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História E Legislação Do Ensino Religioso: Prof. Vanessa Cristina Da Silva Martins

O documento aborda a história e legislação do ensino religioso no Brasil, desde o período colonial até a contemporaneidade, destacando sua evolução e as influências culturais e religiosas ao longo do tempo. O ensino religioso, inicialmente confessional e voltado para a catequização, transformou-se em uma disciplina acadêmica que promove o diálogo e o respeito entre diferentes expressões religiosas. A análise inclui a atuação da Companhia de Jesus e as mudanças significativas nas legislações educacionais que moldaram o ensino religioso no país.

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História E Legislação Do Ensino Religioso: Prof. Vanessa Cristina Da Silva Martins

O documento aborda a história e legislação do ensino religioso no Brasil, desde o período colonial até a contemporaneidade, destacando sua evolução e as influências culturais e religiosas ao longo do tempo. O ensino religioso, inicialmente confessional e voltado para a catequização, transformou-se em uma disciplina acadêmica que promove o diálogo e o respeito entre diferentes expressões religiosas. A análise inclui a atuação da Companhia de Jesus e as mudanças significativas nas legislações educacionais que moldaram o ensino religioso no país.

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AULA 1

HISTÓRIA E LEGISLAÇÃO DO
ENSINO RELIGIOSO

Prof.ª Vanessa Cristina da Silva Martins


CONVERSA INICIAL

Nosso estudo visa desenvolver a aprendizagem reflexiva e metódica da


organização do saber relacionado à disciplina de Ensino Religioso, a respeito do
seu desenvolvimento e formação, sobre o seu funcionamento e os produtos
intelectuais gerados por ela. Em suma, nosso estudo objetiva ampliar o
conhecimento elaborado e executado por essa disciplina, ao longo da história.
Nesta abordagem, veremos as suas definições. Explanaremos o seu contexto,
como campo de conhecimento, ao longo da história do Brasil, iniciando pelo
período colonial, considerando os principais eventos ligados à construção do
sistema educacional no país. Veremos algumas das principais características e
especificidades do ensino religioso nos dias correntes e como ele foi vivenciado
anteriormente.
Atualmente, trata-se o Ensino Religioso de uma disciplina ofertada no
ensino regular, com adesão facultativa, que abarca diversas expressões
religiosas, promovendo o diálogo, o respeito e o conhecimento em sala de aula,
seja de modo confessional, com turmas distribuídas conforme as diferentes
profissões de fé; seja não confessional, com as muitas religiosidades ensinadas
de igual maneira, sem proselitismo. Entretanto, nem sempre se conduziu dessa
maneira. O ensino religioso é uma matéria construída ao longo do tempo,
transformando-se, no decorrer dos anos. A sua trajetória se entrelaça à história
do Brasil e da sua escolarização, coexistindo desde o início da colonização do
país. Inicialmente um meio evangelístico, o ensino religioso catequizou e difundiu
a cultura elitista europeia.
Assim sendo, analisaremos como a Companhia de Jesus e os padres
jesuítas lecionaram e expandiram a fé cristã aos nativos e imigrantes para torná-
los fiéis católicos, fundando as primeiras escolas na colônia. Identificaremos
acontecimentos relevantes do período colonial cujos desdobramentos
correlacionaram-se à cultura e à educação. Como exemplos, temos a influência
da Contrarreforma promovida na Europa e do Iluminismo; e as Reformas
Pombalinas, que promoveram a laicização do ensino, colocando-o sob a
responsabilidade do Estado e não mais da Igreja. Iniciaremos a composição do
panorama da história do ensino religioso seguindo a ordem cronológica dos
períodos históricos brasileiros.

2
TEMA 1 – DEFINIÇÕES DE ENSINO RELIGIOSO

Como é possível definir o ensino religioso? O que pode ser considerado


como tal? Antes de nos aprofundarmos em sua história, é necessário caracterizá-
lo, entendermos quais são as suas principais características e especificidades e a
sua significação nos dias correntes.

1.1 O ensino religioso contemporâneo

O que pode ser considerado como ensino religioso, hoje? Segundo


Toyshima, Montagnoli e Costa (2012), essa é uma “[...] área do conhecimento,
com metodologia específica, horários preestabelecidos em sala de aula,
conteúdos, avaliação, objeto de investigação e professores especializados.” Além
disso, consiste em uma disciplina ofertada no ensino regular, em escolas públicas
e na rede privada de ensino, que aborda as diversas expressões religiosas,
promovendo o diálogo, o respeito e o conhecimento dessa matéria entre os
educandos.
O ensino religioso é disponibilizado tanto de maneira confessional, em que
turmas são compostas conforme as diferentes profissões de fé; quanto de modo
não confessional, em que as muitas religiosidades são ensinadas de igual
maneira, sem se incorrer no erro do proselitismo. Com caráter confessional ou
não, a depender de cada instituição e região, ele é um componente obrigatório do
currículo escolar, porém a sua adesão por parte dos alunos acontece de forma
facultativa. Eles, e as suas respectivas famílias, possuem o direito de escolha,
decidindo em qual segmento religioso se matricular, se esse for o caso.
A disciplina de Ensino Religioso, antes doutrinária e agora concebida como
da área de conhecimento acadêmico e científico, procura desenvolver uma
identidade pedagógica própria, ganhando cada vez mais espaço, mesmo entre
percalços. Atualmente, há diversos debates sobre esse tipo de ensinamento: se o
Estado deve ou não o manter, ainda que de maneira facultativa; ou se abster de
qualquer relação com a religião. A constante reflexão contribui para garantir
liberdade religiosa nas escolas, cuja intenção não é formar fiéis e sim cidadãos.

1.2 O ensino religioso, anteriormente

Entretanto, é possível ponderar que o ensino religioso sempre foi


constituído e compreendido nessa conjuntura que mencionamos? A resposta é
3
não. Ele é uma disciplina que foi edificada ao longo do tempo. A sua trajetória se
entrelaça à história do Brasil e da sua escolarização, existindo o ensino religioso
desde o início da colonização do país e sendo inicialmente concebido como um
meio evangelístico, um artifício para catequizar as pessoas e difundir na
sociedade a cultura elitista europeia da época, como veremos no decorrer do
conteúdo. Porém, a disciplina transformou-se, no decorrer dos anos,
apresentando diversas definições.
O ensino religioso assumiu características próprias e funções diferentes,
conforme o período em questão. No princípio, foi majoritariamente católico, mas
recebeu contribuições de outras religiões, por exemplo do protestantismo, numa
influência de eventos ocorridos ao redor do mundo, como a Contrarreforma e a
Guerra Fria, e de correntes de pensamentos distintas, entre elas o iluminismo e o
positivismo. Muitas discussões foram realizadas a seu respeito, durante a
construção do sistema educacional no país. É importante ressaltar que, no
decorrer dos anos, o ensino religioso sofreu alterações devido às normatizações
empregadas.

TEMA 2 – CONTEXTUALIZANDO O ENSINO RELIGIOSO

Não é possível estudar a história do ensino religioso sem se debruçar


também sobre a história do Brasil e de sua escolarização. Ambas coexistiram
desde o início da colonização do país. Considerando essa premissa, será
abordado em conteúdos subsequentes o cenário histórico do ensino religioso
seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos. Nosso estudo contemplará os
seguintes períodos históricos brasileiros: Brasil Colônia, Brasil Império e Brasil
República, sendo esse último período subclassificado nas seguintes fases:
Primeira República, Era Vargas e os anos subsequentes, regime militar e
contemporaneidade, conforme esta datação:

a. Brasil Colônia: de 1500 a 1822


b. Brasil Império: de 1822 a 1889
c. Brasil República: de 1889 aos dias atuais, compreendendo:
• Primeira República: de 1889 a 1930
• Era Vargas e anos subsequentes: de 1930 a 1964
• Regime militar: de 1964 a 1986
• Contemporaneidade: de 1986 aos dias atuais

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Segue um breve resumo dos principais pontos a serem tratados em cada
período e fase.

2.1 Brasil Colônia

O Brasil Colônia é marcado pela influência da Contrarreforma realizada na


Europa e do Iluminismo; pelo trabalho da Companhia de Jesus e dos padres
jesuítas, que lecionaram e expandiram a fé cristã entre os nativos e imigrantes
para torná-los fiéis católicos, fundando as primeiras escolas na colônia; pelas
Reformas Pombalinas, promotoras da laicização do ensino, colocando-o sob a
responsabilidade do Estado e não mais da Igreja, além de outros episódios
importantes do período, cujos desdobramentos correlacionaram-se à cultura e à
educação no país.

2.2 Brasil Império

O ensino religioso no Brasil Império foi caracterizado pela ligação da Igreja


Católica com o próprio Império; pelo padroado, um mecanismo de controle do
Estado sobre conteúdos clericais; pela promulgação da Constituição de 1824, a
primeira do Brasil, e do seu Ato Adicional, que confirmou o vínculo entre o Estado
e a Igreja, ao instituir o catolicismo como religião oficial (Brasil, 1824, 1834); pela
promulgação da Lei de Instrução de 1827, a primeira a contemplar o ensino
religioso e a regulamentar o processo de escolarização (Brasil, 1827); e pela
contribuição protestante na educação, entre outros eventos relevantes da época.

2.3 Brasil República

Com a Proclamação da República, o Brasil passou a ser um Estado laico:


Igreja e Estado foram definitivamente separados. Como já mencionado, esse
período pode ser subclassificado nas fases de que trataremos a seguir.

2.3.1 Primeira República

Na Primeira República, ocorreu a separação do Estado e da Igreja; a


laicização do ensino, resultado da influência dos militares, das ideias liberais em
voga e do positivismo; a promulgação da Constituição de 1891 (Brasil, 1891), que
assegurou a educação como pública e laica e sem presença de elementos

5
religiosos nas escolas do Estado, o que também gerou uma resistência da Igreja
Católica.

2.3.2 Era Vargas e anos subsequentes

Na Era Vargas e anos subsequentes, há o novo contexto escolar e o papel


elucidado do ensino religioso, com a sua relação com a disciplina de Moral e
Cívica e o posicionamento de outras religiões ante as circunstâncias; a promoção
de valores liberais e democráticos, sob influência da Guerra Fria e da aliança com
os Estados Unidos, gerando um ambiente novo para o ensino religioso; a
elaboração da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB
(1961); e a privatização da educação.

2.3.3 Regime militar

O regime militar compreende os anos em que os militares estiveram à frente


do governo brasileiro, com uma nova organização social e política com
desdobramentos na educação e uma oscilação da importância do ensino religioso
nesse momento: tratou-se de um período da história de extrema importância para
a construção da identidade moderna da disciplina, pois buscaram redefini-la no
currículo escolar. Acontece, também, a edição de uma nova LDB, para o ensino
dos então chamados 1º e 2º graus (Brasil, 1971).

2.3.4 Contemporaneidade

Na contemporaneidade, ocorre a consolidação da identidade da disciplina


e da inserção do ensino religioso no sistema de ensino, com instituição da
responsabilidade do governo face a ela e seus professores; a promulgação da
Constituição de 1988 e da LDB mais recente, de 1996 (Brasil, 1988, 1996); a
elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs e da Base Nacional
Comum Curricular – BNCC (Brasil, 2018), que ocasionaram a disponibilização do
ensino religioso de maneira confessional e não confessional.

TEMA 3 – PERÍODO COLONIAL

O período colonial compreende os anos 1500 até 1822, o espaço de tempo


em que os portugueses chegaram ao território brasileiro e deram início ao
processo de colonização. A centralização do poder real em várias regiões da
6
Europa influenciou diretamente nesse processo, uma vez que a consolidação das
monarquias possibilitou a expansão marítima europeia, por meio das Grandes
Navegações. As profundas transformações políticas, econômicas e culturais da
época propiciaram que os recém-criados Estados nacionais europeus tivessem
condições favoráveis para explorarem o mundo além-mar, promovendo, entre
outras situações, o acúmulo de capitais, o aprimoramento de instrumentos e
técnicas de navegação, a definição de posições geográficas estratégicas e o
estabelecimento de novos contatos e trocas comerciais.
Outro evento sucedido na Europa cujos desdobramentos são relevantes
para a história do Brasil foi a Contrarreforma. A Igreja Católica, dominante na
época, vivenciou uma crise ao ter alguns de seus dogmas e práticas contestadas,
entre elas a concentração de riquezas por parte do seu alto clero, a venda de
indulgências e a simonia. Com isso, diferentes reformas religiosas sucederam-se.
A primeira delas, que desencadeou uma série de outras, foi a Reforma
Protestante, iniciada por Martinho Lutero em 31 de outubro de 1517, com 95 teses
afixadas na porta da Catedral de Winttenberg, Alemanha. A Igreja Católica, então,
reagiu a essa conjuntura e organizou um movimento de oposição e renovação
eclesiástica denominado Contrarreforma.
A Contrarreforma diz respeito a um processo de reestruturação da Igreja
que visava dar uma resposta ao protestantismo. Ela é fundada em uma série de
ações, que reafirmaram as doutrinas católicas e a autoridade do papa, proibiram
a venda de indulgências e culminaram na realização do Concílio de Trento, uma
assembleia que reuniu os principais líderes da Igreja e redefiniu alguns
posicionamentos da instituição. Entre as medidas adotadas, foi estabelecida a
proibição da leitura de determinados livros e a reabertura do Tribunal do Santo
Ofício, trazendo novamente à tona a Inquisição para julgar quem não concordasse
com os dogmas católicos.
Devido a esses acontecimentos, o catolicismo perdeu grande quantidade
de fiéis e, consequentemente, a sua influência sobre a sociedade europeia
diminuiu significativamente, o que motivou a Igreja Católica a expandir seus
domínios para outros lugares, para as terras recém-descobertas. A Companhia de
Jesus chegou a Nova Lusitânia, como era denominado o Brasil de então, no ano
de 1549. Segundo Barion, Silva e Giraldelli (2019), os jesuítas são “[...]
considerados os primeiros professores do Brasil”. Conhecer o contexto que os
trouxe até aqui e a presença jesuítica na educação brasileira é de suma

7
importância, visto que o fez com que o nosso primeiro eixo educacional fosse de
viés católico.
Constatamos, com isso, que, na colonização, desde o seu início a Igreja
Católica deteve a soberania do ensino religioso. O seu papel era catequizar,
lecionar e expandir a fé cristã entre os nativos e imigrantes, para torná-los fiéis
católicos. Outras religiões eram consideradas como um perigo para a fé e para a
ordem social. Os primeiros locais destinados à educação, edificados e
organizados pelos padres jesuítas, foram as missões ou reduções. Neles
ficavam as escolas, as primeiras do Brasil, e outros espaços como casas, oficinas
e igrejas. Podemos concluir que a Igreja detinha o conhecimento da época e
utilizou-se disso para fundamentar os primeiros pilares da educação e da cultura
brasileira, impondo costumes europeus e alterando ou erradicando práticas
indígenas.

TEMA 4 – COMPANHIA DE JESUS

A Companhia de Jesus é reconhecida por fundar muitos colégios ao redor


do mundo. A catequização, ademais instruir as pessoas na religião e nas
expressões de fé, ensinava as letras. Os portugueses desejavam utilizar a religião
como um meio de civilizar os indígenas, visto que esforços anteriores não surtiram
efeitos significativos, e, assim, propiciar o desenvolvimento econômico da colônia.
Com isso, incutiram-se nos nativos os ideais e valores sociais europeus na
composição da nova sociedade. Sermões e apresentações teatrais eram algumas
das metodologias utilizadas para ensinar e doutrinar os nativos.
Os padres jesuítas fizeram uso de semelhanças entre os santos católicos
e as entidades religiosas indígenas e africanas para se aproximarem e educarem
a população, promovendo uma aculturação. A Coroa Portuguesa financiou o Ratio
Studiorum ou Plano de estudos da Companhia de Jesus (Franca, 1952). Segundo
Barion, Silva e Giraldelli (2019), esse era “[...] o documento que estabelecia um
programa de estudos humanísticos combinados com científicos que tinha como
objetivo formar homens ideais para o exercício das virtudes”. Ele abrangia uma
formação teológica, filosófica e humana e vigorou no Brasil até o ano de 1773.

4.1 Jesuítas: ensino na prática

8
As primeiras escolas fundadas pelos padres jesuítas ficaram conhecidas
como casas de beabá. Eram locais de leitura, escrita, contação de histórias,
instrução e catequização que acolhiam órfãos, índios e portugueses e serviam de
moradia para os padres. Segundo Azevedo (1976), a Companhia de Jesus
adentrou gradativamente nas aldeias indígenas com o intuito de educar
religiosamente os nativos. As casas de beabá representam o princípio da
organização de um sistema educativo, pois tornaram-se, posteriormente, os
primeiros colégios do Brasil.
O público-alvo das casas de beabá eram as crianças e os jovens indígenas
e imigrantes europeus, considerados mais passíveis de serem ensinados que os
mais velhos. A Bíblia era o principal material didático utilizado, nesse sentido. Seu
conteúdo era interpretado por meio da leitura e de apresentações, fossem elas
teatrais, como mencionado anteriormente, ou musicais, com cantos e hinos. Os
padres, agora professores, promoveram a aculturação dos povos nativos,
sobrepujando valores indígenas aos ideais europeus, fazendo-os ressignificarem
sua visão de mundo, a forma como percebiam e entendiam o universo ao seu
redor. Uma das estratégias empregadas nesse sentido consistia na
desvalorização dos ensinamentos dos pajés, minando aos poucos a autoridade
que eles possuíam sobre as tribos. Com a figura do pajé enfraquecida, a aceitação
da fé cristã e do padrão do bom comportamento europeu era facilitada.
Os colonizadores não se preocupavam com os efeitos causados sobre a
cultura indígena; ao contrário, a prioridade era difundir o modo de vida cristão
português independentemente dos possíveis prejuízos gerados a eles. Porém,
aqui se faz necessária uma ressalva. Apesar de não medirem esforços para
catequizar, os padres jesuítas não toleravam todos os métodos de dominação.
Eram, por exemplo, fortemente contrários à escravização indígena, embora não
por pensarem em seu bem-estar, mas porque, ao serem explorados, os indígenas
faleciam, devido aos castigos severos que lhes eram aplicados, à fome e às
doenças que os acometiam. O propósito da Igreja era ampliar o seu poder
expandindo a quantidade de fiéis e, após as perdas sofridas no período da
Contrarreforma, se os indígenas morressem a sua empreitada não seria bem-
sucedida.
O Plano de estudos da Companhia de Jesus, o Ratio Studiorum, continha
a metodologia de ensino e os recursos pedagógicos a serem utilizados.
Funcionava como um código e conduzia os trabalhos realizados na área.

9
Inspirava-se em filósofos e teóricos que viam na educação algo fundamental para
os indivíduos e para a sociedade, por exemplo São Tomás de Aquino e Aristóteles,
que defendiam a sua universalização (Franca, 1952). O planejamento e a
organização jesuítica eram notáveis e possibilitaram a criação e a expansão de
diversos colégios ao redor do mundo. Segundo José Luis Monteiro da Conceição
(2017, p. 2), o Ratio:

[...] preceitua a formação intelectual clássica estreitamente vinculada à


formação moral embasada nas virtudes religiosas, nos bons costumes e
hábitos saudáveis a sociedade, explicitando de forma detalhada as
modalidades curriculares das instituições escolares; o acompanhamento
do desenvolvimento da aprendizagem e a promoção dos alunos;
condutas e posturas respeitosas desde os que conduziam (professores)
até os que aprendiam (alunos). [...] Esse método tem como objetivo
principal expandir a fé cristã aos povos que habitavam a Europa e toda
região do Novo Mundo. Trata-se de um manual que continha conjuntos
de normas e/ou regras para ajudar e nortear as atividades de cunho
pedagógico dos professores e na organização e administração escolar
dentro dos colégios da ordem jesuíticas, com vista a permitir uma
formação uniforme a todos que frequentassem.

O Ratio Studiorum regulamentava as ações de todas as pessoas


comprometidas com o processo de ensino e aprendizagem, fossem elas
professores, reitores, alunos, entre outras; e as atividades desenvolvidas por
essas pessoas, como trabalhos escolares e avaliações (Franca, 1952). A
educação literária era um dos pontos centrais da metodologia jesuítica, mas a
leitura das Escrituras e de outros materiais de conteúdo eclesiástico fazia-se
extremamente importante. A memorização e a interpretação do que era lido era
incentivada por diversos meios, dentre eles apresentações, recitais, provas etc.
O currículo era dividido em três áreas: teologia, humanidades e filosofia; e,
segundo Franca (1952), abrangia as seguintes disciplinas e se estendia pelos
respectivos períodos:

• Teologia: Teologia Escolástica (4 horas semanais), Teologia Moral (2 horas


diárias), Sagrada Escritura (aulas diárias) e Hebreus (2 horas semanais).
Tinha a duração de 4 anos.
• Humanidades – Retórica, Humanidades, Gramática Superior, Gramática
Média e Gramática Inferior. Num total de 3 anos, equivalia ao atual segundo
ensino fundamental.
• Filosofia – Lógica e Introdução às Ciências (2 horas diárias); Cosmologia,
Psicologia e Física (2 horas diárias); Matemática (1 hora, diariamente);
Psicologia, Metafísica e Filosofia Moral (2 horas diárias). Durava 3 anos.

10
O ensino da Companhia de Jesus, notadamente estruturado e regrado, não
agradou, porém, a todos. O Secretário de Estado português da época, o Marquês
de Pombal, discordava do conteúdo ensinado pois ele contemplava apenas o
ensino religioso, deixando de lado os interesses do Estado. Por esses e outros
motivos, em 1759 os padres jesuítas foram expulsos de todos os territórios
portugueses, retirando da Igreja Católica o controle da educação sobre eles. Na
ocasião, os jesuítas possuíam 78 instituições no Brasil, entre residências,
missões, faculdades e seminários.

TEMA 5 – O ILUMINISMO

Outro acontecimento relevante no continente europeu e cuja repercussão


na história do ensino religioso no Brasil foi significativa foi o iluminismo, uma
revolução formada no campo das ideias, concebida por vários pensadores, que
se posicionavam contra o Antigo Regime por este desrespeitar a liberdade e o
direito dos homens, e se opunham, portanto, aos governos absolutistas e suas
formas de atuação. Como movimento intelectual, valorizava a razão e o
conhecimento, o saber científico e os direitos individuais e teve seu desenrolar
nos séculos XVII e XVIII, esse último conhecido como o Século das Luzes.
A intenção dos filósofos iluministas era afastar a população da ignorância
utilizando a razão para iluminá-la para um novo caminho para a liberdade,
mostrando-lhe o mundo através de uma nova perspectiva. Entre outros aspectos,
os pensadores iluministas contestavam os abusos de autoridade e a intolerância
religiosa que ocorriam na sociedade: as pessoas eram obrigadas a seguirem a
religião do governante, caso contrário sofreriam perseguições. O movimento
iluminista defendia tanto a liberdade de expressão como a de opinião. Segundo
ele, os indivíduos carecem de ser livres para escolher suas crenças e não as ter
contra si impostas, seja pelo governo, seja por qualquer outro meio de coerção –
como se pode considerar, aqui, a educação que se tinha até aquele momento. As
críticas que já haviam sido feitas às práticas da Igreja Católica, com isso,
intensificaram-se.
O iluminismo mudou o modo de a humanidade pensar e ver o universo ao
seu redor, gerou uma revolução científica, influenciou a política, a economia e os
costumes daquele período, serviu como inspiração para diversos entendimentos
e elementos das sociedades atuais, por exemplo, a divisão do governo em três
poderes: Poder Executivo, Poder Legislativo e Poder Judiciário. O filósofo francês

11
Charles-Louis de Secondat, mais conhecido como Montesquieu, propôs que o
Estado fosse dividido em três para equilibrar institucionalmente um país e evitar
os abusos de autoridade, pois, segundo ele, um poder controlaria o outro.
O Brasil era uma colônia portuguesa, e o que ocorria na Europa, como os
exemplos aqui tratados, como a Contrarreforma e o iluminismo, influenciavam
direta ou indiretamente os acontecimentos daqui. A Contrarreforma estimulou a
Igreja Católica a ampliar seus domínios para outros territórios, possibilitando a
vinda da Companhia de Jesus e que esta desse início à prática do ensino religioso.
O movimento iluminista, além de alterar a forma de pensar de colonos brasileiros,
desencadeou consequências importantes para o país e para a educação. Entre
elas, podemos mencionar as atitudes do Marquês de Pombal, com a expulsão dos
jesuítas e a adoção de princípios laicos para a educação. Com esse fato,

A educação passou a ser administrada pelo Estado; não mais atrelado


à Igreja Católica, mas sim público e laico, tendo suas disciplinas
submetidas ao poder real, autônomas, sem vinculação com sistemas
específicos de ensino. O Estado começou a elaborar leis sobre ensino,
cobrar impostos e fazer estatísticas. A regra era destruir e/ou abolir a
influência da Companhia de Jesus. Isso ocorreu porque Marquês de
Pombal tinha interesses econômicos como objetivo. Sua real pretensão
era transformar Portugal numa metrópole capitalista para competir com
os demais países da Europa. [...] Pombal desejou também ter uma
nobreza e uma burguesia mais intelectualizadas, para incentivar o
desenvolvimento cultural, artístico e científico, com profissionais
capacitados para poder assumir os cargos públicos. (Conceição, 2017,
p. 2).

Pombal promoveu uma reforma na educação, ao retirá-la da ordem


religiosa e levá-la para o controle do Estado, secularizando as escolas e
estruturando o primeiro ensino público no Brasil. As lições passaram a ser avulsas:
de latim, grego, filosofia e retórica, nas denominadas aulas régias; e os colégios
agora seriam fragmentados conforme o gênero dos alunos, uns para meninos e
outros para meninas. Além de aprenderem a ler, a escrever e a fazer operações
matemáticas, seria ensinado aos meninos a doutrina cristã e às meninas as
tarefas ligadas ao cuidado da casa e da família. Percebemos aqui que, apesar
das reformas empreendidas, a fé cristã e os seus preceitos permaneceram
presentes no sistema de ensino.
O novo sistema educacional enfrentou alguns percalços até se solidificar.
Segundo Villalta (1997), os recursos financeiros que lhe foram destinados eram
insuficientes e o ensino que pretendia ser público passou por momentos em que
foi necessário o seu custeio por parte dos familiares dos alunos. Ademais, sentiu-
se a necessidade de formação de docentes devidamente qualificados, elaboração

12
de material didático de qualidade e de um currículo regular. Com isso, a educação,
que antes era unificada, baseada no plano de ensino jesuítico e ministrada pelos
padres, tornou-se segmentada, com aulas separadas e independentes e
aplicadas por professores leigos, fazendo-se responsabilidade do Estado e não
mais da Igreja.

13
REFERÊNCIAS

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