O jovem Akihiro era como um riacho de montanha—ágil, puro e cheio de uma energia contida.
Seus
olhos, da cor do âmbar, refletiam uma sede insaciável por conhecimento. No pátio de treino do Corpo de
Caçadores, sob a luz filtrada das cerejeiras, ele primeiro chamou a atenção de Michikatsu Tsugikuni, o
Hashira da Lua.
Michikatsu, com sua presença imponente e uma melancolia que parecia uma névoa ao seu redor, viu no
garoto não apenas talento bruto, mas um espelho de sua própria busca pela perfeição. Tomou Akihiro
como seu discípulo pessoal. Sob sua tutela rigorosa, Akihiro aprendeu a Respiração da Lua. Seus
movimentos tornaram-se uma dança de lâminas prateadas, graciosas e mortais como a luz lunar
refletida em um lago gélido. Ele aprendia a canalizar a frieza, a precisão e a beleza trágica que seu
mestre personificava.
Mas o destino tece seus fios de formas misteriosas. Num dia em que treinava sozinho numa clareira,
Akihiro executava uma forma particularmente complexa da Lua, criando múltiplos arcos prateados no ar.
Uma voz, serena como a superfície de um poço profundo, ecoou na clareira:
"Tua lâmina busca a perfeição, mas sua base é como a areia movediça."
Era Yoriichi Tsugikuni. O próprio Progenitor. Seus olhos translúcidos, que pareciam enxergar a própria
alma do mundo, fitaram Akihiro sem julgamento, apenas com uma verdade absoluta. Yoriichi, sentindo o
eco distante de seu próprio sangue naquele jovem, viu o potencial que nem mesmo Michikatsu havia
percebido completamente. Sem desrespeitar o irmão, começou a instruir Akihiro nos fundamentos da
Respiração do Sol.
Era um ensino secreto, silencioso. Enquanto a Lua de Michikatsu lhe ensinava a forma, o Sol de Yoriichi
lhe ensinava a essência. A respiração que aquecia seu corpo desde dentro, o fluxo de poder que não
vinha da técnica, mas da vida.
Akihiro tornou-se uma ponte tensa entre dois cosmos. Durante o dia, ele refinava a frieza letal da Lua
com Michikatsu. À noite, ou nos raros momentos de solitude, ele tentava capturar o calor primordial do
Sol com Yoriichi. Ele vivia num equilíbrio precário, um segredo ardente no peito, dividido entre a
lealdade ao mestre que o acolhera e a reverência pelo deus que o inspirava.
A tensão no espírito de Akihiro crescia como uma tempestade que se alimenta de seu próprio centro. A
Respiração da Lua, ensinada por seu mestre Michikatsu, era ordem, geometria e uma beleza fria como o
gelo sob as estrelas. A Respiração do Sol, cujos fundamentos lhe foram sussurrados por Yoriichi, era
poder bruto, o fogo primordial da criação. Contudo, no íntimo de sua alma, ele sentia que ambas, em
sua pureza absoluta, eram incompletas. A Lua era demasiado rígida; o Sol, demasiado indomável. E
assim, nasceu nele uma inquietação que se tornou questionamento: e se o caminho não fosse a escolha,
mas a síntese?
A revelação chegou não como um estrondo, mas como o romper do dia após uma longa noite. Enquanto
meditava num penhasco elevado, seu olhar perdido no disco prateado da lua cheia, sua própria essência
recordou o calor do sol. E então, concebeu não a luz ou a sombra, mas o momento em que ambas se
fundem e anulam: o Eclipse. O instante de silêncio cósmico onde os opostos se encontram e dão origem
a um terceiro estado, terrível e glorioso.
Uma nova força, até então adormecida no mais profundo de seu ser, despertou. Não era o calor do sol,
mas um calor profundo e estável, vindo das entranhas da terra. Sua lâmina, Yoake, pareceu ganhar vida
em sua mão. Erguendo-se, seu corpo moveu-se não por vontade consciente, mas por pura intuição.
Já não era a dança da Lua, nem o ímpeto do Sol. Era algo outro. Seus pés traçavam círculos perfeitos no
chão, símbolo da unidade. Sua lâmina tecia não apenas arcos de luz prateada, mas também riscos de
energia dourada. Fundiu a fluidez ilusória de um com a força aniquiladora do outro. Desse matrimónio
de opostos, forjou a Primeira Forma: Wa - Yūgure no Kōmyō (O Círculo - Clarão do Crepúsculo), um
vortex de lâminas que era, ao mesmo tempo, um escudo impenetrável de luz lunar e uma onda de
expansão solar.
A Respiração do Eclipse nascera. Não era nem dia, nem noite. Era o glorioso e aterrorizante instante do
seu abraço.
O destino concedeu-lhe a oportunidade de provar o valor desta nova arte numa missão de grande
perigo. Um demônio antigo, uma criatura que se alimentava do medo puro, aterrorizava as aldeias junto
a uma grande montanha. Muitos caçadores experientes haviam caído, vencidos pelas ilusões aterradoras
que a besta projetava.
Akihiro enfrentou-a sob um céu pesado. A criatura era um vulto de pesadelos feitos realidade. A
Respiração da Lua, por si só, teria sido ludibriada. A Respiração do Sol, por si só, teria devastado a
montanha sem garantir o golpe final.
Akihiro respirou fundo e entregou-se ao Eclipse.
Movendo-se com a fluidez de um espectro, sua lâmina dissipou as ilusões com a Segunda Forma:
Gesshoku no Mai (Dança do Eclipse), um redemoinho de frieza e luz que desfez as miragens como vento
forte desfaz a névoa. E então, no preciso instante em que a verdadeira forma do demônio se revelou, um
ponto de escuridão pura no centro do caos, Akihiro desferiu a Terceira Forma: Inshi no Gekkō (Clarão da
Lua de Presságio). Não um simples golpe, mas um ataque fulminante que concentrava toda a fúria do Sol
na ponta de sua lâmina, envolvida pela precisão penetrante da Lua. Era um raio de sol negro, um
paradoxo de energias.
O demônio não foi cortado. Foi desfeito, sua essência consumida pela contradição fundamental do
poder que o atingiu, desintegrado em partículas de luz e sombra que se aniquilaram num silêncio
absoluto.
A notícia de sua vitória ressoou por todo o Corpo de Caçadores. Ele não apenas vencera uma ameaça
temível; fizera-o com uma Respiração jamais vista, uma técnica que carregava o eco de ambos os irmãos
lendários.
Perante a assembleia, sob o olhar sereno e profundo do Mestre, Akihiro foi proclamado o Hashira do
Eclipse. Erguido, com o brinco de hanafuda entalhado com a serpente—a nova marca de sua linhagem—
a brilhar em sua orelha, ele permitiu que seu olhar percorresse os presentes. Encontrou a aprovação
silenciosa e plácida de Yoriichi. E então, seus olhos encontraram os de Michikatsu.
E no olhar de seu primeiro e mais dedicado mestre, onde esperava ver o orgulho de um mentor, viu o
gelo de uma inveja antiga e profunda a solidificar-se. A semente da discórdia, há tanto plantada,
germinava por fim. Akihiro alcançara o cume, fundindo os legados inatingíveis dos dois irmãos, mas
naquela altura de glória, sentiu o abismo a abrir-se sob os seus pés. O preço por seu poder singular
revelar-se-ia mais alto e amargo do que jamais poderia ter imaginado.
O gelo no olhar de Michikatsu não se dissipou; antes, aprofundou-se, transformando-se numa geleira
intransponível que se ergueu entre mestre e discípulo. O sucesso de Akihiro não era uma vitória
partilhada, mas um espelho quebrado a reflectir, de forma demasiado clara, o seu próprio fracasso.
Enquanto o jovem Hashira forjara algo novo a partir de ambos os legados, ele, Michikatsu, permanecia
eternamente à sombra do irmão. A Respiração do Eclipse não era uma ponte; era um monumento à sua
própria inadequação.
Akihiro sentiu o afastamento como uma lâmina fria a roçar-lhe o coração. As lições cessaram. A presença
do seu mestre tornou-se um fantasma nos corredores, sempre a afastar-se, sempre envolto num silêncio
que gritava de desdém e mágoa. A admiração que Akihiro nutrira transformou-se num peso de tristeza e
culpa. Tentou abordá-lo, mas foi recebido com uma frieza tão absoluta que o ar à sua volta pareceu
rarear. A luz do seu Eclipse projectava uma sombra longa e solitária.
Foi então que os sussurros começaram. Não dos demónios nas montanhas, mas dos homens nos pátios.
Arrogante, murmuravam alguns Hashiras mais tradicionais. Ele pensa que pode melhorar o legado do
Progenitor? Fundir o Sol e a Lua? É uma blasfémia. A sua técnica, nascida de uma busca por unidade, era
vista como uma afronta à ordem estabelecida. O Corpo de Caçadores, na sua luta desesperada pela
sobrevivência, agarrava-se às tradições como a um rochedo numa tempestade. Akihiro era a
tempestade.
A gota de água foi um conselho de veteranos, homens cujos rostos eram mapas de cicatrizes e desgosto.
"A tua técnica, Akihiro," disseram-lhe, com uma pena que era mais insultuosa que a ira, "causa divisão. O
teu mestre afastou-se. Outros olham para ti com desconfiança. Em tempos de escuridão, a unidade é a
nossa única força. Talvez... talvez devesses pôr de lado este 'Eclipse'."
Pôr de lado. Como se a sua própria respiração, a verdade que cantava no seu sangue, fosse um manto
que se pudesse despir. Naquele momento, Akihiro compreendeu. O Japão, com toda a sua beleza
agonizante e hierarquias rígidas, era para ele uma gaiola. Ele não era apenas um Hashira; era um
forjador, e um forjador precisa de espaço para a sua bigorna, longe de olhos invejosos e mentes
tacanhas.
A decisão não foi tomada com a fúria de um jovem, mas com a resignação solene de um rei que vê o seu
reino definhar. A guerra contra Muzan era um poço sem fundo onde se atiravam vidas, uma batalha de
atrito sem fim. Ele, no entanto, carregava uma semente. Uma semente que não poderia florescer sob as
sombras gêmeas de Yoriichi e do monstro em que Michikatsu se estava a tornar.
Na noite em que partiu, não olhou para trás. A sua bagagem era leve: a sua lâmina, Yoake, os brincos de
hanafuda com a serpente, e a jovem Serpente Fantasma, Hoshi, agora sua companheira silenciosa. Um
pequeno grupo de seguidores leais, aqueles que viam no Eclipse não uma blasfémia, mas uma
esperança, esperava por ele no sopé do caminho. Juntos, dirigiram-se para o porto, para um junco que
os levaria para o desconhecido—para a Coreia.
Enquanto o navio se afastava da costa, Akihiro permaneceu no convés, Hoshi enrolada no seu antebraço.
O ar salgado do mar do Leste encheu-lhe os pulmões, lavando o sabor amargo da desilusão. O Japão, o
berço dos seus deuses e das suas maiores dores, diminuiu até se tornar uma linha escura no horizonte, e
depois, nada.
Ele não partia como um fugitivo. Partia como um pioneiro. Partia para erguer um novo bastião, longe das
memórias e das correntes do passado. O Clã Orochi não nasceria do sangue de um demónio, mas do
sonho de um homem que ousou fundir o Sol e a Lua, e que agora levava esse Eclipse consigo para
semear num novo solo. A sua honra não estava manchada; estava, simplesmente, a ser transplantada.
E no seu peito, a Respiração do Eclipse queimava, não como um segredo a ser escondido, mas como uma
promessa a ser cumprida. O Pilar partira, mas a sua coluna permanecia firme, agora destinada a suster
um novo céu.
A chegada de Akihiro e seus seguidores à Coreia não foi um desembarque pacífico, mas o início de uma
nova guerra. A Península, já em conflito com as invasões japonesas, era um caldeirão de caos. E foi neste
turbilhão que o Clã Orochi forjou a sua lenda, não como invasores, mas como uma lâmina de duplo fios
para os Onis, a aniquilação; para os humanos que se opunham aos seus senhores, o terror.
Sob o comando de Akihiro, agora conhecido como Kageatsu Orochi, o clã ofereceu os seus serviços
únicos aos senhores da guerra japoneses. Eles não eram uma unidade comum; eram uma força de
intervenção de elite. Enquanto os exércitos convencionais se digladiavam em campos abertos, os
guerreiros Orochi moviam-se como sombras.
A Respiração do Eclipse revelou-se devastadoramente eficaz. Contra os Onis que seguiam os exércitos, as
formas básicas eram suficientes. Mas contra os resistentes guerreiros coreanos, que lutavam com fúria
desesperada pelo seu solo, a técnica adaptou-se. A Quarta Forma: Yami no Jūji (Cruz das Trevas) foi
forjada—um ataque rápido em cruz que visava desarmar ou incapacitar múltiplos oponentes humanos
de uma só vez, a luz lunar paralisando os seus sentidos antes do impacto solar os derrubar. Eles
tornaram-se os "Demónios de Yamata '' temidos tanto pelos camponeses coreanos quanto pelos
soldados japoneses comuns.
Em troca do seu serviço implacável, o Clã Orochi recebeu terras e um feudo próprio—um enclave de
poder independente nas montanhas. O castelo foi erguido, não como uma fortaleza aberta, mas como
um ninho escondido, um reflexo da natureza do clã: visível no seu poder, mas obscuro nos seus métodos.
Já no século 17 , Com o recuo das forças japonesas , o Clã Orochi permaneceu. Eles estavam enraizados.
Para sobreviver, tiveram de se integrar. Casaram-se com a nobreza local menor, os yangban, adoptando
sobrenomes coreanos como Lee ou Kim, mas mantendo o nome do clã, Orochi, como um título secreto
de honra.
A Respiração do Eclipse, longe da fonte original e da pressão constante do Corpo de Caçadores, começou
a sua própria evolução. Já não era apenas sobre aniquilar Onis; era sobre sobreviver numa terra
estrangeira, sobre proteger um feudo e manter a ordem. A Quinta Forma: Tsuki no Jashin (Deus Serpente
da Lua) surgiu—um movimento fluido e sinuoso, inspirado no ataque de uma cobra, perfeito para
combates em corredores estreitos ou contra grupos de assassinos humanos em ambientes fechados. As
serpentes mensageiras tornaram-se ainda mais vitais, a rede sanguínea do clã, ligando as suas
propriedades dispersas.
No século 18 o clã consolidou o seu papel como protetores e governantes da sua região. Eles eram os
juízes, os júris e, quando necessário, os carrascos. A sua fama de extermínio de demónios persistiu, mas
agora misturava-se com a política local.
A técnica reflectiu esta dupla natureza. A Sexta Forma: Taiyō no Wa (Círculo do Sol Pacificador) foi
desenvolvida, menos letal e mais focada na defesa e no controlo de multidões. Um poderoso vortex de
lâminas que poderia criar uma barreira intransponível para proteger um oficial importante ou para
conter um motim sem causar mortes desnecessárias. O Eclipse aprendera a moderar a sua fúria, a usar a
luz para cegar e confundir, e a sombra para intimidar e controlar.
No século 19 Com a modernização e a crescente influência ocidental, o poder dos senhores feudais
declinou. O Clã Orochi, no entanto, adaptou-se mais uma vez. Os seus membros ingressaram nas novas
estruturas de poder, tornando-se oficiais militares ou funcionários do governo. A Respiração do Eclipse já
não era ensinada abertamente a todos os guerreiros, mas tornou-se um segredo hereditário, um
artefacto de poder passado apenas para o herdeiro principal e para os guarda-costas mais leais.
A forma final a ser desenvolvida antes do nascimento de Yi Sun foi a Sétima Forma: Kokushoku no
Shin'en (Abismo do Eclipse). Uma técnica de último recurso, onde o utilizador liberta toda a sua energia
de uma vez, criando uma pequena zona de eclipse uma esfera de silêncio e penumbra onde os sentidos
são anulados e a própria matéria parece desintegrar-se. Era um reflexo do desespero crescente do clã,
um sentimento de que o seu mundo, tal como o conheciam, estava a chegar ao fim.
Ao longo dos séculos, a chama do Eclipse nunca se apagou, mas o seu carácter mudou. De uma técnica
de pura aniquilação forjada por um idealista, tornou-se uma ferramenta versátil de poder, sobrevivência
e domínio. O sangue de Yoriichi tornara-se mais ténue, o legado de Akihiro mais terreno. Eles eram
samurais sem um shogun, caçadores sem um Corpo, uma linhagem de poder à deriva na história, à
espera de um herdeiro que pudesse reacender o seu fulgor original ou corrompê-lo para sempre.