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FEVEREIRO DE 1877.
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PUBLICAÇÃO ILLUSTRADA
RECREATIVA, ARTÍSTICA, ETC.
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III 0 m JANEIRO
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PARIS, E. BELHATTE
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Í.
A NOVENA DA CANDIvLAKIA
CONTINUAÇÃO,
ii.
Já deixei dito que a estranha illusão que enchia toda minha vida, que
absorvia todos os meus pensamentos, desde a noite da Candelária, tor-
nára-se para mim equivalente ás verdades mais positivas. O resultado de
minhas investigações dera-lhe uma extrema verisimilhança. 0 inespe-
rado concurso dos projectos de meu pae com a época e as circumstan-
cias do meu sonho fazia-o sahir da classe dos sonhos ordinários. Já não
era um sonho ; era uma revelação :• o próprio Deus, tocado da submissão
de minhas preces, me escolhera a esposa que eu ia procurar. Esta idéa
augmentava minha felicidade com toda a segurança da qual a felicidade
transitória dos homens tem necessidade para ser realmente alguma
cousa. Disposto por caracter a receber facilmente a impressão do mara-
vilhoso, entreguei-me sem resistência a essa. Os corações que se pare-
cerera com o meu não acharão difíiculdade em me comprehender.
Pela primeira vez eu abraçava o pensamento d'uma felicidade, da qual
nada parecia dever perturbar a quietação ; voava para Gecilia com toda
a confiança, com todo o abandono do meu coração, e, por um singular
acaso que me parecia feito expressamente para mim, o final d'este
brando inverno tinha tomado de repente as graças e ate as^galas da
primavera. As geadas haviam desapparecido da base ao cimo das mon-
tanhas;um ar tepido e embalsamado circulava atravez da espessura
sempre verde dos pinheiros; os renovos precoces da outras arvores
começavam a colorir-se d'esses matizes d'um vermelho que pintam os
botões apressados em desabrochar; e pequenas flores, desconhecidas da
estação, esmaltavam o musgo com uma semente de pérolas. Entretanto
estávamos apenas no fim de Janeiro, e fiquei possuído d'uma estranha
surpreza quando notei que o dia do casamento de Clara era precisamente
o dia da Candelária. Cheguei a tempo para assistir á celebração: uma
alegria modesta e religiosa, sem mistura de nenhuma inquietação, enchia
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 39
um contenta-
todos os espíritos; a physionomia dos esposos exprimia
0 moço era
mento perfeito, mas celeste, pois era calmo e recolhido.
de sorte que
bello, cheio de ternura e de cortezia, e não obstante serio,
tomal-o menos pelo feliz noivo da véspera do que por um anjo
poderiam
d'uma christã.
enviado, como testemunha, pelo Senhor, ao casamento
a ceremonia acabou, approximei-me» de minha prima, e disse-
Quando
levando suas mãos aos meus lábios : — Apraz-me crer,
lhe baixinho,
no serão da
minha amiga, que é este o esposo que te foi annunciado
com um olhar
Candelária. — Clara levantou os olhos para mim corando,
dizer : - Como sabeis isto? — e depois me respondeu aper-
que parecia — Oh! não, sem
tando a mão . — « Eu não teria esposado outro. »
ella sabia que este destino de sua vida, era
duvida, pois perfeitamente
Deus quem o tinha feito. Senti-me agitado por uma commoçãodeliciosa
me estava
e impossível de descrever-se, pensando que igual felicidade
proraettida. no bosque
Emquanto as festas do [Link] Clara me retinham
havia
d'Arcey um pouco mais do que eu quizera, meu excellente pae
ao coronel Savernier do minha visita, da quei este, curioso de
prevenido
Cecilia. Quando
me conhecer primeiro, não julgara a propósito advertir
minha carta ao coronel, elle contentou-se de lançar-lhe um
apresentei
a mim com os braços abertos: - Não pre-
olhar e um sorriso, e vindo
com terna cordialidade, informar-me do teu nome : tu te
ciso, me disse
eom o amigo de minha mocidade, que julgo vel-o
pareces por tal forma
todas as manhãs nos reuníamos. És somente um pouco
ainda quando
bem vindo, meu rapaz, como um amigo, como um filho, se
maior. Sejas
chegar a se fazer comprehender, como espero, pelo de
o teu coração
agora, e repousa, emquanto leio a carta
minha Cecilia. Assenta-te pois
de teu pae e te considero mais á vontade.
acolhimento fez vir ás minhas palpebras algumas
A doçura d'este
reprimir lançando minha vista pelo interior
tema, lagrimas, que procurei
: um chapéu de guarnecido d'uma titã azul celeste,
do aposento palha,
: era o de Cecilia. Uma harpa estava co -
estava pendurada a um prego
ângulos da sala ; era a harpa de Cecília. Uma bolsa de
locada num dos imme-
sido deixada negligentemente numa poltrona
malhas de aço tinha
eu via distinetamente a cifra que me havia im-
diata a minha, e nella -h
era a cifra do nome de Cecdia...
pressionado na noite da visão; não me vera ainda,
Cecilia!... Essa idéa, que
entretanto, se não fos* de terror. Eu
ao meu espirito e me gelou
surprehendeu de repente
da maneira mais sagrada, mais irrevogável, pelo*
me achava obrigado
40 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
apressado . meu p.e, pelo modo d. V^<*>^°
Z* ,ue .inha a talvez senão
não conseguir
Sr. Savernier, e minha cega precipitação Mortal ai -
me 16» prometüda
me aparar p ra sempre da esposa que
m .epaidi . um retralo
aM=tei íonfet
frio percorreu-me os membros, quando todas as m nha
de chamei
de moça toucada com um chapéu palha;
i elle, de que a falta de habilidade
forcas para mrig
torças dirigir-me , persuadido dissimular
nao ctie0arid „DtrifipaHn inteiramente
mesmo d'um pintor de aldeia
Chegue, fique V«f^f Ae
traços tão bem gravados em meu coração.
sobre minha cabeça, não me teria fulminado
desespero; um raio, cabido cuja pby-
retrato d'uma mulher encantadora,
mais cruelmente. Era o
com a de minha Gecha imaginaria.
sionomia tinha alguma parecença
Não era ella. ,*-««_«. nac
dobravam-se já, quando o braço do Sr. Saveimei pas-
Minhas pernas
corpo, me sosteve. - Ah 1 me disse elle enxu-
sado ao redor de meu
tu não a verás mais! é Lidy, minha bella e meiga
gando uma lagrima,
da nossa Cecília! Oxalá que nunca experimentes como eu
Lidy! 6 a mãe
arhorrivel dôr de sobre-viver ao que tu amas!...
,„ *> „ L„ CAKLOS N0D1ER.
(Continuar-se-ha.)
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SEM OLHOS.
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linda como o senhor a vio ahi. Elle era sábio, taciturno e ciumento. Ha-
— que o ciúme d'elle
via nella tanta modéstia erecato, —talvez medo,
não era assim; o marido era
podia dormir com as portas abertas. Mas
cauteloso e suspeitoso; ameaçava-a e fazia-a padecer. Eu percebi isso, e
a compaixão apoderou-se de mim. A compaixão é um sentimento per-
fido; abstenha-se d'elle ou combata-o. Quem sabe se a que sente agora
por mim nao lhe dará máo resultado?
Estremeci ouvindo esta ultima palavra. Elle parou um instante e con-
tinuou :
— Lucinda nâo me olhava nunca. Era medo, era talvez uma intimáção
do marido. Se me faliava alguma vez era seccamente e por monosyllabos.
Meu coração deixou-se ir da compaixão ao amor pelo mais natural dos
declives, amor silencioso, canto, sem esperança nem repercussão. Um
dia, em que a vi mais triste que de costume, atrevi-me a perguntar-lhe
se padecia. Não sei que tom havia em minha voz, o certo é que Lucinda
estremeceu, e levantou os olhos para mim. Cruzaram-se com os meus",
mas disseram n'esse unico minuto, — que digo ? n'esse unico instante,
toda a devastação de nossas almas; co rando, ella abaixou os seus, gesto
de modéstia, que era a confirmação de seu crime; eu deixei-me estar a
contemplal-a silenciosamente. No meio d'essa somnolencia moral em
chamou á realidade da vida.
que nos achávamos, uma voz àtrõoú e nos
Ao mesmo tempo achou-se defronte cie nós a figura do marido. Nunca,
vi mais terrível expressão em rosto humano! A cólera fazia d*elle uma
Meduza. Lucinda cahio prostrada e sem sentidos. Eu, confuso, não me
atrevia a explicar nem a pedir explicação. Elle olhou para mim e para
ella. Succedera á primeira manifestação silenciosa da cólera uma cousa
mais apagada e mais terrível, uma resolução fria e quieta. Com um gesto
despedio-me; quiz fallar, elle impoz-me silencio com os olhos. Quasi a
sahir, voltei, e, apesar da opposição, expuz-lhe toda a singularidade de
seu procedimento. Ouvio-me calado. Vendo que nada alcançava e não
que sobre a infeliz pairasse a menor suspoita nem que ella pa-
querendo
decesse sem outro motivo mais grave, expuz-lhe francamente os meus
sentimentos em relação a elle e a ella, a affeiçSo que Lucinda me inspi-
rara, protestando com todas as forças pjla inteira dignidade da infeliz.
Rio-se, e não me disse nada. Despedi-me e sahi...
Estas recordações pareciam abater o enfermo. A voz, ao chegar aquella
cobrindo os olhos
palavra, era fraca e rouca; elle fez uma longa pausa,
com as mãos ouças e transparentes. Alguns minutos depois continuou :
— Passáram-se algumas semanas. Um dia, levado por necessidades de
DAS FAMÍLIAS. .
46 JORNAL
« H** '^^Zlm
officio, lui a Gerumuabo, pousando me
havia morrido; e a pessoa que
nkum successo desagradável. Lucinda
a tadagando m.,s, ou dc
formular pergunta, ^» ^
desaparecera; emí m alguns»°
suicidio, de outros que de [Link] eram
da morte. Esta diversidade
apenas doente e asás portas
anenas ou ^^ do>
claro ndicio de que alguma cousa ^iavu P
resoluto a saber tudo e a salva, a vida
Fu! tef á. propriedade do marido,
da innocente, se fosse possível...
tempo a narração ou guardasse o fim pa a
lhe aue suspendesse por algum [Link].. Ao
me pia.™
ir e ü e, apesar d. [Link] ,uc me referia aquellas
a lucidez com que elle
me L tempo dmirava perfeita vago e desalinhado da
da nada tinha do
2Z a—ção palavra, que
aquelle mesmo o homem que me consultara acerca
X; dos loucos. Era
uma »,oria nova aooro. da lua , Em ,»»¦, cm
£«: me expuser, no leito, como
duvida, Damasceno agitava-se
meu espirito resolvia esta accend, outra e
A vela estava a extinguir-se,
buscando melhor commodo. a quem escrevera.
criado e os dois amigos
Ma é á jauella ancioso pelo de um ou outro
apenas ao longe se ouvia o passo
A rua estava deserta;
ao Damasceno estava então sentado na cama,
transeante. Voltei quarto.
um pouco rcclinado sobre os travesseiros. 6 pouco, mas
_ Não tenha medo, disse elle, venha ouvir o resto, que
ter com o medico. Logo que soube que eu o procurara
instruetivo Fui
contente. Disse-lhe francamente o (pie ouvira dizer a res-
veio receber-me
as opiniões e versões differentes, a necessidade que bav.a
peito da mulher
o da verdado c retirar de sobre elle alguma suspeita,
de instruir povo
calado. Luga acabei, disse-me que eu fizera bem
terrível. Ouvio-me que
Lucinda estava viva, mas podia morrer no dia seguinte;
em ir vel-o; que
depois de cogitar na punição que daria ao olhar da moça resolvera
que
simplesmente os olhos... Não entendi nada; tinha as pernas
castigar-lhe
coração batia-me apressado. Não o acompanharia de certo,
tremulas e o
o com a mão de ferro me não arrastasse ale-,
se elle apertando-me pulso
Alli chegando... vi... ob ! 6 horrível! vi, sobre uma
uma sala interior...
o corpo immovel de Lucinda, que gemia de modo a cortar o coração.
cama
disse elle, — só lhe castiguei os olhos. » O espectaculo que se me
Vê,
então,' nunca, oh I nunca mais o esquecerei! Os olhos da pobre
revelou
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 47
moça tinham desapparecido; elle os vasára, na véspera com um ferro em
braza... Recuei espavorido. 0 medica apertou-me os pulsos clamando
com toda a raiva concentrada em seu coração : et Os olhos delinquiram, os
olhos pagaram! »
A cabeça do enfermo rolou sobre os travesseiros, em quanto eu, atter-
rado do que ouvia e d.i expressão de sincero horror e apparente veraci-
dnde com que elle lallava, olhei em volta de mim como procurando fugir.
Damasceno ficou longo tempo arquejante.
De repente, dando um estremeção ergueu a cabeça e olhou para a
parede
que ficava do lado inferior da cama :
— Vai-te! exclamou elle afflicto; vai-te! ainda nao !... Olhe !... Olhe!
lá está ella! lá está!... 0 dedo magro e tremulo apontava alguma cousa
no ar, em quanto os olhos mortalmente fixos, resumiam todo o terror
que ó possivel conter a alma humana. Insensivelmente olhei para o lugar
que elle indicava... Olhei; e podem crer que ainda hoje não esqueci do
que alli se passou. De pé, junto á parede, vi uma mulher livida, a mesma
do retrato com os cabellos soltos, e os olhos!... Os olhos esses eram duas
cavidades vazias e ensangüentadas.
Naquella meia luz da alcova, e no alto de uma casa sem gente, a seme-
Hum te hora, entre um louco e uma estranha appariçao, confesso
que senti
esvai rem-se-me as forças c quasi a razão. Batia-me o queixo,' as
pernas
tremiam-me tanto eu ficava gelado e atônito. Não sei o que se
passou
mais ; nao posso dizer sequer que tempo durou aquillo, porque os olhos
se me apagaram também, e perdi de todo os sentidos.
Quando dei accordo de mim; estava no meu quarto, deitado tendo a
meu lado os dois amigos que mandara chamar. Ambos procuraram des-
viar-me do espirito a lembrança do que se passara no quarto de Damas-
ceno; precaução ociosa, porque nada me lembrava então e o abalo fora
tamanho que o passado como que desappareça. Passei uma noite cruel,
entre a agitação e o abatimento. Sobre a madrugada dormi.
Accordei com sol alto. Pude então recordar a scena da véspera, e só a
recordação me fazia üritar e gelar a alma. Quiz ir ver o doente porque a
pesar dos suecessos anteriores interessava-me o pobre velho condenmado
a uma triste visão perpetua.
— É tarde! disseram me.
—- Porque?
~~ O doente morreu.
Senti que uma gota me brotava dos olhos; foi a única lagrima
que elle
obteve dos homens.
48 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
Meus collegas referiram-me que a morte succedera ao romper da manhã
estando presente um d'elles e o criado. Damasceno morreu a fallar das
mais encontradas cousas, de guerras, de meteoros e de S. Thomaz de
Aquino. Seu ultimo gesto foi para abraçar o sol, que dizia estar deante
d'elle. Morreu emfim ou antes restituio-se á eternidade segundo a cxpres-
sao do meu collega a cujos olhos o doente parecera esqueleto que visitara
por algum tempo a terra.
Não pude assistir ao enterro; estava abatido, e doente ; mas um dos
meus amigos foi ató o cemitério. Com um d'elles fui dormir aquella e as
noites seguintes, não podendo passal-as debaixo de mesmo tecto em que
se dera a terrível apparição. A justiça arrecadou o que pertencia a Da-
masceno Rodrigues; elle vivia do aluguel de duas casinhas e de algumas
apólices, que se lhe encontraram. Não tinha herdeiros.
Só muitos dias depois atrevi-me a ver de novo o retrato de mulher que
elle me dera. Ainda assim não foi sem terror, e arrependi-me de o ter
feito, porque toda a scena se me reproduziu logo ante os olhos. Era mira-
culosamente bella a martyr de Geromoabo ; eu comprehendia» não só a
loucura de Damasceno, mas também a ferocidade do esposo*
0 desembargador fez pausa, no meio do geral silencio de constrangi-
mento que sua narração produzira. Vasconcellos foi o primeiro que fal-
lou :
Não podemos duvidar
que o senhor visse a figura d'es*a mulher,
disse elle; mas como explicar o phenomeno ?
A difficuldade é maior do
que pensa, acudio, o desembargador. 0
episódio teve um epilogo.
Ah!
Quando referi a apparição a algumas
pessoas, ninguém me deu
credito ; e os mais polidos attribuiam o caso a ura
pesadelo. Evitei expor
me á incredulidade e ao ridiculo. Mais tarde, jásenhorde mira, determinei
contar a catastrophe de Damasceno em um jornal que escrevíamos na Aca-
demia. Tratando de colher alguma cousa mais acerca do infeliz, vim a
saber, com grande surpreza minha, que elle nunca estivera na Bahia,
nem sahirá do sul. Já então não era só o interesse luterano
que me ins-
pirava; era a liquidação de un ponto obscuro e a explicação de um phe-
nomeno. Casara aos vinte e dois an nos em Santa Catharina, - donde só
sahio aos trinta e tres, não podendo, portanto, encontrar-se com o origi-
nal do retrato, aos vinte e cinco, solteiro, em Geromoabo íinalmente, a
;
miniatura que me confiara era simplesmente o retrato de uma sobrinha
sua, morta solteira. Não havia duvida ; o episódio
que elle me referira era
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 49
uma illusâo como a da lua, uma pura illusão dos sentidos uma simples in-
venção de alienado.
Mas, sendo assim...
Sendo assim, como vi eu a mulher sem olhos? Esla foi a pergunta
que fiz a mim mesmo. Que a vi, é certo, tão claramente como os estou
vendo agora. Os mestres da scieneia, os observadores da natureza humana
lheexplicarâo isso. Gomo é que Pascal via mn abysmo ao pé de si? Gomo é
que Bruto vio uni dia a sombra de seu máo genio?
O seu caso é talvez mais simples que esses todos; o desvario do
doente foi contagioso, e fezcom queo senhor visse o que ellesuppunha ver.
Pois é pena! exclamou o desembargador; a historia de Lucinda
era melhor que fosse verdadeira. Que outro rival Othello ha ali com esse
marido que queimou com um ferro em braza os mais bellos olhos do
mundo, em castigo de haverem fitado outros olhos estranhos? Crê agora
*s em fantasmas, D. Maria do Góo ?
Maria do Céo tinha seus olhos baixos. Quando o desembargador lhe di-
rigio a palavra, estremeceu, ergueu-se, e a junto e de corrida se enca-
miuhou para o bacharel Antunes. 0 bacharel fez o mesmo; mas foi dalli a
uma janella, — talvez tomar ar, — talvez reflectir a tempo no risco de
vira interpretar algum dia um hebraismo dasEscripturas.
MACÚÁUO m ASSIS.
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VARIEDADES.
ALLÜSÓES HISTÓRICAS.
sempre
Cremos prestar um serviço ás nossas leitoras, dando-lhes aqui,
nos for a explicação de certas allusõcs históricas ou de
que possível,
factos pas-
certas palavras commummente usadas, cuja origem se prende a
sados. Abrindo pois esta nova secção no Jornal das Famílias, esperamos
será esse acto considerado como mais uma prova do zelo que a
que
redacção emprega era ser útil e agradável aos seus assignantes.
JSÓ GORDIO.
LEITO DE PHOCUSTO.
FÉ DK CARVOEIRO,
. Entende-se por essas palavras uma fé simples e ingênua que crê sem
exame. A origem d'essa locução acha-se no conto seguinte. O diabo,
disfarçado em eremita, ou em doutor de Sorbona, não está bem averi-
e lhe perguntou para
guado, entrou um dia na choupana d'um carvoeiro
0 tentar : — « Em quecrôs-tu? » — Creio o que cre a santa madre
egreja. -«En que crê a santa madre egreja? — Crê o que eu creio. »
— O nosso homem limitou-se a essas respostas, sem querer sahir d'ellas,
dc sorte que o espirito maligno vio mallograrcm-se todos os seus artiíi-
cios. Já houve porem quem julgasse esse diabo um tanto simplório, pois
bem podia atrapalhar o carvoeiro perguntando : « Mas o que crôdes-tu
o a santa madre egreja ? »
FORCAS CAIIDINAS.
A TÚNICA DE NESSOS.
D'ahi vem chamar-se presente grego a todo aquelle que é dado com má
intenção, ou produz funestos resultados»
A ESPADA DE DAMOCLES.
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MOSAICO.
ANECDOTAS.
Uma aberração do espirito humano faz crer aos quietistas que ganham
o ceu com a immobilidade; por isso um soldado da companhia deZur-
Lauben que era quietista, mas que ninguém sabia , foi um dia encarre-
gado de cozinhar o rancho para a sua companhia que tinha ido desta-
cada.
Os camaradas estando de volta e com a fome aguçada pela fadiga
forão solicitos em perguntar se o jantar estava prompto; mas qual não
foi a sua surpreza vendo o devoto soldado de pé e pensativo diante da
panella emborcada.
Sacodiram-no energicamente perguntando-lhe em altas vozes pelo
jantar ?
— 0 jantar? respondeu elle solemnemente, o
grande espirito ordenou-
me que derribasse a panella.
Então um dos camaradas, menos soffredor do que os outros , lançou-
se sobre o quietista dizendo-lhe que cada um tinha seu espirito, e que
como estava com muita fome o seu ordenava-lhe que o espancasse.
Toda a companhia lançou-se igualmente a elle, e tel-o-hiâo morto,
sem duvida, se o capitão não viesse tirar-lh'o das mãos.
deram aos Suissos bastaria para calçar uma estrada que fosse de Paris á
Basilea.
— Senhor, disse o coronel, é possivel, mas si se juntasse todo o san-
gue que meus patrícios derramaram no serviço de V. M. e dos reis seus
predecessores, poder-se-hia formar um canal que iria de Basilea a Paris.
0 conde X... entrando em sua casa entre meia noite e uma hora per-
guntou a seu criado que horas eram.
— Não é hora nenhuma, senhor, respondeu-lhe o ingênuo criado,
porque o ponteiro está entre meia noite e uma hora.
Um medico vendo que um de seus doentes soffria dos olhos por entre-
de abster-se d'esse vicio
gar-se demasiadamente á bebida aconselhava-lhe
sem o que havia de perder infallivelmente a vista.
— 0 doente nao podendo resignar-se a tão grande sacrifício, respon-
deu-lhe : Pois senhor Doutor, prefiro perder as janellas do que deixar
estragar a casa.
56 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
Um filho de familia insubordinado costumava recolher-se tarde o que
além de contristar muito a seus fracos pães contrariava enormemente ao
criado que era obrigado a abrir-lhe a porta.
Certa noite veio ainda mais tarde que do costume e depois de muito
bater ouvio o criado dizer de dentro; meu amo não quer que eu abra
por ser fora de horas.
0 moço vendo a inutilidade de seus rogos tomou o expediente de in-
troduzir uma moeda de dois mil reis por debaixo da porta, que vio abrir
immediatamente pela mágica influencia do dinheiro.
Mal que entrou fingio ter esquecido em cima d'um frade de pedra que
existia próximo á casa um embrulho que trazia e que alli pouzára para
poder bater, o criado sahe para buscal-o e o moço fecha-lhe a porta.
Por sua vez o criado pede que lhe abra.
Meu pae não quer que eu abra por ser fora de hora, disse o moço arre-
medando o que lhe respondera ha pouco.
Mas eu abri de boa vontade, tornou-lhe o criado.
E eu te abrirei pelo mesmo preço retorquio o moço.
0 criado restituio os dois mil reis para não ter de dormir fora e ser des-
pedido no dia seguinte.
Certo individuo, mais notável pelos bens da fortuna que pelos do es-
pirito, achou-se num jantar sentado ao lado d'um homem, grande philo-
sopho a quem a sciencia devia muitas descobertas. Notando era seu visinho
grande e fino tacto na escolha das iguarias exclamou : olá os philoso-
phos também gostam dos bons bocados?
E porque não? lhe tornou este, pensais que as golodices são feitas só
para os tolos? 1
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AS ANDORINHAS.
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MODAS.
TlUBALHOS.
E TRABALHOS.
EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE BORDADOS
RECTO.
VEUSO.
de
N" I. - Almofada de filet bordado, posta sobre um transparente
setim azul, côr dc cereja ou verde, e orlado com 5 ülciras de pérolas. ^
dimensões.
N° II. — Tira de tapeçaria e pérolas ou de pérolas dc duas
e dou-
O nosso modelo é executado com grandes e pequenas pérolas pretas
da mesma
radas sobre uraa fita azul marinha, guarnecida com um íranjado
côr. ,
brancos, cm-
No hi. _ Tira pequena de tapeçaria. Os pretos, preto; os
o
zenlos; as oruzinhas, encarnado escuro; os pontinhos, azul escuro; pardo,
côr de folha morta. .
os cinzentos,
N° IV —Debiuio dfum [ando para tapete, os pretos, preto; ospon-
encarnado escuro; as cruzes encarnado vivo; os brancos, azul claro;
tinhos, htwane. , __ .
de tapeçaria
N09 V VI e VII. - Desenhos para cordões de campainha
ou por nm de
e pérolas ou de pontos grandes ou pequenos de tapeçaria
tapeçaria orlada com galão. . etc. '.ores
N« VIII. — fira grande de tapeçaria para poltronas, cadeiras,
irmanadas com a almofada n° 6 do recto.
N° IX, — Cercadura de tapeçaria ou de íiiet.
cora abertos, o*
N° X. - Fundo de cortina de Me. bordado. O fundo sempre mais
brancos de serzido apertado, as cruzes e os pontos de serz-do
tapeie.
transparentes. Este bonito desenho se faz tambem de tapeçaria para
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
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debuxo de +ppc:
ti es matizes da mesma côr sobre-
matizes
Fundo conforme o gosto;
sahindo bem sobre o fundo. r+*ru\o* Grandes ep neaucnas
pequenas pepérolas
N» XI. - Larnbrequim para tabernaenlo
e douradas. Franja pequena de fios de ouro
brancas, azueis azu
de tapeçaria. Os pretos preto^o
N» XII - Larnbrequim escuro; ^rajeos,
os pontos, cô.
azul escuro; os pardos, encarnado
claro; as cruzes,
acabar na superior d'esle larnbrequim pela tira „• IU da
aderia-se parte
m^axnfemXiV.
- Desenhos reguíares de tapeçaria para chinella, tapeies
de fantasia.
pequenos, etc. Gores
NAZARETH.
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XV Anno -Tevereirol877
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ÍXTRACTO DOS CATÁLOGOS DA LIVRARIA B. L. [Link]. RUA DO OUVIDOR, 6S
<J* .'01,; «le Macedo, Flores entre espinhos, | Sonhos d*orno, romance bra*
O Forasteiro , romance, 1 v. in-8" ene. . ...» £$000 | [Link]. 2 v. in-80 ene.
3 v. i%-§? ene' 7 $000, br. 5$QÜ0 Machaiííi de Assis, 6KOQ0. br.. 4 #000
Os Quatro Pontos Car- Contos FeEmíünenses;, eon-
DKÃE8.— A. Mysteriosa, tendo : Miss Doüar, Luiz Diva, perfil dc mulher, 2a
romances. í v. ene. 3$000> Soares, A mulher de preto, edição. í v. eím. , , , . 3Ã000
br. ,...,...'... £§506 0'segredo de Augusta,-Con- LtEClOLAj /.'t'//í7 í/e rnitlfièr,
Um noivo a duas noivas, bskôeS dc uma viuva moca* y ediruo. l^[Link]. , . . 3^000
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romance., 8 V. in-S0, eus. Frei Simão, Linha recta e
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A Namouadeirà» romance. ResürRkíÇAO. romance. I r. Historia para oente ale-
3 v. ene. 8JJ00O, biv. . C$000 in-B0 ene. 3^000, br, , . 2|00O ciu-a 2 v. iú-80 ene. 5K00O
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romance, histórico, 2 v. cana. Hemtniseencias do ene. 3j}000, br. ."..-. 2 §000
ene. 5$O00, br ||0flô feliz tempo escolar, t. v. Contos sem PretençaO : A
¦ ALeneta MÁGICA, romance M-ÍÍj ene. t|0OO, br.. . 1^000 Alma do outro Mundo, o
2 v. 111-8*, ene 5$00Ô. br; 4#000 ÜM PROATNCiANO ladino, — Ultimo Concerto, o lío~
AS YlCTlMAS ALGOZES, qua- Ondkse encontra a ver- mem e o Cão, 1 v..,m-S*ènc,
dros da escravid&o, 2 v, DADtÜRA [•KLlCIOADRii V, ÍÍ^OOO, br. . i\ ... 28000
ene. 7$O00, br, .... 5g0Q0 íã-12 ene. 1^600, br.. . Í|0O^ Carlos Gomes, períii bk>«
A CAÇ[Link] BARONATO.-»» l#00O
A MorRniniia. 1 v, còm es-
A HERANÇA ESPERADA B ^aphíco. í v. m-40* bri.
tampas, ene, .... 3$000 FlLAGRANAS. 1 V. ÍR-8°, eÜC
A Nebulosa, 1 v. ene. . 3$50Q iNESPÊRADA; i V. ene. 3|fÒ00, br. .......
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CüLTO DO. Dkver. í v. eftc. âjtOOO A. Belot,
Memórias db em sobrinho OM CASAMENTO OE TIRAR O
CRAPKO, seguido dc : O A MiJLiiRR de Foco, 2 v.
oe MEÇ T|0. 2 v. ene. * 5$QQ0
in-12, ene $$000, br., . $000
Moço Louro. 2 v. (mu*. . 53000 Diu bo nao é tão feio como
se pinta, Charadas da cam- [Link]. 2 v. ene,
Os Does Amores. 2 v. ene. 5$Ü00 3$000,br. . . . . . . . 2Ã00
KoMANCES OA SEMANA, t V, panha, Uma viagem ao sol
ene, ......... 3S000 do Brazil. í v, m-12 ene. üdmoitd - About.
Bosa, 2 v. ene. ..... 5$0Ô0 IjffíOOj br.. • . . . • • jgooo 0 NARIZ DR ÜM TARKLLIaO. í- ..-¦¦
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