TJRN
PJe - Processo Judicial Eletrônico
27/08/2025
Número: 0856492-42.2024.8.20.5001
Classe: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL
Órgão julgador: 3ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Natal
Última distribuição : 09/09/2024
Valor da causa: R$ 350.000,00
Assuntos: Espécies de Contratos, Indenização por Dano Moral
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? NÃO
Partes Procurador/Terceiro vinculado
Eduardo Roque Ferreira Teixeira (AUTOR) ABIMAEL BORGES DOS SANTOS (ADVOGADO)
ELIAS DA CRUZ SANTOS (ADVOGADO)
Junta Comercial do Estado do Rio Grande do Norte
(JUCERN) (REU)
JUNTA COMERCIAL DO ESTADO DO RIO GRANDE DO
NORTE (REU)
Documentos
Id. Data Documento Tipo
161939394 26/08/2025 Sentença Sentença
14:55
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE
3ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Natal
Praça Sete de Setembro, s/n, Cidade Alta, NATAL - RN - CEP: 59025-300
Contato: (84) 36169655 - Email: nt3vfp@[Link]
Processo: 0856492-42.2024.8.20.5001
Ação: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7)
AUTOR: EDUARDO ROQUE FERREIRA TEIXEIRA
REU: JUNTA COMERCIAL DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE (JUCERN)
SENTENÇA
Vistos em correição.
I - RELATÓRIO
AUTOR
Eduardo DA AÇÃO
Roque Ferreira Teixeira, qualificado e representado por advogado, ingressou com
Ação Ordinária em face da Junta Comercial do Estado do Rio Grande do Norte, aduzindo, em
síntese, que o seu nome e CPF teriam sido utilizados de maneira fraudulenta para a sua indevida inclusão
como sócio majoritário (80%) em empresa junto à JUCERN, tendo sido vítima de crime de estelionato
praticado por terceiros; alega que, em decorrência desses fatos, foi instaurado um inquérito policial para
apurar a situação, e a partir do qual foi verificada que a assinatura do Autor no documento que o incluiu
na empresa era falsificada; afirma, ainda, que a fraude causou a perda do seu emprego, instabilidade
financeira execuções fiscais indevidas, o que lhe causou danos psicológicos, familiares e sociais, bem
como sofrimento emocional. Por fim, requereu que a parte ré seja condenada ao pagamento de
indenização por danos morais e materiais.
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Após ser citada, a parte ré apresentou contestação (ID 133195166), suscitando preliminarmente o
indeferimento da gratuidade de justiça. No mérito, sustentou que inexiste dever legal da junta comercial
em proceder com o reconhecimento de firma da documentação trazida a registro ou alteração. Defendeu
igualmente que a parte autora não teria apresentado elementos probatórios suficientes para desconstituir a
presunção de legitimidade dos atos administrativos. Defendeu, ainda, que não restou demonstrado o nexo
de causalidade entre a conduta estatal e os supostos danos sofridos para justificar a condenação em danos
morais. Além disso, alegou que o autor não comprovou os danos materiais alegados. Ao final, requereu a
total improcedência dos pedidos formulados.
Em parecer ID 140117543, o Ministério Público, deixou de opinar no feito.
É o relatório. Decido.
II - FUNDAMENTAÇÃO
Preliminarmente, a parte ré requereu o indeferimento da gratuidade de justiça. Tal pleito, no
entanto, não merece acolhimento, uma vez que se mantêm as condições que ensejaram o deferimento
inicial do benefício (id. 130825020).
Rejeito, portanto, o indeferimento da justiça gratuita.
Ultrapassadas essas questões, passo a apreciar o mérito da demanda.
O caso em exame comporta julgamento no estado em que se encontra, sendo desnecessária a
produção de outras provas, motivo pelo qual é cabível o julgamento na forma antecipada, nos termos do
art. 355, inciso I, do Código de Processo Civil.
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A parte autora busca reparação por danos morais e materiais por fraude sofrida, qual seja a
inclusão indevida de seu nome como sócio majoritário de empresa perante a Junta Comercial do Estado
do Rio Grande do Norte - JUCERN, mediante ato de estelionato praticado por terceiros.
Alega, para tanto, que teria sido vítima de uma suposta fraude, perpetrada na JUCERN, uma vez
que a entidade teria sido omissa em averiguar de maneira devida a autenticidade dos dados apresentados.
Diante de um exame detido dos autos, constato a existência de elementos probatórios capazes de
demonstrar a presença de irregularidades no registro de abertura da empresa em nome do autor.
Nesse sentido, verifico que o laudo da perícia grafotécnica (ID 129180120) emprestado dos autos
da Ação Criminal nº 001.07.245560-9, que tramitou na 5ª Vara Criminal desta Capital, atesta de maneira
bastante clara que as assinaturas constantes nos documentos arquivados na junta comercial não
correspondem à firma normal do autor, nos seguintes termos:
“IV - CONCLUSÃO:
Em face dos confrontos grafotécnicos a que procederam, chegaram os Peritos a conclusão de que
não foram exacerbados elementos de ordem técnica, que viessem a indicar que a assinatura
atribuída a EDUARDO
AUTOR DA ROQUE
AÇÃOFERREIRA TEIXEIRA, evidenciada na cópia reprográfica do
ADITIVO nº. 17, descrito no item “a” do tópico III, do corpo deste LAUDO, tenha promanado do
seu próprio punho escritor”.
A conclusão constante no laudo pericial confirma as alegações autorais de que teve a sua
assinatura falsificada por terceiros para procederem com a abertura de empresa em seu nome.
Ademais, observo que os fatos narrados também foram apurados pelo Ministério Público,
ensejando o oferecimento de denúncia contra os terceiros indicados pelo crime tipificado no art. 304 c/c o
art. 298 do CP advindos da inclusão fraudulenta no autor na empresa (IDs 129180126 e 129180127).
Nesse sentido, considero que a inclusão do autor na referida empresa, perante a entidade
administrativa demandada, nos moldes como fora realizado, sem anuência do autor, constitui elemento
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comprobatório da existência da fraude alegada, de modo a permitir o acolhimento da pretensão autoral
para que seja determinada a baixa definitiva do registro da empresa perante a JUCERN.
Com efeito, considero que há manifesta negligência nos atos praticados pela demandada, na
medida em que permitiu a abertura da empresa em nome do requerente sem proceder com a averiguação
devida acerca da autenticidade dos documentos e da assinatura do solicitante; tendo, portanto, contribuído
para os atos lesivos ao autor.
Por conseguinte, no que se refere ao pedido de dano moral, basta a comprovação do nexo de
causalidade entre a conduta da administração pública e os danos experimentados pela parte autora, desde
que ausente qualquer fator excludente da responsabilização.
Em relação aos danos morais, temos que a Constituição Federal, em seu artigo 5º, incisos V e X,
resguarda aos cidadãos o direito de indenização por dano moral. A existência do referido dano moral e da
obrigação de indenizar é observada a partir do estudo do ato ilícito, que pode derivar de um ato comissivo
(fazer algo) ou omissivo (um deixar de fazer algo que lhe era devido), tendo como consequência o que é
proibido pelo ordenamento jurídico.
Essa prática deve ser punida e desestimulada, toda lesão a qualquer direito traz como
consequência a obrigação de indenizar, funcionando, inclusive, como forma de inibir a prática desses
ilícitos e/ou de estimular a prática das atividades regulares e obrigatórias pelo Poder Público, assegurando
ao cidadão tranquilidade em sua vida social.
Ademais, a teoria da responsabilidade civil enfatiza o dever de indenizar sempre que os
elementos caracterizadores do ato ilícito estiverem presentes. Essa teoria está construída sobre a reparação
do dano e emerge dos artigos 186 e 927, ambos do atual Código Civil:
Art. 186. Aquele que por ação ou omissão voluntária, negligencia ou imprudência, violar direito e
causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.
Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a
repará-lo.
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Modernamente, verifica-se que o dano moral não corresponde à dor, mas ressalta efeitos
maléficos marcados pela dor, pelo sofrimento, pelo constrangimento. São a apatia, a morbidez mental, a
raiva, qualquer sentimento negativo que tomam conta do ofendido em razão de ato de outrem. Surgem o
padecimento íntimo, a humilhação, a vergonha, o constrangimento de quem é ofendido em sua honra,
dignidade, paz e tranquilidade.
Entendo que a situação fática em tela é suficiente para verificar um dano que vai além de um
mero aborrecimento suportado pelo autor.
Nesse contexto, é possível, sem maiores dificuldades, relacionar a conduta do Estado ao dano
suportado pelo autor, ficando evidenciado assim o nexo causal.
No caso dos autos, restando caracterizado os elementos ensejadores da responsabilização cível do
Estado, seja a conduta, o nexo de causalidade e o dano, é inquestionável que o requerido possui o dever
de indenizar o autor.
No que tange ao arbitramento do quantum indenizatório, considerando a natureza da dor moral
suportada, os motivos e causas já narradas e ressaltando que a indenização por dano moral não deve
importar no enriquecimento sem causa, por tudo isto, entendo razoável fixar a importância de R$
10.000,00 (dez mil reais) como valor condenatório.
No que se refere ao pedido de indenização por danos materiais, no entanto, entendo que este não
merece acolhida. Isso porque, embora o autor alegue ter sofrido prejuízos financeiros em decorrência da
fraude, na ordem de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais), não trouxe aos autos documentação idônea capaz
de quantificar ou demonstrar, de forma objetiva, os valores efetivamente despendidos ou perdidos. A
ausência de comprovação do quantum alegado inviabiliza a condenação da parte ré nesse ponto, haja vista
que a reparação material exige prova concreta do prejuízo patrimonial suportado, o que não se verificou
no presente caso. Assim, impõe-se o indeferimento do pedido de danos materiais, sem prejuízo da
condenação já reconhecida a título de danos morais.
Por tais fundamentos, entendo assistir razão, em parte, ao pleito formulado pela parte autora.
III - DISPOSITIVO
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Ante ao exposto, julgo parcialmente procedente o pedido inicial, para condenar a parte ré a
pagar a importância de R$ 10.000,00 (dez mil reais), em favor do autor, a título de indenização por
danos morais. Aos valores acima deverá ser acrescida correção monetária, contada a partir da fixação do
quantum, até a data do efetivo pagamento (súmula nº 362, do STJ), bem como de juros de mora,
incidentes desde a data do evento danoso (súmula nº 54, do STJ), ambos com base na taxa Selic. O Tema
1335, oriundo de precedente qualificado na Suprema Corte do País, declara que não incide a taxa Selic
no período de Graça Constitucional, mas que incide antes e para além desse período (antes e depois),
o que, para fins de distinguishing, ficou reservada à tese de que essa repartição de índices (IPCA e
SELIC) não se aplicaria à Fazenda Pública que paga suas obrigações e atualiza seus tributos pelo
mesmo índice (SELIC).
Custas na forma da lei. Dada a sucumbência recíproca, condeno as partes litigantes em
honorários advocatícios sucumbenciais, o que faço nos termos dos artigos 85, §2º e 86, caput, do CPC.
Fixo os aludidos honorários em 10% (dez por cento) sobre o valor da condenação, devendo a parte ré
arcar com 1/2 da referida verba sucumbencial, e a parte autora com o outro 1/2. A cobrança da
importância devida pela exequente/autora fica suspensa, em razão desta ser beneficiária da justiça
gratuita.
Na hipótese, comporta-se apenas o recurso voluntário, a teor da determinação contida no artigo
496, § 3º, II, do CPC.
No caso de interposição de apelação, intime-se a parte recorrida para apresentar contrarrazões no
prazo legal e, em seguida, remetam-se os autos ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte.
Certifique-se o trânsito em julgado da sentença, em seguida proceda à evolução de classe no
sistema PJe para cumprimento de sentença.
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Com o trânsito em julgado da sentença, intime-se o credor para requerer, no prazo de 30 (trinta)
dias, o cumprimento da sentença, apresentando planilha de cálculo, nos moldes da parte dispositiva do
julgado.
Caso não seja apresentado requerimento de execução do julgado no prazo assinalado, arquive-se
o processo.
Requerida a obrigação de pagar, intime-se a Fazenda Pública, na pessoa de seu representante
judicial, para oferecer impugnação nos próprios autos, querendo, no prazo de 30 (trinta) dias. Na hipótese
de se deduzir excesso de execução, cumprirá à executada declarar o valor que entende correto,
juntando-se memória de cálculos, sob pena de não conhecimento da arguição.
Caso seja apresentada impugnação à execução, intime-se a parte exequente, por meio de seu
advogado, para que, no prazo de 15 (quinze) dias, se pronuncie a respeito.
Publique-se. Registre-se. Intimem-se.
NATAL/RN, 26 de agosto de 2025.
GERALDO ANTONIO DA MOTA
Juiz de Direito
(documento assinado digitalmente na forma da Lei n°11.419/06)
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