pois o delegado federal não perdia uma oportunidade para alfinetá-lo por sua medíocre participação na guerra.
Robert
empalideceu e todo o seu corpo enrijeceu. Mesmo assim, ele não perdeu o controle. Num momento como aqueles valia
a pena manter a calma. Começar uma briga com o delegado ali dentro poderia pôr a perder todo o plano. Oates deu-lhe
lentamente as costas e rumou para o balcão. Ele e Riley foram ocupar uma das pontas, de onde podiam observar todo o
saloon, sem ninguém atrás deles. Os homens que bebiam por perto se afastaram. Ele fez um sinal, pedindo que Burt o
— Eu cuido disso — antecipou-se Rose, apanhando uma garrafa de seu pior uísque. — Quero do outro — exigiu Oates,
quando ela se aproximou. Ela demonstrou sua contrariedade pela careta em seu rosto e recuou, apanhando outra
garrafa. Serviu os dois. — Fico contente em ver que está bem... — disse ela com sua voz de mulher apaixonada,
fazendo-o arrepiar-se dos pés à cabeça. — Você se arriscou muito... Como soube da emboscada? — O xerife me contou.
Alguma coisa vai começar a acontecer. — Precisamos conversar a sós, de alguma forma... — pediu ele. — Não posso...
Pode ser muito perigoso... Você deve tomar muito cuidado de agora em diante. Eles vão tentar matá-los. — Quem? —
Ninguém sabe... Quando você sair, fique atento a quatro cavaleiros. Estão no seu encalço... Os dois conversavam como
se Oates estivesse dizendo gracejos a ela, que demonstrava contrariedade no rosto. Só Riley, ao lado, podia perceber o
verdadeiro conteúdo da conversa. Seu olhar estava vigiando o saloon. Via todos aqueles homens ansiosos para ter um
pretexto e partir para cima deles. A única coisa que parecia mantê-los em calma era Robert, ainda em pé junto à
bandeira, conversando com seus amigos e a espingarda que ele, Riley, segurava ostensivamente. — É melhor eu me
afastar ou você começará a ter problemas com meus fãs. — Preciso saber mais sobre o que está acontecendo. — Eu o
aviso quando tiver mais informações — arrematou ela, saindo de perto deles. — O que acha, Oates? — Ainda não sei.
Vamos investigar isso mais a fundo. O problema agora é que há alguém lá fora a nossa espera — disse. — E o diabo é
que estou apenas com o meu Colt... — Estou com minha espingarda aqui, não se preocupe. Quando sairmos eu lhe dou
cobertura, até que pegue a Winchester. — Vamos terminar nossa bebida e sair logo daqui. O clima está ficando cada vez
mais pesado — observou Oates. — Fiquei curioso com uma coisa, Oates — disse Riley. — Se não são os rebeldes que
nos caçam, quem poderá ser? — Se descobrirmos de onde veio aquele fuzil ianque teríamos uma resposta. — Pensei
nisso também. Se os rebeldes não são os responsáveis, acho bom começarmos a considerar que nossos inimigos estão
no meio dos ianques. — É isso que me preocupa. Se somos hostilizados pelos sulistas e caçados pelos nortistas, estamos
no inferno, meu amigo. No inferno e não sabemos o momento em que seremos apresentados ao demônio em pessoa —
comentou Oates, examinando disfarçadamente a carga de seu Colt. — Vamos sair? — Sim. Eu saio na frente. Você fica
na porta, de olho. Quando eu chegar ao meu cavalo e empunhar a Winchester, você sai e vai ao meu encontro. Ok? —
Ok! — confirmou Riley, verificando a carga da espingarda e retirando dois cartuchos da bandoleira e deixando-os de
reserva na mão. Oates deixou uma moeda sobre a mesa. Caminharam na direção da porta. Robert olhou o rosto de
Rose, que demonstrava toda a sua expectativa, confirmando que havia contado a Oates sobre a emboscada. Pela
maneira como os dois federais rumavam para a porta, percebia-se a cautela e a tensão em seus rostos. Oates adiantou-
se, saindo rapidamente e caminhando na direção onde estava seu cavalo. Riley parou na porta, com a espingarda pronta
para atirar. Olhou para os lados. Diante do saloon havia um beco. Riley teve certeza que viu algo brilhar ali, mas hesitou.
Não podia disparar sem um motivo justo. Poderia matar um inocente. Seu amigo chegou no cavalo e começou a sacar a
Winchester. Riley adiantou-se, olhando nas duas direções, enquanto caminhava ao encontro de Oates. Naquele
momento, línguas de fogo brotaram do beco e os projéteis passaram assobiando ao redor dele, indo encravar-se na
parede do saloon. — No beco! — gritou Riley, atirando-se ao chão, protegendo-se atrás dos cavalos amarrados no
travessão. Oates fez o mesmo. Uma dezena de disparos foram feitos numa seqüência atordoante, depois o silêncio
dominou a rua. Momentos depois, o tropel de cavalos indicava que os atacantes haviam se afastado. Os dois se
levantaram, espanando a poeira das roupas. Rose foi a primeira a deixar o saloon. Ao vê-los com vida, respirou aliviado,
levando as mãos ao peito. — Está tudo bem, pessoal! Eles não tinham muita pontaria — comentou Oates, guardando a
Winchester na sela. Montou seu cavalo, imitado por Riley. Robert Woodfarm estava parado na porta, olhando-os e sua
expressão não era de desapontamento. Parecia satisfeito e isso Oates não entendeu. — Vamos tentar seguí-los? —
indagou Riley. — Aqui, no setor sulista da cidade? Jamais os encontraríamos e eles teriam facilidade para nos preparar
nova emboscada.
Não estou gostando nada disso, Oates. Esse negócio de servir de alvo não me agrada nem um pouco. — Paciência, meu
amigo! Vamos descobrir quem está por trás disso tudo — afirmou Oates, esporeando seu cavalo. Os dois delegados já
haviam se afastado, quando chegou o xerife. Ao ver Robert, foi ter com ele na mesa onde bebia com seus amigos. —
Puxe uma cadeira, xerife! — convidou-o. O xerife se sentou, cheio de curiosidade. — E então? — indagou. — Tudo
perfeito, xerife. — Eles não desconfiaram? — Nem um pouco. — E Rose? — Perfeita em seu papel. — Ela vai ser muito
útil para nós, despistando os federais, enquanto agimos. Estive com alguns compradores de terras no hotel hoje à noite.
Amanhã vai haver o leilão da Fazenda Graceland. Algumas das carteiras mais abarrotadas do Estado estarão lá. —
Excelente, xerife! Poderemos dar nosso primeiro golpe amanhã, então. — Sim, a operação já está toda montada. Eu e
meus rapazes estaremos montando guarda, mas não haverá reação. Os homens chegarão no início do leilão, roubarão
todos que estiverem lá, depois fugirão para o outro lado do rio. Um emissário será mandado para cá, para trazer o
produto do roubo. — Ótimo! Vamos escondê-lo na adega do saloon. Rose já concordou. — Acha que poderemos confiar
nela quanto a isso? Se ela contar ao delegado federal, perderemos todo o nosso tesouro. — Não se preocupe quanto a
isso. Rose é fiel à Confederação. Seu único mal foi apaixonar- se por Oates. Enquanto não fizermos mal a ele, ela se
manterá do nosso lado, ajudando-nos como fez durante toda a guerra. — Espero que tenha razão quanto a isso. —
Tenho, não se preocupe. É uma pena que meu pai não possa estar presente. Ele iria adorar ver a cara desses ianques,
enquanto entregam suas carteiras. — Pois eu vou ter essa felicidade. Depois eu conto a ele — falou o xerife e todos
riram. No outro lado do salão, Rose servia alguns cowboys que acabavam de chegar, mas mantinha-se atenta ao que se
passava lá na mesa, agora que o xerife chegara. Não estava se sentindo muito segura a respeito deles. Pareciam não
estar lhe contando toda a verdade. Havia alguma coisa no ar que ela não conseguia entender. A começar por aqueles
atentados contra os dois delegados federais. Como o xerife e Robert haviam tomado conhecimento disso? Sua intuição
feminina lhe dizia que não estavam lhe contando toda a verdade a respeito daquele plano de resistência contra a
dominação dos ianques. Roubar dos malditos ianques para ajudar os compatriotas rebeldes era uma ação meritória,
segundo ela. Só que, agora, não se sentia tão segura a respeito disso.