AULA 5
HISTÓRIA E LEGISLAÇÃO DO
ENSINO RELIGIOSO
Profª Vanessa Martins
INTRODUÇÃO
No Ensino Religioso a ética une-se à educação moral dos indivíduos e, com
as tradições religiosas, os auxilia na formação dos seus princípios e os torna
pessoas mais sensíveis. O ER corrobora a religião como uma espécie de saber,
abrange os elementos básicos dos acontecimentos religiosos e os explica
didaticamente, fazendo com que os alunos apreciem a prática religiosa. É um
saber religioso construído ao longo da história e que permanece sendo edificado.
O Ensino Religioso ensina o respeito ao próximo e estimula a tolerância de
maneira singular. Ele não é um saber simples, pois o seu objeto de estudo, as
práticas religiosas, é intrinsecamente complexo. O ER auxilia no entendimento do
ser humano, pois a religiosidade faz parte das suas características. Nesta etapa
apreciaremos a educação religiosa, o ensino de religião e o ensino religioso,
entendendo as suas semelhanças e pontuando o contraste que há entre eles.
Veremos que cada um corresponde a uma fase da disciplina na história
brasileira e que todas elas permanecem sendo praticadas em maior ou menor
espaço no ambiente escolar. Todavia, atualmente são denominadas de outra
maneira: Ensino Religioso Confessional, Interconfessional e Ciências da Religião.
Atentaremos aos saberes acadêmico e escolar e como eles se diferem. A maneira
como são organizados possui certas especificidades as quais observaremos para
melhor compreendermos o contexto no qual o ER está inserido.
A aplicabilidade do Ensino Religioso possui formas diversas no Brasil
conforme o estado, pois as legislações vigentes conferem aos governos estaduais
e municipais autoridade sobre seu conteúdo, sobre a sua metodologia e em
relação à formação docente, o que fez com que a disciplina assumisse
características próprias de acordo com a localidade. Por fim, analisaremos um
panorama do Ensino Religioso no país consoante cada região: Norte, Nordeste,
Centro-Oeste, Sudeste e Sul.
TEMA 1 – EDUCAÇÃO RELIGIOSA, ENSINO DE RELIGIÃO E O ENSINO
RELIGIOSO
Temos abordado, no decorrer de nosso conteúdo, a história do Ensino
Religioso. Observamos que até ser apresentado da maneira como o vemos
atualmente, ele passou por constantes transformações, reconfigurando-se, ora
nos moldes de educação religiosa e de ensino da religião. Tais modelos ainda
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vigoram em certos contextos e, devido a isso, é necessário entendermos melhor
a diferença que há entre eles.
1.1 Educação religiosa
A educação religiosa objetiva ensinar a doutrina de determinada religião,
repassar suas crenças e seus princípios aos alunos para que eles conheçam e
vivenciem suas orientações e mandamentos e assim aprendam a olhar o universo
a sua volta sob essa ótica.
[...] pode-se dizer que a educação religiosa seria, em última análise, um
processo de socialização metódico específico geralmente
institucionalizado, com o fim de fazer com que os indivíduos aprendam
o conjunto de princípios, ensinamentos, regras de convivência, padrões
de comportamento e concepções de mundo próprias das perspectivas
religiosas que circulam em diferentes espaços sociais – no seio familiar,
a literatura de cunho teológico, nas instituições religiosas, como igrejas,
templos e seminários – na comunidade, na mídia, entre outros. (Carlos;
Escarião, 2017, p. 183)
A educação religiosa acontece em vários ambientes para além do escolar.
Ela se dá dentro das igrejas ou em locais relacionados a ela, em reuniões
familiares específicas ou no próprio dia a dia da família, no meio de amigos, entre
outros exemplos. É aplicada por ministros licenciados, como bispos, pastores,
padres etc. ou não, sendo repassada mediante pessoas consideradas leigas.
Ela pode assumir diversos formatos: mais formais em salas de aula e por
meio da leitura de livros e demais materiais; mais modernos com o uso de veículos
midiáticos, seja pela TV, por plataformas virtuais e até mesmo em redes sociais;
ou então de maneiras mais simples e descomplicadas como numa conversa
pessoal entre pais e filhos ou num encontro de colegas.
A educação religiosa foi a primeira forma em que o Ensino Religioso se
apresentou no Brasil, antes de sofrer as alterações já analisadas previamente.
Num segundo momento, a educação religiosa transformou-se no que
conhecemos como ensino de religião. Tanto a educação religiosa como o ensino
de religião constituem-se etapas as quais o ER atravessou até chegar ao formato
em vigor nas escolas públicas.
1.2 Ensino de religião
À primeira vista, este é o formato que mais se assemelha à disciplina de
Ensino Religioso como conhecemos no presente, entretanto veremos que não é
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exatamente assim que sucede. A priori, podemos julgar que Ensino Religioso é
instruir acerca das diversas religiões, como era no passado, porém, como
estudamos em conteúdos anteriores, ele não se restringe mais a isso. Vejamos o
contraste.
É possível considerar como ensino de religião a área do conhecimento que
discorre sobre as diferentes expressões religiosas que existem; explicitando seus
principais preceitos; ilustrando a sua estrutura organizacional, quais são seus
representantes; contando toda, ou parte, da sua história. Deparamo-nos com um
conteúdo mais informativo.
Contrapõe-se ao Ensino Religioso atual cujo objeto de estudo é o fenômeno
religioso e não apenas a religião em si. Além de informar, ele procura desenvolver
a reflexão por parte do aluno, fazendo-o pensar, estimulando seu raciocínio e
promovendo o respeito ao próximo. No ensino de religião o conhecimento está
“pronto” enquanto no Ensino Religioso ele permanece em constante construção.
1.3 Ensino Religioso
Atualmente o Ensino Religioso possui três modelos no Brasil: confessional,
interconfessional e as Ciências da Religião. Segundo a Base Nacional Comum
Curricular (BNCC), ele tem de apresentar seus saberes sob perspectiva científica
e ética, não privilegiando uma manifestação religiosa. Seu conteúdo deve
debruçar-se sobre as várias culturas e crenças, como também sobre perspectivas
mais secularizadas de ver a vida. Porém, isso nem sempre acontece na prática.
TEMA 2 – O ENSINO RELIGIOSO NAS ESCOLAS
Na atualidade os três modelos de ensino vistos acima são praticados nas
escolas, sejam elas públicas ou não, entretanto, sob outras nomenclaturas. A
educação religiosa corresponde ao modelo confessional, o ensino de religião ao
formato interconfessional e o Ensino Religioso a Ciências da Religião e ao que
fora proposto pelo Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (Fonaper) e
estipulado pela BNCC, que busca analisar o fenômeno religioso.
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2.1 O Ensino Religioso confessional, interconfessional e as Ciências da
Religião
O modelo confessional faz parte da história do Brasil, tendo sido
hegemônico em grande parte dela; é o mais antigo e permanece sendo praticado,
ainda que com menos proeminência. Porém, é válido ressaltar que ele não é
homogêneo e sofre variações conforme a região e a religião ensinadas, tendo
temas e bases teóricas e metodológicas diferentes. Seu conteúdo é doutrinal e se
encontra sob responsabilidade dos representantes das distintas religiões.
O formato interconfessional, com cerne teológico e de influência
antropológica, é resultado de uma sociedade cada vez mais diversa. Nele, o
aprendizado dos preceitos e práticas religiosas se dá sob uma base comum entre
as principais crenças manifestas. Mais flexível, ele possibilita o contato entre as
igrejas, podendo incluir também outras expressões de fé além da cristã.
A secularização, o aparecimento de novas formas de buscar alcançar a
espiritualidade além das tradicionais religiões e o desencantamento com as
instituições já estabelecidas têm gerado mais interesse sobre o Ensino Religioso
embasado nas Ciências da Religião e propiciado que este ganhe cada vez mais
destaque e espaços nas unidades escolares. Com pedagogia e epistemologia
própria, ele constitui-se uma disciplina autônoma, desvinculada de qualquer
religião.
Este último molde é consideravelmente recente e encontra algumas
dificuldades como “a persistência de práticas de Ensino Religioso já consolidadas
em décadas anteriores, os interesses políticos das igrejas e o despreparo dos
próprios gestores públicos” (Junqueira, 2015, p.91). Independentemente do
modelo de Ensino Religioso, confessional, interconfessional ou pelas Ciências da
Religião, a disciplina pretende, entre outros aspectos, formar bons cidadãos.
2.2 A constitucionalidade do Ensino Religioso confessional
A tensão entre a viabilidade de um Estado laico e as manifestações
religiosas em espaços escolares públicos ganhou um novo capítulo no ano de
2017. A Procuradoria-Geral da República questionou a confessionalidade do
Ensino Religioso e a sua ligação a uma única crença. Abriu uma ação alegando
serem inconstitucionais alguns trechos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação,
que davam margem para tal modelo.
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Todavia, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou improcedente a ação e
permitiu o Ensino Religioso confessional nas escolas públicas. Segundo o
entendimento da maioria dos ministros do STF, a Constituição Federal preserva o
governo laico e a liberdade religiosa ao manter facultativa a matrícula da disciplina.
Logo, o ER confessional não fere o princípio da laicidade do Estado e não se
configura inconstitucional.
TEMA 3 – SABER ACADÊMICO E SABER ESCOLAR
Os saberes acadêmico e escolar se diferem entre si. A maneira como eles
são concebidos e organizados, apesar de seguirem uma lógica semelhante,
possui certas especificidades. É relevante observarmos um pouco mais a esse
respeito para compreendermos melhor o contexto no qual a disciplina de Ensino
Religioso se insere, seja nas escolas como matéria do currículo, ou nas
universidades enquanto curso superior, Ciências da Religião, e matriz de
docência.
3.1 Saber acadêmico
A graduação no ensino superior surge da necessidade de capacitar futuros
profissionais em determinadas áreas, sejam engenheiros, advogados, médicos
etc. Assim como essas formações são um retorno à demanda existente, a de
professor também é, principalmente no campo que analisamos. O curso Ciências
da Religião, entre demais graduações e pós-graduações, e outros motivos, é uma
resposta à carência de docentes aptos a lecionarem a disciplina de Ensino
Religioso.
O Ensino Religioso nasceu nas primeiras escolas, sendo um saber
ensinado em conjunto com as letras e a matemática, desde a época da ocupação
jesuítica, como analisamos em conteúdos anteriores. Entretanto, com a
remodelação da sua abordagem ao longo do tempo foi preciso instruir mais
acertadamente profissionais para lecionarem a matéria. Este é um exemplo de
como boa parte dos cursos acadêmicos surge para suprir uma demanda factual
da sociedade.
O saber acadêmico é consequência direta do saber escolar e fruto da sua
associação, somando-se a eles o saber científico que lhes fornece embasamento.
Como é constituído um currículo acadêmico? Via de regra ele é composto de
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diversas disciplinas, teóricas e práticas, e separado em diferentes áreas de
conhecimento conforme a formação proposta.
Questões internas das universidades também têm influência sobre a
construção do currículo acadêmico, como as disputas por espaços entre os
grupos de pesquisa e departamentos, por recursos financeiros etc. e a relativa
autonomia que as universidades possuem.
3.2 Saber escolar
O conhecimento científico é a fonte do saber escolar, porém esta é uma via
de mão dupla, pois o saber escolar de igual modo fornece subsídios para o saber
acadêmico. O conteúdo e a finalidade das disciplinas escolares são resultado das
expectativas da sociedade, da realidade e da necessidade da escola na qual estão
inseridas.
Elas são influenciadas por questões internas e externas às unidades
educacionais. Como exemplo as orientações dos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCNs), as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o
interesse de familiares dos alunos etc.
Podemos concluir que o saber escolar é, em maior parte, uma adaptação
do saber acadêmico. Com base epistemológica e sócio-histórica as disciplinas
escolares são produtos da relação entre escola e sociedade para atender políticas
públicas e sociais e corresponder às exigências do mercado de trabalho.
O conteúdo e os objetivos do Ensino Religioso surgiram na e a partir da
escola e da sua interação com a sociedade, e não de um curso superior. Esse
saber escolar posteriormente serviu de material e associou-se a um saber
acadêmico, as Ciências da Religião.
TEMA 4 – O ENSINO RELIGIOSO NAS REGIÕES NORTE E NORDESTE
As orientações constitucionais e da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) têm
sido respeitadas, entretanto a ausência de precisão delas tem gerado
ambiguidades e falhas na interpretação e na aplicação do Ensino Religioso na
extensa territorialidade brasileira. Características distintas compõem a
fundamentação da disciplina de ER no país. O método e a técnica empregados
se diferenciam conforme a localidade. Exploraremos a seguir um panorama do
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Ensino Religioso no Brasil de acordo com cada região, sem ater-nos à análise de
todos os estados.
4.1 Região Norte
A região Norte é formada pelos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará,
Rondônia, Roraima e Tocantins. Segundo Gomes (2015, p. 96), ela pauta o
conteúdo de Ensino Religioso nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino
Religioso (PCNER), abrangendo a filosofia, a história, a sociologia e a psicologia
das diferentes tradições religiosas.
O Ensino Religioso é um componente curricular do Ensino Fundamental
numa sociedade plural, principalmente no que diz respeito à cultura e às religiões.
Essa pluralidade religiosa perpassa as práticas sociais e alcança o ER, estando
presente em seus conteúdos. Para o Norte do país o Ensino Religioso deve
auxiliar a formação do ser humano enquanto cidadão, para que este viva de
maneira integral a sua vida e os seus relacionamentos.
Não são todos os estados dessa região que possuem um modelo de
Ensino Religioso pautado nas Ciências da Religião. Alguns locais defendem o
formato confessional, com base em preceitos cristãos, como é o exemplo do Acre,
onde quem leciona a disciplina são teólogos. Eles procuram repassar os
“princípios de fé, doutrinas e dogmas cristãos” (Gomes, 2015, p. 97).
Segundo Gomes a “catequese” é a metodologia utilizada para aplicar a
matéria nas escolas, e a capacitação dos professores passa por certa deficiência,
pois a formação continuada conta apenas com materiais pedagógicos, não
promovendo encontros ou cursos de aperfeiçoamento. Esse cenário também se
repete no Amazonas onde as religiões cristãs e indígenas se destacam.
Nesse estado há um acordo entre a Secretaria de Educação e a
Arquidiocese para que os preceitos cristãos sejam ensinados nas escolas através
do método intuitivo de ensino, que proporciona o conhecimento religioso por meio
da ligação que o sujeito já possui com as religiões. No ER o aluno tem
experiências com as diferentes expressões religiosas, mesmo que este não as
pratique, pois todo o conteúdo com o qual temos contato promove uma
experiência pessoal em cada indivíduo.
Nos outros estados da região a disciplina Ensino Religioso é popularmente
conhecida como “aulas de religião”. Eles, mediante as Secretarias de Educação e
a Arquidiocese, disponibilizam cursos anuais de capacitação além de realizarem
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eventos mensais para os profissionais da área. Esses encontros viabilizam um
diálogo entre os professores possibilitando que compartilhem as suas
experiências com a vivência do Ensino Religioso nas salas de aula, expondo as
dificuldades encontradas e os êxitos conquistados, para assim trilharem juntos um
caminho próspero para a disciplina.
4.2 Região Nordeste
Fazem parte da região Nordeste os estados do Alagoas, Bahia, Ceará,
Piauí, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Semelhantemente à região Norte, segue as orientações estipuladas no PCNER,
que esclareceu os objetivos, eixos organizativos e a didática do conteúdo
referente à disciplina de Ensino Religioso. Os sistemas de educação definem o
conteúdo do currículo seguindo os cinco eixos estabelecidos no PCNER, quais
sejam: culturas e tradições religiosas, textos sagrados, teologias, ritos e ethos (a
ética).
Entretanto, esse cenário não se desenha por toda a região, há exceções.
Por exemplo é o que ocorre no estado da Bahia, onde o Ensino Religioso não
integra o currículo formal no ensino público. É possível notar a ausência de
orientações mais precisas a respeito da disciplina, indicando seu objeto de estudo,
seus objetivos e a didática para alcançá-los.
Em contraponto, há o Ensino Religioso na Paraíba, lecionado tanto nas
escolas da rede estadual quanto da rede municipal de ensino. Isso se deve, em
parte, ao investimento na formação profissional dispensada a essa área. Na
Universidade Federal da Paraíba há o curso de graduação em Ciências da
Religião e também um mestrado.
Ademais, a capacitação contínua para os docentes recebe a devida
atenção. No estado são realizados encontros mensais visando instruir esses
profissionais e muni-los de materiais e ferramentas para exercerem seu trabalho
com primazia, além de proporcionar um espaço de compartilhar. O Ensino
Religioso na Paraíba configura-se um bom exemplo: atém-se ao estudo do
fenômeno religioso associando a cultura à tradição religiosa.
É também aplicado o estudo da concepção do transcendente (teologias),
o significado da palavra sagrado no tempo e no espaço (sendo utilizados
pelos professores de ER textos sagrados e tradições orais). O
entendimento das práticas celebrativas (ritos), vivência crítica e utópica
humana a partir das tradições religiosas (ethos), vem sendo
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desenvolvido a partir de datas comemorativas que a escola proporciona
e feriados na cidade. (Gomes, 2015, p. 98)
Nessa região o Ensino Religioso se faz presente em suas diferentes
facetas, segundo as Ciências da Religião e os modelos confessional e
interconfessional.
TEMA 5 – O ENSINO RELIGIOSO NAS REGIÕES CENTRO-OESTE, SUDESTE E
SUL
Observamos que a aplicabilidade do Ensino Religioso possui diversas
formas conforme o estado brasileiro, pois as legislações vigentes conferem aos
governos estaduais e municipais o poder sobre seu conteúdo e sobre a sua
metodologia. De igual modo eles possuem autonomia em relação às orientações
e à formação docente.
Esse cenário possibilitou que a disciplina assumisse características
próprias de acordo com a localidade. Neste último tópico daremos continuidade à
análise do panorama do Ensino Religioso no Brasil em cada região.
5.1 Região Centro-Oeste
A região Centro-oeste, formada pelo Distrito Federal e pelos estados de
Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, seguindo o molde interconfessional,
divide o currículo do Ensino Religioso em quatro partes segundo Gomes (2015, p.
98). São elas: “antropologia das religiões, sociologia das religiões, filosofia das
religiões, literatura sagrada e símbolos religiosos”.
Apesar de seguir o trilho interconfessional, esse modelo não negligencia o
estudo do fenômeno religioso, mas o mantém como objeto de estudo e segue as
indicações dadas pelo Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso
(Fonaper), na medida em que estimula os educandos a conhecerem e analisarem
as muitas expressões religiosas.
Unindo teoria à prática o professor de ER do Centro-Oeste promove a
reflexão e o diálogo, utilizando o componente curricular como Rodrigues e
Junqueira bem o descrevem: “um marco estruturado de leitura e interpretação da
realidade, essencial para garantir a possibilidade de participação do cidadão de
forma autônoma” [...] possibilitando o entendimento das “diferentes formas de
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expressão do Transcendente” e consequentemente “a interpretação do contexto
cultural religioso em que estão inseridos os estudantes” (p. 140, 2009).
5.2 Região Sudeste
Na região Sudeste, composta dos estados do Espírito Santo, Minas Gerais,
Rio de Janeiro e São Paulo, a identidade do Ensino Religioso está sendo
construída, conseguindo cada vez mais avanços. Por isso mesmo a disciplina
possui características próprias conforme o estado. O Espírito Santo ainda não
disponibiliza uma graduação na área.
Em Minas Gerais há uma vacância de políticas públicas pertinentes ao ER,
que se encontra presente, porém sob incentivo da Igreja Católica e não do estado.
Já no Rio de Janeiro é a igreja evangélica que detém maior domínio. Em ambos
os casos o estudo do fenômeno religioso acaba por ficar em segundo plano.
Em São Paulo o Ensino Religioso aparece transversalizado entre as
demais matérias no Ensino Fundamental I. Ele não se caracteriza uma disciplina
formal, seu conteúdo é lecionado entre as outras matérias. Entretanto, é praticado
nas demais séries. Os professores, assim como em outros estados, nem sempre
possuem formação em Ciências da Religião, atuam no ER, todavia são graduados
em outras áreas, como História, Filosofia, Teologia etc.
5.3 Região Sul
A região Sul é formada pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio
Grande do Sul. Segundo Gomes (2015, p. 99), o Ensino Religioso no Paraná
atravessou três diferentes fases recentemente: a primeira, interconfessional,
porém entre religiões de matrizes cristãs; a segunda à qual se somaram outras
expressões religiosas, abrindo espaço para a valorização do ser humano em suas
múltiplas crenças; e a mais contemporânea, cuja principal abordagem teórico-
metodológica é o estudo do fenômeno religioso.
[...] pautado na diversidade religiosa, alicerçado em uma metodologia
fenomenológica desenvolvendo seus conteúdos através do
conhecimento religioso oriundo das diferentes matrizes: indígena,
africana ocidental e oriental evitando-se proselitismo em todas as suas
nuances. A proposta é a inserção de um ER laico e de forte caráter
escolar. (Gomes, 2015, p. 100)
O Rio Grande do Sul sobressai-se na formação profissional, pois dispõe de
cursos de graduação e de pós-graduação na área, o que estimula a “crescente
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produção científica e publicação de livros” (Gomes, 2015, p. 100). A região Sul,
assim como outras, avança na direção correta, entretanto ainda há determinados
pontos que necessitam de maior atenção, como a uniformização da oferta do
Ensino Religioso pelos sistemas de ensino e a formação de mais docentes para a
disciplina.
Desse modo, é possível constatar que o ER na região Sul busca
promover o diálogo inter-religioso e a mobilização das diversas tradições
religiosas na disposição de informação sobre o fenômeno religioso, por
um lado de conquistas e por outro ainda enfrentando alguns impasses
principalmente no que diz respeito à habilitação específica de
professores, da definição curricular e da oferta deste componente
curricular nos sistemas de ensino. (Gomes, 2015, p. 100)
O cenário no Brasil não é uniforme, mas na grande maioria dos estados e
municípios é possível notar determinado esforço por parte do governo, das
instituições e do corpo docente para que o Ensino Religioso seja uma disciplina
efetiva e formal como as demais. A pluralidade religiosa tem suas implicações, é
uma área complexa, porém o ER ajuda a formar cidadãos conscientes ao
proporcionar um novo olhar sobre a religiosidade presente a sua volta, auxiliando
alunos e mestres a compreenderem a sociedade e promovendo o respeito.
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