No final do século XIX, a lenda do Cabeça de Cuia começou a ser espalhada, seguindo os
eventos da morte de 7 Marias na cidade. Alguns anos se passaram, e o povo pensou que
Crispim, o homem que seria o cabeça de cuia, ja teria morrido, por velhice ou outra causa, o
que aliviou algumas pessoas que davam o crédito devido a lenda.
Em 1998, Maria Wanderleia Vasconcelos, minha mãe, foi agredida, sequestrada e
estuprada por um homem que ela só pôde descrever como o diabo, com um rosto
completamente desfigurado, um sorriso gigante no rosto e uma cabeça num formato
inumano. Ele a manteve em cativeiro e depois de uma semana de buscas, a polícia achou o
cativeiro e começou uma caçada pelo monstro.
Pelos relatos dos moradores da zona rural da época, eles viram muitos corpos de policiais
fardados nas suas terras, o que chocou muito os jornais da época, mas não por muito
tempo, já que logo depois essas notícias foram diminuindo em quantidade, talvez por
acobertamento ou algo mais sério.
Um mês depois, minha mãe foi informada por agentes de segurança especiais, como eles
se chamaram, tinham resolvido a caçada e explicaram para ela que o estupro que ela
sofreu gerou um filho, que ela planejava abortar, não por ódio de mim, mas por nojo do
homem que fez isso, uma justificativa que até eu como um feto de 1 mês concordaria como
justa. Os homens também explicaram a natureza especial do filho, que ele seria uma
espécie de monstro, mas que isso não precisa ser uma marca ruim na vida dele, se ela
escolher manter o filho.
Por pressões sociais da época, e por acreditar que eu poderia fazer do mundo um lugar
melhor, minha mãe escolheu me ter e no dia 14 de março de 1999, eu nasci, registrado
como Wanderson em homenagem ao meu avô materno. Minha mãe teve algumas
complicações durante a gravidez, talvez por conta da minha origem amaldiçoada, mas
perseverou. Ela cuidou de mim até meus 18 anos, quando, mesmo nova, no auge dos seus
42 anos, veio a falecer por uma série de complicações respiratórias e cardíacas, que não
vieram de surpresa, mas dessa vez a acertaram com força, todas de uma vez.
Continuei vivendo na casa dos meus avós, artesãos de madeira e aprendi o ofício deles.
Nunca tive muitos amigos nem fiz muita questão deles. Nunca tive vícios que podem me
matar. Enfim, vivo uma vida parada e calma.
Uma noite, no fim do meu turno no centro de artesanato, acho que às umas 21h, fechei a
loja da familia e comecei minha volta para casa, de bicicleta, como sempre. Em uma das
ruas, proximo a praça Saraiva, avisto um homem, bêbado, andando errante na direção de
um poste, olhando para cima, como se estivesse tonto demais para saber o que é cima ou
baixo, um bêbado comum.
Ao me aproximar mais, assisto o homem começar a ser levantado do chão como se ele
estivesse sendo agarrado por algo. Aperto os olhos e vejo uma figura esguia, com cabelo
longo, envolta de fumaça, aparentemente engolindo ele. Imagino que seja um monstro
como o maldito que é meu pai biologico e parto para cima do monstro, para defender o
homem.
Nessa hora, das minhas costas, surgem asas formadas de musculo e pele, que eu consigo
controlar e voo na direção do monstro. Consigo tirar o homem das mãos do monstro mas
sou arremessado para longe por um golpe do monstro. Quase desmaiando pelo impacto,
tento me preparar para a luta que vai se seguir, mas não consigo me manter de pé, tenho
tempo apenas para avistar outro homem lutando contra o monstro e uma pessoa me
pegando nos braços.