AULA 2
HISTÓRIA E LEGISLAÇÃO DO
ENSINO RELIGIOSO
Prof.ª Vanessa Martins
CONVERSA INICIAL
Nosso estudo objetiva ampliar o conhecimento elaborado através da
matéria ao longo dos anos. Como mencionado anteriormente, a sua história
entrelaça-se com a do Brasil, bem como com a sua escolarização. Não é possível
estudar uma sem se debruçar sobre a outra. Seguindo a ordem cronológica dos
acontecimentos, iniciamos nosso estudo discorrendo sobre o Período Colonial, e
nesta abordagem complementaremos a construção do panorama histórico,
abordando o espaço de tempo relativo ao Período Imperial e ao início do Brasil
República, a Primeira República. Prosseguiremos considerando os principais
eventos ligados à construção do sistema educacional brasileiro e fatos cujos
desdobramentos influenciaram diretamente a concepção do Ensino Religioso
(ER) no país.
Entre os principais pontos a serem explanados, está a ligação da Igreja
Católica com o Império; as Constituições de 1824 e 1891; a Lei de Instrução de
1827; a contribuição protestante na educação; a laicização do ensino e a
resistência da Igreja. Veremos que do Período Colonial para o Imperial não houve
mudanças expressivas. Porém, há pontos importantes a serem observados, como
o Padroado, um mecanismo de controle do Estado sobre conteúdos clericais.
Analisaremos a Constituição de 1824, a primeira do Brasil, e seu Ato Adicional.
Ela confirmou o vínculo entre o Estado e a Religião, o Catolicismo foi instituído
como religião oficial. Além de conhecermos a Lei de Instrução publicada em 1827,
a primeira a contemplar o Ensino Religioso, que regulamentou o processo de
escolarização.
Constataremos que o protestantismo contribuiu significativamente na
construção da disciplina de Ensino Religioso. Ele ampliou a quantidade de vagas
nas escolas e possibilitou o acesso de todos à educação. Uniu religião, educação
e valores liberais, reforçando na sociedade preceitos democráticos como
liberdade, individualidade e igualdade de direitos. Com a Proclamação da
República, o Brasil passou a ser um Estado laico, em que a Igreja e o Estado
foram definitivamente separados. Observaremos como a laicização do ensino foi
resultado da influência militar, de ideias liberais e do positivismo. E, por fim,
examinaremos a Constituição de 1891, onde a educação passou a ser pública e
laica, sem elementos religiosos nas escolas do Estado, e a resistência da Igreja
Católica diante desse contexto.
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TEMA 1 – PERÍODO IMPERIAL
O dia em que Dom Pedro proclamou a Independência do Brasil e marcou
o início do Período Imperial foi em 7 de setembro de 1822. O país tornou-se
independente da metrópole, Portugal, e passou a ser governado por imperadores.
Dom Pedro I permaneceu no poder por nove anos, e mais tarde seu filho, Dom
Pedro II, assumiu a administração, primeiro através de regentes e posteriormente
por ele mesmo. O Império perdurou por 67 anos e compreende um espaço de
tempo que pode ser subdividido em Primeiro Reinado (1822 a 1831), Período
Regencial (1831 a 1840) e Segundo Reinado (1840 a 1889).
Do Período Colonial para o Imperial não vemos grandes mudanças no
Ensino Religioso. O catolicismo permaneceu como a religião oficial do Império, e,
como visto anteriormente, a educação passou a ser de responsabilidade do
Estado, que a utilizou ideologicamente. Porém, a Igreja manteve seu trabalho com
a educação, visando seus próprios interesses, evangelizando e doutrinando
índios, as classes mais simples e, a partir de então, os negros escravizados. No
início do Império, o Ensino Religioso conservou-se nos moldes da catequese.
Apesar de não ter havido alterações significativas, há alguns pontos importantes
a serem ressaltados para compreendermos a sua trajetória, entre eles o
Padroado.
1.1 Padroado
Na época da expansão ultramarina, no século XV, os Papas passaram a
conceder aos reis de Portugal o direito de gerenciarem assuntos religiosos nas
terras recém-encontradas. A Igreja Católica Romana estava sem fundos e, por
isso, delegou a tutela de tudo que se relacionava a ela, incluindo seus membros,
nos novos territórios. A religião Católica e o Estado se uniram para fortalecer o
cristianismo. O Rei exercia diferentes funções, como exemplo designar padres e
bispos, e tinha autoridade para recolher os dízimos e utilizá-los em prol da Igreja,
como julgasse melhor, seja para suprir as carências identificadas ou para realizar
investimentos.
O Padroado é anterior ao Período Imperial. Com a independência do Brasil,
quem passou a exercer esse papel em nosso território foi o Imperador. Ele
nomeava cargos eclesiásticos, além de ser responsável por arrecadar e distribuir
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o dinheiro dos dízimos para o Clero, tornando os padres e demais clérigos numa
espécie de funcionário público, visto que prestavam contas ao Império e dele
recebiam seus salários.
O Padroado era um mecanismo de controle do Estado sobre conteúdos
eclesiásticos, sejam eles administrativos ou não, e influenciou substancialmente
os sacerdotes em suas atribuições rotineiras e em suas decisões. Segundo Souza
(2013), podemos considerar dois ciclos relevantes para o Padroado: de 1826 a
1840, no início do Segundo Reinado, e de 1840 a 1889, ano da Proclamação da
República.
Num momento de construção da identidade brasileira, a Igreja assumiu
caráter nacionalista e foi mantida como mais um setor da administração, devendo
servir ao Estado. A maioria dos habitantes se declarava católica e os setores
cívicos e religiosos estavam interligados, refletindo na educação. A vida e o ensino
eram consideravelmente permeados por princípios cristãos e os acontecimentos
da sociedade possuíam características religiosas.
Com a expulsão dos jesuítas, a influência iluminista e as reformas
pombalinas, houve a laicização do ensino. Porém, como podemos perceber, o
vínculo entre o Estado e a Religião Católica no Período Imperial permaneceu
estreito, dificultando a percepção de alterações significativas na educação.
Entretanto, ao longo dos anos, essa relação se transformou.
Após várias discordâncias, a Igreja Católica repensou seu papel frente aos
negócios e à sociedade. Embora de forma discreta e lenta, e após passar por
alguns percalços, a transição do sistema de Ensino Religioso para o laico ocorreu
efetivamente. Embora mantendo características religiosas, a educação renovou-
se gradativamente.
TEMA 2 – AS PRIMEIRAS LEGISLAÇÕES
Com a independência do Brasil, vieram também a publicação de diferentes
leis para regimentar e normatizar a vida e a convivência em sociedade na nova
nação que se formou. Legislações são conjuntos de leis “com valor jurídico, nos
planos nacional e internacional, para assegurar estabilidade governamental e
segurança jurídica às relações sociais entre cidadãos, instituições e empresas”
(Câmara dos Deputados, 2023-2027).
Para o nosso objeto de estudo, há duas legislações específicas a serem
abordadas. A primeira Constituição do Brasil, promulgada em 1824, demonstra o
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vínculo entre o Estado e a Religião. Por meio dela, é possível analisar os reflexos
dessa associação na educação. E a Lei de Instrução, publicada no ano de 1827,
a primeira a contemplar o Ensino Religioso. Ambos os pontos, relativos ao Período
Imperial, e seus desdobramentos compõem a história do ER.
2.1 A Constituição de 1824
O Brasil tornou-se independente no ano de 1822. Com a autonomia política,
tornou-se necessária a criação de órgãos e instituições administrativas, bem como
um conjunto de leis para o novo Estado. Dom Pedro I reuniu um grupo de pessoas
para formulá-las sob sua supervisão e, em 25 de março de 1824, foi instituída a
primeira Constituição do país. Composta por 176 artigos, ela apresentava as
principais regras do Império. Entre elas, destacamos o Catolicismo como religião
oficial, o que evidenciava sua relação com o governo. Pelo menos num primeiro
momento, não houve separação entre Igreja e Estado na prática. Além disso, a
Constituição estabelecia o ensino primário gratuito.
Nas escolas, o Ensino Religioso se resumia a ensinar o catolicismo, uma
vez que ele fora legitimado como a religião oficial. As demais formas de
expressões religiosas não eram apreciadas no âmbito escolar. Os membros de
religiões diferentes sequer eram autorizados a cultuar publicamente. A
Constituição discorria que seus cultos seriam permitidos desde que reservados
em formato doméstico, sem um local público próprio para isso, sem um templo.
A educação não foi um dos temas privilegiados na Carta Magna, sendo
mencionada apenas no final dela, em seu último parágrafo. Todavia, essa
situação mudou dez anos depois, em 1834, após a publicação do Ato Adicional.
Segundo ele, o ensino primário e o secundário ficariam sob responsabilidade das
províncias, enquanto o ensino superior estaria a cargo do poder central.
2.2 A Lei de Instrução de 1827
A Lei Geral, de 15 de outubro de 1827, foi a primeira lei educacional do
país. Projetada por uma comissão de educação, estabeleceu diversos pontos que
regulamentavam o processo de escolarização. Entre eles, a criação de escolas
em todas as cidades e vilas, onde meninas e meninos deveriam estudar com
currículos diferentes, mas as disciplinas de português e religião seriam
disponibilizadas para todos.
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Segundo Junqueira (2008, p. 20), os professores deveriam “ensinar a ler, a
escrever, a realizar as quatro operações de aritmética, a prática de quebrados,
decimais, proporções, as noções de geometria, a gramática da língua portuguesa,
os princípios da moral cristã e da doutrina católica”. O Ensino Religioso, nesse
momento resumido a valores cristãos e fundamentos católicos, tornou-se oficial
em território nacional.
2.3 Segundo Reinado
Dom Pedro I se ausentou do Brasil em 1831 e deixou seu filho, Dom Pedro
II, no poder. No entanto, como ele era ainda menino, tendo apenas cinco anos de
idade, o país teve que ser governado, entre os anos de 1831 e 1840, por regentes.
Nesse período, a política e a administração estiveram sob demasiada influência
liberal, incidindo sobre a educação. Ao atingir a maioridade, D. Pedro II assumiu
o poder, tornando-se imperador.
Com sua autorização, os padres jesuítas puderam regressar ao país e dar
continuidade aos trabalhos realizados anteriormente nas escolas. No decorrer do
Segundo Reinado, a Igreja Católica mostrou-se contrária por diversas vezes ao
pensamento científico que recebia cada vez mais destaque, gerando conflitos.
Entretanto, não houve mudanças significativas, além das mencionadas, no Ensino
Religioso nesse período.
TEMA 3 – ENSINO PROTESTANTE
Há um vasto material sobre a história do Ensino Religioso no Brasil sob os
princípios e ensinamentos católicos, devido ao grande número de fiéis e ao
reconhecimento como religião oficial do período. No entanto, essa não foi a única
expressão religiosa a lançar mão da educação para ensinar seus valores e
colaborar na construção da disciplina de Ensino Religioso. O protestantismo teve
uma parcela significativa de contribuição, embora a produção de conhecimento
sobre ele seja relativamente diminuta. Neste tópico, traremos luz ao tema.
O ensino, até então predominantemente católico, começou a receber novos
ares quando missões protestantes oriundas dos Estados Unidos da América
chegaram ao Brasil. Já havia a presença de protestantes em território nacional
anteriormente, mas no século XIX ela se deu de maneira mais intencional, com o
intuito de converter pessoas para sua religião, utilizando a educação como
estratégia para alcançar seus objetivos.
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Semelhante ao modelo católico de ensino, o protestante aspirava preparar
futuros sacerdotes. As escolas eram o meio de fornecer a educação básica para
posteriormente prosseguirem na formação teológica. O Ensino Religioso estava
presente no programa escolar, mas, diferentemente do catolicismo, a educação
protestante priorizava formar no aluno um entendimento ético, colocando o ensino
doutrinário em segundo plano.
O projeto educacional protestante foi inserido em um contexto onde havia
escolas religiosas e laicas. Concomitantemente ao fim do Império, ele ocupou
inicialmente ambientes urbanos, sendo introduzido em cidades e capitais e
posteriormente em áreas rurais. As escolas, em sua maioria, ficavam próximas a
igrejas e eram voltadas para pequenos grupos de estudantes, sendo eles
protestantes ou não. Quem as subsidiava eram as missões e os pais dos alunos.
Os professores foram primeiramente pastores, mas com o decorrer do
tempo seus lugares foram ocupados por missionárias mulheres. A Bíblia era o
principal livro de leitura e o Latim uma das línguas ensinadas nas aulas. Segundo
Santos (2007, p. 124), as demais matérias lecionadas eram “arte literária, ciência,
poesia, francês, inglês, execuções musicais, canto e exercícios calistênicos”.
O sistema de ensino protestante contribuiu significativamente na
construção da história da educação e do Ensino Religioso no Brasil. Concorreu
diretamente com o modelo educacional em vigor ao preencher as lacunas
deixadas por ele. O projeto encontrou um espaço a ser ocupado. Devido à
intolerância religiosa da época, crianças de religiões distintas da predominante
eram discriminadas e, por vezes, ficavam sem estudo. As famílias encontraram
nas escolas protestantes um lugar onde seus filhos pudessem estudar. O
protestantismo conquistou a estima de parte da população ao ampliar a
quantidade de vagas nas escolas e possibilitar o acesso de todos à educação.
Num momento de decadência do Império e de ideais republicanos
fortalecidos progressivamente, preceitos democráticos como liberdade,
individualidade e igualdade de direitos foram reforçados na sociedade através da
educação protestante que buscava demonstrar uma nova realidade aos alunos.
Entrelaçando religião, educação e valores liberais. Uma época de mudanças na
política, refletidas na educação.
Desde o início da história do Brasil, na colonização e na transição do
Império para a República, os sistemas educacionais foram utilizados como
mecanismos de formação ideológica e identitária. De igual modo, o Ensino
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Religioso protestante foi empregado como ferramenta evangelística e como meio
de inclusão social.
TEMA 4 – A PRIMEIRA REPÚBLICA
A proclamação da República aconteceu em 15 de novembro de 1889. Com
ela, o Brasil passou a ser um Estado laico, a Igreja e o Estado foram
definitivamente separados administrativamente. Fiéis de todas as religiões
passaram a ter liberdade para professar a sua fé e cultuar publicamente. O
Padroado ficou no passado e o país não possui mais uma religião oficial. Em
teoria, a política e a educação estariam livres de intervenções religiosas.
A imigração de povos europeus com costumes e profissões de fé diferentes
influenciou de maneira significativa o pensamento e a vivência dos brasileiros. A
República foi um tempo de intensas transformações: fim da escravidão,
industrialização do país, crescimento do comércio e o café como principal produto
do agronegócio brasileiro. Isso culminou em um desenvolvimento econômico
exponencial e no aumento da população. Esse cenário refletiu na educação.
Contudo, nesse primeiro momento, será analisada apenas a Primeira República,
período que compreende os anos de 1889 a 1930.
4.1 A laicização do ensino
A laicização do ensino foi resultado da confluência de uma série de fatores.
Da atuação militar, que cresceu consideravelmente após a Proclamação da
República, somada a ideias liberais e ao positivismo, doutrina filosófica oriunda
do Iluminismo. A influência iluminista perdurou por muitos anos no Brasil. A
maneira de pensar sem interferência religiosa, laica, adentrou de maneira
crescente na sociedade, se consolidou na educação no decorrer dos anos e
permeou as legislações publicadas a seu respeito, como veremos mais adiante.
4.1.1 O positivismo
Uma corrente teórica que propõe o ideal de progresso para a humanidade.
Segundo ela, os seres humanos podem ser conduzidos a progredirem
continuamente, assim crescem e se desenvolvem. O positivismo influenciou o
primeiro presidente do Brasil, Marechal Deodoro da Fonseca, outros políticos
relevantes como Benjamin Constant, e de igual modo o imaginário da época. O
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pensamento positivista contribuiu para a redução da autoridade clerical sobre a
população e para a separação da Igreja do Estado ser consolidada dia após dia.
Positivistas anelavam que o Ensino Religioso fosse retirado das escolas públicas.
Somando-se a isso a busca pela modernização compôs o novo cenário
político-econômico e consequentemente educacional do país, que encontrava-se
cada vez menos sob manipulação religiosa. No mesmo ano da Proclamação da
República, foi criado o Ministério de Instrução Pública, Correios e Telégrafos,
comandado então por Benjamin Constant. Embora com curta duração, teve papel
significativo na educação, divulgando e compartilhando informações e materiais
didáticos.
O método pedagógico colocado pela Reforma Benjamin Constant era o
intuitivo, o mesmo instituído no fim do Império pela própria Reforma
Leôncio de Carvalho. Mas a instrução moral e religiosa foi substituída
por uma instrução leiga, embora a Igreja tenha continuado a expandir
sua rede de escolas. Com o fim do padroado, até mesmo o direito
eclesiástico ficou suprimido das faculdades de Direito. (Delaneze, 2007,
p. 52)
Equivalente ao atual Ministério da Educação, Benjamin Constant
reestruturou o sistema de ensino, promovendo mudanças nos conteúdos
ministrados e no currículo, visando proporcionar liberdade e oferecer uma
educação gratuita e laica.
4.1.2 A Constituição de 1891
Com um novo regime político, viu-se a necessidade de atualizar o conjunto
de leis do país. Em 24 de fevereiro de 1891, foi promulgada a nova Constituição
do Brasil, que estabeleceu o Estado laico, sem uma religião oficial. Separou
definitivamente o Estado e a Igreja, proibindo interferências, além de garantir
liberdade religiosa e paridade entre todas as religiões, ao menos juridicamente.
O Estado republicano deixou de financiar a Igreja Católica e, ao tornar-se
laico, possibilitou o fortalecimento de diferentes religiões, dando liberdade para
elas, que tiveram espaço para crescer como nunca antes. Essa conjuntura
propiciou a criação de diversas escolas cristãs, não católicas, e modelos
protestantes ganharam cada vez mais notoriedade.
Segundo a Constituição, a educação passaria a ser pública e laica, sem
elementos religiosos nas escolas pertencentes ao Estado, retirando dos colégios
públicos o Ensino Religioso, sendo permitido apenas em instituições
confessionais. A instrução deveria ser pública e sem qualquer característica
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religiosa, o que desagradou demasiadamente a Igreja Católica, detentora de uma
parcela significativa de escolas e do conhecimento produzido e administrado na
época.
A Constituição de 1891 também instituiu a obrigatoriedade da educação
primária, que anteriormente não era um pré-requisito para adentrar ao ensino
secundário. O Ensino Fundamental foi delegado para os Estados, e o Governo
Federal assumiu a responsabilidade sobre a Educação Secundária e o Ensino
Superior. O que veremos mais adiante viabilizou o Ensino Religioso manter-se no
âmbito público em diferentes regiões do país.
A Constituição fomentou a esfera educacional no país, abrangendo-a de
forma intencional e ampla, resultando na criação de centros de formação leigos
para atender a nova demanda de alunos e na ampliação de escolas confessionais.
Em virtude do Ensino Religioso ter sido removido dos colégios públicos, a Igreja
Católica se viu motivada a construir novos espaços pedagógicos para ensiná-lo.
A perda do exclusivismo católico foi resultado de um processo lento e
gradativo, de interferências positivistas e liberais e da crescente inserção de
outras religiões na sociedade. A Igreja Católica não aceitou facilmente a
Constituição, questionando-a. Para além das duras críticas empreendidas, ela se
organizou para reconquistar o espaço e a área de atuação perdidos, e para
salvaguardar o Ensino Religioso nas instituições públicas.
TEMA 5 – A RESISTÊNCIA DA IGREJA CATÓLICA
O catolicismo não era mais a religião oficial, porém, sua influência sobre a
sociedade permanecia significativa. Grande parte da população professava a fé
cristã ou simpatizava com seus preceitos, os aplicava em suas vidas ou ao menos
não se opunha a eles. A Igreja fez uso de sua estima e das redes de
relacionamento que possuía, no campo político e social, e foi capaz de fazer o
Ensino Religioso ser gradativamente aceito. Até que em 1926, uma revisão
constitucional voltou a discutir oficialmente a disponibilização da disciplina em
instituições públicas.
A Igreja Católica, mais uma vez, renovou a sua forma de atuação e foi bem-
sucedida ao lançar mão de estratégias para resguardar sua influência social e
política, e para aumentar o número de fiéis.
A resistência desencadeada pela Igreja dá-se de diversas formas: por
meio da publicação e divulgação de livros, revistas, jornais, além de
organizar encontros, palestras e atividades visando formar o público
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leigo. A Igreja procura então se fortalecer na formação de lideranças que
farão o enfrentamento com os liberais, positivistas e comunistas. Com
essa dinâmica organizativa, os católicos constituíram-se um importante
núcleo de ideias pedagógicas que resistia ao avanço das ideias novas,
disputando acirradamente com os renovadores e suas defesas liberais
laicas a hegemonia do campo educacional no Brasil […] A preocupação
permanente da Igreja era em ocupar o espaço de soberania perdido com
a República. (Batista, 2020, p. 68)
Como observado, a Igreja trilhou diversos caminhos para divulgar a sua
instituição e fazer frente às ideias liberais e laicas. Seja através de materiais
impressos, como os mencionados na citação acima, ou encontros presenciais, ela
organizou e constituiu forte resistência aos seus opositores e aos do Ensino
Religioso. A Igreja levantou mais líderes capacitados para confrontarem
ideologias liberais e positivistas, pois além de sobressair-se nos debates, ela
desejava instruir a comunidade, cooperando mais indivíduos para sua causa e
conquistando mais fiéis.
A Igreja Católica criticou o ensino leigo, defendeu que a educação sem
religião prejudicaria a nova nação republicana por equivaler-se ao ateísmo, a
negação da existência de Deus ou de qualquer outra divindade. Algo
contraproducente segundo a sua visão e o entendimento de grande parte da
população da época. Os católicos endossavam o anseio da Igreja de fazer com
que a moral católica regesse os hábitos e relacionamentos entre as pessoas.
Mesmo com o Estado laico, princípios católicos influenciaram a política e a
educação brasileira.
Os Estados possuíam relativa independência nas decisões pertinentes à
educação, o que permitiu que alguns deles preservassem o Ensino Religioso nos
colégios.
As disputas em torno da noção de laicidade e quanto à exclusão ou
permanência do ER marcaram as constituintes estaduais realizadas no
final do século XIX, assim como as que resultaram nas Cartas Magnas
exaradas no século seguinte. Neste plano, geraram movimentos prós e
contra, os quais deram origem a distintos encaminhamentos em âmbito
regional, estadual e nacional. Fato é que, com a consolidação da
República, juridicamente o ER foi excluído da instrução pública. No
entanto, isso não significou que diferentes unidades da federação
adotassem essa orientação. (Cecchetti; Santos, 2016, p. 131-141)
O que seria considerado como ensino laico e suas delimitações foram alvo
de debates nos estados. Houve políticos e pessoas influentes que se
posicionaram a favor do Ensino Religioso, assim como aqueles que
demonstraram uma robusta oposição. A teoria e o campo jurídico determinavam
que o ER fosse retirado das escolas públicas, mas, devido à autonomia dos
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Estados e às disputas intelectuais entre representantes da Igreja e pensadores
liberais, na prática, isso não aconteceu. Em várias regiões do Brasil, o ER foi
mantido como componente da grade curricular.
O Ensino Religioso voltou oficialmente às instituições públicas em grande
parte como fruto da resistência católica. Ele teve sua área de atuação ampliada,
pois foi incluído também nas escolas profissionais. Dessa maneira, passou a ser
disponibilizado em escolas confessionais, públicas e técnicas. Seja por quais
motivos forem — religiosos, com viés ideológico, sendo eles liberais ou não, com
interesses políticos ou não — o importante é que a educação e o Ensino Religioso
passaram a ser discutidos e a receber atenção como nunca antes, fazendo-se
notáveis na sociedade brasileira.
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