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Universidades Lusíada
Guerreiro, Maria Filomena Carepa Fernandes, 1967-
A intervenção da musicoterapia em adultos
portadores de perturbação do espectro de
autismo
[Link]
Metadata
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Issue Date 2016-04-14
Abstract Entender e compreender o papel e as vantagens da Musicoterapia em
adultos portadores de perturbação do Espectro do Autismo, é o objetivo
IE
deste relatório. Neste sentido foi levado a cabo a intervenção junto dos
utentes da CERCIBEJA, em adultos com idades compreendidas entre os
18 e 50 anos, uns em regime externo e outros em acolhimento residencial.
O trabalho foi desenvolvido com indivíduos que nunca tiveram, de acordo
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com informações recolhidas, qualquer contacto com este tipo de terapia, e
pode...
Keywords Autismo - Tratamento, Musicoterapia - Portugal - Lisboa, Cerci (Beja,
Portugal) - Ensino e Estudo (Estágio)
PR
Type masterThesis
Peer Reviewed No
Collections [ULL-IPCE] Dissertações
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UNIVERSIDADE LUSÍADA DE LISBOA
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais
Instituto de Psicologia e Ciências da Educação
Mestrado em Musicoterapia
A intervenção da musicoterapia em adultos portadores de
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perturbação do espectro de autismo
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Realizado por:
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
EV
Supervisionado por:
Prof.ª Doutora Teresa Paula Rodrigues de Oliveira Leite
Orientado por:
Dr.ª Teresa da Conceição Inverno Fialho
PR
Constituição do Júri:
Presidente: Prof.ª Doutora Tânia Gaspar Sintra dos Santos
Supervisora: Prof.ª Doutora Teresa Paula Rodrigues de Oliveira Leite Maurer
Arguente: Prof.ª Doutora Maria Eduarda Salgado Carvalho
Relatório aprovado em: 19 de Fevereiro de 2016
Lisboa
2015
U N I V E R S I D A D E L U S Í A D A D E L I S B O A
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais
Instituto de Psicologia e Ciências da Educação
Mestrado em Musicoterapia
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A intervenção da musicoterapia em adultos
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portadores de perturbação do espectro de autismo
PR
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
Lisboa
Outubro 2015
U N I V E R S I D A D E L U S Í A D A D E L I S B O A
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais
Instituto de Psicologia e Ciências da Educação
Mestrado em Musicoterapia
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A intervenção da musicoterapia em adultos
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portadores de perturbação do espectro de autismo
PR
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
Lisboa
Outubro 2015
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
A intervenção da musicoterapia em adultos
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portadores de perturbação do espectro de autismo
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Relatório de estágio apresentado ao Instituto de
Psicologia e Ciências da Educação da Faculdade de
Ciências Humanas e Sociais da Universidade Lusíada
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de Lisboa para a obtenção do grau de Mestre em
Musicoterapia.
Supervisora de estágio: Prof.ª Doutora Teresa Paula
Rodrigues de Oliveira Leite Maurer
Orientadora de estágio: Dr.ª Teresa da Conceição
Inverno Fialho
Lisboa
Outubro 2015
Ficha Técnica
Autora Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
Supervisora de estágio Prof.ª Doutora Teresa Paula Rodrigues de Oliveira Leite Maurer
Orientadora de estágio Dr.ª Teresa da Conceição Inverno Fialho
Título A intervenção da musicoterapia em adultos portadores de perturbação
do espectro de autismo
Local Lisboa
Ano 2015
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Mediateca da Universidade Lusíada de Lisboa - Catalogação na Publicação
GUERREIRO, Maria Filomena Carepa Fernandes, 1967-
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A intervenção da musicoterapia em adultos portadores de perturbação do espectro de autismo /
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro ; supervisionado por Teresa Paula Rodrigues de
Oliveira Leite Maurer ; orientado por Teresa da Conceição Inverno Fialho. - Lisboa : [s.n.], 2015. -
Relatório de estágio do Mestrado em Musicoterapia, Instituto de Psicologia e Ciências da Educação
da Universidade Lusíada de Lisboa.
I - LEITE, Teresa Paula Rodrigues de Oliveira, 1964-
II - FIALHO, Teresa da Conceição Inverno, 1961-
LCSH
1. Autismo - Tratamento
2. Musicoterapia - Portugal - Lisboa
3. Cerci (Beja, Portugal) - Ensino e Estudo (Estágio)
4. Universidade Lusíada de Lisboa. Instituto de Psicologia e Ciências da Educação - Teses
5. Teses - Portugal - Lisboa
1. Autism - Treatment
2. Music therapy - Portugal - Lisbon
3. Cerci (Beja, Portugal) - Study and Teaching (Internship)
4. Universidade Lusíada de Lisboa. Instituto de Psicologia e Ciências da Educação - Dissertations
5. Dissertations, Academic - Portugal - Lisbon
LCC
1. RC553.A88 G84 2015
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“A Música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas”
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Bono Vox
A concretização deste mestrado é a realização de um sonho
antigo. Trabalhar no mundo da Musicoterapia é utilizar a música
para ajudar quem mais precisa a ser feliz.
Muito obrigada à minha família, em especial ao meu marido José
Filipe, aos meus filhos André, Sofia e Francisco e aos meus pais,
pelo apoio para a realização deste trabalho.
Muito obrigada a todos os professores deste curso, em especial à
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Professora Doutora Teresa Leite, pela experiência, sabedoria e
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profissionalismo demonstrados.
Muito obrigada à CERCIBEJA, na pessoa da Dr.ª Teresa Fialho,
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e a todas as monitoras e pessoal auxiliar que me proporcionaram
a possibilidade de trabalhar com pessoas maravilhosas que foram
os “ meus “ utentes.
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Muito obrigada aos meus colegas de mestrado, que me
ofereceram momentos extraordinários de partilha musical,
amizade e companheirismo.
Resumo
A intervenção da musicoterapia em adultos portadores de perturbação de espectro de Autismo
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
Entender e compreender o papel e as vantagens da Musicoterapia em adultos portadores de
perturbação do Espectro do Autismo, é o objetivo deste relatório. Neste sentido foi levado a
cabo a intervenção junto dos utentes da CERCIBEJA, em adultos com idades compreendidas
entre os 18 e 50 anos, uns em regime externo e outros em acolhimento residencial. O trabalho
foi desenvolvido com indivíduos que nunca tiveram, de acordo com informações recolhidas,
qualquer contacto com este tipo de terapia, e pode contribuir para ajudar a revelar como a
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musicoterapia, através de técnicas e métodos específicos, funciona como agente facilitador da
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integração social e dos processos de comunicação, promovendo bem-estar físico e
psicológico.
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É ideia recorrente que a musicoterapia funciona como veículo importante para a estimulação
e integração de qualquer indivíduo numa comunidade, pois as experiências vivenciadas em
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setting propiciam uma participação ativa e de interação, desenvolvendo rotinas, saberes e
capacidades. Faltava, porque nunca existiu até aqui, trazer estas experiências à CERCIBEJA
e aos seus utentes, ajudando estes, em conjunto com o restante trabalho que diariamente é
desenvolvido, a alcançar e concretizar os objetivos que estão na génese da Instituição.
A metodologia de investigação utilizada foi de natureza qualitativa e a amostra foi composta
por sete adultos, com a apresentação de dois estudo de caso. Foram utilizadas diferentes
ferramentas e técnicas para a recolha de dados - entrevistas, observação e análise documental,
tendo sido efetuado regularmente um registo direto e análise posterior da informação.
Os resultados obtidos são prometedores e ajudam a comprovar as vantagens da utilização de
terapias variadas e inovadoras no trabalho que é feito diariamente com utentes portadores de
perturbação do espectro de autismo. O contacto com a musicoterapia ajudou a criar mais
momentos de empatia, de crescimento pessoal, de partilha de emoções e sensações. Os
momentos musicais conseguidos funcionaram como catalisadores que ajudaram a quebrar
barreiras, maximizando, por um lado, as capacidades e necessidades de comunicação e, por
outro, minimizando os bloqueadores que existem naturalmente neste tipo de utentes. Estas
pequenas/grandes alterações foram sentidas não só no âmbito da presença dos indivíduos na
instituição mas, de acordo com alguns dos técnicos e familiares dos utentes, extrapolaram, em
alguns casos, os muros da CERCIBEJA.
Palavras-chave: Musicoterapia, Perturbação do Espectro de Autismo, Integração Social,
Comunicação.
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Abstract
The intervention of music therapy in adults with autism spectrum disorder
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
It’s a recurring idea that music therapy works as an important vehicle for the stimulation and
integration of any individual in the community, as the experiences in setting provide an active
participation and interaction, developing routines, knowledge and capabilities. It was missing
because it never existed so far, bringing these experiences to CERCIBEJA and its clients,
helping them, together with the remaining work that is developed every day, to achieve and
realize the goals that are the genesis of the institution.
The research methodology was qualitative in nature and the sample was composed of seven
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adults, with the presentation of two case study. Different tools and techniques for data
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collection were used - interviews, observation and document analysis, has been performed
regularly direct recording and subsequent analysis of information.
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The results are promising and help to demonstrate the advantages of the use of innovative
therapies in the overall intervention that is done in patients with autism spectrum disorder.
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Contact with music therapy has helped create more moments of empathy, personal growth,
sharing emotions and sensations. The achieved musical moments functioned as catalysts that
helped break down barriers, maximizing on the one hand, the capabilities and communication
needs and on the other, minimizing blockers that exist naturally in this type of users. These
minor / major changes were felt not only in the presence of individuals in the institution but,
according to some of the technical and relatives of users, extrapolated, in some cases, the
walls of CERCIBEJA.
Keywords: Music Therapy, Autism Spectrum Disorder, Social Integration,
Communication
Lista de tabelas
Tabela 1. Caracterização do Rafael ........................................................................................ 36
Tabela 2. Caracterização do João ........................................................................................... 37
Tabela 3. Caracterização do Hélio .......................................................................................... 37
Tabela 4. Caracterização da Ana ............................................................................................ 38
Tabela 5. Caracterização do José ........................................................................................... 38
Tabela 6. Caracterização Fábio .............................................................................................. 39
Tabela 7. Caracterização do Ivo ............................................................................................. 39
Tabela 8. Horário praticado pela estagiária com os utentes .................................................. 44
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Tabela 9. Plano terapêutico do Rafael .................................................................................... 51
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Tabela 10. Plano terapêutico do João .................................................................................... 61
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Lista de Figuras
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Ilustração 1. Placa identificativa da instituição ...................................................................... 92
Ilustração 2. Vista exterior da entrada da CERCIBEJA .......................................................... 93
Ilustração 3. Instrumental Orff utilizado nas sessões .............................................................. 94
Ilustração 4. Instrumental harmónico utilizado nas sessões .................................................... 95
Ilustração 5. Outra perspetiva da sala Snoezelen .................................................................... 96
Ilustração 6. Zona administrativa da CERCIBEJA.................................................................. 97
Ilustração 7. Refeitório, ginásio, sala Snoezelen e serviços de psicologia da CERCIBEJA ... 98
Ilustração 8. Campo de jogos da CERCIBEJA ........................................................................ 99
Ilustração 9. Monte – Zona de trabalho/atividades da CERCIBEJA .................................... 100
1. Introdução .............................................................................................................................. 1
2. Caracterização da Instituição ................................................................................................. 3
2.1 Qualificação e Emprego - QE ....................................................................................... 4
2.2. Lar Residencial “ Vidas Coloridas “ - LRVC .............................................................. 5
2.3. Centro de Atividades Ocupacionais - CAO ................................................................. 6
3. Caracterização da População ................................................................................................. 9
4. Enquadramento Teórico ....................................................................................................... 10
4.1. Os valores da educação para a inclusão ..................................................................... 10
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4.2. A Música no desenvolvimento humano..................................................................... 13
4.3. A Musicoterapia no contexto da educação especial .................................................. 17
4.4. Perturbação do espectro do autismo .......................................................................... 22
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4.5. Musicoterapia e o autismo ......................................................................................... 25
5. Objetivos .............................................................................................................................. 29
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6. Metodologia ......................................................................................................................... 31
6.1. Descrição metodológica............................................................................................. 31
6.2. Amostra...................................................................................................................... 34
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6.3. Instrumentos de avaliação .......................................................................................... 39
6.4. Procedimentos ............................................................................................................ 42
6.5. Métodos e técnicas de intervenção musicoterapêutica .............................................. 44
6.6. Outros projetos ........................................................................................................... 48
7. Estudo de Caso ..................................................................................................................... 49
7.1. Estudo de caso 1 – Rafael .......................................................................................... 49
7.1.1. descrição. ......................................................................................................... 49
7.1.2. plano terapêutico. ............................................................................................. 50
7.1.3. intervenção. ...................................................................................................... 51
7.1.4 resultados finais ................................................................................................ 55
[Link]ão .......................................................................................................... 57
7.2. Estudo caso 2: João .................................................................................................... 59
7.2.1. descrição. ......................................................................................................... 59
7.2.2. plano terapêutico. ............................................................................................. 60
7.2.3. intervenção. ...................................................................................................... 61
7.2.4. resultados finais. .............................................................................................. 65
7.2.5. conclusão. ........................................................................................................ 67
8. Outras Intervenções Clínicas ............................................................................................... 69
8.1 Hélio............................................................................................................................ 69
8.2. José............................................................................................................................. 70
8.3 Ana .............................................................................................................................. 71
8.4. Fábio .......................................................................................................................... 73
8.5. Ivo .............................................................................................................................. 74
9. Conclusão............................................................................................................................. 75
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10. Reflexão Final .................................................................................................................... 78
Referências ............................................................................................................................... 80
IE
Anexos ..................................................................................................................................... 86
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A INTERVENÇÃO DA MUSICOTERAPIA EM ADULTOS PORTADORES DE
PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DE AUTISMO
1. Introdução
A escolha deste tema resulta de uma paixão pela música e por todos aqueles que, apesar
de diferentes, aceitam, entregam-se, interpretam e vivem a música de uma forma simples e
despreocupada. Na sua grande maioria estão neste “mundo” os indivíduos portadores de
perturbação do espectro de autismo.
Desde muito cedo que são notórias, nos portadores de perturbação do espectro do
autismo, dificuldades consideráveis ao nível do desenvolvimento global, principalmente nas
áreas da comunicação e da interação social. Esta situação, limitativa e não integradora do
W
indivíduo, esconde muitas vezes as reais capacidades físicas e mentais, capacidades que
necessitam de ser desenvolvidas e/ou estimuladas. É neste campo que a música, uma vez que
IE
representa para o próprio um significado especial que lhe permite uma certa atitude
introspetiva no que ao passado e presente diz respeito, pode assumir um papel de relevo.
EV
A dificuldade em comunicar que estes indivíduos revelam, compromete a interação com
o outro e coloca barreiras, muitas vezes difíceis de transpor, em todo o processo de
PR
socialização. Cada problemática tem a sua especificidade e todo o processo terapêutico
inerente ao indivíduo tem que ter uma focagem centrada no seu desenvolvimento funcional e
na adaptação ao meio que o rodeia. A grande ambição da musicoterapia deverá então ser
promover alterações, preferencialmente positivas, que proporcionem uma evolução global do
indivíduo e, simultaneamente, um elevado nível de bem-estar. O caminho a seguir é por
norma longo e deverá ser permanentemente acompanhado de forma a ser possível corrigir
eficazmente situações imprevistas ou mesmo a alterar procedimentos.
Este estudo incidiu sobre um tipo de população onde estão englobados indivíduos adultos
com diferentes perturbações no desenvolvimento global, como o autismo, ou várias
deficiências como por exemplo o Síndrome de Down. A intervenção da musicoterapia
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
A INTERVENÇÃO DA MUSICOTERAPIA EM ADULTOS PORTADORES DE
PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DE AUTISMO
descrita neste relatório foi realizada na CERCIBEJA, no âmbito do estágio curricular do
mestrado de Musicoterapia da Universidade Lusíada de Lisboa e foi especialmente orientada
para necessidades de âmbito cognitivo e de interação/integração social. Do ponto de vista dos
processos cognitivos trabalhou-se a percepção, a memória, a linguagem e o raciocínio, como
promotores de mecanismos de socialização e facilitadores dos processos de comunicação.
Paralelamente foram desenvolvidas atividades que pudessem contribuir para promover e
concretizar o bem-estar físico e psicológico nos utentes, dentro e fora da sessão.
O relatório está organizado em duas partes. Na primeira é caracterizada a instituição e
W
todos os sectores que a constituem, o tipo de população que abrange e que pretende
acompanhar, bem como os objetivos propostos para este tipo de população. O enquadramento
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teórico é composto por várias secções onde é abordada a necessidade e a importância da
inclusão na educação e a influência da música no desenvolvimento humano. A narrativa
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define a musicoterapia enquanto conceito inserido na Educação Especial em termos gerais,
focada no autismo em particular. A intervenção nesta perturbação contemplou três
PR
abordagens -desenvolvimental, humanista e comportamental, princípios que estão na base da
intervenção do método musicoterapêutico aplicado pela estagiária. A segunda parte comporta
uma secção metodológica onde é feita uma apresentação e descrição da amostra, bem como
dos instrumentos e procedimentos adotados. Integram esta segunda parte também a análise e
tratamento de dois estudo de caso, com as descrições dos utentes, do plano terapêutico
aplicado, da intervenção realizada e dos resultados observados, respetivas conclusões e
referências utilizadas. Nesta parte são igualmente referidos os projetos em que a estagiária se
envolveu no período em que esteve na instituição.
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
A INTERVENÇÃO DA MUSICOTERAPIA EM ADULTOS PORTADORES DE
PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DE AUTISMO
2. Caracterização da Instituição
A Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados de Beja
(CERCIBEJA) está sediada na Quinta dos Britos, a cerca de 2Km da cidade. Abrange a
população residente em Beja e também a que pertence a outros municípios do Baixo
Alentejo, nomeadamente Aljustrel, Alvito, Barrancos, Cuba, Ferreira do Alentejo, Mértola,
Moura, Serpa e Vidigueira.
Historicamente, as Cooperativas de Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados
(CERCI) surgiram em 1975, como consequência da iniciativa, empenho e generosidade de
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pais de crianças deficientes e de técnicos ligados à saúde, educação e intervenção social. O
movimento foi crescendo, criando oportunidades para as crianças e jovens que eram
IE
excluídas do convívio escolar e social onde estavam inseridas. Em 1978, foi criada a
CERCIBEJA. Inicialmente, os seus principais objetivos estavam direcionados
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exclusivamente para as crianças e jovens que apresentavam deficiências motoras, sensoriais
e/ou psicológicas e que, por estas razões, não conseguiam integrar-se no ensino regular. Em
PR
1980, a CERCIBEJA passa a ser pessoa coletiva de utilidade pública e cinco anos mais tarde
é considerada Cooperativa do Ramo do Ensino Especial de tipo misto. Em maio de 1999,
passa a ser Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados, C.R.L sendo
integrada no setor da Solidariedade Social.
A Organização assume como missão a defesa da cidadania e também a prestação de
serviços a pessoas socialmente excluídas ou em risco. Daqui resulta a importância em
estabelecer parcerias nacionais e locais, no sentido de melhorar a qualidade de vida,
promover a inovação e a sustentabilidade e o respeito pelos valores tidos como fundamentais
nas premissas da instituição. Nesta ordem de ideias, torna-se importante a aceitação do outro,
do ser individual enquanto ser humano, digno, diferente, mas possuidor de um conjunto de
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
A INTERVENÇÃO DA MUSICOTERAPIA EM ADULTOS PORTADORES DE
PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DE AUTISMO
características que o transformam em especial. A igualdade de género, o respeitar e saber
respeitar o que é seu e do outro, a autonomia que o indivíduo terá que ir adquirindo para que
cresça e se desenvolva como pessoa integra e responsável, capaz de participar, escolher e
decidir, são princípios fundamentais para todos os utentes. A privacidade, intimidade e a
confidencialidade são também ideais intrínsecos ao crescimento, formação e
desenvolvimento dos indivíduos enquanto seres autónomos que se pretende que sejam.
A instituição apoia também uma população de risco ou socialmente excluída com
determinadas patologias (adultos ou jovens adultos com pouca escolaridade, sem ocupação
W
profissional regular, subsidiados e às vezes com cadastro), para promover o seu bem-estar, a
sua valorização através da inserção social, profissional e familiar e também melhorar a sua
IE
qualidade de vida, nunca menosprezando o papel primordial da família na sua reabilitação.
A CERCIBEJA tem três tipos de Unidades de Prestação de Serviços (UPS) ou áreas
EV
funcionais que diferem quanto ao tipo de deficiência ou grau de dificuldade que os utentes
apresentam, nomeadamente a Qualificação e Emprego (QE), o Lar Residencial “Vidas
PR
coloridas“ (LRVC) e o Centro de Atividades Ocupacionais (CAO).
Dos muitos parceiros que colaboram com esta instituição destacam-se os Agrupamentos
de escolas do distrito de Beja, as associações de freguesias da cidade, Centro Regional de
Segurança Social de Beja, as autarquias da região, o Hospital Distrital de Beja e o seu
Departamento de psiquiatria e saúde mental, o Centro distrital de segurança social de Beja, a
rede distrital para a deficiência e outras entidades de solidariedade social.
2.1 Qualificação e emprego - QE
A valência da QE é um setor de formação profissional, constituído por uma equipa
multidisciplinar que atua junto de jovens com idade igual ou superior a 16 anos, adultos com
deficiência mental, sensorial, motora ou de outro nível, mas que revelem potencialidades para
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
A INTERVENÇÃO DA MUSICOTERAPIA EM ADULTOS PORTADORES DE
PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DE AUTISMO
o exercício de uma profissão. Esta intervenção é composta por ações de informação,
avaliação, orientação e formação profissional, com o objetivo de desenvolver as capacidades
e competências para uma futura integração no mercado de trabalho.
2.2. Lar residencial “ Vidas Coloridas “ - LRVC
A segunda UPS é o Lar Residencial “Vidas Coloridas” que é uma unidade de prestação
de serviços da CERCIBEJA, sem fins lucrativos, destinada ao acolhimento e atendimento de
pessoas com deficiências e incapacidades, que se encontrem impedidas de residir no seu
contexto familiar e que habitam principalmente nas áreas geográficas de intervenção da
W
CERCIBEJA. Este lar residencial é constituído por dois edifícios: o primeiro, construído no
final de 2007, com uma capacidade para 18 utentes e o segundo, terminado no final de 2012
IE
com uma capacidade para 20 utentes. O funcionamento desta unidade é assegurada por uma
equipa multidisciplinar, constituída por uma diretora técnica, uma psicóloga, uma assistente
EV
social, um encarregado geral, 18 ajudantes de ação direta, uma auxiliar de serviços gerais,
dois administrativos e dois motoristas.
PR
Tem como objetivos, acolher e atender jovens e adultos com deficiência mental ou
multideficiência, de idade não inferior a 16 anos, em situação de risco/exclusão social, e
também promover e disponibilizar condições que contribuam para uma vida com qualidade e
para uma melhor integração social. É neste contexto que a instituição incentiva e apoia um
público socialmente em risco, na defesa dos seus direitos de cidadãos, na sua inserção e
inclusão social e profissional e no seu bem-estar, através da prestação de serviços orientados
para a satisfação das necessidades dos clientes, de acordo com as suas expectativas. As
atividades propostas nesta unidade envolvem diferentes parceiros e contextos que juntos
convergem para a resolução de problemas de acordo com a especificidade dos utentes.
Sempre que possível, existe um acompanhamento técnico personalizado aos utentes para
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
A INTERVENÇÃO DA MUSICOTERAPIA EM ADULTOS PORTADORES DE
PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DE AUTISMO
promover a autonomia, bem-estar, estratégias de reforço, de integração com a família e com a
comunidade em geral. Também é feita a articulação com o CAO, pois existem utentes em
comum e complementaridade de serviços.
2.3. Centro de atividades ocupacionais - CAO
Desde 1991 que existe o CAO de onde fazem parte os portadores de deficiência mental
moderada e profunda, com idade igual ou superior a 16 anos. A instituição pode receber até
60 clientes (neste momento tem 59) com dois tipos de deficiência: aqueles cujas capacidades
não permitam, temporária ou permanentemente, ter uma atividade profissional, e outros que
W
carecem de apoios específicos e cuja situação não se enquadre no regime de emprego
protegido, nos termos da legislação em vigor.
IE
A nível de recursos humanos, este Centro conta com uma diretora técnica e psicóloga,
um técnico de serviço social, um técnico superior de educação especial e reabilitação, nove
EV
monitores de atividades ocupacionais, um auxiliar de atividades ocupacionais, dois
motoristas, um assistente administrativo, uma rececionista, um trabalhador agrícola, uma
PR
estagiária profissional na área de teatro, um estagiário profissional na área da engenharia
informática, um vigilante/apoio ocupacional, um vigilante/serviço de limpeza/apoio
ocupacional, duas pessoas no serviço de limpeza, um técnico na área de desporto e um
técnico de terapia assistida com animais na área da columbofilia.
O CAO tem como principais objetivos a educação, reabilitação e a integração social e
profissional de todos os seus utentes procurando desenvolver ao máximo as capacidades
existentes, facilitar a sua integração através da aprendizagem de cuidados básicos de higiene,
alimentação e tarefas diárias, e ainda fomentar a socialização através da realização de
atividades manuais, lúdicas ou culturais. Esta unidade de trabalho tem várias parcerias no
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
A INTERVENÇÃO DA MUSICOTERAPIA EM ADULTOS PORTADORES DE
PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DE AUTISMO
sentido de resolver os problemas e adequar os serviços à especificidade dos seus utentes,
centrando a sua intervenção na troca recíproca de aprendizagens úteis.
A admissão dos utentes à instituição é feita através de uma inscrição em modelo próprio.
Seguidamente, a equipa técnica especializada realiza uma avaliação diagnóstica com critérios
de pontuação, de acordo com uma matriz que obedece a critérios designados na lei e outros, e
estabelece uma hierarquização dos candidatos. O candidato recebe uma notificação para saber
se pode ser admitido ou não e, se houver vaga, é concretizado este procedimento. Caso
contrário, ficará em lista de espera. No caso de ser admitido, é inicialmente feito um contrato
W
com uma cláusula de 30 dias para que seja possível, em caso de necessidade, efetuar a
rescisão do mesmo. Após este prazo é novamente avaliado e realizada uma fase de
IE
acolhimento de acordo com as necessidades e motivação do utente. Posteriormente é
elaborado um relatório de acolhimento e de seguida um Plano Individual (PI) para cada
EV
utente, onde estarão implicadas todas as partes interessadas. O PI é elaborado em função das
necessidades, expectativas e situação familiar de cada um. Comtempla três grandes domínios:
PR
o desenvolvimento pessoal (relacionamento interpessoal); o bem-estar, do ponto de vista
emocional, físico e material; e a inclusão social no sentido da empregabilidade, cidadania,
direitos e deveres.
No CAO distinguem-se duas grandes áreas de intervenção: as atividades laborais e as
atividades ocupacionais. As atividades laborais, também designadas por Atividades
Socialmente Úteis (ASU), procuram a valorização pessoal e o máximo aproveitamento das
capacidades e potencial do indivíduo, no sentido de fomentar a sua autonomia, facilitando a
transição para os programas de integração socioprofissional. Estas atividades são
desenvolvidas nas instalações das entidades parceiras. Por outro lado, existem as atividades
estritamente ocupacionais, que visam manter a pessoa ocupada, ativa e interessada,
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
A INTERVENÇÃO DA MUSICOTERAPIA EM ADULTOS PORTADORES DE
PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DE AUTISMO
promovendo o seu equilíbrio, bem-estar físico, emocional e social. Estas atividades são
desenvolvidas em quatro áreas de intervenção de acordo com as potencialidades e motivações
dos utentes: duas têm uma vertente mais laboral e são denominadas atividades ocupacionais
produtivas; as outras duas têm um cariz mais ocupacional. Nas atividades ocupacionais
produtivas desenvolvem-se tarefas de forma a aproveitar as capacidades remanescentes dos
indivíduos, permitindo mantê-los ativos, úteis e ocupados.
No CAO são também desenvolvidas atividades noutras áreas, de acordo com as
motivações e competências dos utentes. Trabalha-se na área têxtil, promovem-se atividades
W
da vida diária e criam-se atividades de inclusão. São ainda desenvolvidas atividades na área
da motricidade, desporto e reabilitação. Na área da expressão dramática, fazem-se
IE
apresentações públicas e também se realizam exposições de trabalhos de pintura artística.
Existe ainda, para todos os clientes do CAO, a prestação de serviços de acompanhamento
EV
psicossocial, onde é prestado apoio psicológico individual ou em grupo, apoio social,
acompanhamento em consultas de clinica geral e/ou especialidades, acompanhamentos a
PR
exames clínicos, visitas domiciliárias ou institucionais, orientações às famílias e aos
colaboradores. Nesta UPS, todos os clientes usufruem de transporte da organização, de
vigilância e apoio nos períodos de almoço e lanches, e da gestão da farmacologia de acordo
com a prescrição médica.
Cada utente passa cerca de sete horas diárias na instituição, repartidas pelo período da
manhã e da tarde.
É nesta UPS que a estagiária interveio, aplicando as suas aprendizagens de musicoterapia
em alguns utentes.
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
A INTERVENÇÃO DA MUSICOTERAPIA EM ADULTOS PORTADORES DE
PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DE AUTISMO
3. Caracterização da População
Os principais destinatários desta associação são jovens adultos e adultos com idades
compreendidas entre os 18 e os 50 anos, portadores de um tipo de deficiência motora,
sensorial e/ou psicológica, psiquiátrica, mental moderada ou profunda que, por este motivo,
não se conseguem integrar temporária ou permanentemente no meio académico ou
profissional. Incluem-se nesta categoria, entre outros, indivíduos portadores de Síndrome de
Down, com perturbações do espectro do autismo, atrasos no desenvolvimento global,
deficiência motora e/ou intelectual e esquizofrenia. Constata – se também que existem alguns
W
indivíduos que apresentam características de mais do que uma patologia, como por exemplo,
Síndrome de Down e autismo. Há vários casos de irmãos com atrasos mentais e/ou físicos e
IE
também dois pares de gémeos portadores de Síndrome de Down.
A origem dos utentes que frequentam o CAO da CERCIBEJA é diversa. Se por um lado
EV
existem indivíduos que residem com a família em habitação própria, outros há que residem
no LRVC. Neste último caso existem utentes que não têm já familiares próximos com quem
PR
possam coabitar e outros cujas famílias não têm condições de vida que lhes permitam
proporcionar um ambiente saudável.
Maria Filomena Carepa Fernandes Guerreiro
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