Onde? — No Saloon da Rose — repetiu Oates.
Riley olhou-o com atenção, tentando descobrir se realmente o amigo
falava sério. — Não, Oates, de jeito nenhum — comentou, quando percebeu que sim. — E por que não? Já estivemos lá
antes... — Ainda tenho a cicatriz nas costas da garrafada que levei, quando você cismou de não prestar continência
àquela bandeira esfarrapada na parede. — Ora, Riley, eu não podia. Jurei minha lealdade à União. De repente, na janela
que dava para um beco ao lado da delegacia, alguém bateu levemente. Os dois delegados se olharam e sacaram seus
Colts ao mesmo tempo. — Oates! — chamou alguém lá fora. O delegado se aproximou da janela e, quando ia abrí-la,
uma voz feminina sussurrou lá de fora. — Não, não abra, delegado! Oates sentiu suas velhas cicatrizes doerem,
alertando-o para um perigo muito próximo e muito mais perigoso que um tiro de Winchester. Conhecia aquela voz, por
mais que ela tentasse disfarçála. — O que deseja? — indagou ele. — Oates — disse a voz feminina. — Se for passar pela
via férrea esta noite, olhe no telhado da loja de ferragens. — É você? Um riso surpreso e ao mesmo tempo envaidecido
se ouviu do outro lado. — Por favor, não abra a janela nem me siga, delegado. Pode pôr a minha vida em perigo —
murmurou ela. Oates ficou ali, colado à janela, tendo a certeza de que aspirava o perfume dela, mas nada podia fazer. A
mulher tinha razão. Toda e qualquer ação da parte dele poria a vida dela em perigo. — O que houve, Oates? — indagou
Riley. — Acho que já demoramos demais para fazermos nossa última ronda, Riley. — Era ela? — Com certeza. — Quem
pode querer sua cabeça tanto assim, a ponto de querer matar um delegado federal? — Tem que ser mais do que
pessoal, Riley. Vamos ver se descobrimos o que é... Riley apanhou sua espingarda, uma bandoleira cheia de cartuchos, e
seguiu-o. — Desconfio, Riley, que há muita gente que não gosta de nós nesta cidade, não acha? — É... Acho que você
tem razão — concordou Riley, seguindo-o. — Esta noite estava calma demais para o meu gosto mesmo. Detesto o
sossego, a paz, a tranqüilidade e a felicidade... Uma tensão já conhecida instalou-se nos dois delegados federais. Alguma
coisa estava acontecendo na cidade. Uma coisa estranha que estava tirando das ruas os rebeldes brigões e deixando
apenas os ianques provocadores à procura de encrenca, sem encontrar. Teria sido isso que os levara a armar aquela
emboscada? Seria uma forma daqueles malditos se divertirem? Oates sabia muito bem que havia muitos ianques
veteranos de guerra que não conseguia ir para a cama sem quebrar algumas cabeças confederadas. Desde o término da
guerra e com a chegada dos vencedores, Atlanta jamais fora daquele jeito. Podia-se sentir no ar que alguma coisa estava
para acontecer. Era a mesma sensação que precedia as batalhas, na guerra de que haviam participado. — Já percebeu,
Riley? Já fizemos esta ronda dezenas de vezes, mas nunca é a mesma coisa. Nunca sabemos o que vamos encontrar pela
frente, não? — Se não fosse pelos avisos que ela nos manda, já teríamos morrido há muito tempo, não? — Com certeza!
— — E o que acha que está havendo na cidade? O que significa essa trégua? — Significa muita encrenca a caminho,
pode ter certeza — falou Oates, verificando a barrigueira de seu cavalo, apertando-a bem firme, depois montando. Riley
fez o mesmo. — Como vamos enfrentar essa? — indagou Riley, acomodando a espingarda no coldre da sela. — Vamos
ver o cenário da batalha primeiro — falou Oates, pondo seu cavalo para andar. Não rumaram direto para a rua paralela
à via férrea, onde era a divisa entre os dois territórios da cidade. Foram para a rua que ficava atrás da loja de ferragens.
Oates parou seu cavalo e desceu, levando sua Winchester. — O que vai fazer? — indagou Riley. — Vamos ver como
estão as coisas. Riley desceu e seguiu-o. Aproximaram-se e entraram num beco de onde podiam observar o telhado da
loja de ferragens. — Vê alguma coisa? — indagou Riley. — Se está lá, está imóvel e muito bem escondido. Vamos ter de
fazê-lo sair de lá, Riley. — Como quer fazer? — Vou ficar aqui e você retorna até o começo da rua. Avança devagar.
Quando o bastardo lá encima pôr o nariz para fora, eu o acerto... — E se houver mais de um lá? — Eu tenho uma
Winchester, acerto os dois, não se preocupe. — Ok, Oates! Vou voltar a fazer o que me pede. Enquanto Riley retornava
até os cavalos, Oates procurou a melhor posição para apoiar sua Winchester, no beco. Dali, no escuro, podia observar
todo o telhado da loja sem ser visto. Não via sinal de ninguém lá. Subitamente, porém, viu a chama de um cigarro
ardendo no alto do telhado. Aquela brasa indicava a presença de alguém lá. Engatilhou a Winchester e esperou, atento
a qualquer movimento. Riley já devia estar no começo da rua. A qualquer momento alguém teria de surgir lá em cima.
— Bastardo filho da mãe! — murmurou ele, quando uma cabeça surgiu lá encima, com um fuzil na mão. Um homem
alto, usando chapéu, apontou no alto do prédio, olhando a rua. Depois abaixou- se para, em seguida, tomar posição de
tiro com seu fuzil. Pelos movimentos de mão que fez, Oates percebeu logo que se tratava de uma arma especial. Sabia
de que tipo era. Os soldados sulistas haviam usado muito aquelas armas no fim da guerra. Eram armas de longo alcance,
com luneta rudimentar e projéteis especiais. Riley estava em perigo, porque poderia ser atingido de longe. Tratou de
agir rápido. Mirou cuidadosamente e disparou. Viu o chapéu voar para cima, levando junto parte da cabeça do atirador.
Riley esporeou seu cavalo e avançou em disparada, ao ouvir o tiro. — Você o pegou? — indagou, saltado do cavalo com
sua espingarda engatilhada e pronta para disparar. Oates havia corrido esconder-se atrás de um bebedouro, olhando o
telhado atentamente. — Sim, arranquei a cabeça do bastardo. — Algum sinal de mais alguém? — Não, havia apenas
um. Vou subir lá para verificar. Fique aqui e me dê cobertura. Oates atravessou a rua e entrou no beco atrás do prédio.
Havia uma escada ali. Enroscou a correia da Winchester no ombro e começou a subir. Tudo estava em silêncio ao redor.
Oates estava achando tudo aquilo muito estranho. Viu o corpo caído no telhado. Não precisaria chegar perto para ver
que faltava-lhe parte da cabeça. Mesmo assim foi até lá. Estava interessado em algo. Junto ao corpo havia um fuzil
especial para atiradores de emboscada, com mira telescópica, semelhantes aos usados pelos nortistas, como ele
deduzira. Conhecia aquela arma muito bem. Apenas se ouvia seu som ao longe e um corpo caía em algum lugar ao
redor deles. Quem estivesse na mira dele no momento do disparo dificilmente escaparia. A caixa de projéteis junto ao
rifle mostrava o tipo de bala empregada e sua procedência: Exército dos Estados Unidos. — Bastardos! — murmurou
ele, sem entender, inclinando-se para examinar o rifle. — Tudo bem, Oates? — indagou Riley, surgindo no telhado. —
Sim, só havia um. Conhece este tipo de arma? — indagou Oates. — Sim, usei uma na guerra. É infalível. De lá de cima
Oates ficou olhando as pessoas que saíam à rua, nos dois lados da cidade, observando e tentando adivinhar o que havia
acontecido. Oates ficou pensando como alguém conseguiria aquela arma e a munição, exclusivas do Exército da União.
E por que se daria ao trabalho de preparar uma emboscada como aquelas. Quem estava por trás de tudo aquilo? Quem
o desejava morto? E por quê? Tudo isso apenas confirmava para ele que alguma coisa estranha, muito estranha,
acontecia em Atlanta. E só havia uma forma de começar a encontrar as respostas.