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Peditum Libonis

Roberto, um respeitado gerente editorial, enfrenta uma situação embaraçosa quando um peido incontrolável interrompe seu dia de trabalho, causando desconforto e risadas entre seus colegas. Apesar de sua erudição e prestígio, ele se vê em uma situação cômica e constrangedora, tentando lidar com as consequências de sua flatulência em um ambiente profissional. O episódio culmina em uma série de eventos hilários que destacam a fragilidade da dignidade humana diante de situações inesperadas.

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Rodrigo Bravo
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Peditum Libonis

Roberto, um respeitado gerente editorial, enfrenta uma situação embaraçosa quando um peido incontrolável interrompe seu dia de trabalho, causando desconforto e risadas entre seus colegas. Apesar de sua erudição e prestígio, ele se vê em uma situação cômica e constrangedora, tentando lidar com as consequências de sua flatulência em um ambiente profissional. O episódio culmina em uma série de eventos hilários que destacam a fragilidade da dignidade humana diante de situações inesperadas.

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Peditum Libonis

Rodrigo Bravo

Roberto era um homem sério, erudito e ocupado. Todos os dias acordava cedo
para pegar no batente. Ele tinha um bacharelado e mestrado em filologia e trabalhava
como gerente editorial em uma editora de literatura clássica. Roberto gozava de muito
prestígio entre seus colegas. Todos aguardavam avidamente ouvir os insights que ele
trazia nas reuniões semanais do editorial. Para citar um exemplo, a editora em que
Roberto trabalhava estava produzindo uma reedição do célebre Livro de Catulo, e
Euclides, um dos revisores de sua equipe, sugeriu que se censurassem os poemas mais
espinhosos do grande autor Romano. “Nossa base de leitores vai se incomodar”,
sugeriu o revisor, “fora que a maioria destas besteiras que ele fala em seus poemas
são puro filler e podem ser suprimidas”.

— Discordo disso — argumentou Roberto. — Catulo precisa ser publicado na


íntegra. Tudo que está ali é estratégia deliberada do poeta e cumpre a função de
produzir o belo.

— Roberto, normalmente eu concordo com você... — retorquiu Euclides. — Mas


olha pra esse poema 54 aqui. — Ele abre o manuscrito na tela de seu laptop. — O
sutil e leve peido de Libão? Isso lá é verso para se colocar em um livro de poesia
clássica, Roberto?

— Ah, meu caro, é aqui que você se equivoca. Esse poema todo é uma profunda
crítica social. Todas as pessoas aqui citadas são parentes de ou relacionadas a Júlio
César, pessoa por quem Catulo nutria grande desafeto. Oto, Libão, Ério, Fufício...
estas pessoas não estão sendo invectivadas gratuitamente. O Libão aqui citado era
um político corrupto... Fufício era um senador pior que os de Brasília. Acredito ser
mais prudente, tanto neste quanto em outros casos similares, conservar a
integralidade do poema e colocar uma nota explicativa, dando, assim, a oportunidade
do nosso leitor aprender um pouco da história de Roma enquanto se deleita com a
verve Catuliana.

— Realmente, Roberto, você tem razão! Como sempre, você é um poço de


cultura. Que honra trabalhar com você.

— Imagina, meu querido! — Roberto ruborizou-se, mas tinha ciência de sua


excelência, de modo a quase beirar a arrogância, mas ainda imerso na bondade
genuína. — Ele ergueu a mão com solenidade, como um tribuno prestes a sancionar
uma lei. — Soltemos então os peidos de Libão! Libera volent pedita Libonis!

— Liberdade para o peido! Hahahah! — Riu junto o revisor. Todos os presentes


na reunião gargalharam da espirituosa genialidade de Roberto. Quão sortudos eram
eles todos de ter alguém como ele por perto. Ele era mais do que um gestor; era um
professor, um amigo; alguém que enchia o lugar de bons ares por onde quer que
passasse.

Até aquele fatídico dia, quando um sopro vil se lufou na vida do pobre
Robertinho.

A primeira vez que aquilo aconteceu, Roberto não se deu conta da correlação
entre causas e efeitos. Como todo homem que mora sozinho e vive para o trabalho, a
palavra que inaugura o dia quase sempre é proferida horas depois do café da manhã
discreto e do trânsito em silêncio para o escritório. “Bom dia, minha querida!...”
Roberto irrompeu vivaz, como de costume, no tom ensaiado que usava para dirigir-se
à Dona Dulce, a velha recepcionista da editora. Ele, todavia, não conseguiu concluir
seu cumprimento, pois, ao cruzar o pórtico e mover seus lábios, articulando a palavra
“Bom”, sua boca inferior resolveu falar mais alto, traindo a arte da Retórica: um peido
mais sonoro do que o apito de um transatlântico, com o fedor de um pote de feijão
esquecido no fundo de uma geladeira desativada por um verão inteiro sob o calor
escorchante de São Luís do Maranhão, empesteou a recepção da sede da editora em
questão de milissegundos. O horror tomou conta do coração de Roberto enquanto o
flato penetrava-lhe as narinas, pois ele sabia que ele não tardaria em invadir as de
Dona Dulce com igual amargor e morbidade.

“Meu deus, dá até pra sentir o gosto...” Roberto pensava, aflito, tentando
disfarçar sem sucesso a autoria daquele crime de guerra e segurando seu ventre
contraído da dor colical. Mas os olhos de Dona Dulce enchiam-se de lágrimas e
julgamento, e ela tentava conter o reflexo da ânsia enquanto o fitava, incrédula. Só
havia os dois naquela sala; e ambos sabiam que o intestino que havia fermentado
aquela pérfida neblina não era o da pobre recepcionista.

Expelido todo o conteúdo sulfúrico, o cérebro reptiliano de Roberto assumiu


as rédeas de imediato, como se um Shinji diminuto tivesse tomado a decisão de
finalmente pilotar o robô, e o mecanismo neurológico de fugir ou lutar direcionou o
gerente editorial à primeira alternativa. Roberto correu para seu escritório e fechou
a porta atrás de si, mas ainda podia ouvir, através das finas paredes de gesso, Dona
Dulce tossindo, gorfando e esvaziando quase uma lata inteira de Glade – toque de
frescor – na fútil tentativa de descontaminar a fossa séptica em que se transformara
sua recepção. “O que está acontecendo comigo? Eu não comi nada com lactose? Será
que eu comprei o cottage errado de novo? Não acredito!” Roberto pensou e saltou para
sua mesa meticulosamente arrumada, sobre a qual post-its organizados por cor
repousavam sobre um aparador de couro ao lado de um caneteiro de metal, e um
difusor de essências chinês da Shopee emanava o doce aroma da verbena por entre os
livros grossos nas prateleiras acima. Ele abriu seu laptop e entrou no site do mercado
Pão de Açúcar, clicando freneticamente em busca da aba “Minhas Compras”.

— Leite de aveia, chia, keffir... cadê... hmmm... aqui, aqui! Achei...” — Roberto,
absorto em sua tarefa, deixava-se ler a lista de compras em voz alta. — Será que
erraram? O cottage era sem lactose...

Roberto não conseguiu completar a sua frase. Ao pronunciar essas últimas


palavras, seu cólon adquiriu inspirações wagnerianas. O ribombo dos três traques
tristes que se sucederam balançou as paredes do escritório. Dona Dulce claramente
ouvira aquela Marcha das Valquírias, e fazia o sinal da cruz com fervor enquanto
rezava pela alma do “Seu Roberto”. E ele, o epicentro da explosão, preso dentro do
pequeno escritório, nunca imaginara que peidos podiam ser dotados de cor e
tonalidade, mas isso não era só coisa dos desenhos animados: Roberto podia jurar que
todo seu escritório assumira o matiz do verde-oliva. O olor denso e compacto da nuvem,
no entanto, não era de azeite, mas de ovos podres recém-abertos sobre uma inocente
frigideira pela manhã, desses que tiram até do próprio Hércules o desejo de desjejuar,
mesclados ao vapor úmido da névoa de verbena vinda do difusor.

Mas flores e enxofre, como bem pode supor o leitor atento, não são aromas que
celebram propício casamento.

Desta vez, nem mesmo Roberto conseguiu aguentar o peso de sua própria obra,
em que acaso e planejamento entreteciam uma trama tão bela quanto nojenta.
Tomado mais uma vez pela força do pequeno Shinji que pilotava aquele Evangelion
de carne e gás, seu fiel cérebro reptiliano, Roberto apanhou a lixeira que ficava sob
sua escrivaninha – antes exclusiva para resíduos recicláveis – e emitiu um grunhido
em mi bemol mais grave do que qualquer vocalista de Black Metal poderia sonhar em
alcançar com suas pífias pregas vocais. “Crêmdeuspai”, Dona Dulce deixou escapar
baixinho, do outro lado, tomando o telefone de reflexo e digitando o 1 e depois o 9. O
silêncio sepulcral que se seguiu do escritório, porém, fez a senhora se deter antes de
completar a ligação. Uma sopa de retalhos de papel boiando em suco gástrico, junto a
pedaços de avocado toast com cottage e tomates cereja semidigeridos, preenchia agora
praticamente todo o cesto de lixo. Roberto tentou com sucesso recuperar o equilíbrio
e erguer-se do chão, e correu em seguida para abrir as janelas.

Mas quem disse que o escritório de Roberto tinha janelas? Ah, caro leitor...
Roberto havia se esquecido, no furor do miasma intestino, que era nada além de um
raso gerente em uma empresa de médio porte, preso em uma cela de pó, mofo, metano
e móveis de MDF: seu pequeno escritório, concedido somente após reiterados e
calorosos pedidos ao dono da editora, era um antigo armário de vassouras redesignado;
quantas mágoas da vida de pequeno-burguês escolarizado Roberto não afogou
naquela apertada salinha, tal como agora se afogava no arrependimento de ter
enterrado a si mesmo naquele túmulo sulfúrico...

O gerente editorial levou uma mão sobre a testa e outra sobre a boca e o nariz,
encostando-se em sua estante de livros e permitindo aos poucos que os dedos se
entreabrissem, a fim de acostumar-se com a nova atmosfera fecal daquela câmara
escura. Mas ele não teve muito tempo para fazê-lo: sua repulsa foi subitamente
reprimida pelo som de uma notificação do Slack – aplicativo de chat que os
funcionários da empresa usavam para se comunicar – em que se lia “1 mensagem não
lida de Otávio Ortolano”. Ninguém menos que o autointitulado CEO e sócio
controlador da editora, chefe direto de Roberto, o Faraó que lhe concedera seu
sarcófago de flatos. Vassalo do mês, Roberto esqueceu que se peidara nos últimos
cinco minutos mais do que em toda sua curta vida de trinta e sete anos, e correu até
o laptop para responder seu suserano. Seu coração gelou após ler as seguintes
mensagens:

09:00: Oi Roberto! Bom dia! Onde você está? O Oswaldo chegou mais cedo,
podemos começar já nossa reunião?

09:03: Roberto? Onde você está? Você já chegou à editora? O Oswaldo e eu


estamos esperando.

09:05: Roberto? Está tudo bem com você? Estou vendo seu Kwid no
estacionamento daqui do escritório. Estou indo pra sua sala...

“Não! A reunião das nove!” Roberto pensou, em pânico, olhando seu aspecto na
câmera do celular e evitando fitar a lixeira cheia de vômito a vinte centímetros de
seus pés. Ele tentava pentear seus cabelos desgrenhados com a pequena escova de
casco de tartaruga que levava em sua mala, presente de um amigo quando voltou de
uma viagem à Tailândia. No afobamento, entretanto, sua mão trêmula a deixou cair
na lixeira vomitada. O verde esmeralda do casco do finado quelônio eivou-se do ocre
amarelado daquele xarope de bile e queijo cottage que decantava no fundo daquele
cesto de vilezas. Roberto teria chorado naquele momento, não tivesse ouvido a
conversa que se passava do outro lado, entre Otávio e Dona Dulce:

— Dona Dulce, cadê o Roberto? Ele chegou?

— Misericórdia, doutor Otávio, ele tá lá dentro... ele passou mal...

— Como assim, Dulce... Meu Deus, o que é isso? — Otávio só agora farejava o
ambiente — Morreu um urubu aqui dentro? Eu tô com o escritor lá em cima, Dulce!
Abre essa janela!

— Dr. Otávio, a culpa não é minha, por Jesus! Eu abri todas as janelas já, mas
não há vento que vença. É o seu Roberto, ele...

— Dulce, eu não tenho tempo disso, com licença, dá um jeito nesse cheiro, por
favor. — Ele se virou então, para o escritório no armário de vassouras, deixando-a
balbuciar sozinha, dando passos fortes com a intenção de invadi-lo. — Roberto, você
tá aí? O Oswaldo tá esperando a gente lá em cima...

Ao escutar o som das derradeiras palavras, Roberto reuniu suas últimas forças,
saltou de dentro do escritório e, pela segunda vez naquele dia, fechou a porta atrás de
si, dessa vez ficando do lado de fora. Ele emudeceu, buscando em sua cabeça quais
seriam as palavras perfeitas para tecer a melhor desculpa para sua condição atual.
Sua aparência cadavérica, todavia, entregava que ele era o verdadeiro esqueleto
escondido naquele armário. Otávio, surpreso com a visão sórdida, perguntou em tom
que misturava repulsa com piedade:

— Roberto, tá tudo bem com você? O que você tá fazendo aí nesse escritório?
Você esqueceu a nossa reunião? Que cheiro é esse, homem?

— Otávio, mil desculpas, avisa o Oswaldo que eu...


Sim, leitor, você já pode imaginar o que se sucedeu. Ah, sim, que momento mais
espúrio na vida do nosso herói. Você pode tentar imaginar o que se sucedeu, na
verdade, pois nada que sua vã imaginação possa descrever aos olhos do espírito vai
de fato dar conta de traduzir em palavras a grave qualidade do Peidocalipse que se
instalou naquela sala comercial. Um, dois, três, quatro... Cinco flatos tiritavam do
furico de Roberto como grasnavam os gansos da rainha Elizabeth, um atrás do outro,
cada um com seu almíscar próprio, em divergentes notas coliformes, bailando adentro
das narinas dos presentes. A pressão arterial de Dona Dulce caiu vertiginosamente e
a velha senhora quase desfaleceu, não fosse Otávio segurá-la. O CEO virou-se para
Roberto e vociferou:

— Roberto, meu Deus, volta pra casa agora. O que foi que você comeu? Uma
hiena em decomposição? Como você me vem pra empresa num dia desse? Você devia
ter ficado em casa!

— Desculpa! Desculpa! Eu cheguei e fiquei assim! Mas tá tudo bem agora,


Otávio...

Era infalível: o final da frase enunciada por Roberto era pontuado por mais
quatro estalos. Prrt, Prrt, Prrt, Prrt. Otávio não conseguia segurar a expressão de
nojo e indignação. Estes três eram como agulhas gasosas de lancinante picância;
Roberto podia jurar que uma delas havia entrado por uma de suas orelhas. O festim
de peidos só foi interrompido porque uma figura pomposa, gorda e bem-vestida
emergiu das escadas que levavam ao segundo andar da editora, onde se situava sua
sala de reuniões:

— Roberto, Otávio, está tudo bem? Estou aguardando vocês há um tempão


aqui em cima. Quando vocês vão subir? — Era a voz de Oswaldo von Ostrogoth,
ganhador do prêmio Jabuti na categoria de Melhor Tradução. O acadêmico brasileiro
de origens austríacas havia realizado o feito de traduzir o Fausto de Goethe em versos
que capturavam a essência do original como nenhuma outra o fizera; versado em
múltiplos idiomas, ele agora dava os tratos finais em sua tradução do Livro de Catulo,
cujo processo editorial, coincidentemente, era conduzido e supervisionado por nosso
flatulentíssimo Roberto. A incontida fidalguia de nosso protagonista, como verá o
leitor a seguir, fez com que este selasse seu destino irreversivelmente. O gerente
editorial, tomado de seu brio e garbo característico, ainda que recoberto pela craca de
suco gástrico e pelo olor dos peidos recém-enunciados, ousou ser o arauto das boas-
vindas ao renomado tradutor:

— O grande Oswaldo von Ostrogoth aqui conosco! Tivemos somente um


problema técnico, mas já vamos te...

Por mais que o treinamento de orador Romano e o conhecimento das letras


clássicas desse a Roberto a resiliência para se manter de pé diante de qualquer
adversidade, era impossível concluir qualquer frase após as dez bombas nucleares
que suas nádegas deixaram detonar-se no recinto. Se apenas um único peido já era
uma amostra do fedor emanado pelo enxofre dos lagos do oitavo círculo do inferno,
um decálogo de flatos como aquele só fez confirmar a lei universal de que todo mal
pode ser ainda pior, muito pior...

A porta da sala dos fundos se abriu de supetão. Dela, emergiram duas figuras
estarrecidas: Euclides, o revisor, e Rafael, um editor, subordinados de Roberto. O
primeiro parecia ter vomitado mais do que o gerente peidorreiro, e era carregado pelo
segundo, cuja camisa se enrolava em torno de seu nariz, como ele fosse um beduíno
de torso desnudo. Este recém-empossado Lisan Al-Gaib do escritório tomou a palavra,
ajeitando Euclides sobre seu ombro:

— Roberto, Otávio... o Euclides... por favor.. alguém nos ajude... Ele está bem,
mas a Luana... a Luana precisa de cuidados médicos urgentes. O que aconteceu?
Explodiu o cano do esgoto?

— N- n- não, Rafael... — Otávio gaguejou, escorado em uma mesa, ele seguia a


deixa do editor e amarrava sua camisa como um turbante antiturbulências, mas o
alívio daquela peidaria úmida era pouco mais do que parco. — O culpado disso tudo
é o Ro... cof cof... é o Roberto... Ele deve ter comido lactose por engano de novo.
— Otávio —, disse Rafael, gorfando seco — isso é impossível. — Você tem
certeza que não estamos com um vazamento ou ralo entupido? Que um rato morreu
no forro da laje?

— Rafael —, a voz de Roberto, responsável, agora ecoava na fedentina — fui


eu sim. Eu que peidei...

— Deus, parece que agora ele parou finalmente... — disse Oswaldo von
Ostrogoth... eu acho que posso voltar outra hora... Com licença, senhores.

— Não, doutor Oswaldo, fique, por favor! — Gritou Roberto. Mas cinco peidos
novamente irromperam de seu trato digestivo. Euclides, num surto de adrenalina,
acordou do desmaio no soar da terceira trombeta e correu para dentro do escritório de
Roberto. Ao entrar, não olhou seus arredores e acabou tropeçando na lixeira cheia de
vômito, esparramando-o e caindo sobre a poça azeda. Rafael tirou as calças e as
enrolou em torno da sua cabeça agora, ficando apenas de cueca e sapatos sociais;
praticamente não conseguia ver mais nada no âmago daquela espessa névoa
esverdeada. Ele puxou um abridor de cartas e o empunhou, como se fosse uma adaga,
e gritou para Otávio:

— Chefe, não dá mais... Já chega... — Otávio segurava a ânsia enquanto o


olhava falar, apertando e abrindo os olhos repetidas vezes. — Temos que sacrificar o
Roberto — asseverou o editor júnior.

O gerente editorial pasmou: iriam sacrificá-lo? Chegariam mesmo a esse ponto.


Uma lágrima começou a rolar de sua face, diante da impotência e da alucinação
fornecida pelos fumos fecais que ele aspirava, e ele considerou que talvez a ideia de
Rafael não fosse tão louca assim. Roberto, então, ficou em silêncio, sem conseguir
responder, como se tivesse desistido da própria vida. O editor júnior quase mataria
seu gerente, não fossem as palavras do CEO irromperem pela sala:

— Rafael, para! Vocês estão loucos? Ninguém aqui vai sacrificar o Roberto.
Você quer jogar sua vida fora? E outra, é do Roberto que estamos falando, nosso
Robertinho! Ele é um membro valiosíssimo da nossa equipe e o funcionário do mês na
editora pelo nonagésimo mês consecutivo. Nós temos que ajudá-lo. Talvez eu tenha
entendido o que aconteceu.. Tenho uma hipótese, mas precisamos testá-la antes...

— Como assim? — Roberto perguntou, incrédulo. Quando o pronome


interrogativo foi pronunciado pelo gerente editorial, seus lábios retais estalaram com
dúplice cumplicidade. Um, dois... A essa altura do campeonato, ninguém prestou
atenção neles, menos Otávio, que fitava o traseiro de Roberto com um misto de
fascínio, ojeriza e apreensão.

— Shh, shh, Roberto! Silêncio!

— Mas chefe, eu preciso saber... — Dessa vez foi um peido apenas. Otávio
estalou os dedos bem no momento exato, parecia que o CEO sabia que Roberto
peidaria exatamente naquele instante.

— Roberto, Roberto! Escuta, homem. Pelo amor de Deus. Nós vamos fazer um
experimento, Roberto, ok? Não diga nada e acena com a cabeça, ok? Vamos fazer esse
experimento agora?

Roberto balançou a cabeça surpreso e confuso. Ele abriu a boca para falar.

— Roberto, cala a boca! Olha cara, eu te adoro, mas só cala a boca por um
segundo e me escuta, por favor! — Roberto acenou positivamente com a cabeça. —
Vamos lá, fala agora pra mim, por favor, o nome completo do editor que trabalha na
sua equipe.

O gerente editorial pareceu não ter entendido muito bem o pedido. Sua cabeça
pendia para o lado, buscando uma explicação para aquilo.

— Só confia em mim e fala logo o nome dele inteiro, vai!

— Rafael Benevides da Mata? Disse Roberto, encafifado.

— Isso! Isso! Certo! — Otávio não escondia sua alegria, mas ninguém conseguia
entender o motivo dela. Roberto ia tentar perguntar-lhe o que ocorrera, mas foi
interrompido. — Não Roberto, é sério, agora é um momento crítico. — Ele agora
sinalizava para que Rafael colocasse turbantes antiturbulência em Euclides e em
Oswaldo von Ostrogoth. — Roberto, qual é o meu nome completo?

Roberto então, novamente, obedeceu a seu suserano, e enunciou, em alto em


bom som: Otávio Ortolano. Tom este, todavia, não tão alto e nem tão bom, quando
comparado com o estrondo rompedor de tímpanos dos cinco peidos molhados que se
espargiam por toda a extensão da sala. Já no que diz respeito ao perfil aromático da
hexalogia, permita-me, caro leitor, levar-lhe comigo em uma breve digressão:
imaginemos um penico comunal onde uma caterva de trinta e cinco estivadores
frequentemente esvaziam suas bexigas, intestinos e testículos, situado no convés
mais ínfero de um navio pirata nos tempos das grandes navegações; imaginemos,
agora, que este penico foi esquecido dentro do cesto de roupas sujas de um campeão
de YuGiOh virgem de quarenta e dois anos de idade, ápice de sua incelia, fermentando
num casulo plástico perfeito de cuecas e meias de uso semanal; imaginemos que este
cesto de roupas sujas é, por sua vez, imerso nas águas do rio Pinheiros por um mês,
em seguida aberto, colocado sob o sol, e deixado nesta condição por mais dois meses;
imaginemos que o resultado dessa cocção, finalmente, é utilizado por um dos urubus
que sobrevoam a Cidade Universitária como matéria prima para seu ninho. Nem
mesmo algo assim teria um cheiro tão vulgar, ousado e aviltante quanto aquelas
últimas manifestações de glória flatulenta trazidas à baila por Roberto e sua raba
radiante.

Rafael foi automaticamente ao chão e parecia um neopentecostal falando em


línguas, ele havia perdido a dupla articulação da linguagem. Oswaldo von Ostrogoth,
que estava no mezanino e, portanto, gozava de mais alguns segundos antes do fim, já
havia perdido suas esperanças ao ver estrebuchar-se Rafael. O austro-brasileiro só
conseguia gritar:

— Façam ele parar!!! Nós vamos morrer. Nós vamos todos morrer, caralho!!!

Otávio, no entanto, inafetado pelas emissões anais, sequer se importou com os


gritos desconexos de Rafael ou com os pedidos desesperados de Oswaldo. — Calem a
boca todos vocês! — Ele vociferou e os silenciou, emendando, logo em seguida, em voz
grave e racional, sua esdrúxula hipótese para guarnecer aquela peidorreira com
critérios científicos de análise:

— O Robertinho só peida quando ele fala palavras que têm a letra O.

Todos ficaram em silêncio. A mensagem parecia não ter sido compreendida. “O


Robertinho só peida quando ele fala palavras que têm a letra O”. Rafael murmurou,
incrédulo. O que era aquilo que estava acontecendo? Otávio tinha o grosso da
realidade em mãos. Ele estava certo. Todos os ouvintes ficavam perplexos, dentre
estes, é claro, Roberto. Que história triste para um homem tão bom. Amado por todos.
Querido. Em carreira de plena ascensão meteórica. Uma vida toda jogada na lata do
lixo por causa da flatulência. A dor que tomava o coração de Roberto parecia extrair
a essência de sua existência. Roberto chorava por dentro, mas seu espírito de líder o
silenciava enquanto ele se curvava em posição de dogeza. Ele estava entregue. Para
ele, sua vida havia acabado. Omakasetekudasai, tanomu, gritava o espírito de Roberto.
Esse era seu destino, flatular, expelir gases de seu orifício inferior até o fim de sua
vida, toda vez que pronunciasse qualquer palavra com a letra O. O mestrado em
filologia de Roberto impedia que ele duvidasse da perspicácia de Otávio Ortolano. Sua
voz conseguia somente dizer as seguintes palavras:

— É mesmo. Eu peido quando falo a letra O. — Roberto soltou cinco flatulinhos


assertivos, que se imiscuíram no fervor da nuvem verdejante que tomava conta do
escritório. — Tudo faz sentido, Otávio. O que podemos fazer? — Mais seis emissões
totalizaram onze naquela sucessão de apitos fecais.

Rafael tomou a palavra. — Primeiro de tudo, cala a sua boca, Roberto! Se você
abrir a boca de novo eu te sacrifico.

Roberto apenas voltou seus olhos para o chão e chorou. A dor que lancinava
seu coração era forte demais para que ele pudesse aguentar. Ele tinha treinado Rafael
na profissão, que havia sido seu revisor mais fiel quando Roberto era um mero editor
júnior. Ouvir aquelas palavras da boca de Rafael traziam a maior das tormentas ao
coração de Roberto. E o gerente editorial teria se entregado ao pior dos destinos, não
fosse a intervenção de Oswaldo von Ostrogoth naquele dia.

— Por favor, por favor, não se sacrifiquem enquanto eu estiver aqui nesse
maldito escritório. Eu não quero ser cúmplice de nenhum homicídio... — Oswaldo
tossiu, ajustando o turbante antiturbulência que Euclides fizera de seu paletó de
tweed, mas a tempestade que aquele beduíno evitava não era de areia: era de metano.
— Otávio, muito perspicaz a sua observação... — disse, dirigindo-se para o dono da
editora — e eu sei o porquê disso estar acontecendo.

— Eu sabia que você conseguiria tirar o Roberto dessa enrascada, Oswaldo! —


Otávio guinchou da alegria bajulante que um dono de editora sabe muito bem falsear
na presença de um excelso doutor das Letras Clássicas. — Sua erudição não cessa de
nos surpreender, professor! Não se poderia esperar menos do grande ganhador do
prêmio Jabuti na categoria de Melhor Tradução!

— Ahem... — Oswaldo pigarreou, com a falsa modéstia que exibia nos


simpósios de tradutologia literária. — Não é nada demais, na verdade... Nada demais,
quero dizer, para um pesquisador das Letras Clássicas e Vernáculas como eu... O
nosso querido amigo editor, acredito, foi vítima de uma poderosa maldição. Uma
maldição vil, fruto da esotérica e arcana Magica Peditorrhagica.

— A Mágica Peidorrágica? — Traduziu Rafael, fluente em latim. — Confesso


que sempre fui um estudioso amador das tradições mágicas da Antiguidade tardia,
mas eu achava que isso não passava de uma farsa inventada pelos filólogos da corte
de Marco Aurélio.

— Muito você se engana, caro Rafael... — professorou doutor Oswaldo — A


filologia clássica tem hoje indícios fortes para afirmar categoricamente que a Magica
Peditorrhagica foi uma prática gnóstica de malagouro, necromancia e comunhão com
os mortos, primeiro proibida por Roma, depois considerada heresia pelo Vaticano,
tamanho seu poder destrutivo. Todos nós aqui reunidos hoje somos testemunhas de
seu potencial fecal de aniquilação.
— Mas... mas... eu... — Roberto tentou formular a sentença em vão, pois não
encontrava palavras desprovidas da vogal amaldiçoada que pudessem expressar sua
incredulidade e desespero.

— Mas o que você fez de errado? É isso que você queria perguntar, Roberto? —
Oswaldo completou a frase do pobre gerente editorial. — Pois bem, meu caro, o senhor
não fez nada de errado. O senhor foi amaldiçoado por um espírito vil que, milênios
após sua morte, ainda assola pobres editores que querem fazer nada mais do que sua
missão na terra: disseminar a cultura e manter viva a chama dos Clássicos. Assim
como tantos outros editores ao longo da história, você é mais uma vítima da crueldade
mesquinha de ninguém menos que o próprio Libão, o peidorreiro invectivado por
Catulo em seu poema 54.

— Eu havia previsto isso, doutor Oswaldo — sorriu Otávio em plena comunhão


intelectual com seu autor best-seller — O fato dele não conseguir falar o O... O, a
última letra do nome de Libão em latim, Libo... e o O de Libo é uma daquelas palavras
que declina como... — ele estala os dedos — como homo, sermo e ordo. O O é a parte
declinável da palavra, a parte efêmera, a parte que flexiona...

— Exatamente como um flato: a letra O é fugaz. — completou Oswaldo,


tomando a palavra à força. — A letra O é o selo da maldição; lépida como o peido de
Libão. Roberto, nós não temos escolha... Nós precisamos, Deus me livre, evocar o
espírito de Libão que agora jaz em seus intestinos para, então, exorcizá-lo.

Roberto correu para a mesa da recepção e pegou papel e caneta. Já que não
podia falar, esse homem dos livros iria escrever. “Eu faço qualquer coisa para resolver
esse problema, doutor Oswaldo. Por favor, me ajude!” rabiscou o gerente às pressas,
entregando a mensagem ao eminente latinista. Oswaldo, então, apenas olhou para
Roberto e segurou suas mãos, assegurando-lhe, somente com seu olhar, que tudo
daria certo.

— Eu conheço o espírito de Libão, Roberto. — gabou-se Oswaldo. — Eu estudei


a literatura e a história de Roma o suficiente para saber como resolver essa situação.
Afastem-se todos: Libão é um demônio ressentido, mas sabedor das Letras Clássicas;
homem de posses, erudito; Catulo o invectivou, de certo, mas tenhamos ciência, meus
caros, de que esse é apenas um dos lados da história. Entendam vocês que Libão era
um homem caprichoso, mas, acredito eu, íntegro. Assim escrevi em minha nota ao
verso que menciona seu nome, como deve se lembrar bem o nosso queridíssimo
Roberto, que cuida com tanto zelo da edição desta minha obra escrita em coautoria
com Catulo... — Oswaldo ria, ignorando o aroma dos peidos que empesteavam o
ambiente, enebriando-se da alegria de pegar carona no sucesso poético de um autor
da Antiguidade e ensacar mais um Oceanos, quem sabe até o segundo Jabuti... — Eu
só preciso recitar o verso derradeiro até que Libão emerja do orifício retal de nosso
Robertinho. Dessa forma poderei falar com ele em sua própria língua, argumentando,
com a retórica que aprendi de Cícero, a fim de que cesse de fazer residência em seu
precioso cólon e nos livre do aroma de seus flatos...

Todos assentiram, olhando fixamente para o acadêmico, depositando todas as


suas esperanças na sapiência que somente anos de estudo de textos escritos por gente
morta e papeis empoeirados concede ao pensador das artes liberais. Oswaldo tomou
seu lugar no centro da plateia que se formara de improviso, do pé da escadaria em
caracol que levava ao escritório de Otávio, livrou-se de seu turbante antiturbulência
e encheu os pulmões daquele misto de ar e flato que prefiguravam a atmosfera da
editora. Segurando o fôlego alguns segundos, como Homero talvez fizera na primeira
vez que recitou a Odisseia, o filólogo em seguida desatou a repetir o verso amaldiçoado
que mudou a vida de Roberto para todo o sempre:

Subtile et levem peditum Libonis

Subtile et levem peditum Libonis

Subtile et levem peditum Libonis

(...)
Conforme Oswaldo von Ostrogoth repetia o latinório, parecia que toda a sala
começava a girar. Não eram, no entanto, as paredes que giravam, mas a névoa úmida
dos peidos de Roberto que perfaziam um tornado. A congregação de vapores revolvia
na direção de um único vetor, a mesma cave de onde emergiram: o fiofó do gerente
editorial. A bruma era tão espessa que se podia vislumbrar, ao modo das grandes
tempestades, até mesmo pequenos relâmpagos fulminando aqui e ali. Todo o gás, por
fim, concentrou-se na figura fantasmagórica de um homem de feições mediterrâneas,
nariz aquilino, levemente calvo e de face enrugada, trajando a saudosa toga senatorial
dos tempos de Nero, Sêneca e Cícero. Verde como se espera dos peidos mais
cartunescos, com o cenho mais franzido do que o mais chato dos franceses ao topar
com um estrangeiro perdido na saída da estação Trocadéro, o fantasma de Libão
parecia ignorar o fato de que não possuía pés, pois sua cauda fantasmagórica era como
o apêndice de um gênio, cujo ponto de emissão, todavia, não era o bico de uma
lâmpada mágica, mas o butico de Roberto. Com os braços cruzados, o senador romano
pairava acima de todos com seu olhar de reprovação. Ninguém conseguia dizer nada
diante da figura nefasta que se manifestara.

Até que, com a voz imbuída de dever e pronto para desfazer a tensão que havia
se instalado naquele recinto, Oswaldo desatou a discursar, na melhor pronúncia do
latim reconstruído que sua boca austro-brasileira conseguia reproduzir:

— Salve, Libone! Verba tibi dicere volumus! Ad nobis veni, O flatulissime!

Libão fitou-o com seu semblante severo, fétido e gasoso. Ele abriu a boca para
falar. Nada, no entanto, poderia preparar a equipe da editora e o grandioso latinista
para o que estava por vir:

— Que mané salve, o quê, malandro? Tá pensando que tá falando com quem?
Com o Júlio César? Tá de caô comigo, truta? Tu acha que eu vivi dois mil anos
penando de cu em cu pra continuar só falando latim? Tu me respeita, tá ligado? Aqui
o papo é reto e a situação tá dada.
— S... Sed.. Sed Libone... Quare… — Oswaldo tentou perguntar, em vão.

— Sed Libone quare loqui sic? Era isso que tu queria perguntar, malandro?
Quer saber porque eu tô falando assim? Já falei, ô caralho, tu é burro é? Bom, só podia
ser mesmo, fazendo a milésima edição daquela merda da poesia completa daquele
tapado.

— V... você está falando de Catulo? O grande poeta de Roma? — Perguntou


Otávio Ortolano, falando em português, mas ainda descrente do fato de que podia
conversar livremente na língua do Brasil com um flato fantasma verde, emergido do
furico de seu gerente editorial, fluente em um dialeto moderno que parecia ter vindo
das ruas do Rio ou da vielas de São Paulo.

— Grande poeta de Roma é o cu do teu gerente editorial, ô maluco. — Retorquiu


Libão, voando para perto de Otávio e envolvendo-o com sua cauda gasosa, como uma
sucuri esfumaçada. — O bagulho é o seguinte... — agora Libão se posicionava em
torno de Otávio e de Oswaldo, esticando seus braços por cima de seus ombros e
tamborilando os dedos sobre suas clavículas; o CEO e o vencedor do prêmio Jabuti
sentiam o cheiro dos dedos de puro enxofre do fantasma e viravam sua cabeça,
aterrorizados, na direção das mãos que os enleavam. — Robertinho, olha aqui, maluco!
Não fecha o olho não, seu comédia! — A voz de Libão carregava consigo o ribombo do
desatar de dez mil crises de constipação.

Roberto, desde que o fantasma emergira de seu oritimbó, mantivera seus olhos
mais fechados do que seu terceiro jamais conseguira. Ele acreditava que, se os
apertasse bem forte, aquele pesadelo acabaria num instante. As palavras do espectro
vociferante removeram o gerente editorial do estado de quase transe em que ele,
prostrado, com a face no chão e as nádegas empinadas, tentava se afundar como um
avestruz ameaçado.

Libão continuou: — Desde que você me invocou, aquele dia que tu veio com
aquele papo de “libertem os peidos de Libão”, e agora esse jabuti cuzão aqui me
libertou, eu tô cada vez mais perto de realizar meu sonho de dois mil anos... — Libão
soava inspirado ao abrir seu coração sulfuroso, olhando para cima enquanto pensava
em seu desejo mais profundo. — Ô professor — ele então desviou seu olhar para
Oswaldo, — tu vai fazer o que eu mandar agora, tá entendendo? — Os dedos
indicador e médio de Libão começaram a subir na direção das narinas de Oswaldo von
Ostrogoth, penetrando-as. Lágrimas escorriam dos olhos do filólogo catedrático, suas
bochechas adquiriam tonalidade cada vez mais arroxeada e pequenos vasinhos
começavam a pipocar por toda parte em torno de suas órbitas oculares enquanto
aquelas probóscidas sulfúricas, os apêndices do fantasma flatulento, iam cada vez
mais fundo. — Agora tu vai publicar essa tua tradução do Livro de Catulo SEM
AQUELE POEMA 54, tá me ouvindo, mané? Tu vai dizer que ele é um poema espúrio,
que não existe nenhuma prova de que Libão tenha realmente peidado sutil, leve, fino,
grosso, cheiroso, fedido ou qualquer que seja o caralho de peido que ele possa ter dado,
porque ele não deu nenhum, entendeu? Eu quero que tu faça uma turnê acadêmica
pelo mundo todo com dinheiro da FAPESP pra defender essa tua nova posição
filológica inédita epistemologicamente sólida e coerente! Tu tá entendendo a
dimensão da coisa, mermão?! — Oswaldo tentava assentir com a cabeça, mas os dedos
de Libão já tinham chegado quase em seu estômago, e o tradutor literário premiado
estava quase totalmente sufocado pelo flato cavernoso, sem conseguir mover a cabeça.
Ele tentou sinalizar para Libão que queria falar-lhe algo erguendo os dedos de sua
mão gorda e peluda, agora já tão arroxeada quanto as maçãs de seu rosto de leão-
marinho tropical. O fantasma, ao perceber o gesto de sua vítima, notou que passava
do ponto e retirou rapidamente os dedos de dentro do nariz de Oswaldo, passando a
segurá-lo pelo colarinho e batendo-o com força contra uma das paredes do saguão da
recepção. O acadêmico engoliu todo o ar que puderam seus pulmões ao ser libertado
da forca fecal daquele espírito obsessor, mas o empuxo foi tão súbito que se lhe
desatou uma tosse seca e ruidosa como a de uma professora de artes cênicas fumante
de sessenta e quatro anos.
— Quer falar alguma coisa, doutor? — Perguntou Libão — Espero que seja
“sim sim, meu magnânimo Libão, vou fazer tudo o que o senhor pediu!”, senão o pau
vai comer aqui. — O fantasma amassava o professor contra a parede.

— Cof.. Cof.. Libão... P.. por favor… deixe-me lhe fazer uma cof... sugestão.
Cooooof — Oswaldo tossia tanto que não conseguia completar seu raciocínio. — C..
co.. convenhamos, meu caro espectro: você sabe que é praticamente impossível
emplacar uma tese nova na academia tentando riscar o poema 54 de Catulo dos anais
da história da literatura. Ele é famoso demais... importante e memorável demais...
Mesmo que eu conseguisse propor essa leitura como perspectiva aceitável, o senhor
sabe que ela no máximo seria apenas isso: uma perspectiva aceitável dentre várias;
um educated guess, se é que me entende... To.. Todavia, se o senhor desejar me
emprestar seus vaporosos ouvidos por alguns segundos, eu acho que consigo lhe
propor uma solução deveras aceitável para expurgar-te desse eterno purgatório!

— Isso é papo reto ou tu tá de caô com a minha cara, Oswaldo? Vai, tu tem um
minuto pra explicar essa merda aí... — Os dedos de Libão se aproximavam novamente
das narinas de Oswaldo, ameaçando-o.

— Eu estudei profundamente a Magica Peditorrhagica, ó grande Libão.


Oswaldo argumentou, ganhando mais confiança a cada palavra dita. — Iniciei-me em
todos os mistérios dessa escola de magia, aprendi os mantras do Mandelão Original
direto dos manuscritos de Éliphas Lévy e dos cânticos de Blake. Eu percorri as cinco
capitais do Caminho Pentecostal e encontrei-me, ao término da jornada, com o rei
Letsie III — aquele que é sucessor e antecessor de si mesmo —, nos rincões mais
profundos das savanas do Lesotho. Ele me revelou o saber arcano, Libão, o segredo
da gnose, o conhecimento escondido na arca trancada pela Clavícula de Salomão: o
Sortilegium Transferentiae Corporum, o Feitiço de Transferência Corporal. Eu achei
que só precisaria usá-lo para garantir a minha imortalidade e continuar ganhando
prêmios Jabutis por todo o sempre, pulando para um novo corpo toda vez que o atual
ficasse obsoleto e não comportasse mais a minha alma douta e vasta, enfim tornando-
me o único membro realmente imortal da Academia Brasileira de Letras... mas
acredito que esta magia herética também possa ser útil para ajudar um espírito
intestino de dois mil e quinhentos anos a encontrar um novo corpo para chamar de
seu... e, com esse novo corpo, uma nova identidade...

O fantasma peidorrento não conseguiu segurar sua gargalhada: —


Hahahahah... Essa gramática tu não aprendeu na faculdade de Letras, né latinista?
Transferência de corpo? E pra que corpo tu sugere que eu me transfira? Pro teu?

— Por mais que seja uma honra, senhor Libão, eu jamais poderia ceder meu
invólucro para Vossa Flatulência. Como todos aqui sabem, eu sou catedrático da
Universidade, pesquisador, poeta e parecerista do CNPq; a literatura e a pesquisa
filológica no Brasil, com as quais celebrei inquebrável compromisso, só têm a perder
com a minha ausência. Peço-lhe perdão, mas não posso me sacrificar desse modo
quando são outros os deuses que me exigem como sacrifício. Mas não tema, senhor
Libão, com certeza aqui, entre estes exemplares espécimes da raça humana, tenho
certeza que encontrará o hospedeiro perfeito. — Ao dizer essas palavras, Oswaldo
olhava e apontava na direção de Rafael, Luana e Euclides, os pobres subordinados de
Roberto que, além de trabalharem no regime 7x0 moravam a cerca de três horas do
escritório da editora, a qual os forçava a trabalhar presencialmente, mesmo que seu
trabalho fosse criar notas de rodapé e catar vírgulas erradas em um documento
formato .docx que poderia ser igualmente aberto e editado em qualquer computador,
estivesse ele na sede da empresa ou em Ulanbataar, na Mongólia. — Olhe bem,
senhor Libão, completava Oswaldo. — Aquela moça ali parece estar completamente
desfalecida, ela nem vai dar conta da possessão. O senhor por acaso já pensou nas
vantagens que teria se tomasse um corpo feminino?

— Você tá louco, cara? — Rafael fitou Oswaldo com ódio profundo, sua mão
segurava com força o abridor de cartas, empunhando-o como uma faca. — Ninguém
vai encostar um dedo na Luana!
Oswaldo parecia ignorar os apelos de Rafael, pois não lhe dirigiu o olhar
quando passou a oferecer alma deste no lugar da de Luana: — Possua o corpo do
editor júnior aqui então, senhor Libão, esse até já sabe latim...

— Seu filho da p... — Rafael ergueu seu punhal improvisado e avançaria na


direção de Oswaldo com intuito assassino, não fosse impedido por um braço que se
interpôs entre os dois. E para a surpresa de todos, o braço em questão era o de
ninguém menos do que o do galante Roberto. Imbuído do mais ímpar espírito
guerreiro, Roberto parecia nunca ter antes sentido o medo e o desespero que minutos
antes o lançaram de bunda para o alto prostrado no chão da editora. O homem que se
via agora tomar a frente e as rédeas da situação, ainda que fedendo a sucessivos
peidos e com as roupas e os cabelos todos cobertos de gorfo ressequido, era a
corporificação da coragem e da virtude. Qualquer um que olhasse seus olhos agora
veria neles o fulgor da chama que aviva somente os mais resolutos e plenos dentre os
mortais.

— Rafael, pare. Deixa comigo, meu querido... Isso vai acabar agora. —
Robertinho olhou para ele com desconcertante doçura, deslizando a mão de seu peito
para seu ombro e apertando-o com firme gentileza. Rafael sentiu vergonha de ter
sugerido, há pouco menos de meia hora, sacrificar seu querido mentor: só aquele olhar
sincero já era suficiente para que qualquer um visse o tamanho de seu altruísmo. Os
anos de convivência com Roberto denunciavam o intuito do gerente editorial ao editor
júnior, que tentou, em vão, impedi-lo de dar sequência ao seu plano. — Não, Roberto!
Você não precisa fazer isso! Deve ter outro jeito! — Rafael dizia enquanto o desespero
crescia exponencialmente em seu coração. — Por favor cara, ninguém quer que você
se sacrifique por causa de um fantasma peidorreiro e de um escritor meia boca!

Quando Rafael terminou de proferir essas palavras, tornando patente a todos


ali qual era o plano real de Roberto, Euclides de súbito caiu no chão em posição fetal
e começou a chorar; Dona Dulce começou a se benzer freneticamente; Otávio Ortolano
engoliu em seco, pensando se iria recuperar o investimento feito até agora para
viabilizar o projeto editorial do Livro de Catulo; e Luana permanecia inerte no chão,
parecendo uma pintura pré-rafaelita de uma mulher anêmica com tuberculose.
Roberto, então, voltou seu olhar feroz para o espectro que seu fiofó emanava e
discursou com as seguintes palavras:

— Não é por causa de um fantasma ou de um escritor “meia-boca” que estou


me oferecendo como corpo para abrigar o espírito de Libão, Rafael. É pela equipe. É
pela editora... É pela Literatura Clássica. Eu sou o editor responsável pela obra. Eu
sou o gerente editorial. É meu dever garantir que o livro seja publicado dentro do
prazo, antes do recesso da gráfica, com a menor quantidade possível de erros de
digitação, para que esteja prontinho para a Feira do Livro da USP. Se para isso eu
preciso ceder meu corpo para um fantasma ressentido, então que seja. Essa edição
bilíngue com notas e paratexto do Livro de Catulo, traduzido em pantâmetros
jâmbicos brasileiros com tanto esmero pelo nosso querido professor Oswaldo, precisa
ver a luz do dia a qualquer custo. E eu estou disposto a pagá-lo. Vamos, Libão: in
manus tuas commendo spiritum meum. Professor Oswaldo, por favor, recite o
Sortilegium Transferentiae Corporum. Eu estou pronto. Saio desta vida sabendo que
mantive acesa a chama da poesia!

— Bravo! Bravo! — Oswaldo von Ostrogoth batia palmas aliviado ao ver o


gerente editorial tomar a frente como o cordeiro daquele ritual macabro. Otávio
Ortolano, por sua vez, rapidamente aceitou a situação e pôs-se a acompanhar
Oswaldo nos aplausos após fazer os cálculos em sua cabeça e chegar à conclusão de
que poderia contratar um novo gerente editorial mais novo e pela metade do salário
de Roberto quando este fosse possuído por Libão.

— Huh... vocês são muito comédia, tá ligado? — O fantasma de Libão ironizou


— Bom, pra mim tanto faz. Se o porpeta aqui consegue fazer essa mandinga aí e me
dar um corpo pra eu possuir, qualquer um tá valendo, só anda logo com essa merda
então porque eu quero colar numa resenha ainda hoje pra estrear a minha nova skin
de gerente editorial, hahahaha. — Libão gania de entusiasmo e não conseguia conter
seu deboche, por mais horripilante e perturbadora que a cena fosse para seus demais
espectadores.
Oswaldo von Ostrogoth, então, posicionou-se entre Libão e Roberto, ficando de
costas para o primeiro, fitando o segundo bem fundo nos olhos. Sem desviar seu olhar,
o catedrático comandou, com a voz esganiçada que só se esvai da garganta quando
esta almeja soar mais grave do que pode:

— Ajoelhe-se, Roberto. O ritual começa.

Imagine, agora, leitor, que um anjo descesse dos céus, em um pôr do sol
arroxeado em pleno bairro da Liberdade, perto de onde o rubro Torii coroa a Ponte da
Amizade, trazendo consigo um livro escrito diretamente pela mão de Deus em que
encerra uma tese cruel em suas páginas. Imagine que esse anjo acredita piamente
nesta tese cruel, até que ele encontra o espírito de um velho Samurai, que argumenta
com ele e lhe ensina o código de honra do Bushido. Tomado pela beleza poética da lei
nobre, este anjo arremessa sua tese cruel pela janela, e aceita o caminho do sacrifício
e da espada como seu novo horizonte moral. Nem a honra divina que habita o espírito
deste anjo convertido em guerreiro, ou o fogo em seu olhar de pura assertividade,
liderança e resignação, eram páreos da aura que Robertinho emanava ao obedecer às
palavras vis que o encaminhavam à própria morte. Com pose, brilho e coragem,
portanto, Roberto se pôs de joelhos e abriu seus braços, como se soubesse o próximo
passo do ritual. Oswaldo sorriu-lhe com dominância, como a quem fita um objeto
descartável pronto para o uso. Eis a tragédia do aristocrata tradutor: verter para sua
língua fantasmagorias de narrativas de mundos esquecidos, incapaz de reconhecer a
grandeza do nascimento de um novo mito, mesmo quando acontece diante de seus
olhos.

— Libão, preste atenção — comandava von Ostrogoth — quando eu começar a


recitar o canto sagrado não haverá mais volta. Haverá um momento crucial em que
você verá se abrir um portal para uma nova dimensão em meu chacra sacral. Nesta
hora eu terei me transformado no catalisador. Você deverá entrar, sem hesitar, por
este portal, de modo que emergirá de meu chacra laríngeo imbuído de pressão
espiritual suficiente para sobrepujar a alma de Roberto, invadir e tomar controle de
seu corpo. Minhas instruções foram claras, senhor Libão?
— Claríssimas, chefia... — disse Libão com ironia, deliciando-se com a pompa
e com a circunstância vazia daquele ato performático, pois sabia, antes de mesmo de
que Oswaldo começasse a explicá-lo, que iria subvertê-lo. O que o filólogo ignorou
durante tantos anos de pesquisa em Letras Clássicas, é que Libão não era um pobre
senador injustiçado por peidar a esmo seus flatos leves e sutis. O que Catulo fazia,
em seu poema 54, era uma denúncia silenciosa. Ele sabia que Libão era um membro
da secreta ordem da Magica Peditorrhagica, para não dizer seu fundador. O bruxo
teria tido êxito em sua conspiração contra o imperador Augusto – de tomar seu corpo
do mesmíssimo modo com o feitiço flatulento de transferência corporal – não fosse
posto às claras pelo verso do poeta.

O acadêmico herege, então, tomou lugar em seu púlpito imaginário, oficiando


sobre o corpo ajoelhado de Roberto como o presidente da pós-graduação em Estudos
Clássicos no ato de abertura do XV Simpósio de Filologia da Federação Internacional
de Estudos Tardios em Neo-Platonismo em Alexandria e Regiões Adjacentes (XV –
SFFIETNPARA), sediado na sala 113 do prédio provisório de Letras da FFLCH
(capacidade máxima: sete pessoas; presentes: quatro). Sua pronúncia do latim
reconstituído era invejável, mas sua voz rouca e sem brilho despiam os fonemas de
sua habitual autoridade...

Audite nunc, nebulosae intestinales:


aperiatur porta inter rectum et mundum,
et veniat corporum transitus
quantum satis est ad curriculum lattes implendum.

Ao soar das últimas sílabas do feitiço, o chacra sacral de Oswaldo, o catalisador,


piscou, e numa fração de segundo Libão agiu, adentrando-o com força tremenda,
condensando toda sua matéria sulforosa em um único ponto focal, ponto este invisível
aos olhos humanos como a singularidade de um buraco negro. Todos na sala ouviram
o ruído ensurdecedor, seco e metálico que aquele demônio emitia enquanto era sugado
pelo chacra do filólogo. Roberto apertou os olhos o mais forte que conseguia. O mundo
todo ao seu redor entrou em suspensão... De repente: o nada. De repente...

...Roberto se percebeu transportado para uma viela de pedra em uma cidade


europeia indefinida. “Não, não...” Roberto esfregava os olhos, não era qualquer cidade,
“É Paris”. Era uma tarde enevoada, e quase não se podia ver dois palmos diante do
nariz, mas um lampião que bruxuleava à distância convidava Roberto a distinguir as
formas de um elegante bistrô. Ao aproximar-se de lá, hipnoticamente atraído pela luz,
Roberto viu uma figura feminina esguia e de baixa estatura, sentada à uma das mesas
do lado de fora, trajando um vestido aristocrático negro e azul marinho, repleto de
rendas, laços e fitas, segurando uma pequena sombrinha também rendada e nas
mesmas cores de sua indumentária. Em sua cabeça, um pequeno chapéu de feltro
igualmente azul-marinho coroava uma multitude de cachos negros que contrastavam
com sua tez alvíssima. Ela não precisou dizer sequer uma palavra, pois um singelo
aceno com seus grandes olhos prateados já foi suficiente para fazer com que Roberto
se sentasse diante dela. O gerente editorial podia jurar que ela não era humana, e
que era feita da mesma louça que as xícaras que repousavam sobre a mesa.

— Gostaria de uma xícara de chá, senhor Roberto? — A menina perguntou


com leveza, enquanto lhe oferecia um pequeno bule em cujo fundo decantava uma
infusão de matchá com leite.

— O... onde eu estou? Qu... quem é você? — Roberto perguntou, tomado pelo
absurdo daquela situação.

— O senhor está aqui comigo, tomando chá... — A menina voltou a sugerir com
o bule que Roberto se servisse.

— Uhh... esse chá, tem lactose? É que eu não posso com lac... —
— Que bela tarde em Paris, senhor Roberto! — A menina o interrompeu de
modo brando, não deixando que ele arruinasse aquele momento. — Vamos, tome seu
chá, ele vai esfriar... — Ela agora enchia a xícara de Roberto com aquele líquido
quente, cheiroso e aconchegante. Em circunstâncias normais, o gerente editorial
tomaria o chá com uma pulga atrás da orelha, com medo do estrago que aquela lactose
surtiria na noite vindoura, mas naquela hora, liberto de todas as mágoas e pleno de
todo o coração, Roberto primeiro saboreou com o olfato o nostálgico aroma da infusão,
depois pôs se a sorver aquele matchá-latte como se fosse o último da terra – pois era!
– O primeiro gole veio cheio, e o delicioso chá escorreu pela sua garganta, mas a vinda
do segundo gole foi interrompida pela voz grácil da menina de porcelana:

Abra seus olhos, Robertinho.

Mas Roberto não os abriu. Seu espírito o ensinara, naquele dia, a primeiro
cheirar o ambiente antes de vislumbrá-lo. E o cheiro que sentia era o familiar olor de
mofo de editora, borrifado pela verbena do difusor da Shopee; os vestígios do
apocalipse peidorrágico que se sucedera naquele recinto se manifestava apenas como
um retrogosto acre no fundo da garganta.

Roberto então abriu os olhos. Ele estava vivo. Nada acontecera com ele. Medo
se apossou imediatamente do gerente editorial: será que o feitiço não tinha dado certo?
O que seria da editora, da equipe, da Literatura Clássica? Sua boca teria feito todas
essas perguntas, não tivessem seus olhos visto a nova expressão que se moldava no
rosto do professor Oswaldo von Ostrogoth. O ar bonachão afetado com que ele
envernizava sua arrogância agora dava lugar ao miasma demoníaco de um hedonista
sociopata. O tom verde oliva que se espargia por suas pupilas, expulsando seu antigo
matiz azulado, denunciava que a alma que animava aquele corpo não era mais a do
vencedor do prêmio Jabuti na categoria de melhor tradução, mas o de Libão.
— Libão! — Roberto gritou. — Esse não era nosso combinado! Você iria tomar
meu corpo e deixar todos em paz!

— E tu acha que eu ia ter coragem de fuder contigo assim depois desse teu
lance todo de sacrifício e o caralho? Cê loko, tio, o bagulho arrepiou. — O gesto que
Libão fez para indicar que os pelos de seu braço estavam eriçados não cabia naquela
skin de aristocrata escolástico petulante. — Olha, eu posso ser escroto mas eu não
dou esses migué não... Aqui é certo pelo certo.

— Bom... tudo bem, então... — Roberto tentava calcular com sua cabeça os
próximos passos. — Já que eu estou vivo, eu não tenho tempo a perder. O recesso da
gráfica começa na segunda e eu preciso aprovar logo os arquivos do Livro de Catulo...
Rafael, você mandou os emails de liberação? Otávio, desculpas mas só vou conseguir
entregar o arquivo final de madrugada... vou ter que dar um jeito, mas vou conseguir,
não se preocupe! — Roberto se pôs a andar de um lado para o outro aparentemente
sem perceber que a recepção da editora estava em escombros. O dry-wall da parede
de seu escritório tinha buracos de onde se podia olhar para dentro do marco zero do
peidocalipse, e o próprio prédio da editora já não tinha mais teto, que fora
completamente arrancado pelo turbilhão, mas nada podia impedir o gerente editorial
de cumprir seus prazos finais. Nada, a não ser a risada demente do fantasma recém-
empossado.

— Maluco, você não tá entendendo... hahahaha.... — Libão não conseguia


conter sua excitação — não vai mais ter Livro de Catulo, meu parceiro. Acabou. Você
está livre, seu comédia. Vida que segue, tá ligado?

— M.. mas.. co.. como assim? O Livro de Catulo... Nós ainda vamos publicar a
tradução do professor Oswaldo... O que isso tem a ver com o quê??? — Roberto
indagava confuso.

Libão deixou o gerente concluir os últimos balbucios de seu errático


questionário e dirigiu-se até ele, colocando seu braço por sobre seus ombros, como se
fosse seu amigo de longa data, e falando bem baixinho em seu ouvido. Roberto
conseguia sentir o odor dos flatos fantasmagóricos temperando o horror das palavras
que ele enfim ouvia:

— Não vai ter porra nenhuma de Livro de Catulo, Jabuti ou Bienal, meu bom,
por que o que vai ter pra hoje é o professor Oswaldinho manchete do Jornal Nacional...

Cinco anos se passaram desde o dia que os sobreviventes vieram a chamar de


Peidocalipse. Cinco anos desde o dia em que Libão saíra da editora, após tomar o corpo
de Oswaldo von Ostrogoth, gargalhando na direção do carro de Roberto... Cinco anos.
Para Roberto, no entanto, parecia que mais de duas décadas haviam se passado.
“Docente da USP ganhador do Prêmio Jabuti é preso após tensão com policiais na
Rodovia Imigrantes”, aquela manchete nunca mais sairia de sua cabeça... A ordem
exata dos eventos é caótica e confusa, mas, ao que tudo indica, “O” Oswaldo von
Ostrogoth, renomado escritor e tradutor, foi visto em um Renault Kwid estacionando
em um local de procedência duvidosa na rua Peixoto Gomide, onde testemunhas
relatam ter o professor participado de um dito “pancadão” e ter “rebolado até o chão
bem lentinho para os crias”. De lá, aparentemente o filólogo teria se associado a
delinquentes e assaltado uma farmácia na Frei Caneca, de onde roubou quarenta e
dois frascos de Vyvanse e setenta e três cartelas de Tadalafila. O acadêmico, de posse
deste arsenal psicotrópico, deslocou-se até a Avenida Rebouças e, com a ajuda de seus
comparsas, rendeu um caminhão que passava e dirigiu até um posto de gasolina na
Rodovia Imigrantes, invadindo com ele a pobre filial da Oxxo que fazia as vezes de
loja de conveniência, estraçalhando suas paredes com a força descomunal do veículo
de doze eixos. Os vândalos, chefiados por von Ostrogoth, começaram então a saquear
o que sobrara da lojinha (sobretudo garrafas de rum Montilla e Skol Beats Senses), e
provavelmente teriam sucesso em sua empreitada não fosse a chegada da polícia.
Após o terrível tiroteio que se sucedeu, dois policiais morreram de um lado, quatro
bandidos do outro, e o doutor Oswaldo enfim rendeu-se, às gargalhadas, aos oficiais
sobreviventes. A imagem do professor algemado, ao lado do caminhão tombado e do
posto de gasolina em chamas, cercado por seringas usadas, frascos vazios, garrafas
quebradas e cartelas amassadas de comprimidos para disfunção erétil, estampou
todos os jornais não apenas do Brasil, mas do mundo inteiro. A editora em que Roberto
trabalhou por tantos anos não pode se sustentar depois de tamanho escândalo, e
Otávio Ortolano, seu CEO, vendeu as operações para uma gráfica que imprimia
Bobbie Goods e livros de autoajuda autopublicados. Além do gerente, todos perderam
seus empregos no mundo editorial, Luana, Euclides e Rafael, com exceção de Dona
Dulce, que pouco tempo depois escreveu um Dark Romance chamado A Recepcionista
e o Editor, best-seller absoluto da literatura erótica 65+ no ambiente de trabalho.

Roberto perdera tudo, mas não podia negar: o fantasma peidorreiro que roubou
seu Kwid e sua carreira naquele dia estava certo. Roberto estava finalmente livre. A
Literatura Clássica não era mais sua cela, e o mundo era sua ostra. Pela primeira vez
em tanto tempo, Roberto sentiu-se dono do seu destino. Não havia mais prazos
editoriais, não havia mais recesso da gráfica, não havia mais Feira do Livro da USP.
Havia apenas Roberto. Havia apenas a alegria de estar vivo.

Com o dinheiro da compensação que recebera após seu desligamento da editora


e da venda de seu antigo apartamento, Roberto comprou um motor home e se pôs a
desbravar a América Latina. Roberto cruzou o continente todo de norte a sul, dia após
dia, sem nunca mais voltar para São Paulo... Os anos se passavam. Cinco anos desde
aquele dia... mas a sensação que ficava em seu peito era ora de que se passaram duas
décadas, ora uma semana, ora três milênios, ora três minutos... Cinco anos desde
aquele dia... O que definia a distância ou a proximidade da lembrança daqueles
eventos eram somente os efêmeros gatilhos de sua memória olfativa, ainda aguçada
pela dor do trauma, toda vez que o consumo acidental de lactose fizesse o mais sutil
e leve flato perturbar a santidade de suas narinas, estivesse ele em um bar em
Caracas, em um restaurante em Santiago ou em uma casa de chá em Buenos Aires...

Abra seus olhos, Robertinho!

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