Que silêncio esquisito — disse. — Parece que não tem mais ninguém no bangalô além de mim e da cobrinha.
Quase
imediatamente ouviu passos do lado de fora e depois na varanda. Eram passos de homens, que entraram no bangalô e
falavam baixo. Ninguém foi recebê-los ou falar com eles, e parecia que estavam abrindo as portas para olhar todos os
quartos. — Que tristeza! — Mary ouviu uma das vozes dizer. — Uma mulher tão, tão bela! E acho que a criança
também. Ouvi dizer que tinham uma filha, embora ninguém saiba dela. Mary estava em pé no meio do quarto quando
abriram a porta minutos depois. Era uma coisinha feia e malcuidada, sua testa estava franzida de fome e pela sensação
de completo abandono. O primeiro homem a entrar era um grande oficial que ela já vira antes conversando com seu
pai. Ele parecia cansado e confuso, mas quando a viu ficou tão surpreso que quase pulou para trás. — Barney! — gritou.
— Tem uma criança aqui! Uma criança sozinha! Em um lugar como este! Misericórdia, quem será? — Sou Mary Lennox
— disse a menininha, se aprumando. Achou que era grosseria o homem chamar o bangalô de seu pai de “um lugar
como este!”. — Fiquei dormindo quando todos estavam com cólera e acabei de acordar. Por que ninguém veio aqui? —
É a criança que ninguém tinha visto! — exclamou o homem para seus amigos. — Ela ficou aqui, esquecida! — Por que
eu fui esquecida? — disse Mary, batendo o pé. — Por que ninguém tinha aparecido até agora? O jovem, de nome
Barney, olhou para ela com muita tristeza. Mary até achou tê-lo visto piscar os olhos, como quando alguém tenta
segurar as lágrimas. — Pobre pequenina — disse —, não sobrou ninguém. Foi daquele modo estranho e repentino que
Mary descobriu que não tinha mais nem pai nem mãe; que eles haviam morrido e sido levados durante a noite, e que os
poucos empregados nativos que sobreviveram também haviam deixado a casa o mais rápido que puderam. Nenhum
deles sequer se lembrou de que existia uma Missie Sahib. Por isso o lugar estava tão quieto. E era mesmo verdade que
não havia ninguém mais no bangalô além dela e da cobrinha rastejante. CAPÍTULO 2. DONA MARY, SEMPRE IRRITADA M
ary gostava de olhar sua mãe de longe e a achava muito bonita, mas como sabia muito pouco sobre ela, mal podia
pensar em amor ou em sentir muito a sua falta. Na verdade, não sentia nenhuma saudade e, por ser uma criança
egoísta, todos os seus pensamentos eram somente para si, como sempre. Se fosse mais velha, sem dúvida estaria muito
nervosa por estar sozinha no mundo, mas ainda era muito jovem. Sempre se arranjara sozinha e, por isso, achava que
seria assim para sempre. Só o que se passava por sua cabeça é se agora seria encaminhada a pessoas gentis, que a
tratariam bem e que a deixariam fazer o que bem entendesse, como sua ama e os outros empregados nativos. Ela sabia
que não ficaria por muito tempo na casa do padre inglês para onde a levaram. O padre era pobre e tinha cinco filhos,
quase da mesma idade, que se vestiam com roupas puídas e viviam brigando e roubando brinquedos uns dos outros.
Mary odiava aquele lugar desarrumado e era tão mal-educada com eles que, depois do primeiro ou segundo dia,
ninguém mais queria brincar com ela. Já no segundo dia lhe deram um apelido que a deixou furiosa. Foi Basil quem teve
a ideia primeiro. Basil era um menininho de olhos azuis xeretas e nariz arrebitado. Mary o odiava. Ela estava brincando
sozinha debaixo de uma árvore, exatamente como fazia quando ocorreu o surto de cólera. Fazia bolinhos de terra e
desenhava no chão os caminhos de um jardim quando Basil chegou e parou perto dela. Ficou interessado na hora e já
foi dando palpites: — Por que você não faz uma pilha de pedras e coloca as flores entre elas? — sugeriu ele. — Assim,
no meio… — e abaixou-se para explicar. — Vá embora! — gritou Mary. — Não gosto de meninos. Suma! Por um
momento, Basil ficou furioso. Depois, passou a provocá-la. Ele sempre provocava suas irmãs. Começou a dançar em
volta dela, fazendo caretas enquanto cantava e ria: Dona Mary, sempre tão irritada, Em seu jardim não cresce nada, Só
flores-de-sino despetaladas E flores-de-defunto enfileiradas. 3 Cantou até que as outras crianças ouviram e riram junto.
Quanto mais Mary se zangava, mais eles cantavam “Dona Mary, sempre tão irritada”. Pelo tempo em que Mary
continuou com eles, era chamada de “Dona Mary, sempre tão irritada” quando falavam dela entre si e, às vezes, até
quando falavam com ela. — Vão te mandar pra casa neste final de semana — disse Basil. — A gente ficou bem feliz. —
Também fiquei feliz — respondeu Mary. — Onde fica essa tal casa? — Ela não sabe onde fica a própria casa! — zombou
Basil com seu sarcasmo de sete anos de idade. — Fica na Inglaterra, claro. Nossa avó mora lá e a Mabel, nossa irmã, foi
morar com ela no ano passado. Mas você não vai ficar com a sua avó, nem avó você tem. Vai ficar com o seu tio. O
nome dele é sr. Archibald Craven. — Nunca ouvi falar — disparou Mary. — Eu sei que não — respondeu Basil. — Você
nunca sabe de nada mesmo. Meninas nunca sabem de nada. Ouvi meu pai e minha mãe falando dele. Ele mora em uma
casa bonita, grande e longe, no interior, e ninguém chega perto dele. Ele é tão bravo que não deixa ninguém ir lá e,
mesmo se deixasse, ninguém iria. Ele é corcunda e horroroso. — Não acredito em você — disse Mary, dando as costas
ao menino e metendo os dedos nas orelhas para não ouvir mais nada. Mas depois Mary pensou muito naquilo. À noite,
quando a sra. Crawford contou que dali a alguns dias ela pegaria um navio para a Inglaterra, para ficar na Mansão
Misselthwaite com seu tio, o sr. Archibald Craven, a menina se esforçou tanto para parecer fria e desinteressada que
deixou todos confusos. Tentaram ser gentis, mas ela virava o rosto quando a sra. Crawford tentava beijá-la, e se
encolhia toda quando o sr. Crawford fazia um carinho em seu ombro. — Ela é uma criança tão sem graça — a sra.
Crawford comentou mais tarde, consternada. — A mãe era uma mulher tão linda, tinha uma excelente educação. Mas
Mary tem os modos mais repugnantes que já vi em uma criança. Os meninos a chamam de “Dona Mary, sempre
irritada” e, embora seja errado da parte deles, até entendo a brincadeira. — Talvez se a mãe tivesse levado sua beleza e
sua educação com mais frequência ao quarto de Mary, a criança teria aprendido a ser uma pessoa melhor. É muito triste
lembrar que muitas pessoas sequer sabiam que a mulher tinha uma filha. — Acho que a mãe mal olhava para ela —
suspirou a sra. Crawford. — Quando sua aia morreu, não sobrou ninguém para cuidar da coitadinha. Imagine os criados
fugindo e abandonando a menina no bangalô deserto! O coronel McGrew contou que ficou completamente sem ação
quando abriu a porta e a encontrou ali parada, no meio do quarto. Mary fez uma longa viagem à Inglaterra, sob os
cuidados da esposa do oficial, que levava os próprios filhos para um internato. A mulher dava muito mais atenção aos
seu filho e filhinha, e estava mais que feliz em entregar Mary à criada que a encontraria em Londres a mando do sr.
Archibald Craven. A criada se chamava sra. Medlock e era a