AULA 3
HISTÓRIA E LEGISLAÇÃO DO
ENSINO RELIGIOSO
Profª Vanessa Martins
INTRODUÇÃO
O estudo propõe-se a conhecer a história e a legislação do Ensino
Religioso, ampliando o conhecimento a seu respeito desenvolvido no decorrer
dos anos. Como enfatizado anteriormente, não é possível estudar a história do
Ensino Religioso sem se debruçar sobre a trajetória da escolarização do Brasil.
Uma é intrínseca a outra. Em conteúdos anteriores as abordamos nos Períodos
Colonial e Imperial, e no início do Brasil República, a Primeira República.
Neste momento do estudo serão apresentados acontecimentos
relevantes da sua cronologia, referentes à Era Vargas e aos anos subsequentes,
e ao Regime Militar. Dando assim seguimento à construção do panorama
histórico. Conheceremos a Reforma Francisco Campos e o Decreto n. 19.941,
bem como as Constituições de 1934, 1937 e 1946. O Governo Vargas foi uma
época de intensas transformações, que refletiram diretamente na educação e na
história do Ensino Religioso.
No início do Governo Provisório analisaremos a Reforma, que diz respeito
a uma série de decretos e é tida como elemento organizador e modernizante do
sistema educacional brasileiro. Já o Decreto n. 19.941 convencionou algumas
diretrizes para a disciplina, dispondo diretamente sobre ela. Veremos como a
Constituição de 1934 normatizou procedimentos da área pedagógica e
reverberou diretamente sobre a instrução religiosa.
O período de governo denominado Estado Novo trouxe uma nova
Constituição, em 1937, que esclareceu o papel do Ensino Religioso no Brasil.
Examinaremos o novo contexto escolar e a função desta matéria, a sua relação
com a disciplina Moral e Cívica, e o posicionamento das diferentes religiões.
Observaremos que após a Segunda Guerra Mundial o mundo polarizou-se num
duelo político, econômico e de convicções.
Os anos 1950 trouxeram um novo contexto, época em que a instrução
religiosa fora amplamente debatida durante a elaboração da primeira Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB, que viria a orientar a educação
no Brasil. Veremos que a Guerra Fria e a aliança com os Estados Unidos
promoveram valores liberais e democráticos, gerando um novo ambiente para o
Ensino Religioso no país.
Por fim, examinaremos os seus desdobramentos durante o Regime
Militar, período em que os militares estiveram no poder, entre os anos de 1964
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e 1985, e contemplaremos como essa fase da história fora de extrema
importância para a construção da identidade moderna da disciplina, pois foi a
época em que buscaram redefini-la no currículo escolar.
TEMA 1 – A ERA VARGAS
A Era Vargas compreende o espaço de tempo dos anos 1930 a 1945,
período em que Getúlio Vargas foi presidente do Brasil de forma ininterrupta,
governando durante quinze anos consecutivos. Essa fase é considerada o fim
da Primeira República e pode ser dividida em três partes: Governo Provisório,
de 1930 a 1934; Governo Constitucional, de 1934 a 1937; e Estado Novo, de
1937 a 1945. Getúlio Vargas foi nomeado para a presidência após a Revolução
de 1930 e manteve-se no cargo até 1934, ano em que foi reeleito por meio de
eleição indireta.
Encerrou-se, assim, o Governo Provisório, e iniciou o Governo
Constitucional. Em 1937, Getúlio articulou um golpe de Estado, decretou o
Estado Novo, e governou ditatorialmente o país até 1945. A Era Vargas foi uma
época de intensas agitações políticas e de transformações sociais e culturais,
que refletiram diretamente na educação. Sem a pretensão de esgotar o assunto,
abordaremos alguns acontecimentos cujo desenrolar repercutiram na história do
Ensino Religioso.
1.1 A Reforma Francisco Campos e o Decreto 19.941
No início do Governo Provisório podemos identificar eventos significativos
para o nosso objeto de estudo, a Reforma Francisco Campos e o Decreto n.
19.941 estão entre eles. Francisco Campos foi professor e ocupou distintos
cargos durante o Governo Vargas. Foi o primeiro responsável pelo Ministério da
Educação e Saúde Pública, Ministro da Justiça, participou ativamente da
elaboração das Constituições de 1934 e de 1937, além de empreender a
reformulação do ensino secundário. Ele inseriu o Ensino Religioso nas escolas
públicas, atendendo as solicitações, e a pressão, da Igreja Católica.
A Reforma diz respeito a uma série de decretos estabelecidos por
Francisco enquanto ministro da Educação e da Saúde Pública. Ela é vista como
elemento organizador e modernizante do sistema educacional brasileiro, e
promoveu várias modificações.
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A chamada ‘Reforma Francisco Campos’ (1931) estabeleceu
oficialmente, em nível nacional, a modernização do ensino secundário
brasileiro, conferindo organicidade à cultura escolar do ensino
secundário por meio da fixação de uma série de medidas, como o
aumento do número de anos do curso secundário e sua divisão em
dois ciclos, a seriação do currículo, a frequência obrigatória dos alunos
às aulas, a imposição de um detalhado e regular sistema de avaliação
discente e a reestruturação do sistema de inspeção federal.
(Dallabrida, 2009, p. 185)
O Decreto n. 19.941, de 30 de abril de 1931, dispôs diretamente sobre o
Ensino Religioso, convencionando algumas diretrizes. Ele passou a ser
permitido em todo território nacional, porém, a adesão dos alunos se daria de
forma facultativa, os pais e responsáveis poderiam requerer a dispensa da
disciplina. As famílias escolheriam qual instrução religiosa os educandos
receberiam, de acordo com a sua profissão de fé. Não seriam obrigados a
aprenderem exclusivamente os preceitos católicos, apesar desta ainda ser a
área com maior adesão.
Para que a matéria fosse ofertada nas escolas era necessário um número
mínimo de vinte matrículas por estabelecimento. A fiscalização da doutrina
ensinada, da moral dos professores, bem como a seleção de livros e materiais e
a sistematização do conteúdo ficaram sob a responsabilidade dos ministros dos
diferentes cultos disponibilizados. Entretanto, eles deveriam prestar contas às
respectivas autoridades escolares. O representante de cada religião também
ficara incumbido da escolha dos seus educadores. O Decreto pretendia
regulamentar e assegurar a efetividade do Ensino Religioso às famílias.
1.2 A Constituição de 1934
Após intensa agitação política, reivindicações e manifestações públicas,
em 1934 foi promulgada uma nova Constituição para o Brasil, no dia 16 de julho.
Conhecida por, entre outros atos, instituir o salário-mínimo, o voto secreto e o
direito de as mulheres votarem, ela também normatizou procedimentos
pertinentes à área pedagógica. Estabeleceu a educação como um direito de
todos. Para ampliar o acesso à instrução, o ensino primário passou a ser gratuito
e obrigatório.
Ademais, a Constituição delegou para a União a incumbência de formular,
por meio do Conselho Nacional de Educação, o Plano Nacional de Educação, e
fiscalizar a sua aplicação. Ela garantiu a liberdade de cátedra, visando promover
determinada autonomia de ensino em todas as esferas. Quaisquer condutas
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dessas reverberaram diretamente sobre a instrução religiosa, aumentando a
quantidade de alunos, institucionalizando e regulamentando os diferentes
saberes.
No tocante ao Ensino Religioso, a Constituição de 1934 reiterou as
orientações do Decreto n. 19.941. O art. 153 diz que “o ensino religioso será de
frequência facultativa e ministrado de acordo com os princípios da confissão
religiosa do aluno manifestada pelos pais ou responsáveis e constituirá matéria
dos horários nas escolas públicas primárias, secundárias, profissionais e
normais” (Brasil, 1934).
TEMA 2 – O ESTADO NOVO
Getúlio Vargas, para controlar a crescente acentuada agitação política e
social e conter a oposição, alegou a existência do Plano Cohen, um documento
forjado, com possíveis ameaças comunistas para tomada do poder. Com apoio
político e militar, aplicou um golpe de Estado em novembro de 1937, implantando
o conhecido Estado Novo. Um período de governo com medidas autoritárias e
centralizadoras.
A ditadura Varguista trouxe um contexto inédito até então para o Ensino
Religioso. Entre as principais providências anunciadas por Getúlio estava a
superposição da Constituição de 1934 por uma nova Constituição, publicada em
1937, aumentando a sua autoridade enquanto presidente da República,
reduzindo o poder dos governos estaduais, além de outros pontos relevantes.
Observemos as suas implicações sobre a educação e o ER.
2.1 A Constituição de 1937
A Constituição de 1937 esclareceu o papel do Ensino Religioso no Brasil,
porém, manteve algumas das características anteriores, como exemplo as
matrículas permanecerem com caráter facultativo e a frequência dos alunos nas
aulas não ser obrigatória. O art. 133 definiu que “O Ensino Religioso poderá ser
contemplado como matéria do curso ordinário das escolas primárias, normais e
secundárias. Não poderá, porém, constituir objeto de obrigação dos mestres ou
professores nem de frequência compulsória por parte dos alunos” (Brasil, 1937).
Após um tempo de exaltação de ideais libertários o conservadorismo
ganhou destaque. A sociedade e consequentemente a instrução religiosa
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necessitaram adequar-se. Uma nova realidade se apresentou, o Ensino
Religioso perdeu visibilidade e relevância para a disciplina que surgia: o Ensino
Moral e Cívico. O art. 131 discorre que “a educação física, o ensino cívico e o de
trabalhos manuais serão obrigatórios em todas as escolas primárias, normais e
secundárias, não podendo nenhuma escola de qualquer desses graus ser
autorizada ou reconhecida sem que satisfaça aquela exigência”.
Ao compararmos os arts. 131 e 133 percebemos que a instrução Moral e
Cívica ocupava um lugar de evidência em detrimento do Ensino Religioso. O que
é passível notar a partir das orientações que elucidam a sua obrigatoriedade em
todas as instituições de ensino, sendo pré-requisito para o reconhecimento
destas pelo governo, enquanto o ER continuou facultativo.
Na prática, a nova matéria englobava similarmente a instrução religiosa,
o que de determinado modo representava um risco para o Ensino Religioso, pois
este talvez não fosse mais necessário. Entretanto, essa “ameaça” não se
concretizou. Os moldes em que ensino Moral e Cívico foi lecionado sofreram
significativas alterações, deixou de ter um horário exclusivo e passou a ser
ministrado de forma indireta, no transcorrer das demais disciplinas. Porquanto o
Ensino Religioso permanecera no mesmo formato.
Por meio do Ministério da Educação e do DIP (Departamento de Imprensa
e Propaganda) o governo investiu na educação ao perceber nela um excelente
mecanismo a seu favor. As disciplinas supracitadas foram utilizadas como meios
de controle e coerção social, de divulgação de valores aprovados e defendidos
pelo Estado Novo, e de formação identitária nacional conforme seus rígidos
padrões.
2.2 O fim da Era Vargas
Getúlio Vargas deixou o poder, após ser deposto, em 1945, mesmo ano
em que se findou a Segunda Guerra Mundial, um conflito militar que ocorreu
entre os anos de 1939 e 1945, envolvendo diversos países. Entre os diferentes
motivos do confronto armado estavam a divergência de políticas e ideologias, o
embate a ideias fascistas e nazistas. A Guerra encerrou-se, mas o conflito de
opiniões e conceitos não. O mundo polarizou-se após a Segunda Guerra
Mundial, fragmentando-se conforme a posição ideológica e o sistema
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socioeconômico. De um lado capitalistas, e de outro, socialistas. O que
desencadeou a Guerra Fria.
Como destacado em etapas anteriores, acontecimentos externos influem
no contexto e no pensamento nacional, inserindo e promovendo valores,
principalmente liberais, e a Guerra Fria foi um deles. Um duelo político,
econômico e de convicções entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética.
Uma disputa, sem ataques armados diretos, pelo poder e influência mundial. O
Brasil posicionou-se ao lado do bloco capitalista, e a aliança com os EUA
enalteceu valores liberais e democráticos no país.
TEMA 3 – ANOS SUBSEQUENTES
Os anos subsequentes à Era Vargas apresentaram eventos e discussões
relevantes para o Ensino Religioso. Um novo contexto escolar surgiu e o papel
do ER fora elucidado. A sua relação com a disciplina Moral e Cívica permaneceu
próxima. Representante de outras religiões, como os cristãos protestantes, se
posicionaram ante as circunstâncias e deixaram contribuições significativas,
principalmente em discussões acerca da estruturação e desenvolvimento de leis
que visavam regulamentar e orientar a aplicação do ER no país.
A Guerra Fria e a aliança com os Estados Unidos promoveram valores
liberais e democráticos, gerando um novo ambiente para o Ensino Religioso. Em
meio a ele a primeira LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, foi
elaborada, e a educação privada recebeu destaque. Esse e outros fatores dos
anos posteriores à Era Vargas foram significativos para a construção da história
do ER. Vejamos a Constituição de 1946 e alguns desdobramentos da década de
1950.
3.1 A Constituição de 1946
Com a saída de Getúlio Vargas do poder, foi necessário reestruturar o
governo e renovar a legislação do Brasil. Foi elaborada, então, uma nova
Constituição, a quinta do país. Promulgada em 18 de setembro de 1946, retirou
a censura e restabeleceu a liberdade de expressão de diferentes ideias e
opiniões. Ela não trouxe inovações significativas para o Ensino Religioso
diretamente, porém, possibilitou a criação de um cenário favorável para que ele
fosse discutido e sistematizado.
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O art. 168 estipulou que ele permaneceria uma disciplina obrigatória em
todas as escolas públicas, faria parte do horário disponibilizado, entretanto sua
matrícula permanecia facultativa. Os alunos e seus familiares optariam por
cursá-lo ou não e de acordo com a sua confissão de fé, garantindo liberdade
religiosa. Apesar de contemplar o ER, o texto da Constituição não descreveu em
qual nível de ensino ele seria ministrado.
3.2 Os anos 1950
Os anos 1950 trouxeram um novo contexto para o Ensino Religioso. No
início da década, no ano de 1950 aconteceram dois eventos considerados
marcos importantes na história do ER. O I Congresso Nacional de Ensino da
Religião, no Rio de Janeiro, e a X Conferência Nacional de Educação. Neste
último fora apresentado um esboço da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, a LDB, pela Associação Brasileira de Educação, a ABE, com propostas
de readequação do Ensino Religioso.
A disciplina seria ministrada nas escolas públicas por professores
indicados e autorizados pelos líderes religiosos. A novidade é que poderiam ser
docentes, funcionários das instituições. “A indicação poderá recair em
professores públicos, desde que aceitem o encargo e a aprove a administração
de que o estabelecimento de ensino for dependente” (Diário do Congresso
Nacional, 1957, p. 20).
De maneira subentendida abria a possibilidade para que os pagamentos
dos salários ficassem a cargo do governo, dado que esses educadores eram
remunerados com recursos públicos. As propostas do esboço foram aceitas e
anexadas ao texto da lei, que se encontrava em tramitação na Câmara dos
Deputados. Entretanto, em 1958, o Deputado Aurélio Vianna apresentou uma
ementa vedando o uso de dinheiro público no ER, inviabilizando a proposta
anterior.
A sugestão foi acatada no ano seguinte pela Comissão de Educação e
Cultura e a composição da lei remodelada. Vale ressaltar que se sucederam
outras sugestões ao projeto da LDB, todavia não foram aceitas. Entre elas, duas
propostas do então deputado Antunes de Oliveira. Segundo Cunha e Fernandes,
o deputado sugeriu que aos líderes religiosos, além de designarem os
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professores, “caberia a elaboração dos programas cujos temas deveriam ser
ministrados, sem ataques a outros credos” (Cunha; Fernandes, 2012, p. 859).
Antunes de Oliveira estaria apreensivo com a possível discriminação por
parte dos católicos. Ele também sugeriu opções não confessionais para o ER:
“É lícito aos estabelecimentos que preferirem, ouvidos igualmente os alunos ou
seus responsáveis, optar pelo estudo imparcial da história das religiões e noções
de religiões comparadas, particularmente sob o aspecto ético” (Diário do
Congresso Nacional, 1956).
Outro ponto a ser ressaltado, ao longo do extenso período de tramitação
da LDB, num total treze anos, Igreja Católica e empresários uniram-se para
apoiar não somente a liberdade de ensino e para garantir a inclusão do religioso,
mas de igual maneira, juntos, defenderam a autonomia das famílias em poderem
educar elas mesmas os seus filhos.
TEMA 4 – LDB (LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL) DE
1961
A LDB possui três versões, que examinaremos com maior riqueza de
detalhes mais a frente, a primeira, de número 4.024, que se encaixa neste
momento na sequência cronológica observada, foi publicada em 20 de dezembro
de 1961 pelo então presidente João Goulart, e era intitulada Lei de Diretrizes e
Bases para o Ensino. Apoiada na Constituição, dava orientações gerais para o
sistema educacional brasileiro. O art. 97 ratificou o Ensino Religioso em seu
modelo confessional.
Art. 97. O ensino religioso constitui disciplina dos horários das escolas
oficiais, é de matrícula facultativa, e será ministrado sem ônus para os
poderes públicos, de acôrdo com a confissão religiosa do aluno,
manifestada por êle, se fôr capaz, ou pelo seu representante legal ou
responsável. 1º A formação de classe para o ensino religioso
independe de número mínimo de alunos. 2º O registro dos professôres
de ensino religioso será realizado perante a autoridade religiosa
respectiva. (Brasil, 1961)
Notamos que a oferta da disciplina permaneceu obrigatória, enquanto a
matrícula, facultativa e conforme a “confissão religiosa do aluno”, do mesmo
modo que conservou a autoridade dos líderes religiosos sobre o registro dos
professores. A LDB trouxe duas grandes atualizações, o ER deveria ser
“ministrado sem ônus para os poderes públicos” e a classe formada
independentemente “de número mínimo de alunos”.
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O Decreto 19.941, de 1931, estipulava que para o ER ser ensinado nas
escolas deveria ter uma adesão mínima de 20 alunos por turma em cada
instituição, o que muitas vezes dificultava a formação das turmas e a ministração
das aulas. Com a LDB, as religiões não precisariam temer a possibilidade de não
lecionarem, pois desde que houvesse a procura por parte de um estudante, de
determinada confissão de fé, a matéria seria aplicada.
No referente a não geração de ônus, ao contrário da proposta anterior,
que dava margem para o possível pagamento de salários dos professores pelo
governo, em caso de utilizarem os mesmos docentes de outras disciplinas o texto
da LDB pretendia esclarecer que os poderes públicos se isentavam de quaisquer
despesas relacionadas ao Ensino Religioso, incluindo a remuneração dos
educadores.
Vale dizer, as escolas públicas não poderiam remunerar os professores
do ER. Numa interpretação estrita, nem mesmo os professores do
quadro poderiam ser deslocados para essa atividade, ao menos
durante seu horário de trabalho. O voluntariado e a remuneração por
entidade religiosa seriam, então, as condições necessárias para a
existência prática desse ensino. (Cunha, 2009, p. 130)
O que dificultou a oferta da disciplina nas instituições públicas, uma vez
que dependeriam de voluntários para lecionarem ou das religiões arcarem com
os custos, o que muitas vezes se tornou inviável devido às condições financeiras
dos fiéis. Cenário que não se repetiu na rede privada de ensino, na qual o ER
manteve-se presente.
Conjectura-se que no tocante ao Ensino Religioso a LDB reuniu opiniões
de variadas vertentes.
Em suma, o artigo 97 da LDB foi produto, então, de: (i) transcrição do
dispositivo constitucional sobre o ensino religioso; (ii) ampliação dos
interesses das instituições religiosas, especialmente da Igreja Católica,
pelo parágrafo adicionado pelo projeto de 1948, tratando do efetivo das
salas de aula e do registro de professores, acrescentado pela Câmara
dos Deputados; e (iii) limitação desses interesses na cláusula restritiva
ao uso dos recursos públicos para o ensino religioso nas escolas
públicas, inserida por proposta de deputado da esquerda e aceita pela
direita. (Cunha; Fernandes, 2012, p. 861)
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TEMA 5 – REGIME MILITAR
O Regime Militar compreende o tempo em que os militares estiveram à
frente do governo brasileiro, entre os anos de 1964 e 1985, mantendo-se no
poder instituindo medidas políticas centralizadoras. Após aplicarem um golpe e
deporem o presidente João Goulart, generais e demais integrantes do Exército,
da Aeronáutica e da Marinha ocuparam os principais cargos políticos e
administrativos do Brasil, como exemplo os ministérios e a própria presidência
da República.
Uma das primeiras decisões assim que ascenderam ao comando foi
definir as disciplinas Moral e Cívica e Organização Social e Política como
obrigatórias para as escolas.
O relator da Comissão Especial do CFE encarregada de dar as
diretrizes para os programas dessa disciplina foi o arcebispo católico
Luciano José Cabral Duarte. Seu parecer (94/71) dizia que a EMC
deveria ser aconfessional, mas afirmou que a religião era a base da
moral a ser ensinada. (Cunha, 2009, p. 132, grifo nosso)
O Ensino Moral e Cívico não deveria seguir nenhuma denominação
religiosa, porém, a religião necessitaria permear o seu conteúdo. O que contribui
para que a relevância e a adesão ao Ensino Religioso voltassem a estremecer,
pois ele perdeu espaço ao concorrer com o EMC e com a matéria Organização
Social e Política.
A Igreja Católica não assistiu a essas cenas inerte, e reagiu adotando
iniciativas em prol do ER no decorrer da década de 1970. Entre elas a
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em que foi definido que
atuariam analisando, acompanhando e avaliando o ER nas instituições
escolares, sejam elas confessionais ou não; e promoveu encontros nacionais e
estaduais.
A Igreja buscou distinguir as características que identificavam o Ensino
Religioso e trazer ampla perspectiva de sua aplicação nas escolas públicas,
assim como repensar a formação dos profissionais envolvidos e o seu papel
interconfessional ao abordar diversas crenças e confissões religiosas. O perfil e
o conhecimento dos professores foram colocados em pauta e a distinção de
catequese para ER discutida. Eles pretendiam auxiliar os alunos a se
desenvolverem de maneira consciente, para construírem a sua identidade e a
sua religiosidade.
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5.1 LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) de 1971
Para corroborar com a nova forma de governo e seu caráter considerado
autoritário por grande parte da historiografia, os militares realizaram algumas
alterações na legislação brasileira. Na área educacional, fora proposta uma nova
Lei de Diretrizes e Bases, LDB, para o ensino de 1º e 2º graus, em 1971. A Lei
de n. 5.692 promulgada no dia 11 de agosto não revogou completamente a LDB
anterior, de 1961; além de manter as orientações da Constituição de 1967. Ela
esteve em vigência até 20 de dezembro de 1996, quando foi publicada a LDB
mais recente.
Segundo ela, o ensino Moral e Cívico voltou a ser ofertado
obrigatoriamente nas escolas, como já mencionado anteriormente, com vistas a
orientar os alunos conforme os padrões do Regime Militar. A disciplina Ensino
Religioso permaneceu facultativa e disponibilizada nos horários regulares das
instituições oficiais. Como podemos constatar no artigo a seguir:
Art. 7º Será obrigatória a inclusão de Educação Moral e Cívica,
Educação Física, Educação Artística e Programas de Saúde nos
currículos plenos dos estabelecimentos de lº e 2º graus, observado
quanto à primeira o disposto no Decreto-Lei n. 369, de 12 de setembro
de 1969.
Parágrafo único. O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá
disciplina dos horários normais dos estabelecimentos oficiais de 1º e
2º graus. (Brasil, 1971, grifo do autor)
Apesar de não revogar por completo a LDB anterior, de 1961, a nova
retirou determinadas partes. Neste caso, fora omitido o trecho “ministrado sem
ônus para os poderes públicos” (Brasil, 1961). Uma pequena frase, mas com
grande repercussão, pois abriu margem para novas possibilidades. O aumento
do número do quadro de professores e de profissionais mais qualificados foi
viabilizado, visto que a partir de então poderiam ser mais bem remunerados,
assim como a chance de utilizarem materiais didáticos e recursos escolares de
qualidade superior.
Uma das consequências da alteração do texto da LDB foi que “[...]
dirigentes católicos passaram a assediar governadores e prefeitos para obterem
o deslocamento de professores do quadro para o ER, assim como o pagamento
de seus próprios agentes nas escolas públicas” (Cunha, 2009, p. 132). Cunha
também afirmou que no decorrer do Regime Militar “no que dizia respeito ao ER
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nas escolas públicas, a discussão resumiu-se à questão da remuneração de
seus professores pelo Estado” (2009, p. 132).
Entretanto, apesar desse tópico ter recebido lugar de destaque no período
em questão, não podemos resumi-lo a isso. O decorrer do Regime Militar fora de
extrema importância para a construção da identidade moderna do Ensino
Religioso, promovendo debates relevantes e gerando contribuições significativas
para a aplicação da disciplina. Segundo Junqueira, nesse ínterim buscaram
redefinir o ER no currículo escolar brasileiro, além de convertê-lo em “objeto de
discussão no contexto do início do processo para a Constituinte, em 1985” (2015,
p. 7).
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REFERÊNCIAS
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