Introdução à Geometria
Leonor Godinho e Margarida Mendes Lopes
11/05/2023
Índice
Prefácio 3
Introdução 5
Capı́tulo 1. Geometria Afim 9
1.1. Espaço afim associado a um espaço vectorial 9
1.2. Espaços afins reais 25
1.3. Aplicações afins 32
1.4. Exercı́cios 39
Capı́tulo 2. Geometria Euclidiana 51
2.1. Espaços afins euclidianos 51
2.2. Distâncias e ângulos 53
2.3. Distâncias entre subespaços afins 55
2.4. Distâncias e reflexões 59
2.5. Isometrias 68
2.6. Isometrias de R2 82
2.7. Simetrias e congruências 102
2.8. Descrição das isometrias de R3 105
2.9. Exercı́cios 116
Capı́tulo 3. Geometria Projectiva 129
3.1. Espaço Projectivo 129
3.2. Subespaços projectivos 130
3.3. Decomposições do espaço projectivo 134
3.4. Mergulhos do espaço afim no espaço projectivo 137
3.5. Dualidade 138
3.6. Aplicações projectivas 140
3.7. A recta projectiva 147
3.8. Exercı́cios 149
Capı́tulo 4. Geometria Elı́ptica 159
1
2 ÍNDICE
4.1. A esfera S 2 159
4.2. O plano elı́ptico 169
4.3. A esfera de Riemann 177
4.4. Exercı́cios 185
Capı́tulo 5. Geometria Hiperbólica 191
5.1. O Plano Hiperbólico 191
5.2. O Disco de Poincaré 200
5.3. Exemplos de isometrias 204
5.4. Classificação de Isometrias 210
5.5. Triângulos hiperbólicos 221
5.6. Exercı́cios 222
Apêndice A. Álgebra 231
A.1. Grupos 231
A.2. Aneis e Corpos 233
Apêndice B. Noções associadas a um produto interno 235
B.1. Norma de um vector 235
B.2. Ângulo entre dois vectores 236
B.3. Ângulo orientado de dois vectores de R2 236
B.4. Ângulo orientado entre duas rectas em R2 237
Apêndice C. Aplicações ortogonais 239
C.1. Aplicações ortogonais 239
C.2. Propriedades das aplicações ortogonais de espaços de dimensão
finita 240
2
C.3. Aplicações ortogonais de R com o produto interno usual 241
C.4. Forma normal de uma matriz ortogonal 243
Apêndice D. Espaço dual 245
Apêndice E. Grupo de Möbius generalizado 247
Prefácio
Este livro tem origem em notas de aula para uma disciplina introdutória
de Geometria a nı́vel de primeiro ou segundo ano de um curso universitário
de Matemática. Não pretende ser exaustivo, mas sim familiarizar o leitor
com os conceitos básicos de várias geometrias: afim, projectiva, elı́ptica
e hiperbólica, preparando os alunos para um estudo mais aprofundado e
investigação em geometria e topologia.
Há muitas formas possiveis de abordar uma disciplina introdutória de
geometria. Aqui escolheu-se uma via analı́tica, usando coordenadas e recor-
rendo a técnicas básicas de Álgebra Linear. Seguiu-se o ponto de vista pro-
posto por Felix Klein no Século XIX, dando enfâse ao estudo de isometrias
nos diversos contextos. Os requisitos necessários, para além de conceitos
básicos de Álgebra Linear, são revistos em diversos apêndices.
Gostarı́amos de agradecer ao nosso colega Pedro Girão que leu cuida-
dosamente uma primeira versão deste texto e aos muitos alunos cujas sug-
estões e correcções ajudaram a construir este texto. Salientam-se os alunos
Rodrigo Serrão e Duarte Maia.
3
Introdução
A Geometria aparece de uma forma empı́rica em todas as antigas civi-
lizações (como a mesopotâmica ou a egı́pcia) no contexto de problemas de
medição de comprimentos, áreas e volumes. Na verdade, a palavra geometria
deriva do termo grego geometria, que significa medição da Terra (geo de
Terra e metria de medição).
O desenvolvimento da geometria ao longo dos séculos teve vários as-
pectos por vezes interligados e por vezes não, por vezes relacionados com
problemas práticos e por vezes com abordagens mais formais. Só no século
XX se consegue que estes vários ramos apareçam como um todo.
É na geometria que surge a primeira abordagem formal de Matemática,
com o tratado de Euclides “Elementos” para a geometria plana no século
III A.C.. Aqui foram apresentados cinco postulados (que em termos mod-
ernos se diriam axiomas) dos quais se deduziam factos geométricos (em
termos modernos teoremas). Durante muito tempo pensou-se que o quinto
destes postulados, que é equivalente a dizer que “por um ponto exterior a
uma recta passa uma única recta paralela a esta”, era uma consequência
dos restantes postulados. Ao longo dos séculos surgiram várias propostas
de demonstração deste facto mas todas de uma forma ou doutra usavam
afirmações equivalentes ao quinto postulado.
Foi só no século XIX que se provou que este postulado não é consequência
dos restantes. Aparentemente foi Gauss (1777-1855) o primeiro matemático
a encontrar uma demonstração deste facto. No entanto não a tornou pública
por ser tão oposta às convicções vigentes. Bolyai (1802-1860) e Lobachevsky
(1793-1856) independentemente encontraram exemplos consistentes de ge-
ometrias em que a negação do quinto postulado se verificava, demonstrando
assim a indepêndencia deste postulado. Note-se que a negação de “por um
ponto exterior a uma recta passa uma única recta paralela a esta” é “por
um ponto exterior a uma recta não passa nenhuma recta paralela a esta ou
passa mais do que uma rectas paralela a esta”. Nas geometrias de Bolyai
e Lobachevsky verifica-se que no plano por um ponto exterior a uma recta
5
6 INTRODUÇÃO
passam infinitas rectas paralelas a esta. Este tipo de geometria é designado
por geometria hiperbólica.
Aliás foi no século XIX que a geometria teve um enorme desenvolvi-
mento, tendo surgido numerosos novos conceitos, que levaram por exem-
plo ao desenvolvimento da geometria projectiva. O estudo de projecções
centrais preocupou muitos artistas desde o fim da Idade Média, devido a
problemas de perspectiva e levou ao desenvolvimento no século XVII dos
princı́pios da geometria projectiva por Kepler e principalmente por Desar-
gues. Apesar de no século XVIII Monge ter desenvolvido vários aspectos
desta geometria, foi somente no século XIX com a redescoberta por Chasles
do trabalho de Desargues, e a publicação (independente) por Poncelet de
um tratado de geometria projectiva, que houve um verdadeiro desenvolvi-
mento. Este desenvolvimento foi também possibilitado pela introdução de
coordenadas homogéneas para a geometria projectiva por Möbius em 1827.
Anteriormente a criação da geometria analı́tica ou seja o uso de coorde-
nadas e equações por Descartes (1596-1650) e Fermat (1601-1665) tinha já
simplificado a abordagem de vários problemas, possibilitando por exemplo
uma classificação simples das cónicas e também a notável classificação das
cúbicas planas por Newton (1642-1727).
O plano projectivo é um dos exemplos da chamada geometria elı́ptica
onde não existem rectas paralelas. Outros exemplos de geometria elı́ptica
são a esfera e a esfera de Riemann.
O aparecimento de diferentes geometrias levou à criação de novos en-
quadramentos teóricos como a formulação por Hilbert em 1894 de um con-
junto rigoroso de axiomas para a geometria euclidiana ou o programa de
Erlangen (1872) de Felix Klein generalizando geometrias euclidianas e não
euclidianas e cujo ingrediente central é o conceito de simetria.
Foi também no século XIX que a noção do que é um espaço geométrico
se tornou muito mais abrangente. Isto deveu-se a numerosos matemáticos
mas sobretudo a Riemann (1826-1866). Foi o desenvolvimento destas novas
ideias que levou também à criação de todo um novo corpo de estudo: a
topologia que rapidamente se tornou uma área autónoma da geometria.
No entanto, apesar do enorme desenvolvimento ao longo do tempo, con-
tinuam a ser pedras basilares da geometria os conceitos de ponto, recta,
plano e curvas. Para além das aplicações noutros ramos da matemática e
à fı́sica, a geometria tem um papel importante em muitos outros domı́nios
como por exemplo arte, arquitectura, robótica, computação gráfica. Note-se
INTRODUÇÃO 7
que muitas vezes os conceitos geométricos foram desenvolvidos muito antes
dos problemas de vida real que ajudaram a resolver.
CAPÍTULO 1
Geometria Afim
Um espaço afim é um conjunto de pontos no qual quaisquer dois pontos
definem um elemento dum espaço vectorial (um vector). Tirando partido
desse espaço vectorial a geometria afim é construı́da utilizando álgebra lin-
ear.
1.1. Espaço afim associado a um espaço vectorial
Seja V um espaço vectorial sobre um corpo K de caracterı́stica zero1
(por exemplo R ou C).
Definição 1.1.1. Um conjunto A =
6 ∅ diz-se um espaço afim associado
a V se existir uma aplicação
ϕ:A×A → V
−−→
(P, Q) 7→ P Q (:= ϕ(P, Q))
verificando as seguintes propriedades:
1. Para todo o P ∈ A e para todo o vector v ∈ V , existe um e um só
−−→
elemento Q em A tal que P Q = v.
2. (Relação de Chasles ou relação triangular) Para todos os
elementos P, Q, R ∈ A,
−−→ −−→ −→
(1.1.1) P Q + QR = P R,
ou seja ϕ(P, Q) + ϕ(Q, R) = ϕ(P, R).
1Diz-se que um corpo F tem caracterı́stica 0 se a relação m a = 0 onde a ∈ F \ {0} e
m ∈ Z só se verifica se m = 0.
9
10 1. GEOMETRIA AFIM
1. 2.
Q R
v= P Q
P P Q
A A
Figura 1.1. Espaço afim
Se A é um espaço afim dá-se o nome de pontos aos elementos de A. Os
pontos são usualmente indicados por letras maiúsculas. Dados dois pontos
−−→
P, Q de A, diz-se que o vector P Q é o vector com origem em P e
extremidade em Q.
Dado um ponto P de um espaço afim A associado ao espaço vectorial
V e um vector v de V , usa-se a notação simbólica P + v para indicar o
−−→ −−→
único ponto Q tal que P Q = v (note que, nesta notação, P + P Q = Q).
−−→
Dados dois pontos P, Q ∈ A, o vector P Q designa-se também pela notação
simbólica Q − P .
A relação triangular tem as seguintes consequências.
Proposição 1.1.2. Se A é um espaço afim (associado ao espaço vecto-
rial V ) e P e Q são pontos de A, então:
−−→
1) P P = 0V (um vector com origem e extremidade num mesmo ponto
é o vector nulo);
−−→ −−→
2) P Q = −QP (o vector com origem em P e extremidade em Q é
simétrico do vector com origem em Q e extremidade em P );
3) para qualquer ponto P de um espaço afim A e quaisquer dois vec-
tores u, v de V tem-se
P + (u + v) = (P + u) + v.
Demonstração:
−−→ −−→ −−→ −−→
1) Usando a relação triangular temos P P = P P + P P = 2P P , pelo
−−→
que P P = 0V .
−−→ −−→ −−→ −−→ −−→
2) P Q + QP = P P = 0V , pelo que P Q = −QP .
−−→
3) Seja Q ∈ A tal que u = P Q (isto é Q = P + u) e R ∈ A tal que
−−→
v = QR, isto é R = Q + v = (P + u) + v. Então, pela relação
1.1. ESPAÇO AFIM ASSOCIADO A UM ESPAÇO VECTORIAL 11
triangular, temos
−−→ −−→ −→
u + v = P Q + QR = P R,
pelo que R = P + (u + v) e o resultado segue.
Nota 1.1.3 (Estrutura de espaço afim de um espaço vectorial).
Qualquer espaço vectorial V tem uma estrutura natural de espaço afim dada
pela aplicação
ϕ:V ×V → V
(u, v) 7→ v − u.
Em particular, o espaço vectorial
K n = {(x1 , ..., xn ) : xi ∈ K}
tem uma estrutura natural de espaço afim a que se dá o nome de estrutura
canónica (ou natural) de K n como espaço afim. O espaço K n com esta
estrutura denota-se por vezes por AnK ou simplesmente por An .
Proposição 1.1.4 (Regra do Paralelogramo). Sejam P, Q, P 0 , Q0 ∈
A. Então
−−→ −− → −−→ −−→
P Q = P 0 Q0 ⇔ P P 0 = QQ0 .
Demonstração: Usando a relação triangular temos
−−→ −−→0 −−0→ −−→ −−→ −−→
P Q = P P + P Q e P 0 Q0 = P 0 Q + QQ0 ,
pelo que
−−→ −− → −−→ −−→
P Q − P 0 Q0 = P P 0 − QQ0
e o resultado segue (ver Figura 1.2).
1.1.1. Subespaços afins. Seja A um espaço afim associado ao espaço
vectorial V . Um subconjunto F de A diz-se um um subespaço afim se
F = P + W := {P + w : w ∈ W },
onde P é um ponto de F e W ⊆ V é um subespaço vectorial.
O subespaço vectorial W chama-se o subespaço (ou espaço) de di-
recções (ou direcção) de F. Se F = P + W diz-se que F é o subespaço
afim que passa por P com direcção W .
Nota 1.1.5. Por definição, A é um subespaço afim de A. Também um
ponto P é um subespaço afim de A com direcção o espaço vectorial nulo.
12 1. GEOMETRIA AFIM
Q Q¢
P¢
P
A
Figura 1.2. Regra do Paralelogramo
HaL
Figura 1.3. Exemplos de subspaços afins de R3 :
(a) (0, 0, 1) + L{(0, 1, 0)}; (b) (0, 0, 1) + L{(0, 0, 1), (0, 1, 0)}.
Proposição 1.1.6. Seja F = P0 + W um subespaço afim de A. Então,
1) F é ele próprio um espaço afim associado ao espaço vectorial W ;
2) qualquer que seja o ponto Q ∈ F, temos F = Q + W ;
−−→
3) W = {P Q : P, Q ∈ F} (ou seja, W fica univocamente determinado
por F).
Demonstração:
1) Como A é um espaço afim existe um aplicação ϕ : A × A → V
que satisfaz as condições 1. e 2. da Definição 1.1.1. Restringindo
1.1. ESPAÇO AFIM ASSOCIADO A UM ESPAÇO VECTORIAL 13
a aplicação ϕ a F × F obtemos uma aplicação
ϕ:F ×F → W
(1.1.2) −−→
(P, Q) 7→ P Q.
De facto, se P, Q ∈ F então existem vectores u, v ∈ W tais que
−−→ −−→
P = P0 + u e Q = P0 + v (isto é u = P0 P e v = P0 Q), pelo que
−−→ −−→ −−→ −−→ −−→
P Q = P P0 + P0 Q = −P0 P + P0 Q = v − u ∈ W.
Vejamos agora que esta aplicação definida em F × F satisfaz
as duas condições da Definição 1.1.1.
Como A é um espaço afim, sabemos, pela condição 1. da
Definição 1.1.1 que, para todo o P ∈ F e w ∈ W , existe um único
−−→
ponto Q ∈ A tal que P Q = w. Resta-nos ver que Q ∈ F. Como
P ∈ F, temos que existe um vector v ∈ W tal que P = P0 + v e
então
Q = P + w = (P0 + v) + w = P0 + (v + w) ∈ F.
Finalmente, como a relação triangular em F × F é herdada da
mesma relação em A × A, conclui-se que F é um espaço afim.
2) Seja Q = P0 + w (com w ∈ W ) um ponto de F.
Vejamos primeiro que Q + W ⊆ P0 + W . Se P ∈ Q + W , então
existe u ∈ W tal que P = Q + u. Assim,
P = Q + u = (P0 + w) + u = P0 + (u + w) ∈ P0 + W.
Por outro lado, se P ∈ P0 + W então existe v ∈ W tal que
P = P0 + v, pelo que
−−→ −−→ −−→
P = P0 + v = P0 + P0 P = P0 + (P0 Q + QP )
−−→ −−→ −−→
= (P0 + P0 Q) + QP = Q + QP ∈ Q + W
−−→
pois, como vimos em 1), se P, Q ∈ F, o vector QP pertence a W .
Conclui-se assim que P0 + W ⊆ Q + W e então
F = P0 + W = Q + W.
−−→
3) Como vimos em 1), se P e Q são dois pontos de F, o vector P Q
pertence a W e a aplicação ϕ em (1.1.2) é sobrejectiva. Conclui-se
assim que
−−→
W = {P Q : P, Q ∈ F}.
14 1. GEOMETRIA AFIM
1.1.2. Dimensão e codimensão. Seja A um espaço afim associado
ao espaço vectorial V . A dimensão de A é a dimensão de V como espaço
vectorial. Em particular, se F = P + W é um subespaço afim de A, a
dimensão de F é a dimensão de W .
Um espaço (ou subespaço) afim de dimensão 0 diz-se um ponto, de
dimensão 1 uma recta, de dimensão 2 um plano e, de dimensão m um
m-plano.
Se A é um espaço afim de dimensão finita n e F é um subespaço afim
de A de dimensão k, a codimensão de F é o número n − k. Um subespaço
afim H de codimensão 1 diz-se um hiperplano.
Nota 1.1.7. A noção de codimensão é relativa. A dimensão de um
hiperplano de A e a codimensão de um m-plano de A dependem da dimensão
de A. Por exemplo,
• se A tem dimensão 2 (e.g. A é o espaço afim real R2 ), os hiper-
planos de A são as rectas;
• se A tem dimensão 3 (e.g. A é o espaço afim real R3 ), um hiper-
plano de A tem dimensão 2 (ou seja é um plano);
• uma recta em R8 tem codimensão 7 enquanto que uma recta em
R2 tem codimensão 1;
• um 3-plano do espaço afim complexo C5 tem codimensão (com-
plexa) 2.
Verifica-se facilmente que, dados dois pontos distintos P, Q ∈ A, existe
uma única recta de A que os contém (a recta que passa por P com a direcção
−−→
do vector P Q). Esta recta pode indicar-se por
−−→ −−→
P Q := P + {λ P Q : λ ∈ K} = P + L{P Q}.
Nota 1.1.8. Dado um número finito de vectores v1 , . . . , vk ∈ V , usamos
a notação L{v1 , . . . , vk } para indicar a expansão linear de v1 , . . . , vk (ou seja
o menor subespaço vectorial que contém {v1 , . . . , vk }).
Dicionário: Dado um ponto Q e uma recta r de A as seguintes expressões
são equivalentes:
• Q ∈ r; • r passa por Q;
• r contém Q; • Q incide com r;
• Q e r são incidentes; • r incide com Q.
1.1. ESPAÇO AFIM ASSOCIADO A UM ESPAÇO VECTORIAL 15
1.1.3. Paralelismo.
Definição 1.1.9. Seja A um espaço afim. Dois subespaços afins de A
F =P +U e G =Q+W
dizem-se paralelos se U ⊆ W ou W ⊆ U .
Por outras palavras, F e G são paralelos se o subespaço (vectorial) de di-
recções de um dos subespaços afins estiver contido no subespaço de direcções
do outro.
Nota 1.1.10.
(i) Um subespaço afim é sempre paralelo a si próprio.
(ii) Se F = P + U e G = Q + W têm a mesma dimensão m, então F
e G são paralelos se e só se U = W .
Teorema 1.1.11. Se dois subespaços afins de um mesmo espaço afim
são paralelos, ou têm intersecção vazia ou um deles está contido no outro.
Em particular, dois subespaços afins associados ao mesmo subespaço vec-
torial, ou são disjuntos ou são iguais.
Demonstração: Sejam F = P + U e G = Q + W dois subespaços afins
paralelos do espaço afim A. Por definição de paralelismo, U ⊆ W ou W ⊆ U .
Suponhamos, sem perda de generalidade, que U ⊆ W . Se F ∩ G 6= ∅,
existe um ponto R ∈ F ∩ G, pelo que F = R + U e G = R + W . Conclui-se
que F ⊆ G, com igualdade se U = W .
Este teorema tem como consequência que
• duas rectas distintas paralelas não se intersectam.
• uma recta paralela a um plano ou não intersecta o plano ou está
contida no plano.
• dois hiperplanos diferentes e paralelos não se intersectam.
• se duas rectas paralelas se intersectam então são coincidentes.
• etc ...
1.1.4. Intersecção de subespaços afins.
Teorema 1.1.12. Sejam F = P + U e G = Q + W dois subespaços afins
de um espaço afim A. Então, ou F ∩ G = ∅, ou F ∩ G é um subespaço afim.
Mais precisamente, se F ∩ G =6 ∅ e R é um ponto de F ∩ G, então
F ∩ G = R + (U ∩ W ).
16 1. GEOMETRIA AFIM
Demonstração: Suponhamos que F ∩ G 6= ∅ e consideremos um ponto
R ∈ F ∩ G. Podemos escrever então F = R + U e G = R + W .
Um ponto P ∈ R + (U ∩ W ) pertence obviamente a F ∩ G, pelo que
R + (U ∩ W ) ⊆ F ∩ G.
Por outro lado, se um ponto P está simultaneamente em F e em G, temos
−→
que, necessariamente, o vector RP pertence a ambos os espaços vectoriais
U e W , donde F ∩ G ⊆ R + (U ∩ W ).
Concluimos que se F ∩ G = 6 ∅, então F ∩ G = R + (U ∩ W ).
Este teorema generaliza-se facilmente.
Teorema 1.1.13. A intersecção de subespaços afins ou é vazia ou é um
subespaço afim. Mais precisamente, se Bα = Pα + Uα , α ∈ I é uma famı́lia
de subespaços afins associados a subespaços vectoriais Uα então
• ∩α∈I Bα = ∅ ou
• ∩α∈I Bα é um subespaço afim associado ao subespaço vectorial
∩α∈I Uα .
Nota 1.1.14. Se ∩α∈I Bα 6= ∅, temos ∩α∈I Bα = R + ∩α∈I Uα , onde R é
um ponto qualquer de ∩α∈I Bα .
Vejamos agora um critério para determinar se a intersecção de dois sube-
spaços afins é ou não vazia.
Teorema 1.1.15. Sejam F = P + U e G = Q + W dois subespaços afins
−−→
de um espaço afim A. Então F ∩ G 6= ∅ se e só se o vector P Q pertence ao
subespaço vectorial U + W .
Demonstração: Suponhamos que F ∩ G 6= ∅ e seja R um ponto de F ∩ G.
−→ −−→
Então, como R ∈ F, o vector P R ∈ U . Analogamente o vector RQ ∈ W .
−−→ −→ −−→
Como, pela Relação de Chasles (1.1.1), P Q = P R + RQ, conclui-se que
−−→
P Q ∈ U + W . Provámos assim que
−−→
F ∩G =
6 ∅ =⇒ P Q ∈ U + W.
−−→
Por outro lado, se P Q ∈ U + W , então existem vectores u ∈ U e w ∈ W
−−→
tais que P Q = u + w. Por definição de F e G, o ponto P + u ∈ F e o ponto
Q − w ∈ G. Assim, como
−−→ −−→
P + u = P + (P Q − w) = (P + P Q) − w = Q − w,
temos que P + u = Q − w ∈ F ∩ G, pelo que F ∩ G =
6 ∅.
1.1. ESPAÇO AFIM ASSOCIADO A UM ESPAÇO VECTORIAL 17
1.1.5. Subespaço afim gerado por um subconjunto. Seja S um
subconjunto não vazio de um espaço afim A. O subespaço afim gerado
por S, que se indica por hSi (ou por Aff(S)), é o menor subespaço afim
de A que contém S (ou, de forma equivalente, é a intersecção de todos os
subespaços afins de A que contêm S).
Teorema 1.1.16. Sejam F = P + U e G = Q + W dois subespaços afins
de um espaço afim A. O subespaço afim gerado por F e G é
−−→
hF, Gi = P + L{P Q} + U + W ,
ou seja, é o subespaço afim que passa por P com direçção o subespaço vec-
−−→
torial L{P Q} + U + W .
Demonstração: Claramente, F e G são subconjuntos de
−−→
P + L{P Q} + U + W .
−−→
Assim, por definição, hF, Gi ⊆ P + L{P Q} + U + W .
Para mostrar que a inclusão anterior é uma igualdade basta mostrar que
qualquer
−−→ subespaço afim H que contenha F e G contém necessariamente
P + L{P Q} + U + W . Seja então H um subespaço afim que contém F e G
e T o subespaço vectorial de direcções de H. Como H contém F então P ∈ H
e podemos escrever H = P + T onde U ⊆ T . Como H contém G, também
−−→
Q ∈ H e W ⊆ T . Dado que P, Q ∈ H, necessariamente P Q ∈ T . Concluimos
−−→ −−→
então que L{P Q} + U + W ⊆ T donde P + L{P Q} + U + W ⊆ H.
Teorema 1.1.17. Sejam F = P + U e G = Q + W dois subespaços afins
de dimensão finita de um espaço afim A.
1) Se F ∩ G =
6 ∅ então
dimhF, Gi = dim F + dim G − dim (F ∩ G) .
2) Se F ∩ G = ∅ então
dimhF, Gi = 1 + dim F + dim G − dim (U ∩ W ) .
Demonstração: Pelo Teorema 1.1.16, a dimensão de hF, Gi é a dimensão
−−→
do subespaço vectorial L{P Q} + U + W .
−−→
1) Se F ∩ G 6= ∅, pelo Teorema 1.1.15 temos P Q ∈ U + W e então
−−→
L{P Q} + U + W = U + W . Como, pelo Teorema das dimensões
da álgebra linear temos
dim (U + W ) = dim U + dim W − dim (U ∩ W ) ,
18 1. GEOMETRIA AFIM
e, pelo Teorema 1.1.12, temos dim (U ∩ W ) = dim (F ∩ G), a
afirmação segue.
2) Como F ∩ G = ∅ temos, pelo Teorema 1.1.15, que
−−→
dim L{P Q} + U + W = 1 + dim (U + W )
e o resultado segue pelo Teorema das dimensões da álgebra linear.
O teorema anterior tem várias consequências imediatas, tais como:
• Se F e G são subespaços afins paralelos não contidos um no outro
com dimensões m, k com k ≤ m, então dimhF, Gi = m + 1. Em
particular, o subespaço afim gerado por duas rectas paralelas dis-
juntas tem dimensão 2.
• Uma recta e um hiperplano não paralelos intersectam-se num ponto.
• Dois hiperplanos diferentes ou são paralelos ou intersectam-se num
subespaço afim de codimensão 2. Em particular, num espaço afim
de dimensão 3 (e.g. R3 ) dois planos distintos ou são paralelos ou
a sua intersecção é uma recta.
• Se F é um m-plano e G um k-plano, o subespaço afim gerado por
F e G tem no máximo dimensão m + k + 1.
Definição 1.1.18. Duas rectas dizem-se enviesadas se gerarem um
subespaço afim de dimensão 3 (a maior dimensão possı́vel).
Seja A um espaço afim associado a um espaço vectorial V e
S = {P0 , . . . , Pm }
um conjunto finito de pontos de A. Os pontos P0 , ..., Pm dizem-se indepen-
dentes (do ponto de vista afim) se, fixando um deles, os m vectores com
origem nesse ponto e extremidade nos restantes forem linearmente indepen-
dentes. Note que, pela relação triangular, esta definição é independente do
ponto de S escolhido para origem dos vectores. Por exemplo, escolhendo P0 ,
−−−→ −−−→
os pontos P0 , ..., Pm são independentes se os vectores P0 P1 , . . . , P0 Pm forem
linearmente independentes.
Alternativamente, como o subespaço afim hSi gerado por S é dado por
−−−→ −−−→
hSi = hP0 , . . . , Pm i = P0 + L{P0 P1 , . . . , P0 Pm },
a sua dimensão é, no máximo, m e temos o seguinte resultado.
Teorema 1.1.19. Num espaço afim, k pontos são independentes se e só
se o subespaço afim gerado por eles tiver dimensão k − 1.
1.1. ESPAÇO AFIM ASSOCIADO A UM ESPAÇO VECTORIAL 19
Nota 1.1.20. Dois ponto distintos de um espaço afim são sempre inde-
pendentes.
1.1.6. Combinações afins de pontos. Dado um espaço afim A, chama-
se uma combinação afim dos pontos P0 , ..., Pm de A a qualquer ponto P
que se pode escrever na forma
m
X −−→
P = P0 + ai P0 Pi ,
i=1
onde ai ∈ K para todo o i ∈ {1, . . . , m}.
Em analogia com o espaço afim AK , considerando um outro ponto O ∈ A
qualquer (que assume o papel de ”origem”), podemos escrever o ponto
m
X −−→
P = P0 + ai P0 Pi
i=1
na forma
m m
X −−→ −−→ X −−→ −−→
P = P0 + ai P0 Pi = O + OP0 + ai P0 O + OPi
i=1 i=1
m m m
!
X −−→ X −−→ X −−→
=O+ 1− ai OP0 + ai OPi = O + ai OPi ,
i=1 i=1 i=0
Pm
onde a0 := 1 − i=1 ai .
Esquecendo o ponto O, obtém-se uma notação homogénea para repre-
sentar uma combinação afim de pontos:
m
X m
X
(1.1.3) ai Pi , com ai = 1,
i=0 i=0
com o significado
m m
X X −−→
ai Pi := P0 + ai P0 Pi ,
i=0 i=1
ou, equivalentemente, escolhendo um ponto X ∈ A qualquer,
m m
X X −−→
ai Pi := X + ai XPi .
i=0 i=0
Note que (1.1.3) é apenas uma notação para representar uma combinação
afim de pontos pois não se podem somar pontos de um espaço afim.
20 1. GEOMETRIA AFIM
Nota 1.1.21. Se os pontos P0 , . . . , Pm forem independentes então qual-
quer elemento de hP0 , . . . , Pm i pode ser escrito de forma única como
m
X
a0 P0 + · · · + am Pm com ai = 1.
i=0
Exemplo 1.1.22. Sejam P, Q, R pontos de um espaço afim A. A com-
binação afim
1 5
P + Q − 2R
2 2
representa o ponto
5 −−→ −→
P + P Q − 2P R
2
que pode escrever-se também como
1 −−→ −−→ 1 −→ 5 −−→
Q + QP − 2QR ou R + RP + RQ,
2 2 2
ou, em geral, para um ponto X ∈ A qualquer,
1 −−→ 5 −−→ −−→
X + XP + XQ − 2XR.
2 2
Exemplo 1.1.23. A recta r definida por dois pontos distintos P e Q
pode ser descrita como
−−→ −−→
r = P + L{P Q} = {P + λP Q : λ ∈ K}
= {(1 − λ)P + λQ : λ ∈ K}
= {aP + b Q : a, b ∈ K, a + b = 1},
ou seja é o conjunto de todas as combinações afins de P e Q.
Nota 1.1.24. Se X = a1 P1 + a2 P2 + a3 P3 é uma combinação afim de
pontos de A com a1 + a2 + a3 = 1 e a1 + a2 6= 0, então
a1 a2
X = (a1 + a2 ) P1 + P2 + a3 P3 = (a1 + a2 )R + a3 P3
a1 + a2 a1 + a2
onde
a1 a2
(1.1.4) R= P1 + P2 ∈ A.
a1 + a2 a1 + a2
Com efeito, se R é o ponto definido em (1.1.4), então X = a1 P1 +a2 P2 +a3 P3
pode ser escrito como
−−→ −−→ −−→ −−→
X = R + a1 RP1 + a2 RP2 + a3 RP3 = R + a3 RP3
= (1 − a3 )R + a3 P3 = (a1 + a2 )R + a3 P3 ,
1.1. ESPAÇO AFIM ASSOCIADO A UM ESPAÇO VECTORIAL 21
−−→ −−→
pois a1 RP1 + a2 RP2 = 0, uma vez que, por (1.1.4), temos
a1 −−→ a2 −−→
R=R+ RP1 + RP2 .
a1 + a2 a1 + a2
Em geral temos o seguinte resultado.
Teorema 1.1.25. O subespaço afim gerado por um conjunto S de A é
o conjunto de todas as combinações afins de pontos de S.
Demonstração: Seja P um ponto de S e hSi = P + W o subespaço afim
gerado por S.
Vejamos primeiro que qualquer combinação afim de pontos de S está em
hSi. Com efeito, se Q é uma combinação afim de pontos P0 , . . . , Pm ∈ S,
temos
m
X −−→
Q = P0 + ai P0 Pi ,
i=1
−−→
com ai ∈ K, e então, como os vectores P0 Pi estão em W , temos que Q ∈ hSi.
Resta mostrar que o conjunto de todas as combinações afins de pontos
de S contém hSi. Como obviamente contém S, basta mostrar que é um
subespaço afim de A (pois hSi está contido em todos os subespaços afins
que contêm S). Seja U o subespaço vectorial de V gerado pelos vectores da
−−→
forma P Q com Q ∈ S. Como qualquer combinação afim
k
X −−→
R+ bj RPj
j=1
de pontos de S pode ser escrita na forma
k k k
X −−→ X −→ X −−→
R+ bj RPj = b0 R + bj Pj = P + b0 P R + bj P Pj ,
j=1 j=1 i=1
Pk
com b0 = 1 − i=1 bj , temos que qualquer combinação afim de pontos de
S está no subespaço afim P + U . Além disso, qualquer ponto de P + U
é uma combinação afim de pontos de S, pelo que o conjunto de todas as
combinações afins de pontos de S é o subespaço afim P + U .
1.1.7. Referenciais. Seja A um espaço afim de dimensão finita n as-
sociado a um espaço vectorial V . Um referencial R em A é um conjunto
R := (O; (e1 , . . . , en ))
onde O é um ponto de A e B = (e1 , . . . , en ) uma base de V . O ponto O
chama-se a origem do referencial.
22 1. GEOMETRIA AFIM
A escolha de um referencial permite-nos identificar os pontos de A com
elementos de K n , da seguinte forma
−−→ −−→
P → OP → OP B ∈ K n ,
−−→ −−→
onde OP B é o vector de coordenadas de OP em relação à base B. Com
−−→
efeito, dado um ponto P existe um único vector v tal que v = OP . Por
outro lado, como B é uma base de V , o vector v escreve-se de forma única
como v = a1 e1 + a2 e2 + · · · + an en , pelo que podemos identificar P com o
vector de coordenadas de v em relação à base B
P → vB = (a1 , . . . , an ).
Diz-se que (a1 , . . . , an ) são as coordenadas de P em relação ao referencial
R = (O; (e1 , . . . , en )) e escreve-se PR = (a1 , . . . , an ).
No espaço afim K n , com a estrutura canónica, chama-se referencial
canónico ao referencial em que o ponto O é o elemento (0, . . . , 0) e a base
B é a base canónica (e1 = (1, 0, . . . , 0), . . . , en = (0, . . . , 1)).
Exemplo 1.1.26. Num espaço afim real A de dimensão 3, seja
R = (O; (e1 , e2 , e3 ))
um referencial. As coordenadas do ponto P = O + 3e1 − 2e3 em relação a
R são PR = (3, 0, −2).
O ponto Q cujas coordenadas, em relação a R são QR = (5, 7, 9) é o
ponto Q = O + 5e1 + 7e2 + 9e3 .
Exemplo 1.1.27. No espaço afim R2 seja R = (O; (e1 , e2 )) o referencial
em que O = (2, 3), e1 = (1, 1) e e2 = (1, 0).
−−→
Se P é o ponto (6, 3) (no referencial canónico), temos OP = (4, 0).
Como (4, 0) = 4e2 , as coordenadas de P em relação ao referencial R são
PR = (0, 4).
O ponto Q com coordenadas QR = (2, 3) no referencial R é o ponto
Q = O + 2e1 + 3e2 = (2, 3) + (2, 2) + (3, 0) = (7, 5).
1.1.8. Sistemas de equações e subespaços afins.
Teorema 1.1.28. Seja A um espaço afim de dimensão n com um refe-
rencial R = (O; (e1 , ..., en )).
1.1. ESPAÇO AFIM ASSOCIADO A UM ESPAÇO VECTORIAL 23
1. Seja
a11 x1 + · · · + a1n xn = b1
.. ..
(1.1.5) . .
a x + ··· + a x
= bm
m1 1 mn n
um sistema de m equações lineares nas incógnitas x1 , ..., xn ∈ K.
Se o sistema for possı́vel, o conjunto S de pontos de A, cujas coor-
denadas em relação a R são soluções do sistema, é um subespaço
afim com dimensão igual ao grau de indeterminação do sistema.
O subespaço vectorial U de direcções de S é o conjunto de vectores
cujas coordenadas em relação à base (e1 , ..., en ) são definidas pelo
sistema homogéneo associado, ou seja
a11 x1 + · · · + a1n xn = 0
.. ..
(1.1.6) . .
a x + · · · + a x = 0.
m1 1 mn n
2. Inversamente, se F é um subespaço afim de A de dimensão k,
existe um sistema de equações lineares a n incógnitas, possı́vel e
de caracterı́stica n − k, tal que F é o o conjunto de pontos de A
cujas coordenadas em relação a R são soluções do sistema.
Demonstração: Considere-se em A o referencial R = (O; B = (e1 , . . . , en )).
1. Sabemos que as soluções de um sistema linear não homogéneo se
obtêm somando a uma solução particular do sistema as soluções
do sistema homogéneo associado. Além disso, os vectores de V
cujas coordenadas na base B são soluções de um sistema linear
homogéneo, formam um subespaço vectorial de V de dimensão
igual à nulidade do sistema. Assim, se (c1 , . . . , cn ) é uma solução
particular do sistema não homogéneo (1.1.5) e P0 ∈ A é o ponto
com coordenadas no referencial R dadas por
(P0 )R = (c1 , . . . , cn ),
temos que os pontos de A cujas coordenadas são soluções do sis-
tema (1.1.5) formam um subespaço afim S = P0 + W , onde W
é o subespaço vectorial de V formado pelos vectores cujas coor-
denadas na base B são soluções do sistema homogéneo associado
(1.1.6).
24 1. GEOMETRIA AFIM
2. Seja W o espaço das direcções de um subespaço afim F = P0 + W .
As coordenadas (x1 , . . . , xn ) dos vectores de W na base B satis-
fazem um sistema homogéneo de m = n − k equações indepen-
dentes
x1
.
(1.1.7) A .
. = 0,
xn
em que k = dim W e A é uma matriz m × n. Se
(P0 )R = (c1 , . . . , cn )
forem as coordenadas do ponto P0 no referencial R, as coordenadas
de um ponto P ∈ F são
PR = (x̃1 , . . . , x̃n ) = (c1 , . . . , cn ) + (x1 , . . . , xn ),
onde o vector de coordenadas (x1 , . . . , xn ) é solução do sistema
(1.1.7). Assim, (x̃1 , . . . , x̃n ) é solução do sistema
x̃1 c1
. .
A . .
. = A . .
x̃n cn
Corolário 1.1.29. Um subconjunto F de um espaço afim A de di-
mensão n é um subespaço afim se e só se for não vazio e o conjunto de
coordenadas dos pontos de F em relação a algum referencial for o conjunto
solução de um sistema de equações lineares a n incógnitas.
Exemplo 1.1.30. Seja A um espaço afim associado a um espaço vectorial
real V de dimensão 4 e seja R = (O; B) um referencial de A, onde B é uma
base (e1 , e2 , e3 , e4 ) de V . Consideremos o subespaço afim F = P + W onde
P é o ponto
P = O + (e1 + 2e2 + 3e3 + 4e4 )
e W é a expansão linear dos vectores
v1 := 2e1 − e2 , v2 := e2 − e4 e v3 := 4e1 − 2e4 .
As coordenadas de P em relação a R são PR = (1, 2, 3, 4), enquanto que
(v1 )B = (2, −1, 0, 0), (v2 )B = (0, 1, 0, −1) e (v3 )B = (4, 0, 0, −2).
1.2. ESPAÇOS AFINS REAIS 25
Consideremos a matriz
2 0 4
−1 1 0
A= .
0 0 0
0 −1 −2
Um vector v de coordenadas vB = (x, y, z, w) pertence à expansão linear
de v1 , v2 , v3 se e só se a caracterı́stica da matriz
2 0 4 x
−1 1 0 y
A0 :=
0 0 0 z
0 −1 −2 w
é igual à caracterı́stica da matriz A (ou seja igual a 2). Aplicando o método
de eliminação de Gauss à matriz A0 , obtemos a matriz
−1 1 0 y
0 −1 −2 w
,
0 0 0 x + 2y + 2w
0 0 0 z
que deverá ter também caracterı́stica 2. Cncluı́mos assim que F é um plano
e que um vector v de coordenadas vB = (x, y, z, w) pertence à expansão
linear de v1 , v2 , v3 se e só z = 0 e x + 2y + 2w = 0. Então o subespaço
vectorial W é
W = {x e1 + y e2 + z e3 + w e4 : x, y, z, w ∈ R, z = 0 e x + 2y + 2w = 0}
= L{−2e1 + e2 , −2e1 + e4 }.
Como o ponto P ∈ F e as coordenadas de P em relação a R são
(1, 2, 3, 4), o subespaço F é dado por
F = {O+x e1 +y e2 +z e3 +w e4 : x, y, z, w ∈ R z=3 e x+2y+2w = 13}.
1.2. Espaços afins reais
1.2.1. Algumas definições. Seja A um espaço afim real.
Definição 1.2.1. Dados dois pontos distintos P, Q de A o segmento
de recta com extremidades P e Q (ou definido por P e Q) é o conjunto
−−→
[P Q] := {X ∈ A : X = P + λ P Q, 0 ≤ λ ≤ 1}.
26 1. GEOMETRIA AFIM
Nota 1.2.2. Usando combinações afins podemos escrever
[P Q] := {X ∈ A : X = a P + b Q, a ≥ 0, b ≥ 0, a + b = 1}.
P Q
Figura 1.4. Segmento de recta com extremidades P e Q
Definição 1.2.3. Dados dois pontos distintos P e Q de A, o ponto
−−→
médio do segmento de recta [P Q] é o ponto M := P + 12 P Q (ou seja o
ponto M = 21 P + 12 Q).
M
P Q
Figura 1.5. Ponto médio do segmento de recta [P Q]
Definição 1.2.4. Dados dois pontos distintos P, Q ∈ A a semi-recta
com origem em P que passa em Q (ou com origem em P e direcção
−−→
P Q), é o conjunto
−−→
{X ∈ A : X = P + λ P Q, λ ≥ 0}.
Definição 1.2.5. Dados três pontos distintos P, Q, R ∈ A o paralelo-
gramo (P QR) é o conjunto
−−→ −→
{X ∈ A : X = P + λ P Q + µ P R, 0 ≤ λ, µ ≤ 1}.
1.2. ESPAÇOS AFINS REAIS 27
P Q
Figura 1.6. Semi-recta com origem em P e que passa em Q
P Q
A
Figura 1.7. Paralelogramo (P QR)
P Q
A
Figura 1.8. Paralelogramo (QP R)
Nota 1.2.6. O paralelogramo (QP R) é diferente do paralelogramo (P QR).
Definição 1.2.7. Dados m + 1 pontos independentes P0 , . . . , Pm ∈ A o
m-simplex definido por P0 , . . . , Pm é o conjunto
−−−→ −−−→ −−−→
{X ∈ A : X = P0 + a1 P0 P1 +a2 P0 P2 + · · · + am P0 Pm ,
0 ≤ a1 , . . . , am , a1 + · · · + am ≤ 1} =
{X ∈ A : X = a0 P0 + a1 P1 + · · · + am Pm ,
a0 , a1 , . . . , am ≥ 0 e a0 + a1 + · · · + am = 1}.
28 1. GEOMETRIA AFIM
Um 1-simplex é um segmento de recta e um 0-simplex é um ponto.
Dado um m-simplex definido por m + 1 pontos independentes
P0 , . . . , Pm ∈ A,
chamam-se vértices do simplex aos pontos P0 , . . . , Pm . Qualquer subcon-
junto de {P0 , . . . , Pm } com k + 1 pontos (k < m) define um k-simplex, a que
se dá o nome de face do m-simplex. Uma aresta do simplex é uma face
que é um 1-simplex.
Um 3-simplex é também denominado por tetraedro e um 2-simplex por
triângulo. Dado um triângulo de vértices P , Q e R, os segmentos de recta
[P Q], [P R] e [RQ] dizem-se os lados do triângulo.
Figura 1.9. 3-simplex definido pelos pontos P0 , P1 , P2 e P3 .
Definição 1.2.8. Uma mediana de um triângulo é uma recta que passa
por um vértice do triângulo e pelo ponto médio do lado oposto (i.e. o lado
que não contém esse vértice).
Um triângulo tem exactamente três medianas e estas satisfazem a seguinte
propriedade.
Teorema 1.2.9. As três medianas de um triângulo intersectam-se num
mesmo ponto.
Demonstração: Sejam P0 , P1 , P2 os vértices do triângulo. Basta verificar
que o ponto B := 31 P0 + 13 P1 + 13 P2 (em notação homogénea) pertence às
três medianas.
1.2. ESPAÇOS AFINS REAIS 29
P2
P1
P0
Figura 1.10. As três medianas de um triângulo.
Definição 1.2.10. Chama-se centroide, equibaricentro ou centro
geométrico de um triângulo é o ponto de interseção das três medianas.
As noções acima só fazem sentido para espaços afins sobre corpos de
escalares em que haja uma relação de ordem (como R ou Q) em que se
possa dizer que um escalar é menor que outro. Por exemplo, se A for um
espaço afim complexo, não podemos definir um segmento de recta.
Nota 1.2.11. Claro que, dados dois pontos P, Q de um espaço afim
complexo A podemos considerar o conjunto
−−→
{X ∈ A : X = P + λP Q, com λ ∈ R e 0 ≤ λ ≤ 1},
mas este não é um segmento da recta complexa que passa em P e Q.
Há, no entanto, noções que se podem adaptar para espaços afins sobre
outros corpos. Por exemplo, o ponto médio de dois pontos distintos P e
Q pode ser definido (mesmo não sendo possı́vel definir segmento de recta)
−−→
como o ponto M := P + 21 P Q. Em qualquer corpo K existe uma identidade
1 para a multiplicação, e o escalar 12 significa o inverso de 1 + 1. Assim, o
ponto médio está definido desde que, em K, o elemento 1 + 1 não seja o zero
de K (ver Apêndice A).
Em geral, num espaço afim real ou complexo temos a seguinte definição.
Definição 1.2.12. Dados k pontos distintos P0 , . . . , Pk−1 de um espaço
afim real ou complexo chama-se centroide, equibaricentro ou centro
geométrico dos k pontos ao ponto
1 1
B := P0 + · · · + Pk−1 .
k k
30 1. GEOMETRIA AFIM
1.2.2. Conjuntos convexos.
Definição 1.2.13. Um subconjunto C de um espaço afim real diz-se um
conjunto convexo se, para quaisquer dois pontos P, Q ∈ C, o segmento de
recta [P Q] está contido em C.
Da definição de conjunto convexo segue obviamente que a intersecção de
dois conjuntos convexos é ainda um conjunto convexo. Em geral tem-se o
seguinte resultado.
Teorema 1.2.14. A intersecção de conjuntos convexos de um mesmo
espaço afim real A é ainda um conjunto convexo.
Demonstração: Seja {Cα }, com α ∈ I uma famı́lia qualquer de conjuntos
convexos de A. Se P, Q ∈ ∩α∈I Cα então P, Q ∈ Cα para qualquer α ∈ I.
Como, por hipótese, cada Cα é um conjunto convexo, para todo o α ∈ I,
temos que
[P Q] ⊆ Cα , ∀α ∈ I
e então [P Q] ⊆ ∩α∈I Cα . Conclui-se assim que o conjunto ∩α∈I Cα é convexo.
Nota 1.2.15. A união de dois conjuntos convexos não é, em geral, um
conjunto convexo.
Definição 1.2.16. Num espaço afim real A, o fecho convexo (ou
invólucro convexo), S, b de um conjunto S ⊆ A é a intersecção de todos
os conjuntos convexos de A que contêm S. É portanto o menor conjunto
convexo que contém S.
Definição 1.2.17. Dados m + 1 pontos P0 , . . . , Pm de um espaço afim
real A, um ponto Q diz-se uma combinação convexa dos pontos P0 , . . . , Pm
se
Xm
Q= bi Pi
i=0
Pm
com bi ≥ 0 para todo o i ∈ {1, . . . , m} e i=0 bi = 1.
Alternativamente, uma combinação convexa de pontos é dada por
m m
X −−→ X
Q = P0 + bi P0 Pi com bi ≥ 0, ∀i = 1, . . . , m e bi ≤ 1.
i=1 i=1
Nota 1.2.18. O conjunto de todas as combinações convexas de dois
pontos distintos P, Q ∈ A é exactamente o segmento de recta [P Q].
1.2. ESPAÇOS AFINS REAIS 31
Teorema 1.2.19. Um subconjunto C de um espaço afim real A é convexo
se e só se contém todas as combinações convexas de pontos de C.
Demonstração: Suponhamos que um conjunto C contém todas as com-
binações convexas dos seus pontos. Em particular, para quaisquer P, Q ∈ C,
o segmento [P Q] está contido em C, pelo que C é convexo.
Por outro lado, se C é convexo, vamos mostrar por indução no número
de pontos de uma combinação convexa, que qualquer combinação convexa
de um número finito de pontos de C pertence a C.
Obviamente, por definição de conjunto convexo, uma combinação con-
vexa de dois pontos de C está em C. Seja
m
X m
X
Q= bi Pi com bi ≥ 0, ∀i = 1, . . . , m e bi = 1
i=0 i=0
uma combinação convexa de m + 1 pontos P0 , . . . , Pm ∈ C e tome-se como
hipótese de indução que qualquer combinação convexa de m ou menos pontos
de C está em C.
Considerando b := m−1
P
i=0 bi temos bm = 1 − b. Como qualquer com-
binação convexa de m ou menos pontos de C está em C, podemos supor
que bi 6= 0 para todo o i = 0, . . . , m e portanto b 6= 0. Então tem-se
m−1
!
X bi
Q=b Pi + (1 − b)Pm
b
i=0
Pi=m−1 bi
(ver Nota 1.1.24). Como R := i=0 b Pi é uma combinação convexa dos
m pontos
P0 , . . . , Pm−1 ∈ C,
temos, por hipótese de indução, que R pertence a C. Como Q = bR + (1 −
b)Pm pertence ao segmento de recta [RPm ] e C é convexo, conclui-se que Q
pertence a C.
Corolário 1.2.20. O fecho convexo Sb de qualquer conjunto S ⊆ A é o
conjunto de todas as combinações convexas de pontos de S.
Exemplo 1.2.21. Os conjuntos seguintes são convexos:
• qualquer segmento de recta;
• qualquer semi-recta;
• qualquer m-simplex;
• qualquer m-plano.
32 1. GEOMETRIA AFIM
Nota 1.2.22. O fecho convexo de m + 1 pontos independentes é exacta-
mente o m-simplex definido por esses pontos.
1.2.3. Divisão por hiperplanos.
Definição 1.2.23. Seja H um hiperplano de um espaço afim real A de
dimensão finita. Diz-se que dois pontos P, Q 6∈ H estão do mesmo lado de
H se o segmento de recta [P Q] não intersecta H.
Pode demonstrar-se que a relação entre pontos de A \ H definida por
P ∼ Q se P = Q ou [P Q] ∩ H = ∅
é uma relação de equivalência com exactamente duas classes de equivalência
(ou seja um hiperplano tem exactamente dois lados).
Se dim A = n e o hiperplano H for definido em relação a um referencial
R de A pela equação
a1 x1 + · · · + an xn = b,
então estas classes de equivalência são exactamente os conjuntos
H+ := {P ∈ A : PR = (x1 , . . . , xn ) satisfaz a1 x1 + · · · + an xn − b > 0}
H− := {P ∈ A : PR = (x1 , . . . , xn ) satisfaz a1 x1 + · · · + an xn − b < 0}.
Cada uma destas classes de equivalência chama-se semi-espaço aberto
definido por H.
Um semi-espaço fechado definido por H é a união de H com um
semi-espaço aberto definido por H, ou seja,
H0+ := {P ∈ A : PR = (x1 , . . . , xn ) satisfaz a1 x1 + · · · + an xn − b ≥ 0}
H0− := {P ∈ A : PR = (x1 , . . . , xn ) satisfaz a1 x1 + · · · + an xn − b ≤ 0}.
Um semi-espaço aberto ou fechado é sempre um conjunto convexo.
1.3. Aplicações afins
Definição 1.3.1. Sejam A e B dois espaços afins associados a espaços
vectoriais V e W respectivamente. Uma aplicação ψ : A → B diz-se uma
aplicação afim se existe um ponto P ∈ A e uma aplicação linear f : V →
W tais que
−−−−−−−→ −−→
ψ(P )ψ(Q) = f (P Q)
para todo o ponto Q ∈ A.
1.3. APLICAÇÕES AFINS 33
PQ ΨHPL ΨHQL
ΨHPLΨHQL
P
A B
Figura 1.11. Aplicações Afins
Nota 1.3.2. A aplicação linear f não depende da escolha do ponto P .
Com efeito, se P 0 for um outro ponto de A qualquer, temos
−−−− −−−→ −−−−−−−→ −−−−−−−→ −−−−−−−→ −−−−−−−→
ψ(P 0 )ψ(Q) = ψ(P 0 )ψ(P ) + ψ(P )ψ(Q) = −ψ(P )ψ(P 0 ) + ψ(P )ψ(Q)
−−→ −−→ −−→ −−→ −−→
= −f (P P 0 ) + f (P Q) = f (P 0 P ) + f (P Q) = f (P 0 Q),
onde usámos a relação triangular e a linearidade de f . Como f depende
→
−
apenas de ψ chamamos-lhe ψ , a aplicação linear associada à aplicação
afim ψ. Então temos
−−−−−−−→ → − −−→
ψ(P )ψ(Q) = ψ (P Q)
para todos os pontos P, Q ∈ A.
Em particular,
−−−−−−−−−−→ → −
ψ(P )ψ(P + u) = ψ (u),
para todo o P ∈ A e u ∈ V , pelo que
→
−
(1.3.1) ψ(P + u) = ψ(P ) + ψ (u).
Proposição 1.3.3. A composta de duas aplicações afins é uma aplicação
afim com aplicação linear associada a composta das aplicações lineares as-
sociadas a cada uma das aplicações afins.
Demonstração: Sejam ψ : A → B e φ : B → C duas aplicações afins e
P, P 0 dois pontos de A quaisquer. Então
−−−−−−−−−−−−−−−−→ −−−−−−−−−−−−→ → − −−−−−−−→
(φ ◦ ψ) (P ) (φ ◦ ψ) (P 0 ) = φ(ψ(P ))φ(ψ(P 0 )) = φ (ψ(P )ψ(P 0 ))
→
− →− −−→ →
− → − −−→
= φ ( ψ (P P 0 )) = φ ◦ ψ (P P 0 ).
Conclui-se assim que φ ◦ ψ : A → C é uma aplicação afim e que
−−−→ → − →−
φ◦ψ = φ ◦ ψ.
34 1. GEOMETRIA AFIM
Exemplo 1.3.4.
→
−
1. Se A = B e ψ : V → V é a identidade, temos
−−−−−−−→ → − −−→ −−→
ψ(P )ψ(Q) = ψ (P Q) = P Q, ∀P, Q ∈ A.
Então, pela regra do paralelogramo, temos
−−−−→ −−−−→
P ψ(P ) = Qψ(Q), ∀P, Q ∈ A,
−−−−→
(ver Figura 1.12), pelo que P ψ(P ) é um vector constante u ∈ V e
ψ(P ) = P + u, ∀P ∈ A.
A aplicação ψ é então a translação associada ao vector u.
Q u ΨHQL
ΨHPL
P u
A
Figura 1.12. Translação associada ao vector u
2. Seja P0 um ponto de A e λ ∈ K um escalar. A aplicação ψ : A → A
definida por
−−→
(1.3.2) ψ(P ) = P0 + λP0 P
fixa P0 e satisfaz
−−−−−−−→ −−→
ψ(P0 )ψ(P ) = λP0 P , ∀P ∈ A.
Conclui-se assim que ψ é uma aplicação afim com aplicação linear
→
−
associada ψ : V → V dada por
→
−
ψ (v) = λv.
A aplicação ψ definida por (1.3.2) designa-se por dilatação de
centro P0 e factor (ou razão) λ.
Como a imagem de um subespaço vectorial por uma aplicação linear é
um subespaço vectorial temos o seguinte resultado.
1.3. APLICAÇÕES AFINS 35
Proposição 1.3.5. A imagem de um subespaço afim por uma aplicação
afim é um subespaço afim.
Demonstração: Seja ψ : A → B uma aplicação afim e F = P + W um
subespaço afim de A. Então ψ(F) é o subespaço afim de B
→
−
ψ(F) = ψ(P ) + ψ (W ).
Com efeito, se Q ∈ F, existe um vector w ∈ W tal que Q = P + w. Então,
por (1.3.1) temos
→
−
ψ(Q) = ψ(P ) + ψ (w),
→
−
pelo que ψ(F) ⊆ ψ(P ) + ψ (W ).
→
−
Por outro lado, se R ∈ ψ(P ) + ψ (W ), existe um vector w ∈ W tal que
→
−
R = ψ(P ) + ψ (w) = ψ(P + w),
→
−
pelo que R ∈ ψ(F) e então ψ(P ) + ψ (W ) ⊆ ψ(F).
Nota 1.3.6. Como a imagem de um subespaço vectorial por uma aplicação
linear tem dimensão menor ou igual à dimensão do subespaço inicial, conclui-
se que
dim ψ(F) ≤ dim F.
Corolário 1.3.7. Uma aplicação afim transforma pontos colineares em
pontos colineares.
1.3.1. Aplicações afins e referenciais.
Proposição 1.3.8. Seja ψ : A → B uma aplicação afim, onde A é um
espaço afim de dimensão finita n e R := (O; B) um referencial em A, com
B = (e1 , . . . , en ) uma base do espaço vectorial associado a A. A aplicação ψ
é determinada pela imagem ψ(O) da origem do referencial e pelas imagens
→
−
ψ (ei ) dos vectores da base B pela aplicação linear associada a ψ.
Demonstração: Seja ψ : A → B uma aplicação afim, onde A é um
espaço afim de dimensão finita n e R := (O; (e1 , . . . , en )) um referencial
em A. A aplicação ψ fica completamente determinada pelas imagens ψ(O)
→
− →
−
e ψ (e1 ), . . . , ψ (en ). Com efeito, se PR = (a1 , . . . , an ) são as coordenadas
de um ponto P no referencial R, temos
n
−−→ X
OP = ai ei
i=1
36 1. GEOMETRIA AFIM
e
n
→
− −−→ X →−
ψ(P ) = ψ(O) + ψ (OP ) = ψ(O) + ai ψ (ei ).
i=1
Seja ψ : A → B uma aplicação afim entre espaços afins de dimensão finita
n e m respectivamente, e R, R0 referenciais em A e em B. Se representarmos
por (x1 , . . . , xn ) as coordenadas dos pontos de A no referencial R e por
(y1 , . . . , ym ) as coordenadas dos pontos de B no referencial R0 podemos usar
estas coordenadas e pensar em ψ como uma aplicação afim
K n → K m.
Assim, se (x1 , . . . , xn ) são as coordenadas de um ponto P ∈ A no referencial
R e (y1 , . . . , ym ) as coordenadas do ponto ψ(P ) no referencial R0 , temos
n
X →
−
(ψ(P ))R0 = (ψ(O))R0 + xi ( ψ (ei ))B 0 ,
i=1
ou seja
y1 x1 b1
. .. ..
.. = A
+
. ,
.
ym xn bm
→
−
onde A é a matriz m×n cujas colunas são as coordenadas ( ψ (ei ))B 0 dos vec-
→
−
tores ψ (ei ) na base B 0 , para i = 1, . . . , n, e (b1 , . . . , bm ) são as coordenadas
(ψ(O))R0 do ponto ψ(O) no referencial R0 .
1.3.2. Pontos Fixos. Como uma aplicação afim fica determinada pela
imagem da origem de um referencial em conjunto com as imagens dos vec-
tores da base do referencial pela aplicação linear correspondente, temos o
seguinte resultado.
Proposição 1.3.9. A única aplicação afim dum espaço afim de di-
mensão n nele próprio que fixa n + 1 pontos independentes é a identidade.
Demonstração: Seja ψ : A → A uma aplicação afim num espaço afim de
dimensão n e P0 , . . . , Pn pontos independentes de A fixos por ψ. Considere-
se em A o referencial
−−−→ −−−→
R = P0 ; P0 P1 , . . . , P0 Pn .
1.3. APLICAÇÕES AFINS 37
Dado um ponto P ∈ A, sejam PR = (a1 , . . . , an ) as coordenadas de P no
referencial R. Então
n
→
− −−→ X →
− −−→
ψ(P ) = ψ(P0 ) + ψ (P0 P ) = ψ(P0 ) + ai ψ (P0 Pi )
i=1
n n
X −−−−−−−−→ X −−→
= P0 + ai ψ(P0 )ψ(Pi ) = P0 + ai P0 Pi = P,
i=1 i=1
pelo que ψ é a identidade.
Nota 1.3.10. Uma aplicação afim dum plano nele próprio que fixa 3
pontos não colineares é a identidade.
Analogamente temos o seguinte resultado mais geral.
Proposição 1.3.11. Se uma aplicação afim ψ : A → A fixa os pontos
P0 , . . . , Pk ∈ A então fixa todos os pontos de hP0 , . . . , Pk i.
Em particular, se uma aplicação afim fixa dois pontos distintos P, Q ∈ A
fixa também todos os pontos da recta que passa por P e Q.
1.3.3. O grupo afim.
Proposição 1.3.12. Sejam A e B espaços afins associados a espaços
vectoriais V e W respectivamente. Uma aplicação afim ψ : A → B é bijectiva
→
−
se e só se a aplicação linear associada ψ : V → W é bijectiva.
Além disso, se ψ é bijectiva, então ψ −1 : B → A é uma aplicação afim e
a aplicação linear associada é
−−−1
→ → − −1
ψ = ψ .
Demonstração: Seja P0 um ponto de A.
→
−
Se ψ é bijectiva então, para todo o P ∈ A e Q ∈ B, temos
−−−−−−−→ −−−−−→ →
− −−→ −−−−−→
ψ(P ) = Q ⇔ ψ(P0 )ψ(P ) = ψ(P0 )Q ⇔ ψ (P0 P ) = ψ(P0 )Q
−−→ → − −1 −−−−−→ −−→ − −1 −−−−−→
→
⇔ P0 P = ψ ψ(P0 )Q ⇔ P0 + P0 P = P0 + ψ ψ(P0 )Q
− −1 −−−−−→
→
⇔ P = P0 + ψ ψ(P0 )Q ,
pelo que, para todo o Q ∈ B existe um único P ∈ A tal que ψ(P ) = Q.
Conclui-se assim que ψ é bijectiva e que a sua inversa é dada por
→− −1 −−−−−→
ψ −1 (Q) = P0 + ψ ψ(P0 )Q .
38 1. GEOMETRIA AFIM
Inversamente, se ψ é bijectiva, então, para todo o v ∈ V e w ∈ W , temos
→
− →
−
ψ (v) = w ⇔ ψ(P0 ) + ψ (v) = ψ(P0 ) + w ⇔ ψ(P0 + v) = ψ(P0 ) + w
−−−−−−−−−−−−−−→
⇔ P0 + v = ψ −1 (ψ(P0 ) + w) ⇔ v = P0 ψ −1 (ψ(P0 ) + w),
→
−
pelo que, para todo o w ∈ W existe um único v ∈ V tal que ψ (v) = w.
→
−
Conclui-se assim que ψ é bijectiva.
Se ψ é bijectiva então, dados Q0 , Q1 ∈ B, temos
− −− −−−−−−− −−−→ −−−−−−−−−−−−−−−−−→ −−−→
→
ψ ψ (Q0 )ψ (Q1 ) = ψ(ψ −1 (Q0 ))ψ(ψ −1 (Q1 )) = Q0 Q1 ,
−1 −1
pelo que
−− −−−−−−−−−−→ → − −1 −−−→
ψ −1 (Q0 )ψ −1 (Q1 ) = ψ Q0 Q1 .
−−→ → − −1
Conclui-se assim que ψ −1 é uma aplicação afim e que ψ −1 = ψ .
Exemplo 1.3.13. Seja ψ : R2 → R2 a aplicação afim definida por
" # ! !
2 6 x 6
ψ(x, y) = + .
2 4 y −4
→
−
A aplicação linear associada a ψ é a aplicação ψ : R2 → R2 dada por
" # !
→
− 2 6 x
ψ (x, y) = .
2 4 y
Como " #
2 6
det = −4 6= 0,
2 4
" #
→
− 2 6
temos que ψ e ψ são bijectivas. Sendo A a matriz A := , temos
2 4
! ! ! !
u x 6 u
ψ(x, y) = ⇔A + =
v y −4 v
! ! ! !
x u−6 x u−6
⇔A = ⇔ = A−1
y v+4 y v+4
e então
! " # ! !
3
−1 −1 u−6 −1 2 u−6 −u + 32 v + 12
ψ (u, v) = A = 1 = .
v+4 2 − 21 v+4 u v
2 − 2 −5
1.4. EXERCÍCIOS 39
→− −1
A aplicação linear associada a ψ −1 é a aplicação ψ : R2 → R2 dada
por
" # !
→
− −1 −1 32 x
( ψ ) (x, y) = 1 .
2 − 21 y
Se A é um espaço afim, o conjunto GAf (A) de todas as aplicações afins
bijectivas de A nele próprio com a composição de aplicações forma um grupo
(ver Apêndice A), denominado grupo afim de A. Com efeito,
• pela Proposição 1.3.3, o conjunto GAf (A) é fechado para a com-
posição de aplicações;
• a composição de aplicações é associativa;
• a identidade idA : A → A é uma aplicação afim bijectiva e é o
elemento neutro da composição;
• pela Proposição 1.3.12 os elementos de GAf (A) têm inversa em
GAf (A).
Os elementos de GAf (A) denominam-se isomorfismos afins.
1.4. Exercı́cios
Exercı́cio 1.4.1. Seja A um espaço afim associado a um espaço vectorial
V . Sendo P, Q pontos de A e v, w vectores de V , quais das seguintes
expressões fazem sentido e quais os seus significados nesses casos?
a) P + 2v; b) v − w; c) 2v;
d) 2P ; e) P − Q; f ) P − 2Q;
g) P + Q; h) − P.
Exercı́cio 1.4.2. Mostre que se A e B são dois espaços afins associados
a espaços vectoriais sobre o mesmo corpo então o produto cartesiano A × B
é um espaço afim.
Exercı́cio 1.4.3. Mostre que se P, Q são dois pontos distintos de um
espaço afim A, existe uma e uma só recta de A que contém P e Q (isto é,
por dois pontos distintos passa uma e uma só recta).
Exercı́cio 1.4.4. Seja A um espaço afim. Mostre que dois subespaços
afins associados ao mesmo subespaço vectorial ou são disjuntos ou são iguais.
Exercı́cio 1.4.5. Sejam F e G dois subespaços afins de um espaço afim
A. Quando é que F ∪ G é um subespaço afim de A?
40 1. GEOMETRIA AFIM
Exercı́cio 1.4.6. Sejam V e W dois espaços vectoriais e seja
f :V →W
uma aplicação linear. Mostre que para todo o vector w ∈ f (V ), a pre-
imagem2 f −1 (w) é um subespaço afim de V (onde se considera em V a sua
estrutura natural de espaço afim).
Exercı́cio 1.4.7. Indique quais dos seguintes conjuntos de R3 são sube-
spaços afins, e no caso de o serem, determine a sua dimensão:
a) {(a, b, c) ∈ R3 : b = c, a ≥ 0}; b) {(a, b, c) ∈ R3 : a + b = 2};
√
c) {(λ, 2λ + 1, −3 + 3λ) : λ ∈ R}; d) {(a, b, c) ∈ R3 : a2 = −2};
e) {(a, b, c) ∈ R3 : a2 + b2 + c2 = 1}; f ) {(a, b, c) ∈ R3 : a + b ≥ 2}.
Exercı́cio 1.4.8. Indique a dimensão e codimensão do subespaço afim
de R5 definido pelas equações
x + y + z + w = 3, −x − y − t = 0 e 2z + 2w − 2t = 6.
Exercı́cio 1.4.9. Considere o subespaço afim F de R5 que passa pelo
ponto P = (0, 2, 0, 1, 0) com subespaço de direcções W gerado pelos vectores
(1, 2, 0, 0, 0), (0, 2, 0, 1, 0), (1, 0, 0, −1, 0), e (2, 6, 0, 1, 0).
a) Qual é a dimensão de F?
b) Indique um sistema de equações que descreva os pontos de F.
c) Indique uma recta paralela a F que passe pelo ponto (1, 2, 3, 4, 5). Quan-
tas rectas há nessas condicões?
d) Indique um hiperplano H paralelo a F.
Exercı́cio 1.4.10. Seja H o plano de R3 definido pela equação
x + y + 2z = 31.
Determine o plano paralelo a H que passa no ponto (π, 24, 0).
Exercı́cio 1.4.11. Considere em R3 a famı́lia de rectas rt , (t ∈ R) tais
que
rt := (t2 + 1, t, 1) + L{(t2 , t, 1)}
e a famı́lia de planos Hs , (s ∈ R) definidos pelas equações cartesianas
x + sy = 3.
2A preimagem f −1 (w) de w é o conjunto de todos os vectores de V cuja imagem por
f é w.
1.4. EXERCÍCIOS 41
a) Determine, para cada s, uma equação vectorial de Hs e para cada t um
sistema de equações cartesianas que defina rt .
b) Indique, se existirem, os pares (s, t) tais que rt é paralela a Hs .
c) Diga, justificando, se existe algum plano em R3 que contenha as rectas
r0 e r−2 .
d) Diga, justificando, se existe algum plano em R3 que contenha todas as
rectas rt .
Exercı́cio 1.4.12. Diga, justificando, quais das seguintes afirmações são
verdadeiras:
a) Duas rectas distintas de R2 ou são paralelas ou intersectam-se num ponto.
b) Duas rectas distintas de R3 ou são paralelas ou intersectam-se num ponto.
c) Em R3 duas rectas paralelas a um mesmo plano são paralelas entre si.
d) Dados dois planos em R3 existe sempre uma recta paralela a ambos os
planos.
e) Dados dois planos em R4 existe sempre uma recta paralela a ambos os
planos.
f) Dados dois 4-planos em C6 existe sempre uma recta paralela a ambos.
g) Em Rn em cada ponto passa uma única recta paralela a uma recta dada.
h) Em Rn em cada ponto passa uma única recta paralela a um plano dado.
Exercı́cio 1.4.13. Mostre que um subconjunto não vazio X de um
espaço afim A é um subespaço afim de A se e só se hP, Qi ⊂ X para todos
os pontos P, Q ∈ X. Note que esta proposição não é válida se o espaço das
direcções de A for um espaço vectorial sobre um corpo de caracterı́stica 2.
Exercı́cio 1.4.14. Em R3 considere o referencial R = (O; B) onde
O = (1, 2, 3) e B = (v1 , v2 , v3 ) ,
com v1 = (0, 1, 1), v2 = (0, 0, 1) e v3 = (1, 1, 0). Complete as afirmações
seguintes:
a) O vector u tal que uB = (1, 2, 7) é o vector . . .
b) Se u = (1, 2, 7) então uB = . . .
c) O ponto P tal que PR = (1, 2, 7) é o ponto P = . . .
d) Se P = (0, 0, 0) então PR = . . .
e) O ponto P tal que PR = (0, 0, 0) é o ponto P = . . .
Exercı́cio 1.4.15. Considere em R3 o referencial R do Exercı́cio 1.4.14
e F o plano definido em relação a R pela equação x − z = 5. Diga quais das
seguintes afirmações são verdadeiras:
42 1. GEOMETRIA AFIM
a) A origem do referencial R pertence a F.
b) O vector (1, 0, 1) pertence ao subespaço vectorial associado a F.
c) O vector v tal que vB = (1, 0, 1) pertence ao espaço das direcções de F.
d) O ponto O + v1 + v3 pertence a F.
e) O ponto P tal que PR = (1, 0, 1) pertence a F.
f) O ponto Q = (6, 0, 1) pertence a F.
g) O ponto P tal que PR = (6, 7, 1) pertence a F.
h) O plano definido, em relação a R, por x + y + z = 3 é paralelo a F.
Exercı́cio 1.4.16. Em R3 determine as equacões cartesianas, paramétricas
e vectoriais
a) da recta que passa pelos pontos P = (−5, 6, 1), Q = (3, 3, 0);
√
b) da recta definida pelo ponto P = (−5, 6, 2) e pelo vector v = (π, 2, −3);
c) do plano que contém os pontos (1, 0, 0), (0, 2, 1), (3, 3, 3).
Exercı́cio 1.4.17. Em R2 considere a recta m que passa pelos pontos
(−1, 4) e (5, −14). Determine um referencial R em R2 para o qual m seja
definida pela equação cartesiana y = 0. Esse referencial é único?
Exercı́cio 1.4.18. Diga quais das seguintes expressões fazem sentido e
qual o seu significado, onde P, Q, R são pontos de um espaço afim real ou
complexo:
−−→
a) P + (2 + i) P Q; b) − (1 + i)P + (2 + i) Q; c) 12 P + 31 Q + 16 R;
d) 12 P + 31 Q + 56 R; e) P + Q + R; f ) 31 P + 13 Q + 31 R;
g) 2P − Q; h) 2P + Q.
Exercı́cio 1.4.19. Em R3 determine o subespaço afim F gerado pelos
pontos P0 = (−1, −2, 0), P1 = (0, 1, 1), P2 = (−1, 0, 1) e P3 = (1, 0, 0) e diga
qual a sua dimensão.
Exercı́cio 1.4.20. Considere os pontos P0 = (0, 1, 2), P1 = (1, 0, 0) de
R3 e determine, se existirem, pontos P2 e P3 de R3 de forma a que os pontos
P0 , P1 , P2 , P3 sejam independentes.
Exercı́cio 1.4.21. Sejam P0 , P1 , P2 três pontos dum espaço afim de
dimensão dois que definem dois referenciais
−−−→ −−−→ −−−→ −−−→
R = P0 ; P0 P1 , P0 P2 e R0 = P2 ; P2 P1 , P2 P0 .
Determine as coordenadas PR e PR0 do ponto P = 21 P0 + 23 P1 − 16 P2 nos dois
referenciais.
1.4. EXERCÍCIOS 43
Exercı́cio 1.4.22. Diga, justificando, se a seguinte afirmação é ver-
dadeira ou falsa: “Dados uma recta e um plano de R3 , existe sempre um
referencial em relação ao qual a recta é definida pelas equações x = y = 0 e
o plano pela equação z = 0”.
Exercı́cio 1.4.23. Diga justificando se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) O subespaço afim gerado por duas rectas tem no máximo dimensão 3.
b) O subespaço afim gerado por duas rectas paralelas disjuntas tem di-
mensão 2.
c) O subespaço afim gerado por dois planos paralelos tem no máximo di-
mensão 3.
d) Dada uma recta r em R2 , existe um referencial em relação ao qual r é
definida pela equação cartesiana x = 0.
e) Dada uma recta r em Rn , existe um referencial em relação ao qual r é
definida pelas equações cartesianas x1 = 0, . . . , xn−1 = 0.
Exercı́cio 1.4.24. Mostre que se P = a0 P0 + · · · + am Pm é um ponto
de um espaço afim com a0 + · · · + am−1 6= 0 e m
P
i=0 ai = 1, então
P = αR + am Pm ,
Pm−1
onde α = i=0 ai e
a0 am−1
R= P0 + · · · + Pm−1 .
α α
Exercı́cio 1.4.25. Seja A um espaço afim real. Mostre que as diagonais
de um paralelogramo de A se intersectam no seu ponto médio, isto é, se
P, P 0 , Q0 , Q são os vértices de um paralelogramo (P P 0 Q) e o ponto C satisfaz
−−→0 −−→ −−→ −−→
P Q = 2P C, então C também satisfaz P 0 Q = 2P 0 C.
Exercı́cio 1.4.26. Dado um espaço afim A chama-se um sistema de
massas pontuais a um conjunto finito de pares
{(P1 , β1 ), . . . , (Pm , βm )} ,
onde Pi ∈ A e os βi são escalares para i = 1, . . . , m, chamados massas.
Mostre que:
a) Se β := m
P
i=1 βi 6= 0 então existe um único ponto C ∈ A (designado por
baricentro ou centro de massa) que satisfaz
m
X −−→
βi CPi = 0.
i=1
44 1. GEOMETRIA AFIM
Sugestão: utilize combinações afins.
b) Se P é um ponto qualquer de A então
m
−−→ X βi −−→
PC = P Pi .
β
i=1
c) O baricentro do sistema de massas {(P1 , λβ1 ), . . . , (Pm , λβm )} com λ 6= 0
coincide com o baricentro de {(P1 , β1 ), . . . , (Pm , βm )}.
d) Quando todas as massas são iguais então o baricentro coincide com o
centro geométrico dos pontos P1 , . . . , Pm .
Exercı́cio 1.4.27. Dados m + 1 pontos independentes P0 , . . . , Pm dum
espaço afim A de dimensão m, mostre que para todo o ponto Q ∈ A
existem massas β0 , β1 , . . . , βm para as quais Q é o baricentro do sistema
{(P0 , β0 ), · · · , (Pm , βm )}. Diga, justificando, se estas massas são únicas.
Exercı́cio 1.4.28. Seja A um espaço afim real. Mostre que se P, Q, R ∈
A são três pontos não colineares então 31 P + 13 Q+ 31 R é o ponto de intersecção
das três medianas do triangulo de vértices P , Q e R.
Exercı́cio 1.4.29. Determine o centro geométrico dos pontos P = (0, 1, 0),
Q = (1000, 2, −1) e R = (1, 2, 0) de R3 .
Exercı́cio 1.4.30. Mostre que se o centro geométrico de três pontos
distintos de Rn é um desses pontos então os três pontos são colineares.
Exercı́cio 1.4.31. Considere o centro geométrico C de n + 1 pontos in-
dependentes P1 , . . . , Pn+1 de um espaço afim real A. Mostre que C pertence
ao segmento de recta [Pn+1 C1 ], onde C1 é o centro geométrico dos pontos
P1 , . . . , P n .
Exercı́cio 1.4.32. Seja ∆ um triângulo de R2 . Para cada vértice P de
∆ considere duas rectas que passam em P e dividem o lado oposto a P em
três partes iguais. Seja H o hexágono limitado por estas seis rectas. Mostre
que as diagonais de H que unem vértices opostos se intersectam todas num
ponto.
Exercı́cio 1.4.33. Represente graficamente os conjuntos
A = (x, y) ∈ R2 : x ≤ 1, y ≥ 0, x ≥ y ;
B = (x, y) ∈ R2 : (x, y) = a0 (1, 0) + a1 (0, 1) + a2 (2, 3),
a0 , a1 , a2 ≥ 0, a0 + a1 + a2 = 1} .
Quais dos conjuntos A, B, A ∪ B são convexos?
1.4. EXERCÍCIOS 45
Exercı́cio 1.4.34. Seja r uma recta em R2 definida pela equação
ax + by + c = 0.
com a, b, c ∈ R. Mostre que o semiplano fechado
r0+ := (x, y) ∈ R2 : a x + b y + c ≥ 0
é um conjunto convexo.
Exercı́cio 1.4.35. Dados três pontos P, Q, R ∈ R2 determine a aplicação
afim ψ : R2 → R2 que transforma os pontos (0, 0), (1, 0) e (0, 1) nos pontos
P , Q e R. Qual a aplicação afim ψ : R2 → R2 que transforma os pontos
(0, 0), (1, 0) e (0, 1) nos pontos (2, 3), (1, 6) e (3, −1)?
Exercı́cio 1.4.36. Seja ψ : R2 → R2 a aplicação afim que transforma os
pontos (1, 2), (3, 1) e (1, 1) nos pontos (0, 1), (1, 1) e (2, 1) respectivamente.
Se considerarmos os referenciais de R2
e R0 = (0, 0); ((1, 0), (0, 1)) ,
R = (1, 1); ((1, 0), (0, 2))
determine a representação matricial de ψ que se obtém se fixarmos o refer-
encial R no espaço de partida e R0 no de chegada.
Exercı́cio 1.4.37. Seja ψ : R2 → R2 definida por
" #" # " #
1/2 −1/2 x −3/2
ψ(x, y) = + .
−1 2 y 4
Calcule a imagem por ψ das rectas
a) y = 2x; b) 3x − y + 1 = 0.
Exercı́cio 1.4.38. Mostre que a aplicação afim ψ : R2 → R2 dada por
" # ! !
1 3 x 4
ψ(x, y) = +
1 2 y −2
é bijectiva e determine a sua inversa. Quais são as aplicações lineares asso-
ciadas a ψ e a ψ −1 ?
Exercı́cio 1.4.39. Mostre que dados quaisquer dois paralelogramos de
R2 existe um isomorfismo afim que transforma um no outro.
Exercı́cio 1.4.40. Seja A um espaço afim real e ϕ : A → A uma
aplicação afim. Se P e Q são dois pontos distintos de A e X é uma com-
binação afim X = aP +b Q (com a+b = 1), mostre que ϕ(X) é a combinação
afim ϕ(X) = aϕ(P ) + b ϕ(Q).
46 1. GEOMETRIA AFIM
Exercı́cio 1.4.41. Seja A um espaço afim real e ϕ : A → A um isomor-
fismo afim. Se P e Q são dois pontos distintos de A e M é o ponto médio
do segmento de recta [P Q], mostre que ϕ(M ) é o ponto médio do segmento
de recta [ϕ(P )ϕ(Q)].
Exercı́cio 1.4.42. Seja A um espaço afim real e ψ : A → A uma
aplicação afim. Dada uma recta l ⊂ A mostre que os pontos médios dos
segmentos de recta [P ψ(P )] com P ∈ l ou são todos distintos e colineares
ou todos coincidentes.
Exercı́cio 1.4.43. Seja A um espaço afim real e φ : A → A um
isomorfismo afim. Mostre que, dados quaisquer dois pontos P, Q ∈ A do
mesmo lado de um hiperplano H ⊂ A, os pontos φ(P ) e φ(Q) estão do
mesmo lado do hiperplano φ(H).
Exercı́cio 1.4.44. Mostre que duas dilatações
δP0 ,λ : A → A e δP0 ,µ : A → A
com o mesmo centro comutam e que a composta é ainda uma dilatação com
o mesmo centro. Qual a razão dessa dilatação?
Exercı́cio 1.4.45. Seja A um espaço afim real e considere duas di-
latações δP,k1 , δQ,k2 : A → A com k1 k2 6= 1. Mostre que
δQ,k2 ◦ δP,k1 = δR,k1 k2 ,
onde R = Q + v com
k2 (1 − k1 ) −−→
v= QP .
1 − k1 k2
(Em particular os pontos P ,Q e R são colineares.) O que acontece quando
k1 k2 = 1?
Exercı́cio 1.4.46. Seja A um espaço afim associado a um espaço vec-
torial de dimensão finita V e ψ : A → A uma aplicação afim.
a) Mostre que:
→
−
i) se ψ tem um ponto fixo X e v ∈ V é tal que ψ (v) = v, então X + v
é também um ponto fixo de ψ;
−−−→
ii) se ψ tem dois pontos fixos distintos X1 , X2 , então o vector X1 X2 é
→
−
fixo por ψ .
iii) se P é um ponto de A qualquer e Q = ψ(P ), então X ∈ A é um
ponto fixo de ψ se e só se
→
− −−→ −−→ −−→
ψ (P X) − P X = QP .
1.4. EXERCÍCIOS 47
→
−
b) Conclua que ψ tem um e um só ponto fixo se e só se ψ fixa apenas o
vector 0V .
Exercı́cio 1.4.47. Seja A um espaço afim associado a um espaço vec-
torial V e sejam U e W dois subespaços vectoriais de V directamente com-
plementares, i.e. tais que V = U ⊕ W . Sejam F e G subespaços afins de A
associados a U e W respectivamente.
a) Mostre que F ∩ G =6 ∅ e determine a sua dimensão.
b) Considere as projecções p1 : U ⊕ W → U e p2 : U ⊕ W → W definidas
por
p1 (u, w) = u e p2 (u, w) = w
e as aplicações π1 : A → F e π2 : A → G definidas por
−−→
πi (P ) = P0 + pi (P0 P ), i = 1, 2,
onde P0 é o ponto da intersecção F ∩ G.
(i) Determine πi (P0 ), i = 1, 2.
(ii) Mostre que as aplicações πi são afins. Quais as aplicações lineares
associadas?
A aplicação π1 chama-se a projecção em F ao longo de G, e π2 a projecção
em G ao longo de F.
Exercı́cio 1.4.48. (Teorema de Thales) Seja A um plano afim. Sejam
r1 , r2 , r3 três rectas paralelas distintas e l, m duas rectas não paralelas a
r1 , r2 , r3 . Sendo Pi e Qi , para i = 1, 2, 3, os pontos de intersecção Pi = l ∩ ri
e Qi = m ∩ ri , mostre que os escalares α e β, tais que
−−−→ −−−→ −−−→ −−−→
P1 P3 = α P1 P2 e Q1 Q3 = β Q1 Q2 ,
−−→
são iguais (ver Figura 1.13.) Reciprocamente, se um ponto P satisfaz P1 P =
−−−→ −−−→ −−−→
αP1 P2 , onde α é tal que Q1 Q3 = α Q1 Q2 , mostre que P ∈ r3 (e então
P = P3 ).
Sugestão: Considere a projecção em m ao longo de r1 e comece por
mostrar que esta aplicação transforma os pontos Pi nos pontos Qi , com
i = 1, 2, 3.
Exercı́cio 1.4.49. (Teorema de Pappus) Seja A um plano afim e r, r0
duas rectas distintas de A. Sejam P, Q, R três pontos de r e P 0 , Q0 , R0 três
pontos de r0 . Mostre que se a recta P Q0 é paralela a QP 0 e QR0 é paralela
a RQ0 então P R0 é paralela a RP 0 .
48 1. GEOMETRIA AFIM
l m
P3 Q3 r3
P2 Q2 r2
P1 Q1 r1
A
Figura 1.13. Teorema de Thales
r P Q R
R r
C P Q
R′
Q′
P′ ′ R′ Q′ P′ r′
r
Figura 1.14. Teorema de Pappus
Sugestão: Suponha primeiro que as duas rectas r e r0 se intersectam
num ponto C e considere as dilatações δC,k1 , δC,k2 : A → A de centro C que
transformam P em Q e Q em R respectivamente. Use o Teorema de Thales
para mostrar que δC,k1 transforma Q0 em P 0 e δC,k2 transforma R0 em Q0 .
Use o Exercı́cio 1.4.44 para mostrar que δC,k1 ◦ δC,k2 transforma P em R e
R0 em P 0 . Conclua, pelo Teorema de Thales, que P R0 é paralela a RP 0 .
Se as duas rectas r e r0 são paralelas considere translações em vez de
dilatações.
Exercı́cio 1.4.50. (Teorema de Desargues) Considere dois triângulos
de vértices P, Q, R e P 0 , Q0 , R0 num plano afim A sem vértices em comum
e com lados correspondentes paralelos (ver Figura 3.6). Mostre que as três
rectas P P 0 , QQ0 e RR0 ou são concorrentes ou paralelas.
Sugestão: Suponha primeiro que as rectas P P 0 e QQ0 se intersectam
num ponto C e mostre que este ponto pertence à recta RR0 . Para isso
1.4. EXERCÍCIOS 49
P′ P P′
C P ′
Q Q′
R Q
Q
′ R R′
R
Figura 1.15. Teorema de Desargues
considere a dilatação δC,k : A → A de centro C que transforma P em P 0 e
use o Teorema de Thales para mostrar que esta dilatação transforma Q em
Q0 . Então, fazendo R00 := δC,k (R), basta mostrar (novamente pelo Teorema
de Thales) que R0 = R00 , pois isso implica que os três pontos C, R e R0 são
colineares.
Se as duas rectas P P 0 e QQ0 são paralelas considere a translação que
leva P em P 0 em vez da dilatação.
CAPÍTULO 2
Geometria Euclidiana
Neste capı́tulo introduzimos a noção de distância em espaços afins reais
e estudamos as transformações que a preservam.
2.1. Espaços afins euclidianos
Definição 2.1.1. Um espaço afim A associado a um espaço vectorial
real V de dimensão finita diz-se um espaço afim euclidiano se em V
estiver fixado um produto interno.
No que se segue E é usado para denotar um espaço afim euclidiano
associado a um espaço vectorial V real de dimensão finita n.
Definição 2.1.2. Um referencial R = (O; B) de E diz-se um referen-
cial ortogonal se B é uma base ortogonal de V . O referencial diz-se um
referencial ortonormado se B é uma base ortonormada de V .
Definição 2.1.3. Dado um hiperplano H = P + W de E, um vector não
nulo v ∈ V diz-se um vector normal a H se v ∈ W ⊥ . Se v é um vector
normal a H e v tem norma 1, diz-se um vector unitário normal a H.
Proposição 2.1.4. Seja H um hiperplano de E definido em relação a
um referencial ortonormado R = (O; B) de E pela equação
(2.1.1) a1 x1 + a2 x2 + · · · + an xn = b.
Então, um vector v ∈ V não nulo é um vector normal a H se e só se o
vector de coordenadas vB de v em relação à base B satisfaz
vB = λ(a1 , ..., an ),
para algum número real λ 6= 0.
Demonstração: Seja W o espaço das direcções de H e v ∈ V um vector
com coordenadas na base B = (e1 , . . . , en ) dadas por vB = (a1 , . . . , an ). Seja
w um vector qualquer de W e wB = (x1 , . . . , xn ) as suas coordenadas na
51
52 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
base B. Note que, como w ∈ W , as suas coordenadas satisfazem a equação
homogénea associada a (2.1.1), isto é
(2.1.2) a1 x1 + a2 x2 + · · · + an xn = 0.
Então temos
* n n
+ n
* n
+
X X X X
hv, wi = ai ei , xj e j = ai ei , xj ej
i=1 j=1 i=1 j=1
n
X n
X
= ai xj hei , ej i = ai xi ,
i,j=1 i=1
pois B é uma base ortonormada. Conclui-se assim que v ∈ W ⊥ se e só se
Xn
ai xi = 0.
i=1
Como dim W ⊥ = 1, o resultado segue.
Definição 2.1.5. Dado um subespaço afim F = Q + U de E, uma recta
r = P + L{w} diz-se perpendicular a F se w ∈ U ⊥ .
Nota 2.1.6. Duas rectas r = P + L{u} e s = Q + L{v} são perpendic-
ulares se e só se os vectores u e v são ortogonais.
Definição 2.1.7. Uma recta perpendicular a um hiperplano H diz-se
um eixoeixo! de um hiperplano de H.
Nota 2.1.8. Uma recta r = P + L{w} é um eixo de H se e só se w é
um vector normal a H.
Definição 2.1.9. Dois hiperplanos H1 e H2 dizem-se perpendiculares
se tiverem eixos perpendiculares.
Proposição 2.1.10. Seja H um hiperplano de E. Por um ponto P ∈ E
passa um e um só eixo de H.
Demonstração: Seja W o espaço das direcções de H. Como H é um
hiperplano temos que dim W ⊥ = 1 e então qualquer eixo de H tem espaço
de direções W ⊥ . Assim, a recta r = P + W ⊥ é o único eixo de H que passa
em P .
Nota 2.1.11. A Proposição 2.1.10 não é verdadeira se substituirmos
hiperplano por um subespaço afim arbitrário. Por exemplo, em R4 com o
produto interno usual, considere-se o plano
F := (0, 3, 0, 0) + L{(1, 0, 0, 0), (0, 1, 0, 0)}.
2.2. DISTÂNCIAS E ÂNGULOS 53
As rectas r := (3, 2, 1, 0) + L{(0, 0, 0, 1)} e s := (3, 2, 1, 0) + L{(0, 0, 1, 1)}
passam ambas pelo ponto (3, 2, 1, 0) e são ambas perpendiculares a F.
2.2. Distâncias e ângulos
Num espaço afim euclidiano é possı́vel definir a noção de distância e de
(medida de) ângulo.
Dados dois pontos P, Q ∈ E, a distância d(P, Q) entre P e Q é dada
por
−−→
d(P, Q) := kP Qk.
A função d : E × E → R assim definida tem as seguintes propriedades.
Proposição 2.2.1. Sejam P, Q, R ∈ E pontos quaisquer de E e u ∈ V
um vector qualquer. Então,
1) d(P, Q) = d(Q, P );
2) d(P, Q) ≥ 0 e d(P, Q) = 0 se e só se P = Q;
3) d(P, Q) = d(P + u, Q + u);
4) d(P, Q) ≤ d(P, R) + d(R, Q) (desigualdade triangular).
Demonstração: As propriedades 1) e 2) são consequência imediata das
definições e propriedades de espaço afim e de norma de um vector. A pro-
priedade 3) é consequência da Regra do Paralelogramo pois
−−→ −−−−−−−−−−−→
P Q = (P + u)(Q + u).
−−→ −→ −−→
Finalmente, para provar 4) temos P Q = P R + RQ, pelo que
−−→ −→ −−→ −→ −−→ −→ −−→
kP Qk2 = kP R + RQk2 = hP R + RQ, P R + RQi
−→ −→ −−→ −−→ −→ −−→
= hP R, P Ri + hRQ, RQi + 2hP R, RQi
−→ −−→ −→ −−→
= kP Rk2 + kRQk2 + 2hP R, RQi
−→ −−→ −→ −−→
≤ kP Rk2 + kRQk2 + 2|hP R, RQi|
−→ −−→ −→ −−→ −→ −−→ 2
≤ kP Rk2 + kRQk2 + 2kP RkkRQk = kP Rk + kRQk ,
onde usámos a desigualdade de Cauchy-Schwarz,
(2.2.1) |hu, vi| ≤ kukkvk, ∀u, v ∈ V.
−→ −−→
Nota 2.2.2. A igualdade em 4) ocorre exactamente quando hP R, RQi ≥
0 e temos igualdade na desigualdade de Cauchy-Schwarz (2.2.1), isto é
−→ −−→
quando os vectores P R e RQ têm a mesma direcção e sentido.
54 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Definição 2.2.3. O comprimento de um segmento de recta [P Q] é a
distância d(P, Q) entre P e Q.
Usando a noção de distância é possı́vel caracterizar os pontos de um
segmento de recta.
Proposição 2.2.4. Sejam P e Q dois pontos distintos de E. Um ponto
S de E pertence a [P Q] se e só se
d(P, S) + d(S, Q) = d(P, Q).
Demonstração: Seja S ∈ [P Q]. Então S pode ser escrito como com-
binação convexa S = aP + b Q, onde a, b ≥ 0 e a + b = 1. Assim,
−−→ −−→
S = P + b P Q = Q + a QP , pelo que
−−→ −−→ −−→
d(P, S) = b kP Qk e d(S, Q) = a kQP k = akP Qk,
e então
−−→ −−→
d(P, S) + d(S, Q) = (a + b)kP Qk = kP Qk = d(P, Q).
Reciprocamente, se P, Q e S são tais que
d(P, S) + d(S, Q) = d(P, Q),
−→ −→
então, pela Nota 2.2.2, temos que os vectores P S e SQ têm a mesma direcção
e sentido. Assim, existe µ ≥ 0 tal que
−→ −→
P S = µSQ,
pelo que
−−→ −→ −→ −→
P Q = P S + SQ = (1 + µ)SQ,
e então
−→ 1 −−→ −→ µ −−→
QS = QP e PS = P Q.
1+µ 1+µ
Conclui-se que
S = aP + b Q
com
1 µ
a= e b= .
1+µ 1+µ
(note que a + b = 1) e então, como a, b ≥ 0, temos que S ∈ [P Q].
O produto interno em V permite-nos também definir noções de medida
de ângulo.
2.3. DISTÂNCIAS ENTRE SUBESPAÇOS AFINS 55
Definição 2.2.5. Dadas duas rectas l e m de E, define-se o ângulo
](l, m) entre l e m, como sendo o menor dos ângulos ](u, v), onde u é um
vector director de l e v é um vector director de m.
Assim
h πi |hu, vi|
](l, m) = α ∈ 0, com cos α = .
2 ||u|| ||v||
Definição 2.2.6. Dada uma recta l e um hiperplano H, define-se o
ângulo ](l, H) entre l e H, como sendo
π
](l, H) := − ](l, m),
2
onde m é um eixo de H.
Definição 2.2.7. Dados dois hiperplanos H1 e H2 , define-se o ângulo
](H1 , H2 ) entre H1 e H2 , como sendo
](H1 , H2 ) := ](l, m),
onde l é um eixo de H1 e m é um eixo de H2 .
2.3. Distâncias entre subespaços afins
Para definir o conceito de distância entre dois subespaços afins de um
espaço afim euclidiano E precisamos do seguinte resultado.
Proposição 2.3.1. Sejam F = P + U e G = Q + W dois subespaços
afins de E associados a subespaços vectoriais U e W respectivamente e tais
que F ∩ G = ∅. Então,
i) existe uma recta r = X + L{v} com v ∈ U ⊥ ∩ W ⊥ que intersecta
F e G;
ii) para qualquer recta r que satisfaz i), se S e T são os pontos
S =r∩F e T = r ∩ G,
então d(S, T ) ≤ d(M, N ), para todos os pontos M ∈ F, N ∈ G.
−−→
Demonstração: i) Como, por hipótese, F ∩ G = ∅, o vector P Q ∈ / U +W
(ver o Teorema 1.1.15 sobre intersecções de subespaços afins).
−−→
Consideremos então o subespaço vectorial V0 de V gerado por P Q e
U + W , i.e.
−−→
V0 := L{P Q} + U + W.
O complemento ortogonal V1 de U + W em V0 , i.e. o subespaço
V1 := V0 ∩ U ⊥ ∩ W ⊥ ,
56 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
−−→ −−→
tem dimensão 1 e, como P Q ∈ V0 , podemos escrever P Q = u + w + v, com
−−→
u ∈ U , w ∈ W e v ∈ V1 . Como P Q ∈ / U + V , temos que v 6= 0, pelo que v é
um gerador de V1 .
Seja r a recta r := (P + u) + V1 . Pela construção de V1 , a recta r é
perpendicular a F e G. Como u ∈ U e w ∈ W , temos que
P +u∈r∩F e Q − w = P + u + v ∈ r ∩ G.
Note que, como r não é paralela a F nem a G, intersecta F e G apenas
em P + u e Q − u respectivamente. Conclui-se assim que a recta r satisfaz
i).
ii) Suponhamos agora que r é uma recta, cuja direcção é ortogonal a
U e V , e que intersecta F e G nos pontos S e T respectivamente. Dados
pontos M ∈ F e N ∈ G quaisquer, temos
−−→ −−→ −→ −−→
d(M, N )2 = kM N k2 = kM S + ST + T N k2
−−→ −→ −−→ −−→ −→ −−→
= hM S + ST + T N , M S + ST + T N i
−−→ −−→ −−→ −−→ −−→ −→ −−→ −→ −→
= hM S + T N , M S + T N i + 2hM S, ST i + 2hT N , ST i + kST k2 .
−−→ −−→ −→
Como T N ∈ W , M S ∈ U e ST ∈ U ⊥ ∩ W ⊥ , esta última expressão reduz-se
a
−−→ −−→ −→
kM S + T N k2 + kST k2 ,
pelo que
−−→ −−→
d(M, N )2 = d(S, T )2 + kM S + T N k2 ,
e então d(S, T ) ≤ d(M, N ).
Como consequência desta proposição temos que, dados dois subespaços
afins F e G de um espaço afim euclidiano E, o conjunto de números reais
D = {d(P, Q) : P ∈ F, Q ∈ G}
tem sempre um mı́nimo.
Definição 2.3.2. Dados dois subespaços afins F e G de E define-se a
distância d(F, G) entre F e G, como sendo o mı́nimo do conjunto
d(F, G) := min {d(P, Q) : P ∈ F, Q ∈ G}.
Nota 2.3.3. Claramente d(F, G) = 0 se e só se F ∩ G =
6 ∅.
Exemplo 2.3.4.
2.3. DISTÂNCIAS ENTRE SUBESPAÇOS AFINS 57
1) Pela Proposição 2.3.1 e pela Definição 2.3.2 temos que em R2 a
distância de um ponto P a uma recta r é a distância de P ao ponto
Q em que a recta perpendicular a r que passa por P intersecta r
(ver Figura 2.1).
P
d r
Q
2
R
Figura 2.1. Distância de um ponto P a uma recta r de R2 .
2) Da mesma forma, temos que em R2 a distância entre duas rectas
paralelas se calcula determinando a distância de um ponto de uma
das rectas à outra recta (ver Figura 2.2).
P
d
Q
2
R
Figura 2.2. Distância entre duas rectas paralelas de R2 .
3) A distância de um ponto P ∈ E a um hiperplano H é a distância de
P ao ponto Q em que o único eixo de H que passa por P intersecta
H (ver Figura 2.3).
4) A Proposição 2.3.1 diz-nos que por um ponto P ∈ E, não per-
tencente a uma recta r, passa uma recta s que intersecta r e é
perpendicular a r. Assim temos d(P, r) = d(P, Q), onde Q = r ∩ s.
58 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Figura 2.3. Distância entre um ponto P e um hiperplano
H de R3 .
Note que existe uma única recta s perpendicular a r que passa em
P e intersecta r. Com efeito, esta recta s está necessariamente
contida no hiperplano H que passa em P e é perpendicular a r, e
s tem de passar no ponto P e no ponto de intersecção Q = H ∩ r
(ver Figura 2.4).
Figura 2.4. Distância entre um ponto P e uma recta r de R3 .
5) Dadas duas rectas r, s de E, se r e s forem concorrentes temos
d(r, s) = 0. Se forem paralelas a distância de r a s é dada por
d(r, s) = d(P, Q), onde P e Q são os pontos em que um hiperplano
H perpendicular a r e a s intersecta r e s respectivamente. Se as
rectas forem enviesadas a distância de r a s calcula-se aplicando a
Proposição 2.3.1 e a sua demonstração, ou seja determinando uma
recta l que seja perpendicular a r e s e que intersecte r e s nos
pontos P e Q respectivamente. Teremos então d(r, s) = d(P, Q).
6) Dada uma recta r e um hiperplano H de E, temos r ∩ H = ∅ se e
só se r for paralela a H e r não estiver contida em H. Neste caso,
para determinar a distância de r a H, basta determinar um eixo m
2.4. DISTÂNCIAS E REFLEXÕES 59
de H que passe por um ponto P de r e teremos d(r, H) = d(P, Q),
onde Q = m ∩ H (ver Figura 2.5).
P r
Q H
Figura 2.5. Distância entre uma recta r e um hiperplano
H de R3 que não se intersectam.
2.4. Distâncias e reflexões
Proposição 2.4.1. Sejam P e Q dois pontos distintos dum espaço afim
euclidiano E de dimensão n. O conjunto
H := {X ∈ E : d(X, P ) = d(X, Q)}
dos pontos equidistantes de P e Q é um hiperplano de E que passa pelo ponto
médio de [P Q] e é perpendicular à recta r definida por P e Q.
Demonstração: Pela definição de H, o ponto médio de [P Q] está em H.
Fixemos um referencial ortonormado R = (O; B) em E e suponhamos
que PR = (p1 , . . . , pn ) e QR = (q1 , . . . , qn ). Então
−−→ −−→
H := {X ∈ E : d(X, P ) = d(X, Q)} = {X ∈ E : kP Xk = kQXk}
n
X n
X
= {X ∈ E : XR = (x1 , . . . , xn ) com (xi − pi )2 = (xi − qi )2 }
i=1 i=1
= {X ∈ E : XR = (x1 , . . . , xn ) com
2(q1 − p1 )x1 + · · · + 2(qn − pn )xn + p21 − q12 + · · · + p2n − qn2 = 0}.
−−→ −−→ −−→
Com efeito, note que P X = P O + OX, pelo que
−−→ −−→ −−→ −−→ −−→
(P X)B = (P O)B + (OX)B = −(OP )B + (OX)B = −PR + XR
= (x1 − p1 , . . . , xn − pn )
60 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
e então
* n n
+
−−→ −−→ −−→ X X
kP Xk2 = hP X, P Xi2 = (xi − pi )ei , (xj − pj )ej
i=1 j=1
n
X n
X
= (xi − pi )(xj − pj )hei , ej i = (xi − pi )2 .
i,j=1 i=1
−−→ Pn
Analogamente, kQXk2 = i=1 (xi − qi )2 .
Como P 6= Q, temos
(q1 − p1 , . . . , qn − pn ) 6= (0, . . . , 0),
pelo que um ponto X de coordenadas XR = (x1 , . . . , xn ) pertence a H se e
só se (x1 , . . . , xn ) é solução da equação linear
2(q1 − p1 )x1 + · · · + 2(qn − pn )xn + p21 − q12 + · · · + p2n − qn2 = 0.
Conclui-se assim que H é um subespaço afim de dimensão n − 1.
Como o subespaço vectorial U associado a H é definido em relação à
base ortonormada B pela equação homogénea
2(q1 − p1 )x1 + · · · + 2(qn − pn )xn = 0,
e a recta definida por P e Q tem como espaço de direcções o subespaço
vectorial W gerado pelo vector v cujas coordenadas em relação à base B são
vB = (q1 − p1 , . . . , qn − pn ),
temos que W ⊥ = U , ou seja que r e H são perpendiculares.
P Q
H
E
Figura 2.6. Conjunto H dos pontos equidistantes de P e Q.
2.4. DISTÂNCIAS E REFLEXÕES 61
Definição 2.4.2. Sejam P e Q dois pontos distintos de um espaço afim
euclidiano E de dimensão n. Ao hiperplano
H := {X ∈ Rn : d(X, P ) = d(X, Q)}
dá-se o nome de hiperplano mediador (ou bissector) do segmento de
recta [P Q] (ou de P e Q). Quando n = 2 diz-se que H é a recta mediatriz
de [P Q] (ou de P e Q).
Corolário 2.4.3. Sejam P0 , . . . , Pn pontos independentes de um espaço
afim euclidiano E de dimensão n. Se P, Q ∈ E são tais que
d(P, Pi ) = d(Q, Pi ), para i = 0, . . . , n
então P = Q.
Demonstração: Suponhamos que P 6= Q. Então, pela Proposição 2.4.1,
os pontos P0 , . . . , Pn pertencem ao hiperplano mediador H do segmento de
recta [P Q], pelo que P0 , . . . , Pn não geram um espaço afim de dimensão n,
o que é impossı́vel por hipótese.
Nota 2.4.4. Este corolário diz-nos, em particular, que em R2 um ponto
fica univocamente determinado pelas distâncias a três pontos não colineares
e que em R3 um ponto fica univocamente determinado pelas distâncias a
quatro pontos não coplanares.
Proposição 2.4.5. Seja H um hiperplano de um espaço afim euclidiano
E e P um ponto que não pertence a H. Então existe um e um só ponto P 0 ∈ E
tal que
H = {X ∈ E : d(X, P ) = d(X, P 0 )},
isto é, tal que H é o hiperplano mediador de [P P 0 ].
Ao ponto P 0 da Proposição 2.4.5 dá-se o nome de ponto simétrico de
P em relação a H.
Demonstração: Existência: Seja r o único eixo de H que passa em P e
seja M o ponto de intersecção de r com H. Como P ∈ / H, temos que M 6= P
−−→
e então o vector v := P M é um vector normal a H. Se considerarmos o ponto
P 0 := P + 2v,
temos que M é o ponto médio de [P P 0 ] e que H é o hiperplano mediador de
[P P 0 ].
62 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
P
Q¢
Q H
P¢
E
Figura 2.7. Pontos simétricos em relação ao hiperplano H.
Unicidade: Se existir outro ponto P 00 tal que H é o hiperplano mediador
−−→
de [P P 00 ], então, pela Proposição 2.4.1, o vector P P 00 é perpendicular a H,
pelo que P 00 tem de pertencer ao único eixo r de H que passa em P e o único
ponto M tal que r ∩ H = M tem de ser o ponto médio de [P P 00 ]. Assim,
temos necessariamente que
−−→
P 00 = M + P M = P 0 .
Nota 2.4.6. Se P 0 é o ponto simétrico do ponto P em relação ao hiper-
plano H então P é o ponto simétrico de P 0 em relação a H.
Definição 2.4.7. Seja H um hiperplano de um espaço afim euclidiano
E. Chama-se reflexão no hiperplanoindexreflexão! num hiperplano H à
aplicação
RH : E → E
tal que
S se S ∈ H
RH (S) = ,
S 0 se S ∈
/H
/ H, o ponto S 0 é o ponto simétrico de S em relação a H.
onde, para S ∈
Proposição 2.4.8. Seja H = Q + W um hiperplano de um espaço afim
euclidiano E. A reflexão RH no hiperplano H verifica as seguintes pro-
priedades:
i) Se P = Q + w + v, com w ∈ W e v ∈ W ⊥ , então
RH (P ) = Q + w − v.
2.4. DISTÂNCIAS E REFLEXÕES 63
P
R
Q H
R H HQL
R H HRL
R H HPL
E
Figura 2.8. Reflexão no hiperplano H.
ii) RH ◦ RH = idE e, em particular, RH é bijectiva.
iii) Para P, S ∈ E temos
d(P, S) = d(RH (P ), RH (S)).
Demonstração: i) Se P ∈/ H então i) é consequência da demonstração
da Proposição 2.4.5. Se P ∈ H, então P = Q + w com w ∈ W e i) decorre
trivialmente.
ii) Esta propriedade é consequência imediata de i).
iii) Usando i) temos, para P = Q + w1 + v1 e S = Q + w2 + v2 com
w1 , w2 ∈ W e v1 , v2 ∈ W ⊥ ,
d(RH (P ), RH (S)) = d(Q + w1 − v1 , Q + w2 − v2 ) = k(w2 − w1 ) + (v1 − v2 )k
e
d(P, S) = d(Q + w1 + v1 , Q + w2 + v2 ) = k(w2 − w1 ) − (v1 − v2 )k.
Como os vectores w2 − w1 e v1 − v2 são ortogonais, temos
k(w2 − w1 ) + (v1 − v2 )k = k(w2 − w1 ) − (v1 − v2 )k
e o resultado segue.
Corolário 2.4.9. Sejam H1 , . . . , Hm hiperplanos de um espaço afim
euclidiano E e RH1 , . . . , RHm as reflexões em H1 , . . . , Hm respectivamente.
Então a aplicação
f = RH1 ◦ · · · ◦ RHm
verifica
i) d(P, Q) = d(f (P ), f (Q)), ∀P, Q ∈ E.
64 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
v
Q
w
H
-v
R H HPL
E
Figura 2.9. Reflexão no hiperplano H.
ii) f é bijectiva.
iii) f −1 = RHm ◦ · · · ◦ RH1 .
Demonstração: A afirmação i) resulta imediatamente da Proposição 2.4.8
iii) e da definição de composição de funções. As afirmações ii) e iii) resul-
tam de uma reflexão ser bijectiva, da composição de funções bijectivas ser
ainda bijectiva e de uma reflexão ser a aplicação inversa de si própria.
Lema 2.4.10. Seja H = Q + W um hiperplano de um espaço afim eu-
clidiano E e u um vector normal a H. Então, para todo o X ∈ E, temos
−−→
hQX, ui
RH (X) = X − 2 u.
hu, ui
Demonstração: Se X ∈ E então, como dim W ⊥ = 1 e u ∈ W ⊥ , o ponto
X pode escrever-se como X = Q + w + λu, com λ ∈ R e w ∈ W . Então,
RH (X) = Q + w − λu = X − 2λu.
Por outro lado, como hw, ui = 0, temos
−−→
hQX, ui = h(w + λu), ui = λhu, ui,
pelo que
−−→
hQX, ui
λ=
hu, ui
e o resultado segue.
2.4. DISTÂNCIAS E REFLEXÕES 65
Nota 2.4.11. O vector
−−→
hQX, ui
u
hu, ui
−−→
é a projecção ortogonal do vector QX em u, pelo que podemos enunciar
o Lema 2.4.10 da seguinte forma:
Dado um hiperplano H := Q + W , a imagem de qualquer ponto X por
−−→
meio de RH é o ponto X − 2v, onde v é a projecção ortogonal de QX num
vector normal a H.
O Lema 2.4.10 dá-nos uma forma prática de calcular a expressão analı́tica
de uma reflexão num hiperplano.
Exemplo 2.4.12. Consideremos em R4 o hiperplano H definido (em
relação ao referencial canónico) pela equação
(2.4.1) x − 2z + w = 3.
O subespaço W das direcções de H é definido pela equação x − 2z + w = 0.
Como a base canónica é ortonormada em relação ao produto interno usual
temos
W = {(x, y, z, w) ∈ R4 : h(x, y, z, w), (1, 0, −2, 1)i = 0} = L{(1, 0, −2, 1)}⊥
e então o vector u := (1, 0, −2, 1) é normal a H.
Como as coordenadas do ponto Q := (3, 0, 0, 0) são solução da equação
(2.4.1), temos que Q ∈ H.
Assim, para qualquer ponto X = (x, y, z, w) ∈ R4 , temos
−−→
QX = (x − 3, y, z, w).
Como hu, ui = 6, temos, usando o Lema 2.4.10,
h(x − 3, y, z, w), (1, 0, −2, 1)i
RH (X) = (x, y, z, w) − 2 (1, 0, −2, 1)
6
1
= (x, y, z, w) − (x − 3 − 2z + w)(1, 0, −2, 1)
3
x − 2z + w − 3 −2x + 4z − 2w + 6 x − 2z + w − 3
= (x, y, z, w) − , 0, ,
3 3 3
2x + 2z − w + 3 2x − z + 2w − 6 −x + 2z + 2w + 3
= , y, , .
3 3 3
Conclui-se assim que RH é a aplicação definida por
2x + 2z − w + 3 2x − z + 2w − 6 −x + 2z + 2w + 3
RH (x, y, z, w) = , y, , .
3 3 3
66 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Exemplo 2.4.13. Consideremos, em R3 , o plano
H := (1, 2, 0) + L{(1, 2, 0), (0, 1, 1)}.
Temos
L{(1, 2, 0), (0, 1, 1)}⊥ = {(x, y, z) ∈ R3 : x + 2y = 0 e y + z = 0}
= L{(−2, 1, −1)}.
Assim, u := (−2, 1, −1) é um vector normal ao plano H, com kuk2 = 6. Es-
colhendo agora um ponto Q ∈ H, podemos determinar a expressão analı́tica
da reflexão em H. Considere-se então Q := (1, 2, 0) ∈ H. Para qualquer
−−→
X = (x, y, z) ∈ R3 , temos QX = (x − 1, y − 2, z), pelo que
h(x − 1, y − 2, z), (−2, 1, −1)i
RH (x, y, z) = (x, y, z) − 2 (−2, 1, −1)
6
−x + 2y − 2z 2x + 2y + z −2x + y + 2z
= , , .
3 3 3
Assim, a reflexão no plano H é a aplicação definida por
−x + 2y − 2z 2x + 2y + z −2x + y + 2z
RH (x, y, z) = , , .
3 3 3
Exemplo 2.4.14. Consideremos em R2 os pontos P = (1, 1) e Q =
(−1, 3). Vamos determinar a expressão analı́tica da reflexão na mediatriz
m de P e Q. O subespaço vectorial associado à recta definida por P e Q
−−→
é o subespaço L{P Q} = L{(−1, 1)}, pelo que o vector (−1, 1) é um vector
normal a m. Por outro lado, o ponto (0, 2) é o ponto médio do segmento de
recta [P Q]. Aplicando o Lema 2.4.10 obtemos, para todo o (x, y) ∈ R2 ,
2
Rm (x, y) = (x, y) − h(x, y − 2), (−1, 1)i(−1, 1) = (y − 2, x + 2).
2
Nota 2.4.15. No Exemplo 2.4.14 não foi necessário determinar a recta
m. Em geral, para encontrar a expressão analı́tica da reflexão num hiper-
plano mediador H de dois pontos P e Q, basta determinar o ponto médio
de [P Q] e a direção da recta definida por P e Q. Com efeito, para aplicar
o Lema 2.4.10 basta-nos conhecer um ponto de H e um vector normal a H,
que neste caso são dados respectivamente pelo ponto médio de [P Q] e por
um vector director da recta P Q.
Vejamos agora uma propriedade importante das reflexões.
2.4. DISTÂNCIAS E REFLEXÕES 67
Teorema 2.4.16. Sejam P0 , . . . , Pk pontos distintos de um espaço afim
euclidiano E, com k ≥ 1, e Q0 , . . . , Qk pontos de E que satisfazem
d(Pi , Pj ) = d(Qi , Qj ), ∀i, j ∈ {0, . . . , k}.
Então existe uma aplicação f : E → E tal que
i) f ou é uma reflexão num hiperplano ou uma composição de, no
máximo, k + 1 reflexões em hiperplanos de E;
ii) f (Pi ) = Qi , ∀i ∈ {0, . . . , k}.
Demonstração: Notemos primeiro que, se Pi = Qi para todo o i ∈
{0, . . . , k}, a afirmação é trivial. Com efeito, neste caso toma-se f = idE
pois, para qualquer hiperplano H, temos RH ◦ RH = IdE .
Caso contrário vamos fazer a demonstração por indução no número m =
k + 1 de pontos Pi , com i = 0, . . . , k.
Se m = 2 e supondo, sem perda de generalidade, que P0 6= Q0 , con-
sideremos a reflexão RH0 , onde H0 é o hiperplano mediador de P0 e Q0 .
Então, RH0 (P0 ) = Q0 . Se, além disso, RH0 (P1 ) = Q1 , então RH0 satisfaz
as condições pretendidas. Se RH0 (P1 ) 6= Q1 , considera-se H1 , o hiperplano
mediador de RH0 (P1 ) e Q1 . Então Q0 ∈ H1 . Com efeito, por hipótese,
temos
d(Q0 , Q1 ) = d(P0 , P1 ) = d(RH0 (P0 ), RH0 (P1 ))
= d(Q0 , RH0 (P1 )),
onde usámos a Proposição 2.4.8 - iii) e o facto que RH0 (P0 ) = Q0 . Conse-
quentemente,
(RH1 ◦ RH0 ) (P0 ) = RH1 (Q0 ) = Q0 e (RH1 ◦ RH0 ) (P1 ) = Q1 ,
pelo que a aplicação
RH1 ◦ RH0
satisfaz as condições pretendidas.
Suponhamos agora o teorema demonstrado para m pontos e vamos
demonstrá-lo para m + 1 pontos. Sejam então P0 , . . . , Pm pontos distin-
tos de E e Q0 , . . . , Qm pontos de E que satisfazem
d(Pi , Pj ) = d(Qi , Qj ), ∀i, j ∈ {0, . . . , m}.
Por hipótese de indução, considerando os m pontos P0 , . . . , Pm−1 e os m
pontos Q0 , . . . , Qm−1 , existe uma aplicação g : E → E que satisfaz:
68 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
i) g ou é uma reflexão ou uma composição de, no máximo, m re-
flexões;
ii) g(Pi ) = Qi , ∀i ∈ {0, . . . , m − 1}.
Se g(Pm ) = Qm , então g é a aplicação pretendida. Se g(Pm ) 6= Qm ,
considera-se o hiperplano H mediador de g(Pm ) e Qm . Então Q1 , . . . , Qm−1 ∈
H. Com efeito temos
d(Qi , Qm ) = d(Pi , Pm ) = d(g(Pi ), g(Pm )) = d(Qi , g(Pm )),
para todo o i ∈ {0, . . . , m − 1}, pois g é uma composição de reflexões,
(e consequentemente satisfaz a Proposição 2.4.9 - i)). Assim, a aplicação
f := RH ◦ g verifica
f (Pi ) = Qi , ∀i ∈ {0, . . . , m}
e o resultado segue.
Exemplo 2.4.17. Consideremos em R2 os pontos P0 = (0, 0) e P1 =
√
(1, 1) e os pontos Q0 = (0, 2) e Q1 = (−1, 3). Como d(P0 , P1 ) = 2 =
d(Q0 , Q1 ), temos, pelo Teorema 2.4.16, que existe uma reflexão ou uma
composição de duas reflexões f tal que f (P0 ) = Q0 e f (P1 ) = Q1 .
Para construir esta aplicação podemos aplicar o processo usado na demon-
stração do Teorema 2.4.16 . Considera-se em primeiro lugar a reflexão Rm
na mediatriz m de P0 e Q0 , isto é, a aplicação Rm : R2 → R2 dada por
Rm (x, y) = (x, −y + 2).
Como Rm (P1 ) = (1, 1) 6= Q1 , determinamos a reflexão na mediatriz l de
Rm (P1 ) e Q1 , isto é, a aplicação Rl : R2 → R2 dada por
Rl (x, y) = (y − 2, x + 2), ∀(x, y) ∈ R2 .
A aplicação f := Rl ◦ Rm dada por
f (x, y) = Rl (x, −y + 2) = (−y, x + 2)
satisfaz a condição i) do Teorema 2.4.16 e é tal que
f (P0 ) = Q0 e f (P1 ) = Q1 .
2.5. Isometrias
Definição 2.5.1. Seja E um espaço afim euclidiano. Uma aplicação
f : E → E diz-se uma isometria (ou moção rı́gida) se, para quaisquer
pontos P, Q ∈ E, se tem
d(P, Q) = d(f (P ), f (Q)).
2.5. ISOMETRIAS 69
Nota 2.5.2. Muitos autores definem isometria como sendo uma aplicação
bijectiva tal que, para quaisquer pontos P , Q de E se tem
d(P, Q) = d(f (P ), f (Q)).
No entanto, como veremos adiante, a bijectividade é uma consequência do
facto da aplicação manter a distância entre pontos.
Exemplo 2.5.3.
(i) (Reflexão num hiperplano.) Uma reflexão num hiperplano H
é uma isometria (ver a Proposição 2.4.8).
(ii) Pelo Corolário 2.4.9 qualquer composição de um número finito de
reflexões em hiperplanos é também uma isometria.
(iii) (Translação.) Seja E um espaço afim euclidiano associado a um
espaço vectorial V e seja v um vector de V . A aplicação Tv : E → E
definida por Tv (P ) = P + v, para todo o ponto P de E é uma
isometria a que se dá o nome de translação por meio de v.
P
R
Q
P+v
v R+v
Q+v
E
Figura 2.10. Translação associada ao vector v.
Se E tem dimensão n e R = (O; B) é um referencial de E, então
sendo vB = (v1 , . . . , vn ) as coordenadas do vector v na base B e
XR = (x1 , . . . , xn ) ∈ Rn as coordenadas de um ponto X ∈ E no
referencial R, temos que Tv (X) = X + v é o ponto de coordenadas
(x1 + v1 , . . . , xn + vn ).
(iv) (Inversão.) Seja E um espaço afim euclidiano associado a um
espaço vectorial V e P um ponto de E. Qualquer ponto X de E
−−→
pode ser escrito na forma X = P + P X. A aplicação ρP : E → E
70 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
definida por
−−→ −−→
ρP (X) = ρP (P + P X) := P − P X
ou, equivalentemente, pela combinação afim ρP (X) := 2P − X,
para todo o X ∈ E, é uma isometria a que se dá o nome de
inversão de centro em P .
Com efeito, para quaisquer X, Y ∈ E temos
−−→ −−→ −−→ −−→
d(ρP (X), ρP (Y )) = d(P − P X, P − P Y ) = kP X − P Y k
−−→ −−→
= (P + P X, P + P Y ) = d(X, Y ).
Alguns autores chamam reflexão em P a esta aplicação. Uma
inversão (de centro em P ) num espaço euclidiano de dimensão 2
chama-se uma meia-volta (de centro em P ).
P0
P3
P1
P
ΡPHP1 L
ΡPHP3 L
ΡPHP0 L
E
Figura 2.11. Inversão de centro P .
Exemplo 2.5.4.
(i) Em R3 a translação por meio do vector v = (3, −1, 12 ) é a aplicação
Tv : R3 → R3 definida por
1
Tv (x, y, z) = x + 3, y − 1, z + , ∀(x, y, z) ∈ R3 .
2
(ii) Em R3 a inversão de centro em P = (1, 2, 0) faz corresponder a
−−→ −−→
cada ponto X = P + P X o ponto P − P X, pelo que é a aplicação
2.5. ISOMETRIAS 71
ρP : R3 → R3 definida por
ρP (x, y, z) = ρP (1 + (x − 1), 2 + (y − 2), 0 + z))
= (1 − (x − 1), 2 − (y − 2), −z)) = (−x + 2, −y + 4, −z).
Vejamos agora uma proposição que generaliza o Corolário 2.4.9 - i) a
todas as isometrias.
Proposição 2.5.5. Se f e g são isometrias de um espaço afim euclidiano
E então a composição f ◦ g também é uma isometria.
Demonstração: Sejam f e g duas isometrias. Dados dois pontos P, Q ∈ E
quaisquer temos d(P, Q) = d(g(P ), g(Q)) pois g é uma isometria. Por outro
lado, como f é uma isometria, temos
d(f (g(P )), f (g(Q))) = d(g(P ), g(Q)).
Conclui-se assim que
d ((f ◦ g)(P ), (f ◦ g)(Q)) = d(P, Q), ∀P, Q ∈ E
e então f ◦ g é uma isometria.
Usando esta proposição podemos obter outras isometrias.
Exemplo 2.5.6. (Reflexão com deslize.) Se H é um hiperplano de
um espaço afim euclidiano E associado ao subespaço vectorial W e v 6= 0 é
um vector de W , a isometria Tv ◦ RH designa-se reflexão com deslize ou
reflexão deslizante em H por meio de v.
P
v HTv o RHLHQL
Q H
P¢
HTv o RH LHPL E
Figura 2.12. Reflexão com deslize no hiperplano H por
meio de v.
72 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Exemplo 2.5.7. Em R2 é fácil verificar que a reflexão Rr na recta
r := (0, 0) + L{(0, 1)}
é a aplicação Rr : R2 → R2 definida por
Rr (x, y) = (−x, y).
√
Então a reflexão com deslize em r por meio do vector v = (0, 2) é a
aplicação Tv ◦ Rr : R2 → R2 definida por
√
Rr (x, y) = (−x, y + 2).
Proposição 2.5.8. Se H = P + W é um hiperplano de E associado a
um subespaço vectorial W e v é um vector de W então Tv ◦ RH = RH ◦ Tv .
Demonstração: Seja X ∈ E. Podemos escrever X = P + w + u onde
w ∈ W e u ∈ W ⊥ . Pela Proposição 2.4.8 - i) temos
(Tv ◦ RH )(X) = Tv (P + w − u) = P + v + w − u.
Por outro lado, Tv (X) = P + v + w + u. Como v ∈ W , temos
Tv (X) = P + (v + w) + u,
onde v + w ∈ W e u ∈ W ⊥ , pelo que, pela Proposição 2.4.8 - i), temos
(RH ◦ Tv )(X) = P + v + w − u.
Conclui-se assim que, para todo o ponto X ∈ E,
(Tv ◦ RH )(X) = (RH ◦ Tv )(X)
e então Tv ◦ RH = RH ◦ Tv .
2.5.1. Isometrias e Reflexões.
Proposição 2.5.9. Se uma isometria f : E → E fixa n + 1 pontos
independentes P0 , . . . , Pn de um espaço afim euclidiano E de dimensão n,
então f é a aplicação identidade.
Demonstração: Seja X ∈ E. Como f é uma isometria e
f (Pi ) = Pi , ∀i ∈ {0, . . . , n},
temos
d(X, Pi ) = d(f (X), Pi ), ∀i ∈ {0, . . . , n}.
Como os pontos P0 , . . . , Pn geram o espaço E temos, pelo Corolário 2.4.3,
que f (X) = X. Conclui-se assim que f = idE .
2.5. ISOMETRIAS 73
Teorema 2.5.10. Seja E um espaço afim euclidiano de dimensão n.
Qualquer isometria f de E pode ser escrita como uma composição de, no
máximo, n + 1 reflexões.
Demonstração: Seja f uma isometria e considere-se n+1 pontos indepen-
dentes P0 , . . . , Pn ∈ E. Tomando os pontos Qi := f (Pi ), para i = 0, . . . , n,
temos (como f é uma isometria)
d(Pi , Pj ) = d(Qi , Qj ), ∀i, j ∈ {0, . . . , n}.
Assim, usando o Teorema 2.4.16, sabemos que existe uma isometria g, que
é uma composição de, no máximo n + 1 reflexões, e satisfaz g(Pi ) = Qi para
todo o i ∈ {0, . . . , n}. Pela Proposição 2.4.9, a sua inversa g −1 é também
uma isometria. Como
(g −1 ◦ f )(Pi ) = Pi , ∀i ∈ {0, . . . , n},
conclui-se pela Proposição 2.5.9 que g −1 ◦ f = idE e então f = g.
Com este teorema podemos reduzir o estudo das propriedades das isome-
trias ao estudo das propriedades da composição de reflexões.
Corolário 2.5.11. Qualquer isometria é uma aplicação bijectiva e a
inversa de uma isometria é uma isometria.
Demonstração: Seja f uma isometria de um espaço afim euclidiano E de
dimensão n. Pelo Teorema 2.5.10 existem k hiperplanos H1 , . . . , Hk , com
k ≤ n + 1 tais que
f = RH1 ◦ · · · ◦ RHk .
Pela Proposição 2.4.9 temos que uma composição de reflexões é uma isome-
tria bijectiva cuja aplicação inversa é também uma composição de reflexões
e o resultado segue.
Nota 2.5.12. Uma vez que a aplicação identidade idE : E → E é uma
isometria de E, temos, como consequência da Proposição 2.5.5 e do Corolário
2.5.11 que o conjunto de todas as isometrias de E com a composição de
aplicações forma um grupo (não comutativo). Este grupo é normalmente
designado por Iso(E). Pelo Teorema 2.5.10 tem-se que Iso(E) é gerado pelas
reflexões em hiperplanos de E.
Proposição 2.5.13. O subconjunto T ⊂ Iso(E) formado por todas as
translações é um subgrupo de Iso(E).
74 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Demonstração: Dado um grupo G e um subconjunto A ⊂ G, para de-
terminar se A é um subgrupo de G temos de verificar que A 6= ∅, que A
é fechado para a operação do grupo e que A contém todos os inversos de
elementos de A.
Neste caso temos T 6= ∅ pois, por exemplo, a aplicação IdE (a translação
por meio do vector nulo) pertence a T . Além disso, dadas duas translações
Tv e Tw , temos, para qualquer X ∈ E,
(Tv ◦ Tw )(X) = Tv (X + w) = X + w + v = Tv+w (X),
pelo que
Tv ◦ Tw = Tv+w ∈ T
e então T é fechado para a composição de aplicações. Analogamente, como
Tv−1 = T−v , temos que a aplicação inversa de uma translação é ainda uma
translação. Conclui-se assim que T é um subgrupo de Iso(E).
Proposição 2.5.14. Qualquer isometria de um espaço afim euclidiano
E de dimensão n fica univocamente determinada pelas imagens de n + 1
pontos independentes.
Demonstração: Temos de mostrar que se f e g são isometrias de E tais
que f (Pi ) = g(Pi ) para i = 0, . . . , n, onde P0 , . . . , Pn são n + 1 pontos
independentes de E, então f = g. Como, pelo Corolário 2.5.11, a aplicação
g é bijectiva, temos (g −1 ◦ f )(Pi ) = Pi para todo o i ∈ {0, . . . , n}. Além
disso, g −1 é uma isometria, pelo que g −1 ◦ f também é uma isometria e
então, pela Proposição 2.5.9, temos que g −1 ◦ f = idE , ou seja que g = f .
Exemplo 2.5.15. Como casos particulares desta proposição temos, por
exemplo,
(i) qualquer isometria de R2 fica univocamente determinada pelas im-
agens de três pontos não colineares.
(ii) qualquer isometria de R3 fica univocamente determinada pelas im-
agens de quatro pontos não coplanares.
Proposição 2.5.16. Sejam P0 , . . . , Pn pontos independentes de um espaço
afim euclidiano E de dimensão n e Q0 , . . . , Qn , outro conjunto de n + 1 pon-
tos tais que
d(Pi , Pj ) = d(Qi , Qj ), ∀i, j ∈ {0, . . . , n}.
Então existe uma única isometria f : E → E tal que
f (Pi ) = Qi , ∀i ∈ {0, . . . , n}.
2.5. ISOMETRIAS 75
Demonstração: A existência da isometria é dada pelo Teorema 2.4.16,
enquanto que a unicidade decorre da Proposição 2.5.14.
2.5.2. Isometrias e hiperplanos.
Lema 2.5.17. A imagem de um hiperplano por meio de uma isometria
é um hiperplano.
Demonstração: Seja H um hiperplano de E. Pela proposição 2.4.5, temos
que H pode ser descrito como o hiperplano mediador de dois pontos P e P 0 ,
ou seja
H = {X ∈ E : d(X, P ) = d(X, P 0 )}.
Se f : E → E é uma isometria temos, para X ∈ H,
d(f (X), f (P )) = d(f (X), f (P 0 )),
pelo que f (H) está contido no hiperplano
H0 := {Y ∈ E : d(Y, f (P )) = d(Y, f (P 0 ))}.
Como f −1 também é uma isometria, temos, pelo mesmo motivo, que
f −1 (H0 ) ⊂ H
e então
H0 = f f −1 (H0 ) ⊂ f (H) ⊂ H0 .
Conclui-se assim que f (H) = H0 e H = f −1 (H0 ).
Proposição 2.5.18. Seja E um espaço afim euclidiano. A imagem de
um subespaço afim F ⊂ E de dimensão k por meio de uma isometria é um
subespaço afim de dimensão k.
Demonstração: Seja F ⊂ E um subespaço afim de dimensão k. Então F
é a intersecção de n − k hiperplanos
F = H1 ∩ · · · ∩ Hn−k .
Dada uma isometria f : E → E temos
f (F) = f (H1 ∩ · · · ∩ Hn−k )
e então, como f é injectiva, temos
f (F) = f (H1 ∩ · · · ∩ Hn−k ) = f (H1 ) ∩ · · · ∩ f (Hn−k ).
Pelo Lema 2.5.17, cada imagem f (Hi ) é um hiperplano, para i = 1, . . . , n−k,
pelo que f (F) é a intersecção (não vazia) de n − k hiperplanos, ou seja um
subespaço afim F 0 de dimensão d0 ≥ k.
76 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Analogamente, como f −1 é também uma isometria, temos que
F = f −1 (F 0 )
é um subespaço afim de dimensão d ≥ d0 . Como a dimensão de F é k,
conclui-se que d0 = k.
Proposição 2.5.19. Seja f : E → E uma isometria dum espaço afim
euclidiano E e sejam P0 , . . . , Pk pontos de E. Então
f (hP0 , . . . , Pk i) = hf (P0 ), . . . , f (Pk )i.
Demonstração: Pela Proposição 2.5.18 sabemos que f (hP0 , . . . , Pk i) é
um subespaço afim de E. Como este espaço contém necessariamente os
pontos f (P0 ), . . . , f (Pk ), conclui-se que
f (hP0 , . . . , Pk i) ⊇ hf (P0 ), . . . , f (Pk )i.
Da mesma forma, como f −1 é uma isometria, concluı́mos que
f −1 (hf (P0 ), . . . , f (Pk )i) ⊇ hf −1 (f (P0 )), . . . , f −1 (f (Pk ))i = hP0 , . . . , Pk i,
e então
hf (P0 ), . . . , f (Pk )i = f f −1 (hf (P0 ), . . . , f (Pk )i) ⊇ f (hP0 , . . . , Pk i),
pelo que
f (hP0 , . . . , Pk i) = hf (P0 ), . . . , f (Pk )i.
Proposição 2.5.20. Seja f : E → E uma isometria dum espaço afim
euclidiano E que fixa os pontos P0 , . . . , Pk ∈ E. Então f fixa todos os pontos
do subespaço afim
F = hP0 , . . . , Pk i.
Demonstração: Pela Proposição 2.5.19 sabemos que f (F) é o subespaço
afim gerado por f (P0 ) = P0 , . . . , f (Pk ) = Pk , ou seja f (F) = F. Seja S um
ponto qualquer de F. Então f (S) é um ponto de F e
d(S, Pi ) = d(f (S), Pi ), ∀i ∈ {0, . . . , k}.
Se f (S) 6= S, terı́amos F ⊂ H, onde H é o hiperplano mediador de S e f (S),
o que é absurdo, dado que S ∈ / H. Conclui-se assim que f (S) = S e então
f|F = IdF .
2.5. ISOMETRIAS 77
Corolário 2.5.21. Se uma isometria f : E → E dum espaço afim eu-
clidiano E de dimensão n fixa n pontos independentes P0 , . . . , Pn−1 (ou seja
que geram um hiperplano H), então ou f é a identidade ou é a reflexão no
hiperplano H.
Demonstração: Suponhamos que f fixa n pontos P0 , . . . , Pn−1 que geram
um hiperplano H e que f 6= idE . Pela Proposição 2.5.20, todos os pontos do
hiperplano H definido por P0 , . . . , Pn−1 são pontos fixos de f . Seja S um
ponto tal que S ∈ / H. Então os pontos P0 , ...Pn−1 , S geram E.
Se f não é a identidade, temos que f (S) 6= S (caso contrário f fixaria
n + 1 pontos independentes num espaço de dimensão n e seria a identidade).
Como f é uma isometria e f (P0 ) = P0 , . . . , f (Pn−1 ) = Pn−1 , temos
d(f (S), Pi ) = d(S, Pi ), ∀i = 0, . . . , n − 1,
pelo que o hiperplano H gerado por P0 , . . . , Pn−1 é o hiperplano mediador
do segmento de recta [Sf (S)]. Conclui-se assim que f (S) é o ponto simétrico
de S em relação a H. Considerando a reflexão RH no hiperplano H temos
que f e RH têm o mesmo valor em n + 1 pontos independentes pelo que
f = RH .
Este resultado é facilmente generalizável.
Corolário 2.5.22. Se uma isometria f : E → E dum espaço afim
euclidiano E de dimensão n fixa n − k pontos independentes P0 , . . . , Pn−k−1
com k ≥ 0 (ou seja que geram um (n − k − 1)-plano F), então ou f é a iden-
tidade ou pode ser escrita como composição de, no máximo, k + 1 reflexões
em hiperplanos que contêm F.
Demonstração: Este resultado prova-se facilmente por indução em k.
Para k = 0 o resultado é o Corolário 2.5.21. Vamos pois assumir que é
válido para n − k pontos independentes e que f fixa n − (k + 1) pontos
independentes P0 , . . . , Pn−k−2 que geram um (n − k − 2)-plano F. Seja S
um ponto de E tal que S ∈ / F (pelo que os pontos P0 , ..., Pn−k−2 , S são
independentes).
Se f (S) = S temos, por hipótese de indução, que ou f é a identidade
ou pode ser escrita como composição de, no máximo, k + 1 reflexões em
hiperplanos que contêm o (n − k − 1)-plano hP0 , ..., Pn−k−2 , Si e que, conse-
quentemente, contêm F.
Se f (S) 6= S então, se H é o hiperplano mediador de S e f (S), temos
que g := RH ◦ f é uma isometria que fixa os pontos P0 , ..., Pn−k−2 e S,
78 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
pelo que ou é a identidade ou pode ser escrita como composição de, no
máximo, k + 1 reflexões em hiperplanos de E que contêm o (n − k − 1)-plano
hP0 , ..., Pn−k−2 , Si. Assim f = RH ◦ g pode ser escrita como composição de,
no máximo, k + 2 reflexões em hiperplanos e, como os pontos P0 , ..., Pn−k−2
pertencem a H (pois d(Pi , S) = d(Pi , f (S)) para i = 0, . . . , n − k − 2), temos
que a intersecção destes hiperplanos contém F.
2.5.3. Aplicações ortogonais e isometrias. Muitas das propriedades
das isometrias que provámos anteriormente são, em geral, verificadas por
aplicações afins. Vamos ver agora que, de facto, as isometrias são isomorfis-
mos afins. Para isso, como qualquer isometria é uma composição de reflexões
e a composição de aplicações afins é uma aplicação afim, basta verificar que
qualquer reflexão é uma aplicação afim.
Proposição 2.5.23. Uma reflexão RH : E → E num hiperplano H dum
espaço afim euclidiano E é uma aplicação afim.
Demonstração: Seja V o espaço vectorial associado a E e W o espaço
das direções do hiperplano H. Então, como V = W ⊕ W ⊥ , considerando
um ponto P ∈ H, temos que qualquer X ∈ E pode ser escrito na forma
X =P +w+v
−−→
onde w ∈ W e v ∈ W ⊥ (isto é, v e w são tais que P X = w + v). Assim,
para qualquer X ∈ E, temos
RH (X) = P + w − v
e então
−−−−−−−−−−→ −−−−−−→ →
− −−→
RH (P )RH (X) = P RH (X) = w − v = φ (P X),
→
−
onde φ : V → V é a aplicação que a cada vector u = w + v ∈ V , com
w ∈ W e v ∈ W ⊥ faz corresponder o vector
→
− →
−
φ (u) = φ (w + v) := w − v.
Verifica-se facilmente que esta aplicação é linear pelo que RH é uma aplicação
afim.
Corolário 2.5.24. Qualquer isometria de um espaço afim euclidiano é
um isomorfismo afim.
2.5. ISOMETRIAS 79
Demonstração: Consequência imediata da Proposição 2.5.23 e do Corolá-
rio 2.5.11.
Nota 2.5.25. O Lema 2.5.17 e as Proposições 2.5.18 e 2.5.20 são con-
sequências do Corolário 2.5.24 e das Proposições 1.3.5 e 1.3.11 para aplicações
afins.
As aplicações lineares associadas a isometrias verificam uma propriedade
adicional: são aplicações ortogonais, ou seja preservam o produto interno
(ver Apêndice C).
Proposição 2.5.26. Seja f : E → E uma isometria de um espaço eu-
clidiano E associado a espaço vectorial real V . Então a aplicação linear
→
−
f : V → V associada a f é uma aplicação ortogonal.
Demonstração: Temos de mostrar que
→
− →
−
h f (u), f (v)i = hu, vi, ∀u, v ∈ V.
Como f é uma isometria, escolhendo um ponto P ∈ E qualquer, temos
→
− −−−−−−−−−−→
k f (u)k = kf (P )f (P + u)k = d(f (P ), f (P + u)) = d(P, P + u) = kuk,
para todo o vector u ∈ V , pelo que se conclui que a aplicação linear associada
a uma isometria preserva normas.
Como para u, v ∈ V temos
ku + vk2 = hu + v, u + vi = kuk2 + kvk2 + 2hu, vi,
conclui-se que
1
ku + vk2 − kuk2 − kvk2 ,
hu, vi = ∀u, v ∈ V
2
e então
→
− →
− 1 →
− →
− →
− →
−
h f (u), f (v)i = k f (u) + f (v)k2 − k f (u)k2 − k f (v)k2
2
1 →
− →
− →
−
= k f (u + v)k2 − k f (u)k2 − k f (v)k2
2
1
ku + vk2 − kuk2 − kvk2 = hu, vi.
=
2
Reciprocamente temos o seguinte resultado.
Proposição 2.5.27. Seja f : E → E uma aplicação afim definida num
espaço afim euclidiano E cuja aplicação linear associada é ortogonal. Então
f é uma isometria de E.
80 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
→
−
Demonstração: Seja φ : V → V a aplicação linear associada a f . Para
quaisquer dois pontos P, Q ∈ E temos
−−−−−−→ →
− −−→ −−→
d(f (P ), f (Q)) = kf (P )f (Q)k = k φ (P Q)k = kP Qk = d(P, Q),
→
−
onde usámos o facto que φ é ortogonal e, portanto, preserva normas:
→
− →
− →
−
k φ (u)k2 = h φ (u), φ (u)i = hu, ui = kuk2 .
→
−
Uma matriz A que representa uma aplicação ortogonal φ : V → V em
relação a uma base ortonormada de V é uma matriz ortogonal, i.e. satisfaz
AT A = AAT = Id,
pelo que (det A)2 = 1 e então det A = ±1. Como o determinante de uma
→
−
representação matricial de φ não depende da base escolhida podemos de-
→
−
signá-lo por det φ .
→
−
Definição 2.5.28. Seja f : E → E uma isometria e φ a aplicação
→
−
ortogonal associada a f . Diz-se que f é uma isometria directa se det φ = 1
→
−
e que f é uma isometria inversa se det φ = −1.
Nota 2.5.29. Nalguns contextos, especialmente em Fı́sica, dá-se o nome
de moções rı́gidas ou isometrias apenas às isometrias directas.
Exemplo 2.5.30. Seja v um vector de V e f := Tv : E → E a translação
por meio de v. Sabemos já que a aplicação ortogonal associada a uma
translação é a identidade (ver Exemplo 1.3.4). Conclui-se então que uma
translação é uma isometria directa.
Exemplo 2.5.31. Consideremos a isometria f : R2 → R2 definida por
f (x, y) = (6 + y, 3 + x).
→
−
A aplicação ortogonal associada a f é a aplicação φ : R2 → R2 definida por
" # !
→
− 0 1 x
φ (x, y) = (y, x) = .
1 0 y
→
−
Como a matriz A que representa φ em relação à base canónica é
" #
0 1
A= ,
1 0
temos det A = −1, pelo que f é uma isometria inversa.
2.5. ISOMETRIAS 81
Exemplo 2.5.32. (Forma normal de uma reflexão.) Seja H = P +W
um hiperplano de E. Já vimos que, dado um ponto X = P + w + v, com
w ∈ W e v ∈ W ⊥ , se tem RH (X) = P + w − v.
Por outro lado, pela demonstração da Proposição 2.5.23 sabemos que a
→
−
aplicação ortogonal φ : V → V associada a RH é tal que, dado um vector
u ∈ V , que se escreve como u = w + v com w ∈ W e v ∈ W ⊥ , nos dá
→
− →
−
φ (u) = φ (w + v) = w − v.
Escolhendo uma base ortonormada B = (e1 , . . . , en ) em V tal que
L{e1 , . . . , en−1 } = W e L{en } = W ⊥ ,
→
−
a representação matricial de φ em relação à base B é
1 0 ... ... 0
0 1 0 ... 0
→
− . . . . .
M ( φ ; B) = .. . . . . . . ..
.
0 ... 0 1 0
0 ... ... 0 −1
→
−
Conclui-se assim que det φ = −1, pelo que uma reflexão num hiperplano
é uma isometria inversa.
Como, pela Proposição 1.3.3, a aplicação ortogonal associada a uma
composição de isometrias é a composicão das aplicações ortogonais asso-
ciadas a cada uma das isometrias temos imediatamente o seguinte resultado.
Proposição 2.5.33. A composição de isometrias directas é uma isome-
tria directa.
A composição de um número par de isometrias inversas é uma isometria
directa.
A composição de um número ı́mpar de isometrias inversas é uma isome-
tria inversa.
A aplicação inversa de uma isometria directa é uma isometria directa.
A aplicação inversa de uma isometria inversa é uma isometria inversa.
Corolário 2.5.34. O conjunto de todas as isometrias directas é um
subgrupo de Iso(E).
Exemplo 2.5.35. Como uma translação é uma isometria directa e uma
reflexão num hiperplano é uma isometria inversa, conclui-se que as reflexões
com deslize são isometrias inversas.
82 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Nota 2.5.36. (Ângulos geométricos e isometrias.) Dados três pontos
não colineares P, Q, R ∈ E, o ângulo geométrico ∠(QP R), de vértice P
definido por Q e R, é a união da semirecta com origem em P a passar por
Q com a semirecta com origem em P a passar por R. A medida, ](QP R),
do ângulo geométrico ∠(QP R) é definida com sendo o ângulo
−−→ −→
](QP R) := ](P Q, P R).
É fácil verificar que uma isometria preserva as medidas dos ângulos geométricos.
Com efeito, temos
−−−−−−→ −−−−−−→
cos (] (f (Q)f (P )f (R))) = cos ] f (P )f (Q), f (P )f (R)
→ →
− −−→ → − −→
− −−→ → − −→ h φ (P Q), φ (P R)i
= cos ] φ (P Q), φ (P R) = → − −−→ → − −→
k φ (P Q)kk φ (P R)k
−−→ −→
hP Q, P Ri
= −−→ −→ = cos (] (QP R)) ,
kP QkkP Rk
→
−
onde φ : V → V é a aplicação ortogonal associada a f .
2.6. Isometrias de R2
Considerando em R2 a estrutura de espaço afim usual com a distância
entre pontos definida pela norma dada pelo produto interno usual, vamos
estudar as isometrias de R2 . Em primeiro lugar vamos recordar algumas das
proposições já estudadas agora restritas ao caso particular de R2 .
Proposição 2.6.1. (ver Proposição 2.4.3) Em R2 um ponto fica univo-
camente determinado pelas distâncias a três pontos não colineares.
Proposição 2.6.2. (ver Proposição 2.4.5) Em R2 , dada uma recta l
e um ponto P ∈ / l existe um e um só ponto P 0 tal que l é a mediatriz do
segmento de recta [P P 0 ].
Proposição 2.6.3. (ver Proposição 2.5.14) Qualquer isometria de R2
fica univocamente determinada pelas imagens de três pontos não colineares.
Proposição 2.6.4. (ver Proposição 2.5.16) Sejam P0 , P1 , P2 três pontos
não colineares de R2 e Q0 , Q1 , Q2 outros três pontos de R2 tais que
d(Pi , Pj ) = d(Qi , Qj ), ∀i, j ∈ {0, 1, 2}.
Então existe uma e uma só isometria g : R2 → R2 tal que g(Pi ) = Qi , para
todo o i ∈ {0, 1, 2}.
2.6. ISOMETRIAS DE R2 83
Proposição 2.6.5. (ver Proposições 2.5.9 e 2.5.21) Se uma isometria
de R2 tem três pontos fixos não colineares então é a identidade.
Se tiver dois pontos fixos P e Q então ou é a identidade ou é a reflexão
na recta r definida por P e Q.
Teorema 2.6.6. (ver Teorema 2.5.10) Qualquer isometria de R2 pode
ser escrita como composição de uma, duas ou três reflexões.
Corolário 2.6.7. O grupo das isometrias de R2 é gerado pelas reflexões
em rectas de R2 .
2.6.1. Alguns Exemplos de Isometrias. Vejamos alguns exemplos
de isometrias de R2 .
Exemplo 2.6.8. (Translações.) Seja v um vector de R2 . A translação
por meio de v é a aplicação Tv : R2 → R2 definida por Tv (P ) = P + v, para
todo o ponto P de R2 e é uma isometria directa.
Se v = (a, b), tem-se
Tv (x, y) = (x + a, y + b), ∀(x, y) ∈ R2 .
Em particular se v 6= (0, 0) a translação Tv não tem pontos fixos.
Exemplo 2.6.9. (Reflexão numa recta.) A reflexão numa recta l
(ver Definição 2.4.7) é uma isometria inversa. Por definição de reflexão, os
pontos fixos de Rl são exactamente os pontos da recta l.
Exemplo 2.6.10. (Reflexão com deslize.) (ver Exemplo 2.5.6) Se
l := P + U é uma recta de R2 e v é um vector não nulo de U (isto é paralelo
a l), então a reflexão com deslize ao longo da recta l por meio de v é a
isometria Tv ◦ Rl (que, pela Proposição 2.5.8, é igual a Rl ◦ Tv ). A aplicação
ortogonal associada a Tv ◦ Rl é a aplicação ortogonal associada a Rl , pelo
que uma reflexão com deslize é uma isometria inversa. Uma reflexão com
deslize não tem pontos fixos.
Exemplo 2.6.11. (Rotação de centro C e ângulo θ.) Consideremos
→
−
a aplicação ortogonal φ θ : R2 → R2 , cuja matriz em relação à base canónica
de R2 é " #
→
− cos θ − sin θ
M ( φ θ ; b.c.) = ,
sin θ cos θ
→
−
com θ ∈ [0, 2π[, ou seja φ θ é a rotação de centro em (0, 0) e ângulo θ.
84 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Dado um ponto C definimos uma aplicação ρC,θ : R2 → R2 por
→
− −−→
ρC,θ (P ) = C + φ θ (CP ), ∀P ∈ R2 .
Verifica-se facilmente que ρC,θ é uma isometria directa pois é uma aplica-
ção afim cuja aplicação linear associada é ortogonal (ver Proposição 2.5.27)
com determinante 1. A esta isometria dá-se o nome de rotação de centro
C e ângulo θ.
Note que uma rotação ρC,π é exactamente a meia-volta de centro em C
pois, para todo o vector v ∈ R2 , temos
−−→
ρC,π (P ) = C − CP .
Uma rotação ρC,θ 6= idR2 tem um único ponto fixo: o ponto C. Com
efeito, se P = C + v, com v 6= 0, fosse um outro ponto fixo de ρC,θ , terı́amos
→
−
P = C + v = ρC,θ (P ) = C + φ θ (v),
→
− →
−
pelo que φ θ (v) = v e então v seria um vector próprio de φ θ associado ao
→
−
valor próprio 1. No entanto, verifica-se facilmente pela definição de φ θ que,
se θ 6= 0, esta aplicação não tem 1 como valor próprio.
Proposição 2.6.12. Se ρC,α e ρC,β são duas rotações de centro C então
ρC,α ◦ ρC,β é a rotação de centro em C e ângulo γ, onde γ ∈ [0, 2π[ é tal que
γ ≡α+β (mod 2π).
A isometria inversa de ρC,θ é a rotação ρC,2π−θ .
Demonstração: Por definição de rotação temos
→
− →
− → −
(ρC,α ◦ ρC,β ) (C + v) = ρC,α (C + φ β (v)) = C + φ α ( φ β (v))
→
− →
−
= C + ( φ α ◦ φ β )(v),
→
− →
−
onde φ α e φ β são as aplicações ortogonais associadas a ρC,α e ρC,β respec-
tivamente. Como as representações matriciais destas aplicações em relação
à base canónica de R2 são dadas pela matrizes
" # " #
→
− cos α − sin α →
− cos β − sin β
M ( φ α ; b.c.) := e M ( φ β ; b.c.) =
sin α cos α sin β cos β
e
→
− →
− →
− →
−
M ( φ α ◦ φ β ; b.c.) = M ( φ α ; b.c.)M ( φ β ; b.c.),
2.6. ISOMETRIAS DE R2 85
temos
" #
→
− →
− cos α cos β − sin α sin β − cos α sin β − sin α cos β
M ( φ α ◦ φ β ; b.c.) =
cos α sin β + sin α cos β cos α cos β − sin α sin β
" #
cos(α + β) − sin(α + β)
(2.6.1) = ,
sin(α + β) cos(α + β)
pelo que ρC,α ◦ ρC,β = ρC,γ , com
α + β se α + β < 2π
γ= .
α + β − 2π se α + β ≥ 2π
Em particular, como a identidade idR2 pode ser vista como a rotação
de centro C e ângulo 0, a isometria inversa da rotação ρC,θ é a rotação de
centro em C e ângulo 2π − θ.
2.6.2. Classificação. Vamos agora caracterizar as isometrias de R2 .
Para tal precisamos dos seguintes resultados auxiliares.
Proposição 2.6.13. Se uma isometria f de R2 tem um único ponto fixo
C, então f é uma rotação de centro C.
→
−
Demonstração: Suponhamos que f tem um único ponto fixo C e seja φ
→
−
a aplicação ortogonal associada a f . Por definição de φ e porque f (C) = C
temos para todo o Q = C + w,
→
−
f (Q) = C + φ (w).
→
−
Como C é o único ponto fixo de f a aplicação φ não pode ter 1 como valor
→
−
próprio. Com efeito, se λ = 1 fosse valor próprio de φ e v 6= 0 fosse um
vector próprio associado ao valor próprio λ, terı́amos
→
−
f (C + v) = C + φ (v) = C + v,
pelo que C + v seria um ponto fixo de f diferente de C.
Pela classificação das aplicações ortogonais de R2 (ver Secção C.3 do
→
−
Apêndice C), concluı́mos que se φ não tem 1 como valor próprio então
→
− →
−
φ = φ θ para algum θ ∈ [0, 2π[. Assim, para qualquer X ∈ E, temos
−−→ →
− −−→ →
− −−→
f (X) = f (C + CX) = f (C) + φ (CX) = C + φ θ (CX),
pelo que f é necessariamente uma rotação de centro no ponto fixo C.
Corolário 2.6.14. Se l e m são duas rectas distintas de R2 concorrentes
num ponto P , então Rl ◦ Rm é uma rotação de centro P .
86 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Demonstração: Suponhamos que C é ponto fixo de Rl ◦ Rm , isto é que
(Rl ◦ Rm ) (C) = C.
Então, como Rl ◦ Rl = idR2 , temos
Rm (C) = Rl (C).
Se Rl (C) 6= C também Rm (C) 6= C, pelo que, por definição de reflexão,
terı́amos que as rectas (distintas) m e l seriam ambas as mediatrizes do
segmento de recta entre C e Rl (C) = Rm (C), o que é absurdo.
Se Rl (C) = C, então também Rm (C) = C pelo que, por definição de
reflexão, concluı́mos que C ∈ l e C ∈ m, ou seja C = P = l ∩ m.
Conclui-se assim que P é o único ponto fixo de Rl ◦ Rm pelo que a
isometria Rl ◦ Rm é uma rotação de centro P (ver Proposição 2.6.13).
Proposição 2.6.15. Seja f 6= idR2 uma rotação de R2 de centro P e
seja m uma recta que passa em P . Então
(i) existe uma recta l que passa P tal que f = Rl ◦ Rm ;
(ii) existe uma recta l0 que passa em P tal que f = Rm ◦ Rl0 .
Demonstração: (i) Seja S um ponto de m tal que S 6= P . Como f tem
P como único ponto fixo, temos f (S) 6= S. Seja l a mediatriz do segmento
de recta [Sf (S)] (ver Figura 2.13). Como f é uma isometria e f (P ) = P ,
temos
d(P, S) = d(P, f (S)),
pelo que P ∈ l, por definição de mediatriz.
fHSL
l
P
S m
Figura 2.13. f = Rl ◦ Rm .
Então, considerando a reflexão Rl na recta l, temos
Rl (S) = f (S), Rl (f (S)) = S e Rl (P ) = P.
2.6. ISOMETRIAS DE R2 87
Seja h : R2 → R2 a isometria h := Rl ◦ f . Como
h(P ) = Rl (f (P )) = P e h(S) = Rl (f (S)) = S,
temos que h fixa dois pontos distintos P e S, pelo que, pela Proposição 2.6.5
ou h = idR2 ou h é a reflexão na recta que passa em P e S, ou seja na recta
m.
Como Rl ◦ Rl = idR2 e h = Rl ◦ f , temos
Rl ◦ h = Rl ◦ (Rl ◦ f ) = f.
Se h é a identidade temos f = Rl , contradizendo o facto de f ter um único
ponto fixo. Conclui-se assim que h = Rm e f = Rl ◦ Rm .
(ii) Consideremos a isometria f −1 . Como f −1 é também uma rotação
de centro P , podemos aplicar a parte (i) da proposição a f −1 e à recta m
(ver Figura 2.14). Conclui-se assim que existe uma recta l0 que passa em P
tal que
f −1 = Rl0 ◦ Rm .
Então
f = (f −1 )−1 = (Rl0 ◦ Rm )−1 = Rm
−1
◦ Rl−1
0 = Rm ◦ Rl0
pois a aplicação inversa de uma reflexão é a própria reflexão.
P S
m
-1
l¢
f HSL
E
Figura 2.14. f = Rm ◦ Rl0 .
Proposição 2.6.16. Seja f 6= idR2 uma rotação de R2 de centro em P
e ângulo α que se escreve como f = Rm ◦ Rl , onde Rm , Rl são reflexões em
rectas m e l que passam por P . Então α é o ângulo orientado α = 2]or (l, m)
(ver Anexo B.B.4)
88 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Demonstração: Seja X um ponto de l tal que X 6= P e seja M o ponto
médio do segmento de recta [Xf (X)]. Como
f (X) = Rm (Rl (X)) = Rm (X)
é o simétrico de X em relação a m, temos que o ponto M pertence à recta
me
−−−−−→ −−→
M f (X) = XM .
P fHXL
M
m
X l
E
Figura 2.15. Ângulo de uma rotação.
Como os triângulos de vértices P , X, M e P , M , f (X) são iguais, temos
−−→ −−−→ −−→ −−−−→
]or (P X, P M ) = ]or (P M , P f (X)).
Assim,
−−→ −−−−→ −−→ −−−→ −−→ −−−−→
]or (P X, P f (X)) = ]or (P X, P M ) + ]or (P M , P f (X)) (mod 2π)
−−→ −−−→
= 2]or (P X, P M ) (mod 2π).
Como pelas propriedades dos ângulos orientados de rectas temos
−−→ −−→
2]or (l, m) = 2]or (P X, P M ) (mod 2π)
(ver Proposição B.4.1 do Apêndice B), e, por definição, o ângulo de rotação
−−→ −−−−→
α é exactamente α = ]or (P X, P f (X)), obtemos α = 2]or (l, m).
Proposição 2.6.17.
(i) Sejam l e m duas rectas paralelas de R2 . Então a composição
Rm ◦ Rl é a translação T2v por meio do vector 2v ortogonal às
rectas e tal que se P ∈ l então P + v ∈ m.
2.6. ISOMETRIAS DE R2 89
(ii) Dada uma translação Tv e uma recta l = P +L{u} com u ortogonal
a v existem rectas m e m0 tais que
Tv = Rm ◦ Rl = Rl ◦ Rm0 ,
onde
1 1
m = P + v + L{u} e m0 = P − v + L{u}.
2 2
v
v P+ m
2
P l
m¢
v
P-
2
E
Figura 2.16. Uma translação como composição de duas re-
flexões em rectas paralelas.
Demonstração: (i) Sejam l e m duas rectas paralelas. Se l = m então
Rm ◦ Rl = idR2 , pelo que Rm ◦ Rl é a translação pelo vector nulo (que é
ortogonal a qualquer vector de R2 ).
Suponhamos que l 6= m e que r é uma recta perpendicular a l e m. Sejam
P e Q respectivamente os pontos de intersecção de r com l e m e considere-se
−−→
o vector v = P Q (que é ortogonal ao subespaço vectorial associado a l e m).
Temos
−−→ −−→
(Rm ◦ Rl )(P ) = Rm (P ) = Rm (Q + QP ) = Q − QP
−−→ −−→
= Q + P Q = P + 2P Q = P + 2v = T2v (P ),
e
−−→ −−→
(Rm ◦ Rl )(Q) = (Rm ◦ Rl )(P + P Q) = Rm (P − P Q)
−−→ −−→ −−→ −−→
= Rm (Q + QP − P Q) = Rm (Q − 2P Q) = Q + 2P Q
= Q + 2v = T2v (Q).
90 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Consideremos um ponto S tal que S ∈ l e S 6= P , por exemplo S = P + u.
Então
−−→ −−→
(Rm ◦ Rl )(S) = Rm (S) = Rm (P + u) = Rm (Q + QP + u) = Q + u − QP
−−→ −−→ −−→
= P + P Q + u + P Q = S + 2P Q = S + 2v = T2v (S).
Como as imagens dos três pontos não colineares P ,Q e S por meio de T2v e
por meio de Rm ◦Rl são as mesmas e uma isometria de R2 fica univocamente
determinada pelas imagens de três pontos não colineares, concluı́mos que
T2v = Rm ◦ Rl .
Para demonstrar (ii) sejam
1
l = P + L{u} e m = P + v + L{u}
2
com hu, vi = 0. Qualquer ponto X ∈ R2 pode ser escrito na forma
X = P + λu + w,
com w ∈ L{u}⊥ e λ ∈ R. Então temos (ver Proposição 2.4.8)
1 1
Rl (X) = Rl (P + λu + w) = P + λu − w = P + v − v + λu − w,
2 2
pelo que
1 1
(Rm ◦ Rl )(X) = Rm (Rl (X)) = Rm (P + v + λu − v − w).
2 2
⊥ 1
Como v ∈ L{u} e P + 2 v ∈ m, temos
1 1 1 1
Rm (P + v + λu − v − w) = P + v + λu + v + w
2 2 2 2
= P + λu + w + v = X + v
e então Rm ◦ Rl = Tv .
Analogamente se verifica que Rl ◦ Rm0 = Tv .
Exemplo 2.6.18. Seja v = (4, 2) e P = (0, 1). Para decompormos a
translação Tv como Tv = Rl ◦ Rm onde m é uma recta que passa por P ,
podemos usar a Proposição 2.6.17. Como L{v}⊥ = L{(−1, 2)}, basta-nos
escolher
1
m = P + L{(−1, 2)}, e l = P + v + L{(−1, 2)} = (2, 2) + L{(−1, 2)}.
2
Para decompor Tv na forma Tv = Rm ◦ Rl0 escolhemos
1
l0 = P − v + L{(−1, 2)} = (−2, 0) + L{(−1, 2)}.
2
2.6. ISOMETRIAS DE R2 91
m l v
l¢
v
P+
P 2
v
P-
2 2
R
Figura 2.17. T(4,2) = Rl ◦ Rm = Rm ◦ Rl0 .
Proposição 2.6.19. Seja v um vector de R2 tal que v 6= 0 e l := P + U
uma recta de R2 .
1. Se v ∈ U ⊥ então Tv ◦ Rl é a reflexão Rm na recta m paralela a l
que passa por P + 21 v, i.e.
v
m = P + + U.
2
2. Se v ∈/ U ⊥ então Tv ◦ Rl é uma reflexão com deslize ao longo da
recta m.
Demonstração: 1. Suponhamos que v ∈ U ⊥ . Então pela Proposição 2.6.17
- (ii) podemos escrever Tv = Rm ◦ Rl onde m = P + 12 v + U , pelo que
Tv ◦ Rl = Rm ◦ Rl ◦ Rl = Rm .
2. Suponhamos que v ∈ / U ⊥ . Então, como V = U ⊕ U ⊥ , podemos
decompor v = u + w com u ∈ U e w ∈ U ⊥ , onde u 6= 0. Assim, Tv = Tu ◦ Tw
e
Tv ◦ Rl = Tu ◦ (Tw ◦ Rl ).
Como w ∈ U ⊥ , pela primeira parte da demonstração, temos que Tw ◦ Rl
é a reflexão na recta
1 1
m = P + w + U = P + (u + w) + U
2 2
e então, como u 6= 0 e u ∈ U , temos que
Tu ◦ (Tw ◦ Rl ) = Tu ◦ Rm
é uma reflexão com deslize ao longo de m.
92 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
1. v 2. v v
P+ v P+
2 m 2 m
l w l
P u
P
R2 R2
Figura 2.18. Composição Tv ◦ Rl de uma translação com
uma reflexão.
Alternativamente, se v pertence ao subespaço vectorial U , então, por
definição, Tv ◦ Rl é uma reflexão com deslize (ao longo da recta l por meio de
v). Suponhamos então que v ∈ / U e consideremos a decomposição v = u + w,
⊥
com u ∈ U e w ∈ U onde w 6= 0 (pois v ∈ / U ). Note-se que u = 0 se e só
⊥
v ∈ U . Se m é a recta
1
m := P + v + U,
2
podemos considerar a isometria g := Tu ◦ Rm . Se u = 0 a aplicação g é a
reflexão Rm e, se u 6= 0, é a reflexão com deslize ao longo de m por meio de
u. Para demonstrar a proposição basta-nos mostrar que Tv ◦ Rl = g. Para
isso, pela Proposição 2.6.3, basta-nos ver que as duas isometrias coincidem
em três pontos não colineares. Consideremos os pontos P , S = P + u1 ∈ l
com u1 ∈ U e Q := P + 21 v. Como v ∈ / U , os pontos P , Q e S não são
colineares. Além disso, temos
1 1
P = Q − (u + w), S = Q − (u + w) + u1 e Q ∈ m.
2 2
Uma vez que P, S ∈ l, temos
(Tv ◦ Rl )(P ) = P + v, e (Tv ◦ Rl )(S) = S + v.
Como Q = P + 12 (u+w) e u e w são ortogonais, então Rl (Q) = P + 12 (u−w),
pelo que
1 1
(Tv ◦ Rl )(Q) = P + (u − w) + v = P + u + v = Q + u.
2 2
2.6. ISOMETRIAS DE R2 93
Por outro lado,
1 1
g(P ) = (Tu ◦ Rm )(P ) = (Tu ◦ Rm )(Q − (u + w)) = Tu Q − (u − w)
2 2
1
= Q + (u + w) = P + v,
2
g(Q) = (Tu ◦ Rm )(Q) = Tu (Q) = Q + u,
1
g(S) = (Tu ◦ Rm )(S) = (Tu ◦ Rm ) Q + u1 − (u + w)
2
1 1 1 1
= Tu Q + u1 − u + w = Q + u1 + u + w = S + v.
2 2 2 2
Conclui-se assim que Tv ◦ Rl = Tu ◦ Rm .
Teorema 2.6.20. (Classificação das isometrias de R2 .) Uma isome-
tria de R2 ou é a identidade, ou uma reflexão, ou uma rotação, ou uma
reflexão com deslize, ou uma translação.
Demonstração: Seja f uma isometria de R2 .
Se f tem mais do que um ponto fixo então, pela Proposição 2.6.5 ou f
é a identidade, ou é uma reflexão.
Se f tem um único ponto fixo então, pela Proposição 2.6.13, é uma
rotação.
Suponhamos agora que f não tem pontos fixos. Seja S um ponto de
2
R . Como f (S) 6= S podemos considerar a mediatriz l de [Sf (S)]. Então
(Rl ◦ f )(S) = S, pelo que Rl ◦ f tem pelo menos um ponto fixo S e então
ou é a identidade, ou é uma reflexão Rm numa recta m que passa em S, ou
é uma rotação ρS,θ de centro S.
Se fosse a identidade terı́amos f = Rl o que é impossı́vel pois, por
hipótese, f não tem pontos fixos.
Se Rl ◦ f = Rm , então necessariamente m e l são rectas paralelas.
Com efeito, se as duas rectas se intersectassem num ponto T , então pelo
Corolário 2.6.14, a isometria f = Rl ◦ Rm seria uma rotação de centro T
e T seria um ponto fixo de f . Assim as rectas m e l são necessariamente
paralelas e então, pelo Proposição 2.6.17 - (i), temos que f é uma translação.
Se Rl ◦ f = ρS,θ , então pela Proposição 2.6.15 - (ii), se n é a recta
paralela a l que passa por S, existe uma recta t que passa em S, tal que
ρS,θ = Rn ◦ Rt .
e então f = Rl ◦ Rn ◦ Rt . Como l e n são paralelas e l 6= n, temos, pela
Proposição 2.6.17 - (i) que Rl ◦ Rn é uma translação Tv por meio de um
94 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
vector v 6= 0 ortogonal a n (e a l). Como n e t não são paralelas, pois
têm um ponto em comum e são distintas, temos que v não é ortogonal a t.
Assim, pela Proposição 2.6.19 - 2., temos que
f = (Rl ◦ Rn ) ◦ Rt = Tv ◦ Rt
é uma reflexão com deslize.
Como consequência do Teorema 2.6.20 e dos factos estudados anterior-
mente, obtemos a seguinte chave para classificar as isometrias de R2 .
Corolário 2.6.21. Seja f uma isometria de R2 tal que f 6= idR2 .
Então, se f é uma
• isometria directa sem pontos fixos ⇒ f é uma translação;
• isometria directa com pontos fixos ⇒ f é uma rotação;
• isometria inversa com pontos fixos ⇒ f é uma reflexão;
• isometria inversa sem pontos fixos ⇒ f é uma reflexão com deslize.
Exemplo 2.6.22. Consideremos a isometria f : R2 → R2 definida por
f (x, y) = (−y + 3, −x + 1) .
Como
−y + 3 = x x + y = 3
f (x, y) = (x, y) ⇔ ⇔
−x + 1 = y x + y = 1
conclui-se que f não tem pontos fixos.
→
−
A aplicação ortogonal associada a f é dada por φ : R2 → R2 com
" # !
→
− 0 −1 x
φ (x, y) = ,
−1 0 y
pelo que f é uma isometria inversa.
Conclui-se assim que f é uma reflexão com deslize, f = Tw ◦ Rl , com w
um vector director de l.
Para determinarmos w podemos notar que, pela Proposição 2.5.8, temos
Tw ◦ Rl = Rl ◦ Tw ,
pelo que
f ◦ f = Tw ◦ Rl ◦ Tw ◦ Rl = Tw ◦ Rl ◦ Rl ◦ Tw = T2w .
Assim,
f 2 (0, 0) = f (3, 1) = (2, −2) = T2w (0, 0) = (0, 0) + 2w,
2.6. ISOMETRIAS DE R2 95
e então
1
w = (2, −2) = (1, −1).
2
Como
f = Tw ◦ Rl ⇔ T−w ◦ f = Rl ,
temos que
Rl (x, y) = (−y + 2, −x + 2) .
A recta l pode ser determinada estudando os pontos fixos desta reflexão:
−y + 2 = x
Rl (x, y) = (x, y) ⇔ ⇔ x + y = 2,
−x + 2 = y
pelo que a recta l é definida pela equação x + y = 2, ou seja,
l = (2, 0) + L{(−1, 1)}.
Conclui-se assim que f é a reflexão com deslize ao longo da recta (2, 0) +
L{(−1, 1)} por meio do vector (1, −1).
Em alternativa podemos determinar o vector de deslize w e a recta l
→
−
da seguinte forma. A isometria f pode escrever-se como f = Tv ◦ φ onde
→
− →
−
v = (3, 1) e φ é a aplicação ortogonal dada por φ (x, y) = (−y, −x). Como
→
− −y = x
φ (x, y) = (x, y) ⇔ ⇔ x + y = 0,
−x = y
→
−
temos que φ fixa todos os vectores de L{(1, −1)}. Podemos então ver a
→
−
aplicação linear φ como sendo ela própria uma reflexão (na recta de equação
x + y = 0).
Como (3, 1) ∈ / L{(1, −1)}⊥ , temos, pela Proposição 2.6.19, que f é uma
reflexão com deslize ao longo da recta
1 3 1
l := (0, 0) + (3, 1) + L{(1, −1)} = , + L{(1, −1)}.
2 2 2
Para determinar o vector de deslize w, basta considerar a imagem do ponto
Q = 32 , 21 ∈ l. Como
f (Q) = (Tw ◦ Rl ) (Q) = Tw (Q)
3 1
= 25 , − 2 , obtemos w = f (Q) − Q = (1, −1).
1
ef 2, 2
Conclui-se assim que f é a reflexão com deslize ao longo da recta
3 1
, + L{(1, −1)} = (2, 0) + L{(1, −1)}
2 2
por meio do vector (1, −1).
96 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Exemplo 2.6.23. Seja f a rotação ρP,3π/2 de centro P = (0, 2) e ângulo
3π →
−
2 . Como a aplicação ortogonal associada a f é uma rotação φ 3π/2 de
centro (0, 0) e ângulo 3π 2
2 , é definida, em relação à base canónica de R , pela
matriz " # " #
→
− cos 3π
2 − sin 3π
2 0 1
M ( φ 3π/2 ; b.c.) = =
sin 3π
2 cos 3π
2 −1 0
e então
→
−
φ 3π/2 (x, y) = (y, −x).
Assim, para X = (x, y) ∈ R2 temos
→
− −−→ →
−
ρP,3π/2 (X) = P + φ 3π/2 (P X) = (0, 2) + φ 3π/2 (x, y − 2)
= (0, 2) + (y − 2, −x) = (y − 2, −x + 2).
Consideremos a recta
m = (3, 2) + L{(1, 0)}.
Como m passa no ponto P temos, pela Proposição 2.6.15 - (i), que existe
uma recta l que passa em P e tal que
Rl ◦ Rm = ρP, 3π .
2
Para determinar a recta l, podemos fazer como na demonstração da
Proposição 2.6.15, segundo a qual l é a mediatriz do segmento de recta de
extremidades S e ρP, 3π (S), onde S é um ponto qualquer de m diferente de
2
P.
Tomando S = (3, 2) ∈ m, temos
ρP, 3π (S) = (0, −1).
2
Então l passa pelo ponto P e é perpendicular à recta definida por S e
ρP, 3π (S), pelo que
2
l = P + L{(3, 2) − (0, −1)}⊥ = (0, 2) + L{(3, 3)}⊥ = (0, 2) + L{(1, −1)}.
Note que
√
h(1, 0), (1, −1)i 2 π
] ((1, 0), (1, −1)) = arc cos = arc cos =
k(1, 0)k k(1, −1)k 2 4
e que o ângulo orientado entre as duas rectas é
π 3π
]or (m, l) = π − = ,
4 4
2.6. ISOMETRIAS DE R2 97
l
m P S
ΡP, ___
3Π
HSL
2
2 R
Figura 2.19. ρP,3π/2 = Rl ◦ Rm .
pelo que
3π
2]or (m, l) =
2
é o ângulo da rotação.
Alternativamente, para escrever ρP, 3π na forma Rl ◦Rm , basta encontrar
2
a recta l que passa em P e tal que ]or (m, l) = 3π 4 . Como o vector (1, 0) é
um vector director de m e
√
→
− 3π 3π 2
φ 3π (1, 0) = cos , sin = (−1, 1),
4 4 4 2
temos que
l = (0, 2) + L{(−1, 1)}.
Vejamos agora mais algumas propriedades da composição de isometrias.
Proposição 2.6.24. A composição de duas rotações ρC,α e ρD,β é uma
translação se α + β ≡ 0 (mod 2π) e é uma rotação se α + β 6≡ 0 (mod 2π).
Demonstração: Se C = D o resultado é dado pela Proposição 2.6.12.
Suponhamos que C 6= D e que l é a recta definida por C e D. Pelas
Proposições 2.6.15 e 2.6.16 existe uma recta n que passa em D e tal que
ρD,β = Rl ◦ Rn ,
com 2]or (n, l) = β. Da mesma forma, existe uma recta m que passa em C
tal que
ρC,α = Rm ◦ Rl ,
com 2]or (l, m) = α. Então
2]or (n, m) = 2]or (n, l) + 2]or (l, m) (mod 2π) = α + β (mod 2π),
pelo que, em particular, n e m são paralelas se e só se α + β ≡ 0 (mod 2π).
98 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Assim,
f := ρC,α ◦ ρD,β = Rm ◦ Rl ◦ Rl ◦ Rn = Rm ◦ Rn .
Se as rectas n e m forem concorrentes num ponto P temos, pela Propo-
sição 2.6.16, que f é uma rotação de centro em P e ângulo θ = 2]or (n, m).
Se as rectas n e m forem paralelas temos, pela Proposição 2.6.17, que f é
uma translação (ver Figura 2.20).
1. n m 2. m n
P
Α2+Β2
C Α2 D C Α2 D
Β2
l Β2 l
R2 R2
Figura 2.20. Composição de duas rotações de centros diferentes.
Alternativamente, podemos demonstrar este resultado da seguinte forma.
Como ρC,α ◦ ρD,β é uma isometria directa temos que ou f é uma translação
ou é uma rotação. Como as aplicações ortogonais associadas a ρC,α e ρD,β
→
− →
−
são as rotações φ α e φ β de centro em (0, 0) e ângulos α e β respectivamente,
→
−
temos por (2.6.1) que a aplicação ortogonal associada a f é a aplicação φ γ
com γ ∈ [0, 2π[ tal que γ ≡ α + β (mod 2π).
Se α + β 6≡ 0 (mod 2π), temos que γ 6= 0 e que f é uma rotação de
ângulo γ. Se α + β ≡ 0 (mod 2π), então a aplicação ortogonal associada a
f é a aplicação identidade e então f é necessariamente uma translação.
Corolário 2.6.25. A composição de duas rotações ρC,α e ρD,β com
centros em pontos distintos e α + β ≡ 0 (mod 2π) é uma translação não
trivial pelo vector
v := ρC,α (D) − D.
Demonstração: Pela Proposição 2.6.24 já sabemos que ρC,α ◦ ρD,β é uma
translação pois α + β = 0 (mod 2π). Como
Tv (D) = (ρC,α ◦ ρD,β ) (D) = ρC,α (D) 6= D
(pois C 6= D e o único ponto fixo de ρC,α é o ponto C), temos que o vector
v da translação é
v = ρC,α (D) − D 6= 0.
2.6. ISOMETRIAS DE R2 99
Corolário 2.6.26. Um subgrupo G de Iso(R2 ) que contenha duas rotações
ρC,α e ρD,β com centros em pontos distintos contém necessariamente uma
translação não trivial.
Demonstração: Como G é um subgrupo de Iso(R2 ) e ρC,α , ρD,β ∈ G,
temos que, em particular
ρC,α ◦ ρD,β ∈ G, ρ−1 −1
C,α ◦ ρD,β ∈ G e ρC,α ◦ ρD,β ◦ ρ−1 −1
C,α ◦ ρD,β ∈ G.
Se α + β ≡ 0 (mod 2π), o Corolário 2.6.25 diz-nos que ρC,α ◦ ρD,β é uma
translação não trivial em G.
Se α + β 6≡ 0 (mod 2π) então
ρC,α ◦ ρD,β e ρ−1 −1
C,α ◦ ρD,β
são ambas rotações, de ângulos γ e 2π − γ respectivamente, onde γ ∈ [0, 2π[
é tal que γ ≡ α + β (mod 2π). Conclui-se assim, pela Proposição 2.6.24,
que
ρC,α ◦ ρD,β ◦ ρ−1 −1
C,α ◦ ρD,β
é uma translação em G. Além disso, esta translação é não trivial. Com
efeito, se
ρC,α ◦ ρD,β ◦ ρ−1 −1
C,α ◦ ρD,β = idR2
terı́amos
ρC,α ◦ ρD,β = ρD,β ◦ ρC,α
e então
(ρC,α ◦ ρD,β ) (D) = (ρD,β ◦ ρC,α ) (D) ⇔ ρC,α (D) = ρD,β (ρC,α (D)) ,
pelo que ρC,α (D) seria um ponto fixo de ρD,β , ou seja,
ρC,α (D) = D
e, consequentemente, C = D.
Para concluir vamos enumerar algumas propriedades das isometrias de
R2 que decorrem facilmente dos factos anteriormente estudados.
Proposição 2.6.27.
(i) Se f é uma isometria tal que a aplicação ortogonal associada a f
é a identidade, então f é uma translação.
(ii) Se f é uma isometria cuja aplicação ortogonal associada é uma
→
−
rotação φ θ de ângulo θ e centro em (0, 0) então f é uma rotação
de centro nalgum ponto D ∈ R2 e ângulo θ.
100 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
(iii) O centro C de uma rotação f pertence à mediatriz de [Xf (X)],
para qualquer ponto X ∈ R2 tal que X 6= C.
(iv) Qualquer translação Tv pode ser escrita como Tv = ρC ◦ ρD onde
ρC e ρD são meias-voltas de centros em pontos C e D tais que
−−→
DC = 12 v. Além disso, um dos dois pontos C ou D pode ser
escolhido arbitrariamente.
2.6.3. Alguns subgrupos do grupo das isometrias de R2 . Ve-
jamos agora alguns exemplos de subgrupos do grupo de isometrias de R2 .
Exemplo 2.6.28. (Subgrupo gerado por uma translação não tri-
vial.)
Seja Tv : R2 → R2 uma translação por meio de um vector v 6= 0. Então
Tv−1 = T−v e o conjunto
Tv = {Tvm : m ∈ Z} = {Tmv : m ∈ Z},
|m|
onde, se m < 0, temos Tvm = T−v , é o menor subgrupo de Iso(R2 ) que
contém Tv , ou seja é o subgrupo hTv i gerado por Tv . Note que Tv é um
conjunto infinito numerável.
Exemplo 2.6.29. (Subgrupo gerado por uma reflexão.) Dada uma
reflexão Rl , como Rl−1 = Rl , temos que o conjunto {Id, Rl } forma um
subgrupo de Iso(R2 ) (o subgrupo hRl i gerado pela reflexão Rl ).
Exemplo 2.6.30. (Subgrupo gerado por uma rotação.) Seja ρC,θ :
R2 → R2 uma rotação de centro C e ângulo θ. Então
ρnC,θ = ρC,nθ e ρ−1
C,θ = ρC,2π−θ .
Se o subgrupo cı́clico hρC,θ i gerado por ρC,θ é finito, então existem m1 , m2 ∈
Z tais que ρm m2 n
C,θ = ρC,θ , pelo que existe n ∈ Z tal que ρC,θ = id.
1
Como ρnC,θ = ρC,nθ , temos nθ = 2kπ, para algum k ∈ Z e então θ é um
múltiplo racional de 2π. Reciprocamente, se θ é um múltiplo racional de
2π, o subgrupo cı́clico gerado por ρC,θ é finito. Se θ não for um múltiplo
racional de 2π, o subgrupo cı́clico gerado por ρC,θ é infinito.
Exemplo 2.6.31. (Subgrupo gerado por uma reflexão com deslize.)
Seja
g := Tv ◦ Rm = Rm ◦ Tv
uma reflexão com deslize ao longo de uma recta m por meio do vector v
(paralelo a m). Então
g −1 = T−v ◦ Rm = Rm ◦ T−v e g 2 = g ◦ g = (Tv ◦ Rm ) ◦ (Rm ◦ Tv ) = T2v .
2.6. ISOMETRIAS DE R2 101
Assim, o subgrupo gerado por g é infinito pois contém o subgrupo T2v gerado
por T2v .
2.6.4. Subgrupos finitos de isometrias de R2 . Suponhamos que
G é um subgrupo finito do grupo de isometrias de R2 . Sabemos já, pelos
Exemplos 2.6.28 e 2.6.31, que G não contém nenhuma translação, nem nen-
huma reflexão com deslize (pois qualquer uma destas isometrias gera um
subgrupo infinito). Para além disso, pelo Exemplo 4.4.28, o subgrupo G só
pode conter rotações em que os ângulos são múltiplos racionais de 2π.
Suponhamos que G contém rotações. Se G 6= {idR2 }, então G contém
uma rotação não trivial, ρC,α . Pelo Corolário 2.6.26, todas as outras rotações
em G têm centro C. Seja então α, com α > 0, o menor ângulo positivo tal
que ρC,α ∈ G e seja ρC,β uma outra rotação de G, com β > α. Vê-se
facilmente que β tem de ser um múltiplo inteiro de α, pelo que todas as
rotações de G pertencem ao subgrupo cı́clico gerado por ρC,α . Com efeito,
se β não é múltiplo de α então existe m ∈ N tal que
mα < β < (m + 1)α,
pelo que 0 < β − mα < α e então
−1
ρC,β ◦ ρm
C,α = ρC,β−mα
é um elemento de G que é uma rotação de um ângulo positivo menor que
α, o que é impossı́vel.
Em particular, um subgrupo finito de Iso(R2 ) que só contenha rotações
é um grupo cı́clico gerado por uma rotação.
Suponhamos agora que o subgrupo finito G contém pelo menos uma
reflexão R e sejam ρ, . . . , ρn as diferentes rotações de G (onde n é o número
de elementos de G que são rotações).
Como
ρ ◦ R, ρ2 ◦ R, . . . , ρn ◦ R
são isometrias inversas e G não contém reflexões com deslize, conclui-se que
estas isometrias são necessariamente reflexões. Assim, G contém pelo menos
n reflexões.
Sejam R1 , . . . , Rm as reflexões de G (onde m, o número de elementos de
G que são reflexões, satisfaz m ≥ n). Como
R1 ◦ R1 , R2 ◦ R1 , . . . , Rm ◦ R1
102 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
são isometrias directas e pertencem a G, são necessariamente rotações (pois
G não contém reflexões). Assim,
{R1 ◦ R1 , R2 ◦ R1 , . . . , Rm ◦ R1 } = {ρ, . . . , ρn }
e m = n.
Conclui-se que
G = {ρ, . . . , ρn , ρ ◦ R, ρ2 ◦ R, . . . , ρn ◦ R}
e então G é o grupo gerado por uma rotação e uma reflexão, ou seja um
grupo diedral
G = D2n := hρ, R| ρn = id, R2 = id, (ρ ◦ R)2 = idi.
Note que as relações acima garantem que ρ tem ordem n, que R e ρ ◦ R
têm ordem 2 e que, consequentemente, os elementos da forma ρk ◦ R com
k = 1, . . . , n, têm ordem 2 pois
(ρ ◦ R)2 = id ⇒ ρ ◦ R ◦ ρ = R
e então
(ρk ◦ R)2 = ρk ◦ R ◦ ρk ◦ R = ρk−1 ◦ (ρ ◦ R ◦ ρ) ◦ ρk−1 ◦ R
= ρk−1 ◦ R ◦ ρk−1 ◦ R = (ρk−1 ◦ R)2 = · · · = (ρ ◦ R)2 = id.
Mostrámos assim o seguinte resultado.
Teorema 2.6.32. (Teorema de Leonardo) Qualquer subgrupo finito
do grupo das isometrias de R2 ou é um grupo cı́clico ou um grupo diedral.
O nome Leonardo vem de Leonardo da Vinci, que estudou simetrias
relacionadas com problemas de arquitectura.
2.7. Simetrias e congruências
Definição 2.7.1. Dado um subconjunto A 6= ∅ de um espaço afim eu-
clidiano E, uma isometria f : E → E diz-se uma simetria de A se f (A) = A.
Exemplo 2.7.2. A reflexão na recta m de R2 de equação y = 0 é uma
simetria do quadrado
A = {(x, y) ∈ R2 : −1 ≤ x, y ≤ 1}.
2.7. SIMETRIAS E CONGRUÊNCIAS 103
Proposição 2.7.3. Dado um subconjunto não vazio A de um espaço
afim euclidiano E, o conjunto
Sim(A) := {f ∈ Iso(E) : f é simetria de A}
é um subgrupo do grupo das isometrias de E.
Demonstração: O conjunto Sim(A) é sempre não vazio pois a identidade
é uma simetria de A. Além disso, se f e g são dois elementos de Sim(A)
então f ◦ g e f −1 são isometrias e satisfazem
(f ◦ g)(A) = f (g(A)) = f (A) = A e f −1 (A) = A,
pelo que f ◦ g ∈ Sim(A) e f −1 ∈ Sim(A).
Exemplo 2.7.4. Se A = E então Sim(A) = Iso(E).
Exemplo 2.7.5. Se A é um polı́gono1 de R2 com n vértices então tem
no máximo 2n simetrias. Com efeito, sejam X1 e X2 dois vértices adjacentes
do polı́gono. Uma simetria f ∈ Sim(A) leva X1 num vértice de A (pois trans-
forma arestas em arestas) e X2 num dos dois vértices adjacentes de f (X1 ).
Depois as imagens dos outros vértices ficam completamente determinadas.
Consequentemente, o grupo de simetrias de um polı́gono de R2 é um
subgrupo finito de Iso(R2 ), pelo que, pelo Teorema de Leonardo, ou é um
grupo cı́clico ou um grupo diedral.
Exemplo 2.7.6. Se A é um polı́gono regular com n lados o seu grupo
de simetrias é o grupo diedral D2n .
Nota 2.7.7. Os grupos diedrais D2 = hR | R2 = idi e
D4 = hρ, R | ρ2 = id, R2 = id, (ρ ◦ R)2 = idi
são também grupos de simetria de polı́gonos. Por exemplo D2 é o sub-
grupo de simetrias de um triângulo equilátero e D4 o de um rectângulo não
quadrado.
Também os grupos cı́clicos Cn = hρ | ρn = idi gerados por uma rotação
são grupos de simetria de polı́gonos de R2 . Por exemplo, o grupo C1 é o
grupo de simetrias de um triângulo escaleno, C2 o de um paralelogramo
1Um polı́gono é uma figura plana limitada por segmentos de recta (denominados
lados ou arestas), onde cada um destes segmentos de recta intersecta exactamente dois
outros segmentos nos seus extremos. Os pontos de intersecção de duas arestas denomiam-
se vértices. Um polı́gono convexo diz-se regular se os seus lados tiverem o mesmo
comprimento e todos os ângulos internos tiverem a mesma amplitude.
104 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
não losango e não rectângulo e C3 o do polı́gono da Figura 2.21 - (I). Em
geral, Cn é o grupo de simetrias de um polı́gono em que os lados alternados
se obtêm de um polı́gono regular com n lados, escolhendo apropriadamente
um quarto de cada lado (ver Figura 2.21 - (II)).
(I) (II)
Figura 2.21. Exemplos de polı́gonos com simetria C3 e C4
Definição 2.7.8. Um ponto P diz-se um centro de simetria de um
conjunto não vazio A ⊆ R2 se a meia-volta de centro P é uma simetria de
A (ver Exemplo 2.5.3 - (iv)).
Definição 2.7.9. Uma recta l diz-se um eixo de simetria de um con-
junto não vazio A ⊆ R2 se a reflexão na recta l é uma simetria de A.
Exemplo 2.7.10. Um cı́rculo tem infinitos eixos de simetria.
Exemplo 2.7.11. Um polı́gono regular de n lados tem n eixos de sime-
tria.
Exemplo 2.7.12. Se um polı́gono A tem exactamente n eixos de simetria
então Sim(A) = D2n . Se n é par então A tem necessariamente um centro
de simetria. Com efeito, o subgrupo de Sim(A) formado pelas rotações é
gerado por uma rotação ρ tal que ρn = id e então ρn/2 é uma meia-volta.
Definição 2.7.13. Dois subconjuntos A e B não vazios de E dizem-se
congruentes se existir uma isometria f de E tal que f (A) = B.
As seguintes propriedades obtêm-se facilmente.
Proposição 2.7.14.
1) Duas circunferências de R2 são congruentes se e só se tiverem o mesmo
raio.
2) Dois segmentos de recta [P Q] e [RS] são congruentes se e só se
d(P, Q) = d(R, S).
3) Duas rectas em Rn são sempre congruentes.
2.8. DESCRIÇÃO DAS ISOMETRIAS DE R3 105
2.8. Descrição das isometrias de R3
Considerando em R3 a estrutura de espaço afim usual com a distância
entre pontos definida pela norma dada pelo produto interno usual, vamos
estudar as isometrias de R3 . Em primeiro lugar, traduzindo algumas das
proposições já estudadas para o caso particular de R3 , temos os seguintes
resultados.
Proposição 2.8.1. (ver Proposição 2.4.3) Em R3 um ponto fica univo-
camente determinado pelas distâncias a quatro pontos não coplanares.
Proposição 2.8.2. (ver Proposição 2.4.5) Em R3 , para todo o ponto P
exterior a um plano H, existe um e um só ponto P 0 tal que H é o plano
mediador do segmento de recta [P P 0 ].
Proposição 2.8.3. (ver Proposição 2.5.14) Qualquer isometria de R3
fica univocamente determinada pelas imagens de quatro pontos não coplanares.
Proposição 2.8.4. (ver Proposição 2.5.16) Sejam P0 , P1 , P2 , P3 quatro
pontos não coplanares de R3 e Q0 , Q1 , Q2 , Q3 outros quatro pontos de R3
tais que
d(Pi , Pj ) = d(Qi , Qj ), ∀i, j ∈ {0, 1, 2, 3}.
Então existe uma e uma só isometria g : R3 → R3 tal que
g(Pi ) = Qi , ∀i ∈ {0, 1, 2, 3}.
Proposição 2.8.5. (ver Proposições 2.5.9 e 2.5.21) Se uma isometria
f de R3 tem quatro pontos fixos não coplanares então é a identidade. Se
tiver três pontos fixos P , Q e R não colineares então ou é a identidade ou
é a reflexão no plano H definido por P , Q e R.
Proposição 2.8.6. (ver Proposição 2.5.10) Qualquer isometria f de R3
pode ser escrita como composição de uma, duas, três ou quatro reflexões.
Corolário 2.8.7. O grupo das isometrias de R3 é gerado pelo conjunto
das reflexões em planos de R3 .
À semelhança do que se fez em R2 , é possı́vel mostrar o seguinte resul-
tado.
Teorema 2.8.8. (Classificação das isometrias de R3 ) Qualquer isome-
tria de R3 é de um dos seguintes seis tipos:
• translação por meio de um vector v;
106 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
• reflexão num plano;
• reflexão com deslize Tv ◦ RH ao longo de um plano H = P + W
por meio de um vector v ∈ W ;
• rotação ρl,θ em torno de uma recta (eixo) l e ângulo θ;
• transformação helicoidal ou parafuso Tv ◦ ρl,θ , com v um vec-
tor paralelo a l;
• rotação com reflexão ρl,α ◦ RH , com l um eixo de H.
Antes de demonstrar este teorema vamos analisar cada um destes tipos
de isometrias.
Translação: Seja v um vector de R3 . A translação por meio de v é a
aplicação Tv : R3 → R3 definida por Tv (P ) = P + v, para todo o ponto P
de R3 e é uma isometria directa (pois a aplicação ortogonal associada a Tv
é a identidade). Em particular, se v = (a, b, c), tem-se
Tv (x, y, z) = (x + a, y + b, y + c).
Se v 6= (0, 0, 0) a translação Tv não tem pontos fixos.
Reflexão num plano: A reflexão num plano H dada pela Definição 2.4.7
é uma isometria inversa cujos pontos fixos são exactamente os pontos do
plano H.
Reflexão com deslize: Se H := P + W e v ∈ W com v 6= 0, então a
reflexão com deslize ao longo do plano H por meio de v é a isometria
Tv ◦ RH = RH ◦ Tv
(ver Proposição 2.5.8). A aplicação ortogonal associada a Tv ◦ RH é a
aplicação ortogonal associada a RH , pelo que uma reflexão com deslize é
uma isometria inversa. Estas isometrias não têm pontos fixos.
Rotação em torno de uma recta l e ângulo θ: Estas aplicações são
obtidas por composição de duas reflexões em planos H1 e H2 não paralelos.
Os pontos fixos de
ρl,θ = RH2 ◦ RH1
são exactamente os pontos da recta l = H1 ∩ H2 . É preciso algum cuidado
quando especificamos o ângulo da rotação. Com efeito, é necessário fixar
um sentido na recta l (e que por isso é denominada eixo de rotação) e
então ρl,θ designa a rotação de um ângulo θ ∈ [0, 2π[ em torno deste eixo no
sentido que satisfaz a regra da mão direita com o sentido escolhido em l.
2.8. DESCRIÇÃO DAS ISOMETRIAS DE R3 107
Esta aplicação deixa invariante qualquer plano perpendicular a l. Re-
stringindo a isometria a um destes planos H, obtemos uma rotação de cen-
tro no ponto de intersecção de l e H e ângulo θ, novamente no sentido que
satisfaz a regra da mão direita com o sentido de l (ver Figura 2.22). Con-
siderando dois eixos l1 , l2 de H1 e H2 contidos em H, podemos definir o
ângulo orientado entre os dois hiperplanos em relação ao eixo da rotação,
como sendo
]or (H1 , H2 ) := ]or (l1 , l2 ),
onde ]or (l1 , l2 ) é medido em H no sentido que satisfaz a regra da mão direita
com o sentido do eixo de rotação. Note que este ângulo orientado é igual
ao ângulo orientado entre as duas rectas m1 , m2 desse plano definidas pelas
interseções mi := Hi ∩ H (i = 0, 1). Assim, temos que o ângulo da rotação
satisfaz
θ = 2 ]or (H1 , H2 ).
Como ρl,θ é a composição de duas reflexões é uma isometria directa.
Figura 2.22. ρl,θ = RH2 ◦ RH1 .
Exemplo 2.8.9. Se l é o eixo dos zz orientado no sentido positivo, então
a rotação em torno de l e ângulo θ (que é também uma aplicação linear) é
definida em relação à base canónica de R3 pela matriz
cos θ − sin θ 0
(2.8.1) sin θ cos θ 0 .
0 0 1
108 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
No caso de uma rotação de ângulo θ em torno de um eixo l qualquer,
podemos escolher uma base ortonormada (e1 , e2 , e3 ) em que e3 tem a di-
recção e o sentido de l e e1 , e2 formam uma base ortonormada do espaço de
direcções de um plano perpendicular a l em que e2 é obtido a partir de e1
por meio de uma rotação de π2 no sentido que satisfaz a regra da mão direita
com e3 . Então a aplicação ortogonal associada à rotação de ângulo θ em
torno de l é representada nessa base pela mesma matriz (2.8.1).
Transformação helicoidal ou parafuso: Estas aplicações são obtidas
por composição de uma translação não trivial Tv com uma rotação em torno
de uma recta l onde v é um vector paralelo a l. É fácil verificar que, nestas
condições, a translação e a rotação comutam.
Uma transformação helicoidal não tem pontos fixos e é uma isometria
directa.
Como a composta de duas reflexões em planos de R3 ou é uma translação,
quando os planos são paralelos (ver Proposição 2.8.12), ou uma rotação
em torno da recta de intersecção dos dois planos (ver Proposição 2.8.13),
verifica-se que uma transformação helicoidal não se pode escrever como com-
posição de duas reflexões. Assim, para a obter é necessário compor quatro
reflexões.
Rotação com reflexão: Estas aplicações são obtidas por composição
de uma rotação em torno de uma recta l com uma reflexão num plano H
perpendicular a l. Também neste caso a rotação e a reflexão comutam. Esta
isometria fixa um único ponto, o ponto de intersecção de l e H e é uma
isometria inversa.
Exemplo 2.8.10. Uma inversão de centro num ponto P ∈ R3 (ver Ex-
emplo 2.5.3 - (iv)) é um caso especial de uma rotação com reflexão que
resulta da composição de uma rotação de ângulo π em torno de uma recta
l com uma reflexão num plano H perpendicular a l. O centro da inversão é
exactamente o ponto l ∩ H.
Exemplo 2.8.11. Seja H o plano de R3 definido pela equação z = 0 e
RH : R3 → R3 a reflexão em H, ou seja a aplicação
RH (x, y, z) = (x, y, −z).
Se l é o eixo dos zz, a rotação de ângulo π em torno de l é dada por
ρl,π (x, y, x) = (−x, −y, z).
2.8. DESCRIÇÃO DAS ISOMETRIAS DE R3 109
Assim, a rotação com reflexão
RH ◦ ρl,π = ρl,π ◦ RH
é a inversão de centro na origem,
(x, y, z) 7→ (−x, −y, −z).
Vejamos agora as seguintes proposições auxiliares.
Proposição 2.8.12.
(i) Em R3 a composição RH1 ◦ RH2 de duas reflexões em planos para-
lelos H1 e H2 é uma translação por meio de um vector 2v normal
aos planos H1 e H2 e tal que, se P ∈ H2 então P + v ∈ H1 .
(ii) Dada uma translação Tv e um plano H = P + U com v ∈ U ⊥ ,
existem planos H1 e H2 de R3 tais que
Tv = RH2 ◦ RH = RH ◦ RH1 ,
onde
v v
H1 = P − +U e H2 = P + + U.
2 2
Demonstração: Demonstração análoga à da Proposição 2.6.17.
Proposição 2.8.13. Seja f 6= idR3 uma rotação de R3 em torno de uma
recta l e seja H1 um plano que contém l. Então
i) existe um plano H2 que contém l e tal que f = RH2 ◦ RH1 ;
ii) existe um plano H3 que contém l e tal que f = RH1 ◦ RH3 .
Demonstração: Demonstração análoga à da Proposição 2.6.15.
Proposição 2.8.14. Seja v um vector de R3 tal que v 6= 0 e H := P + U
um plano de R3 .
1. Se v ∈ U ⊥ então Tv ◦ RH é a reflexão RHe no plano H
e paralelo a
H que passa pelo ponto P + 21 v, i.e.
e = P + v + U.
H
2
/ U ⊥ então Tv ◦ RH é uma reflexão com deslize ao longo do
2. Se v ∈
plano H.
e
110 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Demonstração: 1. Suponhamos que v ∈ U ⊥ . Então, pela Proposição 2.8.12
- (ii), podemos escrever Tv = RHe ◦ RH onde He = P + 1 v + U , pelo que
2
Tv ◦ RH = RHe ◦ RH ◦ RH = RHe .
2. Suponhamos que v ∈ / U ⊥ . Então, como V = U ⊕ U ⊥ , podemos
decompor v = u + w com u ∈ U e w ∈ U ⊥ , onde u 6= 0. Assim, Tv = Tu ◦ Tw
e
Tv ◦ RH = Tu ◦ (Tw ◦ RH ).
Como w ∈ U ⊥ , pela primeira parte da demonstração, temos que Tw ◦RH
é a reflexão no plano
e = P + 1 w + U = P + 1 (u + w) + U = P + v + U
H
2 2 2
e então, como u 6= 0 e u ∈ U , temos que
Tu ◦ (Tw ◦ RH ) = Tu ◦ RHe
é uma reflexão com deslize ao longo de H.
e
Nota 2.8.15. Nas condições da Proposição 2.8.14, se f := RH ◦ Tv então
f −1 = T−v ◦ RH .
Assim, se v ∈ U ⊥ então T−v ◦ RH e consequentemente f , são a reflexão no
plano
He = P − v + U.
2
Se v ∈ ⊥
/ U então T−v ◦ RH e f são reflexões com deslize no plano He pois a
inversa de uma reflexão com deslize é uma reflexão com deslize no mesmo
plano.
Conclui-se assim que se v ∈ U ⊥ então RH ◦ Tv é a reflexão no plano He
/ U ⊥ , então RH ◦ Tv é uma reflexão com deslize no plano H.
e que, se v ∈ e
Proposição 2.8.16. Seja v um vector de R3 e ρl,θ uma rotação não
trivial em torno da recta l = P + U .
1. Se v ∈ U ⊥ então Tv ◦ ρl,θ é uma rotação de ângulo θ em torno de
uma recta paralela à recta l.
/ U ⊥ então Tv ◦ ρl,θ é uma transformação helicoidal ao longo
2. Se v ∈
de uma recta paralela a l.
2.8. DESCRIÇÃO DAS ISOMETRIAS DE R3 111
Demonstração: 1. Se v ∈ U ⊥ seja H2 o plano perpendicular a v que
contém a recta l. Então, pela Proposição 2.8.12 - (ii) existe um plano H3
paralelo a H2 tal que
Tv = RH3 ◦ RH2 .
Por outro lado, pela Proposição 2.8.13 - (ii), como l ⊂ H2 , podemos escolher
outro plano H1 tal que l ⊂ H1 e
ρl,θ = RH2 ◦ RH1 .
Então
Tv ◦ ρl,θ = RH3 ◦ RH2 ◦ RH2 ◦ RH1 = RH3 ◦ RH1
e, como os planos H2 e H3 são paralelos, temos
]or (H1 , H2 ) = ]or (H1 , H3 )
(onde os ângulos são orientados em relação ao sentido do eixo l da rotação).
Conclui-se assim que Tv ◦ ρl,θ é uma rotação de ângulo θ em torno do eixo
l0 = H1 ∩ H3 com a mesma direcção e sentido de l.
2. Se v ∈/ U ⊥ , então, como R3 = U ⊕ U ⊥ , temos que v = u + w com
u ∈ U , w ∈ U ⊥ e u 6= 0. Então
Tv ◦ ρl,θ = Tu ◦ Tw ◦ ρl,θ .
Como w ∈ U ⊥ , temos, por 1. que Tw ◦ ρl,θ é uma rotação em torno de uma
recta l0 paralela a l, e então
Tu ◦ Tw ◦ ρl,θ = Tu ◦ ρl0 ,θ
é uma transformação helicoidal.
Nota 2.8.17. Nas condições da Proposição 2.8.16, se f := ρl,θ ◦Tv temos
f −1 = (ρl,θ ◦ Tv )−1 = T−v ◦ ρl,2π−θ ,
pelo que, se v ∈ U ⊥ então T−v ◦ ρl,2π−θ é uma rotação de ângulo 2π − θ
em torno de um eixo paralelo a l e então f é uma rotação de ângulo θ
em torno desse eixo. Se v ∈ / U ⊥ , então T−v ◦ ρl,2π−θ é uma transformação
helicoidal ao longo de uma recta paralela a l, pelo que ρl,θ ◦ Tv é também
uma transformação helicoidal ao longo dessa recta.
Proposição 2.8.18. Seja ρl,θ uma rotação não trivial em torno de uma
recta l e ρP a inversão num ponto P ∈ l. Então ρP ◦ ρl,θ ou é uma reflexão
ou uma rotação com reflexão.
112 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Demonstração: Escrevendo l = P + U , temos que H = P + U ⊥ é o plano
perpendicular a l que passa em P e então
ρP = ρl,π ◦ RH = RH ◦ ρl,π
(ver Exemplo 2.8.10). Sejam H1 , H2 e H3 três planos que contêm a recta l
(e que, consequentemente, são perpendiculares a H) tais que
ρl,π = RH3 ◦ RH2 e ρl,θ = RH2 ◦ RH1 .
Note que ](H2 , H3 ) = π2 e que ]or (H1 , H2 ) = 2θ , onde o ângulo é orientado
no sentido da rotação. Então
ρP ◦ ρl,θ = RH ◦ ρl,π ◦ ρl,θ = RH ◦ RH3 ◦ RH2 ◦ RH2 ◦ RH1
= RH ◦ RH3 ◦ RH1 = RH ◦ ρl,γ ,
onde γ = θ + π (mod 2π). Conclui-se assim que ρP ◦ ρl,θ é uma reflexão se
θ = π e uma rotação com reflexão caso contrário.
Nota 2.8.19. Igualmente, a isometria f := ρl,θ ◦ρP ou é uma reflexão ou
uma rotação com reflexão. Com efeito, pela Proposição 2.8.18, temos que
f −1 = (ρl,θ ◦ ρP )−1 = ρP ◦ ρl,2π−θ ,
ou é uma reflexão ou uma rotação com reflexão, pelo que o mesmo se verifica
para f .
Proposição 2.8.20. Uma isometria directa com um ponto fixo P ou é
a identidade ou uma rotação em torno de uma recta que passa em P .
Demonstração: Se f 6= idR3 é uma isometria directa então, pela Proposi-
ção 2.8.6, pode ser escrita como composição de duas ou quatro reflexões em
planos de R3 que se intersectam. Por outro lado, como f tem um ponto
fixo então, pelo Corolário 2.5.22, pode ser escrita como composição de 3 ou
menos reflexões. Conclui-se assim que f pode ser escrita como composição
de duas reflexões em planos de R3 que se intersectam, pelo que é uma rotação
em torno da recta de intersecção dos dois planos.
Proposição 2.8.21. Uma isometria inversa com um ponto fixo ou é
uma reflexão ou uma rotação com reflexão.
2.8. DESCRIÇÃO DAS ISOMETRIAS DE R3 113
Demonstração: Se f : R3 → R3 é uma isometria inversa com um ponto
fixo P então é a composta de uma ou três reflexões em planos de R3 que
passam em P . Considerando a inversão ρP de centro P temos que ρP ◦ f é
uma isometria directa que fixa o ponto P pelo que, pela Proposição 2.8.20,
ou é a identidade ou é uma rotação ρl,θ em torno de uma recta l que passa
em P . No primeiro caso temos f = ρP , pelo que é um caso particular de
uma rotação com reflexão. No segundo caso temos
f = ρP ◦ ρl,θ ,
pelo que, pela Proposição 2.8.18, é uma reflexão ou uma rotação com re-
flexão.
Proposição 2.8.22. Uma isometria inversa sem pontos fixos é uma
reflexão com deslize.
Demonstração: Como f é uma isometria inversa sem pontos fixos temos
que é a composição de três reflexões
f = RH3 ◦ RH2 ◦ RH1
em planos H1 , H2 , H3 tais que
(2.8.2) H1 ∩ H2 ∩ H3 = ∅.
Além disso, os três planos são todos distintos pois f não tem pontos fixos.
Com efeito, se H1 = H2 ou H2 = H3 então f seria trivialmente uma reflexão
e, se H1 = H3 , então
f = RH1 ◦ RH2 ◦ RH1
seria a reflexão no plano RH1 (H2 ).
Os três planos também não podem ser os três paralelos pois, nesse caso,
terı́amos
f = RH1 ◦ RH2 ◦ RH1 = Tv ◦ RH1
com v normal a H1 , pelo que, pela Proposição 2.8.14 - 1. seria uma reflexão
(o que é impossı́vel pois, por hipótese, f não tem pontos fixos).
Conclui-se assim que dois dos três planos se intersectam numa recta l
e que esta é paralela ao terceiro plano (pois, por (2.8.2), não o intersecta).
Note que os três planos são necessariamente perpendiculares a um quarto
plano (que tem l como eixo).
Se H1 é paralelo a H2 então, pela Proposição 2.8.12 - (i), temos que
f = RH3 ◦ Tv , onde v é um vector perpendicular a H1 e H2 . Então, como
114 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
vimos na Nota 2.8.15, conclui-se que f é uma reflexão com deslize pois v
não é normal a H3 (os três planos não são todos paralelos).
Se H1 não é paralelo a H2 , então f = RH3 ◦ ρl,α onde l = H1 ∩ H2
e α = 2]or (H1 , H2 ) (mod 2π), onde o ângulo é orientado no sentido da
rotação. Como a recta l é paralela a H3 , podemos escrever
ρl,α = RHe3 ◦ RH4 ,
onde He3 é o plano paralelo a H3 que contém a recta l e H4 é o plano que
contém l e é tal que
α = 2]or (H4 , H
e3 ) (mod 2π),
onde o ângulo é orientado no sentido da rotação. Então
f = RH3 ◦ ρl,α = RH3 ◦ RHe3 ◦ RH4 = Tv ◦ RH4
onde v é um vector perpendicular a H3 e H e3 . Assim, pela Proposição 2.8.14,
como v não é normal a H4 (pois nesse caso terı́amos H4 = H3 e, consequente-
mente, H1 = H2 ), temos que f é uma reflexão com deslize.
Proposição 2.8.23. Uma isometria directa sem pontos fixos ou é uma
translação ou é uma transformação helicoidal.
Demonstração: Seja f uma isometria directa de R3 sem pontos fixos.
Como f é uma isometria directa, pode ser escrita como composição de duas
ou quatro reflexões. Se é a composição de duas reflexões em dois planos de
R3 então, como não tem pontos fixos, os dois planos são necessariamente
paralelos e f é uma translação.
Suponhamos que f é obtida por composição de quatro reflexões
f = RH4 ◦ RH3 ◦ RH2 ◦ RH1 .
Sabemos já que as isometrias RH4 ◦ RH3 e RH2 ◦ RH1 ou são translações ou
são rotações em torno de rectas de R3 .
Se são ambas translações então f é uma translação.
Se uma é uma translação e a outra é uma rotação então, pela Proposi-
ção 2.8.16 e pela Nota 2.8.17, conclui-se que f ou é uma rotação ou é uma
transformação helicoidal. Como, por hipótese, não tem pontos fixos é uma
trasformação helicoidal.
Finalmente, temos de considerar o caso em que são ambas rotações ρl,α
e ρm,β em torno de rectas l e m. Como f não tem pontos fixos, as duas
rectas não se intersectam pelo que ou são rectas paralelas ou enviesadas.
2.8. DESCRIÇÃO DAS ISOMETRIAS DE R3 115
Se l e m são paralelas e H é o plano H := hl, mi gerado por l e m, então,
pela Proposição 2.8.13, existem planos H1 e H2 tais que
ρl,α = RH1 ◦ RH e ρm,β = RH ◦ RH2 .
Assim,
f = ρl,α ◦ ρm,β = RH1 ◦ RH2 .
Como f não tem pontos fixos temos que H1 e H2 são necessariamente para-
lelos e que f é uma translação.
Se l = P + L{u1 } e m = Q + L{u2 } são enviesadas, podemos considerar
os planos paralelos
H
e1 := P + L{u1 , u2 } e H
e2 := Q + L{u1 , u2 }
que contêm l e m respectivamente. Então, pela Proposição 2.8.13, existem
planos HA e HB com l ⊂ HA e m ⊂ HB tais que
ρl,α = RHA ◦ RHe1 e ρm,β = RHe2 ◦ RHB
e então
ρl,α ◦ ρm,β = RHA ◦ RHe1 ◦ RHe2 ◦ RHB = RHA ◦ Tv ◦ RHB ,
onde v é um vector perpendicular a H e1 e H
e2 . Pela Proposição 2.8.14, tem-se
que Tv ◦ RHB é uma reflexão ou uma reflexão com deslize.
Se Tv ◦ RHB é uma reflexão, então RHA ◦ Tv ◦ RHB é a composta de duas
reflexões pelo que, como f não tem pontos fixos, é uma translação.
Se Tv ◦ RHB é uma reflexão com deslize então podemos escrever
f = ρl,α ◦ ρm,β = RHA ◦ Tv ◦ RHB = RHA ◦ Tw ◦ RHB
0 = RH ◦ RH0 ◦ Tw ,
A B
onde HB 0 é uma plano paralelo a H e w é um vector no espaço das direcções
B
de HB .
Como RHA ◦ RHB 0 é uma translação ou uma rotação, conclui-se que f ou
é uma translação, ou a composta de uma translação com uma rotação pelo
que, pela Nota 2.8.17 e porque f não tem pontos fixos, é uma transformação
helicoidal.
O Teorema 2.8.8 é então consequência das Proposições 2.8.20 a 2.8.23.
Deste resultado podemos obter a seguinte chave para classificar as isome-
trias de R3 .
Corolário 2.8.24. Seja f uma isometria de R3 tal que f 6= idR3 .
• Se f tem pontos fixos e o seu conjunto de pontos fixos é
– um plano H, então f é a reflexão em H;
116 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
– uma recta l, então f é uma rotação em torno de l;
– um ponto P , então f é uma rotação com reflexão.
• Se f não tem pontos fixos e f é uma isometria
– directa, então f é
∗ uma translação (se a aplicação ortogonal associada a f
é a identidade) ou
∗ uma transformação helicoidal;
– inversa, então f é uma reflexão com deslize.
2.9. Exercı́cios
Nos exercı́cios que se seguem o produto interno entre dois vectores u e
v de Rn é o produto interno usual e é indicado por hu, vi. Consideramos
também no espaço afim Rn a estrutura euclidiana usual (i.e. aquela para a
qual o referencial canónico é um referencial ortonormado).
Exercı́cio 2.9.1. Sejam U e W subespaços dum espaço vectorial eucli-
diano V (isto é um espaço vectorial real de dimensão finita no qual está
fixado um produto interno). Mostre que
a) (U + W )⊥ = U ⊥ ∩ W ⊥ ; b) (U ∩ W )⊥ = U ⊥ + W ⊥ .
Exercı́cio 2.9.2. Em R2 determine as rectas que passam pelo ponto
√ √
P = ( 2, 3) e que são perpendiculares às seguintes rectas:
a) x + 2y + 5 = 0;
b) recta que passa em Q = (1, 1) e é paralela à recta de equacão x+y+2 = 0;
c) recta que passa em R = (π, π) com a direcção do vector v = (2, 2).
Exercı́cio 2.9.3. Em R2 determine
a) se existir, um vector v ∈ R2 tal que hv, (1, 1)i = 1 e kvk = 1.
√ √
b) ](u, v) onde u = (π, π) e v = (−2 2, 2 2).
Exercı́cio 2.9.4. Diga, justificando, se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) Se u, v ∈ Rn e hu, wi = hv, wi, ∀w ∈ Rn então u = v.
b) Se u, v ∈ Rn e hu, wi = hv, wi para algum w ∈ Rn \ {0}, então u = v.
c) Se u, v ∈ R2 , kuk = kvk e ](u, w) = ](v, w) para algum w ∈ R2 \ {0}
então u = v.
Exercı́cio 2.9.5. Em R4 considere o plano
F := (0, 1, 0, 3) + L{(1, 2, 0, 1), (2, 1, 3, 1)}.
2.9. EXERCÍCIOS 117
a) Calcule L{(1, 2, 0, 1), (2, 1, 3, 1)}⊥ .
b) Determine um sistema de equações cartesianas que defina F.
c) Indique uma recta r tal que o subespaço afim hr, Fi gerado por r e F
seja R4 .
Exercı́cio 2.9.6. Em R3 , considere o ponto P = (0, 1, 0) e o plano F
definido por y = 3. Diga, justificando, se existe um referencial ortonormado
R = (O; (e1 , e2 , e3 )) em relação ao qual F seja definido pela equação x = 0
e PR = (1, 0, 0).
Exercı́cio 2.9.7. Em R3 considere a recta r = (0, 0, 0) + L{(0, 0, 1)} e
o plano F de equação x + y + z = 3. Determine, se existir,
a) um referencial ortonormado em relação ao qual o plano F seja definido
pela equação z = 0;
b) um referencial ortonormado em relação ao qual o plano F seja definido
pela equação z = 0, e a recta r seja definida pelas equações x = y = 0.
Exercı́cio 2.9.8. Considere os vectores u = (0, 1, −1) e v = (2, 0, 1) de
R3 e calcule:
a) ](u, v);
b) ](r, s), onde r é a recta (0, 1, 0) + L{u} e s a recta (1, 1, 0) + L{v};
c) ](r, F) e ](s, F) onde F é o plano definido por x − 2z = 9;
d) ](G, F), onde G é o plano (1, 1, 0) + L{(1, 0, 0), (0, 3, 1)}.
π
Exercı́cio 2.9.9. Indique dois planos de R3 cujo ângulo seja 4.
Exercı́cio 2.9.10. Em R3 determine as rectas que passam pelo ponto
(1, 2, 3) e fazem um ângulo de π3 com o plano de equação x − 2y + z = 40.
Exercı́cio 2.9.11. Seja E um espaço afim euclidiano de dimensão n.
Diga, justificando, se as seguintes afirmações são verdadeiras ou falsas:
a) Se dois hiperplanos têm um mesmo eixo então são iguais.
b) Se dois hiperplanos têm um mesmo eixo então são paralelos.
c) Se duas rectas são eixos dum mesmo hiperplano então são paralelas.
d) Se n = 4, duas rectas perpendiculares ao mesmo plano são paralelas.
e) Duas rectas que façam o mesmo ângulo com um hiperplano são paralelas.
f) Se H é um hiperplano e r uma recta, então ](r, H) = 0 se e só se r e H
são paralelos.
g) Se H1 e H2 são hiperplanos tais que ](H1 , H2 ) = π3 , então H1 ∩ H2 é um
subespaço afim de codimensão 2.
118 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Exercı́cio 2.9.12. Em R2 determine a mediatriz m do segmento de
recta [P Q], onde P = (−π, 21 ) e Q = (−1, 2) e o ponto simétrico do ponto
S = (0, 0) em relação a m.
Exercı́cio 2.9.13. Considere os pontos P = (7, 8, 9, 0) e Q = (3, 7, 0, 1)
de R4 . Determine o hiperplano H mediador de [P Q] e o simétrico do ponto
S = (1, 2, 3, 4) em relação a H.
Exercı́cio 2.9.14. Determine a expressão da reflexão no hiperplano de
R5 definido pela equação x1 − x5 = 6.
Exercı́cio 2.9.15. Em R3 considere as rectas l := (0, 1, 0)+L{(1, 0, −1)}
e m := (0, 2, 1) + L{(1, 0, 1)}. Determine
a) uma recta r perpendicular a l e m que intersecte l e m;
b) a distância de l a m.
Exercı́cio 2.9.16. Diga, justificando, se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) Se em R3 a distância de uma recta a um plano é positiva, então a recta
e o plano são paralelos.
b) Se em R5 a distância de uma recta a um plano é positiva, então a recta
e o plano são paralelos.
c) Em R3 , dadas duas rectas enviesadas, existe uma e uma só recta que as
intersecta.
Exercı́cio 2.9.17. Seja E um espaço afim euclidiano. Mostre que um
ponto C é o baricentro do sistema de massas pontuais {(P, β), (Q, (1 − β))}
(com β ∈ R) se e só se
β d(R, P )2 +(1−β) d(R, Q)2 = d(R, C)2 +β d(C, P )2 +(1−β) d(C, Q)2 , ∀R ∈ E.
Exercı́cio 2.9.18. Seja E um espaço euclidiano e H ⊂ E um hiperplano.
Dados dois pontos P, Q ∈ E \ H, determine as diferentes possibilidades para
o mı́nimo do conjunto
{d(P, X) + d(X, Q) : X ∈ H}
e indique em que pontos são atingidas.
Exercı́cio 2.9.19. Seja E um espaço afim euclidiano. Mostre que a bola
fechada de centro P e raio r
Br (P ) := {X ∈ E : d(X, P ) ≤ r}
é um conjunto convexo.
2.9. EXERCÍCIOS 119
Exercı́cio 2.9.20. Considere em R2 os pontos
P0 = (0, 0), P1 = (1, 0), P2 = (0, 2)
e Q0 = (0, −2), Q1 = (−2, −1), Q2 = (0, 0). Diga se existe uma com-
posição de reflexões f : R2 → R2 tal que f (Pi ) = Qi para todo o i ∈ {0, 1, 2}.
Exercı́cio 2.9.21. Determine a isometria de R2 que transforma os pon-
tos (0, 0), (1, 0) e (0, 1) respectivamente nos pontos
√ √ √
1/2, − 3/2 , (1, 0) e (1 − 3)/2, (1 − 3)/2 .
Exercı́cio 2.9.22. Considere em R3 os pontos
P0 = (1, 0, 0), P1 = (0, 0, 1), Q0 = (0, −1, 0) e Q1 = (0, 0, −1).
Determine, se existir, uma isometria f : R3 → R3 tal que f (Pi ) = Qi para
todo o i ∈ {0, 1}.
Exercı́cio 2.9.23. Seja ψ : R2 → R2 uma aplicação afim que transforma
os vértices do quadrado (0, 0), (1, 0), (1, 1), (0, 1), respectivamente em (1, 1),
(3, 1), (3, 3) e (1, 3).
a) A aplicação ψ é linear?
b) A aplicação ψ é uma isometria?
c) A aplicação ψ é única?
d) Determine ψ.
Exercı́cio 2.9.24. Seja E um espaço afim euclidiano de dimensão n.
Mostre que se uma isometria fixa n − 1 pontos independentes então ou f é
uma reflexão ou é uma composição de duas reflexões.
Exercı́cio 2.9.25. Diga, justificando, se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) Uma isometria de R2 transforma rectas paralelas em rectas paralelas.
b) A imagem de uma recta l de R2 por meio de uma isometria é uma recta
paralela a l.
Exercı́cio 2.9.26. Determine a transformação ortogonal φ ~ : R3 → R3
associada à isometria f : R3 → R3 definida por
√ √ !
2 2
f (x, y, z) = x + 3, (y − z) − 3, (y + z) + 1 .
2 2
Exercı́cio 2.9.27. Considere a aplicação f : R3 → R3 definida por
f (x, y, z) = (2 + y, 3 + x, z).
120 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
a) Mostre que f é uma isometria.
b) Determine, se existirem, os pontos fixos de f .
c) Se possı́vel, decomponha f como composição de duas reflexões em hiper-
planos.
d) Determine f (r), onde r é a recta que passa pelos pontos P = (2, 3, 0) e
Q = (5, 6, 1).
Exercı́cio 2.9.28. Seja V um espaço vectorial munido de um produto
interno. Mostre que se uma aplicação f : V → V preserva o produto interno,
i.e.,
hf (u), f (v)i = hu, vi, ∀u, v ∈ V,
então f é uma aplicação linear (e consequentemente uma isometria linear
de V se considerarmos em V a sua estrutura afim canónica).
Sugestão: Considere ||f (λu + v) − λf (u) − f (v)||2 .
Exercı́cio 2.9.29. Mostre que qualquer translação em R2 se pode escre-
ver como composição de duas meias voltas.
Exercı́cio 2.9.30. Mostre que se f : R2 → R2 é uma reflexão com
deslize numa recta m por meio de um vector v, então, dado qualquer ponto
P ∈ R2 , o ponto médio do segmento de recta [P f (P )] pertence a m.
Exercı́cio 2.9.31. Seja E um espaço euclidiano de dimensão n e f : E →
E uma isometria. Mostre que, se existe um ponto P ∈ E tal que f 2 (P ) = P
e f (P ) 6= P , então existem infinitos pontos em E nestas condições.
Exercı́cio 2.9.32. Se f : E → E é uma isometria e existe um ponto P
tal que f 3 (P ) = P e f (P ) 6= P , então P , f (P ) e f 2 (P ) são vértices de um
triângulo equilátero.
Exercı́cio 2.9.33. Seja f : E → E uma isometria num espaço afim
euclidiano E que deixa uma recta ` invariante. Mostre que se f tem um
ponto fixo P ∈
/ ` então f tem infinitos pontos fixos.
Exercı́cio 2.9.34. Seja E um espaço euclidiano e g : E → E uma isome-
tria. Diga, justificando, quais as translações Tv que comutam com g.
Exercı́cio 2.9.35. Seja E um espaço euclidiano e f, g : E → E duas
isometrias. Sabendo que f e g têm pontos fixos e que f ◦ g = g ◦ f , mostre
que f e g têm pelo menos um ponto fixo comum.
Sugestão: Comece por mostrar que g deixa invariante o espaço afim formado
pelos pontos fixos de f e considere um ponto fixo de g que não pertença esse espaço.
2.9. EXERCÍCIOS 121
Exercı́cio 2.9.36. Seja E um espaço euclidiano associado a um espaço
vectorial V e f : E → E uma isometria.
a) Mostre que se u ∈ Im(f~ − idV ) então hu, vi = 0, ∀v ∈ Ker(f~ − idV ).
Conclua que
V = Im(f~ − idV ) ⊕ Ker(f~ − idV ).
b) Seja X0 um ponto de E. Mostre que existe X ∈ E e v ∈ Ker(f~ − idV ) tal
que
−−−−−−→ −−−→
X0 f (X0 ) = −(f~ − idV )(X0 X) + v.
Conclua que X é um ponto fixo da isometria g := T−v ◦ f .
−−−→
Sugestão: Escreva X = X0 + X0 X.
c) Mostre que se v ∈ Ker(f~ − idV ) e g := T−v ◦ f então
f = Tv ◦ g = g ◦ Tv .
d) Mostre que f pode ser escrita de forma única como uma composição de
duas isometrias que comutam
f = Tv ◦ g = g ◦ Tv ,
onde Tv é uma translação ao longo de um vector v ∈ V e g é uma isometria
com pelo menos um ponto fixo.
Sugestão: Para mostrar unicidade, considere duas isometrias g1 , g2 : E → E
com pontos fixos P1 , P2 respectivamente e dois vectores v1 , v2 ∈ Ker(f~ − idV )
tais que
f = Tv1 ◦ g1 = Tv2 ◦ g2 .
−−−→
Conclua que v2 − v1 = (f~ − idV )(P1 P2 ) ∈ Im(f~ − idV ) e, consequentemente, que
v2 − v1 = 0.
Exercı́cio 2.9.37. Mostre que se f : E → E é uma translação então
existe uma isometria inversa h tal que f = h2 .
Exercı́cio 2.9.38. Calcule o ângulo orientado ]or (u, v) de dois vectores
u, v ∈ R2 nos seguintes casos:
a) u = (1, 1) e v = (−3, −3); b) u = (1, 1) e v = (1, 0);
c) u = (1, 0) e v = (1, 0); d) u = (0, 1) e v = (1, 0).
Exercı́cio 2.9.39. Considere em R2 a recta l que passa pelos pontos
P = (1, 1) e Q = (2, 2), e a recta m definida pela equação x = −2. Calcule:
a) ](l, m); b) ]or (l, m); c) ]or (m, l).
Exercı́cio 2.9.40. Indique a aplicação ortogonal associada a
122 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
a) uma translação;
b) uma meia volta de centro num ponto P ;
c) uma reflexão deslizante na recta r = (1, 1) + L{(1, 2)} por meio do vector
(−π, −2π).
Exercı́cio 2.9.41. Determine a expressão analı́tica da rotação em R2
de centro no ponto (1, 2) e ângulo π/3.
Exercı́cio 2.9.42. Determine uma base de vectores próprios da matriz
" #
cos θ sin θ
A= .
sin θ − cos θ
Mostre que a aplicação linear f : R2 → R2 definida por A é uma reflexão e
indique a recta de reflexão.
Exercı́cio 2.9.43. Considere a isometria f : R2 → R2 dada por
f = Rm ◦ Tv ◦ ρ(P, π2 )
onde ρ(P, π2 ) é a rotação de ângulo π/2 e centro no ponto P = (−1, 0), a
aplicação Tv é a translação por meio do vector v = (2, 4) e Rm é a reflexão
na recta m que passa por (0, 0) com a direcção do vector (0, 1).
a) Determine as expressões de f e f −1 .
b) Classifique a isometria f .
c) Sendo C a circunferência de raio 2 e centro em (2, 3), determine f (C).
d) Determine, se existir, uma recta l tal que f (l) = l.
Exercı́cio 2.9.44. Indique, justificando, qual a linha poligonal de com-
primento mı́nimo entre duas localidades A e B separadas por dois rios,
sabendo que estes têm de ser atravessados por duas pontes perpendiculares
às margens dos rios. Qual o seu comprimento?
Sugestão: Represente a margem do primeiro rio mais próxima de A por uma
recta ` de R2 e a margem do segundo rio mais próxima de A por uma recta m. Se
u1 é o vector perpendicular a ` de comprimento igual à distância entre as margens
do primeiro rio e u2 é o vector perpendicular a m de comprimento igual à distância
entre as margens do segundo rio, encontre o mı́nimo M do conjunto
M := min {d(A, X) + ku1 k + d(X + u1 , Y ) + ku2 k + d(Y + u2 , B) : X ∈ ` e Y ∈ m}
= ku1 k + ku2 k + min {d(A, X) + d(X + u1 , Y ) + d(Y + u2 , B) : X ∈ ` e Y ∈ m}
= ku1 k + ku2 k + min {d(A, X) + d(X, Y − u1 ) + d(Y − u1 , B − u1 − u2 ) : X ∈ ` e Y ∈ m} .
2.9. EXERCÍCIOS 123
Exercı́cio 2.9.45. Considere as isometrias f : R2 → R2 tais que
f (1, 2) = (3, 4) e f (3, 4) = (1, 2).
a) Diga, justificando, quantas isometrias satisfazem estas condições.
b) Classifique estas isometrias e determine as suas expressões analı́ticas.
Exercı́cio 2.9.46. Em R2 considere as rectas m1 , m2 , m3 , m4 dadas por
m1 : y − x = 6, m2 : y = 0, m3 : y − x = 2 e m4 : x + y = 0.
Sem determinar explicitamente as reflexões Rmi (i = 1, · · · , 4), classifique
detalhadamente as isometrias
a) Rm1 ◦ Rm3 e Rm2 ◦ Rm3 ;
b) Rm1 ◦ Rm3 ◦ Rm4 e Rm1 ◦ Rm3 ◦ Rm2 .
Exercı́cio 2.9.47. Sabendo que (0, 1) é√o único ponto fixo de uma isome-
tria f : R2 → R2 tal que f (1, 1) = ( 12 , 1 + 23 ),
a) determine a expressão de f ;
b) escreva f como a composição de reflexões em rectas e confirme o resultado
da alı́nea anterior.
Exercı́cio 2.9.48. Considere f : R2 → R2 definida por
f (x, y) = (y + 1, x − 1)
e a reflexão Rm na recta m definida pela equação y = x − 2. Sem determinar
explicitamente Rm classifique detalhadamente as isometrias f , f ◦Rm e Tv ◦f
onde v é o vetor v = (1, 3).
Exercı́cio 2.9.49. Em R2 , seja Rl a reflexão numa recta l. Mostre que,
dada uma isometria f de R2 qualquer, f ◦ Rl ◦ f −1 é a reflexão na recta f (l).
Exercı́cio 2.9.50. Sendo f : R2 → R2 a isometria definida por
f (x, y) = (y − 1, x + 1)
e Rl a reflexão na recta l ⊂ R2 definida por x = 1, classifique detalhadamente
as isometrias f , Rl ◦ f e f ◦ Rl ◦ f .
Exercı́cio 2.9.51. Sejam s e l duas rectas de R2 tais que
(Rs ◦ Rl ) (x, y) = (x + 4, y − 2),
onde Rs e Rl são reflexões nas rectas s e l respectivamente.
a) Determine equações para as rectas s e l, sabendo que l passa na origem.
124 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
b) Indique os pontos fixos da isometria Rm ◦ (Rs ◦ Rl ), onde m ⊂ R2 é a
recta de equação 2x − y = 0.
Exercı́cio 2.9.52. Duas isometrias f, g ∈ Iso(R2 ) dizem-se conjugadas
se existir h ∈ Iso(R2 ) tal que h ◦ f ◦ h−1 = g. Mostre que:
a) Duas reflexões quaisquer são sempre conjugadas.
b) Duas translações, Tu e Tv são conjugadas se e só se kuk = kvk.
c) Duas reflexões deslizantes Rl ◦ Tu e Rm ◦ Tv são conjugadas se e só se
kuk = kvk.
Exercı́cio 2.9.53. Sejam Rl , Rm : R2 → R2 reflexões nas rectas l e m,
sejam ρ(P,α) , ρ(Q,β) : R2 → R2 duas rotações de centros P e Q e ângulos α e
β respectivamente com α, β 6= 0, e sejam ρP , ρQ , ρR : R2 → R2 meia-voltas
de centros P , Q e R. Prove que:
a) Rl ◦ Rm = Rm ◦ Rl se e só se l ⊥ m ou l = m;
b) ρ(P,α) ◦ ρ(Q,β) = ρ(Q,β) ◦ ρ(P,α) se e só se P = Q;
c) ρP ◦ ρQ = ρQ ◦ ρR se e só se Q é o ponto médio de [P R];
d) ρP ◦ Rl = Rl ◦ ρQ se e só se l é a mediatriz de [P Q].
Exercı́cio 2.9.54. Mostre que:
a) Se uma isometria de R2 deixa uma única recta invariante, então é uma
reflexão com deslize ao longo dessa recta.
b) Se Rl é uma reflexão numa recta l de R2 e f é uma isometria inversa de
R2 então existe uma isometria directa g tal que f = g ◦ Rl .
c) Se três rectas distintas l, m, n de R2 se intersectam num ponto P então
Rl ◦ Rm ◦ Rn é uma reflexão numa recta que passa em P .
d) Se l, m, n são três rectas de R2 que se intersectam num ponto P então
Rl ◦ Rm ◦ Rn = Rn ◦ Rm ◦ Rl .
e) Se P e Q são dois pontos distintos de R2 então existe um número infinito
de rotações ρ tais que ρ(P ) = Q.
f) Se ` é uma recta de R2 e ρP é uma meia volta de centro P ∈ ` então
ρP ◦ Rl ◦ ρP = Rl .
g) Em R2 a composta de uma meia-volta com uma translação é uma meia-
volta.
h) Se f é uma isometria inversa de R2 então f ◦ f é uma translação.
i) Se f e g são duas isometria inversas de R2 então f 2 ◦ g 2 = g 2 ◦ f 2 .
j) Dadas duas rectas distintas l1 , l2 em R2 , se existe um ponto P tal que
Rl1 (P ) = Rl2 (P ) então P ∈ l1 ∩ l2 .
2.9. EXERCÍCIOS 125
k) A composta de um número par qualquer de reflexões em rectas paralelas
de R2 é sempre uma translação perpendicular às rectas.
l) Qualquer isometria inversa de R2 é a composta de uma meia volta com
uma reflexão;
m) Dados quaisquer três pontos P, Q, R ∈ R2 tem-se
ρP ◦ ρQ ◦ ρR = ρR ◦ ρQ ◦ ρP = ρS com S ∈ R2 .
Exercı́cio 2.9.55. Diga, justificando, se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) Dados um vector v ∈ R2 \ {0} e uma recta l ⊂ R2 , a isometria Tv ◦ Rl
não tem pontos fixos;
b) Se a composta de duas rotações ρP,α e ρQ,β de R2 é uma translação não
trivial então α = β.
Exercı́cio 2.9.56. Se ` e m são duas rectas concorrentes de R2 indique,
justificando, o conjunto de pontos P ∈ R2 para os quais ρP,α (`) = m para
algum α ∈ [0, 2π[, onde ρP,α é a rotação de centro P e ângulo α.
Exercı́cio 2.9.57. Descreva a isometria de R2 obtida por composição
de uma translação com uma rotação não trivial.
Exercı́cio 2.9.58. Descreva a isometria de R2 obtida por composição
de duas reflexões deslizantes com eixos perpendiculares.
Exercı́cio 2.9.59. Mostre que uma isometria directa h : R2 → R2 é
uma translação se e só se existem isometrias directas f, g : R2 → R2 tais que
h = f ◦ g ◦ f −1 ◦ g −1 .
Exercı́cio 2.9.60. Descreva a isometria de R2 obtida por composição
de duas reflexões deslizantes com eixos paralelos.
Exercı́cio 2.9.61. (Relação de Thomsen) Dadas quaisquer três rectas
`, m, n de R2 mostre que
R` ◦ Rm ◦ Rn ◦ Rl ◦ Rm ◦ Rn ◦ Rm ◦ Rn ◦ R` ◦ Rm ◦ Rn ◦ R` ◦
◦ Rn ◦ Rm ◦ R` ◦ Rn ◦ Rm ◦ Rn ◦ Rm ◦ R` ◦ Rn ◦ Rm = id
onde R` , Rm e Rn são as reflexões nas rectas `, m e n.
Exercı́cio 2.9.62. Seja A um subconjunto não vazio de R2 . Mostre que
se P é um centro de simetria de A então, qualquer que seja a simetria f de
A, o ponto f (P ) é também um centro de simetria de A.
126 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Exercı́cio 2.9.63. Seja A um subconjunto não vazio de R2 . Mostre que
se l é um eixo de simetria de A então, qualquer que seja a simetria f de A,
a recta f (l) é também um eixo de simetria de A.
Exercı́cio 2.9.64. Diga quais dos seguintes conjuntos são subgrupos do
grupo Iso(R2 ) de isometrias de R2 :
a) O conjunto de todas as translações;
b) O conjunto de todas as isometrias g ∈ Iso(R2 ) tais que g(0, 0) = (0, 0);
c) O conjunto de todas as isometrias g ∈ Iso(R2 ) tais que g(1, 2) = (4, 5);
d) O conjunto de todas as reflexões com deslize.
Exercı́cio 2.9.65. Diga se o subgrupo de isometrias de R2 gerado por
duas reflexões em rectas paralelas distintas é finito ou infinito.
Exercı́cio 2.9.66. Dê exemplos, se existirem, de
a) um subgrupo de isometrias de R2 com 15 elementos que não seja comu-
tativo;
b) um subgrupo de isometrias de R2 com 5 elementos;
c) um subgrupo de isometrias de R2 com 10 elementos que não seja comu-
tativo;
d) um subgrupo infinito de isometrias de R2 que não contenha translações
não triviais;
e) um subgrupo infinito de isometrias de R2 que não contenha translações
não triviais e que contenha isometrias inversas.
Exercı́cio 2.9.67. Descreva o subgrupo G de isometrias de R2 gerado
pelas translações segundo os vectores (1, 0) e (0, 1) e os conjuntos
A = {X ∈ R2 : X = f (1, 0), para algum f ∈ G}
B = {X ∈ R2 : X = f (0, 1), para algum f ∈ G}.
Mostre que, para qualquer ponto Q ∈ R2 , existe um ponto P ∈ [0, 1[×[0, 1[
e f ∈ G tal que f (P ) = Q.
Exercı́cio 2.9.68. Seja G um grupo de isometrias de R2 cujas translações
formam o grupo hTu , Tv i gerado por duas translações Tu , Tv com u e v dois
vectores linearmente independentes. Sejam ρA,α e ρB,α duas rotações não
triviais em G com o mesmo ângulo e centros distintos A e B.
a) Classifique a isometria f := ρA,α ◦ ρ−1
B,α ∈ G.
b) Determine f (B).
−−−−−→
c) Mostre que kB f (B)k ≤ 2d(A, B).
2.9. EXERCÍCIOS 127
d) Conclua que existe L > 0 tal que d(A, B) ≥ L.
Exercı́cio 2.9.69. Diga, justificando, se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) dado um plano H de R3 existe apenas um número finito de isometrias
f : R3 → R3 tais que f (H) = H;
b) em R3 a composição de três reflexões nunca é uma reflexão.
Exercı́cio 2.9.70. Seja f : R3 → R3 uma isometria não trivial para
a qual existe um vector não nulo u ∈ R3 , tal que φ(u)~ = u, onde φ~ é a
aplicação ortogonal associada a f . Diga, justificando, quais das seguintes
afirmações são verdadeiras:
a) se f não tem pontos fixos então ou f é uma reflexão deslizante ou é um
parafuso;
b) se f tem pontos fixos então f é uma reflexão com rotação;
~
c) se f tem pontos fixos e existe um vector v ∈ R3 \ {0} tal que v + φ(v) = 0,
então f é uma rotação em torno dum eixo com a direcção de v;
~
d) se f tem pontos fixos e existe um vector v ∈ R3 \ {0} tal que v + φ(v) = 0,
então ou f é uma reflexão num plano perpendicular a v, ou é uma rotação
em torno dum eixo com a direcção de u.
Exercı́cio 2.9.71. Diga, justificando, se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) em R3 a composição de uma transformação helicoidal com uma inversão
é uma transformação helicoidal.
b) se ρ`,π é uma rotação de ângulo π em torno de uma recta ` de R3 , se ρP
é a inversão em P , então ρ`,π ◦ ρP é uma reflexão com deslize se e só se
P ∈ / `.
Exercı́cio 2.9.72. Descreva a isometria de R3 que se obtém por com-
posição de uma reflexão num plano H com uma inversão num ponto P ∈
/ H.
Exercı́cio 2.9.73. Descreva a isometria de R3 obtida por composição de
três meias voltas ρmi ,π em torno de três rectas m1 , m2 , m3 perpendiculares
duas a duas e que se intersectam simultaneamente num ponto P .
Exercı́cio 2.9.74. Dada uma reflexão RH : R3 → R3 num hiperplano
H ⊂ R3 quais as rotações de R3 que comutam com RH ?
Exercı́cio 2.9.75. Considere uma reflexão RH : R3 → R3 num hiper-
plano H ⊂ R3 e uma translação Tu : R3 → R3 . Descreva a isometria Tu ◦ RH
sabendo que Tu e RH não comutam.
128 2. GEOMETRIA EUCLIDIANA
Exercı́cio 2.9.76. Mostre que qualquer transformação helicoidal f :
R3 → R3 é a composta f = g ◦ h de duas isometrias directas g e h tais que
g 2 = h2 = idR3 .
CAPÍTULO 3
Geometria Projectiva
Neste capı́tulo introduz-se a geometria projectiva que estuda as pro-
priedades geométricas invariantes por projecção.
3.1. Espaço Projectivo
Definição 3.1.1. Seja V um espaço vectorial de dimensão n + 1 sobre
um corpo K (por exemplo R ou C). O espaço projectivo P(V ) de V de
dimensão n é o conjunto
P(V ) := {L{v} : v ∈ V \ {0}}
dos subespaços vectoriais de V de dimensão 1. Os elementos de um espaço
projectivo designam-se por pontos.
Cada vector v ∈ V \ {0} determina um ponto de P(V ) e dois vectores
v, w ∈ V \ {0} determinam o mesmo ponto se e só se geram o mesmo
subespaço de V . Assim, temos
P(V ) = (V \ {0}) / ∼,
onde se considera em V \ {0} a relação de equivalência definida por
v ∼ w ⇔ w = λv
para algum escalar λ 6= 0. Temos então uma projecção
π : V \ {0} → P(V )
que a cada v ∈ V \ {0} faz corresponder o ponto de P(V ) definido por L{v}
(i.e. π(v) = [v], onde [v] designa a classe de equivalência do vector v).
Exemplo 3.1.2. O plano projectivo real, P2 := P(R3 ), é o conjunto
dos subespaços de dimensão 1 de R3 . Em geral, o espaço projectivo associado
a Rn+1 é designado por Pn . A notação Pn (R) ou RPn é também muito
frequente.
129
130 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
Exemplo 3.1.3. A recta projectiva complexa, P1C := P(C2 ), é o
conjunto dos subespaços de dimensão (complexa) 1 de C2 . Em geral, o
espaço projectivo associado a Cn+1 é designado por PnC ou ainda por Pn (C)
ou CPn .
Dada uma base B do espaço vectorial V , cada vector v ∈ V \ {0} fica
definido pelas suas coordenadas vB = (x0 , . . . , xn ) nessa base (em que pelo
menos uma das coordenadas é diferente de 0). Se u ∈ L{v} é outro vector
não nulo, então uB = (y0 , . . . , yn ) onde (y0 , . . . , yn ) = λ(x0 , . . . , xn ) com λ 6=
0. Assim o ponto P = [v] de P(V ) correspondente a L{v} fica identificado
tanto por (x0 , . . . , xn ) como por (y0 , . . . , yn ).
Utiliza-se então a notação
[x0 : x1 : · · · : xn ]
para designar o ponto P e diz-se que [x0 : x1 : · · · : xn ] são as coordenadas
homógeneas de P (em relação à base B).
Exemplo 3.1.4. O ponto P ∈ P2 de coordenadas homogéneas [12 : 6 :
18] (em relação à base canónica de R3 ) pode também ser representado, por
exemplo, por [2 : 1 : 3] ou [4 : 2 : 6].
Nota 3.1.5. Fixada uma base B = (e0 , . . . , en ) de V obtemos uma
aplicação linear bijectiva g : K n+1 → V que à base canónica de K n+1 faz
corresponder a base B. Podemos então considerar a aplicação
h := π ◦ g : K n+1 \ {0} → P(V )
e as coordenadas homogéneas correspondentes em P(V ). No que se segue
faremos este tipo de identificação.
3.2. Subespaços projectivos
Definição 3.2.1. Um subconjunto E de P(V ) diz-se um subespaço
projectivo de dimensão m se π −1 (E) ∪ {0} é um subespaço vectorial de V
de dimensão m + 1.
Tal como acontece com espaços vectoriais um subespaço projectivo é ele
próprio um espaço projectivo. Com efeito, se E é um subespaço projectivo e
W é o subespaço vectorial tal que W = π −1 (E) ∪ {0}, então E é o conjunto
dos subespaços de dimensão 1 de W , ou seja
E = P(W ) := {L{v} : v ∈ W \ {0}} .
3.2. SUBESPAÇOS PROJECTIVOS 131
Um (sub)espaço projectivo de dimensão 0 é constituı́do por um único
ponto, uma recta projectiva é um (sub)espaço projectivo de dimensão 1,
um plano projectivo é um (sub)espaço projectivo de dimensão 2, um k-
plano projectivo é um (sub)espaço projectivo de dimensão k e um hiper-
plano projectivo é um subespaço projectivo de dimensão n − 1.
Define-se codimensão de um subespaço projectivo E como sendo o
número k := n − m onde m é a dimensão de E.
Nota 3.2.2. Fixada uma base B em V , um subespaço projectivo E =
P(W ) de dimensão m fica definido por um sistema de equações lineares
homogéneas em n + 1 incógnitas (onde dim V = n + 1) e de grau de inde-
terminação m + 1 (o mesmo sistema que define as coordenadas dos vectores
de W na base B).
Proposição 3.2.3. Dados dois pontos distintos P, Q ∈ P(V ) existe uma
única recta projectiva que passa em P e Q.
Demonstração: Sejam P = [u] e Q = [v] dois pontos de P(V ) onde
u, v ∈ V \ {0} (isto é P e Q são os pontos de P(V ) que correspondem aos
subespaços L{u} e L{v} de V respectivamente). Note que u e v são dois
vectores linearmente independentes pois P 6= Q.
Então W := L{u, v} é um subespaço de V de dimensão 2 que contém os
vectores u e v, pelo que P(W ) é uma recta projectiva de P(V ) que contém
P e Q.
Se P(W 0 ) é uma outra recta projectiva de P(V ) que contém P e Q (onde
W é um subespaço de V de dimensão 2), então u e v estão em W 0 , pelo que
0
L{u, v} ⊆ W 0 . Como estes dois espaços têm a mesma dimensão, conclui-se
que W = W 0 .
Exemplo 3.2.4. Vejamos qual a recta projectiva ` ⊂ P2 que passa nos
pontos [1 : 1 : 0] e [1 : 0 : 1]. Para isso determinamos o subespaço W ⊂ R3
gerado pelos vectores (1, 1, 0) e (1, 0, 1). Como
(x0 , x1 , x2 ) ∈ W := L{(1, 1, 0), (1, 0, 1)}
se e só se a caracterı́stica das matrizes
1 1 x0 1 1 x0 1 1 x0
1 0 x1 → 0 −1 x1 − x0 → 0 1 x2
0 1 x2 0 1 x2 0 0 x1 − x0 + x2
132 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
é igual a dois, conclui-se que (x0 , x1 , x2 ) ∈ W se e só se −x0 + x1 + x2 = 0.
Assim,
` = [x0 : x1 : x2 ] ∈ P2 : x0 − x1 − x2 = 0 .
Proposição 3.2.5. Num plano projectivo, quaisquer duas rectas pro-
jectivas distintas intersectam-se num único ponto.
Demonstração: Seja P(V ) um plano projectivo (isto é dim V = 3) e sejam
`, m ⊂ P(V ) duas rectas projectivas. Então ` = P(U ) e m = P(W ) para U
e W subespaços vectoriais de V de dimensão 2 e
3 = dim(V ) ≥ dim(U + W ) = dim(U ) + dim(W ) − dim(U ∩ W )
= 4 − dim(U ∩ W ),
pelo que
1 ≤ dim(U ∩ W ) ≤ 2.
Como as duas rectas são distintas, temos U 6= W , pelo que dim(U ∩ W ) = 1
e então ` ∩ m = P(U ) ∩ P(W ) = P(U ∩ W ) tem dimensão 0.
Nesta demonstração usámos o facto de que a intersecção de dois sube-
spaços projectivos P(U ) ∩ P(W ) é o subespaço projectivo P(U ∩ W ). Em
geral temos o seguinte resultado.
Proposição 3.2.6. A intersecção de subespaços projectivos de um espaço
projectivo P(V ) é um subespaço projectivo.
Demonstração: Basta ver que pela definição de subespaço projectivo a
intersecção de uma famı́lia qualquer de subespaços projectivos é a imagem
por meio de π da intersecção dos subespaços vectoriais correspondentes.
Podemos assim considerar a seguinte definição.
Definição 3.2.7. Seja S um subconjunto de P(V ). O subespaço pro-
jectivo hSi gerado por S, ou fecho projectivo de S, é a intersecção de
todos os subespaços projectivos de P(V ) que contêm S (ou seja é o menor
subespaço projectivo de P(V ) que contém S).
Note que hSi = P(W ) onde W é o subespaço vectorial de V gerado por
Se := {v ∈ V : [v] ∈ S} .
Se S = {P0 , . . . , Pk }, onde P0 , . . . , Pk ∈ P(V ), então
hSi = hP0 , . . . , Pk i = P (L{u0 , . . . , uk }) ,
3.2. SUBESPAÇOS PROJECTIVOS 133
onde u0 , . . . , uk ∈ V são tais que Pi = [ui ] para i = 0, . . . , k. Então
dimhP0 , . . . , Pk i ≤ k
e dimhP0 , . . . , Pk i = k se e só se os vectores u0 , . . . , uk são linearmente inde-
pendentes. Neste caso diz-se que os pontos P0 , . . . , Pk são independentes.
Exemplo 3.2.8. Considere-se os seguintes pontos de P3 :
P = [1 : 1 : 0 : 0], Q = [1 : 0 : 0 : 0], R = [2 : 0 : 1 : 0] e S = [4 : 2 : 0 : 0].
Então hP, Q, R, Si = P(W ) onde
W = L{(1, 1, 0, 0), (1, 0, 0, 0), (2, 0, 1, 0), (4, 2, 0, 0)}.
Como
1 1 0 0 1 1 0 0
1 0 0 0 0 −1 0 0
→ ,
2 0 1 0 0 0 1 0
4 2 0 0 0 0 0 0
temos
W = L{(1, 1, 0, 0), (0, −1, 0, 0), (0, 0, 1, 0)}
e então dimhP, Q, R, Si = 2, pelo que os pontos não são independentes.
Vejamos agora como se relacionam as dimensões de subespaços projec-
tivos.
Teorema 3.2.9. Sejam E e F dois subespaços projectivos de P(V ).
Então
dim hE, F i = dim E + dim F − dim(E ∩ F ),
onde dim ∅ = −1.
Demonstração: Sejam U e W dois subespaços vectoriais de V tais que
E = P(U ) e F = P(W ).
Então
E ∩ F = P(U ) ∩ P(W ) = P(U ∩ W ) e hE, F i = P(U + W ).
Assim, temos
dim hE, F i = dim P(U + W ) = dim (U + W ) − 1
= dim U + dim W − dim (U ∩ W ) − 1
= dim E + 1 + dim F + 1 − (dim (E ∩ F ) + 1) − 1
= dim E + dim F − dim (E ∩ F ).
134 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
Exemplo 3.2.10. Seja H ⊂ P(V ) um hiperplano projectivo e P ∈ P(V )
um ponto tal que P ∈ / H. Então qualquer recta projectiva r ⊂ P(V ) que
passa em P intersecta H num único ponto. Com efeito,
n = dim P(V ) = dim hr, Hi = dim r + dim H − dim (r ∩ H)
= 1 + (n − 1) − dim (r ∩ H),
pelo que dim (r ∩ H) = 0.
3.3. Decomposições do espaço projectivo
Dado um hiperplano H num espaço projectivo P(V ) de dimensão n,
vamos ver que podemos identificar P(V )\H com um espaço afim de dimensão
n. Podemos então pensar em P(V ) como a união disjunta de um espaço
afim com um espaço projectivo H de codimensão 1. Vamos também ver que
podemos considerar P(V ) como união (não disjunta) de n + 1 espaços afins
de dimensão n.
Vejamos o caso particular de PnK := P(K n+1 ). Para tal, consideremos
K n+1 com a base canónica, o hiperplano H0 de PnK definido pela equação
x0 = 0 e o conjunto
U0 := PnK \ H0 = {[x0 : x1 : · · · : xn ] ∈ PnK : x0 6= 0} .
A aplicação j0 : K n → U0 definida por (x1 , . . . , xn ) → [1 : x1 : · · · : xn ]
estabelece uma bijecção entre K n e U0 onde j0−1 : U0 → K n é definida por
x1 x2 xn
[x0 : x1 : · · · : xn ] → , ,..., .
x0 x0 x0
Esta bijecção permite definir em U0 uma estrutura afim a partir da estrutura
afim canónica de K n , onde consideramos o referencial canónico.
Como PnK = H0 t U0 , podemos ver PnK como a união disjunta de um
espaço afim de dimensão n com um subespaço projectivo de dimensão n − 1.
Diz-se que H0 é o hiperplano no infinito e o par (U0 , j0−1 ) diz-se uma carta
afim de PnK (ou vizinhança de coordenadas afins).
Podemos também considerar os hiperplanos Hi definidos pelas equações
xi = 0, com i = 1, . . . , n, aos quais correspondem as aplicações ji : K n → Ui
definidas por
(x1 , . . . , xn ) → [x1 : · · · : xi−1 : 1 : xi : · · · : xn ],
3.3. DECOMPOSIÇÕES DO ESPAÇO PROJECTIVO 135
onde os conjuntos Ui são dados por
Ui := PnK \ Hi = {[x0 : x1 : · · · : xn ] ∈ PnK : xi 6= 0} .
Obtemos assim que PnK = U0 ∪ U1 ∪ · · · ∪ Un é a união (não disjunta) de
n + 1 espaços afins de dimensão n.
No caso geral de um espaço projectivo P(V ) obtemos decomposições de
forma idêntica, usando a aplicação h := π ◦ g : K n+1 \ {0} → P(V ) (ver Nota
3.1.5) e as coordenadas homogéneas em P(V ) correspondentes.
Note que dado qualquer hiperplano H de um espaço projectivo P(V ) de
dimensão n podemos de novo identificar P(V ) \ H com o espaço afim K n ,
por exemplo escolhendo uma base de V na qual o hiperplano H é definido
em coordenadas homogéneas [x0 : x1 : · · · : xn ] pela equação x0 = 0.
Uma outra forma de verificar que os conjuntos Ui estão em correspondência
biunı́voca com o espaço afim K n é identificá-los com hiperplanos de K n+1 .
Por exemplo, podemos identificar U0 com o hiperplano de equação x0 = 1
por meio de
x1 x2 xn
[x0 : x1 : · · · : xn ] → 1, , , . . . , ∈ K n+1 .
x0 x0 x0
Exemplo 3.3.1.
P1 = [x0 : x1 ] : (x0 , x1 ) ∈ R2 \ {0} = U0 t H0
onde U0 = {[x0 : x1 ] : x0 6= 0 e x1 ∈ R} e H0 = {[0 : x1 ] : x1 ∈ R \ {0}}.
Assim,
x1
P1 = {[1 : ] : x0 6= 0 e x1 ∈ R} t {[0 : 1]}
x0
= {[1 : x1 ] : x1 ∈ R} t {[0 : 1]} ' R t {[0 : 1]}.
Nesta decomposição de P1 o ponto [0 : 1] é o ponto no infinito, i.e. ∞ :=
[0 : 1] (ver Figura 3.1).
Exemplo 3.3.2.
P1 = [x0 : x1 ] : (x0 , x1 ) ∈ R2 \ {0} = U1 t H1
= {[x0 : x1 ] : x1 6= 0 e x0 ∈ R} t {[x0 : 0] : x0 ∈ R \ {0}}
x0
= {[ : 1] : x1 6= 0 e x0 ∈ R} t {[1 : 0]}
x1
= {[x0 : 1] : x0 ∈ R} t {[1 : 0]} ' R t {[1 : 0]}.
136 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
Figura 3.1. P1 ' U0 t {[0 : 1]}.
Figura 3.2. P1 ' U1 t {[1 : 0]}
Nesta decomposição de P1 o ponto [1 : 0] é o ponto no infinito, i.e. ∞ :=
[1 : 0] (ver Figura 3.2).
Exemplo 3.3.3.
P2 = [x0 : x1 : x2 ] : (x0 , x1 , x2 ) ∈ R3 \ {0} = U2 t H2 ,
onde U2 = [x0 : x1 : x2 ] : x2 6= 0 e (x0 , x1 ) ∈ R2 e
H2 = {[x0 : x1 : 0] (x0 , x1 ) ∈ R2 \ {0}}.
3.4. MERGULHOS DO ESPAÇO AFIM NO ESPAÇO PROJECTIVO 137
Assim,
x0 x1
P2 = {[ : : 1] : (x0 , x1 ) ∈ R2 } t {[x0 : x1 : 0] : (x0 , x1 ) ∈ R2 \ {0}}
x2 x2
' [x0 : x1 : 1] : (x0 , x1 ) ∈ R2 t {[x0 : x1 ] : (x0 , x1 ) ∈ R2 \ {0}}
' R2 t P1 .
Nesta decomposição de P2 os pontos da forma [x0 : x1 : 0] com (x0 , x1 ) ∈
R2 \ {0} formam uma recta projectiva no infinito (ver Figura 3.3).
Figura 3.3. P2 ' U2 t P1 .
3.4. Mergulhos do espaço afim no espaço projectivo
Como vimos na secção anterior podemos sempre identificar o comple-
mentar de um hiperplano num espaço projectivo com um espaço afim. In-
versamente, dado um espaço afim A associado a um espaço vectorial de
dimensão n sobre um corpo K, podemos sempre identificá-lo com o comple-
mentar de um hiperplano de PnK .
Uma forma de o fazer é fixar um referencial R = (O; (e1 , ..., en )) em A,
identificando assim A com K n por meio de
P = O + a1 e1 + · · · + an en → PR = (a1 , . . . , an ) ∈ K n
e depois identificar K n com o complementar de um hiperplano de PnK . Pode-
mos assim pensar num espaço projectivo como uma forma de completar um
espaço afim juntando pontos no infinito.
138 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
Por exemplo, usando coordenadas homogéneas em PnK em relação à base
canónica de K n+1 e identificando K n com U0 , obtemos uma aplicação in-
jectiva (um mergulho) ϕ : A → PnK definida por
P = O + a1 e1 + · · · + an en → (a1 , . . . , an ) → [1 : a1 : · · · : an ].
É fácil verificar que o fecho projectivo hU0 i de U0 é PnK e que o fecho
projectivo da imagem de um subespaço afim F de A definido em relação ao
referencial R por um sistema
a11 x1 + · · · + a1n xn = b1
.. ..
(3.4.1) . .
a x + ··· + a x = b
m1 1 mn n m
é o subespaço projectivo F de PnK definido pelo sistema
a11 x1 + · · · + a1n xn = b1 x0
.. ..
(3.4.2) . .
a x + ··· + a x = b x .
m1 1 mn n m 0
Exemplo 3.4.1. Consideremos o espaço afim R2 com o referencial canóni-
ϕ
co e o mergulho de R2 em P2 por meio de (a1 , a2 ) → [1 : a1 : a2 ]. Identifi-
camos assim R2 com o complementar do hiperplano H0 de P2 (note que H0
é uma recta projectiva).
Seja l a recta de R2 que passa no ponto (1,2) com a direcção do vector
v = (1, −1). Esta recta é definida em relação ao referencial canónico pela
equação x1 + x2 = 3.
O fecho projectivo ¯l de ϕ(l) é a recta de P2 definida pela equação
x1 + x2 = 3x0
e ¯l ∩ H0 = [0 : 1 : −1]. Note que o fecho projectivo r̄ da imagem de qualquer
recta r paralela a l satisfaz r̄ ∩ H0 = [0 : 1 : −1].
3.5. Dualidade
Seja V um espaço vectorial sobre K e V ∗ o seu espaço dual. O espaço
projectivo P(V ∗ ) chama-se o espaço dual de P(V ) e indica-se também por
P(V )∗ .
Dadas coordenadas homogéneas em P(V ) definidas por uma base B de
V chamam-se coordenadas homogéneas duais às coordenadas homogéneas
de P(V )∗ definidas pela base dual B ∗ de B. Dado um ponto P = [f ] de
P(V )∗ (ou seja uma classe de equivalência de formas lineares), onde f é
3.5. DUALIDADE 139
definida por f (x0 , . . . , xn ) = a0 x0 + · · · + an xn em relação à base B, então as
coordenadas de f na base B ∗ são (a0 , . . . , an ) e as coordenadas homogéneas
duais de P são [a0 : · · · : an ].
Por outro lado, o conjunto dos pontos de P(V ) cujas coordenadas ho-
mogéneas (em relação à base B) são solução da equação a0 x0 +· · ·+an xn = 0
é um hiperplano de P(V ). Temos assim uma correspondência biunı́voca en-
tre pontos de P(V )∗ e hiperplanos de P(V ).
Em geral, a correspondência biunı́voca entre subespaços vectoriais de V
de dimensão m + 1 e subespaços vectoriais de V ∗ de dimensão n − m dada
por M → Ann(M ) onde
Ann(M ) := {f ∈ V ∗ : f (M ) = {0}}
estabelece uma correspondência biunı́voca (a que se dá o nome de corre-
spondência de dualidade) entre subespaços projectivos de P(V ) de dimensão
m e subespaços projectivos de P(V )∗ de dimensão n − m − 1.
Usando as propriedades dos aniquiladores (ver Anexo D) temos as seguintes
propriedades, onde δ(F ) é o subespaço de P(V )∗ que corresponde a um sube-
spaço projectivo F de P(V ):
Proposição 3.5.1. Sejam F1 e F2 subespaços projectivos de um espaço
projectivo P(V ) de dimensão n.
1) Se dim F1 = m então dim δ(F1 ) = n − m − 1.
2) F1 ⊂ F2 se e só se δ(F1 ) ⊃ δ(F2 ).
3) δ(F1 ∩ F2 ) = hδ(F1 ), δ(F2 )i.
4) δ(hF1 , F2 i) = δ(F1 ) ∩ δ(F2 ).
Definição 3.5.2. Dada uma afirmação A envolvendo subespaços pro-
jectivos de um espaço projectivo de dimensão n, subespaços projectivos ger-
ados por uma união de subespaços, interseções de subespaços e dimensão
m, chama-se afirmação dual de A à afirmação A0 obtida substituindo
“gerado”, “intersecção”, “contido”, “contendo” e “dimensão m” por “in-
tersecção”, “gerado”, “contendo”, “contido” e “dimensão n − m − 1” re-
spectivamente.
Exemplo 3.5.3. A afirmação dual de “A intersecção de dois hiperplanos
distintos em Pn é um subespaço projectivo de dimensão n−2” é “Dois pontos
distintos em Pn geram uma recta”.
A afirmação dual de “Em P2 dois pontos distintos definem uma única
recta” é “Em P2 duas rectas distintas intersectam-se num único ponto”.
140 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
Como consequência da Proposição 3.5.1 e do facto de P(V ) e P(V )∗ se
identificarem com PnK temos o seguinte resultado.
Teorema 3.5.4 (Principio da dualidade). Uma afirmação A envol-
vendo subespaços projectivos, subespaços gerados, intersecções de subespaços
e dimensões é verdadeira se e só se a afirmação dual de A o for.
3.6. Aplicações projectivas
Sejam V e W dois espaços vectoriais de dimensão finita e T : V → W
uma aplicação linear. Se T é invertı́vel e U é um subespaço vectorial de V ,
então T (U ) é um subespaço vectorial de W com a mesma dimensão de U .
Em particular, a aplicação T transforma subespaços vectoriais de dimensão
1 em subespaços vectoriais de dimensão 1, induzindo uma aplicação τ :
P(V ) → P(W ) entre os espaços projectivos correspondentes:
T
V −→ W
↓ ↓
τ
P(V ) −→ P(W )
[v] 7−→ [T (v)]
Definição 3.6.1. Uma aplicação projectiva τ : P(V ) → P(W ) é uma
aplicação induzida por uma aplicação linear invertı́vel T : V → W , ou seja,
tal que
τ ([v]) = [T (v)] , ∀ [v] ∈ P(V ).
Exemplo 3.6.2. Seja T : R2 → R2 a aplicação linear definida por
" # !
1 1 x
T (x, y) = (x + y, 2x − y) = .
2 −1 y
Como " #
1 1
det = −3
2 −1
a aplicação T é invertı́vel e induz uma aplicação projectiva τ : P1 → P1 dada
por
τ ([x : y]) = [x + y : 2x − y].
Se T : V → W é uma aplicação linear invertı́vel e λ é um escalar diferente
de 0, então T e λ T induzem a mesma aplicação projectiva τ : P(V ) → P(W )
pois
[(λ T )(v)] = [λ T (v)] = [T (v)] .
3.6. APLICAÇÕES PROJECTIVAS 141
Inversamente, se T e T 0 definem a mesma aplicação projectiva, então existe
um escalar λ 6= 0 tal que T = λ T 0 . Com efeito, se {v1 , . . . vn } é uma base
de V , então
(3.6.1) τ ([vi ]) = [T (vi )] = [T 0 (vi )] ⇒ T (vi ) = λi T 0 (vi )
6 0, i = 1, . . . , n. Por outro lado,
para escalares λi =
" n #! " n
!# " n
!#
X X X
τ vi = T vi = T0 vi
i=1 i=1 i=1
pelo que
n n
! !
X X
0
(3.6.2) T vi = λT vi
i=1 i=1
para algum escalar λ 6= 0. Usando a linearidade de T , (3.6.1) e (3.6.2),
temos
n n n n
!
X X X X
T vi = T (vi ) = λi T 0 (vi ) = λ T 0 (vi ).
i=1 i=1 i=1 i=1
Como os vectores {T 0 (v1 ), . . . , T 0 (vn )} formam uma base de T 0 (V ) e os coe-
ficientes da representação de um vector numa dada base são únicos, temos
λi = λ para i = 1, . . . , n pelo que T = λT 0 . Com efeito,
n n n n
! !
X X X X
0 0
T ai vi = ai T (vi ) = ai λ T (vi ) = λ T ai vi
i=1 i=1 i=1 i=1
para quaisquer escalares a1 , . . . , an .
Exemplo 3.6.3. Sejam r := P(U ) e r0 := P(U 0 ) duas rectas projectivas
de um plano projectivo P(V ) onde U e U 0 são dois subespaços vectoriais de
V de dimensão 2 (note que dim V = 3). Seja Q um ponto de P(V ) tal que
Q∈ / (r ∪ r0 ). Pelas Proposições 3.2.3 e 3.2.5, para cada ponto X ∈ r a única
recta projectiva de P(V ) que passa em Q e em X intersecta r0 num único
ponto τ (X). Então a aplicação
τ: r −→ r0
X 7−→ τ (X)
é uma aplicação projectiva (ver Figura 3.4).
Vejamos qual a aplicação linear T : U → U 0 que a induz. Para isso
considere-se um vector u ∈ V tal que Q = [u] e o subespaço
W := L{u} ⊂ V
142 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
Q
r
r'
Τ(X)
Figura 3.4. A aplicação τ : r → r0 .
(note que Q = P(W )). Como Q ∈ / r0 temos que W ∩ U 0 = {0} e então, como
dim V = 3, temos V = W ⊕ U . 0
Dado X ∈ r considere-se v ∈ V tal que X = [v]. Como V = W ⊕ U 0 ,
o vector v pode ser escrito univocamente como uma soma v = w + u0 onde
w ∈ W e u0 ∈ U 0 . Como
W = L{u} = L{w},
temos que a recta projectiva que passa em Q e em X é
P (L{w, v}) = P L{w, u0 }
P L{w, u0 } ∩ r0 = P L{w, u0 } ∩ P(U 0 )
= P L{w, u0 } ∩ U 0 = P L{u0 } = {[u0 ]}.
Assim,
τ (X) = τ ([v]) = τ ([w + u0 ]) = [u0 ],
pelo que τ é induzida pela aplicação linear T : U → U 0 dada pela restrição
a U da projecção
Proj : V = W ⊕ U 0 → U 0
.
v=we+ue0 7→ ue0
Esta aplicação é invertı́vel pois o seu núcleo é trivial. Com efeito,
T (u) = 0 ⇔ u ∈ W e u ∈ U ⇒ u ∈ W ∩ U = {0}
pois Q ∈
/ U.
3.6. APLICAÇÕES PROJECTIVAS 143
Definição 3.6.4. Seja P(V ) um espaço projectivo de dimensão n. Um
conjunto de n + 2 pontos de P(V ) diz-se um referencial projectivo se
quaisquer n + 1 desses pontos forem independentes.
Exemplo 3.6.5. Três pontos distintos P, Q, R de uma recta projectiva
formam sempre um referencial projectivo pois quaisquer dois pontos são
independentes.
Definição 3.6.6. Em Pn designa-se por referencial projectivo canónico
o referencial formado pelos pontos
P0 = [1 : 0 : · · · : 0], P1 = [0 : 1 : 0 : · · · : 0], . . . , Pn = [0 : · · · : 0 : 1] e
Pn+1 = [1 : 1 : · · · : 1].
Uma aplicação projectiva fica univocamente determinada pela imagem
de um referencial projectivo.
Teorema 3.6.7. Se {P1 , . . . , Pn+2 } é um referencial de um espaço pro-
jectivo P(V ) e {Q1 , . . . , Qn+2 } um referencial de um espaço projectivo P(W ),
então existe uma única aplicação projectiva τ : P(V ) → P(W ) tal que
τ (Pi ) = Qi para i = 1, . . . , n + 2.
Demonstração: Sejam v1 , . . . , vn+2 vectores de V tais que Pi = [vi ] para
i = 1, . . . , n + 2. Como os pontos P1 , . . . , Pn+2 formam um referencial pro-
jectivo, por exemplo os primeiros n + 1 destes vectores são linearmente in-
dependentes, formando uma base de V . Então
n+1
X
vn+2 = ai vi
i=1
para alguns escalares ai . Se algum destes escalares fosse 0, por exemplo se
a1 = 0, então os vectores vn+2 , v2 , v3 , . . . , vn+1 não seriam independentes e
{P1 , . . . , Pn+2 } não seria um referencial projectivo. Concluı́mos assim que
ai 6= 0 para i = 1, . . . , n + 1.
Como Pi = [vi ] = [ai vi ], podemos escolher representantes vei := ai vi dos
pontos Pi (i.e. tais que [e vi ] = Pi ), de forma a ter
n+1
X
vn+2 = vei .
i=1
Além disso, fixando vn+2 , estes representantes dos pontos Pi são únicos pois
os escalares ai (i = 1, . . . , n + 1) são univocamente determinados por vn+2 .
144 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
Podemos pois assumir, sem perda de generalidade, que temos Pi = [vi ]
para i = 1, . . . , n + 2, com
n+1
X
vn+2 = vi .
i=1
Analogamente, considerando o referencial {Q1 , . . . , Qn+2 }, podemos esco-
lher vectores w1 , . . . , wn+2 de W tais que Qi = [wi ] para i = 1, . . . , n + 2
e
n+1
X
wn+2 = wi .
i=1
Tomando as bases {v1 , . . . , vn+1 } e {w1 , . . . , wn+1 } de V e W , existe uma
única aplicação linear T : V → W tal que T (vi ) = wi para todo o i =
1, . . . , n + 1. Esta aplicação é invertı́vel pois os vectores w1 , . . . , wn+1 são
linearmente independentes. Além disso,
n+1
! n+1 n+1
X X X
T (vn+2 ) = T vi = T (vi ) = wi = wn+2 ,
i=1 i=1 i=1
pelo que T induz uma aplicação projectiva τ : P(U ) → P(W ) que satisfaz
τ (Pi ) = Qi para todo o i = 1, . . . , n + 2.
Esta aplicação é a única que verifica τ (Pi ) = Qi para i = 1, . . . , n + 2.
Com efeito, escolhendo vectores v1 , . . . , vn+2 ∈ V e w1 , . . . , wn+2 ∈ W tais
que Pi = [vi ], Qi = [wi ] para i = 1, . . . , n + 2,
n+1
X n+1
X
(3.6.3) vn+2 = vi e wn+2 = wi ,
i=1 i=1
se τ 0 : P(V ) → P(W ) é uma outra aplicação projectiva (induzida por uma
aplicação linear invertı́vel T 0 : V → W ) que satisfaz τ 0 (Pi ) = Qi para
i = 1, . . . , n + 2, então
τ 0 (Pi ) = Qi ⇔ [T 0 (vi )] = [wi ] ∀i ∈ {1, . . . , n + 2},
pelo que existem escalares b1 , . . . , bn+2 tais que T 0 (vi ) = bi wi , para todo o
i = 1, . . . , n + 2 e
n+1
! n+1 n+1
X X X
0 0
βn+2 wn+2 = T (vn+2 ) = T vi = T 0 (vi ) = bi wi .
i=1 i=1 i=1
Por outro lado, por (3.6.3), temos
n+1
X
bn+2 wn+2 = bn+2 wi ,
i=1
3.6. APLICAÇÕES PROJECTIVAS 145
pelo que se conclui que todos os bi são iguais a bn+2 . Então
T 0 (vi ) = bn+2 T (vi ) ∀i ∈ {1, . . . , n + 1},
pelo que T 0 = bn+2 T e τ = τ 0 .
Exemplo 3.6.8. Sejam P0 = [1 : 0], P1 = [0 : 1] e P2 = [1 : 1] os
pontos do referencial canónico de P1 . Vejamos como determinar a aplicação
projectiva τ : P1 → P1 que verifica
τ (P0 ) = P2 , τ (P1 ) = P0 e τ (P2 ) = P1 .
Seja T : R2 → R2 uma aplicação linear associada a τ . Como queremos
τ (P0 ) = P2 temos [T (1, 0)] = [1 : 1], pelo que T (1, 0) é múltiplo do vector
(1, 1). Por outro lado, como τ (P1 ) = P0 = [1 : 0], temos que T (0, 1) é
múltiplo do vector (1, 0). Assim, T é definida por uma matriz da forma
" #
a b
a 0
com a, b ∈ R \ {0}, em relação à base canónica de R2 . Como
τ (P2 ) = τ ([1 : 1]) = [0 : 1],
temos que T (1, 1) é múltiplo de (0, 1), pelo que podemos ter, por exemplo,
a+b=0 e a = 1,
ou seja a = 1 e b = −1. Assim τ é dada por
"" #" ##
1 −1 x0
τ ([x0 : x1 ]) = [T (x0 , x1 )] = = [x0 − x1 : x0 ].
1 0 x1
Nota 3.6.9. O conjunto das aplicações projectivas τ : P(V ) → P(V )
com a operação de composição de aplicações forma um grupo designado por
P GL(V ) = ({aplicações projectivas τ : P(V ) → P (V )} , ◦) ' GL(V )/ ∼
onde se considera no grupo GL(V ) das aplicações lineares invertı́veis de V
a relação de equivalência definida por
T ∼ T0 ⇔ T = αT0 para algum escalar α 6= 0.
Com efeito, a composta de duas aplicações projectivas
τ1 , τ2 : P(V ) → P(V )
induzidas por duas aplicações lineares T1 , T2 : V → V é uma aplicação
projectiva (induzida pela aplicação linear T1 ◦ T2 ). Além disso, a identidade
é uma aplicação projectiva e qualquer aplicação projectiva induzida por
146 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
uma aplicação linear T : V → V é invertı́vel e a sua inversa é a aplicação
projectiva induzida por T −1 .
Os elementos de P GL(V ) designam-se por projectividades.
Nota 3.6.10. Se P ∈ P(V ) é um ponto fixo de uma projectividade
τ : P(V ) → P(V ), então se v ∈ V \ {0} é tal que P = [v] e T : V → V é uma
aplicação linear que induz τ , temos
τ (P ) = P ⇔ [T (v)] = [v] ⇔ T (v) = αv
para algum escalar α 6= 0. Conclui-se assim que P é um ponto fixo de τ se
e só se v é um vector próprio de T .
Exemplo 3.6.11. Seja τ : P1 → P1 uma projectividade de P1 diferente
da identidade e T : R2 → R2 uma aplicação linear que induz τ , definida, em
relação à base canónica de R2 , por uma matriz
" #
a b
A= .
c d
Os valores próprios de T são
q
Tr(A) ± Tr2 (A) − 4 det A
λ= .
2
• Se Tr2 (A) − 4 det A < 0, então τ não tem pontos fixos (pois A
não tem valores próprios reais). Neste caso a projectividade diz-se
elı́ptica.
• Se Tr2 (A) − 4 det A = 0, então τ tem um único ponto fixo. Com
efeito, T tem um único valor próprio real λ e o espaço próprio que
lhe está associado tem dimensão 1 (se tivesse dimensão 2 terı́amos
T (v) = λv para todo o v ∈ R2 , pelo que T seria múltipla da
identidade e τ seria a identidade). Neste caso a projectividade
diz-se parabólica.
• Se Tr2 (A) − 4 det A > 0, então τ tem dois pontos fixos. Com
efeito T tem dois valores próprios reais cujos espaços próprios têm
dimensão 1, dando origem a dois pontos fixos de τ . Neste caso a
projectividade diz-se hiperbólica.
Exemplo 3.6.12. Seja τ : P1C → P1C uma projectividade de P1C diferente
da identidade induzida por uma aplicação linear T : C2 → C2 .
• Se T é diagonalizável, então tem dois valores próprios distintos (T
não é múltipla da identidade) cujos espaços próprios têm dimensão
3.7. A RECTA PROJECTIVA 147
(complexa) 1. Então τ tem dois pontos fixos. Neste caso τ diz-se
uma projectividade hiperbólica.
• Se T não é diagonalizável, então tem apenas um valor próprio (com
multiplicidade 2) cujo espaço próprio tem dimensão (complexa)
1. Então τ tem um único pontos fixo. Neste caso τ diz-se uma
projectividade parabólica.
Exemplo 3.6.13. Seja τ a projectividade de P1 (ou P1C ) induzida pela
aplicação linear T : R2 → R2 (ou T : C2 → C2 ) definida, em relação à base
canónica de R2 (ou C2 ), pela matriz
" #
1 1
A= .
0 1
O polinómio caracterı́stico de A é (1 − λ)2 pelo que T tem um único valor
própro λ = 1. O espaço próprio correspondente é L{(1, 0)} e então τ tem
um único ponto fixo: o ponto [1 : 0].
3.7. A recta projectiva
Considere-se a recta projectiva P1 . Dados quatro pontos P, Q, R, S ∈ P1
em que os três primeiros são distintos, existe uma única projectividade τ :
P1 → P1 tal que
τ (P ) = ∞ = [1 : 0], τ (Q) = [0 : 1] e τ (R) = [1 : 1]
(note que em P1 quaisquer três pontos distintos formam um referencial).
Define-se razão cruzada [P, Q; R, S] destes pontos como sendo o ponto
[P, Q; R, S] := τ (S).
Note que
[1 : 0], se S = P ,
[P, Q; R, S] := [0 : 1] se S = Q,
[1 : 1] , se S = R.
Exemplo 3.7.1. Sejam P = [2 : 3], Q = [1 : 2], R = [1 : 3], S = [2 : 5] ∈
P1 . A única projectividade τ 0 : P1 → P1 tal que
τ 0 ([1 : 0]) = P, τ 0 ([0 : 1]) = Q, τ 0 ([1 : 1]) = R
é induzida por uma aplicação linear T 0 : R2 → R2 definida, em relação à
base canónica de R2 , por uma matriz
" #
2a b
3a 2b
148 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
com a, b ∈ R \ {0}. Como τ 0 ([1 : 1]) = R temos, por exemplo, a = −1 e
b = 3, pelo que τ 0 é induzida pela aplicação linear T 0 : R2 → R2 definida
pela matriz " #
−2 3
.
−3 6
Então, a única projectividade τ : P1 → P1 tal que
τ (P ) = [1 : 0], τ (Q) = [0 : 1], e τ (R) = [1 : 1],
é τ = (τ 0 )−1 , induzida pela aplicação linear T : R2 → R2 definida pela
matriz " #
6 −3
.
3 −2
Como
τ (S) = τ ([2 : 5]) = [T (2, 5)] = [3 : 4],
temos
[P, Q; R, S] = [3 : 4].
A razão cruzada permite saber se, dados dois conjuntos de quatro pontos
em P1 , existe uma projectividade que leva os pontos do primeiro conjunto
nos pontos do segundo.
Proposição 3.7.2. Sejam P1 , P2 , P3 , P4 quatro pontos de P1 em que os
três primeiros são distintos e Q1 , Q2 , Q3 , Q4 quatro pontos de P1 em que os
três primeiros são distintos. Então, existe uma projectividade τ : P1 → P1
tal que τ (Pi ) = Qi com i = 1, 2, 3, 4, se e só se
[P1 , P2 ; P3 , P4 ] = [Q1 , Q2 ; Q3 , Q4 ].
Demonstração: Se τ : P1 → P1 é tal que τ (Pi ) = Qi para i = 1, . . . , 4 e
φ : P1 → P1 é a única projectividade tal que
φ(Q1 ) = [1 : 0], φ(Q2 ) = [0 : 1] e φ(Q3 ) = [1 : 1],
então
[Q1 , Q2 ; Q3 , Q4 ] = φ(Q4 ).
Por outro lado, φ ◦ τ : P1 → P1 satisfaz
(φ ◦ τ )(P1 ) = [1 : 0], (φ ◦ τ )(P2 ) = [0 : 1], (φ ◦ τ )(P3 ) = [1 : 1],
pelo que
[P1 , P2 ; P3 , P4 ] = (φ ◦ τ )(P4 ) = φ(τ (P4 )) = φ(Q4 ) = [Q1 , Q2 ; Q3 , Q4 ].
3.8. EXERCÍCIOS 149
Inversamente, considere-se novamente a projectividade φ : P1 → P1 tal
que
φ(Q1 ) = [1 : 0], φ(Q2 ) = [0 : 1] e φ(Q3 ) = [1 : 1],
assim como a única projectividade ψ : → P1 P1 tal que ψ(Pi ) = Qi com
i = 1, 2, 3 (dada pelo Teorema 3.6.7). Então
(φ ◦ ψ)(P1 ) = [1 : 0], (φ ◦ ψ)(P2 ) = [0 : 1], e (φ ◦ ψ)(P3 ) = [1 : 1],
pelo que
[P1 , P2 ; P3 , P4 ] = (φ ◦ ψ)(P4 ).
Como, por outro lado,
[Q1 , Q2 ; Q3 , Q4 ] = φ(Q4 ),
temos que, se [P1 , P2 ; P3 , P4 ] = [Q1 , Q2 ; Q3 , Q4 ], então ψ(P4 ) = Q4 . Conclui-
–se assim que, neste caso, ψ : P1 → P1 satisfaz ψ(Pi ) = Qi para i = 1, 2, 3, 4.
3.8. Exercı́cios
Exercı́cio 3.8.1. Diga quantos elementos distintos contém o seguinte
conjunto de pontos de P3C := P(C4 ):
{[π : 2π : 3π : π/2], [−i : −1 : 1 : i], [i : 0 : 0 : 0],
√
[9/15 : 6/5 : 9/5 : 3/10], [ 2 : 0 : 0 : 0], [1 : −i : i : −1]}.
Exercı́cio 3.8.2. Em P2 escreva a equação da recta projectiva que passa
por [1 : 1 : 0] e [2 : 0 : 7].
Exercı́cio 3.8.3. Determine o ponto de P2 onde a recta que passa em
[8 : −1 : 2] e [1 : −2 : −1] intersecta a recta que passa em [0 : 1 : −1] e
[2 : 3 : 1].
Exercı́cio 3.8.4. Em P3 dê um exemplo de duas rectas projectivas en-
viesadas (i.e. subespaços projectivos de dimensão 1 cuja intersecção é vazia).
Exercı́cio 3.8.5. Em P2 determine a expressão geral das rectas que
passam pelo ponto [0 : 1 : 2].
Exercı́cio 3.8.6. Em P3 considere os pontos
P = [1 : 1 : 0 : 0], Q = [1 : 0 : 0 : 0], R = [2 : 0 : 1 : 0] e S = [4 : 2 : 0 : 0].
Determine o subespaço projectivo gerado por P , Q, R e S e descreva-o por
equações.
150 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
Exercı́cio 3.8.7. Diga, justificando, quais das seguintes afirmações são
verdadeiras:
a) O subespaço projectivo gerado por duas rectas projectivas tem no máximo
dimensão 3.
b) Se o subespaço projectivo gerado por duas rectas projectivas distintas
tem dimensão dois então as duas rectas são concorrentes
c) Se num espaço projectivo o subespaço gerado por dois planos tem di-
mensão 3 então existe uma recta comum aos dois planos.
d) Se V é um espaço vectorial de dimensão 4 então a intersecção de dois
planos distintos de P(V ) é uma recta.
e) Se dim V = 6 então a intersecção de dois planos distintos de P(V ) é uma
recta.
f) Se dim V = 9 então a intersecção de dois subespaços projectivos distintos
de P(V ) de dimensão 4 é sempre vazia.
g) Se dim V = 5 dois planos projectivos têm sempre intersecção não vazia.
h) Se dim V = 7 dois subespaços projectivos de dimensão 4 contêm sempre
um plano comum.
Exercı́cio 3.8.8. Diga, justificando, quais das seguintes afirmações são
verdadeiras:
a) Dados três pontos em Pn existe exactamente um plano projectivo que os
contém.
b) A intersecção de três planos distintos de P3 é sempre não vazia.
c) Três rectas num espaço projectivo que se intersectam duas a duas estão
sempre contidas num mesmo plano projectivo.
d) Dadas duas rectas projectivas r, s de P3 , qualquer plano de P3 contém
uma recta que intersecta r e s.
e) Se ` e m são duas rectas enviesadas de P3 e P ∈ P3 \ (` ∪ m), então existe
uma recta de P3 que passa em P e intersecta ` e m.
Exercı́cio 3.8.9. Sejam E e F dois subespaços projectivos disjuntos
dum espaço projectivo P(V ) de dimensão n, tais que
dim E + dim F = n − 1.
Mostre que, dado um ponto P ∈ hE, F i \ (E ∪ F ), existe uma única recta
projectiva que passa em P e intersecta E e F .
3.8. EXERCÍCIOS 151
Exercı́cio 3.8.10. Mostre que, dadas três rectas de P2 concorrentes num
ponto P , é possı́vel escollher coordenadas de forma a que as rectas sejam
definidas pelas equações y = 0, z = 0 e y − z = 0.
Exercı́cio 3.8.11. Seja l a recta projectiva de P2 definida por x0 = 0 e
m a recta que passa pelos pontos P = [1 : 1 : 1] e Q = [0 : −5 : 0].
a) Determine uma equação de m.
b) Descreva l ∩ m.
c) Qual a forma geral da equação de uma recta n tal que l ∩ m ∩ n 6= ∅.
d) Determine, se existir, um referencial projectivo que inclua P e Q.
Exercı́cio 3.8.12. Considere os pontos
P = [1 : 0 : 1 : 1], Qt = [1 : 0 : t − 1 : t2 − 3], Rs = [1 : 0 : 1 : s + 3]
de P3 , com s, t ∈ R.
a) Para cada par (t, s) determine a dimensão do subespaço projectivo gerado
por P, Qt , Rs .
b) Determine equações que definam o subespaço projectivo hP, Q3 , R0 i.
c) Diga, justificando, se existe algum referencial projectivo que inclua os
pontos P, Q3 e R0 .
d) Diga, justificando, se existe algum plano que contenha todos os pontos
P, Qt , Rs .
Exercı́cio 3.8.13. Considere coordenadas homogéneas [x0 : x1 : x2 ] em
P2 e o mergulho φ : R2 → P2 definido por
φ(x, y) = [1 : x : y].
Dada uma recta l de R2 definida por ax+by +c = 0, mostre que o subespaço
projectivo gerado por φ(l) é a recta projectiva ¯l definida pela equação cx0 +
ax1 + bx2 = 0.
Exercı́cio 3.8.14. Identificando R3 com a sua imagem em P3 através
do mergulho
(x, y, z) → [x : y : 1 : z]
diga quais são os pontos no infinito dos planos projectivos gerados pelas
imagens dos planos de R3 de equações x + 2y − z = 1 e 2x + 4y − 2z = 6.
Qual o ponto no infinito da recta projectiva gerada pela imagem da recta
de R3 que passa pelos pontos (1, 1, 1) e (3, 0, 1)?
152 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
Exercı́cio 3.8.15. Considere coordenadas homogéneas [x0 : x1 : x2 ] em
P2 e o mergulho φ : R2 → P2 definido por
φ(x, y) = [x : y : 1].
Seja C ⊂ R2 o conjunto
C := {(x, y) ∈ R2 | f (x, y) = 0},
onde f (x, y) = y 2 − x(x − 1)(x − 2). Determine um polinómio homogéneo1
F : R3 → R tal que φ(R2 ) ∩ C e = φ(C), onde
e := {[x0 : x1 : x2 ] ∈ P2 : F (x0 , x1 , x2 ) = 0}.
C
Quais os pontos de C
e no infinito?
Exercı́cio 3.8.16. Seja H ⊂ Pn um hiperplano projectivo e P um ponto
que não pertence a H. Considere a aplicação
π : Pn \ {P } → H
que a cada ponto Q 6= P faz corresponder o único ponto π(Q) em que a
recta definida por P e Q intersecta H (π é designada por projecção em H
a partir de P ). Verifique que:
a) a restrição de π a H é a identidade;
b) se, com coordenadas [x0 : · · · : xn ], se tem P = [1 : 0 : · · · : 0] e H definido
por x0 = 0, então
π([x0 : x1 : · · · : xn ]) = [0 : x1 : · · · : xn ],
para todo o ponto de Pn \ P .
Exercı́cio 3.8.17. Seja H o hiperplano de Pn definido por
2x0 + x1 + · · · + xn = 0
e P o ponto [1 : 3 : 0 : · · · : 0]. Determine a expressão geral da projecção em
H a partir de P .
Exercı́cio 3.8.18. Diga, justificando se a seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) Qualquer transformação projectiva de P2 pode ser definida por uma ma-
triz com determinante 1.
1Um polinómio diz-se homogéneo se todos os seus monómios têm o mesmo grau.
3.8. EXERCÍCIOS 153
b) Duas transformações lineares representadas numa mesma base por duas
matrizes com determinante igual a 1 e que induzem a mesma trans-
formação projectiva de P2 são iguais.
c) Qualquer matriz real (n+1)×(n+1) define uma transformação projectiva
de Pn .
Exercı́cio 3.8.19. Considerando o referencial projectivo canónico
P0 = [1 : 0], P1 = [0 : 1], P2 = [1 : 1]
de P1 determine uma transformação projectiva τ : P1 → P1 tal que
τ (P0 ) = P2 , τ (P1 ) = P0 e τ (P2 ) = P1 .
Quantas transformações projectivas satisfazem estas condições?
Exercı́cio 3.8.20. Determine a transformação projectiva τ : P2 → P2
tal que
τ ([1 : 0 : 0]) = [2 : 1 : 3], τ ([0 : 1 : 0]) = [1 : 2 : 3],
τ ([0 : 0 : 1]) = [3 : 1 : 2] e τ ([1 : 1 : 1]) = [3 : 2 : 1].
Exercı́cio 3.8.21. Determine, se existirem, todas as transformações
projectivas τ : P2 → P2 tais que
τ ([1 : 0 : 0]) = [0 : 0 : 1], τ ([0 : 1 : 0]) = [0 : 2 : 1], τ (l) = m e τ (m) = l,
onde l é a recta definida por x0 −x1 = 0 e m é a recta definida por x1 −x2 = 0.
Exercı́cio 3.8.22. Diga, justificando se a seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) Qualquer transformação projectiva de P1 tem pelo menos um ponto fixo.
b) Qualquer transformação projectiva de P1C tem pelo menos um ponto fixo.
c) Uma transformação projectiva de P1 que fixa dois pontos é a identidade.
d) Uma transformação projectiva de P1 que fixa três pontos é a identidade.
e) Uma transformação projectiva de Pn que fixa n+2 pontos é a identidade.
f) Uma transformação projectiva de Pn que fixa os n + 2 pontos de um
referencial projectivo é a identidade.
Exercı́cio 3.8.23. Considere coordenadas homogéneas [x0 : x1 : x2 : x3 ]
em P3 e o mergulho φ : R3 → P3 definido por
φ(x, y, z) = [x : y : z : 1].
Seja T : R3 → R3 a transformação afim definida por
T (x, y, z) = (−x, 3 − y, 5 − z) .
154 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
a) Indique uma transformação projectiva τ : P3 → P3 tal que
τ [x0 : x1 : x2 : 1] = φ(T (x0 , x1 , x2 )).
b) Quais os pontos fixos de τ ?
c) Indique um plano projectivo F ⊂ P3 tal que τ (F) = F e [0 : 0 : 0 : 1] ∈ F.
Exercı́cio 3.8.24. Seja τ : P2 → P2 a transformação projectiva definida
por τ ([x0 : x1 : x2 ]) = [x0 + x2 : 2x1 + x2 : 3x2 ].
a) Determine os pontos fixos de τ .
b) Considere o mergulho φ : R2 → P2 definido por φ(x, y) = [x : y : 1].
Quais os pontos P ∈ P2 tais que τ (P ) ∈
/ φ(R2 ) (i.e. tais que τ (P ) é um
ponto no infinito para este mergulho)?
c) Indique a transformação afim ϕ : R2 → R2 obtida pela restrição de τ a
φ(R2 ) (i.e. tal que φ ◦ ϕ = τ ◦ φ).
Exercı́cio 3.8.25. Em P1 determine as razões cruzadas [P, Q; R, S] e
[S, Q; P, R] dos pontos
P = [1 : 0], Q = [0 : 1], R = [2 : 1] e S = [1 : −2].
Exercı́cio 3.8.26. Seja τ : P1 → P1 a projectividade definida por
τ [x0 : x1 ] = [−x1 : 2x0 + 3x1 ]
a) Determine os pontos fixos de τ .
b) Sendo A e B pontos fixos de τ e P = [2 : 5], calcule as razões cruzadas
[A, B; P, τ (P )].
Exercı́cio 3.8.27. Seja τ 6= id uma projectividade de P1 com dois pon-
tos fixos distintos P e Q. Mostre que τ é uma involução (isto é τ 2 = id) se e
só se, para qualquer ponto R ∈ P1 \ {P, Q}, a razão cruzada [P, Q; R, τ (R)]
é igual a [−1 : 1].
Exercı́cio 3.8.28. Sejam P e Q dois pontos distintos de P1 e τ : P1 → P1
uma projectividade tal que τ (P ) = Q e τ (Q) = P . Mostre que τ ◦ τ = Id.
Exercı́cio 3.8.29. Mostre que qualquer transformação projectiva de P1
é a composta de duas involuções.
Exercı́cio 3.8.30. Diga, justificando, se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
3.8. EXERCÍCIOS 155
a) Se uma transformação projectiva τ : P1 → P1 é tal que τ 2 = Id então
necessariamente τ tem mais do que dois pontos fixos distintos.
b) Existem pontos A, B, C, D ∈ P1 (com os três primeiros distintos) e uma
transformação projectiva τ : P1 → P1 tal que
[A, B; C, D] 6= [τ (A), τ (B); τ (C), τ (D)].
c) Qualquer transformação projectiva de P2 que fixa os pontos [1 : 0 : 0],
[0 : 1 : 0], [0 : 0 : 1] e [0 : 1 : 1] é necessariamente a identidade.
Exercı́cio 3.8.31. Seja τ : P3 → P3 uma aplicação projectiva cujo
conjunto de pontos fixos contém um plano projectivo E ⊂ P3 e um ponto
/ E. Mostre que, dado um ponto X ∈ P3 qualquer, os pontos
P ∈
X, τ (X), τ 2 (X), . . . , τ n (X), . . .
são colineares.
Exercı́cio 3.8.32. Em P2 considere o ponto P := [1 : 0 : 0] e a recta
projectiva ` de equação x0 = 0. Seja G o grupo de aplicações projectivas
τ : P2 → P2 tais que τ (P ) = P e τ (`) = `.
a) Dê um exemplo de um elemento de G diferente da identidade que fixe os
pontos de `.
b) Dê um exemplo de um elemento de G com apenas dois pontos fixos.
Exercı́cio 3.8.33. Sejam A, A0 , B, B 0 quatro pontos distintos não col-
ineares de P2 e τ : P2 → P2 uma aplicação projectiva tal que
τ (A) = B, τ (A0 ) = B 0 e τ 2 = id.
a) Quais as imagens τ (`), τ (m) e τ (X), onde ` e m são as rectas projectivas
` = hA, Bi e m = hA0 , B 0 i, e X = ` ∩ m?
b) Mostre que A, A0 , B, B 0 formam um referencial projectivo se e só se existe
uma aplicação projectiva τ que satisfaz as condições acima.
Exercı́cio 3.8.34. Dados dois planos projectivos E1 e E2 num espaço
projectivo P(V ) de dimensão 3 e um ponto P ∈
/ E1 ∪E2 , chama-se projecção
de E1 em E2 de centro P à aplicação projectiva
πP,E1 ,E2 : E1 → E2 ,
que a cada ponto X ∈ E1 faz corresponder o ponto de intersecção de E2 com
a recta projectiva que passa em P e X. Considere dois planos projectivos
distintos E e F de P(V ) e a aplicação projectiva τ : E → E definida por
τ = πQ,F,E ◦ πP,E,F ,
156 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
onde P, Q ∈
/ (E ∪ F ).
a) Mostre que τ tem uma recta projectiva ` de pontos fixos.
b) Quando é que τ tem um ponto fixo adicional R ∈ / `.
c) Nas condições da alı́nea anterior, mostre que τ deixa invariantes todas as
rectas projectivas de E que passam em R.
Exercı́cio 3.8.35. Dadas duas rectas projectivas l1 , l2 ⊂ P2 chama-se
perspectividade de centro no ponto P ∈ P2 \ (l1 ∪ l2 ) à transformação
projectiva fP,l1 ,l2 : l1 → l2 que, a cada ponto X ∈ l1 , faz corresponder o
ponto de intersecção da recta hP, Xi com a recta l2 . Mostre que qualquer
transformação projectiva τ : l1 → l1 com um ponto fixo pode ser obtida
como a composta de duas perspectividades.
Exercı́cio 3.8.36. Escreva e demonstre o teorema dual do seguinte re-
sultado:
Sejam l, m, n três rectas de P4 enviesadas duas a duas e não contidas
num mesmo hiperplano. Então existe uma recta que intersecta l, m e n.
Exercı́cio 3.8.37. Considere a afirmação
Dois planos em P4 têm pelo menos um ponto em comum.
Diga, justificando, se esta afirmação é verdadeira ou falsa e escreva o seu
dual.
Exercı́cio 3.8.38. Considere o seguinte teorema:
Três rectas distintas de P3 que se intersectam duas a duas, e não são as
três concorrentes num mesmo ponto, são coplanares.
a) Escreva o teorema dual.
b) Como se pode generalizar a Pn ?
Exercı́cio 3.8.39. (Teorema de Pappus) Dadas duas rectas r e r0
de P2 , considere três pontos distintos P, Q, R de r e três pontos distintos
P 0 , Q0 , R0 de r0 , tais que nenhum desses pontos é o ponto r ∩ r0 . Sejam
A, B, C os pontos de P2 definidos por
A := hP, R0 i ∩ hP 0 , Ri, B := hP, Q0 i ∩ hP 0 , Qi e C := hQ, R0 i ∩ hQ0 , Ri
a) Justifique que os pontos P, Q, P 0 , Q0 formam um referencial projectivo de
P2 .
b) Considere a aplicação projectiva τ : P2 → P2 tal que
τ (P ) = [1 : 0 : 0], τ (Q) = [0 : 1 : 0], τ (P 0 ) = [0 : 0 : 1] e τ (Q0 ) = [1 : 1 : 1].
3.8. EXERCÍCIOS 157
Determine as equações das rectas projectivas τ (hP, R0 i) e τ (hP 0 , Ri) e as
coordenadas do ponto τ (A). Quais as possı́veis coordenadas dos pontos
τ (Q) e τ (Q0 )?
c) Mostre que os pontos A, B e C são colineares.
d) Enuncie o teorema dual do resultado anterior.
r
R
C P Q
P′
Q′
R′
r'
Figura 3.5. Teorema de Pappus
Exercı́cio 3.8.40. (Teorema de Desargues) Dados três pontos P, Q, R
não colineares de P2 , chama-se triângulo de vértices P, Q, R à união das três
rectas hP, Qi, hP, Ri, e hQ, R0 i. Diz-se que dois triângulos de vértices P, Q, R
e P 0 , Q0 , R0 respectivamente estão em perspectiva a partir de um ponto
C não pertencente aos triângulos, se C, P, P 0 são colineares, assim como
C, Q, Q0 e C, R, R0 .
a) Mostre que dados dois triângulos de vértices P, Q, R e P 0 , Q0 , R0 , em
perspectiva a partir de um ponto C, os pontos P, Q, R e C formam um
referencial projectivo de P2 .
b) Demonstre o Teorema de Desargues:
Se dois triângulos de vértices P, Q, R e P 0 , Q0 , R0 estão em perspectiva
a partir de um ponto C não pertencente aos triângulos, então os pontos
X := hP, Qi ∩ hP 0 , Q0 i, Y := hP, Ri ∩ hP 0 , R0 i e Z := hQ, Ri ∩ hQ0 , R0 i
são colineares.
c) Enuncie o teorema dual do Teorema de Desargues.
158 3. GEOMETRIA PROJECTIVA
R′
R
C
Q
Q'
P
P′
Figura 3.6. Teorema de Desargues
CAPÍTULO 4
Geometria Elı́ptica
Neste capı́tulo vamos ver exemplos de geometrias não euclidianas. Re-
stringindo a dimensão 2 estudamos três exemplos: a esfera, o plano elı́ptico e
a esfera de Riemann. Em todos estes exemplos não existem rectas paralelas
pois quaisquer duas rectas se intersectam em pelo menos um ponto.
4.1. A esfera S 2
Nesta secção vamos considerar a superfı́cie esférica unitária em R3 ,
S 2 := {P ∈ R3 : dR3 (X, 0) = 1} = {(x, y, z) ∈ R3 : x2 + y 2 + z 2 = 1}.
Figura 4.1. A esfera S 2 .
Dados dois pontos P, Q ∈ S 2 , define-se a distância entre P e Q como
−−→ −−→
sendo o ângulo entre os vectores OP e OQ.
159
160 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
Definição 4.1.1. Sejam P, Q ∈ S 2 . A distância esférica entre P e
Q é dada por
−−→ −−→ −−→ −−→
dS 2 (P, Q) := ](OP , OQ) = arccos hOP , OQi ∈ [0, π].
−−→ −−→
Nota 4.1.2. Para P, Q ∈ S 2 temos kOP k = kOQk = 1.
Α
O Q
Figura 4.2. Distância esférica dS 2 (P, Q) := α.
A distância esférica satisfaz as seguintes propriedades.
Proposição 4.1.3. Se P, Q e R são pontos de S 2 então
(i) dS 2 (P, Q) ≥ 0;
(ii) dS 2 (P, Q) = 0 ⇔ P = Q;
(iii) dS 2 (P, Q) = dS 2 (Q, P );
(iv) dS 2 (P, R) ≤ dS 2 (P, Q) + dS 2 (Q, R) (desigualdade triangular).
Demonstração:
• (i) - (iii): Trivial.
• (iv): Sejam P, Q, R ∈ S 2 . Então, escrevendo
p := dS 2 (Q, R), q := dS 2 (P, R) e r := dS 2 (P, Q),
temos
−−→ −−→ −−→ −−→ −−→ −−→
cos p = hOQ, ORi, cos q = hOP , ORi, cos r = hOP , OQi
e
−−→ −−→ −−→ −−→ −−→ −−→
q
sin p = 1 − hOQ, ORi2 = kOQ × ORk, sin q = kOP × ORk
−−→ −−→
sin r = kOP × OQk,
4.1. A ESFERA S 2 161
pois, dados quaisquer vectores u, v, w, z ∈ R3 , temos
(4.1.1) hu × v, w × zi = hu, wihv, zi − hv, wihu, zi.
Então,
−−→ −−→ −−→ −−→ −−→ −−→ −−→ −−→
sin p sin q = kOQ × ORkkOP × ORk ≥ |hOQ × OR, OP × ORi|
−−→ −−→ −−→ −−→ −−→ −−→ −−→ −−→
= |hOQ, OP ihOR, ORi − hOR, OP ihOQ, ORi|
= |cos r − cos q cos p| ≥ cos r − cos q cos p,
pelo que
cos r ≤ cos q cos p + sin q sin p = cos(q − p).
Se 0 ≤ q − p ≤ π, temos r ≥ q − p pois a função coseno é decrescente em
[0, π]. Se q − p < 0 então temos trivialmente
q < p < p + r.
Como q − p ≤ π pois p, q ∈ [0, π], conclui-se que q ≤ p + r em todos os casos.
2 3
Como os pontos de S estão em R podemos também considerar a
distância euclidiana dR3 (P, Q) entre dois pontos P, Q ∈ S 2 . As duas distâncias
estão relacionadas pela seguinte igualdade (ver Figura 4.3).
Proposição 4.1.4. Sejam P, Q dois pontos de S 2 . Então
1
dS 2 (P, Q) = 2 arcsin d 3 (P, Q) .
2 R
Α/2
O Α/2 Q
Figura 4.3. Distância esférica e distância euclidiana.
162 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
Nota 4.1.5. Como consequência da Proposição 4.1.4, pontos equidis-
tantes para a distância esférica são também equidistantes para a distância
euclidiana em R3 . Em particular, para quaisquer pontos P, Q, P 0 , Q0 ∈ S 2
temos
dS 2 (P, Q) = dS 2 (P 0 , Q0 ) ⇔ dR3 (P, Q) = dR3 (P 0 , Q0 ).
Vejamos agora como definir rectas em S 2 . Em R2 vimos que uma recta
podia ser vista como o conjunto dos pontos equidistantes de dois pontos
de R2 . Vamos então definir rectas em S 2 como sendo conjuntos de pontos
equidistantes de dois pontos de S 2 .
Dados dois pontos P, Q ∈ S 2 o conjunto ` de pontos de S 2 equidistantes
de P e Q está contido no plano H de pontos de R3 equidistantes de P e Q
para a distância euclidiana. Com efeito, pela Proposição 4.1.4 temos
dS 2 (X, P ) = dS 2 (X, Q) ⇔ dR3 (X, P ) = dR3 (X, Q).
Assim, como O ∈ H (pois dR3 (O, P ) = dR3 (O, Q) = 1), temos que ` = H∩S 2
é um cı́rculo máximo1 de S 2 .
Definição 4.1.6. As rectas (esféricas) de S 2 são os cı́rculos máximos
de S 2 .
Figura 4.4. Intersecção da esfera com um plano que passa
na origem.
1Um cı́rculo máximo de S 2 é a intersecção de S 2 com um plano de R3 que passa na
origem (ver Figura 4.4).
4.1. A ESFERA S 2 163
Chamamos reflexão na recta (esférica) ` à restrição a S 2 da reflexão no
plano H ⊂ R3 tal que S 2 ∩ H = `, isto é
R` := RH |S 2 .
Como uma reflexão num plano de R3 que passa na origem é uma isome-
tria de R3 que leva a esfera na esfera, temos, pela Proposição 4.1.4, que as
reflexões em rectas esféricas são isometrias de S 2 . Analogamente, podemos
concluir que qualquer restrição a S 2 de uma isometria de R3 que leva S 2 em
S 2 é uma isometria de S 2 .
Vejamos agora que qualquer isometria de S 2 (para a distância esférica)
é a restrição a S 2 de uma isometria de R3 que leva S 2 em S 2 , o que nos
permite concluir que as isometrias de S 2 são exactamente as restrições a S 2
de isometrias de R3 que levam a esfera na esfera.
Teorema 4.1.7. Qualquer isometria de S 2 é a composta de uma, duas
ou três reflexões em rectas de S 2 .
Demonstração: Como qualquer ponto de R3 fica univocamente deter-
minado pela sua distância a quatro pontos O, P1 , P2 , P3 não coplanares,
temos que qualquer ponto X ∈ S 2 fica completamente determinado pela
sua distância esférica a três pontos P1 , P2 , P3 em S 2 não colineares (i.e que
não estejam num mesmo cı́rculo máximo de S 2 ), pois dR3 (X, O) = 1. Assim,
se uma isometria de S 2 fixa três pontos não colineares é necessariamente a
identidade.
Seja f : S 2 → S 2 uma isometria diferente da identidade e P1 , P2 , P3 ∈ S 2
três pontos distintos não colineares. Então f (Pi ) 6= Pi para pelo menos um
i ∈ {1, 2, 3}. Supondo que f (P1 ) 6= P1 , consideremos a reflexão R` em que
` é a recta (esférica) dos pontos equidistantes de P1 e f (P1 ). Note que
f (P1 ) = R` (P1 ).
Se R` (P2 ) = f (P2 ) e R` (P3 ) = f (P3 ) então f = R` pois R` ◦ f fixa três
pontos não colineares pelo que é a identidade.
Caso contrário, podemos supor que f (P2 ) 6= R` (P2 ) e consideramos Rm
onde m é a recta de pontos equidistantes de f (P2 ) e R` (P2 ). Então
(Rm ◦ R` ) (P2 ) = f (P2 ) e (Rm ◦ R` ) (P1 ) = f (P1 )
pois
dS 2 (R` (P1 ), f (P2 )) = dS 2 (f (P1 ), f (P2 )) = dS 2 (P1 , P2 ) = dS 2 (R` (P1 ), R` (P2 ))
pelo que R` (P1 ) ∈ m.
164 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
Se (Rm ◦ R` ) (P3 ) = f (P3 ) então f = Rm ◦ R` pois (Rm ◦ R` )−1 ◦ f fixa
três pontos não colineares de S 2 pelo que é a identidade.
Caso contrário, consideramos Rn onde n é a recta de pontos equidistantes
de f (P3 ) e (Rm ◦ R` ) (P2 ). Então
(Rn ◦ Rm ◦ R` ) (P3 ) = f (P3 ), (Rn ◦ Rm ◦ R` ) (P1 ) = f (P1 )
e
(Rn ◦ Rm ◦ R` ) (P3 ) = f (P3 )
pois
dS 2 ((Rm ◦ R` ) (Pi ), f (P3 )) = dS 2 (f (Pi ), f (P3 )) = dS 2 (Pi , P3 )
= dS 2 ((Rm ◦ R` ) (Pi ), (Rm ◦ R` ) (P3 ))
para i = 1, 2, pelo que (Rm ◦ R` ) (P1 ) ∈ n e (Rm ◦ R` ) (P2 ) ∈ n. Conclui-se
assim que, neste último caso, temos f = Rn ◦ Rm ◦ R` .
2
Conclui-se assim que as isometrias de S para a distância esférica são de
facto as restrições a S 2 de isometrias de R3 que levam a esfera na esfera. Pela
classificação das isometrias de R3 , estas só podem ser de um dos seguintes
tipos:
(i) reflexão num plano que passa na origem;
(ii) rotação em torno de um eixo que passa na origem;
(iii) reflexão com rotação num plano que passa na origem e num eixo
(perpendicular ao plano) que passa na origem.
Estas isometrias de R3 fixam sempre a origem (i.e. f (0) = 0) pelo que,
sendo aplicações afins, são lineares. São assim transformações ortogonais e
formam o grupo O(3). Assim. temos que o grupo Iso(S 2 ) das isometrias de
S 2 (gerado pelas reflexões em rectas de S 2 ) pode ser identificado com O(3),
Iso(S 2 ) ' O(3) ' {A ∈ M3×3 : AT A = Id}.
Nota 4.1.8. Como qualquer elemento f de O(3) satisfaz f (S 2 ) = S 2 ,
temos O(3) ⊆ Iso(S 2 ) e, como o grupo O(3) contém todas as reflexões de
R3 em planos que passam na origem, temos Iso(S 2 ) ⊆ O(3).
Exemplo 4.1.9. A composição R` ◦ Rm de duas reflexões é a restrição a
S2 da composição de duas reflexões de R3 em planos que passam na origem.
Como os dois planos de reflexão correspondentes se intersectam, sabemos
que a composição é uma rotação em torno da recta de intersecção dos dois
planos. Esta recta intersecta a esfera em dois pontos antı́podas ±P ∈ S 2
4.1. A ESFERA S 2 165
Figura 4.5. Composição de duas reflexões.
Assim, designando por ρP,α a restrição a S 2 da rotação, temos
R` ◦ Rm = ρP,α ,
onde α/2 é o ângulo orientado entre m e ` (i.e. o ângulo orientado entre
os planos de R3 correspondentes, de acordo com o sentido da rotação) e
{±P } = ` ∩ m (ver Figura 4.5).
Exemplo 4.1.10. A composição R` ◦ Rm ◦ Rn de três reflexões em rectas
`, m, n tais que ` ∩ m ∩ n = {±P } é a restrição a S 2 da composição de
três reflexões de R3 em planos que se intersectam numa recta que passa na
origem. Como
Rm ◦ Rn = ρP,α = R` ◦ Rn0
onde α/2 é o ângulo orientado entre n e m e n0 é a recta de S 2 que faz um
ângulo α/2 com `, temos que
R` ◦ Rm ◦ Rn = R` ◦ R` ◦ Rn0 = Rn0
é a reflexão na recta n0 .
Exemplo 4.1.11. Consideremos agora a composição R` ◦Rm ◦Rn de três
reflexões em rectas `, m, n que se intersectam duas a duas. Podemos conside-
rar, sem perda de generalidade, que m é perpendicular a ` e n. Com efeito,
sejam H1 , H2 , H3 os planos de R3 que passam na origem e que intersectam
S 2 respectivamente nas rectas `, m e n. Sejam rij as rectas
rij = Hi ∩ Hj
e Pij os pontos de S 2 tais que
rij ∩ S 2 = {±Pij }.
166 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
A isometria Rm ◦ Rn é a restrição a S 2 de uma rotação de R3 em torno da
recta r23 (i.e. Rm ◦ Rn = ρP23 ,2α onde α = ]or (H3 , H2 ) ∈ [0, π[).
Se m não é perpendicular a `, rodando os planos H2 e H3 em torno da
recta r23 mantendo o ângulo entre eles, podemos escrever
ρP23 ,2α = Rm0 ◦ Rn0
onde m0 é a intersecção de S 2 com o plano H20 de R3 gerado pelo eixo de H1
que passa na origem e pela recta r23 , e n0 é a intersecção de S 2 com o plano
H30 tal que ]or (H30 , H20 ) = α.
Então
R` ◦ Rm ◦ Rn = R` ◦ Rm0 ◦ Rn0
com m0 perpendicular a `. Seja r12
0 a recta
0
r12 := H1 ∩ H20
(note que os planos H1 e H20 são perpendiculares) e P12
0 o ponto de S 2 tal
que
0 0
{±P12 } = S 2 ∩ r12 .
Se m0 não é perpendicular a n0 então, rodando os planos H1 e H20 em
0 , mantendo o ângulo entre eles, podemos
torno da sua recta de intersecção r12
escrever
0 ,π = R` ◦ Rm0 = R`0 ◦ Rm00 ,
ρP12
onde m00 é a intersecção de S 2 com o plano H200 de R3 gerado pelo eixo de
H30 que passa na origem e pela recta r12 0 , e `0 é a intersecção de S 2 com
o plano H10 que passa na origem e é perpendicular a H200 . Note que H200 é
perpendicular a H10 e a H30 e que, consequentemente, m00 é perpendicular a
`0 e a n0 . Além disso,
R` ◦ Rm ◦ Rn = R`0 ◦ Rm00 ◦ Rn0 .
Podemos então supor que temos R` ◦ Rm ◦ Rn com m perpendicular a
` e n. Como R` e Rm são restrições a S 2 de reflexões de R3 em planos
perpendiculares, comutam entre si e então
(4.1.2) R` ◦ Rm ◦ Rn = Rm ◦ R` ◦ Rn = Rm ◦ ρP,2β ,
onde P ∈ S 2 é tal que
{±P } = ` ∩ n e β = ]or (n, `).
Os planos H1 , H3 de R3 que intersectam S 2 em ` e n respectivamente são
ambos perpendiculares ao plano H2 que intersecta S 2 em m. Então H1 ∩ H3
4.1. A ESFERA S 2 167
é uma recta perpendicular a H2 , pelo que a isometria em (4.1.2) é uma
reflexão com rotação.
Exemplo 4.1.12. A composição ρP,α ◦ ρQ,β de duas rotações em torno
de pontos distintos é uma rotação. Com efeito, seja ` a recta de S 2 que
passa pelos pontos P e Q e m e n as rectas tais que
β α
]or (m, `) = , ]or (`, n) = , ` ∩ m = {±Q} e ` ∩ n = {±P },
2 2
onde os ângulos são orientados no sentido das rotações correspondentes.
Então
ρP,α ◦ ρQ,β = (Rn ◦ R` ) ◦ (R` ◦ Rm ) = Rn ◦ Rm = ρS,γ ,
onde S ∈ S 2 é tal que {±S} = n ∩ m e γ = 2]or (m, n) (ver Figura 4.6).
Figura 4.6. Composição de duas rotações com centros P e
Q diferentes.
Em conclusão, as isometrias de S 2 podem ser dos seguintes três tipos:
(i) uma reflexão R` num cı́rculo máximo ` ⊂ S 2 ;
(ii) uma rotação ρP,α de um ângulo α em torno de um eixo de S 2 que
passa em ±P ;
(iii) uma reflexão com rotação R` ◦ ρP,α em que o eixo de rotação é
perpendicular ao plano de reflexão que contém `.
Uma particularidade da geometria esférica é que a soma dos ângulos
internos de um triângulo esférico (i.e. a região limitada por três rectas de
S 2 ) é, ao contrário do que acontece na geometria euclidiana, maior do que
π. Mais concretamente temos o seguinte resultado.
Teorema 4.1.13. Seja ∆ um triângulo de S 2 com ângulos internos
α, β, γ. Então,
α + β + γ − π = área(∆)
168 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
Demonstração: Seja Sα um sector de ângulo α da superfı́ce esférica, i.e.
a região de S 2 delimitada por dois planos de R3 que passam na origem e
fazem um ângulo α entre si (ver Figura 4.7). Então a área de Sα é igual a
α
área(Sα ) = · 4π = 2α.
2π
Figura 4.7. Sector de ângulo α.
Seja ∆ABC um triângulo de S 2 com vérices A, B, C e com ângulos in-
ternos α, β e γ em A, B e C respectivamente. Considerando o hemisfério de
S 2 formado pelos quatro triângulos
∆ABC , ∆A(−B)C , ∆(−A)(−B)C e ∆(−A)BC
(ver Figura 5.1), temos
2π = área(∆ABC ) + área(∆A(−B)C ) + área((∆(−A)(−B)C ) + área(∆(−A)BC ).
Figura 4.8. Os triângulos ∆ABC , ∆A(−B)C , ∆(−A)(−B)C e
∆(−A)BC .
4.2. O PLANO ELÍPTICO 169
Por outro lado, considerando os sectores SA , SB e SC de ângulos α, β e
γ e vértices ±A, ±B e ±C respectivamente, temos
área(SA ) = 2α = área(∆ABC ) + área(∆(−A)BC )
área(SB ) = 2β = área(∆ABC ) + área(∆A(−B)C )
área(SC ) = 2γ = área(∆ABC ) + área(∆AB(−C) ),
pelo que
2(α + β + γ) = 2área(∆ABC ) + 2π.
Aqui usámos o facto de que a área de um triângulo ∆P QR é igual à área
do seu triângulo antı́poda ∆(−P )(−Q)(−R) . Com efeito, a aplicação antı́poda
f : S 2 → S 2 definida por
f (x, y, z) = (−x, −y, −z)
é uma isometria de S 2 (uma reflexão com rotação) pois, por exemplo, pode
ser escrita como
f = ρ(0,0,1),π ◦ R`
onde R` (x, y, z) = (x, y, −z) é a reflexão na recta obtida por intersecção de
S 2 com o plano z = 0.
4.2. O plano elı́ptico
Consideremos agora o o plano projectivo P2 := P(R3 ). Como este espaço
é o conjunto dos subespaços de R3 de dimensão 1, podemos pensar nele como
o conjunto das rectas de R3 que passam na origem, onde cada uma destas
rectas representa um ponto em P2 (correspondente ao espaço gerado por um
vector director da recta).
Nota 4.2.1. Como cada recta de R3 intersecta S 2 num par de pontos
antı́podas e, por cada par de pontos antı́podas passa uma única recta de R3
(que passa obrigatoriamente na origem), obtemos a identificação
(4.2.1) P2 ' S 2 / ∼
onde consideramos em S 2 a relação de equivalência definida por
X ∼ Y ⇔ X = ±Y
com −Y o ponto antı́poda de Y .
Podemos então definir em P2 uma distância a partir da distância em S 2 .
170 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
Definição 4.2.2. Dados dois pontos P, Q ∈ P2 , sejam `P e `Q as rectas
de R3 definidas por
`P = O + L{u} e `Q = O + L{v},
onde u, v ∈ R3 \{0} são tais que P = [u] e Q = [v]. A distância projectiva
em P2 é a aplicação dP2 : P2 × P2 → R definida por
π
dP2 (P, Q) = ](`P , `Q ) ∈ [0, ].
2
lQ
lP
X2
X1
-X 1
-X 2
Figura 4.9. Distância projectiva dP2 (P, Q).
Nota 4.2.3. Se escolhermos vectores u, v ∈ R3 \ {0} tais que P = [u] e
Q = [v] com kuk = kvk = 1, temos
dP2 (P, Q) = arcos |hu, vi|.
Neste caso os pontos ±X1 := O ± u e ±X2 := O ± v pertencem a S 2 (os
pares {X1 , −X1 } e {X2 , −X2 } são pares de pontos antı́podas) e
(4.2.2) dP2 (P, Q) = min {dS 2 (X1 , X2 ), dS 2 (X1 , −X2 )} .
Proposição 4.2.4. A aplicação dP2 : P2 × P2 → R satisfaz as seguintes
propriedades:
(i) dP2 (P, Q) ≥ 0;
(ii) dP2 (P, Q) = 0 ⇔ P = Q;
(iii) dP2 (P, Q) = dP2 (Q, P );
(iv) dP2 (P, R) ≤ dP2 (P, Q) + dP2 (Q, R) (desigualdade triangular).
4.2. O PLANO ELÍPTICO 171
Demonstração:
• (i) - (iii): Trivial.
• (iv): Sejam P, Q, R ∈ P2 e u, v, w ∈ R3 \ {0} tais que
(i) kuk = kvk = kwk = 1;
(ii) P = [u], Q = [v] e R = [w];
(iii) hv, wi ≥ 0 e hu, wi ≥ 0 (dado v podemos escolher o sentido de w
de forma a ter hv, wi ≥ 0 e depois escolher um sentido para u tal
que hu, wi ≥ 0).
Então
r := dP2 (P, Q) = arcos |hu, vi|,
pelo que
cos r = |hu, vi|
e
sin2 r = 1 − hu, vi2 = ku × vk2
pois, dados quaisquer vectores u, v, w, z ∈ R3 , temos
(4.2.3) hu × v, w × zi = hu, wihv, zi − hv, wihu, zi.
Concluı́mos assim que
sin r = ku × vk
pois, como r ∈ [0, π2 ], temos sin r > 0.
Analogamente, para
p := dP2 (Q, R) = arcos |hv, wi|,
temos
(4.2.4) cos p = hv, wi
(pois, por hipótese, hv, wi ≥ 0) e
sin p = kv × wk.
Para
q := dP2 (P, R) = arcos |hu, wi|,
temos
(4.2.5) cos q = hu, wi e sin q = ku × wk.
Então
(4.2.6) sin p sin r = ku × vkkv × wk ≥ |hu × v, v × wi|
= |hu, vihv, wi − hv, vihu, wi| = |hu, vi cos p − cos q|,
172 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
onde usámos (4.2.4), (4.2.5) e (4.2.3).
Se hu, vi ≥ 0 temos
sin p sin r ≥ cos r cos p − cos q,
pelo que
cos q ≥ cos r cos p − sin p sin r = cos(p + r)
e então r + p ≥ q (pois q, r + p ∈ [0, π] e a aplicação x 7→ cos x é decrescente
neste intervalo).
Se hu, vi ≤ 0 temos
sin p sin r ≥ |hu, vi cos p − cos q| = |− cos r cos p − cos q| = cos r cos p + cos q,
pelo que
cos(π − q) = − cos q ≥ cos r cos p − sin p sin r = cos(p + r)
e então
p+r ≥π−q ≥q
pois π − q, p + r ∈ [0, π].
Proposição 4.2.5. Três pontos de P2 são colineares se e só se podem
ser designados por P , Q e R de forma a ter
dP2 (P, Q) + dP2 (Q, R) = dP2 (P, R)
ou
dP2 (P, Q) + dP2 (Q, R) + dP2 (P, R) = π.
Demonstração: Usando a notação da demonstração da Proposição 4.2.4,
para termos
r + p = q ou p + q + r = π
é necessário, por (4.2.6), que [u × v] = [v × w], ou seja que u, v e w sejam
coplanares e, consequentemente, que P , Q e R sejam colineares.
Inversamente, se P , Q e R são colineares, então u, v e w são coplanares
e então em (4.2.6) temos
sin p sin r = ku × vkkv × wk = |hu × v, v × wi| = |hu, vi cos p − cos q|,
pelo que
sin p sin r = ± (cos r cos p − cos q) ou sin p sin r = cos r cos p + cos q.
Assim,
cos q = cos r cos p ± sin p sin r = cos(p ∓ r)
4.2. O PLANO ELÍPTICO 173
ou
cos(π − q) = − cos q = cos r cos p − sin p sin r = cos(p + r),
pelo que
q =p+r ou ±q =p−r ou π − q = p + r.
Definição 4.2.6. O espaço projectivo P2 com a distância dP2 é desig-
nado por plano elı́ptico.
Nota 4.2.7. É fácil verificar que o conjunto de pontos equidistantes
de dois pontos no plano elı́ptico é a união de duas rectas projectivas (ver
Exercı́cio 4.4.18).
Vejamos quais as isometrias do plano elı́ptico. Como, por (4.2.1), pode-
mos identificar pontos de P2 com pares de pontos antı́podas de S 2 , temos,
por (4.2.2), que as aplicações projectvas induzidas pelas isometrias de S 2
que preservam pares de pontos antı́podas são isometrias do plano elı́ptico.
Como todas as isometrias de S 2 são restrições a S 2 de aplicações lineares de
R3 , temos
f (−X) = −f (X)
para qualquer f ∈ Iso(S 2 ), pelo que qualquer isometria de S 2 induz uma
isometria de P2 .
Vejamos agora que todas as isometrias P2 são aplicações projectivas
induzidas por isometrias de S 2 . Para isso começamos por notar uma con-
sequência imediata da Proposição 4.2.5.
Proposição 4.2.8. Sejam P, Q, R três pontos colineares de ∈ P2 e seja
f : P2 → P2 uma isometria. Então os pontos f (P ), f (Q) e f (R) são
colineares.
Demonstração: Seja ` a recta projectiva que passa nos três pontos P, Q
e R e seja S o único ponto de ` tal que dP2 (P, S) = π2 . Então temos sempre
π
dP2 (P, Q) + dP2 (Q, S) = dP2 (P, S) = ,
2
e
π
dP2 (f (P ), f (Q)) + dP2 (f (Q), f (S)) = = dP2 (f (P ), f (S)).
2
Pela Proposição 4.2.5, temos que o ponto f (Q) pertence à recta projectiva
que passa em f (P ) e f (S). Analogamente, podemos concluir que f (R)
pertence também a essa recta, pelo que os três pontos f (P ), f (Q) e f (R)
são colineares.
174 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
Além disso, temos ainda o seguinte resultado.
Proposição 4.2.9. Se uma uma isometria f : P2 → P2 fixa os quatro
pontos de um referencial projectivo, então é a identidade.
Demonstração: Considere-se uma base em R3 de forma a que as coorde-
nadas homogéneas dos pontos do referencial projectivo sejam
P1 = [1 : 0 : 0], P2 = [0 : 1 : 0], P3 = [0 : 0 : 1], P4 = [1 : 1 : 1].
Como f deixa invariante a recta projectiva de equação x2 = 0 que passa em
P1 e P2 , temos que a imagem f (X) de um ponto X = [cos t : sin t : 0] (com
t ∈]0, π[) dessa recta é da forma
f ([cos t : sin t : 0]) = [cos θ : sin θ : 0]
para algum θ ∈]0, π[. Então,
dP2 (f (P1 ), f (X)) = dP2 (P1 , X) ⇔ |cos t| = |cos θ| ⇔ t = θ ou t = π − θ.
Se t = θ temos que f fixa o ponto X. Se t = π − θ, temos
f ([cos t : sin t : 0]) = [− cos t : sin t : 0]
e então
1 1
dP2 (f (P4 ), f (X)) = dP2 (P4 , X) ⇔ | √ (sin t − cos t)| = | √ (cos t + sin t)|,
3 3
pelo que t = π2 = θ. Conclui-se assim que f fixa todos os pontos da recta
x2 = 0.
Analogamente, podemos concluir que f fixa todos os pontos das rectas
projectivas hP1 , P2 i, hP2 , P3 i e hP1 , P3 i. Como qualquer recta projectiva
intersecta estas três rectas em pelo menos dois pontos distintos, temos que
qualquer recta projectiva ` de P2 contém pelo menos dois pontos fixos de f ,
pelo que f fixa todos os pontos de `. Conclui-se assim que f fixa todos os
pontos de P2 , ou seja que é a identidade.
Com estas duas proposiçõe podemos finalmente caracterizar as isome-
trias do plano elı́ptico.
Proposição 4.2.10. Seja τ : P2 → P2 uma isometria. Então τ é uma
aplicação projectiva induzida por uma aplicação ortogonal de R3 .
4.2. O PLANO ELÍPTICO 175
Demonstração: Considere-se o referencial projectivo canónico
P1 = [1 : 0 : 0], P2 = [0 : 1 : 0], P3 = [0 : 0 : 1], P4 = [1 : 1 : 1]
e vectores v1 , v2 , v3 de R3 com kv1 k = kv2 k = kv3 k = 1, tais que
τ (P1 ) = [v1 ], τ (P2 ) = [v2 ] e τ (P3 ) = [v3 ].
Como, para i, j ∈ {1, 2, 3}, temos
dP2 (Pi , Pj ) = dP2 (τ (Pi ), τ (Pj )) ⇔ arcos |hei , ej i| = arcos |hvi , vj i|,
onde {e1 , e2 , e3 } é a base canónica de R3 , conclui-se que
|hvi , vj i| = |hei , ej i|,
ou seja que {v1 , v2 , v3 } é uma base ortonormada de R3 .
Seja Te : R3 → R3 a aplicação ortogonal que satisfaz Te(ei ) = vi para
i = 1, 2, 3. Como a restricão desta aplicação a S 2 é uma isometria de S 2 ,
temos que Te induz uma isometria τe : P2 → P2 do plano elı́ptico. Além disso,
para i = 1, 2, 3,
τ −1 ◦ τ )(Pi ) = τe−1 ([vi ]) = [Te−1 (vi )] = [ei ] = Pi ,
(e
pelo que τe−1 ◦ τ fixa os pontos P1 , P2 e P3 .
Sejam λ1 , λ2 , λ3 ∈ R tais que λ21 + λ22 + λ23 = 1 e
τ −1 ◦ τ )(P4 ) = (e
(e τ −1 ◦ τ )([1 : 1 : 1]) = [λ1 : λ2 : λ3 ].
Como τe−1 ◦ τ é uma isometria de P2 , temos, para i = 1, 2, 3,
τ −1 ◦ τ )(P4 ), (e
τ −1 ◦ τ )(Pi ) = dP2 (P4 , Pi ) ⇔
dP2 (e
dP2 ([λ1 : λ2 : λ3 ], Pi ) = dP2 ([1 : 1 : 1], Pi ) ⇔
1 1
|h(λ1 , λ2 , λ3 ), ei i| = √ ⇔ |λi | = √ .
3 3
√
Seja Tb : R3 → R3 a aplicação ortogonal que satisfaz Tb(ei ) = 3λi ei para
√ √ √
i = 1, 2, 3 (note que os vectores 3λ1 e1 , 3λ2 e2 e 3λ3 e3 formam uma base
ortonormada de R3 ). Como a restricão desta aplicação a S 2 é uma isometria
de S 2 , temos que Tb induz uma isometria τb : P2 → P2 do plano elı́ptico. Além
disso, para i = 1, 2, 3,
1
τ −1 ◦ τe−1 ◦ τ )(Pi ) = τb−1 (Pi ) = [Tb−1 (ei )] = [ √
(b ei ] = [ei ] = Pi
3λi
176 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
τ −1 ◦ τe−1 ◦ τ )(P4 ) = τb−1 ([λ1 : λ2 : λ3 ]) = [Tb−1 (λ1 , λ2 , λ3 )]
(b
1 1 1
= [( √ , √ , √ )] = [1 : 1 : 1] = P4 .
3 3 3
Temos assim que τb−1 ◦ τe−1 ◦ τ fixa os quatro pontos do referencial projec-
tivo canónico, pelo que, pela Proposição 4.2.9, temos que τb−1 ◦ τe−1 ◦ τ é a
identidade. Consequentemente,
τ = τe ◦ τb
é uma aplicação projectiva e é induzida pela aplicação ortogonal Te ◦ Tb.
Conclui-se assim que as isometrias de P2 são exactamente as aplicações
projectivas induzidas pelas isometrias de S 2 :
(i) Se f = R` ∈ Iso(S 2 ) é uma reflexão num cı́rculo máximo ` ⊂ S 2
então a aplicação induzida por f em P2 fixa
• todos os pontos
[v] ∈ P2 tais que O + v ∈ ` e
• o ponto [w] ∈ P2 tal que w é perpendicular ao plano H` ⊂ R3
que contém `.
(ii) Se f = ρP,α ∈ Iso(S 2 ) é uma rotação de um ângulo α em torno
de um eixo de S 2 que passa em ±P então, se
• α 6= π, a aplicação induzida por f em P2 fixa apenas o ponto
[v] ∈ P2 tal que O + v = P ;
• α = π, a aplicação induzida por f em P2 fixa o ponto [v] e
também todos os pontos [w] para os quais O + w pertence ao
cı́rculo máximo de S 2 perpendicular ao eixo de rotação.
(iii) Se f = ρP,α ◦ R` ∈ Iso(S 2 ) é uma reflexão com rotação (isto é, o
eixo de rotação é perpendicular ao plano de reflexão que contém
`), então, se
• α 6= π, a aplicação induzida por f em P2 fixa apenas o ponto
[v] ∈ P2 tal que O + v = P ;
• α = π, a aplicação induzida por f em P2 fixa todos os pontos
de P2 , pelo que é a identidade (note que f é a restrição a S 2
da inversão na origem de R3 ). Com efeito, podemos supor,
sem perda de generalidade, que ` é a intersecção de S 2 com o
4.3. A ESFERA DE RIEMANN 177
plano de equação z = 0, pelo que P = (0, 0, 1) ∈ S 2 ,
R` (x, y, z) = (x, y, −z) e ρP,π (x, y, z) = (−x, −y, z).
Assim,
(ρP,π ◦ R` ) (x, y, z) = (−x, −y, −z),
pelo que
[(ρP,π ◦ R` ) (x, y, z)] = [(−x, −y, −z)] = [(x, y, z)].
Uma reflexão R` ∈ Iso(S 2 ) induz a mesma isometria de P2 que uma
rotação ρP,π de ângulo π em torno de um eixo perpendicular ao plano de
reflexão pois, como vimos atrás, temos que ρP,π ◦ R` induz a identidade em
P2 . Com efeito, podemos assumir, sem perda de generalidade, que ` é a
intersecção de S 2 com o plano de equação z = 0. Assim,
R` (x, y, z) = (x, y, −z)
e então
ρP,π (x, y, z) = (−x, −y, z) = −R` (x, y, z),
pelo que
[R` (x, y, z)] = [ρP,π (x, y, z)].
Conclui-se assim que o grupo Iso(P2 ) de isometrias de P2 é gerado pelas
aplicações projectivas induzidas pelas rotações de S 2 (que, por sua vez, são a
restrição a S 2 das rotações de R3 em torno de eixos que passam na origem),
ou seja pelas isometrias directas de S 2 :
Iso(P2 ) ' SO(3) = {A ∈ O(3) : det A = 1}.
Os pontos fixos de uma isometria de P2 induzida por uma rotação ρP,α
diferente da identidade são então
• se α 6= π, o ponto [w] ∈ P2 tal que O + w = P ;
• se α = π, o ponto [v] ∈ P2 e a recta projectiva que corresponde aos
pontos do cı́rculo máximo de S 2 perpendicular ao eixo de rotação.
4.3. A esfera de Riemann
Considere-se agora a recta projectiva complexa
P1C := P(C2 ) = [z0 : z1 ] : (z0 , z1 ) ∈ C2 \ {(0, 0)} = U1 t H1 ,
178 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
onde
z0
U1 = {[z0 : z1 ] : z1 ∈ C \ {0}, z0 ∈ C} = {[ : 1] : z1 ∈ C \ {0}, z0 ∈ C}
z1
= {[z0 : 1] : z0 ∈ C} ' C
H1 = {[z0 : 0] : z0 ∈ C \ {0}} = {[1 : 0]} .
Podemos estabelecer a seguinte correspondência entre P1C e a esfera de
Riemann, C := C ∪ {∞}:
P1C −→ C
z0
z1 , se z1 6= 0
(4.3.1)
[z0 : z1 ] 7−→
∞, se z1 = 0 (i.e. se [z0 : z1 ] = [1 : 0]).
Por outro lado, podemos também identificar C com S 2 usando a projecção
estereográfica a partir do polo norte N := (0, 0, 1). Com efeito, dado um
ponto P := (x, y, z) ∈ S 2 \ {N }, consideramos a recta que passa em P e em
N , ou seja a recta cujos pontos são da forma
−−→
N +t N P = N +t(P −N ) = N +t(x, y, z −1) = (tx, ty, 1 + t(z − 1)) , t ∈ R.
Esta recta intersecta o plano de R3 de equação z = 0 quando 1+t(z −1) = 0,
1
ou seja quando t = 1−z , pelo que o ponto de intersecção é
0 x y
P := , ,0
1−z 1−z
(ver Figura 4.10). Identificando o plano z = 0 com R2 obtemos uma bijecção,
designada por projecção estereográfica:
St
S 2 \ {N } −→N
R 2
(4.3.2)
x y
(x, y, z) 7−→ 1−z 1−z .
,
A inversa desta aplicação é
St−1
R2 −→ S 2 \ {N }
N
2u 2v u2 +v 2 −1
(u, v) 7−→ u2 +v 2 +1
, u2 +v 2 +1 , u2 +v 2 +1 .
Com efeito, dado um ponto (u, v) ∈ R2 , tomamos o ponto correspondente
P 0 := (u, v, 0) no plano de R3 de equação z = 0 e consideramos a recta que
4.3. A ESFERA DE RIEMANN 179
passa em N e em P 0 , ou seja a recta cujos pontos são da forma
−−→
N + t N P 0 = N + t(P 0 − N ) = (tu, tv, 1 − t) .
Esta recta intersecta S 2 \ {N } quando
2
(tu)2 + (tv)2 + (1 − t)2 = 1 ⇔ t = ,
1 + u2 + v 2
ou seja no ponto
u2 + v 2 − 1
2u 2v
P = , , .
u2 + v 2 + 1 u2 + v 2 + 1 u2 + v 2 + 1
Identificando R2 com C (fazendo z = x + iy ∈ C), a aplicação (4.3.2) é
equivalente a
St
S 2 \ {N } −→N
C
(4.3.3) x y
(x, y, z) 7−→ 1−z + i 1−z
e a sua inversa é
St−1
N
C −→ S 2 \ {N }
2 Re w 2 Im w |w|2 −1
w 7−→ , ,
|w|2 +1 |w|2 +1 |w|2 +1
.
Figura 4.10. Projecção esteregráfica a partir do polo norte N .
A aplicação (4.3.3) pode ser estendida a S 2 dando origem a uma bijecção
entre S 2 e C = C ∪ {∞} e, consequentemente, por (4.3.1), a uma bijecção
180 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
entre S 2 e P1C ,
St
S2 N
−→ C ' P1C
(4.3.4) x y
1−z + i 1−z , se (x, y, z) 6= N
(x, y, z) 7−→
∞ se (x, y, z) = N ,
cuja inversa é
St−1
C −→ S 2
N
(4.3.5) 2 Re w 2 Im w |w|2 −1
w 7−→ , ,
|w|2 +1 |w|2 +1 |w|2 +1
∞ 7−→ N.
Usando a projecção estereográfica e a distância esférica em S 2 podemos
definir uma distância em C (e consequentemente em P1C ).
Definição 4.3.1. A distância dC na esfera de Riemann é a aplicação
dC : C × C → R definida por
dC (z, w) := dS 2 St−1 −1
(4.3.6) N (z), StN (w) .
Nota 4.3.2. Alternativamente, podemos definir uma distância em C a
partir da distância euclidiana em R3 :
deC (z, w) := dR3 St−1 −1
N (z), StN (w) .
Nota 4.3.3. A projecção estereográfica é uma isometria entre S 2 , com
a distância esférica dS 2 , e C com a distância dC . É também uma isometria
entre S 2 , com a distância dR3 , e C com a distância deC .
Uma propriedade geométrica importante da projecção estereográfica é
dada pelo seguinte resultado.
Proposição 4.3.4. Seja C um cı́rculo de S 2 , ou seja a intersecção de
S 2 com um plano de R3 . Então StN (C) ou é uma circunferência de C ⊂ C
ou StN (C) = ` ∪ {∞}, onde ` é uma recta de C.
Demonstração: Seja C um cı́rculo de S 2 . Então C é a intersecção de S 2
com um plano ax + by + cz = d de R3 , onde a, b, c, d ∈ R. Multiplicando por
4.3. A ESFERA DE RIEMANN 181
uma constante adequada, podemos assumir que k(a, b, c)k = 1 e que d ≥ 0.
Note que
d = h(a, b, c), (x, y, z)i ≤ k(a, b, c)kk(x, y, z)k = 1, ∀(x, y, z) ∈ S 2 .
Assim,
(4.3.7) C = {(x, y, z) ∈ S 2 : ax + by + cz = d},
com a2 + b2 + c2 = 1 e 0 ≤ d ≤ 1. Escrevendo w = StN (x, y, z) e usando
(4.3.5), temos
ax + by + cz = d ⇔ 2 a Re w + 2 b Im w + c (|w|2 − 1) = d (|w|2 + 1)
(4.3.8) ⇔ (d − c)|w|2 − 2 a Re w − 2 b Im w + d + c = 0.
Se d = c então C passa no polo norte e (4.3.8) é equivalente a
(4.3.9) 2 a Re w + 2 b Im w − 2 d = 0,
pelo que StN (C) = ` ∪ {∞} onde ` ⊂ C é a recta cujos pontos w = u + i v
satisfazem a equação
a u + b v = d.
Se d 6= c então, escrevendo w = u + iv, temos que (4.3.8) é equivalente a
2 2
a2 + b2 1 − d2
a b d+c
(4.3.10) u− + v− = − = ,
d−c d−c (d − c)2 d − c (d − c)2
onde usámos o facto que a2 +b2 +c2 = 1. Concluı́mos que, nese caso, StN (C)
é a circunferência de C de equação (4.3.10).
Nota 4.3.5. Se d = 0 então, usando a notação da demonstração da
Proposição 4.3.4, o plano ax + by + cz = d passa na origem, pelo que C é um
cı́rculo máximo de S 2 . Se, além disso, c 6= 0, a imagem de C pela projecção
esterográfica é a circunferência
b 2
a 2 1
(4.3.11) u+ + v+ = 2
c c c
de centro − ac + cb i e raio |c| 1
. Se c = 0, a imagem de C é ` ∪ {∞}, onde `
é a recta de C de equação
(4.3.12) au + bv = 0
(note que ` passa na origem).
182 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
Uma circunferência Ce ⊂ C de centro z0 ∈ C e raio r ∈ R+ , para a
distância dC é, por definição, o conjunto de pontos de C cuja distãncia a z0
é igual a r, ou seja
Ce = z ∈ C : dC (z, z0 ) = r .
Então, como
dC (z, z0 ) = dS 2 St−1 −1
N (z), StN (z0 ) ,
temos que St−1 2 2
N (C) é um cı́rculo de S . Com efeito, os pontos de S que estão
e
a uma distância esférica constante do ponto St−1N (z0 ) estão a uma distância
euclidiana constante desse ponto, pelo que estão na intersecção de S 2 com
uma esfera de R3 de centro St−1 2
N (z0 ), formando um cı́rculo de S .
Assim, usando a Proposição 4.3.4, temos que uma circunferência de C
que não passa em ∞ é uma circunferência em C, enquanto que uma cir-
cunferência de C que passa em ∞ é a união de {∞} com uma recta de C.
Conclui-se assim que a Proposição 4.3.4 é equivalente ao seguinte resultado.
Proposição 4.3.6. A projecção estereográfia transforma cı́rculos de S 2
em circunferências de C.
Nota 4.3.7. Reciprocamente, qualquer circunferência ou recta de C
pode ser escrita na forma (4.3.8), pelo que a correspondência entre cı́rculos
de S 2 e circunferências de C é biunı́voca.
Como definimos a distância em C a partir da distância de S 2 usando a
projecção estereográfica, as isometrias de C, dC são obtidas a partir das
isometrias de S 2 conjugando com a projecção estereográfica. Isto é são as
aplicações da forma
StN ◦ f ◦ St−1
N ,
onde f : S 2 → S 2 é uma isometria de S 2 . Como o grupo de isometrias de S 2
é gerado pelas reflexões em cı́rculos máximos de S 2 , o grupo de isometrias
de C é gerado pelas isometrias da forma StN ◦ R` ◦ St−1 N em que ` ⊂ S
2
é um cı́rculo máximo. Note que o conjunto de pontos fixos de uma destas
isometrias é uma circunferência de C.
Exemplo 4.3.8. Seja ` ⊂ S 2 o cı́rculo máximo de S 2 de equação z = 0.
Então
R` (x, y, z) = (x, y, −z)
4.3. A ESFERA DE RIEMANN 183
e
|w|2 − 1
2 Re w 2 Im w
St−1
StN ◦ R` ◦ N (w) = StN , , −
|w|2 + 1 |w|2 + 1 |w|2 + 1
Re w Im w w 1
= 2
+i 2
= 2
= .
|w| |w| |w| w
Conclui-se assim que a isometria de C induzida pela reflexão no equador de
S 2 é a inversão na circunferência unitária,
I : C −→ C
1
w 7−→ I(w) := w
(ver Definição E.0.16). Note que I(0) = ∞ e I(∞) = 0. Para além disso, I
fixa os pontos da circunferência unitária: {w ∈ C : |w| = 1}.
Em geral, por (4.3.11), a isometria ICm : C → C induzida por uma
reflexão Rm num cı́rculo máximo m ⊂ S 2 dado pela interseção de S 2 com o
plano
ax + by + cz = 0
com k(a, b, c)k = 1 e c 6= 0, é a inversão na circunferência Cm de C de
equação
b 2
a 2 1
u+ + v+ = 2
c c c
(ver Definição E.0.16). Note que, se z0 = −(a+ib)/c e r = 1/|c| são o centro
e o raio de uma destas circunferências então
|z0 |2 + 1 = r2 .
Se c = 0, então, por (4.3.12), a restrição a C da isometria ICm : C → C
induzida por uma reflexão Rm coincide com a reflexão euclidiana na recta
de C de equação
a u + b v = 0,
e ICm (∞) = ∞.
Como a reflexão Rm é dada por
Rm (x, y, z) = (x, y, z) − 2h(x, y, z), (a, b, c)i(a, b, c)
1 − 2a2 −2ab −2ac x
= −2ab 1 − 2b2 −2bc y ,
−2ac −2bc 1 − 2c2 z
escrevendo w = u + iv, temos
|w|2 − 1
2u 2v
ICm (w) = StN ◦ Rm ◦ St−1
N (w) = (StN ◦ Rm ) , , .
|w| + 1 |w| + 1 |w|2 + 1
2 2
184 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
Além disso,
|w|2 − 1
2u 2v
Rm , , = (x1 , x2 , x3 ),
|w|2 + 1 |w|2 + 1 |w|2 + 1
com
(1 − 2a2 )u − 2abv − ac(|w|2 − 1) u − a(Aw + wA) − ac|w|2 + a c
x1 = 2 · = 2 ·
1 + |w|2 1 + |w|2
−2abu + (1 − 2b2 )v − bc(|w|2 − 1) v − b(Aw + wA) − bc|w|2 + b c
x2 = 2 · = 2 ·
1 + |w|2 1 + |w|2
−4acu − 4bcv + (1 − 2c2 )(|w|2 − 1)
x3 = ,
1 + |w|2
onde A = a + i b. Então
1 + 2acu + 2bcv + c2 (|w|2 − 1) a2 + b2 + 2acu + 2bcv + c2 |w|2
1 − x3 = 2 · = 2 ·
1 + |w|2 1 + |w|2
|A|2 + c(Aw + wA) + c2 |w|2 |c w + A|2
=2 · = 2 ·
1 + |w|2 1 + |w|2
e temos
x1 + i x2 w − (Aw + wA)A − c|w|2 A + cA
ICm (w) = =
1 − x3 |c w + A|2
(1 − |A|2 )w − A2 w − c|w|2 A + cA c2 w − A2 w − c|w|2 A + cA
= =
|c w + A|2 |c w + A|2
(Aw − c) (cw + A) Aw − c
=− 2
= .
|c w + A| −c w − A
6 0, a inversão ICm na circun-
Nota 4.3.9. É fácil verificar que, se c =
ferência Cm se pode obter por conjugação a partir da inversão na circun-
ferência unitária I. Em particular,
ICm = T− A ◦ δ 1 ◦ I ◦ δ −1 −1
1 ◦ T A,
−
c |c| |c| c
onde T− A (w) = w− Ac e δ 1 (w) = w
|c| , com − Ac e 1
|c| respectivamente o centro
c |c|
e o raio de Cm .
Conclui-se assim o seguinte resultado.
Proposição 4.3.10. A isometria de C induzida por uma reflexão Rm
num cı́rculo máximo m ⊂ S 2 , dado pela interseção de S 2 com o plano
ax + by + cz = 0
4.4. EXERCÍCIOS 185
com k(a, b, c)k = 1, é a inversão ICm : C → C definida por
Aw − c
(4.3.13) ICm (w) = ,
−c w − A
onde A = a + i b.
Em particular, se c 6= 0, a aplicação ICm é a inversão na circunferência
Cm ⊂ C de equação
A 1
(4.3.14) w+ = .
c |c|
Se c = 0, a restrição de ICm a C coincide com a reflexão euclidiana na
recta de C de equação
a u + b v = 0,
e ICm (∞) = ∞.
4.4. Exercı́cios
Exercı́cio 4.4.1. Calcule a distância esférica dS 2 (P, Q) entre os pontos
√ √ √ √ √
P = ( 2/2, 2/2, 0) e Q = ( 3/3, 3/3, 3/3).
Exercı́cio 4.4.2. Mostre que dois cı́rculos máximos em S 2 se inter-
sectam em pontos antı́podas (i.e. num par de pontos da forma (x, y, z) e
(−x − y − z)).
Exercı́cio 4.4.3. Diga, justificando, se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) Qualquer ponto de S 2 fica univocamente determinado pelas distâncias a
três pontos de S 2 .
b) Dado um cı́rculo máximo ` ⊂ S 2 e um ponto P ∈ S 2 \ `, existe um único
circulo máximo de S 2 que passa em P e é perpendicular a `.
c) Dados três pontos distintos P1 , P2 , P3 ∈ S 2 existe um único par de pontos
antı́podas ±X tais que dS 2 (X, Pi ) = dS 2 (X, Pj ) para todo i, j = 1, 2, 3.
Exercı́cio 4.4.4. Considere em S 2 um triângulo esférico com ângulos
α, β, γ e respectivos lados opostos a, b, c. Mostre que
a) cos a = cos b · cos c + sin b · sin c · cos α;
b) sin a · sin β = sin b · sin α.
!
hv1 , v3 i hv1 , v4 i
Sugestão: Utilize a igualdade h(v1 × v2 ), (v3 × v4 )i = det ,
hv2 , v3 i hv2 , v4 i
onde vi ∈ R3 , para i = 1, · · · , 4. Designando os vértices do trângulo por A, B e C,
186 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
note que
−−→ −−→ −−→ −−→
cos a = dS 2 (B, C) = hOB, OCi e sin a = ||OB × OC||,
−→ −−→ −→ −−→
e que b e c satisfazem fórmulas similares. Além disso, α = ](OA × OB, OA × OC),
pelo que
−→ −−→ −→ −−→
hOA × OB, OA × OCi
cos α = .
sin c sin b
Exercı́cio 4.4.5. Mostre que as medianas de um triângulo esférico se
intersectam num ponto.
Sugestão: Considere o plano H gerado pelos vértices A, B, C do triângulo
esférico ∆ e a aplicação π : S 2 → H que a cada ponto P de S 2 faz corresponder o
ponto de intersecção de H com a recta OP . Mostre que a imagem de ∆ é o triângulo
euclidiano ∆0 ⊂ R3 com os mesmos vértices e que a imagem de uma mediana de ∆
é a mediana de ∆0 correspondente.
Exercı́cio 4.4.6. Mostre que qualquer isometria de S 2 transforma um
par de pontos antı́podas num par de pontos antı́podas.
Exercı́cio 4.4.7. Sejam f e g duas rotações de S 2 . Quando é que
f ◦ g = g ◦ f?
Exercı́cio 4.4.8. Seja P um ponto de S 2 . Quais os cı́rculos máximos `
de S 2 para os quais
(R` ◦ ρP,π )2 = idS 2 ,
onde ρP,π designa a meia-volta em torno do eixo da esfera que passa em P ?
Exercı́cio 4.4.9. Dê um exemplo de uma composição de três reflexões
de S 2 sem pontos fixos.
Exercı́cio 4.4.10. Diga, justificando, se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) Qualquer rotação de S 2 é a composta de duas meia-voltas;
b) Duas isometrias directas não triviais de S 2 comutam se e só se têm o
mesmo conjunto de pontos fixos.
c) Dada uma isometria f : S 2 → S 2 existe sempre um ponto P ∈ S 2 tal que
f (P ) = P ou f (P ) = −P .
Exercı́cio 4.4.11. Qual a área dum triângulo esférico equilátero de S 2
com ângulos internos rectos? Esboce um destes triângulos.
Exercı́cio 4.4.12. Diga, justificando, se existe um triângulo equilátero
em S 2 com ângulos internos iguais a π/4.
4.4. EXERCÍCIOS 187
Exercı́cio 4.4.13. Determine o ı́nfimo e o supremo da soma dos ângulos
internos de um triângulo esférico equilátero.
Sugestão: Considere a famı́lia de triângulos esféricos equiláteros ∆φ de vértices
P = (0, 0, 1), Qφ = (sin φ, 0, cos φ), Rφ = (cos θ sin φ, sin θ sin φ, cos φ),
cos φ
com θ = arccos 1+cosφ e φ ∈]0, 2π
3 [ e, usando o Exercı́cio 4.4.4, determine os
ângulos internos destes triângulos.
Exercı́cio 4.4.14. Qual a área de um pentágono esférico de ângulos
internos α1 , . . . , α5 ?
Exercı́cio 4.4.15. Diga, justificando, se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) Existem quadriláteros esféricos com ângulos internos todos iguais a π/2;
b) Para cada α ∈]0, π[ existe um triângulo esférico cuja soma dos ângulos
internos é π + α.
Exercı́cio 4.4.16. Considere os pontos P := (1, 0, 0), Q := (0, 0, 1),
1 1 1 1 1 1 1
R := √ , √ , 0 , S := √ , 0, √ , e T := √ , √ , √
2 2 2 2 3 3 3
de S 2 .
a) Calcule dS 2 (R, S).
b) Determine a equação cartesiana do plano de R3 que contém o cı́rculo
máximo ` ⊂ S 2 que passa em R e S.
c) Indique os ângulos internos do triângulo esférico ∆ de vértices P, Q e R
e calcule a área de ∆.
d) Classifique a isometria de S 2 definida por
RmP ◦ RmQ ◦ RmR ,
onde mP , mQ , mR são os cı́rculos máximos de S 2 que contêm os lados do
triângulo ∆ opostos aos vértices P , Q e R respectivamente. Determine
a expressão desta isometria e indique, se existirem, os seus pontos fixos.
e) Determine o conjunto dos pontos equidistantes de P e T para a distância
esférica.
Exercı́cio 4.4.17. Em P2 calcule
dP2 ([1 : 1 : 1], [−1 : 1 : 1]), dP2 ([1 : 1 : 1], [1 : 0 : 0]) e dP2 ([1 : 1 : 0], [1 : 0 : 0]).
188 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
Exercı́cio 4.4.18. Em P2 considere as rectas projectivas `1 , `2 e `3 ,
definidas respectivamente pelas equações
`1 : x2 = 0, `2 : x0 = 0, e `3 : x0 − 2x1 = 0.
Qual o conjunto dos pontos de P2 equidistantes dos pontos `1 ∩ `2 e `2 ∩ `3
para a distância projectiva dP2 ?
Exercı́cio 4.4.19. Sendo S = (0, 0, −1) o polo sul da esfera S 2 , obtenha
a expressão da projecção estereográfica StS : S 2 \ {S} → R2 a partir de S.
Exercı́cio 4.4.20. Considerando em P1C a distância dP1 induzida pela
C
distância esférica de S 2 através da projecção estereográfica, calcule
dP1 ([1 + i : 3], [3 + 2i : 6]) e dP1 ([1 + i : 3], [1 : 0]).
C C
Exercı́cio 4.4.21. Seja IC : C → C uma inversão em relação a uma
circunferência C ⊂ C. Mostre que C é uma involução (i.e. IC ◦ IC = Id).
Exercı́cio 4.4.22. Seja I : C → C a inversão numa circunferência
unitária centrada na origem, l ⊂ C uma recta e C ⊂ C uma circunferência.
Considerando l := l ∪ {∞} ⊂ C, mostre que:
a) se l não passa na origem então I l é uma circunferência que passa na
origem;
b) se l passa na origem então I l = l;
c) se C não passa na origem então I(C) é uma circunferência que não passa
na origem;
d) se C passa na origem então I(C) \ {∞} é uma recta que não passa na
origem;
Exercı́cio 4.4.23. Seja I : C → C a inversão na unitária centrada na
origem. Determine a imagem por I das seguintes curvas:
a) a recta 4x − 4y = 1 onde x e y são tais que w = x + iy;
b) a circunferência de centro 3 − 4 i e raio 5.
Exercı́cio 4.4.24. Seja I : C → C a inversão na circunferência unitária
centrada na origem, l ⊂ C uma recta que não passa na origem e C a cir-
cunferência C = I(l ∪ {∞}). Mostre que a recta tangente a C na origem é
paralela a l.
Sugestão: Por rotação dos eixos coordenados pode assumir-se que l é uma
recta vertical.
4.4. EXERCÍCIOS 189
Exercı́cio 4.4.25. Seja C ⊂ C a imagem do conjunto
C := {X ∈ S 2 : dS 2 (X, (1, 0, 0)) = 1}
pela projecção estereográfica StN : S 2 → C. Determine I(C) onde I : C → C
é a inversão na circunferência unitária.
Exercı́cio 4.4.26. Considere as aplicações f1 , f2 : C → C definidas por
a1 w + b1 a2 w + b2
f1 (w) = e f2 (w) = ,
c1 w + d1 c2 w + d2
onde ai , bi , ci , di ∈ C, para i = 1, 2. Mostre que
aw + b
(f1 ◦ f2 )(w) = ,
cw + d
onde ! ! !
a b a1 b1 a2 b2
= .
c d c1 d1 c2 d2
Nota: Quando ai di − bi ci 6= 0 estas aplicações são designadas por transformações
de Möbius (ver Definição E.0.1).
Exercı́cio 4.4.27. Considere as aplicações g1 , g2 : C → C definidas por
a1 w + b1 a2 w + b2
g1 (w) = e g2 (w) = ,
c1 w + d1 c2 w + d2
onde ai , bi , ci , di ∈ C, para i = 1, 2. Mostre que
aw + b
(g1 ◦ g2 )(w) = ,
cw + d
onde ! ! !
a b a1 b1 a2 b2
= .
c d c1 d1 c2 d2
Sugestão: Note que podemos escrever g1 ◦ g2 = f1 ◦ f3 , com f3 = h ◦ f2 ◦ h, onde
f1 e f2 são as aplicações do Exercı́cio 4.4.26 e h é a conjugação h(w) = w.
Exercı́cio 4.4.28. Mostre que as aplicações de C induzidas pelas rotações
de S 2 através da projecção estereográfica são precisamente as funções da
forma
aw + b
g(w) = ,
−bw + a
onde a, b ∈ C e |a|2 + |b|2 = 1.
Sugestão: Use a Proposição 4.3.10 e o Exercı́cio 4.4.27.
190 4. GEOMETRIA ELÍPTICA
Exercı́cio 4.4.29. Mostre que uma rotação de S 2 em torno do eixo Oy
induz uma aplicação em C da forma
αw + β
f (w) = ,
−βw + α
onde α, β ∈ R com α2 + β 2 = 1.
Sugestão: Use o Exercı́cio 4.4.28 e considere os pontos fixos de f .
Exercı́cio 4.4.30. Sejam C1 , C2 e C3 circunferências de C tais que C2
intersecta C3 num único ponto P , C1 intersecta C3 num único ponto Q e
C1 intersecta C2 num único ponto R. Seja C a circunferência que passa nos
pontos P , Q e R. Mostre que C é perpendicular a C1 , C2 e C3 .
Sugestão: Considere uma inversão numa circunferência de centro R e as im-
agens das circunferências Ci e C por essa inversão. Use o facto de que as inversões
preservam ângulos (ver Teorema E.0.21).
Exercı́cio 4.4.31. Dada uma recta euclidiana ` em C que passa na
origem, considere a famı́lia de todas as circunferências de C que são tangentes
a ` na origem. Quais as imagens destas circunferências pela inversão na
circunferência de raio 1 e centro na origem?
CAPÍTULO 5
Geometria Hiperbólica
Neste capı́tulo vamos ver mais exemplos de geometrias não euclidianas
em dimensão 2: o plano hiperbólico e o disco de Poincaré. Nestes exemplos
não se verifica o axioma das paralelas pois por um ponto exterior a uma
recta passam infinitas rectas que não a intersectam.
5.1. O Plano Hiperbólico
O primeiro exemplo de geometria hiperbólica que vamos estudar tem
como espaço o plano hiperbólico H definido por
H := {z ∈ C : Im z > 0}.
Figura 5.1. Plano hiperbólico H.
Queremos que as isometrias de H sejam os elementos do grupo de Möbius
generalizado (ver Apêndice E) que levam H em H, ou seja o grupo
GH := {f ∈ Möb : f (H) = H}.
Teorema 5.1.1. As aplicações f ∈ Möb tais que f (H) = H são
191
192 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
• as transformações de Möbius f : C → C da forma
az + b
(5.1.1) f (z) =
cz + d
com a, b, c, d ∈ R e ad − bc > 0 e
• as aplicações f : C → C da forma
az + b
(5.1.2) f (z) =
cz + d
com a, b, c, d ∈ R e ad − bc < 0.
Demonstração: Se f ∈ Möb é tal que f (H) = H então, por continuidade,
f (R) = R. Claramente se f é da forma (5.1.1) ou (5.1.2) então f (R) = R.
Vejamos agora que, se f (R) = R, então podemos sempre escolher a, b, c, d ∈
R e escrever f na forma (5.1.1) ou (5.1.2).
Seja f um elemento de Möb,
az + b az + b
f (z) = ou f (z) = ,
cz + d cz + d
com a, b, c, d ∈ C e ad − bc 6= 0, tal que f (R) = R.
• Se c = 0 (o que implica ad 6= 0) temos
• f (0) = db ∈ R, pelo que b = β d com β ∈ R;
• f (∞) = ∞;
• f (1) = a+b
d ∈ R, pelo que a + b = k d com k ∈ R.
Então existe α ∈ R tal que a = α d e assim
az + b az + b
f (z) = = αz + β ou f (z) = = αz + β
d d
com α, β ∈ R.
• Se c 6= 0 e d 6= 0 temos
• f (0) = db ∈ R, pelo que b = βd com β ∈ R;
• f (∞) = ac ∈ R, pelo que a = αc com α ∈ R;
• f (1) = a+b b−a
c+d ∈ R e f (−1) = d−c ∈ R.
Se d 6= −c então f (1) ∈ R, pelo que a + b = t(c + d) com t ∈ R, o que implica
(t − α)c = (β − t)d.
Como d 6= 0 e ad − bc 6= 0, temos t − α 6= 0 e
β−t
c= d.
t−α
Se d = −c então f (−1) ∈ R, pelo que b − a = t(d − c) com t ∈ R, o que
implica
(t − α)c = (t − β)d.
5.1. O PLANO HIPERBÓLICO 193
Como d 6= 0 e ad − bc 6= 0, temos t − α 6= 0 e
t−β
c= d.
t−α
Em ambos os casos concluı́mos que existe γ ∈ R tal que c = γ d. Assim,
az + b αγ z + β az + b αγ z + β
f (z) = = ou f (z) = =
cz + d γz+1 cz + d γz+1
com α, β, γ ∈ R.
• Se d = 0 e c 6= 0 temos
• f (0) = ∞;
• f (∞) = ac ∈ R, pelo que a = αc com α ∈ R;
• f (1) = a+b
c ∈ R, pelo que a + b = t c com t ∈ R e então b = βc
com β ∈ R.
Assim,
az + b αz + β az + b αz + β
f (z) = = ou f (z) = =
cz + d z cz z
com α, β ∈ R.
Em todos os casos conclui-se que f pode ser escrita na forma
az + b az + b
f (z) = ou f (z) =
cz + d cz + d
com a, b, c, d ∈ R e ad − bc 6= 0.
Como f (H) = H temos, por exemplo, que f (i) ∈ H.
Se f ∈ Möb+ então
b + ai (b + ai)(d − ci) ac + bd + i(ad − bc)
f (i) = = 2 2
= ∈H
d + ci c +d c2 + d2
pelo que necessariamente ad − bc > 0.
Se f ∈ Möb \ Möb+ então
b − ai (b − ai)(d + ci) ac + bd − i(ad − bc)
f (i) = = = ∈ H,
d − ci c2 + d2 c2 + d2
pelo que necessariamente ad − bc < 0.
Como queremos que GH seja o grupo de isometrias de H, vamos definir
uma distância neste espaço que seja preservada pelos elementos de GH . Para
194 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
isso vamos começar por ver se estas aplicações preservam a distância euclid-
iana |z − w| entre dois pontos z, w ∈ H. Se f ∈ GH temos
(5.1.3)
az + b aw + b (az + b)(c w + d) − (aw + b)(cz + d)
|f (z) − f (w)| = − =
cz + d c w + d (c z + d)(c w + d)
|ad − bc|
= |z − w|,
|(cz + d)(c w + d)|
pelo que facilmente se verifica que a aplicação δH : H × H → R definida por
z−w
δH (z, w) :=
z−w
(o quociente entre a distância euclidiana entre z e w e a distância entre o
conjugado z e w) é preservada pelos elementos de GH (ver Figura 5.2). Em
particular,
δH (f (z), f (w)) = δH (z, w).
Figura 5.2. δH (z, w).
Proposição 5.1.2. A aplicação δH : H × H → R satisfaz as seguintes
propriedades:
(i) δH (z, w) ≥ 0;
(ii) δH (z, w) = 0 ⇔ z = w;
(iii) δH (z, w) = δH (w, z).
Demonstração: Trivial.
Apesar de satisfazer também a desigualdade triangular o que, em con-
junto com as propriedades (1) a (3) da Proposição 5.1.2 faz de δH uma
distância em H (normalmente designada por distância pseudo-hiperbólica),
veremos na Nota 5.1.12 que esta desigualdade é sempre estrita, o que não
nos permite definir segmentos de recta. Além disso, se tomássemos δH como
5.1. O PLANO HIPERBÓLICO 195
distância em H, todos os pontos de R estariam a uma distância finita de
qualquer ponto de H pois
z−a z−a
δH (z, a) = = = 1, ∀z ∈ H, a ∈ R
z−a z−a
(note que δH (z, w) < 1, ∀z, w ∈ H). Para ultrapassar estes problemas
utiliza-se a seguinte aplicação para distância em H.
Definição 5.1.3. A distância hiperbólica em H é a aplicação dH :
H × H → R definida por
1 + δH (z, w)
dH (z, w) := 2 arctanh(δH (z, w)) = ln .
1 − δH (z, w)
Nota 5.1.4. Como δH : H × H → R admite todos os valores de [0, 1[ e
arctanh( [0, 1[ ) = [0, +∞[, temos que dH admite todos os valores de [0, +∞[
(ver Figura 5.3).
2
-1.0 -0.5 0.5 1.0
-1
-2
Figura 5.3. A função u 7→ arctanh(u), para u ∈] − 1, 1[.
Proposição 5.1.5. A aplicação dH : H × H → R satisfaz as seguintes
propriedades:
(i) dH (z, w) ≥ 0;
(ii) dH (z, w) = 0 ⇔ δH (z, w) = 0 ⇔ z = w;
(iii) dH (z, w) = dH (w, z).
Demonstração: Trivial.
Antes de mostrar que dH verifica a desigualdade triangular vamos de-
terminar os pontos de H onde a igualdade é válida para podermos definir
196 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
segmentos de recta hiperbólicos. Comecemos com três pontos no eixo ima-
ginário z1 = ai, z2 = bi e z3 = ci com 0 < a ≤ b ≤ c. Então
(5.1.4) dH (z1 , z2 ) + dH (z2 , z3 ) = dH (z1 , z3 ).
Com efeito,
ai − bi b−a
dH (z1 , z2 ) = 2 arctanh = 2 arctanh ,
−ai − bi a+b
bi − ci c−b
dH (z2 , z3 ) = 2 arctanh = 2 arctanh ,
−bi − ci b+c
ai − ci c−a
dH (z1 , z3 ) = 2 arctanh = 2 arctanh ,
−ai − ci a+c
e então,
b−a
+ c−b .
dH (z1 , z2 ) dH (z2 , z3 ) c−a dH (z1 , z3 )
tanh + = a+bb−a b+c = = tanh ,
2 2 1 + a+b · c−b
b+c
a + c 2
onde usámos a identidade
tanh x + tanh y
(5.1.5) tanh(x + y) = .
1 + tanh x tanh y
Como a tangente hiperbólica é uma aplicação injectiva concluı́mos que estes
três pontos verificam (5.1.4).
Se ` é o eixo imaginário, os pontos de ` ∪ {∞} formam uma circun-
ferência de C perpendicular ao eixo real. Como os elementos de Möb levam
circunferências de C em circunferências de C e preservam ângulos (cf. Teo-
rema E.0.21), as possı́veis imagens f (`) com f ∈ GH são circunferências de
C perpendiculares ao eixo real (pois f (R) = R). Assim, (5.1.4) é verificada
por pontos z1 , z2 , z3 ∈ H numa semirecta de equação Re z = k, (k ∈ R), ou
numa semicircunferência |z − k| = r de centro k ∈ R. São então estas as
rectas hiperbólicas de H (ver Figura 5.4).
Definição 5.1.6. As rectas hiperbólicas de H são as curvas de H de
equação
• Re z = k com k ∈ R ou
• |z − k| = r com k ∈ R e r ∈ R+ .
Nota 5.1.7. Dados dois pontos z1 , z2 ∈ H existe uma única recta hiperbóli-
ca que passa em z1 e z2 .
5.1. O PLANO HIPERBÓLICO 197
Figura 5.4. Rectas hiperbólicas em H.
Com efeito, se Re z1 = Re z2 = k estão existe uma única recta hiperbólica
que passa nos dois pontos: a recta Re z = k.
Caso contrário, a mediatriz do segmento de recta euclidiano que une
z1 a z2 intersecta o eixo real num único ponto c, pelo que, também neste
caso, existe uma única recta hiperbólica que passa nos dois pontos: a recta
hiperbólica definida pela equação |z − c| = |z1 − c|.
Vejamos agora que, se os pontos z1 , z2 , z3 ∈ H não estão numa mesma
recta hiperbólica, então satisfazem a desigualdade triangular estrita. Para
isso necessitamos do seguinte lema.
Lema 5.1.8. As circunferências hiperbólicas de H são circunferências
euclidianas. Em particular, a circunferência hiperbólica de centro z0 e raio r
Cr (z0 ) := {z ∈ H : dH (z, z0 ) = r}
z0 −z 0 m2
é a circunferência euclidiana de centro (euclidiano) 1−m2
e raio (euclid-
iano) (sinh r) Im z0 , onde m = tanh 2r .
Demonstração: Uma circunferência euclidiana em C pode ser escrita na
forma
(5.1.6)
|z − w0 |2 = k 2 ⇔ (z − w0 )(z − w0 ) = k 2 ⇔ |z|2 − w0 z − w0 z + |w0 |2 − k 2 = 0.
198 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
Então,
r
dH (z, z0 ) = r ⇔ 2 arctanh (δH (z, z0 )) = r ⇔ δH (z, z0 ) = tanh
2
2
z − z0
⇔ = m2 ⇔ (z − z0 )(z − z0 ) = m2 (z − z0 )(z − z 0 )
z − z0
⇔ (1 − m2 )|z|2 − (z 0 − m2 z0 )z − (z0 − m2 z 0 )z + (1 − m2 )|z0 |2 = 0
z 0 − m2 z0 z0 − m2 z 0
⇔ |z|2 − z − z + |z0 |2 = 0,
1 − m2 1 − m2
com m = tanh 2r , pelo que, por (5.1.6), a circunferência hiperbólica Cr (z0 )
−m2 z 0
é a circunferência euclidiana de centro z01−m 2 e raio
s
z 0 − m2 z 0 2 2m
2
− |z0 |2 = Im z0 = (sinh r) Im z0 .
1−m 1 − m2
Nota 5.1.9. É fácil verificar que o centro hiperbólico de um circun-
ferência hiperbólica Cr (z0 ) tem a mesma parte real que o centro euclidano,
isto é
z0 − z 0 m 2
Re(z0 ) = Re ,
1 − m2
onde m = tanh( 2r ).
Proposição 5.1.10. Sejam z1 , z2 , z3 ∈ H três pontos distintos que não
estão numa mesma recta hiperbólica. Então
(5.1.7) dH (z1 , z3 ) < dH (z1 , z2 ) + dH (z2 , z3 ).
Demonstração: Se
dH (z1 , z2 ) ≥ dH (z1 , z3 ) ou dH (z2 , z3 ) ≥ dH (z1 , z3 )
então (5.1.7) é trivialmente verificada. Caso contrário, isto é se
(5.1.8) dH (z1 , z2 ) < dH (z1 , z3 ) e dH (z2 , z3 ) < dH (z1 , z3 ),
seja ` a recta hiperbólica que passa em z1 e z3 (cf. Nota 5.1.7) e CdH (z1 ,z2 ) (z1 )
e CdH (z3 ,z2 ) (z3 ) as circunferências hiperbólicas definidas respectivamente como
o conjunto de pontos de H que estão à mesma distância de z1 que z2 e os
que estão à mesma distância de z3 que z2 . Utilizando um elemento de
GH podemos supor que ` é o eixo imaginário. Pelo Lema 5.1.8 os conjun-
tos CdH (z1 ,z2 ) (z1 ) e CdH (z3 ,z2 ) (z3 ) são duas circunferências euclidianas e, por
(5.1.8), intersectam ` respectivamente em pontos A e B entre z1 e z3 (ver
5.1. O PLANO HIPERBÓLICO 199
Figura 5.5). Como as duas circunferências se intersectam (z2 pertence às
duas circunferências), o ponto B está mais próximo de z1 do que A. Assim,
dH (z1 , z2 ) + dH (z2 , z3 ) = dH (z1 , A) + dH (B, z3 )
= dH (z1 , B) + dH (B, A) + dH (B, z3 )
= dH (z1 , z3 ) + dH (B, A) > dH (z1 , z3 ).
Note que A 6= B pois as duas circunferências intersectam-se em z2 e z2 ∈
/ `.
z3
A
B z2
z1
Figura 5.5. Desigualdade triangular em H.
Concluı́mos assim o seguinte resultado.
Teorema 5.1.11. A aplicação dH : H × H → R+ verifica a desigualdade
triangular
dH (z1 , z3 ) ≤ dH (z1 , z2 ) + dH (z2 , z3 ), ∀z1 , z2 , z3 ∈ H.
Além disso, dH (z1 , z3 ) = dH (z1 , z2 )+dH (z2 , z3 ) se e só se z2 está no segmento
de recta hiperbólico que une z1 e z3 .
Nota 5.1.12. Podemos agora verificar que δH nunca verifica a igualdade
triangular estrita, isto é que
δH (z1 , z3 ) < δH (z1 , z2 ) + δH (z2 , z3 ), ∀z1 , z2 , z3 ∈ H.
200 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
Com efeito,
dH (z1 , z3 ) dH (z1 , z2 ) dH (z2 , z3 )
δH (z1 , z3 ) = tanh ≤ tanh +
2 2 2
dH (z1 ,z2 ) dH (z2 ,z3 )
tanh 2 + tanh 2
=
dH (z1 ,z2 ) dH (z2 ,z3 )
1 + tanh 2 · tanh 2
dH (z1 , z2 ) dH (z2 , z3 )
< tanh + tanh = δH (z1 , z2 ) + δH (z2 , z3 ).
2 2
5.2. O Disco de Poincaré
Outro modelo de geometria hiperbólica é o disco de Poincaré,
D := {z ∈ C : |z| < 1}.
-1 1
Figura 5.6. Disco de Poincaré D.
Este espaço é obtido a partir do plano hiperbólico H através da trans-
formação de Möbius J : C → C definida por
iz + 1
J(z) := ,
z+i
que verifica J(H) = D.
Nota 5.2.1. A aplicação inversa J −1 : C → C é a transformação de
Möbius
−iw + 1
J −1 (w) = .
w−i
Note que J(1) = 1, J(−1) = −1 e J(∞) = i.
5.2. O DISCO DE POINCARÉ 201
A distância em D é definida a partir da distância em H, usando a
aplicação J. Em particular,
1−iz 1−iw
J −1 (z) − J −1 (w) z−i − w−i
δD (z, w) := δH (J −1 (z), J −1 (w)) = = iz+1 1−iw
J −1 (z) − J −1 (w) z+i − w−i
(1 − iz)(w − i) − (1 − iw)(z − i) z−w
= =
(iz + 1)(w − i) − (1 − iw)(z + i) 1 − zw
e obtemos a seguinte aplicação.
Definição 5.2.2. A distância hiperbólica dD : D × D → R é a
aplicação
1 + δD (z, w)
dD (z, w) := 2 arctanh (δD (z, w)) = ln ,
1 − δD (z, w)
onde δD : D × D → R é dada por
z−w
δD (z, w) = .
1 − zw
Note que dD assim definda é uma distância pois satisfaz as seguintes
propriedades.
Proposição 5.2.3. A aplicação dD : D × D → R satisfaz
(i) dD (z, w) ≥ 0;
(ii) dD (z, w) = 0 ⇔ δH (z, w) = 0 ⇔ z = w;
(iii) dD (z, w) = δD (w, z).
(iv) dD (z1 , z3 ) ≤ dD (z1 , z2 ) + dD (z2 , z3 ), ∀z1 , z2 , z3 ∈ D.
Demonstração: Trivial pelas mesmas propriedades de dH (ver Proposi-
ção 5.1.5 e Teorema 5.1.11) .
As rectas hiperbólicas, definidas como os conjuntos de pontos que verifi-
cam a igualdade na desigualdade triangular, são as imagens J(`) das rectas
hiperbólicas ` de H.
Definição 5.2.4. As rectas hiperbólicas de D são a restrição a D de
• rectas de C que passam na origem ou
• circunferências de C perpendiculares a ∂D = {z ∈ C : |z| = 1}.
Nota 5.2.5. Se ` é uma recta hiperbólica de H então é perpendicular
ao eixo real pelo que, como J é uma transfomação de Möbius, J(`) é a
restrição a D de uma circunferência de C perpendicular a J(R) = ∂D. Se
esta circunferência é a união de uma recta de C com {∞} então, para ser
perpendicular a ∂D, tem de passar na origem (ver Figura 5.7).
202 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
J -1 1
Figura 5.7. Rectas hiperbólicas em D.
As isometrias de D são obtidas a partir das isometrias de H por con-
jugação com J pelo que os elementos do grupo de Möbius generalizado que
levam D em D, ou seja os elementos do grupo
GD := {f ∈ Möb : f (D) = D}
são isometrias de D. Veremos na Secção 5.4 que estas aplicações são, de
facto, todas as isometrias de D, ou seja que
Iso(D) = GD .
Teorema 5.2.6. Os elementos de GD são as restrições a D das aplicações
f : C → C da forma
Az + B Az + B
(5.2.1) f (z) = ou f (z) = ,
Bz + A Bz + A
com A, B ∈ C e |A|2 − |B|2 > 0.
Demonstração: Uma aplicação f ∈ Möb é tal que f (D) = D se e só se
h := J −1 ◦ f ◦ J ∈ GH . Então f = J ◦ h ◦ J −1 onde h ∈ GH , pelo que
a −iz+1
!
aJ −1 (z) + b z−i + b
(b − ai)z + a − bi
f (z) = J =J =J
cJ −1 (z) + d c −iz+1
z−i + d
(d − ci)z + c − di
i (b−ai)z+a−bi
(d−ci)z+c−di + 1 (a + d + i(b − c))z + b + c + (a − d)i
= (b−ai)z+a−bi
= ,
+i (b + c − i(a − d))z + a + d − i(b − c)
(d−ci)z+c−di
5.2. O DISCO DE POINCARÉ 203
com a, b, c, d ∈ R e ad − bc > 0 ou
! !
aJ −1 (z) + b
−1
aJ (z) + b (b + ai)z + a + bi
f (z) = J =J =J
cJ −1 (z) + d cJ −1 (z) + d (d + ci)z + c + di
i (b+ai)z+a+bi
(d+ci)z+c+di + 1 (d − a + i(b + c))z + c − b + (a + d)i
= (b+ai)z+a+bi
=
+i (b − c + i(a + d))z + a − d + i(b + c)
(d+ci)z+c+di
(b + c + i(a − d))z + a + d + (b − c)i
= ,
(a + d − i(b − c))z + b + c − (a − d)i
com a, b, c, d ∈ R e ad − bc < 0.
No primeiro caso,
Az + B
f (z) =
Bz + A
com A = a + d + i(b − c) e B = b + c + i(a − d), pelo que
|A|2 − |B|2 = (a + d)2 + (b − c)2 − (b + c)2 − (a − d)2 = 4(ad − bc) > 0.
No segundo caso
Az + B
f (z) =
Bz + A
com A = b + c + i(a − d) e B = a + d + i(b − c), pelo que
|A|2 − |B|2 = − (a + d)2 + (b − c)2 − (b + c)2 − (a − d)2 = −4(ad − bc) > 0.
Alternativamente, os elementos de GD podem ser descritos da seguinte
forma.
Teorema 5.2.7. Os elementos de GD são as restrições a D das aplicações
f : C → C da forma
z−B z−B
(5.2.2) f (z) = eαi ou f (z) = eαi ,
−Bz + 1 −Bz + 1
com α ∈ [0, 2π[ e B ∈ C tal que |B| < 1.
Demonstração: Se f ∈ GD então
A z+B z+B
Az + B z+Be
f (z) = = A = eαi A
= eαi
Bz + A B
A BA
z+1 A
z+1 Bz
e +1
ou
A z+B z+B
Az + B z+Be
f (z) = = A = eαi A
= eαi
Bz + A B
A BA
z+1 A
z+1 B
ez+1
204 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
B B
para algum α ∈ [0, 2π) e B
e=
A. Note que |B|
e =
A < 1 pois |A|2 − |B|2 >
0, e que A 6= 0.
5.3. Exemplos de isometrias
Os elementos de GH e de GD pertencem ao grupo de Möbius generalizado.
Como tal transformam circunferências de C (euclidianas ou hiperbólicas) em
circunferências de C e preservam ângulos (ver Teorema E.0.21).
Vejamos alguns exemplos destas isometrias hiperbólicas.
5.3.1. Reflexões. Seja ` a recta hiperbólica de D definida por y = 0 e
a isometria R`D : D → D definida por
R`D (z) := z.
Esta aplicação coincide com a reflexão euclidiana na recta y = 0 e o seu
conjunto de pontos fixos é a recta `.
A isometria de H induzida por R`D é a restrição a H da inversão na
circunferência unitária `.
e Com efeito,
iz + 1
−1 −iz + 1 1
−1 −1
R`H (z) := J ◦ R D
` ◦ J (z) = J ◦ R`
D
= J = .
e
z+i z−i z
~ i J { 1
{ -1
-1 1
Figura 5.8. As rectas hiperbólicas ` ⊂ D e `e ⊂ H.
Se g : D → D é um elemento de GD que transforma uma recta hiperbólica
m na recta ` então
D
Rm := g −1 ◦ R`D ◦ g
é uma isometria de D que fixa os pontos de m (designada por reflexão na
recta m). Como, dada uma recta hiperbólica m qualquer de D, existe sempre
um elemento g ∈ GD tal que h(m) = `, obtemos reflexões em todas as
rectas hiperbólicas de D. Analogamente, temos reflexões em todas as rectas
hiperbólicas de H.
5.3. EXEMPLOS DE ISOMETRIAS 205
Definição 5.3.1. Uma reflexão de D (ou H) é uma isometria obtida
de R`D (ou RH
e ) por conjugação com um elemento de GD (ou GH ).
`
Nota 5.3.2. O conjunto de pontos fixos de uma reflexão é uma recta
hiperbólica (de D ou H). Veremos mais tarde que uma isometria de D ou
H é uma reflexão se e só se o seu conjunto de pontos fixos é uma recta
hiperbólica (ver Corolário 5.4.10).
Exemplo 5.3.3. Seja g : D → D a isometria definida por
π
g(z) = e− 2 i z = −iz.
Esta aplicação, que corresponde a uma rotação de ângulo − π2 em torno da
origem, transforma a recta hiperbólica m definida por x = 0 na recta `
definida por y = 0. Assim,
D
Rm (z) := g −1 ◦ R`D ◦ g = g −1 (R`D (−iz)) = g −1 (i z) = −z
H
é a reflexão em m. A aplicação correspondente em H, a isometria Rm
e
definida por
H −1 D
Rm
e (z) := J ◦ R m ◦ J (z) = −z,
é a reflexão na recta x = 0 de H.
Conjugando Rm H com isometrias da forma
e
g(z) = z − b
com b ∈ R, obtemos reflexões nas rectas hiperbólicas x = b. Como
g −1 ◦ Rm
H
e ◦ g (z) = g −1 (−(z − b)) = −z + 2b,
estas reflexões coincidem com as reflexões euclidianas nas rectas verticais
x = b.
Nota 5.3.4. Em geral, uma reflexão numa recta hiperbólica de D ou H
que está contida numa circunferência euclidiana C, coincide com a restriç-
ao a D ou H da inversão em C. Com efeito, note que qualquer uma destas
aplicações é a restrição a D ou H de um elemento de Möb\Möb+ com C como
conjunto de pontos fixos (ver Nota E.0.17 do Apêndice E e Teorema E.0.22
do Apêndice E). Analogamente, se a recta hiperbólica for parte de uma
recta euclidiana, a reflexão coincide com a reflexão euclidiana nessa recta
(ver Nota E.0.20 do Apêndice E).
206 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
0,α : D → D a isometria
5.3.2. Rotações. Seja ρD
iα
ρD
0,α (z) := e z,
com α ∈ [0, 2π[. Esta aplicação coincide com a rotação euclidiana de ângulo
α em torno da origem. Se α 6= 0 tem um único ponto fixo em D (a origem) e
não fixa nenhum ponto da fronteira ∂D. Para além disso, deixa invariantes
as circunferências hiperbólicas em torno da origem (ver Figura 5.9). Com
efeito, estas são também circunferências euclidianas com centro na origem
pois
z−0
δD (z, 0) = = |z|,
1−z·0
e uma rotação euclidiana deixa invariantes circunferências (euclidianas) em
torno do centro da rotação.
Como J −1 (0) = i, a isometria ρH D
i,α induzida por ρ0,α em H tem um
único ponto fixo em H (o ponto i) e não tem nenhum ponto fixo em R.
Além disso, deixa invariantes as circunferências hiperbólicas de centro i (ver
Figura 5.9), pois os pontos destas circunferências estão a uma distância
hiperbólica constante de i e J : H → D é uma isometria. Note que
−ieαi iz+1
z+i +1 z + 1−e
αi
i
H −1 D 1+eαi
ρi,α (z) := J ◦ ρ0,α ◦ J (z) = = 1−eαi
eαi iz+1 − i 1 − 1+e αi zi
z+i
z + tan (α/2)
=
1 − tan (α/2) z
e que a transformação de Möbius correspondente fixa os pontos i e −i (mas
apenas i está em H).
Conjugando ρD 0,α com um elemento g : D → D de GD que leva um ponto
z0 em 0, obtemos uma isometria de D com um único ponto fixo em D (o
ponto z0 ) e nenhum ponto fixo em ∂D. Com efeito, para z ∈ D temos
g −1 ◦ ρD D −1
0,α ◦ g (z) = z ⇔ ρ0,α (g(z)) = g(z) ⇔ g(z) = 0 ⇔ z = g (0) = z0 .
Definição 5.3.5. Uma rotação de D (ou H) é uma isometria obtida
de ρD H
0,α (ou ρi,α ) por conjugação com um elemento de GD (ou GH ).
Nota 5.3.6. Uma rotação não trivial tem um único ponto fixo em D (ou
H) e nenhum ponto fixo em ∂D (ou R). Além disso, uma rotação de centro
z0 deixa invariantes as circunferências hiperbólicas de centro z0 . Veremos
mais tarde que uma isometria (de D ou H) é uma rotação não trivial se e só
se tem um único ponto fixo em D (ou H) (ver Corolário 5.4.10).
5.3. EXEMPLOS DE ISOMETRIAS 207
i
J -1 1
Figura 5.9. Circunferências hiperbólicas em H e D, respec-
tivamente de centro i e 0.
5.3.3. Translações hiperbólicas. Para k ∈ R+ , seja TkH : H → H a
isometria definida por
TkH (z) := kz.
Se k 6= 1 esta aplicação não tem pontos fixos em H mas a sua extensão a C
tem dois pontos fixos em R: os pontos 0 e ∞. Deixa invariantes as semirectas
euclidianas y = mx mas apenas deixa invariante uma recta hiperbólica: a
recta ` definida por x = 0 (ver Figura 5.10). Esta recta hiperbólica une os
pontos fixos de extensão de TkH a C.
Conjugando com um elemento de GH que transforme uma recta hiperbó-
lica n em `, obtemos uma isometria que deixa n invariante (e nenhuma outra
recta hiperbólica). Esta isometria não tem pontos fixos em H mas fixa dois
pontos em R (os pontos da intersecção R ∩ n).
A isometria de D induzida por TkH é dada por
(k + 1)z + (k − 1)i
TkD (z) := J ◦ TkH ◦ J −1 (z) = .
−(k − 1)iz + k + 1
Se k 6= 1 esta aplicação não fixa nenhum ponto de D mas a sua extensão a D
fixa dois pontos em ∂D: os pontos i e −i. Para além disso, deixa invariante
a recta hiperbólica definida por x = 0 (que une os dois pontos fixos).
208 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
J -1 1
Figura 5.10. Curvas invariantes por TkH e por TkD .
Definição 5.3.7. Uma translação hiperbólica de D (ou H) ao longo
de uma recta hiperbólica ` é uma isometria obtida de TkD (ou TkH ) por con-
jugação com um elemento de GD (ou GH ), para algum k ∈ R+ .
Nota 5.3.8. Uma translação hiperbólica não trivial ao longo de uma
recta hiperbólica ` não tem pontos fixos em D (ou H) mas tem dois pontos
fixos em ∂D (ou R). Além disso, a recta ` é a única recta hiperbólica
invariante e esta recta intersecta ∂D (ou R) nos dois pontos fixos.
5.3.4. Rotações Limite. Para α ∈ R, seja ρH
∞,α : H → H a isometria
definida por
ρH
∞,α (z) := z + α.
Se α 6= 0 esta isometria não tem pontos fixos em H e a sua extensão a C tem
um único ponto fixo em R: o ponto ∞. Deixa invariantes as rectas euclid-
ianas horizontais y = k (com k ∈ R+ ) mas nenhuma recta hiperbólica (ver
Figura 5.12). Se unirmos estas rectas euclidianas com o ponto ∞ obtemos
circunferências de C (que passam em ∞) denominadas por horociclos.
Conjugando com um elemento de GH que leve um ponto z0 ∈ R em
∞, obtemos uma isometria sem pontos fixos em H cuja extensão a C tem
um único ponto fixo em R: o ponto z0 . Esta isometria deixa invariantes
circunferências que passam em z0 (também denominadas por horociclos).
A isometria de D induzida por ρH ∞,α é dada por
−1
(2 + αi)z + α
ρD
i,α (z) := J ◦ ρH
∞,α ◦ J (z) = .
αz + (2 − αi)
Esta aplicação não fixa nenhum ponto de D mas fixa o ponto i ∈ ∂D. Para
além disso, deixa invariantes as circunferências J({y = k} ∪ {∞}) (horocic-
los). Estas passam em i e são tangentes a ∂D em i (ver Figura 5.12). Com
efeito, as rectas y = k são perpendiculares à recta hiperbólica ` definida por
5.3. EXEMPLOS DE ISOMETRIAS 209
x = 0, pelo que as circunferências J({y = k} ∪ {∞}) ⊂ D são perpendicu-
lares à recta hiperbólica J(`) (de equação x = 0) e, por isso, são tangentes
a ∂D.
J -1 1
Figura 5.11. Horociclos de ρH D
∞,α e de ρi,α .
Definição 5.3.9. Uma rotação limite de D (ou H) em torno de um
ponto z0 de ∂D (ou R) é uma isometria obtida de ρD H
i,α (ou ρ∞,α ) por con-
jugação com um elemento de GD (ou GH ), para algum α ∈ R.
Nota 5.3.10. Uma rotação limite não trivial de centro z0 não tem pontos
fixos em D (ou H) mas tem um único ponto fixo em ∂D (ou R). Além disso,
deixa invariantes circunferências de C que passam em z0 e que são tangentes
a ∂D (ou R) em z0 . Veremos mais tarde que uma isometria (de D ou H) é
uma rotação limite se e só se não tem pontos fixos em D (ou H) mas fixa
um único ponto fixo em ∂D (ou R) (ver Corolário 5.4.10).
Terminamos esta secção com uma proposição que irá caracterizar o con-
junto de pontos fixos de uma transformação de Möbius em GD ou GH (ver
Corolário 5.4.3 e Teorema 5.4.8).
Proposição 5.3.11. Seja f : C → C uma transformação de Möbius em
GD (ou GH ). Então,
(a) se f tem um ponto fixo em D (ou H), então não tem nenhum outro
ponto fixo em D ∪ ∂D (ou H ∪ R);
(b) se f tem um único ponto fixo em ∂D (ou R) então não tem nenhum
outro ponto fixo em C;
(c) se f tem dois pontos fixos em ∂D (ou R) então não tem nenhum outro
ponto fixo em C.
210 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
Demonstração: Pela Proposição E.0.3 sabemos que uma transformação
de Möbius diferente da identidade tem, no máximo, dois pontos fixos, pelo
que (c) é trivial. Por outro lado, podemos considerar apenas o caso de H
pois os elementos de GD podem ser obtidas a partir dos de H por conjugação
com J : H → D. Com efeito, transformações de Möbius conjugadas têm o
mesmo ńumero de pontos fixos (note que J(H) = D e que, consequentemente,
J(R) = ∂D).
Considere-se então
az + b
f (z) =
cz + d
com a, b, c, d ∈ R e ad − bc > 0. Assim,
f (z) = z ⇔ az + b = cz 2 + dz ⇔ cz 2 + (d − a)z − b = 0.
Se c = 0 e a 6= d então f tem dois pontos fixos em R (os pontos ∞ e
b
d−a ) e estes são os seus únicos pontos fixos.
Se c = 0 e a = d então f tem um único ponto fixo: z0 = ∞ ∈ R.
Se c 6= 0 os pontos fixos são da forma
p
(d − a) (d − a)2 + 4bc
z=− ± .
2c 2c
Se f tem um ponto fixo em H então (d − a)2 + 4bc < 0, pelo que f tem dois
pontos fixos conjugados e então (a) é verificada. Se f tem um único ponto
fixo z0 então (d − a)2 + 4bc = 0, pelo que z0 ∈ R.
5.4. Classificação de Isometrias
Para procedermos à classificação das isometrias de H ou D necessitamos
de alguns resultados preliminares. O primeiro caracteriza o conjunto dos
pontos equidistantes de dois pontos de H ou D (para a distância hiperbólica).
Proposição 5.4.1. Dados dois pontos P1 , P2 de H ou D, o conjunto de
pontos equidistantes de P1 e P2 (para a distância hiperbólica) é uma recta
hiperbólica `. Além disso, R` (P1 ) = P2 e R` (P2 ) = P1 , onde R` é a reflexão
hiperbólica na recta `.
Demonstração: Vamos considerar o caso em que P1 , P2 ∈ H (o resultado
em D é análogo). Seja L o conjunto de pontos equidistantes de P1 e P2 i.e.
L := {X ∈ H : dH (X, P1 ) = dH (X, P2 )}.
Compondo com uma isometria apropriada (por exemplo uma rotação de
centro P1 seguida de uma rotação limite em torno de ∞) podemos supor
5.4. CLASSIFICAÇÃO DE ISOMETRIAS 211
que Im(P1 ) = Im(P2 ) e que Re(P1 ) = −Re(P2 ). Assim, a recta hiperbólica
` definida por x = 0 está contida em L pois R` (P1 ) = P2 e, se X ∈ `, temos
dH (X, P1 ) = dH (R` (X), R` (P1 )) = dH (X, P2 ).
Vejamos agora que ` = L. Seja R um ponto em L \ `. Então o ponto
R0 := R` (R) também está em L \ `. Com efeito,
dH (R0 , P1 ) = dH (R` (R0 ), R` (P1 )) = dH (R, P2 ) = dH (R, P1 )
= dH (R` (R), R` (P1 )) = dH (R0 , P2 ),
pois, como R ∈ L, temos dH (R, P1 ) = dH (R, P2 ).
Supondo, sem perda de generalidade, que Re(R0 )·Re (P2 ) > 0 (i.e. que R0
e P2 estão do mesmo lado de `), seja m a (única) recta hiperbólica que passa
por R e P2 e considere-se m0 := R` (m). Então m0 é a única recta hiperbólica
que passa em P1 e R0 . Para além disso, como m0 é obtida a partir de m por
reflexão em `, temos que m ∩ m0 ∩ ` consiste num único ponto Q ∈ `. Note
que se m = m0 então P1 , P2 , R e R0 estariam na mesma recta hiperbólica,
pelo que se verificaria a igualdade na desigualdade triangular e então R não
poderia pertencer a L \ `. Com efeito terı́amos
dH (P1 , P2 ) = dH (P1 , R) + dH (R, R0 ) + dH (R0 , P2 )
= dH (P2 , R) + dH (R, R0 ) + dH (R` (R0 ), R` (P2 ))
= dH (P2 , R) + dH (R, R0 ) + dH (R, P1 ) = dH (P1 , P2 ) + dH (R, R0 ),
o que implica que R = R0 , ou seja que R ∈ `.
Conclui-se assim que m 6= m0 e então,
dH (P2 , R0 ) = dH (R` (P2 ), R` (R0 )) = dH (P1 , R) = dH (P2 , R)
= dH (P2 , Q) + dH (Q, R) = dH (P2 , Q) + dH (Q, R0 ),
o que implica que Q pertence à recta hiperbólica que passa em P2 e R0
o que é impossı́vel pois, nesse caso, R0 pertenceria a m e então os pontos
P1 , P2 , Q, R, R0 estariam em m, pelo que m = m0 .
Como consequência da proposição anterior podemos caracterizar as isome-
trias como composições de reflexões.
Teorema 5.4.2. Qualquer isometria de D ou H é a composta de uma
duas ou três reflexões hiperbólicas.
212 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
{
Q
¢
m m
¢
R R
P1 P2
Figura 5.12
Demonstração: Um ponto de D ou H fica univocamente determinado
pelas suas distâncias a três pontos distintos que não estejam na mesma recta
hiperbólica. Com efeito, se dois pontos X e X 0 estão às mesmas distâncias
de três pontos não colineares P1 , P2 e P3 , então P1 , P2 e P3 estariam no
conjunto de pontos equidistantes de X e X 0 pelo que estariam numa mesma
recta hiperbólica (cf. Proposição 5.4.1).
Então, se uma isometria fixa três pontos P1 , P2 , P3 não colineares é neces-
sariamente a identidade pois,
d(X, Pi ) = d(f (X), f (Pi )) = d(f (X), Pi ), i = 1, 2, 3,
pelo que f (X) = X para todo o X.
Sejam então P1 , P2 , P3 três pontos distintos de D ou H que não estão na
mesma recta hiperbólica e considere-se as imagens f (P1 ), f (P2 ) e f (P3 ).
Se f é a identidade então é trivialmente a composta de duas reflexões.
Caso contrário, se f 6= id, então f tem no máximo dois pontos fixos em
{P1 , P2 , P3 }, pelo que f (Pi ) 6= Pi para algum i ∈ {1, 2, 3}.
Supondo que f (P1 ) 6= P1 , considera-se a recta hiperbólica ` dos pontos
equidistantes de P1 e f (P1 ) e então R` (P1 ) = f (P1 ). Se R` (Pj ) = f (Pj )
para j = 2, 3, então f = R` pois R` ◦ f fixa três pontos não colineares
pelo que é a identidade. Caso contrário, e supondo que f (P2 ) 6= R` (P2 )
considera-se a recta m dos pontos equidistantes de f (P2 ) e R` (P2 ). Então
Rm (R` (P2 )) = f (P2 ) e
(Rm ◦ R` )(P1 ) = Rm (f (P1 )) = f (P1 )
pois f (P1 ) ∈ m. Com efeito,
d(f (P1 ), f (P2 )) = d(P1 , P2 ) = d(R` (P1 ), R` (P2 )) = d(f (P1 ), R` (P2 )).
5.4. CLASSIFICAÇÃO DE ISOMETRIAS 213
Se (Rm ◦ R` )(P3 ) = f (P3 ) então f = Rm ◦ R` . Caso contrário, considera-
-se a recta n dos pontos equidistantes de f (P3 ) e (Rm ◦ R` )(P3 ). Então,
Rn ((Rm ◦ R` )(P3 )) = f (P3 ) e, por outro lado,
(Rn ◦ Rm ◦ R` )(Pi ) = Rn (f (Pi )) = f (Pi )
para i = 1, 2 pois f (Pi ) ∈ n. De facto,
d(f (Pi ), f (P3 )) = d(Pi , P3 ) = d((Rm ◦ R` )(Pi ), (Rm ◦ R` )(P3 ))
= d(f (Pi ), (Rm ◦ R` )(P3 )).
Conclui-se assim que, neste caso, f = Rn ◦ Rm ◦ R` .
Corolário 5.4.3. Os grupos de isometrias de H e de D são respectiva-
mente os grupos GH e GD .
Demonstração: Como as reflexões hiperbólicas de D (ou H) são elementos
de GD (ou de GH ), temos que o grupo Iso(D) (ou Iso(H)) de isometrias de D
(ou de H) está contido em GD (ou GH ). Como sabı́amos já que GD ⊂ Iso(D)
(e GH ⊂ Iso(H)), o resultado segue.
Definição 5.4.4. Uma isometria de D (ou H) diz-se directa se for a
composta de duas reflexões e inversa caso contário.
Para concluir a classificação das isometrias hiperbólicas, necessitamos
de dois lemas auxiliares.
Lema 5.4.5. Se l e m são duas rectas hiperbólicas que não se inter-
sectam em H ∪ R (ou D ∪ ∂D) então existe uma única recta hiperbólica n
perpendicular a l e a m.
Nota 5.4.6. Duas rectas hiperbólicas que não se intersectam em H ∪ R
(ou D ∪ ∂D) dizem-se ultraparalelas.
Demonstração: Se l e m são duas rectas hiperbólicas ultraparalelas de
H e l é definida pela equação Re z = 0 (o que implica que m é definida
por uma equação da forma |z − c| = r), então as rectas perpendiculares
a l têm equações da forma |z| = c. Para que uma destas rectas, n, seja
perpendicular a m é necessário que n seja tangente a um raio de m ou,
equivalentemente, que um raio de n seja tangente a m. Considere-se a única
semirecta euclidiana com inı́cio na origem e que intersecta m num só ponto.
Seja z0 esse ponto de intersecção. Então a recta hiperbólica de equação
|z| = |z0 | é a única recta perpendicular a l e m (ver Figura 5.13).
214 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
n z0
m
Figura 5.13
Se l não é a recta l0 definida por Re z = 0, podemos considerar uma
isometria directa h : H → H tal que h(l) = l0 . Com efeito, se l é definida
por uma equação da forma Re z = c, podemos tomar, por exemplo, a isome-
tria h(z) = z − c. Caso contrário, l intersecta o eixo real em dois pontos
z−z2
z1 , z2 ∈ R com z1 < z2 , e podemos tomar, por exemplo, h(z) = z−z 1
. Como
0
m é ultraparalela a `, temos que h(m) é ultraparalela a ` = h(l). Conse-
quentemente, existe uma única recta n perpendicular a h(l) e h(m). Então
h−1 (n) é a única recta perpendicular a l e a m pois, como h é um elemento
de Möb, preserva ângulos (ver Teorema E.0.21).
Se l e m são duas rectas hiperbólicas ultraparalelas de D então J −1 (l)
e J −1 (m) são duas rectas ultraparalelas de H pelo que existe uma única
recta de H perpendicular a J −1 (l) e J −1 (m). Conclui-se assim que J(n) é a
única recta de D perpendicular a l e m pois, como J é uma transformação
de Möbius, preserva ângulos (ver Teorema E.0.14).
Lema 5.4.7. Se f é uma isometria inversa de D (ou H) então a sua
extensão a C tem dois pontos fixos em ∂D (ou R).
Demonstração: Seja f : H → H uma isometria inversa de H definida por
az + b
f (z) =
cz + d
com a, b, c, d ∈ R e ad − bc < 0. Então, x ∈ R é um ponto fixo da extensão
de f a C se e só se
f (x) = x ⇔ cx2 + (d − a)x − b = 0.
Se c = 0 então a 6= d (pois ad < 0) e f tem dois pontos fixos em R (os
b
pontos ∞ e x = d−a ).
Se c 6= 0 então f tem dois pontos fixos reais
p
−(d − a) ± (d − a)2 + 4bc
x= ,
2c
5.4. CLASSIFICAÇÃO DE ISOMETRIAS 215
pois
(d − a)2 + 4bc = d2 + a2 − 4(ad − bc) + 2ad = (a + d)2 − 4(ad − bc) > 0.
Se f é uma isometria inversa de D então g := J −1 ◦ f ◦ J é uma isometria
inversa de H pelo que g tem dois pontos fixos em R. Como J(R) = ∂D,
conclui-se que f tem dois pontos fixos em ∂D.
Podemos agora proceder à classificação das isometrias hiperbólicas.
Teorema 5.4.8. Qualquer isometria hiperbólica (de D ou H) é de um
dos seguintes tipos.
(i) Rotação hiperbólica;
(ii) Rotação limite;
(iii) Translação hiperbólica ao longo de uma recta hiperbólica;
(iv) Reflexão numa recta hiperbólica;
(v) Reflexão deslizante ao longo duma recta hiperbólica (i.e. a com-
posta de uma reflexão com uma translação hiperbólica ao longo da
recta de reflexão).
Demonstração: Se f é uma isometria directa então é a restrição a H
ou D de uma transformação de Möbius f : C → C. Além disso, pelo
Teorema 5.4.2, é necessariamente a composta de duas reflexões Rl ◦ Rm
onde l e m são duas rectas hiperbólicas.
(1) Se l e m se intersectam num ponto z0 de D ou H (ver Figura 5.14)
então z0 é um ponto fixo de f . Note que, neste caso, a isometria f não tem
nenhum outro ponto fixo em D ou H (ver Proposição 5.3.11).
l
{
-1 m 1
m
Figura 5.14. Exemplos de rectas concorrentes em H e D.
Se f é uma isometria de D e z0 = 0, então l e m são parte de rectas
euclidianas que passam na origem e Rl e Rm são restrições a D das reflexões
(euclidianas) nessas rectas. Consequentemente, Rl ◦ Rm é uma rotação em
torno da origem,
Rl ◦ Rm = ρD
0,2α ,
216 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
onde α = ]or (m, l) é o ângulo orientado entre a rectas m e l (ver Secção 5.3.2).
Se z0 6= 0 então, conjugando com uma isometria directa h : D → D tal que
h(z0 ) = 0 (por exemplo a isometria h(z) = −zz−z 0
0 z+1
), temos que
h ◦ Rl ◦ h−1 e h ◦ Rm ◦ h−1
são reflexões em rectas hiperbólicas de D que passam na origem. Assim,
h ◦ Rl ◦ h−1 ◦ h ◦ Rm ◦ h−1 = h ◦ (Rl ◦ Rm ) ◦ h−1 = ρD
0,2α ,
onde α = ]or (h(m), h(l)) = ]or (m, l), pois as isometrias hiperbólicas preser-
vam ângulos (e, como h é uma isometria directa, preserva a orientação).
Então
Rl ◦ Rm = h−1 ◦ ρD 0,2α ◦ h
pode ser obtida por conjugação de uma rotação por uma isometria directa,
pelo que é também uma rotação. Em particular, Rl ◦ Rm é a rotação de
centro z0 e ângulo α = ]or (m, l).
Se f é uma isometria de H então g := J ◦ f ◦ J −1 é uma isometria de
D que fixa o ponto J(z0 ) ∈ D e é a composta de duas reflexões em rectas
hiperbólicas de D que se intersectam em J(z0 ). Então g é uma rotação em
torno de J(z0 ), pelo que f é uma rotação em torno de z0 com o mesmo
ângulo.
(2) Se l e m se intersectam num (único) ponto z0 de ∂D ou R então z0
é um ponto fixo da transformação de Möbius f : C → C (ver Figura 5.15).
Note que, pela Proposição 5.3.11, a transformação de Möbius f não tem
nenhum outro ponto fixo em C.
{
{ -1 m 1
m
{ m
-1 1
{ m
Figura 5.15. Exemplos de rectas paralelas em H e D.
5.4. CLASSIFICAÇÃO DE ISOMETRIAS 217
Se f é uma isometria de H e z0 = ∞, então l e m são duas rectas verticais
definidas respectivamente por equações Re z = a e Re z = b onde a, b ∈ R, e
Rl e Rm são as restrições a H das reflexões euclidianas nessas rectas. Então
Rl ◦ Rm é uma rotação limite em torno de ∞,
(Rl ◦ Rm ) (z) = z + 2(a − b)
(ver Secção 5.3.4). Se z0 6= ∞, conjugando com uma isometria directa
1
h : H → H tal que h(z0 ) = ∞ (por exemplo a isometria h(z) = − z−z 0
),
temos que
h ◦ Rl ◦ h−1 e h ◦ Rm ◦ h−1
são reflexões em rectas hiperbólicas de H que passam em ∞. Assim,
g := h ◦ Rl ◦ h−1 ◦ h ◦ Rm ◦ h−1 = h ◦ (Rl ◦ Rm ) ◦ h−1
é uma rotação limite em torno de ∞. Então,
f = Rl ◦ Rm = h−1 ◦ g ◦ h
pode ser obtida por conjugação da rotação limite g por uma isometria de H,
pelo que é também uma rotação limite (de centro z0 ∈ R).
Se f é uma isometria de D então g := J −1 ◦ f ◦ J é uma isometria de
H que fixa o ponto J −1 (z0 ) ∈ R e é a composta de duas reflexões em rectas
hiperbólicas de H que se intersectam em J −1 (z0 ). Então g é uma rotação
limite em torno de J −1 (z0 ), pelo que f é uma rotação limite em torno de z0
com o mesmo ângulo.
(3) Se l e m são ultraparalelas, i.e. não se intersectam em D ∪ ∂D ou
H ∪ R (ver Figura 5.16), então, pelo Lema 5.4.5, existe uma única recta
hiperbólica n que é perpendicular a m e a l. Note que Rl e Rm deixam
n invariante. Com efeito, Rl (n) é uma recta hiperbólica perpendicular a
Rl (l) = l que passa no ponto da intersecção l ∩ n pelo que é necessariamente
igual n, e o mesmo se conclui para Rm . Consequentemente, se z1 , z2 ∈ C
forem as extremidades de n, temos
Rl ({z1 , z2 }) = {z1 , z2 } e Rm ({z1 , z2 }) = {z1 , z2 }.
Como z1 , z2 não são pontos fixos de Rl nem de Rm (pois não pertencem a
l ∪ m), temos
Rl (zi ) = zj e Rm (zi ) = zj , com i, j ∈ {1, 2} e i 6= j,
e então
f (zi ) = (Rl ◦ Rm ) (zi ) = zi i = 1, 2.
218 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
Conclui-se assim que a transformação de Möbius f tem dois pontos fixos em
∂D ou R e que não tem nenhum outro ponto fixo em C (ver Proposição 5.3.11).
m
n
{
n m {
{
{
m
m n
Figura 5.16. Exemplos de rectas ultraparalelas em H e D.
Se f é uma isometria de H e n é a recta Re z = 0 então l e m são rectas
hiperbólicas definidas respectivamente por equações |z| = a e |z| = b (pois
são perpendiculares a n). Então,
a2 b2 a2
Rl (z) = , Rm (z) = e f (z) = (Rl ◦ Rm ) (z) = z,
z z b2
pelo que f é uma translação hiperbólica ao longo de n (ver Secção 5.3.3).
Se n não é a recta n0 definida por Re z = 0, podemos conjugar com
uma isometria directa h : H → H tal que h(n) = n0 . Com efeito, se n
é definida por uma equação Re z = c, podemos tomar, por exemplo, a
isometria h(z) = z − c. Caso contrário, n intersecta o eixo real em dois
z−z2
pontos z1 , z2 ∈ R com z1 < z2 , e podemos tomar, por exemplo, h(z) = z−z 1
.
Então,
h ◦ Rl ◦ h−1 e h ◦ Rm ◦ h−1
são reflexões em rectas hiperbólicas de H perpendiculares a n0 , pelo que
g := h ◦ Rl ◦ h−1 ◦ h ◦ Rm ◦ h−1 = h ◦ (Rl ◦ Rm ) ◦ h−1
é uma translação hiperbólica ao longo de n0 . Assim,
f = Rl ◦ Rm = h−1 ◦ g ◦ h
pode ser obtida por conjugação de uma translação hiperbólica por uma
isometria, pelo que é uma translação hiperbólica ao longo de h−1 (n0 ) = n.
5.4. CLASSIFICAÇÃO DE ISOMETRIAS 219
Se f é uma isometria de D então g := J −1 ◦ f ◦ J é uma isometria de H
que é a composta de duas reflexões em rectas hiperbólicas ultraparalelas de
H, pelo que é uma translação hiperbólica ao longo de J −1 (n). Consequente-
mente f é uma translação hiperbólica ao longo de n.
(4) e (5) Se f é uma isometria inversa então, pelo Lema 5.4.7, sabemos
que f tem dois pontos fixos em ∂D ou R. Seja l a recta hiperbólica que
une esses dois pontos fixos. Se f fixa l então f é uma reflexão na recta
l pois f ◦ Rl é uma isometria directa com três pontos fixos pelo que é a
identidade (ver Corolário E.0.4). Caso contrário, f ◦ Rl é uma isometria
directa que fixa as extremidades de l, pelo que tem dois pontos fixos em
∂D ou R. Pela primeira parte desta demonstração, conclui-se que f é uma
translação hiperbólica Tl ao longo de l. Consequentemente, f = Tl ◦ Rl é
uma reflexão com deslize ao longo de l.
Nota 5.4.9. Sejam Tl e Rl respectivamente uma translação hiperbólica
e uma reflexão numa mesma recta recta hiperbólica l de H (ou D). Então
as duas isometrias comutam, i.e.
Tl ◦ Rl = Rl ◦ Tl .
Com efeito, se l ⊂ H é a recta de equação Re z = 0, temos
Tl (z) = λ z e Rl (z) = −z
com λ ∈ R+ , pelo que
(5.4.1) (Tl ◦ Rl ) (z) = (Rl ◦ Tl ) (z) = −λz.
Caso contrário, podemos considerar uma isometria directa h : H → H tal
que h(l) = l0 é a recta de equação Re z = 0. Com efeito, se l é definida por
uma equação Re z = c, podemos tomar, por exemplo, a isometria h(z) =
z − c. Se l intersecta o eixo real em dois pontos z1 , z2 ∈ R com z1 < z2 ,
podemos tomar, por exemplo, h(z) = z−z z−z1 . Então, h(l) é a recta definida
2
−1
por Re z = 0, a isometria h ◦ Tl ◦ h é uma translação hiperbólica ao longo
da recta l0 , e h ◦ Rl ◦ h−1 é a reflexão na recta l0 . Como vimos em (5.4.1),
estas duas isometrias comutam, pelo que
h ◦ (Tl ◦ Rl ) ◦ h−1 = h ◦ Tl ◦ h−1 ◦ h ◦ Rl ◦ h−1
= h ◦ Rl ◦ h−1 ◦ h ◦ Tl ◦ h−1 = h ◦ (Rl ◦ Tl ) ◦ h−1
e assim,
Tl ◦Rl = h−1 h ◦ (Tl ◦ Rl ) ◦ h−1 ◦h = h−1 h ◦ (Rl ◦ Tl ) ◦ h−1 ◦h = Rl ◦Tl .
220 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
Usando a aplicação J : H → D, podemos concluir o mesmo resultado em D.
Como consequência do Teorema 5.4.8 podemos determinar cada tipo de
isometria sabendo apenas o seu conjunto de pontos fixos.
Corolário 5.4.10. Se uma isometria hiperbólica directa f de D (ou
H) diferente da identidade fixa
(i) um (único) ponto em D (ou H) então f é uma rotação hiperbólica
em torno desse ponto fixo;
(ii) um único ponto em ∂D (ou R) então f é uma rotação limite em
torno desse ponto;
(iii) dois pontos em ∂D (ou R) então f é uma translação hiperbólica
ao longo da recta hiperbólica que une os dois pontos fixos.
Se uma isometria hiperbólica inversa f de D (ou H) fixa
(iv) os pontos de uma recta hiperbólica l então f é a reflexão em l;
(v) dois pontos em ∂D (ou R) e nenhum outro ponto em D (ou H)
então f é uma reflexão deslizante ao longo da recta hiperbólica
que une os dois pontos fixos.
Exemplo 5.4.11. Seja f : H → H a isometria definida por
2z + 1
f (z) = .
z+1
Os seus pontos fixos são as soluções da equação
f (z) = z ⇔ 2z + 1 = z 2 + z ⇔ z 2 − z − 1 = 0,
√ √
ou seja, os pontos z = 12 + 25 e z = 12 − 25 . Como os dois pertencem a R
temos que f (uma isometria directa) é uma translação ao longo da recta que √
une os dois pontos fixos, ou seja a recta hiperbólica de equação |z − 12 | = 25 .
Exemplo 5.4.12. Seja f : H → H a isometria definida por
2z + 3
f (z) = .
z+1
Os seus pontos fixos z = x + y i são as soluções da equação
f (z) = z ⇔ 2z+3 = |z|2 +z ⇔ |z|2 +z−2z−3 = 0 ⇔ x2 +y 2 −x−3+3yi = 0,
pelo que
x2 + y 2 − x − 3 = 0 e y = 0.
√
1 13
Então y = 0 e x2 − x − 3 = 0 e f tem dois pontos fixos reais: z = 2 + 2 e
√
1 13
z= 2 − 2 . Como f é uma isometria inversa, conclui-se que é uma reflexão
5.5. TRIÂNGULOS HIPERBÓLICOS 221
com deslize ao longo da recta que√une os dois pontos fixos, ou seja a recta
hiperbólica de equação |z − 12 | = 213 .
Exemplo 5.4.13. Seja f : H → H a isometria definida por
2z + 3
f (z) = .
z−2
Os seus pontos fixos z = x + y i são as soluções da equação
f (z) = z ⇔ 2z + 3 = |z|2 − 2z ⇔ |z|2 − 2(z + z) − 3 = 0 ⇔ (x − 2)2 + y 2 = 7,
√
pelo que f é a reflexão na recta hiperbólica de equação |z − 2| = 7.
5.5. Triângulos hiperbólicos
Vimos na Secção 4.1 que a soma dos ângulos internos de um triângulo
esférico é sempre maior do que π, ao contrário do que acontece em geometria
euclidiana, onde a soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre π.
Vamos ver agora que, em geometria hiperbólica, a soma dos ângulos internos
de um triângulo hiperbólico (região limitada por três rectas hiperbólicas
que se intersectam duas a duas em três pontos distintos de D ou H) é sempre
menor do que π.
Teorema 5.5.1. Seja ∆ um triângulo hiperbólico em D ou H com ângulos
internos α, β, γ. Então
α + β + γ < π.
Demonstração: Como a transformação de Möbius J : C → C preserva
ângulos podemos considerar apenas triângulos hiperbólicos em D. Além
disso, usando uma isometria apropriada pode assumir-se que um dos vértices
de ∆ é a origem (cf. Exercı́cio 5.6.9). Neste caso, dois dos segmentos de recta
hiperbólicos que delimitam o triângulo ∆ são segmentos de recta euclidianos
com inı́cio na origem. Além disso, ∆ está contido num triângulo euclidiano
∆b com os mesmos vértices de ∆.
Como o ângulo interno de ∆ na origem coincide com o ângulo interno
de ∆b nesse ponto e os outros dois ângulos internos de ∆ são menores que os
ângulos de ∆ b correspondentes, conclui-se que a soma dos ângulos internos
de ∆ é menor que a soma dos ângulos internos de ∆, b ou seja que é menor
que π.
222 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
5.6. Exercı́cios
Exercı́cio 5.6.1. Determine os pontos fixos das transformações de Möbius
f : C → C seguintes e indique aquelas cuja restrição a H é uma isometria:
z+2 1 3z − 1
a) f (z) = ; b) f (z) = ; c) f (z) = 2z + 3; d) f (z) = .
3z + 4 2z z+1
Exercı́cio 5.6.2. Qual a transformação de Möbius f : C → C que
satisfaz f (0) = i, f (1) = 2 e f (−1) = 4?
Exercı́cio 5.6.3. Determine a forma geral de uma transformação de
Möbius f : C → C que leva os pontos ∞, z0 e w0 , respectivamente nos
pontos 0, 1 e ∞.
Exercı́cio 5.6.4. Considere o conjunto S = {0, 1, ∞} ⊂ C. Determine
todas as transformações de Möbius f : C → C que deixam S invariante.
Exercı́cio 5.6.5. Sejam f, g : C → C duas transformações de Möbius
conjugadas i.e tais que f = h ◦ g ◦ h−1 , onde h é também uma transformação
de Möbius. Mostre que f e g têm o mesmo número de pontos fixos.
Exercı́cio 5.6.6. Determine as imagens f R e f (C) pela aplicação
z+1
f (z) = ,
z−1
onde C := {z ∈ C : |z| = 1}.
Exercı́cio 5.6.7. Considere a aplicação f (z) = 1/z. Qual a imagem
das rectas y = kx, y = ax + b e das circunferências x2 + y 2 = ax e |z| = 1,
onde x = Re(z) e y = Im(z) e a, b ∈ R.
Exercı́cio 5.6.8. Seja b ∈ R+ . Mostre que dH (i, b i) = |log b|.
Exercı́cio 5.6.9. Seja z0 ∈ D. Usando o Teorema 5.2.7 indique uma
isometria f : D → D tal que f (z0 ) = 0.
Exercı́cio 5.6.10. Seja l uma recta hiperbólica em D e z0 um ponto de
D qualquer. Mostre que existe uma única recta hiperbólica que passa em z0
e é perpendicular a l.
Sugestão: Como as isometrias de D levam rectas hiperbólicas em rectas
hiperbólicas e preservam ângulos, pode assumir-se, usando uma isometria apro-
priada, que z0 = 0.
Exercı́cio 5.6.11. Determine a recta hiperbólica que passa em i e 2 + i.
5.6. EXERCÍCIOS 223
Exercı́cio 5.6.12. Qual o conjunto de pontos equidistantes de i e 2 + i
para a distância hiperbólica em H?
Exercı́cio 5.6.13. Definindo a distância dum ponto z ∈ H a uma recta
hiperbólica l ⊂ H como sendo a distância entre z e o ponto de interseção de
l com a recta hiperbólica l0 que passa em z e é perpendicular a l, mostre que
o conjunto de pontos a uma distância hiperbólica fixa r da recta hiperbólica
de equação Re z = 0, consiste num par de rectas euclidianas. Qual a relação
entre r e o ângulo entre cada uma dessas rectas e a recta Re z = 0?
Exercı́cio 5.6.14. Calcule a distância hiperbólica do ponto 1 + i à recta
de equação Re z = 0.
Exercı́cio 5.6.15. Seja z0 ∈ R. Indique uma isometria f : H → H cuja
extensão a C leva z0 em 0.
Exercı́cio 5.6.16. Mostre que duas semi-rectas euclidianas em H com
inı́cio num ponto comum do eixo real são paralelas (no sentido em que se
mantêm a uma distância hiperbólica constante uma da outra).
Sugestão: Usando uma isometria apropriada pode assumir-se que as duas
semirectas têm inı́cio em 0 e utilizar o Exercı́cio 5.6.13.
Exercı́cio 5.6.17. Dado um triângulo hiperbólico de vértices A, B, C
em D mostre que
sinh b sinh c cos α = cosh b cosh c − cosh a,
onde α é o ângulo no vértice A (i.e. α = ]BAC) e a, b e c são os com-
primentos hiperbólicos do lados opostos a A, B e C respectivamente (i.e.
a = dD (B, C), b = dD (A, C) e C = dD (A, B)).
Sugestão: Usando uma isometria apropriada pode assumir-se que A = 0 e que
B = s > 0 é um ponto no eixo real positivo. Então C = reαi para algum r > 0 e
reαi − s
c
b a
tanh = s, tanh = r e tanh = .
2 2 2 1 − rseαi
Note que
1 + tanh2 a
2
cosh a = .
1 − tanh2 a
2
Exercı́cio 5.6.18. Seja h∆ a altura (hiperbólica) em relação à hipotenusa
de um triângulo hiperbólico rectângulo isósceles ∆ ⊂ D. Mostre que o con-
junto dos possiveis valores de h∆ é limitado e determine o seu supremo.
Sugestão: Usando uma isometria apropriada pode assumir-se que o vértice
correspondente ao ângulo recto é a origem.
224 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
Exercı́cio 5.6.19. Mostre que uma circunferência hiperbólica em D de
centro e raio hiperbólicos z0 e r respectivamente é uma circunferência eu-
clidiana (cf. Lema 5.1.8) de centro w0 e raio R euclidianos dados por
z0 (1 − m2 ) m(1 − |z0 |2 )
w0 = e R= ,
1 − m2 |z0 |2 1 − m2 |z0 |2
r
onde m = tanh 2 .
Exercı́cio 5.6.20. Diga, justificando se as seguintes afirmações são ver-
dadeiras ou falsas:
a) uma recta hiperbólica e uma circunferência hiperbólica em D ou H inter-
sectam-se no máximo em dois pontos.
b) duas circunferências hiperbólicas em D ou H intersectam-se no máximo
em dois pontos.
az+b
Exercı́cio 5.6.21. Seja f (z) = com a, b, c, d ∈ R e ad − bc = 1 uma
cz+d !
a b
isometria de H diferente da identidade e considere a matriz A = .
c d
Mostre que
• se |trA| < 2 então f é uma rotação;
• se |trA| = 2 então f é uma rotação limite;
• se |trA| > 2 então f é uma translação hiperbólica.
Exercı́cio 5.6.22. Seja f (z) = az+b
cz+d com a, b, c, d ∈ R e ad − bc > 0 uma
isometria de H. Mostre que f é uma meia volta se e só se a + d = 0.
Exercı́cio 5.6.23. Em H considere os pontos P := −3 + i e Q := 2 + 4i
e as rectas hiperbólicas ` e m de equações
` : |z + 3| = 3 e m : Re z = 4
respectivamente.
a) Calcule a distância hiperbólica dH (P, Q).
b) Determine a equação da recta hiperbólica que passa em P e Q.
c) Qual a imagem de P pela reflexão hiperbólica na recta `?
d) Determine a recta hiperbólica perpendicular a ` e a m.
e) Indique uma isometria directa h : H → H tal que h(`) = m e classifique
essa isometria.
f) Quais as rectas hiperbólicas que passam em Q e são paralelas (e não
ultraparalelas) a `.
g) Indique uma recta hiperbólica que passa em Q e é ultraparalela a `.
5.6. EXERCÍCIOS 225
Exercı́cio 5.6.24. Seja r uma recta hiperbólica qualquer de H e S um
ponto que não pertence a r. Mostre que existem exactamente duas rectas
paralelas (e não ultraparalelas) a r que passam em S e existem infinitas
rectas ultraparalelas a r que passam em S.
Exercı́cio 5.6.25. Determine a recta hiperbólica de H que é perpendic-
ular às rectas hiperbólicas de equações |z − 12| = 3 e |z − 4| = 1.
Exercı́cio 5.6.26. Qual o conjunto de pontos de H que são equidistantes
de z0 = 1 + i e w0 = 4 + 4i para a distância hiperbólica?
Sugestão: Note que a reflexão hiperbólica que leva z0 em w0 é uma inversão
numa circunferência de centro na origem.
Exercı́cio 5.6.27. Seja P um ponto de D \ {0}. Determine a recta
hiperbólica ` de D tal que R` (P ) = 0, onde R` : D → D é a reflexão
hiperbólica em `. Mostre que o centro da circunferência de C correspondente
é I(P ) onde I : C → C é a inversão na circunferência unitária.
Exercı́cio 5.6.28. Dê um exemplo de uma isometria de H que trans-
forme a recta hiperbólica de equação |z| = 1 na recta hiperbólica de equação
Re z = 2.
Exercı́cio 5.6.29. Considere as isometrias fi : H → H, i = 1, . . . , 4,
definidas por
z+1 z
f1 (z) = 2 z, f2 (z) = − , f3 (z) = z + 1 e f4 (z) = − .
z−1 z−1
a) Classifique as isometrias fi .
b) Escreva cada uma destas aplicações como uma composição de reflexões.
Exercı́cio 5.6.30. Seja f : H → H a isometria definida por
z
f (z) = .
2z − 3
a) Classifique a isometria f .
b) Dê um exemplo de uma translação hiperbólica ao longo da recta hiperbólica
de equação |z − 1| = 1.
Exercı́cio 5.6.31. Considere a isometria f : H → H definida por
2z + 5
f (z) = .
z−2
a) Classifique a isometria f , indicando o seu conjunto de pontos fixos.
b) Indique uma recta hiperbólica m tal que Rm ◦ f seja uma rotação limite.
226 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
Exercı́cio 5.6.32. Para cada α ∈ R considere a aplicação fα : C → C
definida por
2z + α
fα (z) = .
−3z + 1
a) Determine os valores de α para os quais a restrição de fα a H é uma
translação hiperbólica.
b) Indique uma isometria h : H → H tal que g := h ◦ f0 ◦ h−1 é uma
translação hiperbólica ao longo da recta de equação Re z = 0.
c) Quais as circunferências de C que são invariantes por uma translação
hiperbólica ao longo da recta de equação Re z = 0?
d) Quais as circunferências de C que são invariantes por f0 .
e) Mostre que dH (z, f0 (z)) é constante ao longo da recta hiperbólica de
equação |z + 16 | = 61 .
Exercı́cio 5.6.33. Considere as isometrias f : H → H definidas por
2z + α2
fα (z) = ,
z+2
com α ∈] − 2, 2[.
a) Determine o(s) valor(es) de α para os quais fα é uma rotação limite.
b) Classifique as isometrias Rmα ◦ fα ◦ Rmα onde mα é a recta hiperbólica
de equação Re z = α.
Exercı́cio 5.6.34. Para cada α ∈ R, considere a aplicação fα : C → C
definida por
3z + α
fα (z) = .
2z + (α − 1)
a) Determine os valores de α para os quais a restrição de fα a H é uma
reflexão com deslize.
b) Classifique as isometrias de H,
f0 , f02 , h ◦ f02 ◦ h−1 e f−2 ,
onde h : H → H é a reflexão na recta hiperbólica de equação Re z = 3.
c) Indique dois pontos P, Q ∈ H para os quais a recta hiperbólica de equação
2
3 5
z− =
2 4
é o conjunto de pontos de H equidistantes de P e Q.
Exercı́cio 5.6.35. Em H considere as rectas hiperbólicas `1 , `2 , `3 e `4
de equações
`1 : Re z = 0, `2 : |z| = 4, `3 : |z| = 2 e `4 : |z + 1| = 3
5.6. EXERCÍCIOS 227
e a isometria f : H → H definida por
z+1
f (z) = .
z−1
a) Classifique as isometrias
f, R`2 ◦ R`1 , R`3 ◦ R`2 , R`4 ◦ R`3 , R`4 ◦ R`1 e R`3 ◦ R`2 ◦ R`1 .
b) Qual a imagem de `4 pela reflexão na recta hiperbólica `2 ?
c) Determine, se existir, uma isometria h : H → H tal que h(`2 ) = `3 e
h(`4 ) = `4 .
d) Quais as isometrias directas de H que comutam com f ?
Exercı́cio 5.6.36. Considere as rectas hiperbólicas de `1 , `2 , `3 e `4 ⊂ D
definidas por
√ √
`1 : Im z = −Re z, `2 : |z+ 2i| = 1, `3 : |z− 5i/2| = 1/2, `4 : Re z = 0.
Classifique as isometrias
Rl1 ◦ Rl2 , Rl2 ◦ Rl3 , Rl4 ◦ Rl1 , Rl4 ◦ Rl2 e Rl2 ◦ Rl3 ◦ Rl4 .
Exercı́cio 5.6.37. Sejam `1 e `2 as rectas de H definidas por Re z = 0 e
Re z = 2 respectivamente. Determine e classifique as isometrias f : H → H
tais que f (`1 ) = `2 .
Exercı́cio 5.6.38. Seja f : H → H uma isometria tal que f (i) = 2i e
f (2 + i) pertence à recta Re z = 2.
a) Diga se f pode ser uma reflexão
√ hiperbólica.
14z + 2 7
b) Assuma que f (z) = √ e classifique essa isometria. Qual a im-
− 7z + 7 √
agem f (m) da recta hiperbólica m de equação Re z = 7 ?
Exercı́cio 5.6.39. Seja g : H → H a reflexão na recta hiperbólica de
equação |z − 1| = 1.
a) Sendo C := {z ∈ H : |z − (2 + i)| = 1} determine g(C).
b) Indique a reflexão h : H → H tal que g ◦ h ◦ g é a reflexão na recta de
equação Re z = 2.
Exercı́cio 5.6.40. Considere a isometria f : D → D definida por
(1 + i)z + 1
f (z) = .
z+1−i
Classifique as isometrias f e h ◦ f ◦ h onde h é a reflexão na recta de equação
Im z = Re z.
228 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
Exercı́cio 5.6.41. Considere a reflexão hiperbólica g : D → D que
verifica g(1/2) = 0.
a) Indique a expressão de g.
b) Determine a equação da recta hiperbólica m que passa em z0 = 21 e é
perpendicular ao eixo real.
c) Qual o conjunto de pontos fixos em D de g ◦ Rm , onde Rm é a reflexão
em m?
Exercı́cio 5.6.42. Seja f : H → H uma isometria tal que f (i) = 2i e
f (1 + i) pertence à recta euclidiana de equação Im z = 1.
a) Quais os possı́veis valores de f (1 + i)?
b) Determine e classifique as isometrias f que satisfazem estas condições.
Exercı́cio 5.6.43. Seja f : H → H uma reflexão com deslize hiperbólica
que deixa invariante a recta hiperbólica de equação |z| = 1, e g : H → H a
reflexão na recta m de equação Re z = 1.
a) Quais as possı́veis expressões para f ?
b) Sabendo que f (0) = 2 classifique a isometria f ◦ g.
Exercı́cio 5.6.44. Seja C a curva de H definida por Im z = 2 Re z.
a) Determine as isometrias f : H → H que preservam C e classifique-as.
b) Determine a imagem g(C) onde g : H → H é a isometria definida por
z+1
g(z) = −z+1 .
Exercı́cio 5.6.45. Mostre que duas isometrias directas de H comutam
se e só se têm o mesmo conjunto de pontos fixos em C.
Exercı́cio 5.6.46. Seja f : H → H uma rotação limite. Mostre que se
g : H → H é uma isometria que comuta com f , então g é uma isometria
directa.
Exercı́cio 5.6.47. Mostre que duas reflexões em rectas hiperbólicas l e
m de H comutam se e só se l e m são perpendiculares.
Exercı́cio 5.6.48. Indique, justificando, uma condição necessária e su-
ficiente para que duas reflexões com deslize em H comutem.
Exercı́cio 5.6.49. Diga, justificando, se as seguintes afirmações sobre
isometrias f, g de H são verdadeiras ou falsas:
a) Se f (2 + i) = −2 + i e ` é a recta hiperbólica de equação Re z = 0, então
f (`) = `.
5.6. EXERCÍCIOS 229
b) Se f (`) = g(`) = ` para alguma recta hiperbólica ` ⊂ H, então f e g
comutam.
Exercı́cio 5.6.50. Mostre que se ` e m são duas rectas hiperbólicas
paralelas assimptóticas em z0 ∈ R (i.e. ` e m não são ultraparalelas) e `0
é uma terceira recta hiperbólica assimptótica a ` e a m em z0 , então existe
uma recta hiperbólica m0 tal que
Rm ◦ R` = Rm0 ◦ R`0 .
Exercı́cio 5.6.51. Mostre que o grupo de isometrias de H é gerado pelas
reflexões em rectas hiperbólicas definidas por equações da forma
|z − k| = r,
onde k ∈ R e r ∈ R+ . Qual o resultado equivalente em D?
Exercı́cio 5.6.52. Mostre que a imagem de um horociclo por uma
isometria hiperbólica é ainda um horociclo.
Exercı́cio 5.6.53. Seja g : H → H uma isometria que deixa invariante
o horociclo m de equação Im z = 1.
a) Indique as possı́veis expressões de g e classifique as isometrias correspon-
dentes.
b) Quais as isometrias de H que deixam invariante o horociclo de equação
|z − i| = 1?
Exercı́cio 5.6.54. Mostre que, dados dois pontos distintos P, Q ∈ H,
existem exactamente dois horociclos que passam em P e Q.
Sugestão: Usando uma isometria apropriada pode assumir que Im P = Im Q
e Re P = −Re Q.
Exercı́cio 5.6.55. Dado um horociclo C de H e um ponto P ∈ C qual-
quer, indique quantos horociclos de H intersectam C apenas em P . Descreva
geometricamente como se determina(m).
Exercı́cio 5.6.56. Quais os horociclos de D que passam na origem?
Exercı́cio 5.6.57. Seja f : H → H uma isometria directa com dois
pontos fixos em R e seja x0 ∈ R um destes pontos. Mostre que se A é o
interior da região limitada por um horociclo C que passa em x0 e z ∈ C ∩ H,
então ou f (z) ∈ A ou f −1 (z) ∈ A.
Exercı́cio 5.6.58.
230 5. GEOMETRIA HIPERBÓLICA
Mostre que no plano hiperbólico não existem rectângulos hiperbólicos (i.e.
quadriláteros hiperbólicos com vértices em H com todos os ângulos internos
iguais a π/2).
Exercı́cio 5.6.59. Seja ` ⊂ H uma recta hiperbólica. Dados dois pontos
z0 , w0 ∈ H \ ` determine o mı́nimo do conjunto
A = {dH (z0 , z) + dH (w0 , z) : z ∈ `} ⊂ R
e indique em que pontos é obtido.
Exercı́cio 5.6.60. Considere o subgrupo de isometrias hiperbólicas
az + b
Γ := g : H → H : g(z) = , com a, b, c, d ∈ Z, ad − bc = 1
cz + d
e o conjunto R := {z ∈ H : − 12 ≤ Re(z) ≤ 12 , |z| ≥ 1}. Mostre que, para
cada z ∈ H, existe um g ∈ Γ tal que g(z) ∈ R.
Sugestão: Note que, dado um z ∈ H, o número de pares (c, d) ∈ Z2 tais que
|cz + d| ≤ 1 é finito, pelo que o conjunto A = {Im g(z) : g ∈ Γ} tem um máximo.
Se Im z ≥ 1 então existe uma rotação limite f ∈ Γ em torno de ∞ tal que f (z) ∈ R.
Se Im z < 1 então, se considerarmos g tal que Im g(z) é o máximo de A, temos que
Im g(z) > 1 (caso contrário Im (h ◦ g)(z) > Im g(z), onde h(z) = −1/z ∈ Γ).
APÊNDICE A
Álgebra
A.1. Grupos
Uma operação (binária) num conjunto A é uma aplicação
f : A × A → A.
Uma operação em A faz então corresponder a cada par de elementos (a1 , a2 )
de A um elemento f (a1 , a2 ) de A. Vamos indicar f (a1 , a2 ) por a1 ∗ a2 e dizer
que ∗ é uma operação em A.
Uma operação ∗ em A diz-se associativa se
(a1 ∗ a2 ) ∗ a3 = a1 ∗ (a2 ∗ a3 ), ∀a1 , a2 , a3 ∈ A
e comutativa se
a1 ∗ a2 = a2 ∗ a1 , ∀a1 , a2 ∈ A.
Um grupo G é um conjunto em que está definida uma operação asso-
ciativa satisfazendo as seguintes propriedades:
1. existe um único elemento e de G (chamado a identidade de G),
tal que
g ∗ e = e ∗ g = g, ∀g ∈ G.
2. para cada g ∈ G existe um único elemento g −1 (o inverso de g),
tal que
g ∗ g −1 = g −1 ∗ g = e, ∀g ∈ G.
Um grupo G diz-se abeliano se a operação for comutativa.
Normalmente, se um grupo G é comutativo, indica-se a operação do
grupo por (+) e a identidade e por 0. Em geral, para um grupo não neces-
sariamente comutativo, costuma indicar-se a operação por (·) e a identidade
e por 1 ou 1G ou ainda idG .
Um subconjunto H de G diz-se um subgrupo de G se a operação ∗
de G se restringe a H e define uma estrutura de grupo em H. Por outras
palavras, H ⊆ G é um subgrupo de G se e só se
1. h1 , h2 ∈ H ⇒ h1 ∗ h2 ∈ H,
231
232 A. ÁLGEBRA
2. h ∈ H ⇒ h−1 ∈ H
3. e ∈ H.
É fácil verificar que a intersecção de dois subgrupos de um grupo G é sempre
um subgrupo de G e que, em geral, a intersecção de uma famı́lia qualquer
de subgrupos de G é um subgrupo de G.
Dado um grupo G e um subconjunto Γ ⊂ G chama-se subgrupo gerado
por Γ ao mais pequeno subgrupo de G que contém Γ, e indica-se por < Γ >.
Se < Γ >= G diz-se que Γ gera G. Se Γ é um conjunto finito e < Γ >= G,
diz-se que G é finitamente gerado.
Se g ∈ G, o subgrupo < g > consiste em todas as potências inteiras de
g, ou seja
< g >= {e = g 0 , g +1 , g −1 , g 2 , g −2 , . . .},
(onde e = g 0 ). Chama-se a < g > o grupo cı́clico gerado por g. Se todas as
potências inteiras de g forem distintas então < g > tem um número infinito
de elementos e diz-se que é um grupo cı́clico infinito. Em geral, um grupo
G diz-se cı́clico se for gerado por um só elemento.
Um grupo G diz-se um grupo finito se tiver um número finito de ele-
mentos.
Proposição A.1.1. Seja G um grupo cı́clico gerado pelo elemento g 6=
idG . O grupo G é finito se e só se existe m ∈ N tal que m 6= 0 e g m = idG .
Demonstração: Como G é um grupo cı́clico gerado pelo elemento g,
G = {g n : n ∈ Z}.
Suponhamos que existe m ∈ N tal que g m = idG . Então, dado k ∈ Z,
podemos escrever k = m q + r onde q, r ∈ Z e 0 ≤ r < m e assim,
g k = g mq · g r .
Como g mq = idG , concluı́mos que g k = g r , pelo que G contém, no máximo,
os elementos distintos g 0 , g, . . . , g m−1 e portanto G é um conjunto finito.
Logo, se existe m ∈ N tal que g m = idG , temos que G é finito.
Suponhamos agora que G é finito. Então existem n, k ∈ N com n 6= k
tais que g n = g k . Podemos supor que n > k. Como g n = g k temos também
g n g −k = g k g −k = idG
e então g n−k = idG . Conclui-se assim que existe m = n − k 6= 0 tal que
g m = idG .
A.2. ANEIS E CORPOS 233
A.2. Aneis e Corpos
Um anel R é um conjunto onde estão definidas duas operações asso-
ciativas, normalmente designadas por adição (+) e multiplicação (·) que
satisfazem as seguintes propriedades:
1. (R, +) é um grupo abeliano (a sua identidade é normalmente
designada por 0).
2. (Propriedades distributivas) ∀a, b, c ∈ R,
a · (b + c) = a · b + a · c;
(b + c) · a = b · a + c · a.
Um elemento 1 ∈ R diz-se a identidade para a multiplicação se
1 · a = a · 1 = a, ∀a ∈ R.
Se um anel tiver identidade para a multiplicação diz-se que um elemento
a ∈ R tem inverso se existe a−1 ∈ R tal que
a · a−1 = a−1 · a = 1.
Um anel diz-se comutativo se a multiplicação for comutativa, i.e. se
a · b = b · a para todos os elementos a, b ∈ R.
Um corpo F é um anel comutativo com identidade em que cada ele-
mento diferente de zero tem inverso, i.e. para todo o a ∈ F \ {0} existe
a−1 ∈ F tal que
a · a−1 = a−1 · a = 1.
Nota A.2.1. Alguns autores não incluem a condição de que a multi-
plicação é comutativa na definição de corpo, chamando corpo ao que usual-
mente se designa por anel de divisão.
APÊNDICE B
Noções associadas a um produto interno
B.1. Norma de um vector
Seja V um espaço vectorial real de dimensão finita munido de um pro-
duto interno (u, v) → hu, vi. Dado um vector v ∈ V chama-se norma ou
comprimento de v ao número real
p
kv|k := hv, vi.
Exemplo B.1.1. Se considerarmos em Rn o produto interno usual, a
norma de v = (v1 , ..., vn ) ∈ Rn é
q
kvk = v12 + · · · + vn2 .
A função
k·k:V →R
definida por
p
kvk = hv, vi
para todo o vector v ∈ V satisfaz as seguintes propriedades.
Proposição B.1.2. Para todos os vectores u, v, w ∈ V e todo o escalar
λ ∈ R temos
1. kvk ≥ 0.
2. kvk = 0 se e só se v = 0.
3. kλvk = |λ|kvk.
4. ku + vk2 = kuk2 + kvk2 + 2hu, vi.
5. ku − vk2 = kuk2 + kvk2 − 2hu, vi.
6. ku + vk2 − ku − vk2 = 4hu, vi.
7. (Desigualdade de Cauchy-Schwarz)
|hu, vi| ≤ kuk kvk
e a igualdade é verificada se e só se os vectores u e v são linear-
mente dependentes.
235
236 B. NOÇÕES ASSOCIADAS A UM PRODUTO INTERNO
8. (Desigualdade triangular)
ku + vk ≤ kuk + kvk
e a igualdade verifica-se se e só se u = 0 ou v = λu para um
λ ∈ R+0.
9. kuk − kvk ≤ ku + vk.
B.2. Ângulo entre dois vectores
O ângulo entre dois vectores não nulos u e v de um espaço vectorial
real V munido de um produto interno é definido como sendo o único número
real ](u, v) = α ∈ [0, π] tal que
hu, vi
cos α = .
kuk kvk
Nota B.2.1. Este conceito está bem definido pois, por um lado, a de-
sigualdade de Cauchy-Schwartz garante que
hu, vi
∈ [−1, 1]
kuk kvk
e, por outro lado, a aplicação cos : [0, π] → R estabelece uma bijecção entre
[0, π] e [−1, 1].
O ângulo entre dois vectores satisfaz as seguintes propriedades.
Proposição B.2.2. Sejam u e v dois vectores não nulos dum espaço
vectorial real V munido de um produto interno h·, ·i. Então,
(i) ](u, v) = ](v, u);
(ii) ](u, −v) = ](−u, v) = π − ](u, v);
(iii) ](u, v) = π2 se e só se hu, vi = 0;
(iv) ](u, v) = 0 se e só se existe λ > 0 tal que u = λv;
(v) ](u, v) = π se e só se existe λ < 0 tal que u = λv.
B.3. Ângulo orientado de dois vectores de R2
Consideremos em R2 o produto interno usual.
Em R2 , qualquer vector u = (u1 , u2 ) pode ser escrito de forma única
como
u = kuk(cos θ, sin θ),
com θ ∈ [0, 2π[. O ângulo orientado entre dois vectores, ]or (u, v), em que
u = kuk(cos θ1 , sin θ1 ) e v = kvk(cos θ2 , sin θ2 ),
B.4. ÂNGULO ORIENTADO ENTRE DUAS RECTAS EM R2 237
define-se como sendo o único número real α ∈ [0, 2π[ congruente com θ2 −θ1 ,
mod 2π.
De forma equivalente, podemos definir o ângulo orientado de dois vec-
tores não nulos u e v da seguinte forma.
Se u = (u1 , u2 ), v = (v1 , v2 ) forem linearmente independentes,
](u, v), se u v − u v > 0
1 2 2 1
(B.3.1) ]or (u, v) = .
2π − ](u, v), se u1 v2 − u2 v1 < 0
Se u = λv com λ > 0 então
]or (u, v) = 0
e se u = λv com λ < 0, temos
]or (u, v) = π.
O ângulo orientado entre dois vectores de R2 satisfaz as seguintes pro-
priedades (em que todas as igualdades são mod 2π):
Proposição B.3.1. Sejam u e v dois vectores não nulos de R2 . Então
(i) ]or (u, v) = 2π − ]or (v, u);
(ii) ]or (u, u) = 0;
(iii) ]or (u, v) + ]or (v, w) = ]or (u, w);
(iv) ]or (u + w, v + w) = ]or (u, v);
(v) ]or (−u, v) = ]or (u, −v) = π + ∠or (u, v);
(vi) ]or (−u, −v) = ]or (u, v).
B.4. Ângulo orientado entre duas rectas em R2
Dadas duas rectas l e m de R2 , define-se o ângulo orientado ]or (l, m)
entre l e m, como sendo o menor dos ângulos orientados ]or (u, v), onde u é
um vector director de l e v é um vector director de m. O ângulo orientado
de duas rectas varia entre 0 e π.
Pela definição, e tendo em conta que dados dois vectores u e v não nulos
se tem
]or (−u, v) ≡ ]or (u, −v) ≡ π + ]or (u, v) (mod 2π) e
]or (−u, −v) ≡ ]or (u, v) (mod 2π),
para calcular o ângulo orientado entre duas rectas l e m basta tomar um
vector director u0 de l e um vector director v 0 de m e, se ]or (u0 , v 0 ) < π, então
]or (l, m) = ∠or (u0 , v 0 ). Se ]or (u0 , v 0 ) ≥ π então ]or (l, m) = ]or (u0 , v 0 ) − π.
238 B. NOÇÕES ASSOCIADAS A UM PRODUTO INTERNO
O ângulo orientado entre duas rectas de R2 satisfaz as seguintes pro-
priedades.
Proposição B.4.1. Sejam l e m duas rectas de R2 . Então
(i) ]or (l, m) = π − ]or (m, l);
(ii) se u e v são vectores directores de l e m respectivamente, então
2 ]or (l, m) ≡ 2 ]or (u, v), (mod 2π);
(iii) se l, m e n são rectas de R2 , então
2 ]or (l, n) = 2 (]or (l, m) + ]or (m, n)), (mod 2π).
Exemplo B.4.2. Consideremos as rectas
√ √
l = (3, 20) + L{(1, 1)} e m = (π, 2) + L{( 3 + 1, 3 − 1)}.
Temos √ √
√ √ 2 3 3
cos ] (1, 1), ( 3 + 1, 3 − 1) = √ √ = ,
2 8 2
pelo que √ √ π
] (1, 1), ( 3 + 1, 3 − 1) = .
√ √ 6
Como 1 · ( 3 − 1) − 1 · ( 3 + 1) < 0 (ver (B.3.1)), temos
√ √ π
]or (1, 1), ( 3 − 1, 3 + 1) = 2π − > π.
6
Assim, ]or (l, m) = π − π6 .
APÊNDICE C
Aplicações ortogonais
C.1. Aplicações ortogonais
Seja V um espaço vectorial real de dimensão finita munido de um pro-
duto interno (u, v) 7→ hu, vi.
Definição C.1.1. Uma aplicação f : V → V diz-se uma aplicação
ortogonal (relativamente ao produto interno em V ) se, para quaisquer dois
vectores u, v ∈ V , se tem
hu, vi = hf (u), f (v)i.
Nota C.1.2. É fácil ver, a partir da definição de norma de um vector,
que uma aplicação ortogonal f preserva as normas dos vectores, i.e.
kf (v)k = kvk,
para todo o vector v ∈ E. Com efeito,
kf (v)k2 = hf (v), f (v)i = hv, vi = kvk2 .
Proposição C.1.3. Toda a aplicação ortogonal é uma aplicação linear
bijectiva (ou seja um isomorfismo de espaços vectoriais).
Demonstração: Seja f : V → V uma aplicação ortogonal. Vejamos
primeiro que f é linear. Sejam u, v ∈ V e α ∈ R. Temos
kf (αu + v) − αf (u) − f (v)k2 = kf (αu + v)k2 − 2αhf (αu + v), f (u)i
− 2hf (αu + v), f (v)i + α2 kf (u)k2 + 2αhf (u), f (v)i + kf (v)k2
= kαu + vk2 − 2αhαu + v, ui − 2hαu + v, vi + α2 kuk2 + 2αhu, vi + kvk2
= kαu + vk2 − 2hαu + v, αu + vi + α2 kuk2 + 2αhu, vi + kvk2 = 0.
Conclui-se assim que kf (αu + v) − αf (u) − f (v)k2 = 0 e então
f (αu + v) = αf (u) + f (v),
pelo que f é uma aplicação linear.
239
240 C. APLICAÇÕES ORTOGONAIS
Para ver que f é bijectiva basta ver que ker f = {0}. Seja u ∈ V tal que
f (u) = 0. Então, como
kuk2 = kf (u)k2 = 0,
temos que u = 0.
C.2. Propriedades das aplicações ortogonais de espaços de
dimensão finita
Proposição C.2.1. A aplicação inversa de uma aplicação ortogonal é
ainda ortogonal.
Proposição C.2.2. A composição de duas aplicações ortogonais de V
em V é uma aplicação ortogonal.
Proposição C.2.3. Se λ é um valor próprio de uma aplicação ortogonal,
então |λ| = 1.
Proposição C.2.4. Dada uma aplicação linear f : V → V , as seguintes
afirmações são equivalentes:
(i) f : V → V é uma aplicação ortogonal.
(ii) kf (u)k = kuk para todo o vector u ∈ V .
(iii) Existe uma base ortonormada {e1 , . . . , en } de V tal que
{f (e1 ), . . . , f (en )}
é uma base ortonormada de V .
(iv) Para toda a base ortonormada {e1 , . . . , en } de V , os vectors
f (e1 ), . . . , f (en )
formam uma base ortonormada de V .
(v) A matriz A que representa f em relação a uma base ortonormada
é uma matriz ortogonal, ou seja verifica
AT A = Id.
Proposição C.2.5. Se f : V → V é uma aplicação ortogonal, então
para quaisquer vectores u, v ∈ V tem-se ](u, v) = ](f (u), f (v)).
Proposição C.2.6. Se f : V → V é uma aplicação ortogonal e u e v
são vectores próprios associados a valores próprios distintos, então
hu, vi = 0.
Proposição C.2.7. Se f : V → V é uma aplicação ortogonal e W é um
subespaço vectorial de V , então f (W ⊥ ) = (f (W ))⊥ .
C.3. APLICAÇÕES ORTOGONAIS DE R2 COM O PRODUTO INTERNO USUAL 241
C.3. Aplicações ortogonais de R2 com o produto interno usual
Considere em R2 o produto interno usual, que é o produto interno em
relação ao qual a base canónica é ortonormada. Seja f uma aplicação or-
togonal de R2 em R2 , e A a matriz de f em relação à base canónica. Então,
como a base canónica é ortornormada em relação ao produto interno usual,
temos, pela Proposição C.2.4 - v), que a matriz A é ortogonal. Seja
" #
a b
A= .
c d
Como A é ortogonal, temos AT A = Id, pelo que
2 2
a + c = 1
b2 + d2 = 1
ab + cd = 0.
Temos também AAT = Id, pelo que
2 2
a + b = 1
c2 + d2 = 1
ac + bd = 0.
Como a2 + c2 = 1, existe θ ∈ [0, 2π[ tal que a = cos θ e c = sin θ. Usando
as equações acima facilmente se conclui que ou b = − sin θ e d = cos θ, ou
b = sin θ e d = − cos θ.
No primeiro caso temos det A = 1 e no segundo temos det A = −1.
Vamos discutir separadamente os dois casos.
Caso I (det A = 1):
Seja " #
cos θ − sin θ
A= , com θ ∈ [0, 2π[.
sin θ cos θ
Se |cos θ| = 1 então ou
" #
1 0
A= e f = Id,
0 1
ou " #
−1 0
A= e f = −Id.
0 −1
Se |cos θ| =
6 1 então o polinómio caracterı́stico de A,
x2 − 2 cos θx + 1,
242 C. APLICAÇÕES ORTOGONAIS
não tem raı́zes reais pelo que f não tem nenhum valor próprio real. Em
particular, para todo o vector não nulo v ∈ V , os vectores f (v) e v são
linearmente independentes.
Caso II (det A = −1):
Se " #
cos θ sin θ
A= , com θ ∈ [0, 2π[,
sin θ − cos θ
então o polinómio caracterı́stico de A é
x2 − 1,
e tem as raı́zes 1 e −1, pelo que existe uma base ortogonal de R2 formada
por vectores próprios de f . O subespaço próprio associado ao valor próprio
1 é o subespaço gerado pelo vector
θ θ
cos , sin .
2 2
O subespaço próprio associado ao valor próprio −1 é o subespaço gerado
pelo vector
θ θ
− sin , cos .
2 2
Seja B = (v, u) uma base de R2 onde v é um vector próprio associado
ao valor próprio 1 e u é um vector próprio associado ao valor próprio −1.
Então D := M (f ; B) é tal que
" #
1 0
D= ,
0 −1
pelo que, para qualquer vector w = αv+βu ∈ R2 se tem f (w) = αv−βu. As-
sim, f , considerada como uma aplicação entre espaços afins, é exactamente
a reflexão na recta que passa por O = (0, 0) e tem a direcção de subespaço
próprio associado ao valor próprio 1, ou seja o subespaço vectorial
θ θ
L cos , sin .
2 2
Nota C.3.1. No Caso I acima, i.e. quando det A = 1, diz-se que f é
→
−
uma rotação de centro em (0, 0) e ângulo θ e denota-se por φ θ . Este
nome vem do facto de que, para todo o θ 6= 0 e θ 6= π, o ângulo orientado
entre v e f (v) é θ.
No Caso II, i.e. quando det A = −1, diz-se que f é uma reflexão. De
facto, f considerada como aplicação entre espaços afins é exactamente a
C.4. FORMA NORMAL DE UMA MATRIZ ORTOGONAL 243
reflexão na recta
θ θ
s = (0, 0) + L cos , sin .
2 2
C.4. Forma normal de uma matriz ortogonal
É possı́vel mostrar que se φ : Rn → Rn é uma aplicação ortogonal,
então existe uma base ortonormada B = (e1 , ...., en ) em relação à qual φ é
representada pela matriz
Idp
−Ids
B1
M (φ; B) =
B2
. ..
Bt
" #
cos θi − sin θi
onde Idk é a matriz identidade k × k, e Bi = com θi ∈
sin θi cos θi
[0, 2π[ e θ 6= π.
Os números p, s e t podem ser 0 e p é exactamente a multiplicidade
geométrica de 1 como valor próprio de φ enquanto que s é exactamente a
multiplicidade geométrica de −1 como valor próprio de φ.
A demonstração é feita por indução em n. Se n = 1 as únicas aplicações
ortogonais são idR e −idR pelo que o resultado é trivial.
Quando n = 2 o resultado foi provado na secção anterior.
Se φ é uma aplicação ortogonal de Rn com n ≥ 3 basta encontrar um
subespaço W não trivial que seja preservado por φ. Com efeito, o seu
complemento ortogonal W ⊥ é também preservado por φ e podemos aplicar
a hipótese de indução a W e a W ⊥ .
Se φ tem um valor próprio real podemos considerar o subespaço W de
dimensão 1 gerado por um vector próprio não nulo. Caso contário, se λ é
um valor próprio complexo, então o seu conjugado λ é também um valor
próprio de φ. Se w é um vector próprio complexo de φ (onde consideramos
Rn como um subconjunto de Cn ) associado ao valor próprio λ, então o seu
conjugado w é um vector próprio associado ao valor próprio λ. Além disso,
o plano complexo gerado por w e w é preservado por φ. Os vectores reais
w+w w−w
Re w = e Im w =
2 2i
geram um plano W de Rn preservado por φ.
APÊNDICE D
Espaço dual
Definição D.0.1. Dado um espaço vectorial V sobre um corpo K chama-
se forma linear a uma aplicação linear f : V → K.
Definição D.0.2. Seja V um espaço vectorial sobre K. O espaço dual
de V (designado por V ∗ ) é o conjunto de todas as formas lineares em V .
O conjunto V ∗ tem naturalmente uma estrutura de espaço vectorial em
que a soma de duas formas lineares f, g ∈ V ∗ é a forma linear f + g definida
por
(f + g)(v) = f (v) + g(v), ∀v ∈ V
e a multiplicação de uma forma f ∈ V ∗ por um escalar λ ∈ K é a forma
linear λf dada por
(λf )(v) = λf (v), ∀v ∈ V.
Proposição D.0.3. Se (e1 , . . . , en ) é uma base do espaço vectorial V
então o conjunto (e∗1 , . . . , e∗n ) em que e∗i ∈ V ∗ é a forma linear definida por
e∗i (ej ) = 0, i 6= j
e∗i (ei ) = 1,
é uma base de V ∗ .
Demonstração: Dada f ∈ V ∗ , seja ai ∈ K tal que f (ei ) = ai . Como uma
aplicação linear fica univocamente determinada pelas imagens dos vectores
aj e∗j (ei ) = ai , conclui-se que f = aj e∗j , pelo que as
P P
de uma base e
formas lineares e1 , . . . , en geram o espaço V . Então para ver que (e∗1 , . . . , e∗n )
∗ ∗ ∗
é uma base de V ∗ , basta verificar a independência linear destes vectores.
Seja b1 e∗1 + · · · + bn e∗n uma combinação linear dos vectores e∗1 , . . . , e∗n .
Como
(b1 e∗1 + · · · + bn e∗n )(ei ) = bi , ∀i = 1, ..., n,
temos que se b1 e∗1 + · · · + bn e∗n = 0, então b1 = · · · = bn = 0.
Definição D.0.4. À base (e∗1 , . . . , e∗n ) como na Proposição D.0.3 dá-se
o nome de base dual da base (e1 , . . . , en ).
245
246 D. ESPAÇO DUAL
Definição D.0.5. Seja W um subespaço vectorial do espaço vectorial V
sobre um corpo K. O anulador ou aniquilador de W é o conjunto
Ann(W ) := {f ∈ V ∗ : f (w) = 0, ∀w ∈ W }.
Proposição D.0.6. Seja W um subespaço vectorial de dimensão r dum
espaço vectorial V de dimensão n sobre um corpo K. Então Ann(W ) é um
subespaço vectorial de V ∗ de dimensão n − r.
Demonstração: É fácil verificar que Ann(W ), sendo não vazio (pelo
menos a forma linear identicamente nula pertence a Ann(W )), é fechado
para a soma e para a multiplicação por escalares, pelo que é um subespaço
vectorial de V ∗ .
Quanto à dimensão, basta verificar que, dada uma base (v1 , . . . , vn ) de
∗
V tal que (v1 , . . . , vm ) é uma base de W , então (vm+1 , . . . , vn∗ ) é uma base
de Ann(W ).
Proposição D.0.7. Sejam W1 e W2 subespaços vectoriais de um espaço
vectorial V de dimensão n. Então:
1) W1 ⊂ W2 se e só se Ann(W1 ) ⊃ Ann(W2 );
2) Ann(W1 ∩ W2 ) = hAnn(W1 ), Ann(W2 )i;
3) Ann(hW1 , W2 i) = Ann(W1 ) ∩ Ann(W2 ).
Demonstração: A implicação 1) da esquerda para a direita é óbvia pela
definição de anulador. Por outro lado, por contra recı́proco, suponhamos que
W1 6⊂ W2 . Então, dado w ∈ W1 tal que w ∈ / W2 , podemos construir uma
base (w1 , . . . , wk , w, wk+2 , . . . , mn ) de V em que (w1 , . . . , wk ) é uma base
de W2 . Assim temos uma base (w∗ , wk+2 ∗ , . . . , w ∗ ) para Ann(W ). Como,
n 2
por definição w∗ (w) = 1, e w∗ não pode pertencer a Ann(W1 ), temos que
Ann(W1 ) 6⊃ Ann(W2 ).
As afirmações 2) e 3) decorrem sem dificuldade da definição de anulador.
APÊNDICE E
Grupo de Möbius generalizado
Neste Apêndice vamos estudar uma classe de aplicações da esfera de
Riemann que desempenha um papel fundamental em geometria hiperbólica.
Definição E.0.1. Uma aplicação f : C → C diz-se uma transformação
de Möbius se é da forma
az + b
f (z) =
cz + d
com a, b, c, d ∈ C tais que ad − bc 6= 0.
Nota E.0.2. Se f (z) = ac z+d
z+b
é uma destas aplicações com c 6= 0 então
f (∞) = ac . Caso contrário, se c = 0, temos f (∞) = ∞.
Uma aplicação linear invertı́vel T : C2 → C2 , definida em relação à base
canónica por uma matriz
!
a b
∈ GL(2, C),
c d
induz a projectividade τ : P1C → P1C dada por
(E.0.1) τ ([z0 : z1 ]) = [az0 + bz1 : cz0 + dz1 ].
Usando a identificação de P1C com C em (4.3.1), podemos considerar uma
aplicação f : C → C que a cada z 6= ∞ faz corresponder o ponto de C
definido por τ ([z : 1]), e tal que f (∞) é o ponto de C definido por τ ([1 : 0])
(ou seja [a : c]). Como
h i
az+b
cz+d
: 1 , se cz + d 6= 0
τ ([z : 1]) = [az0 + b : cz0 + d] =
[1:0], c.c.,
temos que τ ([z : 1]) é identificado com o ponto ac z+d
z+b
∈ C, onde ac z+d
z+b
=∞
a
se cz + d = 0. Por outro lado, τ ([1 : 0]) é identificado com o ponto c ∈ C se
c 6= 0 e com ∞ se c = 0.
247
248 E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO
Assim, a projectividade de P1C em (E.0.1) define a transformação de
Möbius f : C → C dada por
az + b
f (z) = .
cz + d
Inversamente, a uma transformação de Möbius f (z) = ac z+d
z+b
podemos
associar uma matriz 2 × 2 invertı́vel de coeficientes complexos
!
a b
∈ GL(2, C)
c d
e duas matrizes A, B ∈ GL(2, C) estão associadas a uma mesma trans-
formação de Möbius se e só se existe λ ∈ C \ {0} tal que A = λB (ou seja
se a transformações lineares associadas induzem a mesma projectividade de
P1C ).
Note que se f e g são duas transformação de Möbius definidas respecti-
vamente por
a1 z + b1 a2 z + b2
f (z) = e g(z) = ,
c1 z + d1 c2 z + d2
então f ◦ g é a transformação de Möbius associada à matriz
! ! !
a1 b1 a2 b2 a1 a2 + b1 c2 a1 b2 + b1 d2
· = ,
c1 d1 c2 d2 c1 a2 + d1 c2 c1 b2 + d1 d2
e que esta define uma transformação linear que induz a composta das pro-
jectividades de P1C correspondentes a f e a g.
Em particular, as transformações de Möbius são bijectivas e a inversa
de f (z) = ac z+d
z+b
é a transformação de Möbius associada à matriz
!−1
a b
.
c d
Conclui-se assim que o conjunto das transformações de Möbius com a com-
posição de aplicações forma um grupo, Möb+ , designado por grupo de
Möbius, que pode ser identificado com o grupo das aplicações projectivas
de P1C , também designado por grupo linear geral projectivo, P GL(2, C).
Assim, temos
Möb+ ' GL(2, C)/ (A ∼ λA) =: P GL(2, C),
onde consideramos em GL(2, C) a relação de equivalência definida por
A ∼ B ⇔ A = λB para algum λ ∈ C \ {0}.
E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO 249
Alternativamente, a cada transformação de Möbius, f (z) = ac z+d
z+b
, podemos
sempre associar uma matriz de determinante 1 (basta dividir as entradas da
matriz !
a b
c d
por uma raiz quadrada do seu determinante). Então, o grupo de Möbius
pode também ser identificado com o grupo linear especial projectivo,
P SL(2, C),
Möb+ ' P GL(2, C) ' SL(2, C)/ (A ∼ (−A)) =: P SL(2, C),
onde consideramos em SL(2, C) := {A ∈ GL(2, C) : det A = 1} a relação de
equivalência definida por
A∼B⇔A=B ou A = −B.
Os resultados seguintes são consequências imediatas da identificação anterior
entre as transformações de Möbius e as projectividades de P1C .
Proposição E.0.3. Uma transformação de Möbius diferente da identi-
dade tem um ou dois pontos fixos em C.
Demonstração: Como uma projectividade de P1C diferente da identidade
tem sempre um ou dois pontos fixos (ver Exemplo 3.6.12), o mesmo acontece
com as transformações de Möbius.
Corolário E.0.4. Se f ∈ Möb+ tem três pontos fixos distintos em C
então f é a identidade.
Uma transformação de Möbius é então determinada univocamente pela
imagem de três pontos distintos.
Teorema E.0.5. Sejam z1 , z2 , z3 três pontos distintos de C. Dados três
pontos distintos w1 , w2 , w3 ∈ C existe uma única transformação de Möbius
f tal que f (zi ) = wi , i = 1, 2, 3.
Demonstração: Vejamos primeiro a unicidade. Se existem f, g ∈ Möb+
tais que f (zi ) = g(zi ) = wi para i = 1, 2, 3 então, como
f −1 ◦ g (zi ) = zi para i = 1, 2, 3,
temos, pelo Corolário E.0.4, que f −1 ◦ g = id e então f = g.
A existência é consequência do Teorema 3.6.7 para projectividades de
PC , uma vez que quaisquer três pontos distintos de P1C formam um referencial
1
projectivo.
250 E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO
Nota E.0.6. Dados quaisquer três pontos distintos z1 , z2 , z3 ∈ C é fácil
encontrar a transformação de Möbius f que verifica
(E.0.2) f (z1 ) = ∞, f (z2 ) = 0 e f (z3 ) = 1.
Para tal basta tomar
z − z 2 z3 − z1
f (z) = · se z1 , z2 , z3 6= ∞,
z − z 1 z3 − z2
z − z2 z 3 − z1
f (z) = se z1 = ∞, f (z) = se z2 = ∞
z 3 − z2 z − z1
ou
z − z2
f (z) = se z3 = ∞.
z − z1
No primeiro caso esta aplicação é representada, por exemplo, pela matriz
! !
a b z3 − z1 −z2 (z3 − z1 )
= ,
c d z3 − z2 −z1 (z3 − z2 )
cujo determinante é
ad − bc = (z2 − z1 )(z3 − z2 )(z3 − z1 ) 6= 0
(pois os três pontos são distintos). Nos outros casos, a aplicação é represen-
tada respectivamente pelas matrizes
! ! !
1 −z2 0 z 3 − z1 1 −z2
, e ,
0 z3 − z 2 1 −z1 1 −z1
cujos determinantes, z3 − z2 , z1 − z3 ou z2 − z1 são diferentes de zero.
Nota E.0.7. Dados quaisquer três pontos distintos z1 , z2 , z3 ∈ C e três
pontos distintos w1 , w2 , w3 ∈ C é também fácil encontrar a transformação
de Möbius f que verifica
(E.0.3) f (z1 ) = w1 , f (z2 ) = w2 e f (z3 ) = w3 .
Com efeito, se tivermos, como vimos na Nota E.0.6, g, h ∈ Möb+ tais
que
h(z1 ) = ∞, h(z2 ) = 0, h(z3 ) = 1 e g(w1 ) = ∞, g(w2 ) = 0, g(w3 ) = 1,
então (g −1 ◦ h)(zi ) = wi .
Exemplo E.0.8. Vejamos como determinar a transformação de Möbius
f : C → C que satisfaz f (1 + i) = 3 + 2i, f (2) = 3 e f (3i) = 0. Para isso,
E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO 251
começamos por encontrar a transformação h : C → C tal que h(1 + i) = ∞,
h(2) = 0 e h(3i) = 1:
z−2 2i − 1 z−2 8−i
h(z) = · = · .
z − (1 + i) −2 + 3i z − (1 + i) 13
Note que h pode, por exemplo, ser representada pela matriz
!
8 − i −2(8 − i)
.
13 −13(1 + i)
Por outro lado, a transformação de Möbius g : C → C que satisfaz g(3+2i) =
∞, g(3) = 0 e g(0) = 1 é
z−3 3 + 2i
g(z) = ·
z − (3 + 2i) 3
e pode ser representada pela matriz
!
3 + 2i −3(3 + 2i)
.
3 −3(3 + 2i)
Assim, g −1 pode ser dada pela matriz
!
−3(3 + 2i) 3(3 + 2i)
−3 3 + 2i
e f := g −1 ◦ h pela matriz
! ! !
−3(3 + 2i) 3(3 + 2i) 8 − i −2(8 − i) 39(1 + i) 117(1 − i)
· = ,
−3 3 + 2i 13 −13(1 + i) 15 + 29i 35 − 71i
pelo que
39(1 + i)z + 117(1 − i)
f (z) = .
(15 + 29i)z + 35 − 71i
Considere-se agora uma transformação de Möbius
az + b
f (z) =
cz + d
diferente da identidade.
Se c = 0 então f (z) = ad z + db é a composta da translação z 7→ z + db com
a dilatação z 7→ ad z.
Caso contrário, se c 6= 0, então f pode ser escrita na forma f (z) =
h1 ◦ h2 ◦ h3 , onde
a 1
h1 (z) = −(ad − bc)z + , h2 (z) = e h3 (z) = c2 z + cd,
c z
252 E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO
pois
! ! ! ! !
−(ad − bc) ac 0 1 c2 cd ac bc a b
· · = =c .
0 1 1 0 0 1 c2 cd c d
Como h1 e h3 são compostas de translações com dilatações, temos o seguinte
resultado.
Proposição E.0.9. Qualquer transformação de Möbius pode ser escrita
como uma composta de translações, dilatações e a aplicação z 7→ 1/z.
Muitas propriedades das transformações de Möbius podem então ser
provadas mostrando apenas que são válidas para translações, dilatações e
para a aplicação z 7→ 1/z. Como exemplo temos o seguinte resultado.
Teorema E.0.10. Seja f : C → C uma transformação de Möbius.
Então f transforma circunferências de C em circunferências de C.
Nota E.0.11. As circunferências de C = C ∪ {∞} podem ser circun-
ferências de C (se não passam em ∞) ou a união de uma recta de C com
{∞}.
Demonstração:
• Se f é uma translação então o resultado é trivial.
• Se f é uma dilatação z 7→ λz, com λ ∈ C \ {0}, e C ⊂ C é uma
circunferência então, se C tem equação |z − k| = r, temos |λz − λ k| = |λ|r,
pelo que f (C) é uma circunferência de C. Se ∞ ∈ C então os pontos de
C \ {∞} pertencem a uma recta de C, pelo que são da forma
z = z0 + reθ0 i ,
com z0 ∈ C e θ0 ∈ [0, 2π[ constantes e r ∈ R. Então
(λz) − (λz0 ) = λreθ0 i = |λ|re(θ0 +θ1 )i ,
onde θ1 ∈ [0, 2π[ é tal que λ = |λ|eθ1 i . Como f (∞) = ∞ conclui-se que f (C)
é uma circuferência de C que passa em ∞. Em particular, f (C) \ {∞} é a
recta de C cujos pontos são da forma
w = λz0 + te(θ0 +θ1 )i , com t ∈ R.
• Se f (z) = 1/z e C ⊂ C é uma circunferência então, se C tem equação
|z − k| = r, temos
(z − k)(z − k) = r2 ⇔ |z|2 − kz − kz + |k|2 − r2 = 0.
E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO 253
Escrevendo w := f (z) = 1/z, temos
1 k k
(E.0.4) 2
− − + |k|2 − r2 = 0 ⇔ 1 − kw − kw + (|k|2 − r2 )|w|2 = 0.
|w| w w
Se |k| =
6 r então C não passa na origem (e consequentemente f (C) não passa
em ∞) e (E.0.4) implica que
k k 1
|w|2 − w− 2 w+ 2 = 0,
|k|2 −r 2 |k| − r 2 |k| − r2
pelo que f (C) é uma circunferência de C de centro
k
|k|2 − r2
e raio
r
.
||k|2 − r2 |
Se |k| = r então C passa na origem (e consequentemente ∞ ∈ f (C)) e então
(E.0.4) implica que
1 − kw − kw = 0,
pelo que f (C) \ {∞} é uma recta de C e f (C) é uma circunferência de C que
passa em ∞. Note que, se k = a + b i com a, b ∈ R e w = x + y i, então
(E.0.4) é equivalente a
1 1
Re (kw) = ⇔ ax − by = .
2 2
Se ∞ ∈ C então os pontos de C \ {∞} verificam uma equação da forma
(E.0.5) k z + kz + c = 0
com c ∈ R. Com efeito, se z = x + yi, uma recta ax + by + c = 0 pode ser
escrita como
2Re (kz) + c = 0, ou seja k z + kz + c = 0,
onde k = (a + bi)/2.
Então, escrevendo w := f (z) = 1/z, temos que (E.0.5) implica
k k
+ + c = 0 ⇔ c|w|2 + k w + k w = 0.
w w
Se c = 0 temos que C passa na origem pelo que f (C) passa em ∞ e os pontos
de f (C) \ {∞} verificam a equação k w + k w = 0.
Se c 6= 0 então f (C) é a circunferência de C
k k
|w|2 + w+ w=0
c c
254 E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO
de centro − kc e raio kc .
Como consequência temos o seguinte resultado.
Teorema E.0.12. Dadas duas circunferências C1 , C2 ⊂ C existe uma
transformação de Möbius f tal que f (C1 ) = C2 .
Demonstração: Vejamos primeiro que quaisquer três pontos distintos
z1 , z2 , z3 ∈ C determinam univocamente uma circunferência de C. Supondo
que um dos pontos, por exemplo z1 , é igual a ∞ ou que os três pontos estão
numa mesma recta ` de C, então ` ∪ {∞} é a única circunferência de C que
contém os três pontos, onde ` é a recta de C que passa pelos pontos z2 e
z3 . Se nenhum dos pontos é igual a ∞ e os três pontos não estão sobre a
mesma recta de C, então pertencem à circunferência de C centrada no ponto
M dado pela intersecção das mediatrizes dos segmentos de recta [z1 , z2 ] e
[z2 , z3 ] e com raio igual à distância de M a qualquer um dos três pontos (ver
Figura E.1). Com efeito,
d(z1 , M ) = d(z2 , M ) = d(z3 , M )
pois M está nas mediatrizes dos segmentos de recta [z1 , z2 ] e [z2 , z3 ]. Como
o centro de qualquer circunferência de C que passe pelos três pontos tem de
pertencer necessariamente a estas duas mediatrizes, conclui-se que a circun-
ferência fica univocamente determinada.
z3
z2
M
z1
Figura E.1. Circunferência que passa por três pontos não
colineares z1 , z2 , z3 ∈ C.
Para mostrar que existe f ∈ Möb+ tal que f (C1 ) = C2 basta escolher
três pontos distintos z1 , z2 , z3 em C1 e três pontos distintos w1 , w2 , w3 em
C2 e considerar a transformação de Möbius f dada pelo Teorema E.0.5 que
satisfaz f (zi ) = wi para i = 1, 2, 3. Então, pelo Teorema E.0.10, a aplicação
E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO 255
f transforma a circunferência que passa em z1 , z2 , z3 na circunferência que
passa em w1 , w2 , w3 , ou seja, f (C1 ) = C2 .
Nota E.0.13. As transformações de Möbius dadas pelo Teorema E.0.12
não são únicas.
Um outra propriedade importante das transformações de Möbius é a
seguinte.
Teorema E.0.14. As transformações de Möbius preservam ângulos.
Demonstração: O ângulo entre duas curvas C1 , C2 que se intersectam em
z0 ∈ C é, por definição, o ângulo entre as rectas tangentes correspondentes
no ponto z0 . Se se intersectam em z0 = ∞ então o ângulo entre elas é o
ângulo entre as rectas `, m ⊂ C tais que ` ∪ {∞} e m ∪ {∞} são tangentes às
curvas em z0 . Neste caso, se ` e m se intersectam num outro ponto z1 ∈ C
então o ângulo entre as duas rectas em z1 é igual ao ângulo entre ` ∪ {∞}
e m ∪ {∞} em z0 = ∞ (ver Nota E.0.15). Se ` e m não se intesectam
então o ângulo entre elas é zero e é preservado por qualquer transformação
de Möbius (pois imagens de ` ∪ {∞} e m ∪ {∞} intersectam-se apenas num
ponto).
Assim, basta mostrar que, dadas duas rectas `, m ⊂ C que se intersectam
em z0 ∈ C temos ](`, m) = ](f (`), f (m)) em f (z0 ) e em f (∞).
Claramente as rotações e as translações de C preservam ângulos e trans-
formam rectas em rectas (são isometrias euclidianas em C e também trans-
formações de Möbius), pelo que podemos considerar, sem perda de gen-
eralidade, que ` é o eixo real, Im z = 0, que ` e m se intersectam num
ponto a ∈ R+ e que os pontos de m são da forma a + teαi com t ∈ R e
α = ](`, m) ∈]0, π2 ].
Pela Proposição E.0.9, como as translações preservam ângulos, é sufi-
ciente mostrar que as dilatações e a aplicação z 7→ 1/z preservam ângulos.
Seja f : C → C a dilatação f (z) = λ z com λ ∈ C \ {0}. Então f (`) é a
recta que passa na origem e em λ e os pontos da recta f (m) são da forma
λa + λteαi com t ∈ R. Assim,
] (f (`), f (m)) = arg(λeαi ) − arg λ = α,
pelo que f preserva ângulos.
Considere-se agora f (z) = 1/z. Então f (` ∪ {∞}) = ` ∪ {∞} e, se a 6= 0,
a aplicação f transforma m ∪ {∞} numa circunferência de C que passa em
256 E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO
0 e em 1/a cujos pontos são da forma
1
, t ∈ R.
a + teαi
Os vectores tangentes a esta circunferência no ponto 1/a têm a direcção de
d 1 1
= − 2 eαi ,
dt a + teαi t=0 a
pelo que fazem um ângulo α com a recta ` (ver Figura E.2). Note que os
vectores tangentes à circunferência em f (∞) = 0 fazem também um ângulo
α com a recta `.
f HmL
{=f H{L Α Α
0 1a a
Figura E.2. Imagem de duas rectas ` e m pela aplicação
z 7→ 1/z.
Alternativamente, sabemos que o centro da circunferência f (m) está na
1
recta vertical Re w = 2a (pois é equidistante de 0 e a1 ) e que
1 ± e−αi
1
Re f a(1 ± eαi ) = Re
= .
a((1 ± cos α)2 + sin2 α) 2a
Assim, como a(1 ± eαi ) ∈ m, temos que a parte imaginária do centro da
circunferência f (m) é a média de
sin α
Im f (a(1 + eαi )) = −
a((1 + cos α)2 + sin2 α)
e
sin α
Im f (a(1 − eαi )) =
,
a((1 − cos α)2 + sin2 α)
pelo que o centro da circunferência f (m) é o ponto
1 cos α
z0 = 1+ i .
2a sin α
Então a recta que passa na origem e em z0 faz um ângulo de π/2 − α com
o eixo real. Como este ângulo é igual a
π
− ](f (l), f (m)),
2
E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO 257
conclui-se que ](f (l), f (m)) = α em 1/a e em 0.
Nota E.0.15. Se ` e m são duas rectas no plano complexo, então, pas-
sando para S 2 pela inversa da projecção estereográfica (4.3.5), vemos que
` ∪ {∞} e m ∪ {∞} correspondem a dois cı́rculos em S 2 que se intersectam
no polo norte N = (0, 0, 1). Estes são a intersecção de S 2 com dois planos
de R3 que intersectam o plano tangente a S 2 em N (o plano z = 1) em
duas rectas que se intersectam em N , fazendo um determinado ângulo α
(ver Figura E.3). Estas rectas são paralelas às duas rectas ` em m (contidas
no plano z = 0) pelo que o ângulo entre elas é novamente α.
Figura E.3. Uma recta ` no plano complexo e o cı́rculo
correspondente de S 2 .
Consideremos agora o grupo de Möbius generalizado, Möb, formado
pelas transformações de Möbius e pelas composições destas com a aplicação
z 7→ z, ou seja, as aplicações f : C → C da forma
az + b
f (z) = ,
cz + d
com a, b, c, d ∈ C e ad − bc 6= 0.
Uma classe importante de exemplos de elementos de Möb \ Möb+ são as
inversões em circunferências de C.
Definição E.0.16. A inversão na circunferência C ⊂ C de equação
|z − z0 | = r
258 E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO
é a transformação IC : C → C definida por
z0 z + r2 − |z0 |2
(E.0.6) IC (z) = .
z − z0
Esta aplicação IC : C → C faz corresponder a cada z ∈ C \ {z0 } o ponto
z0, no raio que une z0 a z, que satisfaz
(E.0.7) |z − z0 | · |z 0 − z0 | = r2
(ver Figura E.4). Além disso, IC (∞) = z0 e IC (z0 ) = ∞.
z
z'
z0
Figura E.4. Inversão numa circunferência.
Com efeito, se z 0 satisfaz (E.0.7) então
r2 r2 z0 z + r2 − |z0 |2
z 0 = z0 + (z − z 0 ) = z 0 + = ,
|z − z0 |2 z − z0 z − z0
pelo que obtemos a expressão em (E.0.6).
Nota E.0.17. Como por (E.0.6) a inversão numa circunferência C é uma
aplicação em Möb \ Möb+ cujo conjunto de pontos fixos é C, a sua expressão
pode ser facilmente determinada a partir da equação de C. Com efeito,
temos
IC (z) = z ⇔ |z − z0 |2 = r2 ⇔ (z − z0 ) (z − z 0 ) = r2
r2 z0 z + r2 − |z0 |2
⇔ z = z0 + ⇔z= ,
z − z0 z − z0
pelo que obtemos a expressão em (E.0.6)
z0 z + r2 − |z0 |2
IC (z) = .
z − z0
Note que se r2 − |z0 |2 = 1, como é o caso de Cm em (4.3.14), recuperamos a
expressão em (4.3.13).
E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO 259
Quando a circunferência de C passa no infinito obtemos a seguinte
definição.
Definição E.0.18. A inversão na circunferência C = ` ∪ {∞} ⊂ C
que passa no infinito, onde ` ⊂ C é a recta de equação
Az + A z = c,
com A = a + bi ∈ C \ {0} e c ∈ R, é a transformação IC : C → C definida
por
c A
(E.0.8) IC (z) = − z.
A A
Nota E.0.19. Como a aplicação IC : C → C tem C como conjunto de
pontos fixos e é um elemento de Möb \ Möb+ , uma forma fácil de obter a
sua expressão é fazer
Az + A z = c
c A
IC (z) = z ⇔ ou ⇔ z = − z,
A A
z=∞
pelo que
2
c A cA − A z
IC (z) = − z = .
A A |A|2
Nota E.0.20. Identificando C com R2 , facilmente verificamos que a re-
strição a C da aplicação (E.0.8) coincide com a reflexão euclidiana na recta
`. Com efeito, esta reflexão é dada por
R` (x, y) =
2 ac bc
= (x, y) − 2 x− ,y + , (a, −b) (a, −b)
a + b2 2(a2 + b2 ) 2(a2 + b2 )
1 2 2 2 2
= 2 (b − a )x + 2ab y + ac, −(b − a )y + 2ab x − bc .
a + b2
Em geral, como z 7→ z corresponde a uma reflexão no eixo Ox quando
vista como uma aplicação de R2 , temos que esta aplicação transforma rec-
tas e circunferências de C respectivamente em rectas e circunferências de C.
Além disso também preserva ângulos (embora inverta a orientação) pois a
aplicação de R2 correspondente é uma isometria linear de R2 (uma trans-
formação ortogonal). Concluı́mos assim o seguinte resultado.
Teorema E.0.21. Seja f ∈ Möb. Então f transforma circunferências
de C em circunferências de C e f preserva ângulos.
260 E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO
Tal como as transformações de Möbius, uma aplicação f ∈ Möb \ Möb+
com três pontos fixos distintos fica univocamente determinada pelo seu con-
junto de pontos fixos (apesar de não ser a identidade).
Teorema E.0.22. Seja f ∈ Möb \ Möb+ . Se f fixa três pontos distintos
de C então f fixa a circunferência de C que passa pelos três pontos.
Em particular, se f fixa três pontos distintos z1 , z2 , z3 ∈ C não colin-
eares em C, então f é a inversão na circunferência de C que passa pelos
três pontos. Se f fixa ∞ e dois pontos distintos z1 , z2 ∈ C ou três pontos
z1 , z2 , z3 ∈ C colineares em C, então f é a inversão na circunferência de
C que passa nos três pontos (cuja restrição a C coincide com a reflexão na
recta que passa nos pontos z1 e z2 ).
Demonstração: Seja f ∈ Möb \ Möb+ . Se f fixa três pontos distintos
z1 , z2 , z3 ∈ C não colineares em C e C é a circunferência de C que passa
nesses pontos, então, considerando a inversão g : C → C em C, temos que
g −1 ◦f fixa z1 , z2 e z3 . Como g −1 ◦f ∈ Möb+ conclui-se, pelo Teorema E.0.4,
que g −1 ◦ f = id e então f = g.
Se f fixa ∞ e dois pontos distintos z1 , z2 ∈ C ou três pontos distintos
z1 , z2 , z3 ∈ C colineares, considera-se a inversão g na circunferência de C que
passa nos três pontos (cuja restrição a C coincide com a reflexão na recta
que passa nos pontos z1 e z2 ) e o resultado é análogo.
Tal como no caso das transformações de Möbius temos também os seguintes
resultados.
Teorema E.0.23. Sejam z1 , z2 , z3 três pontos distintos de C. Dados
três pontos distintos w1 , w2 , w3 ∈ C existe um único f ∈ Möb \ Möb+ tal que
f (zi ) = wi .
Demonstração: Vejamos primeiro a unicidade. Se existem f, g ∈ Möb \
Möb+ tais que f (zi ) = g(zi ) = wi para i = 1, 2, 3, então como
f −1 ◦ g (zi ) = zi para i = 1, 2, 3,
temos, pelo Teorema E.0.4 que f −1 ◦ g = id e então f = g (note que f −1 ◦ g
é uma transformação de Möbius).
Quanto à existência, basta considerar a transformação de Möbius g ∈
Möb+ tal que g(z i ) = wi para i = 1, 2, 3 (cuja existência é garantida pelo
Teorema E.0.5) e então a aplicação f ∈ Möb \ Möb+ definida por
f (z) := g(z)
satisfaz f (zi ) = wi para i = 1, 2, 3.
E. GRUPO DE MÖBIUS GENERALIZADO 261
Corolário E.0.24. Dadas duas circunferências C1 , C2 ∈ C existe f ∈
Möb \ Möb+ tal que f (C1 ) = C2 .
Nota E.0.25. Como consequência dos Teoremas E.0.5 e E.0.23, se z1 , z2 , z3 ∈
C são três pontos distintos, então, dados três outros pontos distintos w1 , w2 , w3 ∈
C, existem exactamente dois elementos f, g do grupo de Möbius generalizado
tais que f (zi ) = g(zi ) = wi para i = 1, 2, 3.
Por exemplo, os elementos de Möb que fixam três pontos da circun-
ferência unitária |z| = 1 são a identidade e a inversão z 7→ z1 .
Bibliografia
Existem inúmeras obras versando os tópicos deste livro. Aqui referem-se
apenas aquelas que directa ou indirectamente inspiraram a abordagem deste
texto.
[1] James W. Anderson. Hyperbolic geometry. Springer Undergraduate
Mathematics Series. Springer-Verlag London, Ltd., London, 2005.
[2] Michèle Audin. Geometry. Universitext. Springer-Verlag, Berlin, 2003.
[3] H. S. M. Coxeter. Projective geometry. Springer-Verlag, New York, 1994.
[4] Marvin Jay Greenberg. Euclidean and non-Euclidean geometries. W. H.
Freeman and Company, New York, third edition, 1993.
[5] George Edward Martin. Transformation geometry. Springer-Verlag, New
York-Berlin, 1982.
[6] Elmer G. Rees. Notes on geometry. Springer-Verlag, Berlin-New York,
1983.
[7] Miles Reid and Balázs Szendrői. Geometry and topology. Cambridge
University Press, Cambridge, 2005.
[8] P. J. Ryan. Euclidean and non-Euclidean geometry, An Analytic Ap-
proach. Cambridge University Press, Cambridge, 1986.
[9] John Stillwell. Geometry of Surfaces. Universitext. Springer-Verlag, New
York, 1992.
263
Índice Remissivo
ângulo de simetria, 104, 125
entre hiperplanos, 55 de uma rotação, 83
entre recta e hiperplano, 55 geométrico, 29
entre rectas, 55 centroide, 29
entre vectores, 236 Chasles
geométrico, 82 Relação de, 9
orientado circunferência
entre rectas, 237 hiperbólica, 197
entre vectores, 236 na esfera de Riemann, 182
codimensão
afim de subespaço afim, 14
espaço, 9 de subespaço projectivo, 131
subespaço, 11 combinação
anel, 233 afim, 19
comutativo, 233 convexa, 30
de divisão, 233 comprimento
aniquilador, 246
de segmento de recta, 54
anulador, 246
de vector, 235
aplicação
congruência de conjuntos, 104
afim, 32
convexidade, 30
linear associada a uma aplicação
convexo
afim, 33
conjunto, 30
ortogonal, 79, 239
fecho, 30
projectiva, 140
invólucro, 30
coordenadas homogéneas, 130
baricentro, 43
corpo, 233
bissector, 61
cı́rculo máximo, 162 Desargues
carta afim, 134 Teorema de, 48, 157
Cauchy-Schwarz, 53 desigualdade
desigualdade de, 235 de Cauchy-Schwarz, 53, 235
centro triangular, 53, 160, 170, 199, 236
de massa, 43 dilatação, 34
265
266 ÍNDICE REMISSIVO
dimensão projectivo, 132
de subespaço afim, 14 forma linear, 245
de subespaço projectivo, 130
Disco de Poincaré, 200 grupo, 231
distância abeliano, 231
entre pontos, 53 afim, 39
entre subespaços afins, 56 cı́clico, 232
esférica, 160 de Möbius, 248
desigualdade triangular, 160 generalizado, 257
hiperbólica, 195, 201 diedral, 102
projectiva, 170 finito, 232
desigualdade triangular, 170 linear especial projectivo, 249
dual linear geral projectivo, 248
base, 245 grupo de Möbius, 248
de uma afirmação, 139 generalizado, 257
espaço, 245
hiperbólica
dualidade
circunferência, 197
Princı́pio da, 140
distância, 201
eixo recta, 196, 201
de rotação, 106 reflexão, 204
de simetria, 104, 126 reflexão com deslize (ou deslizante),
enviesadas (rectas), 18 215
equibaricentro, 29 translação, 207
esfera S 2 , 159 rotação, 206
esfera de Riemann, 178 hiperbólico
espaço vectorial trtângulo, 221
estrutura afim dum, 11 hiperplano, 14
espaço mediador, 61
afim, 9 perpendicular, 52
euclidiano, 51 projectivo, 131
real, 25 horociclo, 208
dual, 245
projectivo, 129 independência afim, 18
espaço projectivo invólucro convexo, 30
coordenadas homogéneas, 130 inversão
pontos de um, 129 num ponto, 70, 108
estrutura canónica afim, 11 numa circunferência, 183, 257, 259
euclidiano isometria
espaço afim, 51 euclidiana, 68
extremidade de um vector, 10 directa, 80
inversa, 80
face de um simplex, 28 hiperbólica
fecho directa, 213
convexo, 30 inversa, 213
ÍNDICE REMISSIVO 267
isometrias ponto, 10, 14
da esfera S 2 , 167 médio, 26
de R2 , 93 simétrico, 61
de R3 , 105 pontos
do plano elı́ptico, 177 combinação afim de, 19
hiperbólicas, 210 combinação convexa de, 30
na esfera de Riemann, 182 independentes, 18, 133
subgrupos de, 100 Princı́pio da Dualidade, 140
isomorfismo afim, 39 projecção
esteregráfica, 178
Leonardo num subespaço afim, 47
Teorema de, 102 ortogonal, 65
projectiva (aplicação), 140
Möbius
projectividade, 146
grupo de, 248
elı́ptica, 146
transformação de, 247
hiperbólica, 146, 147
mediana de um triângulo, 28
parabólica, 146, 147
mediatriz, 61
projectivo
medida de ângulo geométrico, 82
espaço, 129
meia-volta, 70
fecho, 132
mergulho, 138
plano, 132
moção rı́gida, 68
referencial, 143
subespaço, 130
norma de um vector, 235
origem razão cruzada, 147
de um referencial, 21 recta, 14
de um vector, 10 enviesada, 18
ortogonal esférica, 162
aplicação, 79 hiperbólica, 196, 201
mediatriz, 61
Pappus perpendicular, 52
Teorema de, 47, 156 projectiva, 131, 147
parafuso, 106, 108 complexa, 130
paralelogramo, 26 ultraparalela, 213
plano referencial, 21
afim, 14 origem do, 21
elı́ptico, 169, 173 ortogonal, 51
hiperbólico, 191 ortonormado, 51
projectivo, 131, 132 projectivo, 143
real, 129 canónico, 143
Poincaré reflexão
disco de, 200 esférica, 163
polı́gono, 103 euclidiana, 62, 69, 83, 106
regular, 103 forma normal, 81
268 ÍNDICE REMISSIVO
hiperbólica, 204, 220 codimensão de, 131
num hiperplano, 69 dimensão, 130
num ponto, 70 gerado por um conjunto, 132
num cı́rculo máximo de S 2 , 167 subgrupo, 231
reflexão com deslize (ou deslizante) gerado, 232
euclidiana, 71, 83, 106
Teorema
hiperbólica, 215, 220
de Desargues, 48, 157
Regra do Paralelogramo, 11
de Leonardo, 102
Relação de Chasles, 9
de Pappus, 47, 156
Relação de Thomsen, 125
de Thales, 47
Relação triangular, 9
tetraedro, 28
rotação
Thales
eixo de, 106
Teorema de, 47
euclidiana
Thomsen
em R2 , 83
Relação de, 125
em R3 (em torno de um eixo), 106
transformação
hiperbólica, 206, 220
de Möbius, 247
na esfera S 2 , 167
helicoidal, 106, 108
rotação com reflexão, 106, 108
translação, 34, 69, 83, 105, 106
rotação limite, 208, 220
hiperbólica, 207, 220
triângulo
segmento de recta, 25
centro geométrico, 29
comprimento, 54
centroide, 29
semi-espaço
esférico, 167
aberto, 32
hiperbólico, 221
fechado, 32
lados, 28
semi-recta, 26
mediana, 28
simetria, 102
centro de, 104, 125 ultraparalela (recta), 213
eixo, 126
eixo de, 104 vértice de um simplex, 28
simplex, 27 vector normal, 51
face de um, 28 unitário, 51
vértice de um, 28 vizinhança de coordenadas afins, 134
sistema de massas pontual, 43
subespaço afim, 11
codimensão, 14
dimensão, 14
direcção, 11
espaço de direcções, 11
gerado por um conjunto, 17
intersecção, 15
paralelo, 15
subespaço projectivo, 130