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Você

A história narra a jornada de uma jovem que, ao caminhar pela cidade à noite, entra em uma cafeteria onde recebe uma sopa inesperada de um rapaz que parece ser cego. A sopa provoca uma onda de emoções e lembranças, levando-a a refletir sobre sua vida e inseguranças. Ao descobrir que o bilhete deixado pelo rapaz é escrito em Braile, ela se surpreende com a ousadia dele e ri da situação, decidindo que não voltará à cafeteria.

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Você

A história narra a jornada de uma jovem que, ao caminhar pela cidade à noite, entra em uma cafeteria onde recebe uma sopa inesperada de um rapaz que parece ser cego. A sopa provoca uma onda de emoções e lembranças, levando-a a refletir sobre sua vida e inseguranças. Ao descobrir que o bilhete deixado pelo rapaz é escrito em Braile, ela se surpreende com a ousadia dele e ri da situação, decidindo que não voltará à cafeteria.

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A Sopa

Você andava pelas ruas de sua cidade. A escuridão da


noite abraçando seus pensamentos. Quando ela começou
a se sentir tão fazia? Onde o seu brilho foi parar?
A chuva caia mais forte, ensopando a garota. Seu
vestido grudando em sua pele como um sangue suga.
A mulher continuou a caminhar. A cada passo
avançado naqueles tijolos cinzas ela pensava: “Será que
realmente sou merecedora de algo na vida?” Era incrível
como as pessoas falavam de como ela poderia resolver o
vazio dentro de si. Até achava engraçado o quão fácil as
pessoas falavam sobre.
Um gosto amargo pintou seus lábios, fazendo ela os
recolher. Um gosto próprio dela, quase como sangue.
Ela queria sair daquela chuva. O fato de que aquelas
partículas pequenas já estavam piorando seu humor a
irritou.
Uma loja do outro lado da rua estava com suas luzes
acesas. Você achou que fosse um convite para adentrar.
Mas percebeu que aquela loja era a única aberta naquele
horário noturno. Não, não deve ter sido um convite,
apenas uma coincidência.
Ela caminhou mais um pouco, sentindo o peso de cada
passo que dava, ou talvez fosse apenas seu cérebro a
levando aos poucos para o chão. Tão pesado. Doía.
Uma melodia doce tocou quando a mulher adentrou na
loja. Na verdade, descobrira que a loja era uma cafeteria.
O que era interessante pois geralmente cafeterias não
abriam de noite. Não em sua cidade.
Você pensou como seria se se mudasse para outro lugar
onde cafeterias abrissem a noite, será que existia algum
lugar assim? Talvez.
Uma senhora deu boas-vindas para Você, a
encaminhando para um lugar vago.
Enquanto a idosa passava pelas mesas, perguntou que
tipo de parte ela gostaria de se sentar. Você respondeu
que prefira um lugar mais reservado e escondido. A
velhinha acenou com a cabeça, compreendendo o desejo
da mulher.
Você deu uma olhada melhor pelo local, observando
tudo que podia, porém não fazia sentindo prestar atenção
em algo que ela sabia muito bem que logo esqueceria.
Como uma memória borrada. O que a deixada triste.
Odiava o fato que desejava que todos os seus momentos
fossem durados, talvez fosse um castigo dos céus fazê-la
se esquecer tão rápido, como uma fumaça em um recinto
com grandes janelas. Quando ela desejasse abrir as
janelas, a fumaça iria embora.
O quê?
“Com licença senhora. Por algum acaso você é surda?
Não foi esse o lugar que eu pedi.”
A senhora havia a levado para uma mesa perto das
grandes janelas da cafeteria. Em uma parte clara, e nada
reservado.
“Meus pêsames, porém, essa é o único espaço
disponível no momento. Todas as nossas mesas estão
sendo ocupadas.”
O lugar estava vazio.
Você suspirou, estava cansada o bastante e ensopada
o bastante para argumentar. Sentou-se na mesa e quando
se preparou para pedir um café gelado, a senhorinha
apenas virou as costas e andou até uma porta,
desaparecendo.
Ótimo.
Você se encolheu na cadeira macia. Parecia que teria
que esperar a mulher voltar ou outra pessoa com
decência, para atender o seu pedido.
Encanto olhava para o mundo a fora da cafeteria, Você
voltou a se sentir inquieta. Um peso no peito a
carregando para o abismo. Sua mente nebulosa a
pregando peças o tempo inteiro. Ela sabia que nem tudo
que pensa é real, porém, era como se um desejo sombrio
a quisesse que fosse. Não eram boas ideias. Ela tinha
vislumbres de possíveis coisas horríveis que poderia
acontecer com a própria. Porque ela pensava nisso,
mesmo sabendo que não a fazia bem? Era como os
desejos de um homem rico, sempre querendo mais e
mais, caindo em sua própria ignorância e no final,
perdendo tudo em uma partida. Será que esses
pensamentos são como uma partida, que em qualquer
momento que cedesse a eles, perderia tudo?
Um barulhinho a tirou de seus devaneios.
Sopa?
Um rapaz, jovem e alto, com pelo menos aparência de
um homem de 22 anos, tomou toda a vista de Você.
“Não me olhe dessa forma. Prometo que não foi minha
intenção esfriar seus pensamentos quentes.”
“Esfriar meus pensamentos quentes? Quem fala isso
hoje em dia?” Você perguntou, um pouco incomodada
com a estranheza do rapaz.
“Perdão, acho que quis ser descolado. Sua expressão
não era das melhores, pensei em tentar fazê-la sorrir, só
uma vez pelo menos. Minha estranheza deu certo?”
Você fez uma careta de pensativa por alguns segundos,
o fazendo esperar por uma resposta. Finalmente
exclamou:
“Não”
O rosto do rapaz se tomou por decepção e por um
momento, Você achou tê-lo o magoado, não era o
proposito inicial, apenas também queria participar da
brincadeira. Ela não tinha nenhuma habilidade quando o
assunto era expressar seus sentimentos e as vezes
machucava as pessoas. Ou era o que sempre pensava
quando as expressões das pessoas mudavam por uma
fração de segundo, como uma brisa no verão.
Mas não era o caso, pois o homem inclinou sua cabeça
para cima e espojou um sorriso brincalhão.
Ok, ele havia conseguido tirar um sorriso bobo dela.
“Aproveite a sopa.” disse o rapaz, logo se retirando.
Você observou a sopa, na dúvida se comeria ou não,
até porque, não era isso que queria e seria perigoso comer
uma comida vinda sem um aviso prévio.
Será que aquele lugar estava aberto tão tarde pois
sequestravam pessoas tolas que tiveram o pecado de
comer uma comida dada em forma de presente? Será que
Você teve a má sorte de ser uma dessas vítimas?
Bem, ninguém se importaria se ela morresse mesmo. E
se a sopa estivesse gostosa, sua morte seria mais calma e
saborosa.
Você inclinou a cabeça para baixo. O aroma do alimento
subiu, chegando em suas narinas, como um beijo.
Cheirava bem.
A mulher levou a colher até a sopa, sem vontade de
comer muito além de uma colher.
Ela também não tinha culpa, não era isso que havia
pedido. Qual era o motivo das pessoas entregarem algo
que não era do seu querer? Se ela esperava um café
gelado, por que a entregaram sopa? Eles nem a
perguntaram o que desejava, somente...deram algo que
não iria a saciar.
Você, mesmo não sentido ânimo, tomou um pouco da
comida.
Era gostosa, isso não poderia negar. Seu cheiro a
lembrava de algumas comidas de quase o mesmo aroma,
que a acompanharam como aperitivo em memorias
passadas.
Sem nem perceber, Você começou a tomar mais do que
uma colher de sopa. E a cada colherada, trazia um
sentimento amarrado à tona, os desamarrando e a
fazendo se lembrar que não importavam o quanto ela
tentasse, eles continuariam lá, a esperando para serem
libertados, para virarem o mesmo líquido quente em sua
frente.
Seu corpo se esquentou, não sentia mais frio. Sua roupa
não estava mais pesada. E seu cabelo já estava quase
seco.
Lágrimas pintavam suas bochechas já vermelhas.
Desciam de forma rápida e caiam dentro da sopa, se
transformando em uma só.
Você havia corrido da tempestade a fora justamente
porque não queria se molhar. Entretanto aquelas
partículas de água continuavam a perseguindo não
importava como. Não importava o quanto corria, tudo
sempre voltava para atormentá-la.
Sua boca tremeu como um terremoto. Você levou suas
mãos até seu rosto, o escondendo. Soluços tomaram
lugar, sendo a única melodia na cafeteria.
“O que diabos têm nessa sopa?” a jovem perguntou
entre os soluços.
De uma coisa estava certa, ela precisava ir embora.
Sair imediatamente daquele lugar esquisito. Desde
quando uma cafeteria fazia sopa?!
Você se levantou, pegando sua bolsa e se dirigindo até
o balcão para fazer o pagamento.
Seus passos eram constantes, quase desajeitados. Será
que ela estava embriagada?
O mesmo rapaz de antes parecia a esperar atras do
balcão. Ou talvez fosse porque ela era a única cliente do
lugar.
Ela colocou sua bolsa no balcão, fazendo um leve
baque.
“Gostou da sopa?” perguntou o rapaz, com uma voz tão
doce e acolhedora que irritou Você. Ela não sabia o
verdadeiro motivo do porquê ficou irritada, mas também
não queria procurar a resposta. Deixa-la no escuro seria
a melhor coisa a se fazer agora.
“A sopa estava boa, todavia, não era o que eu queria
naquele momento. Por favor, me diga quanto ficou.”
disse Você, se segurando para não jogar todo o seu
dinheiro no balcão e sair correndo.
“Foi por conta da casa.”
“Por conta da casa?” a mulher foi pega de surpresa.
Ela queria saber se era algum tipo de brincadeira, mas
seus olhos estavam tão inchados das lagrimas que não
conseguia distinguir a expressão do rapaz.
“Isso mesmo. Pode ir agora.”
Você ficou um pouco desconfiada com a atitude, no
entanto, a ignorou. Fez um agradecimento com a cabeça
e se virou para ir embora.
“Espere!” o barista exclamou depressa.
Droga. Ela pensou. Será que posso ir embora logo?!
O homem parou em sua frente.
“Me dê a sua mão.”
Você se virou com um tanto de incerteza. Não estava
entendendo as ações do rapaz.
“Se não me der a sua mão, não permitirei sair daqui.”
ele disse com um tom de brincadeira.
Você estendeu a sua mão, hesitante. Não foi um
movimento tão pesado, todavia, a madeira do chão
rangeu. O indivíduo pôs algo leve na palma de sua mão,
logo em seguida a fechando. Era um papel. Ela até
poderia não ter visto, mas a sensação era a mesma.
“Leia quando chegar em casa” terminou ele, se
distanciando de Você e indo embora.

O trajeto de volta para casa foi mais calmo do que a ida


até a cafeteria. Tirando o fato que enquanto atravessava
a pista, um carro quase a atropelou. Por sorte, ela
conseguiu se jogar para perto da calçada. Ou foi isso,
pois o carro passou tão rápido que o seu salvamento foi
como um borrão.
Os pensamentos ruins que a angustiava também foram
embora. Seu coração havia se acalmado após um longo
banho. Quase como se ela estivesse sem aquela trilha de
males sujando o caminho ao que andava.
Você se sentou no sofá de sua casa. A lua ainda
continuava iluminando o seu noturno. Não deixando
espaço para a escuridão.
Sonolenta, preferiu descansar no sofá dessa vez, sua
cama não parecia mais tanto confortável.
A luz da lua penetrou a sala, dando destaque para algo
em cima da pequena mesa no meio da sala.
Era o papel que o indivíduo a entregará ao sair da
cafeteria. Tinha o deixado ali para ler amanhã, mas sua
curiosidade não a deixava em paz. A cutucando sem
parar para abrir aquele bilhetinho.
Você se levantou e pegou o objeto. No entanto, ao abrir
o papel, se deparou com algo interessante.
Não havia nada escrito no bilhete. Na verdade, tinha
sim, mas não exatamente letras e sim pontos no relevo da
folha.
“O que é isso?”
Ela sentiu sua imaginação correr solta. Foi até o seu
quarto, pegando seu notebook e o levando para o cômodo
que planejava dormir naquela noite.
Depois de já ligado e aberto em sua conta principal,
Você pesquisou o que exatamente tinha dentro do
bilhete.
Aqueles pontos na verdade se chamavam Braile,
sistema de escrita e leitura utilizado por pessoas com
deficiência visual.
Espera. Deficiência visual? Então quer dizer que
aquele rapaz é cego? Impossível! Ele não parecia ser!
Pensou Você.
Ela começou a duvidar da própria habilidade em ler as
pessoas. Ele era cego e ela não havia percebido...
Culpa se instalou pelo seu peito. Mesmo não estando
em sua melhor condição, ele tentou animá-la, mesmo não
a conhecendo.
Você entrou em um site pelo qual a ajudava a ler o
conteúdo na folha e deu uma leve risada após descobrir
o que estava guardado dentro.
“Seres humanos tendem a criar fortes expectativas ao
longo da arte de conhecer alguém novo. Elas esperam
que essas pessoas cumpram seus desejos, e quando eles
não o fazem, se entristecem e caem em seu próprio
abismo de inseguranças. Eu não sei exatamente o que
lhe aflige, ainda assim, se for isso, devo dizê-la: Ao olhar
para os olhos de alguém, o reflexo que fera será do seu
próprio oásis. Se sua cabecinha não compreendeu o que
quis dizer, aceito o seu convite para sair.”
Uma risada incrédula escapuliu de sua boca e saiu
correndo como um personagem de desenho animado.
Você nunca havia conhecido alguém tão ousado,
principalmente sendo uma pessoa cega.
“Ele mesmo se convidou para sair?! Se acha que vou
comparecer, está muito errado!” ela bufou um resmungo.
Nunca mais iria voltar para aquela cafeteria!

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