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O trabalho investiga o papel da Marinha de Guerra de Moçambique na segurança marítima, destacando a importância do Canal de Moçambique como uma rota marítima estratégica e a necessidade de defesa contra atos ilícitos. Utilizando uma abordagem qualitativa, o estudo propõe a criação de um sistema de autoridade marítima liderado pela Marinha para melhorar a monitorização e intervenção nas águas jurisdicionais. O documento conclui que a proteção dos recursos marítimos é crucial para a soberania e desenvolvimento nacional.
Direitos autorais
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O trabalho investiga o papel da Marinha de Guerra de Moçambique na segurança marítima, destacando a importância do Canal de Moçambique como uma rota marítima estratégica e a necessidade de defesa contra atos ilícitos. Utilizando uma abordagem qualitativa, o estudo propõe a criação de um sistema de autoridade marítima liderado pela Marinha para melhorar a monitorização e intervenção nas águas jurisdicionais. O documento conclui que a proteção dos recursos marítimos é crucial para a soberania e desenvolvimento nacional.
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INSTITUTO UNIVERSITÁRIO MILITAR

DEPARTAMENTO DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS


CURSO DE PROMOÇÃO A OFICIAL GENERAL
2023/2024

TRABALHO DE INVESTIGAÇÃO INDIVIDUAL

O PAPEL DA MARINHA DE GUERRA DE MOÇAMBIQUE NA


SEGURANÇA MARÍTIMA

O TEXTO CORRESPONDE A TRABALHO FEITO DURANTE A


FREQUÊNCIA DO CURSO NO IUM SENDO DA RESPONSABILIDADE DO
SEU AUTOR, NÃO CONSTITUINDO ASSIM DOUTRINA OFICIAL DAS
FORÇAS ARMADAS DE DEFESA DE MOÇAMBIQUE.

Nelson Américo Machai


Capitão-de-mar-e-guerra Fz (MOZ)

STITUTO DE ESTUDOS SUPERIORES MILITARES


INSTITUTO UNIVERSITÁRIO MILITAR
DEPARTAMENTO DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS

O PAPEL DA MARINHA DE GUERRA DE MOÇAMBIQUE NA


SEGURANÇA MARÍTIMA

CMG Fz (MOZ) Nelson Américo Machai

Trabalho de Investigação Individual do CPOG 2023/2024

Pedrouços 2024
INSTITUTO UNIVERSITÁRIO MILITAR
DEPARTAMENTO DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS

O PAPEL DA MARINHA DE GUERRA DE MOÇAMBIQUE NA


SEGURANÇA MARÍTIMA

CMG Fz (MOZ) Nelson Américo Machai

Trabalho de Investigação Individual do CPOG 2023/2024

Orientador: CMG Luciano Joaquim dos Santos Oliveira

Pedrouços 2024
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Declaração de compromisso Anti plágio

Eu, Nelson Américo Machai, declaro por minha honra que o documento intitulado
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima corresponde
ao resultado da investigação por mim desenvolvida, enquanto auditor do Curso de
Promoção a Oficial General 2023/2024 no Instituto Universitário Militar, e que é um
trabalho original, em que todos os contributos estão corretamente identificados em citações
e nas respetivas referências bibliográficas.
Tenho consciência que a utilização de elementos alheios não identificados constitui
grave falta ética, moral, legal e disciplinar.

Pedrouços, 05 de Julho de 2024

Nelson Américo Machai


CMG Fz (MOZ)

ii
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Agradecimentos

O meu primeiro agradecimento é para a direção das Forças Armadas de Defesa de


Moçambique, por ter me concedido esta grande oportunidade com a nomeação para
frequentar o Curso de Promoção a Oficial General por forma a elevar as minhas qualidades
profissionais fundamentais para o desempenho de funções.
Ao Capitão-de-mar-e-guerra Luciano Joaquim dos Santos Oliveira, meu orientador,
agradeço a sua permanente disponibilidade na orientação, aconselhamento e
profissionalismo que contribuíram decisivamente para que este trabalho de investigação
individual tenha sido realizado com sucesso.
Um agradecimento especial vai ao Capitão-de-mar-e-guerra Carlos Miguel
Castanheira Cossa, que incansavelmente dia e noite deu todo o apoio intelectual e moral
para que a frequência a este curso fosse mais leve e produtiva possível.
Às diferentes personalidades, que amavelmente acederam ser entrevistadas no
âmbito deste trabalho, agradeço pelos valiosos contributos que deram a esta investigação.
Aos camaradas do CPOG 2023/2024, agradeço pelo inestimável ambiente, ao
verdadeiro espírito de camaradagem que me emprestaram durante a frequência. Eles foram
a minha segunda família.
Por fim, um agradecimento muito especial à minha família e aos meus amigos, em
particular à minha mãe (Francelina), à minha esposa (Juvenália) e às minhas princesas
(Clélia, Junelsa e Nelmayla), pela compreensão permanente, apoio incondicional e
incentivo para que pudesse levar o trabalho avante, por isso este trabalho é também vosso.
Bem hajam todos!

iii
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Índice
1. Introdução .......................................................................................................... 1
2. Enquadramento teórico conceptual ....................................................................4

2.1. Revisão da literatura ...................................................................................... 4


2.1.1. Espaços marítimos ................................................................................. 5

2.2. Modelo de análise ........................................................................................ 11


2.3. Metodologia .................................................................................................13
2.3.1. Participantes e procedimento ...............................................................13
2.3.2. Instrumento de recolha de dados ......................................................... 13
2.3.3. Técnicas de análise de dados ............................................................... 14

3. Principais riscos e ameaças nas águas jurisdicionais em Moçambique ...........15

3.1. Localização geoestratégica de Moçambique ............................................... 15


3.2. Caraterização dos riscos e ameaças ............................................................. 16
3.3. Síntese Conclusiva .......................................................................................18

4. Instituições intervenientes no controlo do mar em Moçambique ....................20

4.1. Caraterização da contribuição das instituições com interesse no mar .........20


4.2. Síntese Conclusiva .......................................................................................23

5. Recursos que sustentam as missões atribuídas à Marinha de Guerra de


Moçambique ........................................................................................................................ 25

5.1. Enquadramento Jurídico .............................................................................. 25


5.2. Organização da Marinha de Guerra de Moçambique .................................. 26
5.3. Pessoal e meios que cumprem as missões ................................................... 29
5.4. Síntese Conclusiva .......................................................................................31

6. Análise de desempenho da Marinha de Guerra de Moçambique na segurança


marítima ......................................................................................................................... 32

6.1. Análise estratégica ....................................................................................... 32


6.2. Síntese conclusiva ........................................................................................33

7. Contributos para a melhoria da ação da Marinha de Guerra de Moçambique na


segurança marítima ..............................................................................................................35

iv
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

7.1. Síntese conclusiva e resposta à questão central ...........................................36

8. Conclusões .......................................................................................................37
9. Referências Bibliográficas ...............................................................................41

Índice de Anexos
Anexo A — Poder nos espaços marítimos ................................................. Anx A-1

Índice de Apêndices

Apêndice A — Corpo de Conceitos ...............................................................Apd A-1


Apêndice B — Personalidades entrevistadas ................................................. Apd B-1
Apêndice C — Instituições que desempenham funções no mar .................... Apd C-1
Apêndice D — Análise do conteúdo das entrevistas ......................................Apd D-1
Apêndice E — Análise SWOT ....................................................................... Apd E-1
Apêndice F — Dedução de linhas de ação estratégica .................................. Apd F-1
Apêndice G — Medidas genéticas, estruturais e operacionais ...................... Apd G-1

Índice de Figuras
Figura 1 - Espaços Marítimos ................................................................................................6
Figura 2 - Pirataria Marítima em 2023 ................................................................................. 8
Figura 3 - Situação dos navios quando atacados ................................................................... 8
Figura 4 - Situação em Abril de 2024 ....................................................................................9
Figura 5 - Mapa da densidade de navegação em torno de África ........................................10
Figura 6 - Principais Rotas Marítimas mundiais ................................................................. 16
Figura 7 - Abordagem Integrada do SAM ...........................................................................23
Figura 8 - Organograma da MGM .......................................................................................27
Figura 9 - Teatros de Operações Navais da MGM .............................................................. 29

Índice de Quadros
Quadro 1 – Modelo de análise ............................................................................................ 11
Quadro 2 – Poder nos espaços marítimos .................................................................Anx A-1
Quadro 3 - Personalidades entrevistadas .................................................................. Apd B-1
Quadro 4 - Instituições que desempenham funções no mar (adaptado da Constituição da
República de Moçambique) ............................................................... Apd C-1
v
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Quadro 5 – Análise das entrevistas de Portugal ........................................................ Apd D-1


Quadro 6 - Análise das entrevistas de Moçambique ................................................ Apd D-5
Quadro 7 – Matriz SWOT .........................................................................................Apd E-1
Quadro 8 – Linhas de ação estratégica ......................................................................Apd F-1
Quadro 9 – Medidas genéticas, estruturais e operacionais .......................................Apd G-1

vi
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Resumo
O Canal de Moçambique é estratégico para o desenvolvimento do país, da região e
do mundo, tanto pelos seus recursos naturais, como por constituir uma das principais rotas
marítimas do mundo. Contudo, pode ser fonte para a prática de atos ilícitos, constituindo
desta forma uma ameaça aos interesses de Moçambique. A Marinha de Guerra de
Moçambique tem responsabilidade no âmbito da defesa dos espaços marítimos nacionais,
pelo que se torna relevante a realização do presente estudo no sentido de propor
contributos para a segurança e desenvolvimento nacional.
Em termos metodológicos, foi utilizado um raciocínio indutivo, associado a uma
estratégia de investigação qualitativa. A recolha de dados foi efetuada através do recurso a
análise documental, complementada por entrevistas semiestruturadas.
A defesa dos espaços marítimos implica ter uma capacidade de monitorização, que
passa pelo conhecimento situacional marítimo e capacidade de intervenção rápida através
de meios, equipamentos e pessoal, de acordo com a tipologia de cada ameaça.
Atendendo às circunstâncias socioeconómicas e culturais de Moçambique afigura-se
como mais adequado, em termos organizacionais e operacionais, criar e operacionalizar
um sistema de autoridade marítima, liderado pela Marinha, seguindo o paradigma de duplo
uso, e coordenando a sua ação com outras organizações competentes no mar.

Palavras-chave:
Marinha Guerra de Moçambique; Segurança marítima; Autoridade Marítima.

vii
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Abstract

The Mozambique Channel is strategic for the development of the country, the
region and the world, both for its natural resources and for constituting one of the main
maritime routes in the world. However, it can be a source for the practice of illicit acts,
thus constituting poses a threat to the national interests of Mozambique.
The Mozambique Navy has responsibility in the context of the defense of national
maritime spaces, which is why it becomes It is important to carry out this study in order to
propose contributions to safety and national development. In methodological terms,
inductive reasoning was used, associated with a strategy of qualitative research. Data
collection was carried out using documental analysis, complemented by semi-structured
interviews.
The defense of maritime spaces implies having a monitoring capacity, which
involves by Maritime Domain Awareness and the ability to intervene quickly through
means, equipment and personnel, according to the type of each threat. Given the socio-
economic and cultural circumstances of Mozambique, it appears to be most appropriate, in
organizational and operational terms, to create and operationalize a maritime authority,
led by the Navy, following the dual-use paradigm, and coordinating its action with other
competent organizations at sea.

Keywords:
Mozambique Navy, Maritime Security, Maritime Authority.

viii
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Lista de abreviaturas, siglas e acrónimos


C
CEDN Conceito Estratégico de Defesa Nacional
CM Canal de Moçambique
CNUDM Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar
CPLP Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
CSM Conhecimento Situacional Marítimo
E
EUTM MOZ European Union Training Mission in Mozambique
F
FADM Forças Armadas de Defesa de Moçambique
I
INAM Instituto Nacional de Meteorologia
INAMAR Instituto Nacional da Marinha
IUM Instituto Universitário Militar
L
LAE Linhas de Ação Estratégica
M
MGM Marinha de Guerra de Moçambique
ME Medidas estruturais
MG Medidas genéticas
MO Medidas operacionais
O
OE Objetivo Específico
OG Objetivo Geral
OMI Organização Marítima Internacional
Q
QC Questão Central
QD Questão Derivada

ix
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

R
RCOC Centro de Operações de Coordenação Regional
S
SADC Southern African Development Community
SAM Sistema de Autoridade Marítima
Z
ZEE Zona Económica Exclusiva

x
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

1. Introdução
Moçambique é um país estrategicamente situado na margem oriental do continente
africano e possui a terceira maior linha de costa do continente africano com cerca de 2780
km (Governo de Moçambique, 2015). As suas águas jurisdicionais, ricas em recursos
naturais, interligam-se com o Oceano Índico através do Canal de Moçambique (CM) que
separa o país da Ilha de Madagáscar, o qual apresenta cerca de 400 km de largura no seu
ponto mais estreito. Madagáscar gera um “efeito de sombra” sobre Moçambique
relativamente às intempéries do mar aberto, com exceção dos extremos Sul e Norte, onde a
costa está diretamente exposta ao Oceano Índico e por isso mais exposta a fenómenos
naturais adversos.
Os oceanos constituem, atualmente, uma fonte de recursos fundamental para o
desenvolvimento e para a economia global e em especial para os países ribeirinhos,
nomeadamente para as comunidades costeiras que deles dependem direta ou indiretamente,
seja na atividade económica diária de subsistência ou na indústria extrativa. Este fator
geoestratégico do mar, nomeadamente porque grande parte do comércio e da economia
mundial passa nos oceanos, veio transmitir um novo relevo às problemáticas da
maritimidade e da segurança marítima, conferindo uma crescente importância
geoestratégica e geopolítica dos mares e oceanos. Assim, países e organizações passaram a
articular políticas, sinergias e a definirem estratégias consentâneas com os seus interesses
de Estado. Nesta conjuntura, temos vindo a constatar que a comunidade internacional tem
adotado uma postura teoricamente mais proativa, contudo pensamos que pouco efetiva,
nomeadamente na projeção da importância do mar e dos fatores económicos associados
(Bernardino, 2010, p. 62).
Moçambique sendo banhado pelo Oceano Índico beneficia desses recursos e
que, simultaneamente despertam interesse para outros países e ou organizações,
nomeadamente que se dedicam ao tráfico ilegal e às atividades ilícitas no mar.
Consequentemente, cumpre ao Estado costeiro zelar pelos recursos que lhe
pertencem nos espaços marítimos de soberania ou jurisdição nacional e fazer
cumprir a lei e a ordem nesses espaços. A proteção dos recursos marítimos e
as ações para evitar que as atividades ilícitas no mar tenham reflexo em terra,
caem no âmbito da segurança marítima. Contudo, esses ilícitos podem também
prejudicar o próprio ambiente marítimo em termos de esgotamento de espécies,
poluição ou de perigo para a navegação, constituindo-se numa séria ameaça à
soberania nacional. Cajarabille et al. (2012, p. 29)
1
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Este contexto dá uma boa ideia da importância do mar para a economia mundial e,
sobretudo, para a economia moçambicana. Porém, os riscos e as ameaças no ambiente
marítimo têm se multiplicado e constitui uma prioridade para o Estado Moçambicano.
Importa salientar que os riscos não pressupõem a existência da intenção em cometer uma
ação ilegal ou provocar dano, enquanto as ameaças pressupõem a intenção do agente que
as produz em efetuar uma ação que é ilegal e que pode provocar dano (Monteiro 2011, p.
17).
Neste âmbito, o Governo de Moçambique tem vindo a desenvolver esforços para o
incremento da capacidade de controlo e preservação dos recursos naturais, dotando as
várias instituições de capacidades e meios adequados. Nos últimos anos, vários projetos
foram desenvolvidos com vista a criar um Sistema de Autoridade Marítima (SAM), capaz
de otimizar os meios de vigilância e controlo com vista a garantir a segurança marítima.
Nestes, a Marinha de Guerra de Moçambique (MGM), ramo das Forças Armadas de
Defesa de Moçambique (FADM), é uma das instituições com elevada responsabilidade no
âmbito da defesa dos espaços marítimos nacionais, o que torna relevante a realização do
presente estudo, com vista a fortalecer o papel da MGM, para o cumprimento integral da
missão de defesa dos espaços marítimos e intervenção no contexto da Autoridade Marítima
que culmina com a Ação do Estado no Mar.
O objeto de estudo é a MGM que será delimitado em três domínios: tempo, espaço e
conteúdo (Santos & Lima, 2019, p. 42).
A pesquisa será realizada limitando-se aos espaços marítimos de Moçambique e
análise será feita considerando no período entre 2017 a 2023, por se tratar do período
entendido como suficiente para compreender as alterações e os desafios que a Marinha
enfrentou nos últimos anos. O ano de 2017 é o ponto de partida por ter sido o início dos
ataques terroristas em Cabo Delgado. Sendo 2023 o ano de implementação da legislação
das instituições ligadas ao mar. Em termos de conteúdo, este estudo incidirá sobre o
emprego e organização da MGM na segurança marítima dos espaços marítimos de
Moçambique.
O Objetivo Geral (OG) da presente investigação é: Propor contributos para a ação da
Marinha de Guerra de Moçambique na segurança marítima em Moçambique.
Para cumprir com o OG, e para facilitar a sua abordagem, formularam-se quatro
objetivos específicos (OE):
OE1 - Caracterizar os riscos e as ameaças nas águas jurisdicionais em Moçambique;

2
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

OE2 - Caracterizar a contribuição das instituições que intervém no controlo do mar


em Moçambique;
OE3 - Analisar os recursos (humanos e materiais) que sustentam as missões
atribuídas à MGM no âmbito da Segurança Marítima;
OE4 – Analisar o desempenho da MGM na segurança marítima.
Considerando que a MGM é um organismo com elevada responsabilidade de defesa dos
espaços marítimos nacionais, identificou-se a seguinte questão central para a pesquisa: De
que forma a MGM pode contribuir para a segurança marítima em Moçambique?
O presente trabalho de investigação terá uma estrutura do tipo tradicional (Santos &
Lima, 2019, pp. 150-151) e estará organizado em seis capítulos, para além da introdução e
das conclusões.
A introdução incluirá o enquadramento e a justificação do tema, o objeto de estudo e
a sua delimitação, os objetivos e as questões levantadas, assim como a organização do
estudo no que respeita à sua estrutura e conteúdo (Santos & Lima, 2019, p. 150).
No segundo capítulo será apresentada a informação resultante do processo de revisão
de literatura, de modo a contextualizar o tema. Serão igualmente descritos o modelo de
análise e o percurso metodológico seguido e a seguir durante as suas diferentes fases, bem
como os instrumentos e técnicas de recolha, análise e tratamento de dados. No terceiro
capítulo procurar-se-á caracterizar os riscos e ameaças nas águas jurisdicionais de
Moçambique, de forma a identificar determinar os potencias desafios. No quarto capítulo,
será feita uma caracterização da contribuição das instituições intervenientes no controlo do
mar em Moçambique, de modo a indicar as suas atribuições, meios e atividades. No quinto
capítulo, far-se-á uma análise dos recursos (humanos e materiais) que sustentam as missões
atribuídas à MGM. No sexto capítulo, será feita análise do desempenho da MGM na
segurança marítima. No sétimo capítulo, será respondida à questão central da pesquisa
onde serão apresentados os contributos para a ação da MGM na segurança marítima.

3
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

2. Enquadramento teórico conceptual


Neste capítulo será apresentada a revisão da literatura, modelo de análise e a
metodologia de investigação.

2.1. Revisão da literatura


Moçambique tem soberania e jurisdição numa área considerável de mar (águas
interiores marítimas, mar territorial, zona económica exclusiva e plataforma continental),
sobre a qual é necessário garantir a defesa dos interesses nacionais.
Estes interesses no mar incluem, entre outros: a exploração sustentada de recursos
vivos e minerais, que contribui para o desenvolvimento económico e para o crescimento da
riqueza nacional; via de comunicação e transporte, assegurando o abastecimento nacional e
dos países vizinhos (Interland) de produtos por via marítima; a defesa nacional, através da
possibilidade de projeção de força do mar para terra a grandes distâncias.
A segurança, para além de constituir um objetivo primordial do Estado é , sem
dúvida, um pré́-requisito para o progresso e o bem-estar. Sem um grau
aceitável de segurança, não existirá a tranquilidade necessária para o normal
desenvolvimento das atividades inerentes à vida organizada em sociedade.
Num sentido abrangente, a segurança resulta da adequada utilização de um
conjunto de recursos de vária ordem, sejam eles políticos, económicos, sociais,
militares, energéticos, educacionais e muitos outros. (Cajarabille, 2009, p. 103)
As principais ameaças aos interesses nacionais no mar incluem: a generalidade do
crime organizado transnacional associado ao tráfico de droga; o terrorismo e insurgência,
ao tráfico de seres e órgãos humanos; o tráfico de madeira, marfim e pedras preciosas; a
pirataria marítima; a pirataria marítima e a pesca ilegal, não declarada e não regulada.
Para que o país possa tirar o maior proveito do mar é necessário garantir a sua
segurança (tanto no sentido “safety” como de “security”). Sucintamente, a primeira está
relacionada com riscos e refere-se à prevenção de acidentes no mar e ações subsequentes
em caso de sinistros, quanto às regras para condução segura da navegação da certificação e
inspeção de embarcações, bem como da proteção do meio ambiente. A perspetiva security
está relacionada com ameaças, referindo-se a atos intencionais ilícitos sobre navios,
pessoas, instalações e equipamentos ligados a atividades marítimas e envolve instrumentos
de força e medidas para proteger a navegação e os recursos do mar e ainda combater a
criminalidade nos espaços marítimos.

4
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

A segurança no mar deve ser estudada como um subsistema de segurança nacional,


portanto integrada em visões mais amplas, com as quais terá que ser congruente, embora
tenha caraterísticas próprias Cajarabille et al. (2012, p. 21).
A Fundação Brenthurst (2010, p. 10). define a segurança marítima, numa perspetiva
africana, como “…tudo aquilo que cria, mantém ou melhora a utilização segura das vias
marítimas africanas e das infraestruturas que suportam essas vias…”
Um dos fatores basilares do desenvolvimento da economia associada ao mar,
vulgarmente designada por “economia azul”, é a existência de condições de segurança que
permita o desenvolvimento da indústria e das atividades comerciais ligadas ao mar.
2.1.1. Espaços marítimos
O Estado moçambicano ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do
Mar (CNUDM) em 13 de março de 1997. Para que qualquer Estado Costeiro possa intervir
no mar será necessário que conheça os seus limites de áreas de jurisdição marítima. Apesar
da convenção de Mondego Bay ter definido os limites dos espaços marítimos, são vários os
estados costeiros em situação conflituosa nesta matéria. Em Moçambique, a Lei n. 
20/2019, de 8 de novembro de 2019, designada “Lei do Mar”, é baseada na CNUDM de
1982 (ver figura 1), onde constam nos termos do regulamento doutrinário interno de
Moçambique, as seguintes definições:
 Águas interiores marítimas: são as situadas no interior da linha de base, a
partir da qual se mede a largura do mar territorial, nos termos do artigo 13 da Lei n. 
20/2019, de 4 de Janeiro, Lei do mar
 Mar Territorial: compreende a faixa do mar cuja largura se estende até 12
milhas náuticas, medidas a partir da linha base. A soberania do Estado estende-se para
além do território e das suas águas interiores ao mar territorial e ao espaço aéreo
sobrejacente bem como ao leito e subsolo do mar territorial definido nos termos do
artigo14 da Lei do mar.
 Zona Contígua: é a faixa do mar adjacente ao mar territorial, a qual se estende
até 24 milhas náuticas medidas a partir da linha base, onde o Estado exerce o controlo
necessário a prevenção da violação das leis e regulamentos aduaneiros, fiscais, migração,
sanitários e prevenção do meio ambiente marinho, estabelecida nos termos do artigo n.º 15
da supracitada Lei do Mar.

5
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

 Zona Económica Exclusiva: que compreende a faixa do mar além e adjacente


ao mar territorial, que se estende até à distância de 200 milhas náuticas, medidas a partir da
linha de base, da qual se mede o mar territorial. (artigo n.º 16 da Lei do Mar).

Figura 1 - Espaços Marítimos


Fonte: Adaptado European Commission (2015)

É possível relacionar os diversos tipos de infrações que ocorrem no mar com quem
pode autorizar as ações de controlo da aplicação do direito do mar nos espaços marítimos
sob jurisdição nacional de acordo com a delimitação estabelecida (ver Apêndice A).
A importância do espaço marítimo para a economia das nações e o seu forte
contributo para o desenvolvimento é inquestionável, razão pela qual a segurança marítima
afigura-se como um aspeto de grande relevância para o comércio internacional.
Desde a fundação da Organização Marítima Internacional (OMI) em 1948, conforme
observado por Fortes (2014), houve uma clara distinção entre duas dimensões da segurança
marítima: Segurança Marítima e Proteção Marítima, amplamente conhecidas
internacionalmente como Maritime Safety e Maritime Security.
Fortes (2014) explica que a dimensão da segurança marítima aborda questões
relacionadas à garantia da segurança da vida humana no mar, a segurança da navegação e a
proteção e preservação do ambiente marinho. Isso engloba um conjunto de regras e
procedimentos destinados a prevenir ou minimizar a ocorrência de acidentes no mar, com
foco na segurança dos navios face a possíveis catástrofes naturais ou outros riscos não
intencionais. As normas para a segurança dos navios podem abranger aspetos como a
construção, materiais e sistemas do navio, bem como a formação dos marítimos e as

6
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

condições de trabalho. Nesse sentido, tanto o Estado de bandeira quanto os Estados


costeiros desempenham um papel fundamental na fiscalização da aplicação e execução
eficazes dessas normas. No contexto de Moçambique, o Instituto Nacional da Marinha
(INAMAR) é o órgão responsável pela segurança marítima no país, conforme estabelecido
na Resolução n.º 9/2012 de 15 de março.
Ainda de acordo com Fortes (2014) no que concerne à dimensão da Segurança, esta
engloba todas as medidas destinadas à proteção contra atos ilícitos e deliberados
perpetrados por indivíduos que possam perturbar ou obstruir atividades legítimas no mar,
ou que possam se aproveitar do espaço marítimo para realizar atividades ilegais. Assim,
algumas das principais ameaças à segurança marítima compreendem:
 Ameaça ou uso da força contra a soberania, a integridade territorial ou a
independência política de um Estado;
 Atos terroristas contra o transporte, instalações offshore e de outros interesses
marítimos;
 Transporte ilegal de armas, nomeadamente as armas de destruição em massa;
 Pirataria e assalto à mão armada no mar;
 Crimes transnacionais organizados, como por exemplo, o contrabando de
migrantes, narcóticos, arma;
 Ameaças à segurança de recursos, como por exemplo, a pesca ilegal, não
regulamentada e não declarada; e
 Ameaças ambientais, nomeadamente o derrame de petróleo.
Neste contexto, discutem-se estes riscos e estas ameaças, procurando demonstrar a
necessidade de preservar a segurança marítima, como condição de base para um adequado
aproveitamento económico dos oceanos. A segurança marítima é aqui entendida no sentido
mais lato do termo, incluindo a ‘‘…proteção do domínio marítimo (e a limitação dos
efeitos) face a perigos, danos ambientais, riscos ou perdas, tento acidentais como naturais’’
(safety) e a ‘‘proteção do domínio marítimo contra ameaças ou atos ilícitos
intencionais…’’ (security) (Monteiro, 2011, p. 12).
Para os ilícitos acima referidos, as autoridades competentes são a MGM, ao abrigo
do Decreto-lei n.º 71/2016 de 30 de outubro, e a Polícia de Proteção Marítima, Lacustre e
Fluvial, ao abrigo da Lei n. 16/2013 de 12 de agosto.

7
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Figura 2 - Pirataria Marítima em 2023


Fonte: Map-1 (2023). Retirado de [Link]
map/piracy-

A Figura 2, ilustra as zonas que são frequentemente assoladas pela pirataria marítima
onde o canal de moçambique não é exceção e já vivenciou1 vários casos desta natureza.
Este facto torna cada vez mais importante o destaque do papel da MGM para o combate
aos ilícitos no mar e que a união de esforços institucionais poderá ajudar a trazer maiores
benefícios para Moçambique. Como se pode observar pela figura 3, em 2023 a maior
ocorrência de ataques existiu com os navios em fundeadouros, o que consubstancia as
situações ocorridas naquele ano nos fundeadouros moçambicanos.

Figura 3 - Situação dos navios quando atacados


Fonte: New-imb-report-reveals-concerning-rise-in-maritime-piracy-incidents-in-2023. Retirado de
[Link]

1
Roubo a bordo (16JUL23) - Fundeadouro da Beira com roubo de carga e Roubo a bordo (01DEZ23) -
Fundeadouro de Nacala com roubo de carga ([Link]
piracy-map/piracy-map-2023-1)
8
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Refira-se que em 2024, a crescente situação de insegurança ao largo da Somália (ver


figura 4) e a situação de conflito internacional com os rebeldes Houthis no Mar Vermelho,
com centenas de navios a desistirem da rota pelo Suez2, está a gerar uma alteração de
comportamento da navegação mercante naquelas águas, o que poderá aumentar a utilização
do CM para a navegação internacional.

Figura 4 - Situação em Abril de 2024


Fonte: Mapa (2024). Centro de Relatório de pirataria IMB. Retirado de [Link]

Com efeito, o CM apresenta já uma expressão considerável para o comércio


marítimo através do Atlântico, como se poderá observar pela figura 5. Esta, obtida em 13
de maio de 2024, com dados em tempo real, reflete a crescente utilização daquela via de
navegação, com um aparente decréscimo na entrada do Mar Vermelho.

2
Um quarto da capacidade mundial em transporte marítimo por contentores já desistiu da rota pelo
Mar Vermelho e pelo Canal do Suez desde o início dos ataques Hutis na região, segundo o balanço mais
recente publicado pelo blogue da Flexport. [Link]
Vermelho-agrava-se.-Mais-de-500-navios-desistem-da-rota-pelo-Suez
9
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Figura 5 - Mapa da densidade de navegação em torno de África


Fonte: Marinetraffic. Retirado de [Link]

10
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

2.2. Modelo de análise


O modelo de análise definido para o presente estudo tem como conceitos fundamentais a segurança marítima, safety & security.
Quadro 1 – Modelo de análise

TEMA O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

OBJETIVO GERAL Propor contributos para a ação da Marinha de Guerra de Moçambique na segurança marítima.

Questão Central De que forma a Marinha de Guerra de Moçambique pode contribuir para a segurança marítima em Moçambique
OBJETIVOS ESPECÍFICOS Técnicas de
Questões Derivadas Conceitos Dimensões Indicadores
recolha

 Ameaça ou uso da força contra a soberania, a


integridade territorial ou a independência política
de um Estado; N.º de atos
 Atos terroristas contra o transporte, instalações praticados
 Segurança offshore e de outros interesses marítimos;
marítima,  Transporte ilegal de transporte de armas, Nível de violência
Quais são as  Recolha de
Caracterizar os riscos e  Safety & nomeadamente as armas de destruição em massa;
características dados
as ameaças nas águas Security  Pirataria e assalto à mão armada no mar; Número de patrulhas
principais das  Revisão
OE1 jurisdicionais em QD1  Crimes transnacionais organizados, como por marítimas
ameaças nas águas bibliográfica
Moçambique; exemplo, o contrabando de migrantes, narcóticos,
jurisdicionais de  Entrevistas
arma; Número de
Moçambique? semiestruturad
 Ameaças à segurança de recursos, como por embarcações que
as
exemplo, a pesca ilegal, não regulamentada e não exercem pesca
declarada; e
 Ameaças ambientais, nomeadamente o derrame de
petróleo.

11
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Caracterizar a
Qual é a
contribuição das Organização
contribuição das
instituições que Competências
OE2 QD2 instituições que Na
intervém no controlo Atribuições
intervém no mar em
do mar em Águas jurisdicionais
Moçambique?  Coordenação institucional
Moçambique;
 Número de intervenientes no mar
Como é que os
Analisar os recursos MGM  Nível de atuação no mar Quantidade
recursos da MGM
(humanos e materiais) Emprego Qualidade
sustentam as
OE3 que sustentam as QD3 Organização Natureza dos meios
missões no âmbito
missões atribuídas à Formação
da Segurança
MGM. Treino
marítima?
Quais as disfunções
Analisar o desempenho
da MGM na
OE4 da MGM na segurança QD4
fiscalização
marítima
marítima?

12
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

2.3. Metodologia
Como o processo de raciocínio, adotou-se o tipo indutivo, através do qual se
“…pretende conhecer mais profundamente um determinado fenómeno ou situação
particular, podendo ou não se chegar a uma teoria explicativa formal…” (Santos & Lima,
2019), isto é, a partir de um estudo aprofundado, os resultados obtidos podem servir para
outras instituições com interesse no mar.
A estratégia de investigação foi qualitativa, tendo-se procurado “alcançar um
entendimento mais profundo e subjetivo do objeto de estudo, sem se preocupar com
medições e análises estatísticas” (Vilelas, citado por Santos & Lima, p. 27).
O tipo de desenho de pesquisa adotado foi o estudo de caso, que consistiu num
procedimento metodológico através do qual se recolheu informação sobre os contributos
para a melhoria das ações nas diversas vertentes, incluindo a componente externa,
coordenação com os diferentes atores intervenientes no mar no âmbito do exercício da
autoridade do Estado nas águas jurisdicionais em Moçambique, na busca da compreensão
do fenómeno a estudar (Freixo, 2011, p. 109).

2.3.1. Participantes e procedimento


As entrevistas semiestruturadas foram realizadas de acordo com a reconhecida
experiência e competência de cada entrevistado na sua relação com o tema e foram
realizadas de forma presencial, e de forma telemática, de acordo com a disponibilidade,
distância e preferência dos entrevistados (Ver Apêndice B). Os guiões das entrevistas
focaram-se nos assuntos da sua especialidade e nas funções. A todos os intervenientes
foram asseguradas as garantias de salvaguarda do anonimato e confidencialidade, a que
todos abdicaram. As transcrições das entrevistas foram objeto de análise interpretativa para
enquadramento, categorização e identificação de dados para a investigação, constituindo
um poderoso instrumento de análise.

2.3.2. Instrumento de recolha de dados


A recolha de dados foi essencialmente realizada através de pesquisa bibliográfica e
análise documental.
A pesquisa bibliográfica irá focou-se em:
 Causas das ameaças nas águas jurisdicionais de Moçambique;
 Bases de dados com cobertura mundial sobre a segurança marítima no CM;
 Medidas gerais da Organização internacional marítima.
13
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

2.3.3. Técnicas de análise de dados


Da conjugação racional da análise documental e das entrevistas foram inferidas ou
selecionadas medidas que visam a contribuição da MGM na segurança marítima.

14
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

3. Principais riscos e ameaças nas águas jurisdicionais em Moçambique


Este capítulo pretende caracterizar os principais riscos e ameaças nas águas
jurisdicionais em Moçambique.

3.1. Localização geoestratégica de Moçambique


A posição geográfica de Moçambique força a convergência de rotas, constituindo uma
alternativa de petroleiros, particularmente, quando não utilizam o canal de Suez. A rota
do canal de Moçambique absorve cerca de 75% do tráfego marítimo de e para os países
vizinhos incluindo Moçambique, e 25% de outras partes do mundo.3
A navegação internacional, nesta região, tem conhecido um aumento de intensidade
na utilização do CM, que já é uma das rotas principais juntando vários continentes. Além
disso, está provado que as águas territoriais africanas são dotadas de abundantes recursos
vivos e não vivos, que já foram alvo das atividades criminosas atrás mencionadas

(Mangrasse, 2012, p. 12)


Segundo Min (2010, p. 14) o CM possui correntes quentes e é responsável pela
riqueza e diversidade de vida marinha que faz deste país o destino não somente turístico,
mas igualmente, de exploração dos recursos pesqueiros e comércio marítimo mundial. Para
Moçambique o mar constitui fonte de recurso, polo de atração turística, meio de ligação,
com o exterior, fonte de aquisição de receitas pela utilização dos portos marítimos, sendo
mais importante ainda como espaço para o desenvolvimento e criação de capacidade de
defesa considerado como fato de mais-valia de poder.
Por conseguinte, a localização de Moçambique na África Austral reveste-se de
grande importância geoestratégica, que se pode considerar fulcral para o Estado,
devido ao seu posicionamento face às facilidades de acesso a toda costa
marítima que possui, assim como dos portos principais, secundários e terciários,
que lhe favorecem uma boa articulação de defesa e devido a disposição destes e
das facilidades que oferecem para o desdobramento e persuasão (Min, 2010, p.

10).
O Almirante Gouveia e Melo defende que a posição geoestratégica de Moçambique,
de charneira entre o Índico e o hinterland, atribui-lhe o estatuto de ator regional de
destaque e torna imperiosa a necessidade de agir de forma pragmática, mas com uma visão

3
Fonte: [Link]

15
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

para o futuro, desenvolvendo as infraestruturas e as capacidades necessárias no curto-


médio prazo, para monitorização e resposta às ameaças ao interesse nacional (Melo, cit.
por Cossa, 2023, p. 12).
Os autores acima, reconhecem a importância da localização de Moçambique como
sendo essencial para o desenvolvimento do próprio país, países vizinhos que não são
banhados pelo mar conseguirem fazer o seu comércio no mar através dos portos de
Moçambique e do mundo, tanto pelos seus recursos e por constituir uma das principais
rotas marítimas do mundo que liga vários países e continentes (Figura 6) contudo, estas
mesmas águas são também fonte para prática de vários atos ilícitos constituindo desta
forma ameaça à soberania nos espaços marítimos de jurisdição nacional.

Figura 6 - Principais Rotas Marítimas mundiais


Fonte: Mapa Base. Global Shipping Routes. Retirado de
[Link]
ing=1

3.2. Caraterização dos riscos e ameaças


Os estados costeiros estão expostos a uma multiplicidade de ameaças e riscos
emergentes, que tiram partido do mar, podendo muitas delas desenvolver-se de forma
encoberta e insidiosa, sendo assim de difícil deteção, mas carecendo de novas respostas por
parte dos Estados ou regiões onde têm lugar, sob pena de produzirem efeitos altamente
prejudiciais às economias nacionais, regionais e ou global (Lourenço, 2012, p. 10).
A investigação conduzida por Feldt, Roel, & Thiele (2013, cit. por Alexandre, 2022,
p. 17), definiu "maritime security" como sendo a "…combinação de medidas preventivas e
respostas para proteção do domínio marítimo contra ameaças e atos ilegais intencionais…"
16
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

enquanto que "matitime safety" seria a "combinação de medidas preventivas e respostas


destinadas a proteger o domínio marítimo e limitar o efeito do perigo acidental o natural,
dano ao meio ambiente, riscos ou perda"
Para Pereira (2018, p. 103) no mar nã o existem fronteiras que impeç am que
os efeitos de um incidente evoluam e se propaguem a despeito do seu local de
origem. Qualquer ocorrê ncia pode influenciar tanto outros eventos nas suas
proximidades, como afetar també m acontecimentos em espaç os contí guos
ou distantes.
De acordo com a Fundação Brenthurst (2010, p. 262), a pirataria e o assalto à mão
armada são considerados como a ameaça principal contra a segurança marítima da África
Austral.
As “ameaças” são, essencialmente, de duas naturezas: os ilícitos genéricos no mar e
os ilícitos específicos que tenham influência na liberdade de navegação. Na primeira,
constam, designadamente, o tráfico de estupefacientes e de substâncias psicotrópicas, o
contrabando em geral e o de armamento, a proliferação de armas de destruição maciça, a
exploração ilegal de recursos marinhos, da plataforma ou do património cultural
subaquático, os atentados ambientais (em que se inclui a poluição) e a imigração ilegal. Na
segunda, contam-se, entre outros, o terrorismo, a pirataria, os ataques cibernéticos aos
sistemas de informação e outras atividades de cariz criminoso classificadas como tal pelo
Direito Internacional. Por sua vez, os “ riscos ” apresentam uma natureza tendencialmente
acidental ou natural e têm a sua identificação principal (que não exclusiva) com a
“segurança do transporte marítimo” e com a “segurança portuária”. Os danos potenciais
associados (ou a condição da criação de um “ perigo ” ) podem incidir sobre os navios e
embarcações, sobre as pessoas embarcadas, sobre as plataformas ou infraestruturas no mar
(e, igualmente, sobre aeronaves e submarinos) e sobre o ambiente marinho,
designadamente, através dos acidentes de poluição (Janus, 2021, p. 74 e 75).
Cajarabille et al. (2012, p. 70) define pirataria marítima como sendo todo o ato ilícito
de violência de detenção, ou todo o ato de depredação (pilhagem) cometidos, para fins
privados, pela tripulação ou pelos passageiros de um navio ou de uma aeronave privados e
por outro lado, Paiva (2016, p. 23) complementa dizendo que é da responsabilidade de um
Estado costeiro a luta contra a pirataria nas suas águas territoriais.

17
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

A região da Southern African Development Community (SADC), para além de outras


ameaças, enfrenta agora a ameaça da pirataria marítima, que se tem deslocado para sul
(Mangrasse, 2012, p. 12).
O crime organizado transnacional pode ser definido de forma resumida, porém
bastante abrangente, como sendo: “a associação estratégica de indivíduos que, atuando de
forma supranacional, têm por meta a obtenção de um ganho ilícito” (Werner, 2009, p. 49).
Embora tenha iniciado suas atividades como um grupo religioso, no início de 2015, o
Al-Shabaab começou a formar sua ala militar no final desse mesmo ano, a qual tem se
desenvolvido e recebido reforços oriundos de outros países (Habibe et al, 2019).
Nuvunga (2020), defende que em Moçambique a droga tem como principal
entreposto o Porto de Nacala, na província de Nampula, seguindo posteriormente para a
África do Sul, de onde é distribuída para os grandes centros urbanos da Europa e dos
Estados Unidos da América.
A economia da região norte de Moçambique é já muito resiliente e largamente
baseada em atividades ilícitas, tais como, a extração e o comércio ilegal de madeira
realizado por madeireiros chineses, e o já citado tráfico de drogas, controlado pela “Máfia
de Nacala” (Haysom, 2018).
O desenvolvimento destes atos criminosos nos espaços marítimos de
determinadas regiões em escalas significativas, é facilitado pela ocorrência ou
persistência de vulnerabilidades decorrentes do insuficiente exercício de
autoridade e soberania dos estados no mar, de dificuldades económicas e
financeiras de muitos estados costeiros (cujas populações podem ser atraídas
para atos ilícitos); fraca governação e ou déficit de aplicação da justiça que
favorece a corrupção de alto nível ou fugas de informação, segundo a
investigação conduzida por Silva. (2011, cit. por Lourenço, 2012, p. 111)

3.3. Síntese Conclusiva


Em resposta à QD1- Quais são as caraterísticas das principais ameaças e riscos nas
águas jurisdicionais de Moçambique? Conclui-se que, a localização de Moçambique
representa simultaneamente uma oportunidade, mas também, uma ameaça num mundo
ávido de recursos e fortemente competitivo. Outrossim, os países do Interland para
realizarem o comércio internacional dependem dos portos moçambicanos, sendo que estes
também podem ser um fator de ocorrência de ilícitos no mar. Os principais ilícitos
constituem-se como: exploração ilegal dos recursos, terrorismo, tráfico de drogas,
18
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

contrabando de mercadorias, exploração de espécies protegidas e outros. A ocorrência de


um ato ilícito numa determinada área dos espaços marítimos, o seu impacto pode ser
sentido e ou refletir se em outras áreas dos espaços marítimos, até nos espaços terrestres
por isso não deve ser visto de forma isolada. Os ilícitos ocorrem devido a fraca capacidade
do Estado de fiscalizar os espaços marítimos sob jurisdição nacional.

19
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

4. Instituições intervenientes no controlo do mar em Moçambique


No presente capítulo iremos descrever as instituições que intervém no mar em
Moçambique, suas atribuições e a sua contribuição para a segurança marítima.
A Constituição da República é a lei soberana onde estão consagrados todos os
atributos legais que preveem o funcionamento de todas as instituições com interesse no
mar, garantindo a soberania e a inviolabilidade do território nacional.
Nos termos do direito interno e do direito internacional, compete as entidades do
Governo moçambicano que exercem o poder de autoridade marítima, dentro dos limites do
seu mandato, fiscalizar ou inspecionar todas as atividades, [...] (Lei do Mar, Lei n.º
20/2019 de 8 de novembro).

4.1. Caraterização da contribuição das instituições com interesse no mar


De acordo com o artigo 91.º, da Lei n.˚ 20/2019, de 8 de novembro, Lei do Mar, as
ações de fiscalização marítima, incluindo as águas navegáveis, lacustre e fluviais nacionais,
incidem sobre as seguintes áreas: ordem e segurança; fiscal; segurança marítima; exercício
de atividades no mar; preservação do ambiente marinho; e na proteção da saúde pública.
A fiscalização dos espaços marítimos, por parte do Estado moçambicano, visa
exercer o controlo, monitorização e fiscalização integrada das atividades que decorrem da
sua utilização, incluindo a inspeção e segurança de embarcações, estruturas, plataformas
fixas ou móveis, bem como o controlo sobre os acontecimentos que ocorrem naquele
domínio, implicando a atuação e sancionamento das infrações de natureza criminal e
contravencional. No exercício desta função, o Estado moçambicano exerce a jurisdição,
através das atribuições e contribuições das seguintes Instituições4:
a. Marinha de Guerra de Moçambique
 Garante o exercício da autoridade do Estado nos espaços marítimos;
 Fiscaliza e polícia pessoas e bens, assegura a segurança marítima e a navegação.
b. Força Aérea de Moçambique
 Responsável pela defesa, controle e vigilância do espaço aéreo nacional;
 Presta apoio às forças de superfície.
c. Polícia Costeira, Lacustre e Fluvial

4
No Apêndice C. é apresentado, na forma tabelar e de acordo com as funções previstas na
Constituição da República de Moçambique, as instituições primariamente responsáveis e as instituições
apoiantes.
20
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

 Garante a ordem e segurança públicas nos espaços marítimos, lacustres e


fluviais;
 Exerce policiamento e segurança costeira, além de fiscalização de pessoas e
bens.
d. Serviço de Informações e Segurança do Estado
 Recolhe, pesquisa e produz informações para a segurança do Estado;
 Prevenção de atos que atentem contra a Constituição e o Estado.
e. Serviço Nacional de Investigação Criminal
 Prevenção e investigação de atos de natureza criminal.
f. Serviço Nacional de Migração
 Controla o movimento migratório através das fronteiras nacionais.
g. Serviço Nacional de Salvação Pública
 Atua em prevenção de riscos, socorro e salvação em incêndios, acidentes e
calamidades naturais.
h. Alfândegas de Moçambique
 Fiscalização aduaneira e tributação das atividades económicas marítimas.
i. Instituto Nacional do Mar
 Exerce autoridade marítima nas áreas de jurisdição marítima, lacustre, fluvial e
no domínio público marítimo.
j. Ministério dos Recursos Minerais e Energia
 Dirige e assegura a execução da política governamental na exploração dos
recursos minerais e energéticos.
k. Procuradoria da República junto ao Tribunal Marítimo
 Administra a justiça em litígios inerentes à jurisdição marítima, fluvial e
lacustre.
l. Instituto do Transporte Marítimo
 Fiscaliza e inspeciona as atividades de transporte marítimo, fluvial e lacustre e
a sinalização marítima nas áreas portuárias.
m. Administração Nacional de Áreas de Conservação
 Implementa políticas de conservação da biodiversidade.
n. Instituto Nacional de Petróleo
 Regula e fiscaliza a pesquisa, produção e transporte de petróleo.
o. Instituto Oceanográfico de Moçambique

21
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

 Autoridade de investigação e pesquisa científica nos espaços marítimos e


ecossistemas relacionados.
p. Instituto Nacional de Meteorologia
 Vigilância meteorológica e climática, emissão de avisos e alertas.

Os Estados litorais têm, nesse sentido, um papel decisivo ao exercerem a autoridade


nas águas sob sua soberania, pugnando pela manutenção da ordem no espaço marítimo
adjacente à costa e nos acessos às águas interiores e aos portos, contribuindo para o esforço
da comunidade internacional para que o direito seja igualmente respeitado no Alto Mar
(Matias, 2010).
A figura 7, ilustra as Instituições com interesse no mar que exercem autoridade nas
águas jurisdicionais em representação ao Estado moçambicano, integradas no SAM. Todas
as instituições elencadas, legalmente tem mandato para a sua atuação no mar e esforçam-se
no cumprimento das suas atribuições em razão da sua matéria. No Apêndice C identificam-
se as instituições com as respetivas atribuições e competências bem como as relações de
cooperação ou de coordenação.
É imperioso que se crie uma entidade coordenadora pois, caso contrário não
haverá comprometimento por parte dos intervenientes, [...], a criação de um
Sistema de Autoridade Marítima fará com que a Marinha tenha poder de
exercício de fiscalização marítima e da Guarda Costeira capaz de interligar os
vários intervenientes no mar R. P. Brito (entrevista presencial, 22 de fevereiro
de 2024).
[...] cada instituição tem feito as suas atividades de forma individualizada. Notando-
se que as instituições que fazem a fiscalização marítima não estão devidamente alinhadas,
isto é, há falta de cooperação e de articulação interinstitucional L. S. Chimarizene
(entrevista telemática, 02 de março de 2024).
Segundo Mangrasse (2012, p. 35) , existem diversas entidades com
responsabilidades sectoriais no mar, sendo mínima, ou mesmo inexistente, a
coordenação das suas atividades em benefício da obtenção de um produto
operacional coerente e eficaz. Esta deficiência resulta essencialmente da não
partilha de informação e processos.
Por seu turno Cossa (2023) refere que atualmente, a MGM tem delegadas em si
algumas funções relacionadas com a autoridade marítima. Esta é uma solução ainda não

22
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

definitiva, uma vez que se tem advogado a necessidade de se criar um SAM, responsável
pela coordenação das atividades do exercício da autoridade do Estado no Mar. Idealiza-se
como adequado um sistema semelhante ao português, mas centralizando na Marinha as
principais funções de autoridade marítima, consolidando o seu estatuto de duplo uso,
evitando a duplicação de forças e meios para intervenção no mar. As vantagens deste
conceito podem ser vistas, entre outras, na ordem de equilíbrio de capacidades, economia
de escala, interoperabilidade de capacidades, economia de esforço, coordenação do
emprego de meios, articulação interdepartamental, flexibilidade de atuação, gradação do
uso de capacidades e coerência na atuação.
Para fazer face a esta dispersão de competências, resultante destas múltiplas
intervenções, emergiu a necessidade de se criar um órgão que coordene as atividades de
fiscalização que, no presente, são efetuadas de forma isolada pelos agentes das tutelas
acima mencionadas. Assim, o Governo moçambicano decidiu pela criação urgente do
SAM (Cossa, 2023, p. 9).

Figura 7 - Abordagem Integrada do SAM


Fonte: Chingotuane & Freixo (2016, p. 24)

4.2. Síntese Conclusiva


Face ao acima exposto e em resposta à QD2- Qual é a contribuição das instituições
que intervém no controlo do mar em Moçambique? Nota-se que as instituições que
intervém no controlo do mar em Moçambique cumprem com as suas atribuições de forma

23
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

mais isolada, sendo fraca a cooperação entre elas e há sobreposição de competências por
parte de algumas instituições em relação a outras, sem uma clara definição das áreas de
intervenção de cada uma das partes. Moçambique, sendo um país em franco
desenvolvimento e, tendo em conta os desafios securitários nas águas jurisdicionais,
necessita de criar um SAM, de forma a se criarem sinergias e capacidade de atuação
conjunta no mar, sendo igualmente importante aprovar instrumentos legais com
competências claras em relação a cada um dos intervenientes. A introdução do SAM
permitiria com que haja concentração de esforço e maximização dos ganhos de forma mais
abrangente e efetiva.

24
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

5. Recursos que sustentam as missões atribuídas à Marinha de Guerra de


Moçambique
O presente capítulo descreve a MGM relativamente ao seu enquadramento jurídico,
organização e aspetos genéticos de pessoal e material que sustentam as missões.

5.1. Enquadramento Jurídico


A Lei de Defesa Nacional e das FADM (Lei n.º 18/2019, de 24 de setembro), define
no artigo 15. º , as FADM como sendo uma instituição militar única em todo o território
nacional, apartidárias, constituídas exclusivamente por cidadãos moçambicanos, com a
responsabilidade de assegurar a defesa militar da República de Moçambique contra
qualquer ameaça ou agressão. Diz ainda que a componente militar da Defesa Nacional, é
exclusivamente, assegurada pelas FADM, onde no artigo 20.º pode se ver a composição e
organização das FADM, que de entre os ramos das FADM está a MGM.
A MGM, tem a função de garantir o exercício da autoridade do Estado nos diversos
espaços de soberania ou jurisdição material nacional. Designadamente em matérias de
fiscalização, de policiamento de pessoas e bens, da segurança marítima e da navegação;
assegurar a coordenação e o exercício, no quadro institucional, do sistema de autoridade
marítima e o emprego articulado das capacidades navais e daquelas que são próprias da
autoridade marítima; realizar operações navais de vigilância e controlo permanente do
Espaço Estratégico e interesse nacional e, quando necessário, com outros países; e realizar
a atividade de fiscalização marítima e pesqueira, nos termos das alíneas b), c), d) e e), do
artigo 48.º, do Decreto n.º 71/2016, de 30 de dezembro.
A contenção das atividades criminosas que fazem uso do mar revela-se primordial
para a preservação da ordem pública nos oceanos, condição essencial para garantir a
regularidade do tráfego marítimo, base fundamental do atual modelo de economia
globalizada e interdependente. Este desiderato só pode ser eficazmente alcançado através
da capacidade de desenvolver operações de segurança marítima (...), podem ser
caraterizadas no quadro de uma cooperação naval regional, permitindo alinhar objetivos
das políticas interna e externa (Cajarabille, 2002).
A nível regional é importante que a MGM esteja interligada com dois grandes
centros, nomeadamente, o Centro de Operações de Coordenação Regional
(RCOC) das Seychelles que coordena operações conjuntas de aplicação da lei
no mar e com o Centro Regional de Fusão de Informações Marítimas com sede

25
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

em Madagáscar, que partilha informação marítima com os países membros e


alerta o RCOC sobre atividade suspeita no mar. A Marinha sendo membro
nestes dois Centros Regionais, para além da troca de informações, também
teria ajuda na intervenção que faria com que de forma antecipada fossem
cortadas as ações que constituem ameaça para as águas jurisdicionais de
Moçambique R. P. Brito (entrevista presencial, 22 de fevereiro de 2024).
Diante das competências conferidas à MGM, associando a teoria acima, entende-se
ser primordial ter uma Marinha capaz de garantir o exercício da autoridade do Estado no
mar, com meios de intervenção no mar ao seu dispor e que de forma cooperativa com
várias instituições com interesse ou competências no mar vão cumprir em conjunto as suas
atribuições. Também no quadro de cooperação Regional, Bilateral e em vários níveis pode-
se combater as atividades criminosas que constituem um mal comum que retarda o
desenvolvimento dos Estados.

5.2. Organização da Marinha de Guerra de Moçambique


O Decreto n.º 71/2016, de 30 de dezembro, define a estrutura orgânica e as missões
das FADM e nelas pode se deduzir as tarefas específicas para a MGM.
O Conceito Estratégico de Defesa Nacional (CEDN) (Resolução n.º 42/2006, de 26
de dezembro) e a Estrutura Orgânica das FADM (Decreto n.º 71/2016, de 30 de dezembro),
orientam como é que o Sistema de Forças da MGM deve ser concebido e focado na
vertente da Componente Territorial e da Componente Operacional. Ainda mais, a Lei de
Defesa Nacional e das FADM (Lei n.º 18/2019, de 24 de setembro), refere que o
Dispositivo de Forças é o instrumento que estabelece a relação entre os comandos
operacionais, forças, unidades e meios da componente operacional do Sistema de Forças
Nacional, com as infraestruturas ou elementos da Componente Territorial do Sistema de
Forças Nacional que lhes dão suporte.
Com isso entende-se que a componente territorial da MGM seria composta pelas
Bases e Sub-bases Navais, Batalhões e Companhias de Fuzileiros Navais, Escolas de
Formação e outras Unidades de Apoio. Enquanto a componente operacional seria sob
forma de Força Tarefa orientada para missão a ser constituída pela força e meios Navais e
Fuzileiros.
O Artigo 48.º do Decreto n.º 71/2016, de 30 de dezembro (Estrutura Orgânica das
FADM), define que são missões da MGM [...] “Preparar, aprontar, empregar e manter as
forças e meios necessários para garantir a defesa, o controlo e a vigilância da costa
26
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

marítima e águas interiores”. Esta garantia da defesa por parte da MGM deverá traduzir-se
essencialmente pela sua constante presença no mar e que para tal passa necessariamente de
ter pessoal e meios altamente qualificados.
A organização da MGM obedece ao ciclo diretivo, de acordo com a seguinte
sequência:
 Formulação Estratégica - Comando (Comandante da MGM, Chefe do Estado-
Maior, Estado-Maior do ramo e órgãos de conselho disciplinar e militar);
 Gestão dos Recursos - As Repartições são responsáveis pela gestão dos
recursos humanos e materiais;
 Emprego - Estão as Unidades da componente territorial acima referenciadas
para o cumprimento das missões atribuídas ao ramo;
 Controlo - A Inspeção do ramo é responsável por controlar o cumprimento das
estratégias e planos traçados superiormente e em caso de incumprimento submete à
consideração superior para a reformulação.
A organização acima é traduzida no organograma da Figura 8, com base na Estrutura
Orgânica da MGM que se encontra definida no artigo 47.º do Decreto n.º 71/2016, de 30 de
dezembro.

Figura 8 - Organograma da MGM


Fonte: MGM (2023)

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O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Anteriormente, dentro da organização da MGM, existia o Comando Naval e


Comando de Fuzileiros, com funções concretas para gerir assuntos relacionados com
pessoal, respetivamente, que funcionavam igualmente como elo direto entre o Comandante
da MGM e as especialidades, atuando como órgãos de consulta em matérias específicas de
cada especialidade, conferindo maior flexibilidade e dinamismo.
O atual cenário nas águas jurisdicionais de Moçambique, afigura-se vital a reativação
dos Comandos Naval e de Fuzileiros, para que de forma estruturada possam conter os
vários ilícitos que ocorrem no CM C. M. Cossa (entrevista telemática, 06 abril de 2024).
Na atualidade se justifica o investimento robusto na criação de bases militares
navais no “verdadeiro” sentido e modernizar os comandos regionais que devem
ser “verdadeiros” comandos, isto é, comandos de facto, com meios e poder
efetivo de realizar operações ofensivas e defensivas. Ainda sobre a organização,
é fundamental investir na capacidade ou na indústria naval C. Cadeado
(entrevista telemática, 13 de março de 2024).
Outrossim, entende-se haver necessidade de criação de Comandos de Zonas
Marítimas em concordância com os Teatros de Operações Navais (Norte, Centro, Sul, Tete
e Lago Niassa) (ver Figura 9), com isso, melhoraria o conhecimento situacional marítimo5
(CSM) específico de cada zona e maior capacidade de resposta. Assim sendo, cada
Comando de Zona teria uma estrutura flexível, composta de pessoal e meios para atender a
situação concreta da sua área de jurisdição.

5
Compreensão das atividades desenroladas no domínio marítimo e circunstâncias ambientais
envolventes, para apoiar a tomada de decisão atempada no âmbito da segurança marítima (The wise Pen
Team, citado por Monteiro, 2020, p. 89).
28
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Figura 9 - Teatros de Operações Navais da MGM


Fonte: Mangrasse (2012)

5.3. Pessoal e meios que cumprem as missões


A presença constante da MGM no mar para a garantia da segurança marítima é um
fator determinante para o combate contra diversos atos ilícitos no mar, para tal, torna-se
importante a certificação do grau de preparação da força e disponibilidade de meios
capazes para fazer face ao cumprimento das missões atribuídas ao ramo.
Por via da globalização da conflitualidade marítima regional, assistiu-se em
África a uma fragilização da capacidade dos Estados e das suas estruturas
sociais, políticas e militares, com reflexos diretos numa incapacidade em
garantir a salvaguarda da sua soberania e em combater a marginalidade e o
crime no mar. Cumulativamente, a permeabilidade das fronteiras marítimas e
alguma fragilidade governativa, resultou em certas dificuldades para os Estados
costeiros Africanos exercerem o controlo das suas costas, da Zona Económica
Exclusiva (ZEE) e das águas internacionais (incluindo as rotas marítimas) da
sua jurisdição direta. (Bernardino, 2010, p. 46)
A MGM é um ramo das FADM que cumpre as suas missões dentro do quadro legal e
que com o terrorismo que afeta a maior parte dos Distritos da Província de Cabo Delgado
desde 2017 está a ser posto à prova em relação às suas possibilidades e limitações quanto
ao emprego dos meios e presença no mar para fazer face ao combate ao terrorismo. Apesar
29
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

de não ser nas quantidades desejadas, têm meios marítimos que lhe permitem fazer
patrulhamentos no norte do país, abordagens e apreensões de embarcações suspeitas e
pessoal apto para a execução das atividades. A realidade da necessidade da presença
permanente da MGM não está apenas no norte do país, mas sim a nível nacional, que
compreende toda a vasta extensão do CM, na qual os meios disponíveis acabam por não
conseguir cobrir toda a área sob responsabilidade da Marinha, e ainda pelo fato de as
ameaças emergentes se manifestarem de diferentes formas, tornando-se necessária a
atualização dos conhecimentos na matéria da segurança marítima e ter pessoal bem
adestrado.
Tanto os meios assim como o pessoal continuam abaixo do desejado, mas com a
European Union Training Mission in Mozambique (EUTM MOZ) já se nota uma presença
mais significativa dos efetivos treinados, conhecidos por Quick Reaction Force6, em
combinação com o equipamento coletivo e individual já atribuído.
Para ter uma Marinha capaz de responder cabalmente às missões a si atribuídas é
necessário que seja reequipada e desenvolver ações de treino e formação de segurança
marítima, o que requer um investimento que se teria retorno incontornável a partir da
própria marinha, pois, iria gerar muito dinheiro para os cofres do Estado através das
apreensões contra os ilícitos que ocorrem no mar, e o contrário ao investimento seria uma
perda e uma vulnerabilidade ainda pior.
Com uma Marinha que carece de meios navais e de pessoal qualificado para as
operações de interdição marítima, o mar territorial moçambicano tornou-se um
território livre para as ações de saque contra vilas costeiras e insulares por parte
dos insurgentes, além de ser um território seguro para as ações ilícitas de
traficantes, contrabandistas e para a pesca predatória (Nuvunga, 2020).
A exiguidade dos recursos humanos e materiais tornou-se matéria de domínio
público, sendo urgente a necessidade da sua resolução pois cada dia que passa há relatos de
insegurança no mar territorial moçambicano e torna este espaço cada vez mais exposto e
propenso a muitas violações que acabam afetando a parte terrestre.
Nenhum país está em condições de garantir de forma isolada quer a segurança das
rotas do tráfego marítimo que se destinam aos seus portos quer inibir o trânsito em águas
internacionais de agentes do terrorismo internacional, da escravatura, da imigração ilegal e
do crime transnacional.

6
Força de Reação Rápida
30
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

A cooperação internacional é pois indispensável para controlar e atenuar estas


ameaças. São fundamentalmente dois os vetores que estão presentes nesta
cooperação internacional, no quadro da segurança no mar. A partilha de
informações e a utilização de navios em operações de combate aos ilícitos.
(Cajarabille, 2009, p. 113)
A realização de cursosestágios e a atribuição de bolsas de estudo (possibilitando a
interação entre alunos  investigadores dos vários países da Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa (CPLP) contribuirão para a formação de recursos humanos qualificados
e para o aprofundamento do conhecimento científico no seio de cada Estado membro e
(mais tarde) a produção de conhecimento e de doutrina estratégica da CPLP sobre o mar
(Bernardino, 2010, p. 55).
A melhor solução, face aos recursos existentes e ao desafio que o CM representa,
seria uma única entidade que faria as funções de Marinha e de Guarda Costeira, a qual
coordenaria com as demais, criando sinergias e um efeito de escala extremamente relevante.
Ao agrupar o conhecimento marítimo numa entidade, seria um modelo muito mais
eficiente e eficaz do que qualquer outro. (H. G. Melo, entrevista presencial, 29 de fevereiro
de 2024).
5.4. Síntese Conclusiva
Em resposta à QD3- Como é que os recursos da MGM sustentam as missões no
âmbito da Segurança Marítima? Os recursos são e sempre serão escassos, deste modo, a
Marinha deve ser capaz de garantir o exercício da autoridade do Estado no mar, com meios
de intervenção ao seu dispor, e que, de forma cooperativa com várias instituições com
interesse ou competências no controlo do mar, cumpram em conjunto as suas atribuições.
Por outro lado, identifica-se que também no quadro de cooperação regional, bilateral e em
vários níveis internos pode-se combater as atividades criminosas marítimas, que
constituem um mal comum que retarda o desenvolvimento dos Estados.
Aponta-se, assim, para uma Marinha de Duplo Uso que cumpra missões militares e
não militares, sendo este modelo mais eficiente e eficaz quer na otimização dos recursos e
das capacidades existentes, quer para a atividade desenvolvida pela MGM em prol da
segurança do mar de Moçambique e do desenvolvimento nacional.

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O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

6. Análise de desempenho da Marinha de Guerra de Moçambique na segurança


marítima
Neste capítulo são identificadas as atuais disfunções face ao ambiente estratégico e
são deduzidas as linhas gerais de orientação estratégica da MGM.

6.1. Análise estratégica


A metodologia seguida neste trabalho para a definição de contributos para a MGM
na segurança marítima foi adotada de Ribeiro e Pinto (2022). Para a identificação dos
desafios da MGM na segurança marítima foi analisado o ambiente externo e interno com
recurso a elaboração de uma matriz SWOT (Ver Apêndice E) para identificar as
Potencialidades (Strengths), Vulnerabilidades (Weakness), Oportunidades (Opportunities)
e Ameaças (Threats) e deduzidas linhas de ação para a melhoria da ação da MGM na
segurança marítima (ver Apêndice F). Neste sentido, aproveitar as Potencialidades e

mitigar as Vulnerabilidades estruturais da Marinha, bem como explorar Oportunidades e

evitar as Ameaças externas, procurando, simultaneamente, responder às necessidades de

otimização da ação da MGM na segurança marítima.


No âmbito do ambiente externo destacam-se como oportunidades a cooperação e
coordenação nacional com outras instituições intervenientes com interesse no mar; apoio
internacional de Portugal e EUTM MOZ na formação, treino e organização; cooperação
com países amigos como Seicheles e Madagáscar na utilização do Centro de partilha e
difusão de informação marítima e revisão da estrutura operacional. Destacam-se como
ameaças, o uso da força contra a soberania; a integridade territorial ou a independência
política de um Estado; a pirataria e assalto à mão armada no mar; crimes transnacionais
organizados, como, o contrabando de migrantes, narcóticos e as ameaças à segurança de
recursos, como a pesca ilegal, não regulamentada e não declarada;
Relativamente ao ambiente interno destacam-se como potencialidades a existência de
força com capacidade para a segurança marítima; força de Fuzileiros treinada e equipada
com meios coletivos e individuais; alto sentido de responsabilidade no cumprimento do
dever; utilização do Centro de Operações Marítimas; capacidade de cooperar com outras
instituições com atribuições no mar. Destacam-se como vulnerabilidades a estrutura
operacional que é muito complexa e inadequada; exiguidade dos meios; falta de
sustentação dos meios, utilização de equipamento desatualizado e muito diferenciado; a

32
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

falta de uma entidade responsável pela coordenação do sistema de autoridade marítima e a


fraca partilha da informação recolhida nos espaços marítimos sob jurisdição nacional.
Conforme o evidenciado no Apêndice F a partir do cruzamento da base matricial
destes diversos fatores, foram deduzidas sete Linhas de Ação Estratégica (LAE):
Para a validação destas LAE foram aferidas entrevistas semiestruturadas, efetuadas a
três oficiais da MGM, quatro oficiais da Armada portuguesa, dois académicos e um titular
de uma instituição interveniente no mar em Moçambique, constituídas por perguntas
semiabertas, direcionadas para as LAE propostas. Os entrevistados tiveram a possibilidade
de complementar as suas respostas com os contributos que consideraram pertinentes.
LAE1. Extensão da Missão de Treino da União Europeia em Moçambique e que para
além de treinar as Forças Especiais (Comandos e Fuzileiros) pode treinar efetivos em
outras áreas da Segurança Marítima.
LAE2. Cooperação Regional com Seicheles, Madagáscar e outros na exploração do
Centro de Operações de Coordenação Regional e Centro Regional de Fusão de
Informações Marítimas.
LAE3. Operacionalização do Centro de Coordenação de Operações de Fiscalização
Marítima, que vai integrar as instituições com atribuições no mar em Moçambique.
LAE4. Criação de Zonas de Defesa Marítimas com atribuições específicas da faixa
de responsabilidade para cada Comando da Zona, com meios (humanos e materiais) ao seu
dispor.
LAE5. Operação Atlanta é uma das operações marítimas militares executivas da
União Europeia, que a pedido de Moçambique para além de terminar em Nacala as suas
operações marítimas poderiam ser estendidas ao longo do Canal de Moçambique.
LAE6. União de esforço entre as instituições com atribuições no mar de modo a
atuarem de forma conjunta, a partir dos meios que cada um possui até a execução das
atividades pois o fim último é a salvaguarda dos interesses do Estado.
LAE7. Reativação dos Comando Naval e de Fuzileiros e implementar a organização
em Zonas de Defesa Marítima, cada uma delas com um Centro de Operações Marítimas.

6.2. Síntese conclusiva


Da análise efetuada, e em resposta à QD4, Quais as disfunções da MGM na
fiscalização marítima? Foram identificadas vulnerabilidades ao nível operacional,
estrutural e genético nas quais se destacam os recursos limitados (pessoal, material e
financeiros) e falta de um sistema de autoridade marítima nacional para aglutinar ou
33
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

coordenar a atuação de todas as instituições intervenientes no controlo do mar em


Moçambique.
Todavia, face às oportunidades e aos pontos fortes, foram identificadas sete linhas de
ação possíveis de implementar e proporcionar maior impacto da ação da MGM na
fiscalização marítima, que a sua materialização se resume na necessidade da revisão da
estrutura organizacional da MGM e do fortalecimento da cooperação interinstitucional e
com outros países a nível regional e mundial, nas diversas áreas do domínio.

34
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

7. Contributos para a melhoria da ação da Marinha de Guerra de Moçambique na


segurança marítima
Neste capítulo vai ser estabelecida a relação entre as LAE e as medidas genéticas
(gerar e criar meios), operacionais (utilizar os meios) e estruturais (compor, organizar e
articular os meios) (ver Apêndice A) deverão ser implementadas para melhorar o
desempenho da MGM na segurança marítima. No Apêndice G está esquematizada, sob a
forma de matriz, esta relação.
No âmbito da melhoraria da ação da MGM na segurança marítima deverão ser
implementadas as seguintes medidas genéticas (MG):
MG1. Solicitar extensão da missão e alargamento do pacote de formação (LAE1);
MG2. Identificar Unidades que vão acolher a formação e treino (LAE1);
MG3. Organizar os meios que estarão envolvidos neste processo (LAE1);
MG4. Entrosamento com Parceiros Internacionais: Procurar parcerias internacionais
para melhorar as capacidades de monitorização e vigilância marítima, tirando proveito de
treinos conjuntos e novas tecnologias. (LAE2);
MG5. Investimento em Capacitação e Tecnologia: É crucial investir na
modernização dos equipamentos e na capacitação contínua do pessoal da MGM para
garantir que estejam aptos a enfrentar as ameaças modernas no ambiente marítimo. (LAE2);
MG6. Cooperar com outros setores no âmbito da Fiscalização Marítima (LAE3).
No que concerne a melhoria da ação da MGM na segurança marítima deverão ser
implementadas as seguintes Medidas Estruturais (ME):
ME1. Reabilitar e equipar as Unidades que vão acolher a formação (LAE1);
ME2. Requalificar o Centro de Operações Marítimas (LAE2);
ME3. Criar um sistema de partilha de informações entre os setores envolvidos
(LAE3);
ME4. Remodelar algumas Unidades já existentes e criação de outras para
funcionamento das Zonas (LAE4);
ME5. Fortalecimento da Cooperação Interinstitucional: Promover uma maior
integração e coordenação entre as diferentes instituições nacionais envolvidas na segurança
marítima, para garantir uma gestão eficaz das ameaças e uma utilização mais eficiente dos
recursos. (LAE5);
ME6. Políticas Públicas e Legislação: Revisar e fortalecer a legislação nacional
relacionada à segurança marítima para assegurar que está adequada às necessidades atuais

35
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

e futuras, proporcionando um enquadramento legal robusto para as operações da MGM.


(LAE6).
Relativamente as Medidas Operacionais (MO) para melhorar ação da MGM na
segurança marítima as seguintes:
MO1. Elevar a prontidão do pessoal para combater as ameaças que ocorrem nos
espaços marítimos (LAE1);
MO2. Dominar o mar para o combate antecipado dos ilícitos que ocorrem no mar
(LAE2);
MO3. Impulsionar a cooperação e troca de informações entre as instituições (LAE3);
MO4. Rapidez na intervenção e aumento da presença da força nas águas
jurisdicionais (LAE4);
MO5. Incrementar as operações de combate ao tráfico de drogas, terrorismo e suas
fontes de financiamento, pirataria e assalto á mão armada (LAE5);
MO6. Cumprir as atividades marítimas de forma conjunta para o combate aos ilícitos
que ocorrem no mar (LAE6).
7.1. Síntese conclusiva e resposta à questão central
Pelo até aqui estudado, em resposta à QC, “Quais os contributos que concorrem para
a melhoria da ação da MGM na segurança marítima?” Foram inferidas seis medidas
genéticas, seis estruturais e seis operacionais como contributos a serem implementados
para a melhoria da ação da MGM na segurança marítima. Entretanto, devem ser
identificadas fontes de financiamento para a implementação destas medidas, em relação a
aquisição de equipamentos devem ser elaborados os requisitos técnicos e operacionais.
Outrossim, a necessidade de identificação de parceiros de cooperação com interesse no CM.

36
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

8. Conclusões
A localização de destaque de Moçambique, de charneira entre o Índico e o hinterland,
materializa um potencial geoestratégico e económico a nível nacional, regional e mundial.
Não basta o reconhecimento da existência deste potencial sem edificação de capacidades
para a salvaguarda dos interesses do Estado no mar, capaz de garantir a inviolabilidade
destes espaços. Os ilícitos ocorrem devido a fraca capacidade do Estado de fiscalizar os
espaços marítimos sob jurisdição nacional.
A garantia da defesa dos interesses nacionais no mar implica que exista uma
capacidade de monitorização deste espaço, vulgarmente materializado através do CSM e
uma capacidade de intervenção através de meios, equipamentos e pessoal, de acordo com a
tipologia de cada uma das ameaças.
Considera-se ainda que, para além do CSM e da capacidade de intervenção, se deve
assegurar uma capacidade de vigilância e dissuasão próxima, através da patrulha regular do
mar, tendo como base um dispositivo naval de meios distribuídos (ou concentrados) em
Zonas marítimas para dar resposta às diversas ameaças.
As competências que o Estado moçambicano atribuiu às instituições com interesse
no mar, nota-se haver uma sobreposição delas por parte de algumas instituições em relação
a outras. Isto deve-se à falta da clareza na definição das áreas de intervenção de cada uma
das partes. Moçambique, sendo um país em franco desenvolvimento e, tendo em conta os
desafios securitários nas águas jurisdicionais, urge a necessidade da criação de um SAM,
de forma a se criarem sinergias, uma capacidade harmonizada para atuação conjunta no
mar. Entretanto, é importante aprovar instrumentos legais com competências claras em
relação a cada um dos intervenientes.
Atendendo às circunstâncias socioeconómicas e culturais de Moçambique, entende-
se que seria mais apropriado, em termos organizacionais e operacionais, criar um SAM,
liderado pela Marinha, seguindo o paradigma de duplo uso, e coordenando a sua ação com
as restantes organizações competentes no mar. O racional subjacente de uma Marinha de
Duplo Uso, é que esta cumpre missões essencialmente militares e não militares, o que é
economicamente eficiente e permite a otimização dos recursos e das capacidades para
atividade desenvolvida pela MGM em prol da segurança e do desenvolvimento de
Moçambique. Entende se que a Marinha de Duplo Uso adequar-se-ia muito melhor para
prevenir e combater as múltiplas ameaças, internas e externas, que possam ocorrer nas
águas sob soberania e jurisdição nacional. As vantagens deste conceito podem ser vistas,
entre outras, na ordem de equilíbrio de capacidades, economia de escala, interoperabilidade
37
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

de capacidades, economia de esforço, coordenação do emprego de meios, articulação


interdepartamental, flexibilidade de atuação, gradação do uso de capacidades e coerência
na atuação.
Em termos metodológicos, foi utilizado um raciocínio indutivo, associado a uma
estratégia de investigação qualitativa e a um desenho de pesquisa do tipo estudo de caso. A
recolha de dados foi efetuada através do recurso a análise documental complementada por
diversas entrevistas semiestruturadas.
Assim, para cumprir o OG e responder à QC que norteou esta investigação, foram
estabelecidos quatro OE, operacionalizados através de quatro QD.
Este estudo abordou o papel crucial da Marinha de Guerra de Moçambique na
segurança marítima, destacando sua importância estratégica em um contexto de ameaças
crescentes e a necessidade de uma vigilância marítima eficaz. Os principais riscos
identificados incluem a pirataria, o tráfico ilegal e a pesca não regulamentada, que não só
comprometem a segurança nacional, mas também afetam a sustentabilidade dos recursos
marítimos.
As entrevistas e os dados recolhidos sugerem uma necessidade urgente de
modernização dos equipamentos e de treino intensivo do pessoal, para lidar com os
desafios contemporâneos da segurança marítima. Além disso, a implementação de um
sistema de autoridade marítima mais integrado e coordenado poderia potencializar as ações
da MGM, promovendo uma resposta mais ágil e eficiente às ameaças.
A análise estratégica realizada revelou que, apesar das limitações de recursos, a
MGM tem desempenhado um papel fundamental na proteção dos interesses marítimos
nacionais. No entanto, é evidente que a eficácia da MGM poderia ser significativamente
aumentada através do reforço das capacidades operacionais e da melhoria da coordenação
interinstitucional.
A análise realizada permite ainda concluir que Moçambique tem uma localização
geoestratégica de relevo, e até privilegiada, em relação aos seus vizinhos do hinterland,
materializada pela sua vasta extensão da costa e pelos portos marítimos que possui.
O fortalecimento da MGM e o aumento da segurança nos espaços marítimos
nacionais não apenas protegem os interesses soberanos de Moçambique, mas também
contribuem significativamente para a estabilidade regional, para o desenvolvimento
sustentável dos outros países e na viabilização de uma rota marítima segura para o
transporte marítimo, por isso a rota marítima é considerada como sendo a mais utilizada e
que gera mais economia para o desenvolvimento dos Estados. Assim, é imprescindível que
38
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

sejam adotadas medidas concretas para a superação dos desafios identificados, garantindo
um futuro mais seguro e próspero para que as gerações vindouras possam desenvolver de
forma mais segura e sustentável.
O presente trabalho de investigação individual tem como principal contributo para o
conhecimento, o desenho de uma estratégia da MGM para melhorar a sua ação na
segurança marítima, compactada num conjunto de medidas genéticas, estruturais e
operacionais, possuindo, assim, um carácter inovador. Além disso, realçam-se outros
contributos para o conhecimento, de âmbito formal e de conteúdo para os alunos dos
estabelecimentos de ensino militar em Moçambique como é o caso do Instituto de Estudos
de Defesa “Tenente-General Armando Emílio Guebuza”, Academia Militar “Marechal
Samora Machel” e Escola de Formação de Sargentos das Forças Armadas “General de
Exército Alberto Joaquim Chipande”.
No que concerne a estudos futuros, esta investigação limitou-se à definição de uma
estratégia específica para a MGM, apesar de existirem outras instituições intervenientes no
mar, daí a necessidade de se desenvolver um estudo sobre a criação de um SAM para
melhorar a coordenação institucional e trazer benefícios para o país na segurança marítima,
sem descartar a necessidade de uma cooperação internacional para o efeito. Por outro lado,
as medidas estratégicas aqui afloradas deverão estar em consonância com as outras
instituições que atuam no âmbito do exercício da autoridade do Estado no Mar com
consequente aumento quantitativo e qualitativo do produto operacional daí decorre outro
interesse em se estudar a matéria nas vertentes de outras instituições. E por fim tendo em
conta que a estrutura atual da MGM não seria adequada para a implementação da Marinha
de Duplo Uso, poderia se avançar com um estudo que propusesse uma estrutura
organizacional ideal para uma Marinha de Duplo Uso.

A principal limitação desta investigação foi a sua circunscrição à MGM, visto que

a segurança marítima não pode ser feita de forma isolada, pois os intervenientes no mar e
os parceiros de cooperação regional e internacional têm um papel de relevo na segurança
marítima. Outro aspeto que constitui limitação neste estudo é facto das FADM no âmbito
do paradigma genético não terem uma Lei de Programação Militar que identifique o
investimento público em meios e equipamentos para as Forças Armadas.
Impõe-se uma reflexão final sobre a crise provocada pela Guerra entre o Israel e a
Palestina, que não deixará de influenciar a segurança no CM e consequente pressão nas
águas jurisdicionais na República de Moçambique sendo uma região extremamente rica em

39
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

recursos energéticos, com destaque para o gás natural, tem importância ímpar no cenário
mundial.
A segurança marítima em Moçambique, em termos de espaço estratégico de interesse
nacional permanente conforme consta no CEDN, deve constituir uma preocupação
constante do Estado da mais elevada prioridade, para que, a insegurança não tenha custos
elevados para o país, para a região e para o mundo em geral. A segurança é um dever de
todos e sem segurança não há desenvolvimento.

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O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

9. Referências Bibliográficas

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42
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

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43
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Anexo A — Poder nos espaços marítimos


Quadro 2 – Poder nos espaços marítimos7

Quem pode autorizar ações de


Espaços marítimos Tipo de infrações controlo da aplicação do direito
do mar

1. Infrações penais 1. Estado costeiro


2. Outras infrações de natureza administrativa 2. Estado costeiro
Águas interiores
3. Algumas ações de natureza civil 3. Estado costeiro
4. Ações em navios de guerra ou em outras embarcações autorizadas 4. Estado de bandeira
1. Infrações penais confinadas à embarcação
1. Estado de bandeira
2. Infrações penais cujas consequências se estendam ao Estado costeiro / afetam a
Mar territorial/águas arquipelágicas (geralmente 0-12 2. Estado costeiro
paz, a ordem ou a segurança do Estado costeiro
MN e dentro das linhas de base arquipelágicas) 3. Estado autorizado (i.e terceiro
3. Assuntos regidos por um regime obrigatório do Conselho de Segurança das
Estado/Estado vizinho)
Nações Unidas nos termos do capítulo VII da Carta
Zona contígua fora do mar territorial (geralmente 12 1. Matérias relacionadas com legislação fiscal, de emigração, sanitária e aduaneira 1. Estado costeiro
MN adicionais fora do mar territorial: 12-24 MN) 2. Outros assuntos 2. Estado de bandeira
Zona económica exclusiva fora do mar territorial
1. Questões de recursos naturais 1. Estado costeiro
(geralmente 188 MN adicionais, além do limite
2. Outros 2. Estado de bandeira
exterior do mar territorial)
1. Situações do artigo 110
1. Estado autorizado
Alto mar/águas internacionais (geralmente todas as 2. Matérias regidas por um regime obrigatório do Conselho de Segurança das
2. Estado autorizado
águas além dos mares territoriais; além das 12 MN) Nações Unidas nos termos do capítulo VII da Carta
3. Estado de bandeira
3. Outros assuntos

7
De acordo com McLaughlin (2020)

Anx A-1
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Apêndice A — Corpo de Conceitos

Ambiente externo- é composto pelo conjunto de fatores que influenciam a atividade e o desempenho da
organização, agrupados em envolvente externa geral e em envolvente externa específica. A classificação dos
fatores externos nesses dois grupos é feita de acordo com a forma como a sua influência se exerce sobre a
organização (Ribeiro & Pinto, 2022, p. 39).
Ambiente interno- é composto pelo conjunto dos fatores que influenciam a atividade e o desempenho da
organização, em termos das suas circunstâncias particulares. Estes fatores agrupam-se em potencialidades e
em vulnerabilidades (Ribeiro & Pinto, 2022, p. 42).
Ameaça- é um ato ofensivo, uma antecâmara da agressão, portanto uma realidade estratégica sem ser ainda
guerra, que não desaparece quando a agressão é efetivada (Nogueira, 2005, p. 18).
Crime organizado transnacional- é a associação estratégica de indivíduos que, atuando de forma
supranacional, têm por meta a obtenção de um ganho ilícito (Werner, 2009).
Conhecimento Situacional Marítimo- Compreensão das atividades desenroladas no domínio marítimo e
circunstâncias ambientais envolventes, para apoiar a tomada de decisão atempada no âmbito da segurança
marítima (The wise Pen Team, citado por Monteiro, 2020, p. 89).
Espaços Marítimos- espaço que se estende desde a linha de base até ao limite exterior da plataforma
continental para além das 200 milhas marítimas (Política e Estratégia do Mar, 2018, p. 109).
Estratégia estrutural- tem por objetivo a deteção e análise das vulnerabilidades (ou pontos fracos) e das
potencialidades das estruturas existentes, com vista à definição das medidas mais adequadas, incluindo a
criação de novas estruturas, que conduzam à eliminação ou atenuação das vulnerabilidades, a um reforço das
potencialidades e, em última análise, a um melhor rendimento dos meios ou recursos (Couto, 2020, p. 251).
Estratégia genética (ou logística) - tem por objetivo a invenção, construção ou obtenção de novos meios, a
colocar à disposição da estratégia operacional, no momento adequado, e que sirvam o conceito estratégico
adaptado e tendo em atenção a evolução previsível da conjuntura (Couto, 2020, p. 250).
Estratégia operacional – trata da conceção e execução da manobra estratégica ao nível dos grandes
subordinados (caso, na estratégia militar, dos responsáveis pelos teatros de guerra e teatros de operações). Em
cada domínio, é seu objeto, não só conciliar os objetivos a atingir com as possibilidades proporcionadas pelas
táticas e técnicas do domínio considerado, mas também orientar a evolução daquelas de forma a adaptá-las às
necessidades da estratégia (Couto, 2020, p. 249).
Linhas de ação- constituem uma desagregação dos objetivos estratégicos em termos das grandes prioridades
de transformação evolutiva (Ribeiro & Pinto, 2022, p. 20).
Mar territorial- é a largura do mar territorial de 12 milhas náuticas medido a partir da linha base, nos termos
do n.º 2 do artigo 4 da Lei n. 4/96, de 4 de janeiro, Lei do mar.
Organização- Correspondente ao enquadramento formal que estabelece a missão e as funções, bem como o
número autorizado de pessoal e/ou quantidade de equipamentos importantes numa organização (NATO, 2018,
p. 121).
Pirataria marítima- todo o ato ilícito de violência de detenção, ou todo o ato de depredação (pilhagem)
cometidos, para fins privados, pela tripulação ou pelos passageiros de um navio ou de uma aeronave
privados... (Cajarabille, 2012, p. 70).

Apd A-1
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Plataforma continental- a faixa que se estende para além do mar territorial e compreende o leito e o subsolo
das áreas submarinas em toda a extensão do prolongamento natural do território terrestre, até uma distância
de 200 milhas marítimas da linha de base ou até ao bordo exterior da margem continental, nos casos em que
este não atinja aquela distância (Política e Estratégia do Mar, 2018, p. 109).
Riscos- é uma ação não diretamente intencional e eventualmente sem caráter intrinsecamente hostil....
(Nogueira, 2005, p. 19).
Segurança Marítima- é tudo aquilo que cria, mantém ou melhora a utilização segura das vias marítimas
africanas e das infraestruturas que suportam essas vias (Brenthurst, 2010, p. 10).
Terrorismo- e qualquer tipo de ação violenta cometida com o intuito de intimidar, ferir ou matar cidadãos
para garantir a defesa de uma causa, seja ela política, econômica ou religiosa. ([Link])
Zona Contígua- é a faixa do mar adjacente ao mar territorial, a qual se estende até 24 milhas náuticas
medidos a partir da linha base, onde estado exerce o controlo necessário a prevenção da violação das leis e
regulamentos aduaneiros, fiscais, migração, sanitários e prevenção do meio ambiente marinho, estabelecida
nos termos do artigo n.º 8 da Lei do Mar.
Zona Económica Exclusiva- compreende a faixa do mar desde a linha de base até a distância de 200 milhas
náuticas. Nesta zona o outro estado tem a liberdade de navegação, sobrevoo, colocação de cabos e ductos
submarinos bem como de outros usos lícitos do mar relativos a tal liberdade (artigo n.º 9 da Lei do Mar).

Apd A-2
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Apêndice B — Personalidades entrevistadas

Quadro 3 - Personalidades entrevistadas


Identificação Funções desempenhadas Procedimento
Almirante Henrique Gouveia e Chefe do Estado-Maior da Armada e Autoridade Marítima Presencial 29.02.24, Lisboa.
Melo Nacional Portuguesa
Comodoro Inácio Vaz Chefe de Estado-Maior do ramo da MGM Telemática, 20.02.24, MOZ.
Comodoro Fz Martins de Brito Comandante da EUTM MOZ e da Operação Atlanta Presencial, 22.02.24, Lisboa.
Capitão-de-mar-e-guerra M Comandante da Base Naval de Pemba Telemática 06.04.24, MOZ.
Carlos Cossa
Capitão-de-mar-e-guerra M Chefe da Repartição de Navegação e Hidrografia Telemática, 28.02.24, MOZ.
Augusto Bata
Capitão-de-mar-e-guerra M Diretor do Centro de Instrução de Táctica Naval da Marinha Presencial, 16.02.24, Lisboa
Marcelo Correia Portuguesa e Comandante da Força Naval da Operação Atlanta
Capitão-de-fragata Bruno José Chefe da Divisão de Operações do Comando Naval Presencial, 20.02.24, Lisboa
Vaz
Leonid Chimarizene Administrador Executivo do Instituto Nacional do Mar Telemática, 02.03.24, MOZ.
PhD António Gonçalves Investigador integrado no IPRI – NOVA e investigador Telemática, 08.03.24, Lisboa.
Alexandre associado no CIDIUM
Dr Calton Cadeado Docente de Relações Internacionais, estudos de segurança e Telemática, 12.03.24, MOZ.
estudos de paz e conflitos.

Apd B-1
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Apêndice C — Instituições que desempenham funções no mar

Quadro 4 - Instituições que desempenham funções no mar (adaptado da Constituição da República de Moçambique)

ITRANSMAR
Instituição

SERNAM
INAMAR

MIREME
SENSAP
SERNIC

ANAC

INAM
MGM

InOM
PCLF

INP
FAM

SISE

PGR
Função

AM
Exercício da autoridade do Estado no mar. IPR IPR IAp IAp IAp

Defesa, controlo e vigilância do espaço aéreo nacional. IAp IAp IPR IAp

Garantir a ordem, segurança e tranquilidade públicas. IAp IPR IAp

Policiamento e segurança de pessoas e bens. IAp IPR IAp IPR IAp

Execução de atividades relativas a reafirmação e delimitação das IAp IAp IPR


fronteiras.

Busca e salvamento de pessoas e bens. IAp IAp IAp IPR IPR IAp IAp

Controlar o movimento migratório. IAp IAp IAp IAp IPR

Fiscalizar a atividade de prevenção de risco, socorro e salvação de IAp IAp IAp IAp IPR IAp IPR IAp
pessoas e bens.

Prevenir e investigar atos de natureza criminal. IAp IAp IAp IAp IPR

Prevenção e repressão do contrabando. IAp IAp IAp IPR IPR IAp

Transporte e sinalização marítimos. IAp IAp IPR

Gestão, conservação e exploração sustentável dos recursos IAp IPR


biológicos e aquáticos.
Assegurar a implementação de medidas de proteção ambiental e do IPR IAp
ecossistema marinho.

Apd C-1
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Licenciamento e fiscalização ambiental de projetos de IAp IAp IPR


desenvolvimento.

Vigilância meteorológica e climática. IAp IPR

Desenvolvimento de atividades relacionadas com a investigação IAp IAp IPR


geológica.

a) INAMAR- Instituto Nacional do Mar; j) PGR- Procuradoria da República junto ao Tribunal Marítimo
b) MGM- Marinha de Guerra de Moçambique; k) ITRANSMAR- Instituto do Transporte Marítimo;
c) FAM- Força Aérea de Moçambique; l) ANAC- Administração Nacional de Áreas de Conservação;
d) PCLF- Polícia Costeira, Lacustre e Fluvial; m) InOM- Instituto Oceanográfico de Moçambique
e) SISE- Serviço de Informações e Segurança do Estado n) INP- Instituto Nacional de Petróleo;
f) SERNIC- Serviço Nacional de Investigação Criminal; o) INAM- Instituto Nacional de Meteorologia;
g) SERNAM- Serviço Nacional de Migração; p) MIREME- Ministério dos Recursos Minerais e Energia;
h) SENSAP- Serviço Nacional de Salvação Pública; q) IPR- Instituição Primariamente Responsável;
i) AM- Alfândegas de Moçambique; r) IAp- Instituição Apoiante.

Apd C-2
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Apêndice D — Análise do conteúdo das entrevistas


Quadro 5 – Análise das entrevistas de Portugal
Comandante da Investigador integrado no
Chefe do Estado-Maior da EUTM+MOZ e da Comandante da Força Chefe da Divisão de IPRI – NOVA e investigador
Perguntas Armada (Almirante Henrique Operação Atlanta Naval da Operação Atlanta Operações do Comando associado no CIDIUM (CMG
Gouveia e Melo (Comodoro Martins de (CMG Marcelo Correia) Naval (Cfr. Cabrita) António Gonçalves
Brito) Alexandre)

Ameaças naturais e Ameaças -A exploração ilegal e


Em sua opinião, provocadas pelo ser humano que predatória dos minérios e de
quais são os tipos podem ser não intencionais e -Terrorismo marítimo; combustíveis e a pesca ilegal
de ameaças mais intencionais. - Terrorismo, -Tráfico de droga; de pescado. -Pirataria marítima e;
frequentes nos Também há ameaça à pertença da - Narcotráfico e, -Pesca ilegal; -A criminalidade -Os assaltos armados no mar
espaços marítimos água, à estruturação em segurança - Pesca Ilegal. -Poluição no mar; transfronteiriça, a pirataria, as contra navios.
sob jurisdição de da área e científica ao -Imigração ilegal. atividades ilícitas de
Moçambique? conhecimento. contrabando e de tráfico de
seres humanos e terrorismo.

A melhor solução face aos recursos O que é relevante é [...] garantir


Como é que os
e face ao desafio que o CM -Criação de um Sistema de a segurança dos espaços
demais [...] a Polícia Judiciária, a
representa apostaria [...] agrupar o Autoridade Marítima que fará marítimos de soberania e
intervenientes Marinha coopera com estas
conhecimento marítimo numa com que a Marinha tenha Em razão da matéria jurisdição de Moçambique,
legais com entidades para o cumprimento
única entidade que coordenaria poder de exercício de cooperam sob coordenação da como é o caso da marinha, se
interesse no mar das suas missões.
com as demais, tendo sinergias e fiscalização marítima; entidade primariamente mostrem disponíveis para
cooperam com a A troca de cooperação é
um efeito de escala muito -Uma Marinha capaz de responsável implementar bons sistemas de
marinha no âmbito mútua, de forma a que o
importante. Saindo isso tudo muito interligar os vários obtenção, fusão e partilha de
da segurança sistema seja eficiente.
mais racional e barato do que o intervenientes no mar. informação entre eles.
marítima?
outro modelo qualquer.

Apd D-1
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

1. Incumprimento da missão. E as Falta de comprometimento


Quais as Descoordenação [...] riscos
suas funções de Estado costeiro, por parte dos intervenientes,
implicações da para a soberania do Estado,
Estado do Porto e de gestão de assim sendo, todos farão e/ou Se não tiver estabelecida uma
falta do Duplicação de esforços e dispersão e má racionalização
bandeira são de tal maneira ninguém fará, entidade que coordene essas
estabelecimento de consequente falta de na utilização dos meios do
confusas que no fim, quando quiser consequentemente notar-se-á ações, é natural que os
uma entidade eficiência no empenhamento Estado que serão sempre
encontrar um responsável por continuidade de ocorrência de objetivos definidos não sejam
responsável pela dos meios. escassos para fazer face à
qualquer coisa, nunca encontra um. atos ilícitos ou impunidade totalmente alcançados.
coordenação do multiplicidade de ameaças e
dos infratores.
SAMN? espaço para exploração ilícita.

A nível regional é importante -Integração da informação


que a MGM esteja interligada dos sistemas de vigilância das Abordagem interagência e [...]estar munido de
Criar um Centro de Fusão e
No domínio da com dois grandes centros, entidades intervenientes; interdepartamental, a nível mecanismos que permitam
Distribuição da Informação com
cooperação e nomeadamente, o Centro de -Capacitação dos centros de nacional e internacional obter com rapidez a informação
poderes para receber a informação
coordenação, qual Operações de Coordenação operações para integrarem a responsável por fundir os relativa a tudo o que se passa à
dos diferentes setores que
é a melhor forma Regional (RCOC) das informação dos sistemas de dados que coexistem em superfície do mar em cada
trabalham no mar e através deste
para um Centro de Seychelles que coordena vigilância [...]; diferentes redes de momento. Isso é conhecido
fundir a informação criando uma
Operações operações conjuntas de -Estabelecimento de uma informações militares e não- como “White picture”. [...].
imagem única da atividade
Marítimas partilhar aplicação da lei no mar e com estrutura de troca e partilha de militares que potenciam a Deve ter, por fim, bons
marítima e por fim difundir essa
a informação o Centro Regional de Fusão informação; cooperação e coordenação dos sistemas de comunicações por
imagem aos outros centros. Este
recolhida nos de Informações Marítimas -Estabelecimento de um diversos departamentos do voz e dados que permitam fazer
Centro deve ser dirigido pela
espaços marítimos com sede em Madagáscar, panorama marítimo comum Estado com responsabilidades chegar, com rapidez, essa
Entidade mais isenta (de interesses
sob jurisdição que partilha informação entre as entidades de atuação nos espaços informação “tratada” a quem
comerciais) e mais capaz
nacional? marítima com os países intervenientes com meios marítimos sob soberania, dela precisa, sobretudo aos
(detentora de mais meios), neste
membros e alerta o RCOC para atuar nos espaços jurisdição ou responsabilidade decisores políticos e militares.
caso a Marinha.
sobre atividade suspeita no marítimos. nacional.
mar. [...]

Apd D-2
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

2. Buscar conhecimento com outros -Procurar junto de marinhas


Pedir a extensão da EUTM
de referência, apoio na -Formação em sistemas de Para além da operação de
países com domínio na matéria e
MOZ de modo a incluir a
formação e treino associado Global Maritime Distress sistemas e conhecimento da
criar escolas que vão replicar [...] e
Que ações deverão formação de mais quadros da
passar a produzir o seu próprio às funções de guarda costeira, Safety System, Planeamento de legislação em vigor, devem ter
ser desenvolvidas Marinha [...], associada a
acautelando numa primeira Operações SAR e Fiscalização valências na operação de meios
conhecimento. Esta produção do
no âmbito da Operação Atlanta que está em
fase a formação de Marítima, Navegação, navais e, sobretudo, devem
conhecimento é tida por quem
formação, treino e curso e que pela sua extensão
anda no mar. A estrutura formadores; Socorrismo e Direito do estar capacitados para atuarem
organização para ao Sul (vai até Nacala), faria
- [...] edificar uma estrutura Mar/Direito Internacional no ambiente marítimo em
portuguesa tem: pessoal (forma e
capacitar o pessoal com que as operações
afeta na estrutura operacional), operacional com mecanismos Marítimo. segurança (isso requer, entre
que cumpre as marítimas se estendam ao
de coordenação com diversas -Desenvolver um plano de outras condições, boa
material (repara e mantém os
missões de longo do CM.
entidades, criar um Comando treino com contextos de preparação física, adaptação ao
navios prontos para o mar) e
segurança Engajamento dos principais
operacional (recolhe informação, Naval, Corpo de Fuzileiros e fiscalização marítima e treinar meio marinho, bons
marítima? líderes e construção da
criação de Comandos de ações de busca e salvamento. conhecimentos da plataforma
distribui informação e opera no
capacidade marítima local
Zonas Marítimas de acordo -Desenvolver a legislação e os em que forem embarcar e bons
mar). E depois tem uma
que contribuiria na criação do
macroestrutura (administrativa). com as regiões e outros normativos marítimos. conhecimentos de navegação).
SAMN.
pontos julgados estratégicos.
Que tipos de meios
-Aeronaves de Patrulhamento [...] (do tipo patrulhas
marítimos A MGM precisa de navios
aéreo. oceânicos) que permitam um
considera ideais oceânicos devido a violência do -Lanchas Rápidas tipo LFR
Unidades de superfície para maior raio de ação e estender a
para uma Marinha mar e extensão da Costa e outros (Autonomia de 3 a 5 dias); -Lanchas Rápidas de
aumentar o patrulhamento na sua intervenção até ao limite da
mais presente no navios Costeiros para estar a -Embarcação de Alta Fiscalização;
Zona Económica Exclusiva ZEE. [...] (patrulhas costeiras e
mar de modo a operar muito junto a Costa. Velocidade (Intercepção -Lanchas de Fiscalização
(ex. Lanchas de Patrulha e de lanchas), mais rápidos, que
combater os Introdução do serviço de Rápida); Costeira;
Fiscalização). permitam fiscalizar
variados ilícitos cabotagem (navios de pequena -Botes tipo III- apoio ações -Patrulhas Oceânicos.
-Sistemas de Controlo adequadamente as águas
que ocorrem no dimensão que andam de Porto em FZ.
Costeiro. territoriais e até águas
mar? Porto)
interiores. [...]

Apd D-3
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Radares costeiros ao longo da


-Monitorização AIS;
Sistemas electro-ópticos; costa. Bons sistemas de
Quais são os -Estações fixas radar/eletro-
sistemas de monitorização comunicações por voz
sistemas de Radares para monitorizar a
óptico, conectadas aos Vessel Track System (VTS); (MF/HF/VHF/SHF), e dados
vigilância marítima Drones, porque tem uma grande aproximação de embarcações,
AIS e AIS Satélite; sistemas de (por satélite) que permitam
Centros de Operações;
determinantes para mobilidade, é difícil ser detectado câmeras de vigilância noturna
C2 como o sistema de gestão manter atualizado o panorama
auxiliar na e consegue vigiar grandes áreas. e térmicas. -Viaturas radar/eletro-óptico
Oversee, [...]; sistemas de de superfície entre os Centros
segurança
móveis, distribuídas aos comunicações e rádio ajudas de Operações Marítimas, em
marítima?
GMDSS [...]. terra, e os meios navais, no
Comandos de Zona Marítima.
mar.

-Desenvolver doutrina ajustada


Investir na formação de às missões e tarefas;
quadros, -Organização orientada,
Quais são os outros
3. Estar focado, pronto e ser útil. Criar um Sistema de claramente definida e
contributos para a Uma Marinha pouco presente no Autoridade Marítima e Incrementar os ciclicamente avaliada.
marinha melhorar mar vale zero. Só começa a ter atribuir competências à mecanismos de -Meios acompanhados de
Nada a referir.
a sua ação na uma marinha quando tiver mais de Marinha que cooperando com coordenação/cooperação com Treino e Formação,
segurança 100 dias de mar por ano. Portugal se beneficiaria da outras entidades. especificamente alinhados com
marítima? formação dos seus quadros a capacidade de recrutar
nesta área. futuras pessoas que possuam
competências em diversas
áreas de interesse.

Apd D-4
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Quadro 6 - Análise das entrevistas de Moçambique


Comandante da Base Naval Administrador Executivo do
Chefe do Estado-Maior da Chefe da Rep. Navegação e Docente e Investigador (Calton
Perguntas de Pemba (CMG Carlos Instituto Nacional do Mar
MGM (COM Inácio Vaz Hidrografia (CMG Bata) Cadeado)
Cossa) (Leonid Chimarizene)
Em sua opinião, -Ameaças não militares,
-Imigração ilegal; Ciclones, poluição marinha, o
quais são os tipos -Pirataria; nomeadamente tráfico de droga,
-Tráfico de seres humanos e - Tráfico de Drogas, tráfico de aumento da temperatura dos
de ameaças mais -Contrabando; pesca ilegal não regulamentada e
de drogas; seres Humanos, contrabando oceanos devido ao
frequentes nos -Tráfico de droga; poluição ambiental.
-Contrabando de espécies de mercadorias, terrorismo e aquecimento global,
espaços -Pesca ilegal; -Ameaças militares, concretamente
marinhos e; contrabando de espécies pilhagem de recursos
marítimos sob -Terrorismo e; terrorismo e pirataria marítima
-Poluição marítima. proibidas. pesqueiros.
jurisdição de -Imigração. esporádica.
Moçambique? -Ameaças de natureza geopolítica.
Não têm um mecanismo de
coordenação formal para a
partilha de informações
Como é que os relativas ao conhecimento A cooperação é feita através de
[...] cada instituição tem feito as
demais situacional marítimo esta A cooperação no âmbito da troca de informações sobre
suas atividades de forma
intervenientes Existência de uma informação esta dispersa num segurança marítima, com os atividades ilícitas que ocorrem no
individualizada. Notando-se que
legais com plataforma de partilha de conjunto alargado de intervenientes legais com mar. A título de exemplo, empresas
as instituições que fazem a
interesse no mar informações de interesse entidades com interesse no interesses no mar e boa, privadas e públicas providenciam
fiscalização marítima não estão
cooperam com a mútuo. mar e não partilham esta porém haja ocultação na imagens que complementam o
devidamente alinhadas, isto é,
MGM no âmbito informação. Daí a necessidade partilha de informação. trabalho de vigilância marítima
há falta de cooperação e de
da segurança de se estabelecer um sistema efetuada através de sistema de
articulação interinstitucional.
marítima? de Autoridade marítima em radares do Estado.
Moçambique. Em linhas
gerais não existe uma boa
coordenação entre a MGM e

Apd D-5
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

os restantes intervenientes.

Tem implicações -Há mais competição do que


imensuráveis na segurança cooperação entre as entidades que
Quais as As implicações são negativas,
marítima e podem gerar um intervém na segurança marítima.
implicações da Dispersão de poucos recursos pois uma instituição
produto operacional não Alto custo do Orçamento do -Duplicação de esforços, isto é,
falta do existentes que de certo modo, isoladamente no mar não estará
qualitativo e intangível. O que Estado, dificuldades na muitas instituições a fazer as
estabelecimento poderiam constituir mais- em condições de intervir em
pode trazer custos elevados difusão de informação de mesmas coisas, sem conhecimento
de uma entidade valia se estivessem alocados todos os ilícitos que for a detetar
para a segurança marítima em interesse da soberania. mútuo e, por vezes, de forma
responsável pela a uma única instituição. no mar e pode ser tarde a
Moçambique. Outrossim, conflitante.
coordenação do solicitação para a intervenção de
pode criar danos elevados a -Uso pouco irracional de recursos
SAMN? uma outra instituição específica.
economia nacional e regional. escassos na prevenção e no combate
contra ameaças ....
No domínio da
A cooperação internacional é
cooperação e
um fator de promoção de
coordenação, qual
segurança, não se faz
é a melhor forma Regulamentação do Centro de
Uso de uma plataforma que segurança marítima sem
para um Centro Operações Marítimas e ter um
vai permitir a cooperação internacional. Os
de Operações É via rádio de comunicação. representante de cada instituição
interoperabilidade de vários centros de operações devem - Nada a referir.
Marítimas com interesse no mar que
setores com interesse no mar. partilhar em tempo real todos
partilhar a servirá de ponto focal para
os incidentes que ocorrerem
informação partilha da informação.
no mar. Os centros de
recolhida nos
operações devem funcionar de
espaços
forma interoperável.
marítimos?
Que ações Desenhar um programa- Os militares devem ser -A Marinha deve capacitar os Assunto do mar requer - Formação de quadros em função
deverão ser quadro de formação e treino dotados em matérias de recursos humanos em formações e capacitações dos interesses nacionais [...].
desenvolvidas no contínuo que vise elevar o aplicação da Lei no mar, formações acadêmicas assim contínuas e periódicas -Realização de exercícios militares

Apd D-6
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

âmbito da nível de conhecimento melhorar o treino nas como profissionais, em direcionadas para todas as regulares a nível doméstico e
formação, treino e situacional marítimo. operações de interdição e cursos ou matérias com instituições envolvidas, porque internacional sobre ações ofensivas
organização para abordagem. Outro aspeto a aplicabilidade no mar; o Estado deve tratar situações e defensivas no mar.
capacitar o considerar na organização da -Implementação da política do mar com observância as -Criação de bases militares navais
pessoal que MGM é devolver os de investimento e convenções internacionais onde no “verdadeiro” sentido e
cumpre as comandos Naval e comando apetrechamento nos meios, pode haver atualizações, novos modernizar os comandos regionais
missões de de fuzileiros para tornar as matérias e equipamentos de procedimentos e regras. [...], com meios e poder efetivo de
segurança operações de segurança alta qualidade. realizar operações ofensivas e
marítima? marítima mais eficientes e defensivas. Ainda sobre a
eficazes. organização.

Meios velozes, de alta


Que tipos de Moçambique deve ter navios
qualidade e capazes de - Primeiro, são os meios modernos
meios marítimos patrulhas oceânicos que
percorrer vários quilômetros de vigilância e de comunicação via
considera ideais possam permanecer por
Unidades navais de em poucas horas e com satélite;
para uma marinha longos períodos no mar em Meios marítimos suficientes que
superfície offshore e capacidade de dar cobertura -Segundo, embarcações de reação
mais presente no operação, lanchas de se complementem.
Onshore. quase toda faixa marítima rápida; navios de guerra e aeronaves
mar de modo a intersecção e melhorar o
sem que tenha nenhuma para dissuasão.
combater os estado técnico dos centros de
avaria ou seja, problemas
ilícitos que operações marítimas no mar.
mecânicos.
ocorrem no mar?

Quais são os Os sistemas adequados são os Sistema de Controlo do - Vessel Traffic Service (VTS) é o
-Sistemas de radares
sistemas de que respondam os requisitos Tráfego Marítimo (VTS) básico e importante;
costeiros;
vigilância técnicos e operacionais no mar costeiro e portuário, (AIS), Meios aéreos (uso da avioneta, - Sistemas de radar é igualmente
-Sistema de identificação
marítima e que possam ter um Sistema de Identificação e satélite e drones). básico;
automática (AIS);
determinantes conhecimento situacional Localização de Longo - Sistema integrado de vigilância
-SEA VISION.
para auxiliar na abrangente. Também devem Alcance (LRIT), Sistema marítima tecnológica, envolvendo
segurança ser integrados os sistemas que Integrado de Vigilância, atores estatais e não estatais;

Apd D-7
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

marítima? monitoraram os navios de Comando e Controlo - Geographic Information System


pesca. (SIVICC), Drones, etc. (GIS).

Deve se melhorar os aspectos


doutrinários para tornar a
MGM eficiente e eficaz. As
técnicas e procedimentos nas Seguir e implementar o
Quais são os Intensificar a fiscalização
O desenvolvimento contínuo operações de segurança estabelecido na Lei do Mar pois
outros contributos marítima e [...] penalização
de capacidades humanas, marítima devem ser revistos e estão bem identificadas as
para a marinha rija de forma a desencorajar Dissuasão.
tecnológicas e de adequados recorrendo a atribuições, haver sincronização
melhorar a sua aos demais que pretendem
equipamentos. cooperação com outros entre as instituições e por último
ação na segurança invadir estas zonas de
estados costeiros. Para respeito às convenções
marítima? proteção exclusivas.
terminar, deve-se melhorar as internacionais.
infraestruturas das bases
navais e sub-bases.

Apd D-8
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Apêndice E — Análise SWOT


Quadro 7 – Matriz SWOT

Ambiente Externo
Ambiente Interno

Oportunidades
1. Cooperação e coordenação nacional com outras instituições intervenientes com interesse Potencialidades
no mar; 1. Existência de força com capacidade para a segurança marítima;
2. Apoio internacional de Portugal e EUTM MOZ na formação, treino e organização. 2. Força de Fuzileiros treinada e equipada com meios coletivos e individuais.
3. Cooperação com países amigos como Seicheles e Madagáscar na utilização do Centro de 3. Alto sentido de responsabilidade no cumprimento do dever;
partilha e difusão de informação marítima; 4. Utilização do Centro de Operações Marítimas;
4. Revisão da estrutura operacional; 5. Capacidade de cooperar com outras instituições com atribuições no mar.
5. Operação Atlanta.
Vulnerabilidades
Ameaças
1. Estrutura Operacional muito complexa e inadequada;
1. Uso da força contra a soberania, a integridade territorial ou a independência política de
2. Exiguidade dos meios;
um Estado;
3. Falta de sustentação dos meios;
2. Pirataria e assalto à mão armada no mar;
4. Utilização de equipamento desatualizado e muito diferenciado;
3. Crimes transnacionais organizados, como por exemplo, o contrabando de migrantes,
5. Falta de uma entidade responsável pela coordenação do sistema de autoridade
narcóticos;
marítima;
4. Ameaças à segurança de recursos, como por exemplo, a pesca ilegal, não regulamentada e
6. Fraca partilha da informação recolhida nos espaços marítimos sob jurisdição
não declarada;
nacional;
5. Ameaças ambientais, nomeadamente o derrame de petróleo.
7. Centro de Operações Marítimas com pouco equipamento e sistemas limitados;
6. Maior extensão marítima desprotegida.
8. Poucos sistemas de vigilância marítima para auxiliar na segurança marítima.

Apd E-1
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Apêndice F — Dedução de linhas de ação estratégica

Quadro 8 – Linhas de ação estratégica

Ambiente Interno

Potencialidades (P) Vulnerabilidades (V)

Linhas de Ação Estratégica (LAE)


Oportunidades (O)

LAE1. Extensão da Missão de Treino da União Europeia em Moçambique e que para além de treinar as Forças Especiais (Comandos e Fuzileiros) pode treinar
efetivos em outras áreas da Segurança Marítima. (P1, P2) *(O2)
LAE2. Cooperação Regional com Seicheles, Madagáscar e outros na exploração do Centro de Operações de Coordenação Regional e Centro Regional de Fusão
de Informações Marítimas. (V6, V7) *(O3)
LAE3. Operacionalização do Centro de Coordenação de Operações de Fiscalização Marítima, que vai integrar as instituições com atribuições no mar em
Ambiente Externo

Moçambique. (V5) *(O1)


LAE4. Criação de Zonas de Defesa Marítimas com atribuições específicas da faixa de responsabilidade para cada Comando da Zona, com meios (humanos e
materiais) ao seu dispor. (P1) *(A1, A7)
LAE5. Operação Atlanta é uma das operações marítimas militares executivas da União Europeia, que a pedido de Moçambique para além de terminar em Nacala
Ameaças (A)

as suas operações marítimas poderiam ser estendidas ao longo do Canal de Moçambique. (O5) *(A2, A3)
LAE6. União de esforço entre as instituições com atribuições no mar de modo a atuarem de forma conjunta, a partir dos meios que cada um possui até a execução
das atividades pois o fim último é a salvaguarda dos interesses do Estado. (P5) *(A4, A5)
LAE7. Reativação do Comando Naval e de Fuzileiros e implementar a organização em Zonas de Defesa Marítima, cada uma delas com um Centro de Operações
Marítimas. (V1) *(O4)

Apd F-1
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

Apêndice G — Medidas genéticas, estruturais e operacionais


Quadro 9 – Medidas genéticas, estruturais e operacionais
Medidas Estruturais Medidas
LAE Medidas Genéticas (MG)
(ME) Operacionais (MO)
MG1. Solicitar extensão da
LAE1. Extensão da Missão de
missão e alargamento do
Treino da União Europeia em MO1. Elevar a
pacote de formação;
Moçambique e que para além de ME1. Reabilitar e prontidão do pessoal
MG2. Identificar Unidades
treinar as Forças Especiais equipar as Unidades para combater as
que vão acolher a formação e
(Comandos e Fuzileiros) pode que vão acolher a ameaças que
treino;
treinar efetivos em outras áreas da formação; ocorrem nos espaços
MG3. Organizar os meios
Segurança Marítima. (P1, P2) marítimos;
que estarão envolvidos neste
*(O2)
processo;
LAE2. Cooperação Regional com
Seicheles, Madagáscar e outros na MO2. Dominar o
MG4. Entrosamento com
exploração do Centro de ME2. Requalificar o mar para o combate
parceiros internacionais;
Operações de Coordenação Centro de Operações antecipado dos
MG5. Investimento em
Regional e Centro Regional de Marítimas; ilícitos que ocorrem
Capacitação e Tecnologia;
Fusão de Informações Marítimas. no mar;
(V6, V7) *(O3)
LAE3. Operacionalização do
Centro de Coordenação de ME3. Criar um MO3. Impulsionar
MG6. Cooperar com outros
Operações de Fiscalização sistema de partilha de a cooperação e troca
setores no âmbito da
Marítima, que vai integrar as informações entre os de informações
Fiscalização Marítima;
instituições com atribuições no mar setores envolvidos; entre as instituições;
em Moçambique. (V5) *(O1)
LAE4. Criação de Zonas de
MG8. Regulamentar o ME4. Remodelar MO4. Rapidez na
Defesa Marítimas com atribuições
funcionamento das Zonas de algumas Unidades já intervenção e
específicas da faixa de
Defesa Marítima; existentes e criação de aumento da
responsabilidade para cada
MG9. Aquisição de meios outras para presença da força
Comando da Zona, com meios
operacionais por afetar em funcionamento das nas águas
(humanos e materiais) ao seu
cada Zona; Zonas; jurisdicionais;
dispor. (P1) *(A1, A7)
MO5. Incrementar
LAE5. Operação Atlanta é uma
as operações de
das operações marítimas militares
MG10. Efetuar pedido a combate ao tráfico
executivas da União Europeia, que
União Europeia para ME5. Fortalecimento de drogas,
a pedido de Moçambique para
extensão das suas Operações da Cooperação terrorismo e suas
além de terminar em Nacala as
Marítimas ao longo do Canal Interinstitucional; fontes de
suas operações marítimas poderiam
de Moçambique; financiamento,
ser estendidas ao longo do Canal
pirataria e assalto á
de Moçambique. (O5)*(A2, A3)
mão armada;
LAE6. União de esforço entre as MG11. Adquirir meios ME6. Políticas MO6. Cumprir as

Apd G-1
O Papel da Marinha de Guerra de Moçambique na Segurança Marítima

instituições com atribuições no mar navais; Públicas e Legislação. atividades marítimas


de modo a atuarem de forma MG12. Adestrar o pessoal de forma conjunta
conjunta, a partir dos meios que que vai operar os meios para o combate aos
cada um possui até a execução das navais; ilícitos que ocorrem
atividades pois o fim último é a no mar;
salvaguarda dos interesses do
Estado. (P5) *(A4, A5)
MO7. Melhorar a
LAE7. Reativação do Comando
organização
Naval e de Fuzileiros e
MG13. Incrementar o ME7. Rever a operacional e
implementar a organização em
Comando e Controlo estrutura operacional dinamismo no
Zonas de Defesa Marítima, cada
próprios. da MGM. tratamento de
uma delas com um Centro de
assuntos de cada
Operações Marítimas. (V1) *(O4)
especialidade.

Apd G-2

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