FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
EXAME DE DIREITO DA UNIÃO EUROPEIA
8/1/2021 14.30 – 16.30 H
CRITÉRIOS E TÓPICOS DE CORREÇÃO
Em todas as questões, a avaliação tem em consideração a indicação dos conteúdos programáticos pertinentes, a
coerência da articulação entre estes, a clareza discursiva e a reflexão crítica e contextual das questões.
Comente a seguinte afirmação:
“A integração europeia iniciada há mais de seis décadas produziu uma europeização dos sistemas jurídicos
europeus dos Estados membros. Testemunhou-se um processo pelo qual os sistemas jurídicos nacionais
sofreram uma modificação induzida pela integração europeia, modificação essa legal, institucional e até
sistémica.”
Graça Enes, “A europeização dos direitos nacionais dos estados membros. O papel dos tribunais nacionais”, in Estudos
Comemorativos dos 20 anos da FDUP
4 valores
A integração europeia e a respetiva ordem jurídica operam uma significativa influência nos sistemas jurídicos
nacionais. Logo na adesão impõem-se um conjunto de requisitos (os “critérios de Copenhaga”), referidos no
artigo 49.º TUE, e, em especial, impõe-se o respeito pelos valores do artigo 2.º TUE. Depois da adesão, o
mecanismo do artigo 7.º pretende assegurar que o respeito por esses valores é preservado (indicação breve
dos termos previstos, valorizando-se em particular a compreensão das respetivas insuficiências).
Mais diretamente, a concretização dos objetivos da integração europeia importa uma uniformização e
harmonização legislativas das ordens jurídicas dos EM, concretizadas através do direito primário e do direto
secundário, nomeadamente os regulamentos e diretivas, cuja efetividade é garantida através dos princípios
do primado, da aplicabilidade direta e do efeito direto.
Também o sistema institucional interno dos EM sofre a influência do Direito da União. Em primeiro lugar, o
princípio da cooperação leal (4.º, n.º 3 TUE) importa uma obrigação para todas as autoridades dos EM, no
âmbito das respetivas competências, de contribuírem para o cumprimento e execução do direito da União.
Em especial, o artigo 19.º TUE confere aos tribunais nacionais o “estatuto funcional” de tribunais comuns da
União (valorizando-se o conhecimento da jurisprudência do TJ que densificou esse estatuto - v.g. Parecer 1/09;
Proc. C-64/16; Proc. C-619/18). Por sua vez, a função executiva na UE é em grande parte uma competência
dos Estados, convertendo todo o aparelho nacional em “executivo” do Direito da União (v.g. o artigo 291.º,
n.º TFUE), em termos aproximados a um “federalismo administrativo”.
Através dessas múltiplas vias, pode afirmar-se que a integração europeia operou uma modificação sistémica,
institucional e legal nos EM.
II
Analise a seguinte situação:
BY nasceu na Ucrânia e aí viveu até imigrar para a Alemanha, em 2012, onde reside desde então. Em 2014,
adquiriu a nacionalidade romena, tendo desde essa data duas nacionalidades, ucraniana e romena. Em 2016,
as autoridades ucranianas enviaram às autoridades alemãs um pedido de extradição de BY, no âmbito de um
processo penal.
A legislação alemã proíbe a extradição de nacionais alemães, mas não proíbe a extradição de estrangeiros. A
Roménia, segundo a sua legislação, poderá instaurar um procedimento criminal pelos mesmos factos contra
BY e requerer às autoridades alemãs a sua entrega, através de um mandado de detenção europeu.
a) Na sua defesa perante o tribunal alemão, BY alega que “a legislação alemã é contrária ao Direito da União
Europeia, pois é discriminatória e restringe a liberdade de circulação de cidadãos da União”. O Ministério
Público alega que a “prevenção da impunidade é um interesse geral imperativo que justifica a imposição
de restrições a direitos e liberdades”. Quid iuris? 5 val.
BY, enquanto cidadão romeno, é cidadão da União (artigo 20.º, n.º 1 TFUE). Como tal beneficia do direito de
livre circulação e residência (artigos 20.º, n.º 2 al. a) e 21.º, n.º 1 TFUE), proibindo-se a sua discriminação em
relação a nacionais do EM onde reside (artigo 18.º TFUE) (valoriza-se o desenvolvimento sobre o estatuto da
cidadania e os direitos dela decorrentes). No caso, verifica-se uma discriminação direta. Porém, pode haver
razões justificativas para essa discriminação, nomeadamente de ordem pública, tal como entende o Ministério
Público. No caso, essas justificações estão sujeitas a um juízo de proporcionalidade, aferindo se não há outras
medidas adequadas e menos restritivas para garantir o objetivo de prevenção da impunidade, nomeadamente
o julgamento na Roménia, com a sua entrega às respetivas autoridades através de um MDE, ou o julgamento
na Alemanha, salvaguardando a permanência de BY no território alemão. Se assim suceder, o tribunal alemão,
enquanto tribunal comum de direito da União, deverá afastar a aplicação das normas que preveem a
extradição ou proceder à sua interpretação conforme e assegurar a aplicação do direito da União.
b) BY alega ainda que “as práticas da investigação criminal e as condições inumanas das prisões na Ucrânia
o sujeitarão a tortura e a outros tratos ou penas desumanos ou degradantes, pelo que a sua extradição
violaria a proibição do artigo 19.º da CDF”. O Ministério Público entende que a CDF não deve ser aplicada,
pois a extradição é um domínio da competência nacional. Quis iuris? 5 val.
A CDF constitui uma fonte de direito primário, com valor jurídico idêntico aos tratados (artigo 6.º, n.º 1 TUE).
Vincula os EM quando estes apliquem o direito da União (artigo 51.º, n.º 1 CDF). Sendo BY um cidadão da
União no exercício do direito de residir num EM, o EM tem de respeitar o estipulado na CDF, nomeadamente
o artigo 19.º, n.º 2. O facto de a extradição ser um domínio da competência nacional (valoriza-se o
desenvolvimento do princípio das competências de atribuição, com a indicação das diversas previsões no
Tratado – v.g. artigos 4.º e 5.º TUE), não significa que o seu exercício não possa conflituar (“conflict
preemption”) com o direito da União. Os EM estão obrigados a abster-se de qualquer medida que possa por
em perigo os objetivos do Tratado (artigo 4.º, n.º 3 TUE). O juiz nacional, enquanto juiz comum de direito da
União, está obrigado a assegurar a aplicação dessa disposição, devendo fazer a interpretação conforme do
direito nacional aplicável ou, caso os limites a esta o não permitam, desaplicar o direito nacional.
c) O Ministério Público alemão entende que o Direito da União impõe a transmissão à Roménia das
informações pertinentes, cooperação necessária para que as autoridades romenas possam instaurar o
procedimento criminal e emitir o mandado de detenção europeu. Quid iuris? 3 val.
O princípio da cooperação leal tem igualmente uma dimensão horizontal, entre os EM, tal como prevê o artigo
4.º, n.º 3 TUE. Assim, com vista a assegurar a cooperação judiciária penal no âmbito do ELSJ (objetivos
previstos no Tratado, cuja referência se valoriza – artigos 3.º, n.º 2 TUE, 67.º, n.º 3, 82.º e 83.º TFUE) a
Alemanha deverá informar a Roménia dos elementos de facto e de direito relevantes para que esta possa
instaurar um procedimento criminal contra BY e requerer a sua entrega através do MDE. Todas as autoridades
dos EM estão vinculadas ao princípio da cooperação leal, incluindo os tribunais.
d) O Juiz alemão, cuja decisão não é passível de recurso ordinário, tem dúvidas sobre todas essas questões.
Quid iuris? 3 val.
O artigo 267.º TFUE prevê que, através do reenvio prejudicial (valoriza-se a indicação da natureza e condições
do reenvio) o juiz nacional coloque ao Tribunal de Justiça (valoriza-se a indicação de que é o TJ que é
competente, em virtude de a competência atribuída ao Tribunal Geral não ter sido regulamentada no Estatuto)
as questões relevantes para a decisão do caso, relativas à interpretação do Direito da União. No caso, não
havendo recurso ordinário, o reenvio é obrigatório, devendo o juiz nacional suspender o processo e remeter
aos TJ todos os elementos de facto e de direito pertinentes. O tribunal nacional tem a obrigação de respeitar
o acórdão de reenvio na sua decisão posterior.
inspirado no Proc. C-398/19
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CRITÉRIOS E TÓPICOS DE CORREÇÃO DO TESTE DE AVALIAÇÃO DISTRIBUÍDA
14.12.2022 11.00 – 13.00 H
CRITÉRIOS DE CORREÇÃO - Na avaliação é valorizada a clareza do discurso, a articulação dos
conteúdos programáticos relevante e a fundamentação normativa e jurisprudencial.
TÓPICOS DE CORREÇÃO
a) Não. A Provedora de Justiça não é um órgão jurisdicional. O conceito de órgão jurisdicional,
segundo a jurisprudência do TJ. A finalidade do reenvio.
b) O tribunal competente é o TJ. Articulação entre o artigo 256.º, n.º 3 TFUE e o artigo 51.º do
ETJUE.
O reenvio é obrigatório. Articulação entre o artigo 267.º TFUE e a jurisprudência do TJ. O
controlo da validade dos atos da União.
A CRP não é fundamento de invalidade da diretiva. A autonomia do ordenamento jurídico da
União. Os fundamentos de invalidade dos atos de direito secundário da UE, segundo o artigo
263.º do TFUE.
c) Competência partilhada concorrente. Significado e alcance, de acordo com os Tratados.
d) Explicação do ‘acordo do Luxemburgo’ relativo à proteção dos “interesses vitais” dos EM. A
busca do consenso através da negociação ao mais alto nível político e seus limites. Paralelo com
o artigo 83.º, n.º 3 TFUE.
e) O controlo da subsidiariedade por parte dos parlamentos nacionais, de acordo com o
Protocolo n.º 2. O alcance dos pareceres negativos no processo decisório da UE e a legitimidade
processual para interpor o recurso de anulação junto do TJ.
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DIREITO DA UNIÃO EUROPEIA
2022/23
ÉPOCA NORMAL 04.01.2022 | 10H-12H
TÓPICOS INDICATIVOS DE RESPOSTA
N.B. Na avaliação é valorizada a clareza do discurso, a articulação dos conteúdos programáticos
relevante e a fundamentação normativa e jurisprudencial.
«Desde há muito que os críticos afirmam que a União Europeia sofre de um déficit democrático
e que os crescentes poderes da UE enfraquecem as democracias nacionais. Mas recentes recuos
na democracia e no rule of law em alguns Estados-Membros recordam-nos que também podem
existir déficits democráticos graves a nível nacional e que a União Europeia pode ter um papel
fundamental a desempenhar na sua resolução».
KELEMEN, Daniel R., “Europe’s Other Democratic Deficit: National Authoritarianism in Europe’s Democratic Union”,
Government and Opposition, Vol. 52, n.º 2, p. 211-238, 2017 (adaptado).
Comente a afirmação, referindo-se sucintamente aos seguintes tópicos:
a) Alterações introduzidas no Tratado de Lisboa para obviar ao “défice democrático” da
UE;
b) Meios de que dispõe a União Europeia para garantir o respeito do Estado de Direito
pelos Estados-Membros.
(6 val.)
− Apreciar criticamente a afirmação, referindo-se aos esforços dos Estados-Membros
de, a cada revisão dos Tratados, pretenderem melhorar a legitimidade democrática
da UE, assegurando a transparência da atuação das suas instituições, de forma a
aproximá-las dos cidadãos.
− Em especial, aludir a algumas das alterações introduzidas no Tratado de Lisboa que
contribuíram para reduzir o apontado “défice democrático da UE”: a previsão de
princípios democráticos (art.º 10.º e ss. TUE); criação da iniciativa de cidadania
europeia (art.º 24.º TFUE), reforço dos poderes do PE; unificação dos pilares
(apesar das limitações); incremento do papel dos Parlamentos Nacionais no processo
de construção europeia (Protocolos e art.º 12.º TUE); clarificação e delimitação das
categorias de atribuições/competências da UE (art.º 2.º a 6.º TFUE); atribuição de
força jurídica vinculativa à CDFUE (art.º 6.º, n.º 1 TUE), reconfiguração da
estrutura institucional da UE (Conselho Europeu, Alto Representante, sistema de
votação no Conselho, eleição do Presidente da Comissão pelo PE, etc.), entre outras.
− Referência à estrutura complexa e multinível de instrumentos existentes para
garantir por parte dos EM o respeito pelos valores da UE, numa perspetiva ex ante
e ex post à adesão. A diferente natureza e alcance jurídico desses mecanismos (com
assento no direito originário, derivado e soft-law; com caráter juridicamente
vinculativo ou não; de controlo político ou judicial).
− O avolumar de casos (“crise de valores”) no seio da UE que tem estado na origem
de sucessivos novos instrumentos de garantia.
− Destacar e explicitar brevemente alguns dos mecanismos existentes: art.º 7.º TUE
Quadro do Estado de Direito da UE, Regulamento que cria um Regime Geral de
Condicionalidade, ação por incumprimento (art.º 258.º TFUE), Ciclo e Relatório
Anual sobre o Estado de Direito, etc.
II
A tem dupla nacionalidade neerlandesa (Países Baixos) e canadiana, tendo residência fixa no
Canadá há mais de duas décadas. Em 2020, A requereu à entidade administrativa competente
a renovação do seu passaporte emitido pelos Países Baixos, pedido esse que foi indeferido ao
abrigo da Lei da Nacionalidade neerlandesa que dispõe o seguinte: “uma pessoa maior idade
perde automaticamente a nacionalidade neerlandesa se também tiver uma nacionalidade
estrangeira e, durante um período ininterrupto de dez anos, tiver a sua residência principal fora
dos Países Baixos e fora dos territórios onde são aplicáveis os Tratados da União Europeia”.
A não se conformou com aquela decisão, tendo dela recorrido para os tribunais nacionais. O
processo chegou ao Conselho de Estado dos Países Baixos que, decidindo em última instância,
negou o pedido de A para que a questão da compatibilidade do direito nacional com o DUE fosse
levada ao TJUE, desde logo por a resposta ser evidente.
Será o Direito da União Europeia aplicável à presente situação? Estaria o Conselho de Estado
obrigado a recorrer ao TJUE?
(5 val.)
− A nacionalidade (e os critérios de aquisição e perda) como competência nacional.
Em todo o caso, a existência de limitações decorrentes do respeito pelo DUE e dos
direitos aí reconhecidos aos cidadãos da União – os EM devem exercer a sua
competência de modo proporcionado tendo em conta a eventual afetação do estatuto
da cidadania europeia, que é o estatuto fundamental dos nacionais dos Estados-
Membros (art.º 20.º e ss. TFUE).
− Referência ao reenvio prejudicial (art.º 267.º TFUE) como um mecanismo de
“diálogo juiz a juiz” que tem por objetivo, inter alia, garantir a uniformidade, a
estabilidade e a efetividade do DUE num quadro de aplicação “descentralizada”
pelas competentes instâncias nacionais.
− Distinguir entre reenvio prejudicial facultativo e reenvio prejudicial obrigatório.
Identificação, na hipótese, de um caso de reenvio obrigatório.
− Ainda que se trate de uma hipótese de reenvio obrigatório, o órgão jurisdicional
nacional poderá estar isento do dever de submeter a questão ao TJUE atenta, inter
alia, a jurisprudência Cilfit (teoria do ato claro). Resolução da hipótese na base desta
jurisprudência, admitindo ou não, fundamentadamente, a situação àquela teoria.
III
No segundo semestre de 2020, foi apresentada uma proposta de alteração à Diretiva (UE)
2019/904 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 05.06.2019, relativa à redução do impacto
de determinados produtos de plástico no ambiente.
Suponha que as alterações propostas foram efetivamente aprovadas, entraram em vigor e o
prazo de transposição da diretiva terminou em 1 de outubro de 2022. O Estado português
transpôs a diretiva em setembro de 2022. A Espanha ainda não transpôs a Diretiva.
A Diretiva, no seu artigo 12.º, estabeleceu o seguinte: «os Estados-Membros asseguram que os
operadores económicos não colocarão no mercado embalagens nos formatos ou para os
propósitos definidos no Anexo V», onde se incluem, entre outras, as embalagens de utilização
única para alimentos e bebidas quando consumidos no interior de restaurantes e cafés, as
embalagens de utilização única para frutas e legumes, os frascos de champô miniatura e outras
embalagens miniatura em hotéis.
A empresa distribuidora de produtos de higiene para hotelaria XPT tem sede em Portugal e
atividade na península ibérica. Após o Decreto-Lei de transposição da diretiva, a XPT deixou de
vender produtos de higiene em embalagens miniatura. Todavia, apercebeu-se que o distribuidor
de produtos de higiene YES, com sede em Espanha, continua a vender aqueles produtos em
embalagens miniatura. De imediato, considerando estar perante uma situação que distorce o
funcionamento o mercado interno, o gerente da XPT apresentou uma reclamação junto das
autoridades espanholas competentes, a qual foi indeferida com fundamento no facto de a
Diretiva não ter sido transposta naquele ordenamento jurídico.
a) A XPT não se conforma com a decisão das autoridades espanholas e recorre a um tribunal
daquele Estado-Membro contra a YES para que esta seja proibida de comercializar os produtos
em causa. Invoca o art.º 12.º da Diretiva para fundamentar a sua pretensão. Quid iuris? (5 val.)
− Caracterização da Diretiva enquanto ato jurídico da UE (artigo 288.º, §3 TFUE).
− O efeito direto como a possibilidade de invocação, pelos particulares, de
determinadas normas de um ato de Direito da União, sendo uma característica
fundante e particular da Ordem Jurídica da UE. Da negação inicial do efeito direto
das disposições de uma Diretiva à sua aceitação, como remédio para casos
patológicos.
− Identificação dos requisitos para que a disposição de uma Diretiva possa ser
invocada pelos particulares: o caráter prescritivo, suficiente e incondicional da
norma. Fundamentar a verificação, ou não, daqueles requisitos na hipótese.
− Em todo o caso, a impossibilidade da XPT invocar a norma da diretiva não
transposta contra a YES: identificar uma relação horizontal e concluir pela negação
do efeito direto horizontal das Diretivas, explicando a sua ratio. Valorizou-se a
referência, nestes casos, aos “remédios” possíveis decorrentes da ausência do efeito
direto horizontal.
b) Simultaneamente, a XPT pretende que a União Europeia aja contra a Espanha por não ter
transposto a Diretiva. Quid iuris? (4 val.)
− A Diretiva como instrumento carecido de transposição, dentro de determinado
prazo por si fixado (neste caso, 1 de outubro de 2022). Referência ao art.º 288.º
TFUE, ao princípio da cooperação leal (art.º 4.º, n.º 3 TUE) e ao princípio da
efetividade (291.º, n.º 1 TFUE): o incumprimento do DUE por parte de um EM que
não transponha atempadamente uma Diretiva.
− Explicitar o papel da Comissão enquanto “guardiã dos Tratados” (art.º 17.º, n.º 1
TUE).
− A possibilidade da XPT expor o incumprimento do EM à Comissão (art.º 24.º
TFUE).
− Identificação dos meios jurídicos ao dispor da Comissão: a “ação por
incumprimento” prevista no art.º 258.º TFUE – o funcionamento deste mecanismo
de salvaguarda jurisdicional do DUE, em especial no caso das Diretivas (art.º 260.º,
n.º 3 TFUE).
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
DIREITO DA UNIÃO EUROPEIA
2022/23
ÉPOCA DE RECURSO 31.01.2022 | 10H-12H
N.B. Na avaliação é valorizada a clareza do discurso, a articulação dos conteúdos programáticos
relevante e a fundamentação normativa e jurisprudencial.
Comente a seguinte afirmação, explicando os objetivos, as fontes e o regime das deliberações
aplicáveis:
“A Defesa não é uma competência como outra qualquer. Estou consciente das várias
sensibilidades nacionais. Acredito que o aprofundamento da defesa comum é necessária e não
é uma obsessão ideológica, mas uma questão de senso comum.”
Charles Michel, “Strategic autonomy for Europe - the aim of our generation”, Discurso no Bruegel
Think Tank, 28.09.2020.
(4 val.)
− Explicitação das fontes primárias da PCSD (Política Comum de Segurança e
Defesa), nomeadamente integrando-a no âmbito da Política Externa e de Segurança
Comum (art.º 23.º e ss. do TUE), conforme definida no TUE, mais especificamente
nos artigos 42.º a 46.º TUE.
− Identificação dos objetivos da PCSD: manutenção da paz, prevenção de conflitos,
reforço da segurança internacional, incluindo o combate ao terrorismo – art. 42.º,
n.º 1 e 43.º, n.º 1 TUE.
− Alusão ao regime de deliberações, conforme definido no art.º 42.º, n.º 4 TUE: a
competência pertence ao Conselho, que delibera por unanimidade, sob proposta do
Alto Representante ou por iniciativa de um Estado-Membro.
− Apreciação crítica da afirmação, tendo em conta, inter alia, a possibilidade de
definição gradual de uma política de defesa comum (art.º 42.º, n.º 2 TUE) e aos
vários mecanismos que visam assegurar as diversas “sensibilidades nacionais” e
desejos de aprofundamento (abstenção positiva, cooperação reforçada, cooperação
estruturada especial na PCSD e cooperação estruturada permanente na PCSD).
II
A Diretiva 1999/70/CE do Conselho de 28 de Junho de 1999, respeitante ao acordo-quadro CES
(Confederação Europeia dos Sindicatos), UNICE (União das Confederações da Indústria e dos
Empregadores da Europa) e CEEP (Centro Europeu das Empresas Públicas) relativo a contratos
de trabalho a termo, teve como objetivo a aplicação pelos Estados-Membros do Acordo-Quadro
relativo a contratos de trabalho a termo, celebrado a 18.03.1999 entre as organizações
interprofissionais de vocação geral (CES, UNICE e CEEP). Nos termos do art.º 2.º da Diretiva, «os
Estados-Membros devem pôr em vigor as disposições legislativas, regulamentares e
administrativas necessárias para dar cumprimento à presente directiva até 10 de Julho de 2001
ou devem certificar-se, até esta data, de que os parceiros sociais puseram em prática as
disposições necessárias por via de acordo, devendo os Estados-Membros tomar qualquer
disposição necessária para, em qualquer momento, poderem garantir os resultados impostos
pela presente directiva».
O Acordo-Quadro anexo à Diretiva e destinado a melhorar a qualidade do trabalho sujeito a
contrato a termo, institui, no n.º 1 do art.º 4.º, um princípio de não discriminação, nos termos
do qual «não poderão os trabalhadores contratados a termo receber tratamento menos
favorável do que os trabalhadores permanentes numa situação comparável pelo simples motivo
de os primeiros terem um contrato ou uma relação laboral a termo, salvo se razões objectivas
justificarem um tratamento diferente».
Em Portugal, dois professores do ensino básico e secundário com a mesma antiguidade e o
mesmo número de horas letivas semanais podem, nos termos da legislação nacional, receber
remunerações distintas, conforme pertençam, ou não, ao quadro da respetiva escola, tendo, na
primeira hipótese, um contrato de trabalho por tempo indeterminado e, no segundo caso, um
contrato de trabalho a termo certo, donde resulta um salário mais baixo.
a) Em que categoria de competências se inclui o ato anterior? Fundamente. (2 val.)
− Alusão aos princípios relevantes em matéria de competência e, genericamente, às
categorias de competências previstas no TFUE.
− Recondução fundamentada da hipótese a uma competência partilhada de
coordenação no âmbito da política social (art.º 5.º, n.º 3 TFUE e art.º 151.º e ss. TFUE
– valorizou-se a identificação da concreta base jurídica na base da adoção da
diretiva, i.e., o art.º 155.º, n.º 2 TFUE). O significado e alcance desta categoria de
competências, de acordo com os Tratados.
− Admitiu-se o enquadramento da hipótese enquanto competência partilhada
concorrente, nos termos do art.º 4.º, n.º 2, al. b) TFUE, desde que fundamentada.
b) A situação laboral dos professores portugueses contratados a termo é suscetível de violar o
Direito da União? (2 val.)
− Menção à suscetibilidade de violação do DUE, fundamentando com recurso às
normas da Diretiva e do Acordo-Quadro e ao quadro factual descrito.
c) A maior organização sindical portuguesa de professores pretende que as instituições da União
reajam relativamente à situação descrita. Explique o que pode a UE fazer em reação à alegada
desconformidade entre a legislação laboral portuguesa e o DUE? (5 val.)
− Referência à possibilidade de exposição do incumprimento à Comissão, nos termos
do art.º 24.º TFUE.
− Explicitação do papel da Comissão enquanto “guardiã dos Tratados” (art.º 17.º, n.º
1 TUE).
− Identificação dos meios jurídicos ao dispor da Comissão. A “ação por
incumprimento” prevista no art.º 258.º e ss. do TFUE: sentido, iniciativa,
procedimento pré-contencioso e contencioso e respetiva tramitação.
d) A é professor na Escola Básica de Cedofeita e, tendo um contrato de trabalho a termo, recebe
menos 500,00 € do que os seus colegas com o mesmo número de anos de serviço. A intenta no
Tribunal Administrativo do Porto uma ação judicial em que pede a condenação do Estado
português no pagamento das diferenças salariais, invocando, a favor da sua posição, o art.º 4.º,
n.º 1 do Acordo-Quadro. O juiz nacional, na sentença em que indeferiu a pretensão de A, refere
o seguinte: «O Acordo-Quadro não tem qualquer relevância no presente caso, na medida em que
aos tribunais nacionais compete exclusivamente aplicar a lei portuguesa e a diretiva não produz
quaisquer efeitos em Portugal». Comente. (5 val.)
− Caracterização da diretiva enquanto ato jurídico da UE (art.º 288.º TFUE).
− Menção à insubsistência dos argumentos avançadas pelo juiz nacional, tendo em
conta, inter alia, o princípio do primado, da cooperação leal, da efetividade e da
tutela jurisdicional efetiva. A diretiva em causa como ato vinculativo e aplicável a
todos os Estados-Membros.
− Referência às consequências, no caso, de um princípio de aplicação descentralizada
do DUE e dos tribunais nacionais como “tribunais comuns de direito da União”. A
obrigação de aplicação aos casos submetidos a juízo das normas de DUE aplicáveis.
e) Suponha que, em sede de recurso, A invoca como fundamento jurídico da sua pretensão o
seguinte princípio do Pilar Europeu dos Direitos Sociais: «independentemente do tipo e da
duração da relação de trabalho, os trabalhadores têm direito a um tratamento justo e equitativo
em matéria de condições de trabalho, acesso à proteção social e formação. Deve ser promovida
a transição para formas de emprego sujeitas a contrato sem termo». O ato referido é uma
Declaração Interinstitucional da Comissão, do Conselho e do Parlamento, proclamada em
novembro de 2017. Quid iuris? (2 val.)
− Identificação da declaração interinstitucional como ato atípico sem efeitos jurídicos
obrigatórios.
− Em consequência, a falta de aplicabilidade ou efeito direto e a impossibilidade de
invocação em juízo para fazer valer quaisquer pretensões.
− Referência ao alcance da soft law, nomeadamente como elemento a utilizar na
interpretação da hard law, tal como feito pelo TJUE no tocante à Carta de Direitos
Fundamentais da União Europeia anteriormente ao TLisboa.
Bom trabalho!
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
DIREITO DA UNIÃO EUROPEIA 2024/25
TESTE DA AVALIAÇÃO DISTRIBUÍDA – TÓPICOS DE CORREÇÃO
13.12.2024 | 11h-13h00
NB: na avaliação foi especialmente valorizada a clareza e a correção do discurso, a articulação dos
conteúdos programáticos relevantes e a fundamentação normativa e jurisprudencial.
GRUPO I
(6 valores)
Em meados de 1965, o Primeiro-Ministro francês declarou que «não podemos confiar a uma
Comissão, que não tem vocação política, a responsabilidade para decidir sobre o nível de vida
dos franceses, o que aconteceria se se ocupasse dos destinos da nossa agricultura”. Poucos dias
depois, o Presidente da República francesa expressou também as reservas que lhe merecia o
processo comunitário em curso, afirmando que «podemos perceber claramente o risco que o
nosso país correrá se certas disposições do Tratado de Roma forem realmente aplicadas: a
França ficará sujeita a que lhe forcem a mão em qualquer matéria económica, social, e muitas
vezes política.»
Comente o excerto anterior, referindo-se brevemente aos seguintes tópicos:
− Acontecimento histórico a que o texto se refere e respetivas consequências para as
Comunidades;
§ Identificação do acontecimento em causa: a ‘crise da cadeira vazia’ de 1965.
§ Contexto histórico: as três propostas da Comissão ‘Hallstein’ (em especial no âmbito
da PAC) e a discórdia francesa. A assunção pelo representante francês da presidência
do Conselho à meia-noite de 1 de julho de 1965 e o encerramento da reunião em
curso, contrariando a prática de ‘parar o relógio’ à meia-noite e continuar a discussão.
A recusa da França em participar nas reuniões do Conselho no semestre da sua
presidência. O ‘Decálogo de Queixas’ da França contra a Comissão.
§ Consequências para as Comunidades: paralisação do processo decisório das
Comunidades durante aquele período.
− Modo como foi ultrapassado e respetivas implicações para o processo de decisão
comunitário;
§ Referência aos ‘Acordos do Luxemburgo’, de janeiro de 1966.
§ O conteúdo dos Acordos: a ‘solução do interesse vital’, o ‘consenso impossível’ e o
‘agreement to disagree’.
§ Distinção entre consenso e unanimidade (cfr. art.º 235.º, n.º 1 e art.º 238.º, n.º 4
TFUE).
§ Implicações para o processo de decisão comunitário: instituição, na prática, de um
‘direito de veto’ dos Estados-Membros no Conselho. A subversão, à margem dos
Tratados, da regra de votação por maioria qualificada no Conselho (art.º 148.º TCEE)
quando em causa estivessem ‘assuntos de grande importância’. A cedência ao
intergovernamentalismo, a afetação da relação entre as instituições e a paralisia do
Conselho nas décadas seguintes.
− Reminiscências que ainda hoje podem ser encontradas no Direito da União Europeia
das soluções então encontradas.
§ Referência a pelo menos dois regimes hoje vigentes que se inspiram nos ‘Acordos do
Luxemburgo’. Por exemplo, o art.º 31.º, n.º 2 TUE (PESC), os [Link] 82.º, n.º 3 e 83.º, n.º
3 TFUE (ELSJ), o art.º 48.º TFUE (política social), o Considerando 26 do Regulamento
(UE, Euratom) 2020/2092 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 16 de dezembro
de 2020, relativo a um regime geral de condicionalidade para a proteção do
orçamento da União.
GRUPO II
(14 valores)
A Diretiva 93/109/CE do Conselho, de 6 de dezembro de 1993, que estabelece o sistema de
exercício do direito de voto e de elegibilidade nas eleições para o Parlamento Europeu dos cidadãos
da União residentes num Estado‑Membro de que não tenham a nacionalidade, dispõe o seguinte:
Artigo 10.º
1 - Na apresentação da declaração de candidatura, cada elegível comunitário deve apresentar as
mesmas provas que um candidato nacional.
Artigo 11.º
2 - Em caso de recusa de inscrição nos cadernos eleitorais ou de rejeição da candidatura, o
interessado pode interpor os recursos previstos na legislação do Estado‑Membro de residência em
casos idênticos para os eleitores e elegíveis nacionais.
Artigo 17.º
Os Estados-membros porão em vigor as disposições legislativas, regulamentares e administrativas
necessárias para dar cumprimento à presente directiva, o mais tardar em 1 de fevereiro de 1994.
Artigo 18.º
A presente directiva entra em vigor na data da sua publicação no Jornal Oficial das Comunidades
Europeias.
1. Poderia um Estado-Membro, em janeiro de 1994, adotar um ato nacional que criasse
um sistema de vias de recurso próprio e específico para os cidadãos estrangeiros em
caso de recusa de inscrição nos cadernos eleitorais? (3 val.)
§ Caracterização da Diretiva enquanto ato jurídico da UE (artigo 288.º, § 3 TFUE), que
vincula o(s) Estado(s)-Membros destinatário(s) quanto ao resultado a alcançar,
deixando, todavia, às instâncias nacionais a competência quanto à forma e aos meios
para se atingir o resultado definido.
§ A Diretiva enquanto ato jurídico carecido de transposição ou receção formal nos
ordenamentos jurídicos dos Estados-Membros (logo, não possuindo aplicabilidade
direta).
§ A obrigação emergente para os Estados-Membros destinatários de transporem uma
Diretiva até ao termo do prazo por ela definido (cfr., inter alia, o art.º 291.º, n.º 1 TFUE
e o art.º 4.º, n.º 3 TUE).
§ Sem embargo, e nos termos da jurisprudência constante do TJUE, durante o prazo de
transposição de uma Diretiva os Estados-Membros destinatários devem abster-se de
adotar disposições suscetíveis de comprometer seriamente a realização do resultado
prescrito pela Diretiva (cfr., inter alia, Acórdãos Inter Environnement Wallonie
(‘Resíduos da Valónia’) - C 129/96, Stichting Natuur en Milieu e o. - C 165/09 a C
167/09, e VYSOČINA WIND - C 181/20).
§ Semelhante obrigação de abstenção impõe-se a todas as autoridades nacionais e
deve ser entendida, por um lado, no sentido de que se refere à adoção de qualquer
medida, geral e específica, suscetível de produzir tal efeito de comprometimento
sério do resultado pretendido pela Diretiva.
§ Por outro lado, a partir do momento em que uma Diretiva tenha entrado em vigor, os
órgãos jurisdicionais dos Estados Membros devem abster-se, na medida do possível,
de interpretar o direito interno de uma forma que possa comprometer seriamente,
depois de expirado o prazo de transposição, a realização do objetivo prosseguido por
essa Diretiva.
§ In casu, concluir que se um Estado-Membro adotar um ato nacional que crie um
sistema de vias de recurso próprio para cidadãos estrangeiros em caso de recusa de
inscrição nos cadernos eleitorais durante o prazo de transposição da Diretiva em
causa estará a comprometer seriamente o resultado por ela prescrito, assim violando
o DUE (designadamente o art.º 4.º, n.º 3 TUE, o art.º 288.º, § 3 e o art.º 297.º TFUE).
A Chéquia, em junho de 1994, alterou a Lei relativa às Associações em Partidos Políticos,
prevendo o seguinte:
Artigo 1.º
Os cidadãos checos têm o direito de se associar em partidos políticos. O exercício deste direito
permite aos cidadãos participarem na vida política da sociedade, em particular, na constituição dos
órgãos legislativos e dos órgãos das coletividades territoriais regionais e locais.
Artigo 2.º
Apenas os cidadãos checos maiores de 18 anos se podem filiar num partido político; porém, só se
podem filiar num único partido.
Em antecipação das eleições para o Parlamento Europeu de 2019, B, nacional espanhol a residir
na Chéquia há 10 anos, pretendeu filiar-se no Partido X a fim de se candidatar nas suas listas às
eleições europeias. Todavia, a lista do Partido X foi rejeitada pela comissão nacional de eleições
por B, à luz da lei checa, não poder integrar um partido político naquele país.
2. O advogado do Partido X aconselhou B a interpor imediatamente recurso daquela
decisão para o TJUE. Concorda? (3 val.)
§ O alcance do princípio da tutela jurisdicional efetiva (art.º 19.º, n.º 1 TUE e art.º 47.º
da CDFUE) – ‘ubis ius ibi remedium’. A obrigação de os Estados-Membros garantirem
as vias de recurso necessárias para assegurar a tutela jurisdicional efetiva nos
domínios abrangidos pelo DUE (art.º 19.º, n.º 1 TUE) e as consequências práticas
dessa obrigação: a aplicação ‘descentralizada’ do Direito da União e a possibilidade
de os particulares fazerem valer as suas pretensões decorrentes do DUE junto dos
órgãos jurisdicionais nacionais competentes e nas modalidades previstas pelo direito
nacional – ‘os tribunais nacionais enquanto tribunais comuns de Direito da União’.
§ A estrutura e competência do TJUE (art.º 19.º, n.º 1 e 3 do TUE e art.º 251.º e ss. TFUE).
§ Não estando em causa um ato das instituições da UE (cfr., em especial, o art.º 263.º
do TFUE), mas um ato praticado por uma autoridade nacional, cabia aos órgãos
jurisdicionais nacionais competentes apreciar o recurso e não ao TJUE.
3. Em abono da sua posição, B invoca a aplicabilidade direta e o efeito direto do disposto
no art.º 22.º do TFUE. Invoca ainda o disposto nos [Link] 12.º, 21.º e 39.º da Carta dos
Direitos Fundamentais. Estaria a Chéquia obrigada a reconhecer a B o direito a filiar-
se no Partido X? (4 val.)
[Baseado no Acórdão do TJUE de 19 de novembro de 2024, C-808/21]
§ Distinção entre aplicabilidade direta e efeito direto. As normas do Tratado e da CDFUE
como possuindo aplicabilidade direta.
§ Os requisitos para que uma norma de DUE, incluindo de direito primário, possua
efeito direto: tratar-se de uma norma prescritiva, precisa, suficiente e incondicional.
Conclusão pela verificação (ou não) desses requisitos relativamente às normas
invocadas.
§ Identificação, in casu, de uma situação de efeito direto vertical. Distinção entre efeito
direto de substituição e efeito direto de exclusão.
§ O conteúdo da cidadania da União, designadamente a sua dimensão política, com a
atribuição de capacidade eleitoral ativa (a que relevava in casu) e passiva aos
nacionais de um Estado que residam num outro Estado-Membro da União nas
eleições municipais e nas eleições para o Parlamento Europeu. A cidadania da União
como uma ‘cidadania em movimento’. O estatuto de cidadão da União como o
estatuto fundamental dos nacionais dos Estados-membros (Ac. Grzelczyk).
§ Análise crítica dos artigos invocados e conclusão de que a capacidade eleitoral ativa
(i.e., o direito a ser eleito) implica, além do mais, a possibilidade de participação em
partidos políticos em condições idênticas às dos nacionais. A existência de um nexo
direto entre a pertença a um partido político e a possibilidade de se apresentar com
sucesso e eficácia às eleições.
§ Convocação, inter alia, como base de apoio, do art.º 2.º TUE (o valor democrático e o
princípio da igualdade em que se funda a UE e os seus Estados-Membros), do art.º
10.º e do art.º 11.º TUE. Valorizou-se a referência ao art.º 18.º TFUE.
§ As eleições para o PE como um conjunto de 27 atos eleitorais nacionais (tantos
quantos os Estados-Membros), pese embora o respeito por regras e princípios
comuns e, genericamente, pelo DUE (art.º 223.º TFUE).
§ Conclusão: a Chéquia não pode, sob pena de violar o DUE, excluir os nacionais de
outros Estados-Membros de se filiarem em partidos políticos checos e, por essa via,
de se candidatarem nas listas para as eleições para o PE.
§ Referência ao princípio do primado e da cooperação leal.
4. A República Checa alega que a proibição de estrangeiros se filiarem em partidos
políticos checos não viola o Direito da União Europeia por estar em causa um
elemento fundamental da identidade constitucional daquele Estado. Como avalia este
argumento? (4 val.)
§ Contexto da introdução da referência à identidade constitucional nacional nos
Tratados – art.º 4.º, n.º 2 TUE. As projeções dessa ‘identidade da constituição’ e a
relação com o princípio do primado. O respeito pela identidade constitucional
nacional como mecanismos de defesa (‘contra-limite’) dos Estados-Membros face a
intromissões do DUE potencialmente violadoras dos elementos nucleares das suas
estruturas jurídico-políticas.
§ Todavia, as estruturas políticas e constitucionais fundamentais dos Estados-
Membros, e as características que lhes subjazem, têm ainda, não obstante as suas
especificidades, de ter alguma correspondência com um quadro europeu de
princípios jurídico-constitucionais que produza resultados substancialmente
idênticos entre Estados-Membros.
§ A organização da vida política nacional, para a qual contribuem os partidos e os
movimentos políticos, faz parte da identidade constitucional nacional, na aceção do
artigo 4.º, n.º 2 TUE.
§ Todavia, não pode o art.º 4.º, n.º 2 TUE ser usado para justificar violações dos valores
previstos no art.º 2.º TUE, in casu, do princípio democrático (vertido nas modalidades
de democracia representativa e participativa previstas nos art. os 10.º e 11.º TUE). A
emergência de uma ‘identidade constitucional da União’, baseada no art.º 2.º TUE,
que também não pode ser violada pelos Estados-Membros.
§ O art.º 4.º, n.º 2 TUE deve ser lido tendo em conta as disposições de importância
equivalente, nomeadamente os artigos 2.º e 10.º TUE, e não pode dispensar os
Estados‑Membros do cumprimento das exigências decorrentes das mesmas [Ac.
Comissão/Polónia (Independência e vida privada dos juízes), C‑204/21].
§ Assim, em casos de normas de importância equivalente, a invocação do princípio da
identidade constitucional nacional pode ser abusiva (por todos, Ac.
Hungria/Parlamento e Conselho, C-156/21) ou, como in casu, ser destituída de
sentido.
Bom trabalho!
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
EXAME DE DIREITO DA UNIÃO EUROPEIA
4.01.2024 10.00 H – 12.00 H
Critérios e tópicos de correção
Em todas as questões, além dos conteúdos, valoriza-se a respetiva articulação, a
clareza do discurso e a análise crítica.
Em 22.11.2023, o PE propôs uma revisão dos Tratados em que as seguintes matérias
passariam a ser competências partilhadas: saúde pública; proteção e melhoria da saúde
humana, em particular no tocante a ameaças transfronteiriças para a saúde; proteção civil;
indústria; e, educação, especialmente no que diz respeito a questões transnacionais, como
o reconhecimento mútuo de diplomas, graus, competências e qualificações.
Explique o significado dessa alteração, caso venha a ser aprovada. (4 val.)
As matérias referidas integram a categoria de competências complementares,
previstas no artigo 6.º do TFUE (explicação do significado e alcance desta
classificação, de acordo com o artigo 2.º, n.º 5 do TFUE)); a sua alteração para
competências partilhadas modificaria o alcance da intervenção da União, de acordo
com o artigo 2.º, n.º 2 do TFUE.
II
Analise a seguinte situação:
Em 18.5.2021, na Comunicação «Uma tributação das empresas para o século XXI», a
Comissão Europeia manifestou a intenção de propor um ato que assegurasse o
cumprimento das Regras-modelo Mundiais Contra a Erosão da Base Tributável (Pilar
Dois) (as «regras-modelo OCDE»), através das quais deverá ser cobrado um montante
adicional de imposto (um «imposto complementar») sempre que a taxa de imposto efetiva
de uma empresa multinacional numa determinada jurisdição for inferior a 15 %.
Em 22.12.2021, a Comissão Europeia propôs a adoção de uma Diretiva com base no
artigo 115.º do TFUE, considerando tratar-se da aproximação das disposições legislativas,
regulamentares e administrativas dos Estados-Membros com incidência direta no
estabelecimento ou no funcionamento do mercado interno. No Parlamento Europeu,
alguns deputados entenderam que a base jurídica não é adequada, pois, ou se trata de
“disposições fiscais”, caso em que a base jurídica deveria ser o artigo 113.º, ou não são
disposições fiscais, caso em que a base jurídica devia ser o artigo 114.º, n.º 1 do TFUE.
a) Qual é a diferença fundamental entre as duas alternativas? (2 val.)
O diferente procedimento legislativo previsto; um, o processo legislativo
ordinário; outro, o processo legislativo especial. A grande diferença é o
alcance da participação do PE: no primeiro é colegislador; no 2.º, participa
apenas com poder consultivo.
b) Quando foi à reunião do Conselho para aprovação tinha a classificação “A”. Qual o
significado dessa classificação? (1 val.)
O COREPER e a respetiva importância como instância preparatória, que se
reflete na classificação de “A” ou “B” (com explicação do significado e
alcance do “A”: aprovação pelos representantes do COREPER; aprovação
no Conselho sem votação)
Os parlamentos nacionais da Irlanda, do Luxemburgo e da Chéquia deram parecer
negativo sobre o respeito do princípio da subsidiariedade.
c) Explique a importância, o significado e como se operacionaliza o princípio da
subsidiariedade na UE (3 val.)
O princípio da subsidiariedade como um princípio político e como um
princípio jurídico. Neste último caso, é um princípio de exercício de
competências. A sua aplicação no âmbito das competências partilhadas
concorrentes com a preferência de exercício para os EM. As condições
negativa e positiva impostas à para legitimar a intervenção legislativa da UE.
Os índices indicados. A operacionalização através de avaliações qualitativas
e quantitativas (a Ficha de impacto). Os fundamentos normativos (art. 1.º
TUE; art. 5.º, n.º 1 e n.º 3 TUE; o Protocolo n.º 2).
d) Quais as consequências dos referidos pareceres negativos (1 val.).
O regime de votos atribuídos aos parlamentos nacionais. Não representando
1/3 dos votos, não terão consequências no processo decisório (art. 7., n.º 2 do
Protocolo n.º 2).
e) No momento da aprovação no Conselho, o representante do governo do
Luxemburgo ausentou-se da sala para tomar café e não participou da
deliberação. Quid iuris? (1 val.)
Segundo o art. 11., n.º 4 do Regulamento Interno do Conselho, basta a
presença da maioria dos membros para a votação, pelo que essa ausência não
teria consequências.
No dia 22.12.2022, foi publicada a Diretiva (UE) 2022/2523 do Conselho de 14 de
dezembro de 2022, relativa à garantia de um nível mínimo mundial de tributação para os
grupos de empresas multinacionais e grandes grupos nacionais na União, prevê, entre
outros, que os Estados-Membros cobrem um imposto adicional para garantir que todas as
empresas multinacionais pagam uma taxa de imposto efetiva de pelo menos 15%. Neste
sentido, o artigo 5.º da Diretiva dispõe o seguinte:
«Os Estados-Membros asseguram que uma entidade-mãe final que seja uma entidade
constituinte localizada num Estado-Membro esteja sujeita ao imposto complementar (o
«imposto complementar pela IIR») no exercício fiscal no que respeita às suas entidades
constituintes sujeitas a baixa tributação localizadas noutra jurisdição ou que são
apátridas.»
O Parlamento da Chéquia pretende requerer a anulação da Diretiva por violação do
princípio da subsidiariedade.
f) Poderá fazê-lo? (1 val.)
Sim, nos termos previstos no art. 8.º do Protocolo n.º 2.
g) Qual o tribunal competente? (1 val.)
O TJ (segundo o art. 51.º, al. a) do Estatuto do TJUE, que exceciona o artigo
256.º, n.º 1 do TFUE).
A Diretiva deveria ter transposta até 01.09.2023. Todavia, Portugal não procedeu ainda a
essa transposição.
h) A multinacional GLOBALIS, uma entidade-mãe final na aceção da Diretiva,
paga, na União Europeia, uma taxa efetiva de imposto de 8%. Nesta
sequência, a Autoridade Tributária portuguesa emite, em 11.12.2023, uma
liquidação adicional de IRC para garantir que a GLOBALIS atingirá a taxa
de IRC efetiva mínima de 15% prescrita pela Diretiva. A empresa considera
que tal liquidação é contrária ao Direito da União Europeia. Quid iuris? (3
val)
Definição da Diretiva. Consequências da falta de transposição. O efeito direto
(condições e limites). A impossibilidade de efeito direto inverso
(jurisprudência “Pretore de Salò), o que retira fundamento à referida
liquidação.
i) O tribunal tributário de Lisboa em que foi impugnada a liquidação não tem
a certeza se deve aplicar a diretiva. Quid iuris? (3 val.)
O mecanismo de reenvio prejudicial, seus objetivos, natureza e efeitos. As
categorias de reenvio: de interpretação ou de validade; facultativo ou
obrigatório. O reenvio facultativo e obrigatório, segundo o artigo 267.º do
TFUE. A jurisprudência “Foto-Frost” quando o tribunal nacional se incline
para a invalidade da diretiva.
Bom trabalho!
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
EXAME DE DIREITO DA UNIÃO EUROPEIA
11.01.2022 15.00 – 17.00
CRITÉRIOS E TÓPICOS DE CORREÇÃO
Em todas as questões, além do devido enquadramento normativo e dogmático, valoriza-se a
análise crítica e a clareza discursiva da exposição.
I
(6 valores)
Explique a relevância e os meios de tutela do “Estado de Direito” na UE, com o apoio do
excerto seguinte:
“Atualmente, as decisões no domínio do direito civil e comercial de qualquer tribunal nacional
devem ser automaticamente reconhecidas e executadas noutro Estado-Membro; (…) um
mandado de detenção europeu emitido num Estado-Membro deve ser executado noutro Estado-
Membro. Isto ilustra claramente porque é que todos os cidadãos europeus são afectados se o
Estado de direito não é plenamente respeitado num determinado Estado-Membro - o que
ameaça o funcionamento da União Europeia como um “reino” de liberdade, segurança e justiça
sem fronteiras internas. É por isso que a capacidade da União Europeia para defender o Estado
de direito é essencial, porque se trata de valores fundamentais, de “quem somos”.”
Alessandra Silveira, Joana Covelo de Abreu (Editors), “Review of Portuguese Association of European
Law’s webinar on the rule of law protection in the European Union”, OFFICIALBLOGUNIO, 14.06.2021
- O compromisso axiológico da UE e dos EM, desde o caso “Verdes/PE” até ao art. 2.º
TUE. As múltiplas dimensões do Estado de Direito (v.g. legalidade e proteção dos
direitos fundamentais, em especial a proteção jurisdicional efetiva, a independência
judicial). Para além da sua relevância autónoma, no quadro do artigo 2.º, tem uma
relevância instrumental nos diversos domínios de ação da UE, nomeadamente no
âmbito do ELSJ, v.g. como condição para execução do MDE, e, em geral, para
salvaguardar a efetividade do DUE (art. 19.º TUE);
- A tutela prevista no art. 7.º TUE (descrição e explicação sucinta) e a submissão à tutela
geral da ação por incumprimento, de acordo com o artigo 258.º TFUE.
II
(8 valores)
Em 22 de dezembro de 2021, a Comissão Europeia propôs uma diretiva que garante uma taxa
de imposto efetiva mínima para as atividades globais de grandes grupos multinacionais. A
proposta segue de perto o acordo internacional no âmbito da OCDE/G20 e define a forma como
os princípios da taxa de imposto efetiva de 15% - acordada por 137 países - serão aplicados na
prática na UE. Inclui um conjunto comum de regras sobre como calcular esta taxa de imposto
efetiva, para que seja aplicada de forma adequada e consistente em toda a UE. A Proposta
apresenta como base jurídica o artigo 115.º TFUE.
a) Durante o debate no Coreper, alguns EM apresentam objeções i) à base jurídica
apontada, em especial considerando o artigo 113.º TFUE, e até ii) à existência de
competência da UE na matéria. Analise a função do Coreper e a questão da
competência. (5 valores)
O Comité dos Representantes Permanentes (Coreper) enquanto instância preparatória
política, jurídica e procedimental das reuniões do Conselho da UE, estando-lhe
subordinado (cfr. arts.º 16.º, n.º 7 TUE e art.º 240.º TFUE).
O Coreper como primeiro nível adequado à discussão da base jurídica da proposta de
Diretiva.
Identificação das funções do Coreper: preparar os trabalhos do Conselho da UE, executar
os mandatos conferidos pelo Conselho, zelar pela coerência das políticas e ações da UE e
pela observância dos princípios da legalidade, subsidiariedade, proporcionalidade e
fundamentação dos actos e das regras que fixam a competência das instituições, órgãos
e organismos da UE e, ainda, das regras processuais e procedimentais (cfr. art.º 19.º, n.º
1 do Regulamento Interno do Conselho).
///
No que respeita aos pontos i) e ii):
§ a UE enquanto entidade que possui “competências de atribuição” previstas nos
Tratados (maxime, no TFUE – art.º 1.º, n.º 1).
§ referência e explicitação do princípio da atribuição previsto no art. os 4.º, n.º 1 e 5.º,
[Link] 1 e 2 TUE e sua intervenção na delimitação das competências da União, atenta a
ausência de competências genéricas, maxime a “competência das competências”.
§ menção aos restantes princípios que intervêm no exercício das atribuições da UE:
princípios da subsidiariedade e da proporcionalidade (art.º 5.º, [Link] 3 e 4 TUE e Protocolo
respetivo).
Valorizou-se, em particular, a referência à classificação/categorização das competências da UE.
§ Afastamento do recurso ao art.º 113.º TFUE como base jurídica a Diretiva proposta,
porquanto se aplica a impostos indiretos.
§ Recondução da proposta de Diretiva à aproximação de legislações com incidência
direta no estabelecimento e funcionamento do mercado interno, nos termos do art.º
115.º TFUE. Concluir pela presença, in casu, de uma competência partilhada
concorrente – art.º 4.º, n.º 2, al. a) TFUE.
b) O representante de um EM, não tendo assumido qualquer compromisso internacional
na matéria, manifesta a sua oposição. Será possível adotar a proposta? Justifique. (3
valores)
Menção à composição do Conselho: um representante de cada Estado-Membro ao nível
ministerial com poderes para vincular o Governo e exercer o direito de voto (art.º 16.º,
n.º 2 TUE)
Identificação da maioria qualificada como regra de deliberação no Conselho da UE (art.º
16.º, n.º 3 TUE), com um duplo critério geográfico e demográfico, e à minoria de bloqueio
(art.º 16.º, n.º 4 TUE).
Além da maioria qualificada, os Tratados podem prever que o Conselho delibere por
maioria simples ou por unanimidade. Nestes casos, a regra é a de que a cada
Estado-Membro corresponda um voto. Além disso, as abstenções não contam para a
formação da unanimidade (art.º 238.º, n.º 4 TFUE).
Na nossa hipótese, independentemente da base jurídica utilizada (art.º 113.º ou 115.º
TFUE), o Conselho da UE tinha, por força das sobreditas disposições dos Tratados, de
deliberar por unanimidade para adotar uma proposta de Diretiva, através de um
procedimento legislativo especial, pelo que o voto contra do representante de um
Estado-Membro impediria a adoção da proposta de ato jurídico pela UE.
III
(6 valores)
A Diretiva 2006/112/CE do Conselho, de 28 de novembro de 2006, relativa ao sistema comum
do imposto sobre o valor acrescentado, prevê, no seu artigo 2.º, n.º 1, al. c), que estão sujeitas
ao IVA “as prestações de serviços efetuadas a título oneroso no território de um Estado‑Membro
por um sujeito passivo agindo nessa qualidade”.
A alínea a) do n.º 1 do artigo 1.º do Código do IVA português tem teor idêntico, referindo-se às
transmissões de bens e às prestações de serviços efetuadas no território nacional. Por sua vez,
o artigo 16.°, n.° 6, alínea a) do Código do IVA exclui da tributação “(…) as quantias recebidas a
título de indemnização declarada judicialmente, por incumprimento total ou parcial de
obrigações”.
A Lei n.° 5/2004, «Lei das Comunicações Eletrónicas», prevê no seu artigo 48.º, n.º 11 que
“[d]urante o período de fidelização, os encargos para o assinante, decorrentes da resolução do
contrato por sua iniciativa, não podem ultrapassar os custos que o fornecedor teve com a
instalação da operação, sendo proibida a cobrança de qualquer contrapartida a título
indemnizatório ou compensatório”.
Finalmente, o artigo 1.° do Decreto-Lei n.° 56/2010 dispõe que o «presente decreto-lei
estabelece limites à cobrança de quantias pela rescisão do contrato durante o período de
fidelização, garantindo os direitos dos utentes nas comunicações eletrónicas e promovendo uma
maior concorrência neste setor». O artigo 2.º determina esses limites.
Em 2018, a empresa de comunicações “Voz”, seguindo o entendimento da Autoridade Tributária
e Aduaneira (AT), entregou ao Estado o IVA cobrado na sequência da resolução de contratos por
iniciativa dos utentes durante o período de fidelização, no montante de € 250.000,00. Todavia,
a empresa entende que os referidos valores não são a contrapartida da prestação de um serviço,
mas, sim, uma cláusula penal, de natureza indemnizatória, pelo que não deveriam ser sujeitos a
IVA.
Nesta sequência, a “Voz” apresentou reclamação junto da AT. Tendo esta sido indeferida, a
empresa requereu, então, a constituição do tribunal arbitral que funciona no Centro de
Arbitragem Administrativa (CAAD), ao abrigo do Decreto-Lei n." 10/2011, o que foi aceite.
Segundo o artigo 2.º, n.º 2 do referido decreto-lei, os tribunais arbitrais [tributários] decidem de
acordo com o direito constituído, sendo vedado o recurso à equidade. A Portaria n.º 112-A/2011
vincula a AT à jurisdição daqueles tribunais arbitrais, nos litígios de valor não superior a €
10.000.000,00.
A “Voz” solicitou, tanto na reclamação junto da AT como no requerimento para o Tribunal
Arbitral, que fosse feito o reenvio para o TJ para que este esclareça se os valores cobrados
estariam abrangidos pelo âmbito do artigo 2.º da Diretiva.
a) Poderá o Tribunal Arbitral fazer o reenvio? (2 valores)
Alusão ao mecanismo das questões prejudiciais previsto no art.º 267.º TFUE como um
instrumento de cooperação judiciária, ou “diálogo juiz a juiz”, entre os órgãos
jurisdicionais nacionais e o TJUE com o objetivo de garantir o princípio da uniformidade
da aplicação do DUE e a tutela jurisdicional efectiva, atenta a aplicação descentralizada
do Direito da União (os tribunais nacionais como “tribunais comuns de DUE”).
O reenvio prejudicial enquanto mecanismo que permite a formulação de questões de
interpretação do direito originário e derivado (art.º 267.º, al. a) e b) TFUE) e questões
relativas à validade do direito derivado (idem, al. b). Identificação, no caso, de um reenvio
de interpretação.
Explicitação da noção de órgão jurisdicional nacional como conceito autónomo de DUE.
A qualificação pelo TJUE de um órgão como jurisdicional depende de critérios materiais,
orgânicos e processuais, ademais se exigindo a verificação de certos requisitos, tais como
a composição heterodeterminada, a sujeição às regras do processo contraditório, a
aplicação do direito e não da equidade, a independência e imparcialidade, a
permanência, a origem legal ou a jurisdição obrigatória.
Atendendo aos elementos do caso prático (decisão de acordo com o direito constituído e
jurisdição obrigatória nos litígios de valor não superior a € 10.000.000,00), concluir pela
recondução do Tribunal Arbitral Tributário à noção de órgão jurisdicional nacional, com
legitimidade para proceder ao reenvio.
Valorizava-se a referência ao processo Ascendi c. Autoridade Tributária (C-377/13).
b) A AT considera o reenvio desnecessário porque “a norma é clara e até existe um acórdão
uniformizador de jurisprudência do STA, que deverá ser respeitado”. Quid iuris? (4
valores)
A qualificação de determinada questão como prejudicial e “necessária” (para efeitos de
reenvio) como competência exclusiva do órgão jurisdicional nacional, o que vale
igualmente para a decisão de proceder ao reenvio para o Tribunal de Justiça.
A distinção entre as modalidades do reenvio facultativo e do reenvio obrigatório (art.º
267.º, § 2-3 TFUE).
Identificação de uma modalidade de reenvio facultativo, a não ser que a decisão daquele
Tribunal não admita recurso ordinário. De todo o modo:
Ainda que se tratasse de uma hipótese de reenvio obrigatório de interpretação,
o tribunal nacional só estaria isento do dever de submeter a questão ao TJUE em
três hipóteses: i) a questão não é pertinente à decisão do litígio, ii) a disposição
de DUE já foi objeto de decisão anterior pelo TJUE (teoria do ato aclarado), ou iii)
a correta interpretação da disposição é de tal forma evidente que não dá lugar a
nenhuma dúvida razoável (teoria do ato claro). Referência à jurisprudência Cilfit
no reconhecimento e desenvolvimento da teoria do ato claro.
A existência de um acórdão uniformizador de jurisprudência anterior não impede que o
juiz nacional recorra ao mecanismo do reenvio prejudicial se entender que tal é
“necessário ao julgamento da causa”, podendo até apontar, no limite, para a ausência de
“clareza” da norma de DUE por via da existência de decisões jurisdicionais contraditórias
(embora não se trate de argumento decisivo).
Valoriza-se a referência à competência exclusiva do TJUE para dirimir dúvidas relativas à
interpretação e validade do Direito da União.
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
DIREITO DA UNIÃO EUROPEIA
EXAME DA ÉPOCA NORMAL
10.01.2024 | 10h-12h00
NB: na avaliação é valorizada a clareza do discurso, a articulação dos conteúdos programáticos relevantes e a
fundamentação normativa e jurisprudencial.
GRUPO I
(4 valores)
O artigo 2.º do TUE não é apenas uma “bússola orientadora”, é um quadro normativo imperativo para
a União e para os EM. No processo C-769/22, a Comissão Europeia utilizou o artigo 2.º como
fundamento autónomo no pedido de condenação da Hungria por violação das obrigações que lhe
incumbiam por força do direito da União. Os tratados preveem outros meios de tutela dos valores
inscritos nessa disposição. Indique e explique brevemente os referidos meios.
Indicação dos meios (judiciais: ação por incumprimento – artigo 258.º TFUE; políticos: artigo 7.º
para os EM; artigo 49.º para os Estados candidatos; financeiros: regulamento da condicionalidade,
etc.). Explicação da natureza e dos traços principais de cada um deles.
GRUPO II
(16 valores)
Na Hungria, a Lei LXXIX, de 2021, adota medidas mais restritivas contra pessoas condenadas por
pedofilia e modifica determinadas leis de proteção dos menores. Entre essas medidas, proíbe o acesso
pelos menores a conteúdos digitais, incluindo publicitários, que promovam ou retratem a mudança de
género ou a homossexualidade.
A Comissão entende que essas medidas violam o artigo 2.º do TUE, o artigo 56.º do TFUE e os artigos
1.º, 7.º, 11.º e 21.º da CDF, bem como diversas disposições da Diretiva 2000/31/CE, sobre comércio
eletrónico, e diversas disposições da Diretiva 2006/123/CE, relativo aos serviços no mercado interno.
1 – Serão as medidas indicadas da Lei LXXIX contrárias às referidas disposições do TUE, do
TFUE e da CDF? (4 val.)
Indicação com justificação dos valores/princípios violados, incluindo os da CDF (dignidade humana,
igualdade, respeito dos direitos humanos, incluindo minorias, não discriminação, tolerância). A
violação das disposições da Carta e da livre prestação de serviços e o alcance normativo dessas
disposições (primado), bem como o desrespeito do princípio da cooperação leal (artigo 4.º, n.º 3 do
TUE). Indicação da jurisprudência relevante.
2 – Como poderá a Comissão assegurar o respeito do Direito da União pela Hungria? (2 val.)
A competência da Comissão de controlo da aplicação do direito da União como guardiã dos Tratados
(artigo 17.º do TUE), sob a fiscalização do TJ. A ação por incumprimento (artigo 258.º do TFUE).
Indicação da competência do TJ.
Na sequência da entrada em vigor da referida Lei e de acordo em o regime previsto, a agência de
fiscalização das atividades económicas determinou a retirada de todos os estabelecimentos comerciais
de livros infantojuvenis com a referida temática.
A rede de livrarias LNAC recusou-se a retirar o referido livro dos seus estabelecimentos e, em virtude
disso, a referida agência de fiscalização das atividades económicas aplicou-lhe uma coima e
apresentou uma denúncia ao Ministério Público. Este avançou com um procedimento criminal. A
LNAC recusou-se a pagar a coima. Nos processos judiciais que se seguiram, requereu a extinção dos
processos e a não aplicação da Lei, com fundamento na violação do Direito da União. Por sua vez, o
Ministério Público invocou a salvaguarda da identidade constitucional húngara, nomeadamente a
proteção da família e das crianças, para obstar aos pedidos da LNAC.
3 – Aprecie os pedidos e os fundamentos da LNAC e do Ministério Público à luz do Direito da
União. (6 val.)
O princípio da cooperação leal e a obrigação negativa prevista no artigo 4.º, n.º 3 do TUE. Indicação
dos efeitos normativos das disposições dos atos da União em causa: diretiva, Tratados e CDF
(discussão do efeito direto e primado); a vinculação das autoridades nacionais, nomeadamente a
agência, o MP e os tribunais, incluindo o conceito de Estado; a obrigação de desaplicação do direito
nacional; jurisprudência relevante.
4 – K., autora de um livro retirado do mercado, alega ter sofrido elevados prejuízos morais e
patrimoniais da retirada do livro do mercado. Terá direito ao ressarcimento desses prejuízos?
(4 val.)
Indicação da relevância do princípio da responsabilidade dos Estados pelo incumprimento do Direito
da União; pressupostos da responsabilidade; jurisprudência relevante.
Bom trabalho!
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
DIREITO DA UNIÃO EUROPEIA
EXAME DA ÉPOCA DE RECURSO
06.02.2025 | 10h00-12h00
NB: na avaliação foi valorizada a clareza e a correção do discurso, a articulação dos conteúdos
programáticos relevantes e a fundamentação normativa e jurisprudencial.
GRUPO I
(5 valores)
O Mercado Único é essencial para criar dimensão continental num mundo de
gigantes. Há 30 anos que o Mercado Único dá provas como motor da competitividade
europeia. É hoje o mercado doméstico de 23 milhões de empresas, que fornecem
bens e serviços a quase 450 milhões de europeus. As empresas beneficiam da livre
circulação e de condições de negócio previsíveis, apoiadas pela garantia do respeito
pelo Estado de Direito. No entanto, o Mercado Único está longe de estar concluído.
Apesar dos recorrentes esforços para remover barreiras à livre circulação de bens,
serviços, capitais e pessoas, certos obstáculos persistem teimosamente, à medida que
novos obstáculos e fontes de fragmentação vão surgindo. Remover as barreiras que
se mantêm e expandir o Mercado Único ajudará à competitividade da UE em todas
as suas dimensões.
Comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu, ao Conselho Europeu, ao Conselho, ao Comité Económico e Social e ao
Comité das Regiões, Uma Bússola da Competitividade para a UE, Bruxelas, 29.1.2025, COM(2025) 30 final. (adaptado)
Comente o excerto anterior, referindo-se aos mecanismos jurídicos (incluindo
aqueles com origem jurisprudencial) que contribuem para a remoção de barreiras
no funcionamento do mercado interno.
§ O estabelecimento do mercado interno como objetivo setorial principal imediato da
UE (art.º 3.º, n.º 3 TUE). O mercado interno como espaço sem fronteiras internas, no
qual estão garantias as “quatro liberdades” fundamentais, a saber: livre circulação
de pessoas, mercadorias, serviços e capitais (art.º 26.º, n.º 2 TFUE). A eliminação
progressiva de barreiras aduaneiras, alfandegárias e não alfandegárias ao
funcionamento do mercado interno (da obrigação de stand still (Van Gend) aos
atuais artigos 30.º e ss. do TFUE).
§ A harmonização e uniformização jurídica no mercado interno, designadamente a
aproximação das disposições legislativas, regulamentares e administrativas
nacionais por via da competência funcional atribuída pelo art.º 114.º TFUE. A
possibilidade de adoção de regulamentos e diretivas (art.º 288.º TFUE). As diretivas
como via preferencial para alcançar a harmonização jurídica. Justificação.
§ Nos domínios não harmonizados, a importância da jurisprudência Cassis de Dijon e
do princípio do reconhecimento mútuo. Significado do princípio e suas exceções.
Atualmente, aplicação do art.º 34.º a 36.º do TFUE, com as devidas consequências;
as derrogações como potenciais barreiras ao pleno funcionamento do mercado
interno.
GRUPO II
(15 valores)
Em novembro de 2012, a Comissão Europeia apresentou ao Conselho e ao Parlamento
Europeu uma proposta de Diretiva relativa à melhoria do equilíbrio de género entre
homens e mulheres nos cargos de administração das empresas cotadas em bolsa. A
referida proposta estabelecia como objetivo que os Estados-Membros assegurassem que
os conselhos de administração das empresas cotadas em bolsa fossem preenchidos em
pelo menos 40 % por elementos do sexo sub-representado (maioritariamente o feminino).
1. A União Europeia tem competência para legislar sobre esta matéria? (4 val.)
§ A UE enquanto entidade que possui “competências de atribuição” previstas nos
Tratados (maxime, no TFUE – art.º 1.º, n.º 1). O princípio da atribuição previsto no
art.ºs 4.º, n.º 1 e 5.º, n.ºs 1 e 2 TUE na delimitação/repartição das competências
da União com a ausência de competências genéricas, próprias e inerentes,
maxime a “competência das competências”.
§ Enumeração da categorização das competências da UE introduzida com o Tratado
de Lisboa: competências exclusivas (art.º 2.º, n.º 1 e art.º 3.º TFUE), competências
partilhadas (art.º 2.º, n.º 2 e art.º 4.º TFUE) e os seus vários tipos (partilhadas
concorrentes, com aplicação do princípio da preempção – art.º 2.º, n.º 2 TFUE,
partilhadas paralelas e partilhadas de coordenação – art.º 2.º, n.º 3 e art.º 5.º
TFUE) e competências complementares, de apoio e de coordenação (art.º 2.º, n.º
5 e art.º 6.º TFUE).
§ In casu, identificação de uma hipótese relativa à política social, logo uma competência
partilhada de coordenação (art.º 5.º, n.º 3 TFUE), sendo a base jurídica para a adoção
do ato o art.º 157.º, n.º 3 TFUE.
As negociações da proposta de Diretiva revelaram-se particularmente difíceis. Os
Parlamentos nacionais de 17 Estados-Membros informaram a Comissão que entendiam
estar melhor posicionados para legislar sobre a matéria e, eventualmente, definir metas
nacionais, visto que a sub-representação das mulheres nos órgãos de administração varia
de país para país. Apesar dos argumentos avançados pela Comissão, em sessão plenária,
51 % dos eurodeputados presentes deram razão aos Parlamentos nacionais.
2. Quais as consequências desta votação do Parlamento Europeu? (3 val.)
§ O princípio da subsidiariedade (art.º 5.º, n.ºs 1 e 3 TUE) e as suas implicações no
que toca ao concreto exercício das competências partilhadas entre a UE e os EM.
§ O controlo político do princípio da subsidiariedade pelos Parlamentos nacionais,
nos termos dos Protocolos n.ºs 1 e 2. Funcionamento e sentido.
§ Resolução do caso por aplicação do n.º 3 do art.º 7.º do Protocolo n.º 2 e a
consequência da votação do PE: a proposta de Diretiva não poderia continuar a ser
analisada.
Suponha, agora, que a proposta acabou por ser aprovada com modificações. Em
07.12.2022 foi publicada a Diretiva (UE) 2022/2381 do Parlamento Europeu e do
Conselho, de 23 de novembro de 2022, relativa à melhoria do equilíbrio de género nos
cargos dirigentes de empresas cotadas. A Diretiva prevê, entre outros, o seguinte:
Artigo 1.º
A presente diretiva visa alcançar uma representação de mulheres e homens mais
equilibrada entre os dirigentes das empresas cotadas, estabelecendo medidas eficazes
destinadas a assegurar progressos rápidos no sentido do equilíbrio de género, dando
simultaneamente às empresas cotadas tempo suficiente para procederem às adaptações
necessárias para o efeito.
Artigo 5.º
1. Os Estados-Membros asseguram que as empresas cotadas ficam obrigadas a cumprir
um dos seguintes objetivos, a atingir até 30 de junho de 2024:
a) Os membros do sexo sub-representado ocuparem pelo menos 40 % dos cargos de
dirigente não executivo;
b) Os membros do sexo sub-representado ocuparem pelo menos 33 % de todos os cargos
dirigentes, incluindo tanto os dirigentes executivos como os não executivos.
Artigo 11.º
Os Estados-Membros adotam e publicam, até 28 de dezembro de 2023, as disposições
legislativas, regulamentares e administrativas necessárias para dar cumprimento à
presente diretiva. Do facto informam imediatamente a Comissão.
3. A empresa G, cotada na bolsa portuguesa, elegeu para o mandato 2025-2030 os
seus órgãos sociais, exclusivamente compostos por homens. A é uma funcionária
sénior da empresa G e sente-se injustiçada pois considera ter mais mérito e
experiência do que o presidente do conselho de administração eleito. A decide,
então, processar a empresa G, invocando o incumprimento da Diretiva (UE)
2022/2381, que Portugal até hoje não transpôs. O Tribunal do Comércio de
Lisboa declara a ação improcedente. Quid iuris? (5 val.)
§ O princípio do efeito direto: consagração jurisprudencial, significado e requisitos
(a não verificação dos requisitos in casu).
§ Caracterização da diretiva enquanto ato jurídico exclusivamente destinado aos EM
e carecido de transposição para os ordenamentos jurídicos nacionais no prazo
pela mesma fixado (art.º 288.º TFUE). A obrigação dos EM transportem as diretivas
sob pena de incumprimento do DUE (art.º 4.º, n.º 3 TUE, art.ºs 288.º e 291.º TFUE).
A situação de incumprimento por parte de Portugal.
§ O efeito direto nas diretivas: da negação inicial à aceitação pelo TJUE do efeito
direto vertical em situações patológicas. Teleologia da solução.
§ Identificação, in casu, de uma relação horizontal, não reconduzível ao conceito
lato de Estado, logo a impossibilidade de invocação da norma da Diretiva.
Justificação para essa impossibilidade.
§ Potenciais vias alternativas ao dispor de A: interpretação conforme (consagração
jurisprudencial, condições e limites) e responsabilidade extracontratual do Estado
por violações do DUE (jurisprudência e requisitos).
4. Simultaneamente, A envia uma exposição à Comissão, instando-a a agir para
assegurar o cumprimento do Direito da União. Que ações poderá a Comissão
adotar? (3 val.)
§ A possibilidade de os cidadãos contactarem as instituições da UE, expondo as
questões que entendam relevantes no domínio do DUE, no quadro de uma
democracia participativa (art.º 11.º TUE, art.ºs 20.º, n.º 2, al. d) e 24.º TFUE).
§ A competência da Comissão enquanto “guardiã dos Tratados” – art.º 17.º, n.º 1 do
TUE.
§ A ação por incumprimento prevista no art.º 258.º e ss. do TFUE. Em especial, o
art.º 260.º, n.º 3 TFUE.
Bom trabalho!
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
EXAME DE DIREITO DA UNIÃO EUROPEIA
17/09/2021 10h00-12h00
Critérios de correção meramente indicativos
Comente a seguinte afirmação:
«[…] só pode ser protegida nos termos do artigo 4.°, n.° 2, TUE uma conceção da identidade
nacional que esteja em conformidade com os valores fundamentais da União...»
Conclusões da Advogada‑Geral, Juliane Kokott, apresentadas em 15 de abril de 2021, Processo C‑490/20, V.М.А.
contra Stolichna obshtina, rayon «Pancharevo» (Município de Sófia, distrito de Pancharevo, Bulgária)
(4 valores)
A «identidade europeia» e o conjunto de valores que a caracterizam.
O princípio do respeito pela identidade nacional (cf. n.º 2 do artigo 4.º do TUE) como princípio relativo ao
relacionamento da União com os Estados-Membros e seu significado/dimensões. A necessidade de evitar
ingerências em matérias que são da exclusiva competência dos Estados‑Membros.
Distinção entre o respeito pelas opções próprias de cada Estado‑Membro no respeitante às respetivas estruturas
políticas e constitucionais fundamentais e os casos em que não está em causa uma expressão fundamental da
identidade nacional, mas antes o exercício de uma liberdade ou a prossecução de um objetivo ou valor
fundamental da União (referência ao princípio do primado do Direito da União).
Valoriza-se a indicação de jurisprudência em que essa tensão ou distinção tenha sido abordada (Acórdão Garcia
Avello (C-148/02) e Acórdão Sayn-Wittgenstein (C-208/09).
II
Analise a seguinte situação:
A é proprietário de uma cadeia de bares de tapas, conhecida no trato comercial por
«Champanilho». Tendo disso tomado conhecimento, o Comité Interprofessionnel du Vin de
Champagne (‘CIVC’) - organismo de proteção dos interesses dos produtores de champanhe -,
intentou uma ação no tribunal nacional competente, para impedir a utilização do termo
«Champanilho» por A, alegando que a utilização desse sinal constitui uma violação da
denominação de origem protegida (DOP) «Champagne». O tribunal de primeira instância
julgou improcedentes todos os pedidos do CIVC, sob o fundamento de que o sinal é utilizado
para designar e publicitar os estabelecimentos de restauração, não visando a comercialização
de uma bebida alcoólica. Mais invocou, na sua fundamentação, um acórdão do STJ de 2016,
que considerara que a utilização do termo «Champìn» para comercializar uma bebida gasosa
sem álcool, destinada ao consumo por crianças, não violava a DOP «Champagne», atenta a
diferença entre os produtos em causa e o público a que se destinavam. Em sede de recurso, o
tribunal competente tem algumas dúvidas sobre se o artigo 103.º do Regulamento X, que
estabelece uma organização comum dos mercados dos produtos agrícolas, e que contém um
elenco de condutas proibidas, consistentes na utilização direta ou indireta de um nome que
explore a reputação de uma DOP, abrangerá situações em que o sinal em conflito com a DOP
não é utilizado para designar bebidas comparáveis, mas antes serviços.
1. Atenta a situação factual verificada, qual a via processual de que o tribunal de recurso
se poderá socorrer para esclarecer o sentido e o alcance da aplicação do referido artigo?
O facto de se tratar de um litígio já em segunda instância terá algum impacto nas
cautelas a observar pelo tribunal competente? (4 valores)
O reenvio prejudicial – artigo 267.º TFUE (objetivos, modalidades e processo).
Identificação de uma hipótese de reenvio de interpretação e discussão sobre a sua obrigatoriedade (teorias do
litígio concreto e abstrato ou orgânico e tomada de posição fundamentada).
2. Imagine, agora, que era proferido acórdão pelo Tribunal de Justiça, adotando um
entendimento contrário à interpretação adotada pelo acórdão do STJ de 2016. Teria essa
prolação algum impacto neste último? (2 valores)
Efeitos materiais e temporais do acórdão do Tribunal de Justiça.
A decisão proferida pelo Tribunal de Justiça é vinculativa para o juiz nacional que procede ao reenvio e, bem
assim, para os restantes tribunais nacionais e do espaço da União (justificação: uniformidade da aplicação do
Direito da União). Apesar disso, e não obstante configure uma das exceções à obrigatoriedade de reenvio, não
fica excluída a possibilidade de novo reenvio sobre a questão.
Regra quanto aos efeitos temporais nos acórdãos interpretativos: produção de efeitos ex tunc, com possibilidade
de limitação, pelo TJ, dos efeitos no tempo. A importância da força de caso julgado, também no espaço da União
vis-à-vis a necessidade de uniformidade (os casos limitados de possibilidade de revisão das decisões que se
venham a revelar incompatíveis com o Direito da União).
3. O artigo 115.º do Regulamento X determina que «a prática intencional ou negligente
de qualquer uma das condutas elencadas no artigo 103.º pode determinar as seguintes
sanções administrativas: a) pagamento de multa […]». O artigo seguinte declara, por
sua vez, que «as medidas e sanções administrativas referidas no artigo anterior estão
previstas em regulamentos setoriais em conformidade com o presente Regulamento.».
B, estudante da licenciatura em Direito, entende que as disposições do Regulamento
constituem base jurídica suficiente para a aplicação das sanções. Já C considera que
aqueles artigos não são suficientes. Considerando o que estudou a propósito dos
Regulamentos, diga, fundamentadamente, quem terá razão. (4 valores)
Caracterização do Regulamento e suas características: em particular, a aplicabilidade direta e distinção face ao
efeito direto (cf. artigo 288.º, n.º 2 TFUE).
Distinção entre aplicabilidade direta e aplicabilidade imediata: a eventual necessidade de outros atos normativos
que complementem o Regulamento, sem os quais poderá não haver ser possível a produção da plenitude dos
efeitos (não afetando, porém, a vigência). In casu, a necessidade de recurso a outras disposições externas ao
Regulamento, para que se possa criar uma sanção com aplicação direta.
Valoriza-se o apelo aos princípios da legalidade e da segurança jurídica como princípios gerais de Direito da
União.
4. Considere que no litígio acima referido, já em última instância, a decisão judicial afasta-
se do acórdão do Tribunal de Justiça. Um deputado do Parlamento Europeu questiona
por escrito a Comissão sobre o que pretende fazer relativamente a condutas judiciais
que apelida de «flagrante e sistemático desrespeito pelo Direito da União». Em que
tipo de competências do PE se integra a atuação descrita do deputado? (2 valores)
Os poderes do Parlamento Europeu, em particular, de controlo do executivo (cf. artigos 13.º e 14.º TUE e 230.º
TFUE) – a possibilidade de qualquer deputado formular perguntas com pedido de resposta escrita à Comissão.
A tripla dependência da Comissão face ao Parlamento Europeu e, em particular, a dependência funcional
(valoriza-se a referência a exemplos ou manifestações).
5. A Comissão considera que é já reiterado o desrespeito pelo direito da União e declara
que, «após análise da situação, não hesitará em agir de acordo com o Tratado».
Indique e explique a ação que a Comissão pode adotar. (4 valores)
O conjunto de mecanismos destinados a assegurar o respeito pela matriz axiológica da União Europeia. Relação
com os poderes da Comissão, enquanto guardiã dos Tratados.
Em particular, o mecanismo do artigo 7.º TUE, e a distinção entre o disposto no n.º 1 (verificação de um risco
manifesto) e no n.º 2 (verificação da existência de violação grave e persistente dos valores referidos no artigo 2.º
TUE) – a proposta fundamentada da Comissão.
Referência às várias Comunicações da Comissão na matéria, em particular, a Comunicação da Comissão ao
Parlamento Europeu e ao Conselho, Um novo quadro da UE para reforçar o Estado de direito, Estrasburgo
11.03.2014, COM (2014) e procedimento prévio aí previsto.
Ainda, a ação por incumprimento. Regime comum previsto nos artigos 258.º a 260.º TFUE. No que respeita à
sua tramitação, identificação e explicitação da existência de três fases principais (ou duas fases, e um
antecedente).
Bom trabalho!
EXAME DE DIREITO DA UNIÃO EUROPEIA – ÉPOCA DE RECURSO
04.02.2020 10h00
Critérios meramente indicativos de correção
Grupo I
(5 valores)
«a solidariedade entre os Estados-Membros não é uma opção, mas uma obrigação decorrente
dos Tratados e faz parte dos valores fundamentais europeus»
Resolução do Parlamento Europeu, de 17 de abril de 2020, 2020/2616(RSP)
Considerando a atual situação epidemiológica que afeta, de forma transversal, todos os
Estados-Membros, e partindo da afirmação supra, discorra sobre a importância de uma ação
concertada a este nível, referindo-se, nomeadamente, ao princípio fundamental de Direito da
União aqui relevante, seu significado e sentido, e respetiva base normativa.
Pretende-se que o estudante discorra sobre a importância do princípio da solidariedade,
perante a crise epidemiológica provocada pela Covid-19, a qual, pese embora transversal,
afeta os Estados-Membros de forma distinta.
O princípio da solidariedade, significado e previsão: em particular, a referência no preâmbulo
TUE e nos seus artigos 2.º e 3.º e a cláusula de solidariedade do artigo 222.º do TFUE.
Manifestações particulares do princípio da solidariedade entre Estados-Membros: tratamento
prestado a doentes provenientes de outros Estados-Membros, fornecimento de equipamentos,
etc.
Ponderação da importância de um mecanismo «europeu», destinado a fazer face a esta
situação (valoriza-se a referência ao artigo 168.º do TFUE).
Grupo II
(6 valores)
Na Bélgica - Estado que compreende quatro regiões linguísticas - vigora um Decreto de 1973,
que visa promover e estimular a utilização das suas línguas oficiais, em matéria de relações
sociais, e que determina que, quando um empregador tem a sua sede de exploração na região
de língua neerlandesa, essa será a língua na qual deverão, sob pena de nulidade, ser redigidos
os contratos de trabalho. Com base num contrato de trabalho, celebrado em 2004, e redigido
em inglês, X, cidadão neerlandês residente nos Países Baixos, foi contratado pela sociedade Y,
sediada na Bélgica, numa região de língua neerlandesa, para aí exercer as funções de diretor
financeiro. X foi despedido em setembro de 2009, e decide propor uma ação no Tribunal
competente, invocando a nulidade do seu contrato de trabalho, porquanto celebrado em
violação das disposições da legislação nacional que impunham a utilização da língua
neerlandesa. Citada para contestar, Y alega que a norma do Decreto nacional deverá ser
afastada pelo Tribunal, porquanto desconforme com o artigo 45.º do TFUE.
Questão inspirada na factualidade do processo
Considerando os princípios e normas de Direito da União aplicáveis, aprecie, de forma
fundamentada, o caso.
A liberdade de circulação dos trabalhadores prevista no artigo 45.º do TFUE e sua
aplicabilidade à relação laboral entre X, cidadão neerlandês e Y, sociedade, com sede na
Bélgica.
Objetivos da liberdade de circulação: inter alia, a facilitação do exercício de atividades
profissionais.
Identificação de uma restrição a essa liberdade: apesar da inexistência de uma discriminação
em razão da nacionalidade: a legislação nacional poderá ter por consequência obstaculizar
ou dificultar o exercício dessas atividades, ao exigir a redação do contrato numa das quatro
línguas oficiais da Bélgica (que nem todos os trabalhadores, de outros Estados-Membros,
dominam).
Justificação das restrições: apenas quando necessárias para satisfazer um objetivo de
interesse geral, devendo respeitar-se o princípio da proporcionalidade.
Quanto ao objetivo: possibilidade de adoção de uma política nacional que vise a defesa e a
promoção de uma ou das línguas oficiais de um Estado‑Membro (artigo 3.º, n.º 3, §4 e 4.º, n.º
2 do TUE e artigo 22.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia) – os princípios
da identidade nacional e da diversidade cultural e linguística.
Quanto à proporcionalidade: existência de vias alternativas, menos restritivas do direito.
Nomeadamente, a possibilidade de redação de duas versões linguísticas do contrato (aceitam-
se outras, desde que devidamente fundamentadas).
Consequência: afastamento da via da interpretação conforme da norma nacional, por implicar
interpretação contra legem; afastamento da norma nacional, à luz do princípio do primado
(valorizam-se as referências jurisprudenciais).
Grupo III
(9 valores)
Em 27 de dezembro de 2001, o Conselho adotou um Regulamento relativo a medidas restritivas
específicas de combate ao terrorismo, que determina, no seu artigo 2.º, o seguinte: «a) [São
congelados] todos os fundos [outros activos financeiros e recursos económicos] que sejam
propriedade das pessoas singulares ou colectivas, grupos ou entidades incluídos na lista a
que se refere o n.° 3, ou por ela possuídos ou detidos». Através da Decisão 2002/334, do
Conselho, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PTC) foi incluído na referida lista. O
Congresso Nacional do Curdistão (CNC), federação que tem por objetivo «reforçar a unidade
e a cooperação dos Curdos em todo o Curdistão e apoiar a sua luta à luz dos superiores
interesses da nação curda», e que é financiada parcialmente pelo PTC, considera que aquela
Decisão restringe as suas atividades, pois que os ativos de quem colabore com uma entidade
inscrita naquela lista serão congelados. Mais considera que a Decisão do Conselho encerra erro
manifesto, ao incluir o PTC na lista de entidades abrangidas, dado que, desde 1999, este tem
vindo a fomentar a adoção de ações não violentas, não tendo sido avançados quaisquer
fundamentos para tal inclusão.
1. Identifique qual o meio processual de que o CNC dispõe, em abstrato, para impugnar
a Decisão 2002/334, mais analisando se os respetivos pressupostos de legitimidade se
encontram preenchidos, in casu. (4 valores)
Identificação do meio processual aplicável: recurso de anulação – artigo 263.º TFUE
(possibilidade de impugnação da Decisão nos termos do n.º 1).
O CNC como recorrente ordinário, que necessita de fazer prova de que a Decisão lhe diz i)
direta e ii) individualmente respeito (jurisprudência Plaumann – afastamento de uma decisão
que atinge o particular em razão de determinadas qualidades que lhe são próprias ou de uma
situação de facto que o caracteriza em relação a qualquer outra pessoa).
A generalidade da proibição de colaboração com alguma das entidades inscritas na lista
controvertida: que tem como destinatários todos os sujeitos de direito da UE que
potencialmente preencham o âmbito normativo, e não apenas o CNC.
Imagine, agora, que na sequência de buscas realizadas no seu domicílio pessoal, o Ministério
Público alemão reuniu provas de que Z, cidadão alemão, realizara várias doações a favor do
PTC, tendo sido, em consequência, instaurado o devido procedimento criminal. Em audiência
de julgamento, junto do Tribunal nacional de primeira instância, Z alegou que a inscrição do
PTC na lista era inválida e, por isso, não podia constituir o fundamento legal da sua condenação
penal. Mais referiu que, por acórdão de 29 de junho de 2010, no processo C‑550/09, o Tribunal
de Justiça concluíra pela invalidade da inscrição nessa lista de uma outra organização, sendo
de aplicar ao caso a mesma jurisprudência, mutatis mutandis.
2. Imagine que o juiz nacional tem dúvidas a propósito da legitimidade da incriminação
de Z. De que expediente processual poderá o juiz nacional servir-se, e que cuidados
deverá ter? (5 valores)
O reenvio prejudicial – artigo 267.º TFUE (objetivos e modalidades).
Identificação de uma hipótese de reenvio de validade, e sua obrigatoriedade, caso o juiz
propenda para a consideração do ato como inválido (jurisprudência Foto-Frost e
interpretação contra legem do artigo 267.º, §3 TFUE). O juiz nacional, mesmo não decidindo
em última instância, estará obrigado a proceder ao reenvio.
O facto de existir jurisprudência anterior não afeta esta conclusão, dado que os Tribunais
nacionais não têm competência para declarar a invalidade de atos de Direito da União.
Diferente seria se, em acórdão anterior, o TJ tivesse expressamente declarado a invalidade da
inscrição do PTC naquela lista (caso em que a declaração de invalidade obrigaria todo e
qualquer Tribunal nacional).
Efeitos materiais da declaração de invalidade: o juiz não poderá aplicar o ato da União
declarado inválido.
Questões inspiradas na factualidade dos processos C‑229/05 P e C‑458/15
TESTE AVALIAÇÃO DISTRIBUÍDA
Direito da União Europeia
Ano letivo 2020/2021
Duração: 2h00
N.B.: fundamente as suas respostas, com base nas normas dos Tratados e na Jurisprudência
relevante.
Critérios de correção meramente indicativos
I.
«Embora os Estados-Membros tenham identidades nacionais, sistemas jurídicos e tradições
diferentes, no essencial, a noção de Estado de direito é a mesma em toda a UE. O respeito do
Estado de direito é essencial para que os cidadãos e as empresas confiem nas instituições
públicas e os seus princípios fundamentais são apoiados por cidadãos em todos os Estados-
Membros»
Comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu, ao Conselho, ao Comité Económico e Social Europeu e Ao
Comité Das Regiões, Bruxelas, 30.9.2020, COM(2020) 580 final, Relatório de 2020 sobre o Estado de Direito
Partindo da passagem, e tendo em mente os valores em que assenta a União Europeia, analise
a forma como os Tratados procuram assegurar o respeito pelo Estado de direito, enquanto
elemento de pertença à União, referindo-se a ocorrências recentes que possam vir a justificar a
adoção de outro tipo de medidas. (5 valores)
O princípio do Estado de Direito – consagrado no artigo 2.º do TUE, enquanto integrante do
leque de valores em que se funda a União (diferença do Direito da UE face ao Direito
Internacional); requisito para a adesão de novos Estados à União (artigo 49.º do TUE) – sem
consequências, porém, ao nível da consagração de uma «saída forçada», e exigência inerente
ao segundo parágrafo do n.º 1 do artigo 19.º do TUE, introduzido com o Tratado de Lisboa
(TL).
O procedimento (político) previsto no artigo 7.º do TUE e respetivas insuficiências
(necessidade de uma decisão do Conselho, por unanimidade, nos termos do n.º 2 do artigo 7.º
do TUE).
A ação por incumprimento, prevista nos artigos 258.º-260.º TFUE e respetivos limites –
imposição de sanções pecuniárias, sem repercussões na qualidade de Estado-Membro.
Referência a processos e circunstâncias recentes que justificaram o acionar, pela primeira
vez, do mecanismo previsto no artigo 7.º. Os casos da Hungria e da Polónia - processos C-
619/18 (Comissão Europeia c. República da Polónia) e C-216/18 PPU (Pedido de decisão
prejudicial apresentado pela High Court -Irlanda).
Discussão sobre a eventual necessidade de consagração de mecanismos mais efetivos (ou
modificação dos atualmente existentes, de forma a se ultrapassarem as respetivas
dificuldades).
II.
Considere a seguinte situação hipotética
Em 23.07.2020, a empresa checa X, que explora veículos pesados de mercadorias, não
procedeu ao pagamento de uma portagem, antes de um dos seus veículos entrar no troço
portajado de uma estrada. Em consequência, foi multada pela autoridade administrativa
competente, numa coima no valor de €470, que aquela, por considerar um montante
desproporcionado, impugnou junto do Tribunal nacional competente. X invocou, para o efeito,
que a legislação nacional aplicável nesta sede se revelava incompatível com o direito da
União, em particular, com o artigo 9.º‑A da Diretiva 1999/62/CE, relativa à aplicação de
imposições aos veículos pesados de mercadorias pela utilização de certas infraestruturas, e que
dispõe nos seguintes termos: «Os Estados‑Membros […] determinam o regime de sanções
aplicável às infrações às disposições nacionais adotadas nos termos da presente diretiva. […]
As sanções previstas devem ser efetivas, proporcionadas e dissuasivas». Dado que o Tribunal
competente em primeira instância se limitou a confirmar a decisão da autoridade
administrativa, X recorreu desta decisão para o Tribunal nacional supremo.
1. Considerando que, no acórdão Euro‑Team e Spirál‑Gép, de 22 de março de 2017, o
Tribunal de Justiça declarara que o regime de sanções previsto pela legislação húngara
não cumpria o requisito de proporcionalidade estabelecido no artigo 9.º‑A da Diretiva
1999/62/CE, o órgão jurisdicional decide não fazer o reenvio. Quid iuris? (3 valores)
O mecanismo de reenvio prejudicial (artigo 267.º TFUE): objetivo e importância.
Casos de reenvio facultativo e obrigatório. Convocação do artigo 267.º, §3 (estando em causa
o Tribunal Supremo, estaremos perante um Tribunal que decide em última instância –
conclusão idêntica, quer à luz da teoria orgânica, quer à luz da teoria do litígio concreto).
Exceções à obrigatoriedade de reenvio prevista no §3: (i) as questões não são pertinentes para
a resolução do caso (o §2 do art. 267.º, que trata da mera faculdade de reenvio, diz
expressamente que tal apenas será o caso quando a questão seja necessária ao julgamento da
causa), (ii) a resposta às mesmas é evidente (a «aplicação correta» do Direito da União se
impõe «com tal evidência que não deixa lugar a nenhuma dúvida razoável sobre o modo de
resolver a questão suscitada») ou (iii) já foram respondidas pelo Tribunal de Justiça (a norma
europeia ‘interpretanda’ será já um ato clarificado – cf. C-28 a 30/62 - DA COSTA EN
SCHAAKE NV E O./ADMINISTRATIE DER BELASTINGEN, acórdão de 27 de março de
1963, quando a «quando a questão suscitada é materialmente idêntica a uma questão que foi
já objecto de uma decisão a título prejudicial» e Processo 283/81 - CILFIT, acórdão de 6 de
outubro de 1982 - «quando questão é irrelevante ou quando a norma suscitada já foi
interpretada pelo Tribunal de Justiça ou a aplicação correta do Direito Comunitário é de tal
forma óbvia que não deixa espaço para qualquer dúvida razoável»).
2. A autoridade administrativa que aplicou a coima a X alega que “cumpre a lei húngara
e a diretiva não é aplicável, pois o artigo 9.º-A não tem efeito direto”. Quid iuris? (4
valores)
A Diretiva como ato típico e tipificado previsto no artigo 288º TFUE. Indicação e explicação
das características desse ato (ausência de generalidade, embora indiretamente alcançando
esse resultado com a transposição nacional; ausência de aplicabilidade direta, embora com
possível efeito direto em condições desenvolvidas pela jurisprudência do TJ; repartição da
função normativa entre a EU que fixa os objetivos e os EM que determinam os meios e a forma
através da transposição com liberdade embora sujeitos a um juízo de adequação).
Significado de efeito direto; na ausência de transposição correta das disposições de uma
Diretiva, indicação das condições em que disposições normativas de Diretivas podem ter efeito
direto (prescritividade, suficiência e incondicionalidade) – contraste com o teor do artigo 9.º-
A da Diretiva, que confere aos Estados-Membros margem de apreciação.
Alcance meramente vertical do efeito direto das normas das Diretivas. Subsunção-
problematização da autoridade administrativa ao conceito lato de Estado, nos termos da
jurisprudência FOSTER (C-188/89, acórdão de 12 de julho de 1990), atentas as prerrogativas
de poder público de que dispõe (v.g. a possibilidade de imposição de sanções administrativas).
A possibilidade de aplicação do princípio da interpretação conforme (jurisprudência “Von
Colson”, “Marleasing”), com os respetivos limites – identificação e problematização.
3. A mesma legislação nacional húngara prevê que os condutores de veículos registados
na Hungria dispõem de um período de 15 dias para pagarem as coimas rodoviárias; já
os condutores de veículos registados no estrangeiro têm de pagar a coima de imediato
ou o veículo fica apreendido, o que é justificado com “a impossibilidade prática de
cobrar as coimas a não residentes”. Y, polaco e condutor de um veículo registado na
Polónia, a circular na Hungria com destino à Áustria, considera que a medida é contrária
ao artigo 18.º TFUE. Quid iuris? (4 valores)
Identificação da existência de uma violação dos valores do artigo 2º TUE, bem como do
princípio da não discriminação previsto no artigo 10º TFUE, em particular, em razão da
nacionalidade (artigo 18.º TFUE).
Existência de discriminação indireta, em razão da nacionalidade.
O princípio do primado (significado) imporia a não aplicação da norma nacional conflituante
com aqueles normativos.
Face à alegação do Estado, haveria que assinalar que, ainda que a medida se pudesse
justificar, tendo em conta a inexistência de um mecanismo que assegure a cobrança de coimas
entre os Estados-Membros, a mesma (imposição de pagamento imediato e apreensão do
veículo) se revela desproporcionada (existência de medidas menos restritivas, como, por
exemplo, o pagamento de uma caução de valor igual ao da coima).
4. A Comissão vai apresentar uma proposta de Diretiva para modificar a Diretiva
1999/62/CE, com base no artigo 91.º TFUE. Tomando conhecimento dessa intenção,
alguns parlamentares húngaros afirmam que essa matéria deve ser deixada aos EM e o
Parlamento da Hungria utilizará os “meios ao seu dispor para impedir que tal proposta
venha a ser aprovada na União Europeia”. Comente a afirmação dos parlamentares
húngaros. (4 valores)
O princípio da subsidiariedade (Artigo 5.º, n.º 3, do Tratado da União Europeia (TUE) e
Protocolo (n.º 2) relativo à aplicação dos princípios da subsidiariedade e da
proporcionalidade) - significado e atuação no âmbito das competências não exclusivas da
União.
Nos termos do artigo 5.º, n.º 3, segundo parágrafo, e do artigo 12.º, alínea b), do TUE, os
parlamentos nacionais velam pela observância do princípio da subsidiariedade de acordo com
o processo previsto no Protocolo n.º 2.
O reforço, pelo Tratado de Lisboa, do papel dos parlamentos nacionais no funcionamento da
UE, nas várias modalidades previstas no artigo 12º TUE e nos Protocolos nº 1 (Papel dos
Parlamentos Nacionais na UE) e nº 2 (Aplicação dos princípios da subsidiariedade e da
proporcionalidade).
Os procedimentos de «cartão amarelo» e «cartão laranja» consagrados no Protocolo n.º 2:
condições e resultados práticos.
Situação inspirada nos seguintes casos: processo C-224/00; processo C-384/17