida” da energia cinética? Na dinânica pré-
relativı́stica a energia cinética,
pnewt |2
|⃗
Knewt = ,
2m0
é a quantidade que provém de p⃗newt = m0 ⃗u através do teorema do trabalho/energia cinética. Se admitirmos
que o teorema se mantém, no regime relativı́stico, e nele usarmos o novo momento, (26), encontraremos então
a nova energia cinética. Temos então
Z u Z u Z u
d⃗
p d⃗
p
K= · d⃗r = · d⃗u dt = p · ⃗u .
d⃗
0 dt 0 dt 0
Mas,
p · ⃗u = m0 (dγ ⃗u + γ d⃗u) · ⃗u = m0 dγ u2 + γ⃗u · d⃗u
d⃗ .
Como
1 3
dγ = γ ⃗u · d⃗u ,
c2
a expressão anterior torna-se
!
2 −2
u2
p · ⃗u = m0 dγ u + c γ
d⃗ 2
= m0 c dγ 2
+ γ −2 = m0 c2 dγ .
c2
De volta ao teorema do trabalho
K = m0 c2 (γ − 1) , (28)
que é uma redefinição de energia cinética consistente com a redefinição de momento. De fato, se expandimos
γ em ordem de u2 /c2 resulta que,
!
1 u2 1
K = m0 c2 1− + ... − 1 ≈ m0 u2 + ... ≈ Knewt + ... ,
2 c2 2
conforme o esperado. Os termos omitidos acima podem ser interpretados como correções relativı́sticas à
expressão da energia cinética newtoniana. Se definirmos então a energia relativı́stica da partı́cula
E = m0 γ(u) c2 , (29)
virá que a energia cinética pode ser escrita como
K = E − E0 , (30)
em que
E0 = m0 c2 , (31)
e em conformidade com (28). Assim, o quadrivetor momento, pµ , antes definido em (22), poderá ser
igualmente representado como,
E
µ
p ≡ , p⃗ , (32)
c
estando p⃗ e E definidos em (26) e (29), respectivamente.
O que nos resta é atribuir um significado à chamada energia de repouso, (31), o que nos confronta com
um dos aspectos mais extraordinários da relatividade especial. A nova energia E0 é atribuı́da à partı́cula
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simplesmente “por existir”. Se aceitarmos que há uma equivalência universal entre massa e energia, E0 nos
informa, por exemplo, qual é a quantidade de joules “contidos” em uma quantidade de quilogramas. O c2
em (31) apenas se presta ao ajuste dimensional. Isto fornece a interpretação fı́sica da energia relativı́stica,
E = K + m0 c2 ,
a qual pode agora ser vista como a soma da energia de movimento K mais a energia constitutiva da partı́cula
m0 c2 . Também, em conformidade com (27) e (30), energia cinética relativı́stica pode ser entendida como
medida da variação das propriedades inerciais, em decorrência do movimento, isto é,
K = (m(u) − m0 ) c2 . (33)
É consistente e é belo. Somente a experiência poderia dizer se é efetivamente assim. A fı́sica nuclear foi o
primeiro campo da fı́sica a nos oferecer forte evidência de que sim.
Notemos que é sempre possı́vel desmembrar (24) em suas partes temporal e espacial, em qualquer sistema
de referência, o que leva às leis de conservação concomitantes, da energia relativı́stica,
E1i + E2i = E1f + E2f , (34)
e do momento relativı́stico,
p⃗1i + p⃗2i = p⃗1f + p⃗2f , (35)
neste referencial. Separadamente, porém, cada uma não mais possui uma realidade independente da outra.
A segunda lei de Newton revisitada
Na seção precedente, admitimos a validade do teorema trabalho/energia cinética, na dinâmica rela-
tivı́stica, com a única modificação de que o momento a ser considerado é aquele dado em (26). Qual poderia
ser a expressão exata que generaliza a 2a lei de Newton? Frente à exigência da invariância de Lorentz, esta
relação pode ser entendida como a parte espacial associada à alguma igualdade entre quadrivetores. Nosso
palpite natural é que envolva
dpµ
.
dτ
Desmembrado em seus componentes temporal e espacial, conforme (2) e (32), será,
dpµ 1 dE d⃗
p
≡ γ(u) , , (36)
dτ c dt dt
estando p⃗ e E definidos em (26) e (29), respectivamente. Há aqui um fator γ(u) “sobrando”. Isto não
será problema se admitirmos que uma força externa qualquer f⃗, conforme medida no sistema de referência
de O, conjuntamente com a potência instantânea transferida, a ela associada
P = f⃗ · ⃗u , (37)
formam um quadrivetor f µ , o quadrivetor força-potência, o qual se expressa no sistema de referência
de O pela quadrupla
P ⃗
µ
f ≡ γ(u) ,f . (38)
c
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Deste modo, a generalização relativı́stica da 2a lei de Newton poderia ser,
dpµ
= fµ , (39)
dτ
a qual, é uma relação invariante sob transformação de Lorentz. No sistema de referência de O ela fornece
dE d⃗
p
= P , = f⃗ , (40)
dt dt
conforme a sugestão feita acima. Note-se que, em conformidade com (5), a lei do movimento (39) pode
igualmente ser escrita como,
m0 aµ = f µ , (41)
o que não deixa de ser uma ironia: “massa vezes aceleração é igual à força”.
Aceitemos provisoriamente como fato que (39) representa a versão relativı́stica da 2a lei do movimento.
Sob tansformações de Lorentz terı́amos então que
dpµ dp′ν ∂x′ν dpµ
− fµ =⇒ − f ′ν = − fµ . (42)
dτ dτ ′ ∂xµ dτ
Se a quantidade entre parênteses é nula no sistema de referência de O é nula em qualquer outro, atendendo
à invariância de Lorentz.
Qual motivação temos para admitir a existência de quadrivetores força-potência, f µ , conforme definido
em (38)? Devemos considerar a origem de f µ , a qual provém de alguma ação externa à partı́cula, um
campo externo. Como será visto, a interação eletromagnética fornecerá a motivação de que precisamos.
Lagrangeano de partı́cula na relatividade especial
Se pretendemos definir um lagrangeano o qual gera a dinâmica relativı́stica pela extremização da ação,
isto é, pelo Princı́pio variacional, esta deve ser definida como,
!1/2
u2
Z Z
S = −m0 c 2
1− 2 dt = −m0 c 2
γ −1 (u) dt , (43)
c
à qual corresponde ao lagrangiano,
!1/2
2 u2
L = L(ẋ, ẏ, ż) = −m0 c 1− 2 , (44)
c
em que,
u2 = ẋ2 + ẏ 2 + ż 2 ,
sendo ẋ = dx/dt, etc. O momento canônico associado é o momento relativı́stico,
∂L m0 ẋ
= p = m0 γ(u) ẋ = px ,
∂ ẋ 1 − u2 /c2
e analogamente,
∂L ∂L
= m0 γ(u)ẏ = px , = m0 γ(u)ẏ = pz .
∂ ẏ ∂ ẏ
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Assim definido, também fornece o lagrangeano pré-relativı́stico no limite de baixas velocidades,
!
1 u2 1
lim L ≈ −m0 c2 1− + ... ≈ −m0 c2 + m0 u2 ,
u<<c 2 c2 2
sendo que o termo constante m0 c2 não contribui para a dinâmica.
Outra virtude desta ação é que, embora não explicitado em (43), é invariante de Lorentz. Com efeito,
!1/2
u2
Z Z 1/2
2
S = −m0 c 1− 2 dt = −m0 c c2 dt2 − dx2 − dy 2 − dz 2 ,
c
ou, Z
S = −m0 c ds . (45)
É, portanto, independente do parâmetro escolhido para caracterizar a evolução do sistema. Parametrizada
em um λ, genérico, resulta que,
1/2
dxµ dxν
Z
S = − m0 c ηµν dλ ,
dλ dλ
cujo lagrangiano associado é,
1/2
dxµ dxµ dxν
L=L = −m0 c ηµν . (46)
dλ dλ dλ
Pelo Princı́pio variacional resulta então que a dinâmica da partı́cula será dada pela equação de Euler-
Lagrange, na forma
d ∂L ∂L
ρ
− ρ = 0, (47)
dλ ∂ ẋ ∂x
em que ẋρ = dxρ /dλ. A parametrização no tempo coordenado t é um exemplo disso. Se tomarmos
o tempo próprio da partı́cula, τ , devemos primeiramente aplicar as equações de Euler-Lagrange, e então
fazê-lo igual à τ . Se, de partida, parametrizamos o lagrangiano em τ não resultará dinâmica alguma, pois
(46) é “normalizado” à −m0 c2 .
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