Peditum Libonis
Peditum Libonis
Rodrigo Bravo
Roberto era um homem sério, erudito e ocupado. Todos os dias acordava cedo
para pegar no batente. Ele tinha um bacharelado e mestrado em filologia e trabalhava
como gerente editorial em uma editora de literatura clássica. Roberto gozava de muito
prestígio entre seus colegas. Todos aguardavam avidamente ouvir os insights que ele
trazia nas reuniões semanais do editorial. Para citar um exemplo, a editora em que
Roberto trabalhava estava produzindo uma reedição do célebre Livro de Catulo, e
Euclides, um dos revisores de sua equipe, sugeriu que se censurassem os poemas mais
espinhosos do grande autor Romano. “Nossa base de leitores vai se incomodar”,
sugeriu o revisor, “fora que a maioria destas besteiras que ele fala em seus poemas
são puro filler e podem ser suprimidas”.
— Ah, meu caro, é aqui que você se equivoca. Esse poema todo é uma profunda
crítica social. Todas as pessoas aqui citadas são parentes de ou relacionadas a Júlio
César, pessoa por quem Catulo nutria grande desafeto. Oto, Libão, Ério, Fufício...
estas pessoas não estão sendo invectivadas gratuitamente. O Libão aqui citado era
um político corrupto... Fufício era um senador pior que os de Brasília. Acredito ser
mais prudente, tanto neste quanto em outros casos similares, conservar a
integralidade do poema e colocar uma nota explicativa, dando, assim, a oportunidade
do nosso leitor aprender um pouco da história de Roma enquanto se deleita com a
verve Catuliana.
Até aquele fatídico dia, quando um sopro vil se lufou na vida do pobre
Robertinho.
A primeira vez que aquilo aconteceu, Roberto não se deu conta da correlação
entre causas e efeitos. Como todo homem que mora sozinho e vive para o trabalho, a
palavra que inaugura o dia quase sempre é proferida horas depois do café da manhã
discreto e do trânsito em silêncio para o escritório. “Bom dia, minha querida!...”
Roberto irrompeu vivaz, como de costume, no tom ensaiado que usava para dirigir-se
à Dona Dulce, a velha recepcionista da editora. Ele, todavia, não conseguiu concluir
seu cumprimento, pois, ao cruzar o pórtico e mover seus lábios, articulando a palavra
“Bom”, sua boca inferior resolveu falar mais alto, traindo a arte da Retórica: um peido
mais sonoro do que o apito de um transatlântico, com o fedor de um pote de feijão
esquecido no fundo de uma geladeira desativada por um verão inteiro sob o calor
escorchante de São Luís do Maranhão, empesteou a recepção da sede da editora em
questão de milissegundos. O horror tomou conta do coração de Roberto enquanto o
flato penetrava-lhe as narinas, pois ele sabia que ele não tardaria em invadir as de
Dona Dulce com igual amargor e morbidade.
“Meu deus, dá até pra sentir o gosto...” Roberto pensava, aflito, tentando
disfarçar sem sucesso a autoria daquele crime de guerra e segurando seu ventre
contraído da dor colical. Mas os olhos de Dona Dulce enchiam-se de lágrimas e
julgamento, e ela tentava conter o reflexo da ânsia enquanto o fitava, incrédula. Só
havia os dois naquela sala; e ambos sabiam que o intestino que havia fermentado
aquela pérfida neblina não era o da pobre recepcionista.
— Leite de aveia, chia, keffir... cadê... hmmm... aqui, aqui! Achei...” — Roberto,
absorto em sua tarefa, deixava-se ler a lista de compras em voz alta. — Será que
erraram? O cottage era sem lactose...
Mas flores e enxofre, como bem pode supor o leitor atento, não são aromas que
celebram propício casamento.
Desta vez, nem mesmo Roberto conseguiu aguentar o peso de sua própria obra,
em que acaso e planejamento entreteciam uma trama tão bela quanto nojenta.
Tomado mais uma vez pela força do pequeno Shinji que pilotava aquele Evangelion
de carne e gás, seu fiel cérebro reptiliano, Roberto apanhou a lixeira que ficava sob
sua escrivaninha – antes exclusiva para resíduos recicláveis – e emitiu um grunhido
em mi bemol mais grave do que qualquer vocalista de Black Metal poderia sonhar em
alcançar com suas pífias pregas vocais. “Crêmdeuspai”, Dona Dulce deixou escapar
baixinho, do outro lado, tomando o telefone de reflexo e digitando o 1 e depois o 9. O
silêncio sepulcral que se seguiu do escritório, porém, fez a senhora se deter antes de
completar a ligação. Uma sopa de retalhos de papel boiando em suco gástrico, junto a
pedaços de avocado toast com cottage e tomates cereja semidigeridos, preenchia agora
praticamente todo o cesto de lixo. Roberto tentou com sucesso recuperar o equilíbrio
e erguer-se do chão, e correu em seguida para abrir as janelas.
Mas quem disse que o escritório de Roberto tinha janelas? Ah, caro leitor...
Roberto havia se esquecido, no furor do miasma intestino, que era nada além de um
raso gerente em uma empresa de médio porte, preso em uma cela de pó, mofo, metano
e móveis de MDF: seu pequeno escritório, concedido somente após reiterados e
calorosos pedidos ao dono da editora, era um antigo armário de vassouras redesignado;
quantas mágoas da vida de pequeno-burguês escolarizado Roberto não afogou
naquela apertada salinha, tal como agora se afogava no arrependimento de ter
enterrado a si mesmo naquele túmulo sulfúrico...
O gerente editorial levou uma mão sobre a testa e outra sobre a boca e o nariz,
encostando-se em sua estante de livros e permitindo aos poucos que os dedos se
entreabrissem, a fim de acostumar-se com a nova atmosfera fecal daquela câmara
escura. Mas ele não teve muito tempo para fazê-lo: sua repulsa foi subitamente
reprimida pelo som de uma notificação do Slack – aplicativo de chat que os
funcionários da empresa usavam para se comunicar – em que se lia “1 mensagem não
lida de Otávio Ortolano”. Ninguém menos que o autointitulado CEO e sócio
controlador da editora, chefe direto de Roberto, o Faraó que lhe concedera seu
sarcófago de flatos. Vassalo do mês, Roberto esqueceu que se peidara nos últimos
cinco minutos mais do que em toda sua curta vida de trinta e sete anos, e correu até
o laptop para responder seu suserano. Seu coração gelou após ler as seguintes
mensagens:
09:00: Oi Roberto! Bom dia! Onde você está? O Oswaldo chegou mais cedo,
podemos começar já nossa reunião?
09:05: Roberto? Está tudo bem com você? Estou vendo seu Kwid no
estacionamento daqui do escritório. Estou indo pra sua sala...
“Não! A reunião das nove!” Roberto pensou, em pânico, olhando seu aspecto na
câmera do celular e evitando fitar a lixeira cheia de vômito a vinte centímetros de
seus pés. Ele tentava pentear seus cabelos desgrenhados com a pequena escova de
casco de tartaruga que levava em sua mala, presente de um amigo quando voltou de
uma viagem à Tailândia. No afobamento, entretanto, sua mão trêmula a deixou cair
na lixeira vomitada. O verde esmeralda do casco do finado quelônio eivou-se do ocre
amarelado daquele xarope de bile e queijo cottage que decantava no fundo daquele
cesto de vilezas. Roberto teria chorado naquele momento, não tivesse ouvido a
conversa que se passava do outro lado, entre Otávio e Dona Dulce:
— Como assim, Dulce... Meu Deus, o que é isso? — Otávio só agora farejava o
ambiente — Morreu um urubu aqui dentro? Eu tô com o escritor lá em cima, Dulce!
Abre essa janela!
— Dr. Otávio, a culpa não é minha, por Jesus! Eu abri todas as janelas já, mas
não há vento que vença. É o seu Roberto, ele...
— Dulce, eu não tenho tempo disso, com licença, dá um jeito nesse cheiro, por
favor. — Ele se virou então, para o escritório no armário de vassouras, deixando-a
balbuciar sozinha, dando passos fortes com a intenção de invadi-lo. — Roberto, você
tá aí? O Oswaldo tá esperando a gente lá em cima...
Ao escutar o som das derradeiras palavras, Roberto reuniu suas últimas forças,
saltou de dentro do escritório e, pela segunda vez naquele dia, fechou a porta atrás de
si, dessa vez ficando do lado de fora. Ele emudeceu, buscando em sua cabeça quais
seriam as palavras perfeitas para tecer a melhor desculpa para sua condição atual.
Sua aparência cadavérica, todavia, entregava que ele era o verdadeiro esqueleto
escondido naquele armário. Otávio, surpreso com a visão sórdida, perguntou em tom
que misturava repulsa com piedade:
— Roberto, tá tudo bem com você? O que você tá fazendo aí nesse escritório?
Você esqueceu a nossa reunião? Que cheiro é esse, homem?
— Roberto, meu Deus, volta pra casa agora. O que foi que você comeu? Uma
hiena em decomposição? Como você me vem pra empresa num dia desse? Você devia
ter ficado em casa!
Era infalível: o final da frase enunciada por Roberto era pontuado por mais
quatro estalos. Prrt, Prrt, Prrt, Prrt. Otávio não conseguia segurar a expressão de
nojo e indignação. Estes três eram como agulhas gasosas de lancinante picância;
Roberto podia jurar que uma delas havia entrado por uma de suas orelhas. O festim
de peidos só foi interrompido porque uma figura pomposa, gorda e bem-vestida
emergiu das escadas que levavam ao segundo andar da editora, onde se situava sua
sala de reuniões:
A porta da sala dos fundos se abriu de supetão. Dela, emergiram duas figuras
estarrecidas: Euclides, o revisor, e Rafael, um editor, subordinados de Roberto. O
primeiro parecia ter vomitado mais do que o gerente peidorreiro, e era carregado pelo
segundo, cuja camisa se enrolava em torno de seu nariz, como ele fosse um beduíno
de torso desnudo. Este recém-empossado Lisan Al-Gaib do escritório tomou a palavra,
ajeitando Euclides sobre seu ombro:
— Roberto, Otávio... o Euclides... por favor.. alguém nos ajude... Ele está bem,
mas a Luana... a Luana precisa de cuidados médicos urgentes. O que aconteceu?
Explodiu o cano do esgoto?
— Deus, parece que agora ele parou finalmente... — disse Oswaldo von
Ostrogoth... eu acho que posso voltar outra hora... Com licença, senhores.
— Não, doutor Oswaldo, fique, por favor! — Gritou Roberto. Mas cinco peidos
novamente irromperam de seu trato digestivo. Euclides, num surto de adrenalina,
acordou do desmaio no soar da terceira trombeta e correu para dentro do escritório de
Roberto. Ao entrar, não olhou seus arredores e acabou tropeçando na lixeira cheia de
vômito, esparramando-o e caindo sobre a poça azeda. Rafael tirou as calças e as
enrolou em torno da sua cabeça agora, ficando apenas de cueca e sapatos sociais;
praticamente não conseguia ver mais nada no âmago daquela espessa névoa
esverdeada. Ele puxou um abridor de cartas e o empunhou, como se fosse uma adaga,
e gritou para Otávio:
— Rafael, para! Vocês estão loucos? Ninguém aqui vai sacrificar o Roberto.
Você quer jogar sua vida fora? E outra, é do Roberto que estamos falando, nosso
Robertinho! Ele é um membro valiosíssimo da nossa equipe e o funcionário do mês na
editora pelo nonagésimo mês consecutivo. Nós temos que ajudá-lo. Talvez eu tenha
entendido o que aconteceu.. Tenho uma hipótese, mas precisamos testá-la antes...
— Mas chefe, eu preciso saber... — Dessa vez foi um peido apenas. Otávio
estalou os dedos bem no momento exato, parecia que o CEO sabia que Roberto
peidaria exatamente naquele instante.
— Roberto, Roberto! Escuta, homem. Pelo amor de Deus. Nós vamos fazer um
experimento, Roberto, ok? Não diga nada e acena com a cabeça, ok? Vamos fazer esse
experimento agora?
Roberto balançou a cabeça surpreso e confuso. Ele abriu a boca para falar.
— Roberto, cala a boca! Olha cara, eu te adoro, mas só cala a boca por um
segundo e me escuta, por favor! — Roberto acenou positivamente com a cabeça. —
Vamos lá, fala agora pra mim, por favor, o nome completo do editor que trabalha na
sua equipe.
O gerente editorial pareceu não ter entendido muito bem o pedido. Sua cabeça
pendia para o lado, buscando uma explicação para aquilo.
— Isso! Isso! Certo! — Otávio não escondia sua alegria, mas ninguém conseguia
entender o motivo dela. Roberto ia tentar perguntar-lhe o que ocorrera, mas foi
interrompido. — Não Roberto, é sério, agora é um momento crítico. — Ele agora
sinalizava para que Rafael colocasse turbantes antiturbulência em Euclides e em
Oswaldo von Ostrogoth. — Roberto, qual é o meu nome completo?
— Façam ele parar!!! Nós vamos morrer. Nós vamos todos morrer, caralho!!!
Rafael tomou a palavra. — Primeiro de tudo, cala a sua boca, Roberto! Se você
abrir a boca de novo eu te sacrifico.
Roberto apenas voltou seus olhos para o chão e chorou. A dor que lancinava
seu coração era forte demais para que ele pudesse aguentar. Ele tinha treinado Rafael
na profissão, que havia sido seu revisor mais fiel quando Roberto era um mero editor
júnior. Ouvir aquelas palavras da boca de Rafael traziam a maior das tormentas ao
coração de Roberto. E o gerente editorial teria se entregado ao pior dos destinos, não
fosse a intervenção de Oswaldo von Ostrogoth naquele dia.
— Por favor, por favor, não se sacrifiquem enquanto eu estiver aqui nesse
maldito escritório. Eu não quero ser cúmplice de nenhum homicídio... — Oswaldo
tossiu, ajustando o turbante antiturbulência que Euclides fizera de seu paletó de
tweed, mas a tempestade que aquele beduíno evitava não era de areia: era de metano.
— Otávio, muito perspicaz a sua observação... — disse, dirigindo-se para o dono da
editora — e eu sei o porquê disso estar acontecendo.
— Mas o que você fez de errado? É isso que você queria perguntar, Roberto? —
Oswaldo completou a frase do pobre gerente editorial. — Pois bem, meu caro, o senhor
não fez nada de errado. O senhor foi amaldiçoado por um espírito vil que, milênios
após sua morte, ainda assola pobres editores que querem fazer nada mais do que sua
missão na terra: disseminar a cultura e manter viva a chama dos Clássicos. Assim
como tantos outros editores ao longo da história, você é mais uma vítima da crueldade
mesquinha de ninguém menos que o próprio Libão, o peidorreiro invectivado por
Catulo em seu poema 54.
Roberto correu para a mesa da recepção e pegou papel e caneta. Já que não
podia falar, esse homem dos livros iria escrever. “Eu faço qualquer coisa para resolver
esse problema, doutor Oswaldo. Por favor, me ajude!” rabiscou o gerente às pressas,
entregando a mensagem ao eminente latinista. Oswaldo, então, apenas olhou para
Roberto e segurou suas mãos, assegurando-lhe, somente com seu olhar, que tudo
daria certo.
(...)
Conforme Oswaldo von Ostrogoth repetia o latinório, parecia que toda a sala
começava a girar. Não eram, no entanto, as paredes que giravam, mas a névoa úmida
dos peidos de Roberto que perfaziam um tornado. A congregação de vapores revolvia
na direção de um único vetor, a mesma cave de onde emergiram: o fiofó do gerente
editorial. A bruma era tão espessa que se podia vislumbrar, ao modo das grandes
tempestades, até mesmo pequenos relâmpagos fulminando aqui e ali. Todo o gás, por
fim, concentrou-se na figura fantasmagórica de um homem de feições mediterrâneas,
nariz aquilino, levemente calvo e de face enrugada, trajando a saudosa toga senatorial
dos tempos de Nero, Sêneca e Cícero. Verde como se espera dos peidos mais
cartunescos, com o cenho mais franzido do que o mais chato dos franceses ao topar
com um estrangeiro perdido na saída da estação Trocadéro, o fantasma de Libão
parecia ignorar o fato de que não possuía pés, pois sua cauda fantasmagórica era como
o apêndice de um gênio, cujo ponto de emissão, todavia, não era o bico de uma
lâmpada mágica, mas o butico de Roberto. Com os braços cruzados, o senador romano
pairava acima de todos com seu olhar de reprovação. Ninguém conseguia dizer nada
diante da figura nefasta que se manifestara.
Até que, com a voz imbuída de dever e pronto para desfazer a tensão que havia
se instalado naquele recinto, Oswaldo desatou a discursar, na melhor pronúncia do
latim reconstruído que sua boca austro-brasileira conseguia reproduzir:
Libão fitou-o com seu semblante severo, fétido e gasoso. Ele abriu a boca para
falar. Nada, no entanto, poderia preparar a equipe da editora e o grandioso latinista
para o que estava por vir:
— Que mané salve, o quê, malandro? Tá pensando que tá falando com quem?
Com o Júlio César? Tá de caô comigo, truta? Tu acha que eu vivi dois mil anos
penando de cu em cu pra continuar só falando latim? Tu me respeita, tá ligado? Aqui
o papo é reto e a situação tá dada.
— S... Sed.. Sed Libone... Quare… — Oswaldo tentou perguntar, em vão.
— Sed Libone quare loqui sic? Era isso que tu queria perguntar, malandro?
Quer saber porque eu tô falando assim? Já falei, ô caralho, tu é burro é? Bom, só podia
ser mesmo, fazendo a milésima edição daquela merda da poesia completa daquele
tapado.
Roberto, desde que o fantasma emergira de seu oritimbó, mantivera seus olhos
mais fechados do que seu terceiro jamais conseguira. Ele acreditava que, se os
apertasse bem forte, aquele pesadelo acabaria num instante. As palavras do espectro
vociferante removeram o gerente editorial do estado de quase transe em que ele,
prostrado, com a face no chão e as nádegas empinadas, tentava se afundar como um
avestruz ameaçado.
Libão continuou: — Desde que você me invocou, aquele dia que tu veio com
aquele papo de “libertem os peidos de Libão”, e agora esse jabuti cuzão aqui me
libertou, eu tô cada vez mais perto de realizar meu sonho de dois mil anos... — Libão
soava inspirado ao abrir seu coração sulfuroso, olhando para cima enquanto pensava
em seu desejo mais profundo. — Ô professor — ele então desviou seu olhar para
Oswaldo, — tu vai fazer o que eu mandar agora, tá entendendo? — Os dedos
indicador e médio de Libão começaram a subir na direção das narinas de Oswaldo von
Ostrogoth, penetrando-as. Lágrimas escorriam dos olhos do filólogo catedrático, suas
bochechas adquiriam tonalidade cada vez mais arroxeada e pequenos vasinhos
começavam a pipocar por toda parte em torno de suas órbitas oculares enquanto
aquelas probóscidas sulfúricas, os apêndices do fantasma flatulento, iam cada vez
mais fundo. — Agora tu vai publicar essa tua tradução do Livro de Catulo SEM
AQUELE POEMA 54, tá me ouvindo, mané? Tu vai dizer que ele é um poema espúrio,
que não existe nenhuma prova de que Libão tenha realmente peidado sutil, leve, fino,
grosso, cheiroso, fedido ou qualquer que seja o caralho de peido que ele possa ter dado,
porque ele não deu nenhum, entendeu? Eu quero que tu faça uma turnê acadêmica
pelo mundo todo com dinheiro da FAPESP pra defender essa tua nova posição
filológica inédita epistemologicamente sólida e coerente! Tu tá entendendo a
dimensão da coisa, mermão?! — Oswaldo tentava assentir com a cabeça, mas os dedos
de Libão já tinham chegado quase em seu estômago, e o tradutor literário premiado
estava quase totalmente sufocado pelo flato cavernoso, sem conseguir mover a cabeça.
Ele tentou sinalizar para Libão que queria falar-lhe algo erguendo os dedos de sua
mão gorda e peluda, agora já tão arroxeada quanto as maçãs de seu rosto de leão-
marinho tropical. O fantasma, ao perceber o gesto de sua vítima, notou que passava
do ponto e retirou rapidamente os dedos de dentro do nariz de Oswaldo, passando a
segurá-lo pelo colarinho e batendo-o com força contra uma das paredes do saguão da
recepção. O acadêmico engoliu todo o ar que puderam seus pulmões ao ser libertado
da forca fecal daquele espírito obsessor, mas o empuxo foi tão súbito que se lhe
desatou uma tosse seca e ruidosa como a de uma professora de artes cênicas fumante
de sessenta e quatro anos.
— Quer falar alguma coisa, doutor? — Perguntou Libão — Espero que seja
“sim sim, meu magnânimo Libão, vou fazer tudo o que o senhor pediu!”, senão o pau
vai comer aqui. — O fantasma amassava o professor contra a parede.
— Cof.. Cof.. Libão... P.. por favor… deixe-me lhe fazer uma cof... sugestão.
Cooooof — Oswaldo tossia tanto que não conseguia completar seu raciocínio. — C..
co.. convenhamos, meu caro espectro: você sabe que é praticamente impossível
emplacar uma tese nova na academia tentando riscar o poema 54 de Catulo dos anais
da história da literatura. Ele é famoso demais... importante e memorável demais...
Mesmo que eu conseguisse propor essa leitura como perspectiva aceitável, o senhor
sabe que ela no máximo seria apenas isso: uma perspectiva aceitável dentre várias;
um educated guess, se é que me entende... To.. Todavia, se o senhor desejar me
emprestar seus vaporosos ouvidos por alguns segundos, eu acho que consigo lhe
propor uma solução deveras aceitável para expurgar-te desse eterno purgatório!
— Isso é papo reto ou tu tá de caô com a minha cara, Oswaldo? Vai, tu tem um
minuto pra explicar essa merda aí... — Os dedos de Libão se aproximavam novamente
das narinas de Oswaldo, ameaçando-o.
— Por mais que seja uma honra, senhor Libão, eu jamais poderia ceder meu
invólucro para Vossa Flatulência. Como todos aqui sabem, eu sou catedrático da
Universidade, pesquisador, poeta e parecerista do CNPq; a literatura e a pesquisa
filológica no Brasil, com as quais celebrei inquebrável compromisso, só têm a perder
com a minha ausência. Peço-lhe perdão, mas não posso me sacrificar desse modo
quando são outros os deuses que me exigem como sacrifício. Mas não tema, senhor
Libão, com certeza aqui, entre estes exemplares espécimes da raça humana, tenho
certeza que encontrará o hospedeiro perfeito. — Ao dizer essas palavras, Oswaldo
olhava e apontava na direção de Rafael, Luana e Euclides, os pobres subordinados de
Roberto que, além de trabalharem no regime 7x0 moravam a cerca de três horas do
escritório da editora, a qual os forçava a trabalhar presencialmente, mesmo que seu
trabalho fosse criar notas de rodapé e catar vírgulas erradas em um documento
formato .docx que poderia ser igualmente aberto e editado em qualquer computador,
estivesse ele na sede da empresa ou em Ulanbataar, na Mongólia. — Olhe bem,
senhor Libão, completava Oswaldo. — Aquela moça ali parece estar completamente
desfalecida, ela nem vai dar conta da possessão. O senhor por acaso já pensou nas
vantagens que teria se tomasse um corpo feminino?
— Você tá louco, cara? — Rafael fitou Oswaldo com ódio profundo, sua mão
segurava com força o abridor de cartas, empunhando-o como uma faca. — Ninguém
vai encostar um dedo na Luana!
Oswaldo parecia ignorar os apelos de Rafael, pois não lhe dirigiu o olhar
quando passou a oferecer alma deste no lugar da de Luana: — Possua o corpo do
editor júnior aqui então, senhor Libão, esse até já sabe latim...
— Rafael, pare. Deixa comigo, meu querido... Isso vai acabar agora. —
Robertinho olhou para ele com desconcertante doçura, deslizando a mão de seu peito
para seu ombro e apertando-o com firme gentileza. Rafael sentiu vergonha de ter
sugerido, há pouco menos de meia hora, sacrificar seu querido mentor: só aquele olhar
sincero já era suficiente para que qualquer um visse o tamanho de seu altruísmo. Os
anos de convivência com Roberto denunciavam o intuito do gerente editorial ao editor
júnior, que tentou, em vão, impedi-lo de dar sequência ao seu plano. — Não, Roberto!
Você não precisa fazer isso! Deve ter outro jeito! — Rafael dizia enquanto o desespero
crescia exponencialmente em seu coração. — Por favor cara, ninguém quer que você
se sacrifique por causa de um fantasma peidorreiro e de um escritor meia boca!
Imagine, agora, leitor, que um anjo descesse dos céus, em um pôr do sol
arroxeado em pleno bairro da Liberdade, perto de onde o rubro Torii coroa a Ponte da
Amizade, trazendo consigo um livro escrito diretamente pela mão de Deus em que
encerra uma tese cruel em suas páginas. Imagine que esse anjo acredita piamente
nesta tese cruel, até que ele encontra o espírito de um velho Samurai, que argumenta
com ele e lhe ensina o código de honra do Bushido. Tomado pela beleza poética da lei
nobre, este anjo arremessa sua tese cruel pela janela, e aceita o caminho do sacrifício
e da espada como seu novo horizonte moral. Nem a honra divina que habita o espírito
deste anjo convertido em guerreiro, ou o fogo em seu olhar de pura assertividade,
liderança e resignação, eram páreos da aura que Robertinho emanava ao obedecer às
palavras vis que o encaminhavam à própria morte. Com pose, brilho e coragem,
portanto, Roberto se pôs de joelhos e abriu seus braços, como se soubesse o próximo
passo do ritual. Oswaldo sorriu-lhe com dominância, como a quem fita um objeto
descartável pronto para o uso. Eis a tragédia do aristocrata tradutor: verter para sua
língua fantasmagorias de narrativas de mundos esquecidos, incapaz de reconhecer a
grandeza do nascimento de um novo mito, mesmo quando acontece diante de seus
olhos.
— O... onde eu estou? Qu... quem é você? — Roberto perguntou, tomado pelo
absurdo daquela situação.
— O senhor está aqui comigo, tomando chá... — A menina voltou a sugerir com
o bule que Roberto se servisse.
— Uhh... esse chá, tem lactose? É que eu não posso com lac... —
— Que bela tarde em Paris, senhor Roberto! — A menina o interrompeu de
modo brando, não deixando que ele arruinasse aquele momento. — Vamos, tome seu
chá, ele vai esfriar... — Ela agora enchia a xícara de Roberto com aquele líquido
quente, cheiroso e aconchegante. Em circunstâncias normais, o gerente editorial
tomaria o chá com uma pulga atrás da orelha, com medo do estrago que aquela lactose
surtiria na noite vindoura, mas naquela hora, liberto de todas as mágoas e pleno de
todo o coração, Roberto primeiro saboreou com o olfato o nostálgico aroma da infusão,
depois pôs se a sorver aquele matchá-latte como se fosse o último da terra – pois era!
– O primeiro gole veio cheio, e o delicioso chá escorreu pela sua garganta, mas a vinda
do segundo gole foi interrompida pela voz grácil da menina de porcelana:
Mas Roberto não os abriu. Seu espírito o ensinara, naquele dia, a primeiro
cheirar o ambiente antes de vislumbrá-lo. E o cheiro que sentia era o familiar olor de
mofo de editora, borrifado pela verbena do difusor da Shopee; os vestígios do
apocalipse peidorrágico que se sucedera naquele recinto se manifestava apenas como
um retrogosto acre no fundo da garganta.
Roberto então abriu os olhos. Ele estava vivo. Nada acontecera com ele. Medo
se apossou imediatamente do gerente editorial: será que o feitiço não tinha dado certo?
O que seria da editora, da equipe, da Literatura Clássica? Sua boca teria feito todas
essas perguntas, não tivessem seus olhos visto a nova expressão que se moldava no
rosto do professor Oswaldo von Ostrogoth. O ar bonachão afetado com que ele
envernizava sua arrogância agora dava lugar ao miasma demoníaco de um hedonista
sociopata. O tom verde oliva que se espargia por suas pupilas, expulsando seu antigo
matiz azulado, denunciava que a alma que animava aquele corpo não era mais a do
vencedor do prêmio Jabuti na categoria de melhor tradução, mas o de Libão.
— Libão! — Roberto gritou. — Esse não era nosso combinado! Você iria tomar
meu corpo e deixar todos em paz!
— E tu acha que eu ia ter coragem de fuder contigo assim depois desse teu
lance todo de sacrifício e o caralho? Cê loko, tio, o bagulho arrepiou. — O gesto que
Libão fez para indicar que os pelos de seu braço estavam eriçados não cabia naquela
skin de aristocrata escolástico petulante. — Olha, eu posso ser escroto mas eu não
dou esses migué não... Aqui é certo pelo certo.
— Bom... tudo bem, então... — Roberto tentava calcular com sua cabeça os
próximos passos. — Já que eu estou vivo, eu não tenho tempo a perder. O recesso da
gráfica começa na segunda e eu preciso aprovar logo os arquivos do Livro de Catulo...
Rafael, você mandou os emails de liberação? Otávio, desculpas mas só vou conseguir
entregar o arquivo final de madrugada... vou ter que dar um jeito, mas vou conseguir,
não se preocupe! — Roberto se pôs a andar de um lado para o outro aparentemente
sem perceber que a recepção da editora estava em escombros. O dry-wall da parede
de seu escritório tinha buracos de onde se podia olhar para dentro do marco zero do
peidocalipse, e o próprio prédio da editora já não tinha mais teto, que fora
completamente arrancado pelo turbilhão, mas nada podia impedir o gerente editorial
de cumprir seus prazos finais. Nada, a não ser a risada demente do fantasma recém-
empossado.
— M.. mas.. co.. como assim? O Livro de Catulo... Nós ainda vamos publicar a
tradução do professor Oswaldo... O que isso tem a ver com o quê??? — Roberto
indagava confuso.
— Não vai ter porra nenhuma de Livro de Catulo, Jabuti ou Bienal, meu bom,
por que o que vai ter pra hoje é o professor Oswaldinho manchete do Jornal Nacional...
Roberto perdera tudo, mas não podia negar: o fantasma peidorreiro que roubou
seu Kwid e sua carreira naquele dia estava certo. Roberto estava finalmente livre. A
Literatura Clássica não era mais sua cela, e o mundo era sua ostra. Pela primeira vez
em tanto tempo, Roberto sentiu-se dono do seu destino. Não havia mais prazos
editoriais, não havia mais recesso da gráfica, não havia mais Feira do Livro da USP.
Havia apenas Roberto. Havia apenas a alegria de estar vivo.