Psiquiatria
clássica e
dinâmica
A clínica
psiquiátrica
no período
clássico
• O século XIX foi marcado pela urgente necessidade de introduzir
critérios de validade e objetividade das inúmeras nosologias e
nosografias a partir da obra de Pinel e do sonho positivista de
desvendar incógnitas da psicopatologia e do complexo objeto: o
alienado mental.
• A doutrina pineliana derivava coerentemente de um critério geral
de definição e de classificação que se apoiava
epistemologicamente na suposição moralista e pedagógica de
repressão das más tendências e encorajamento das boas virtudes
com vistas à reinserção social do paciente, mas os resultados das
coerções morais nem sempre traziam os resultados desejados.
• Os pontos de vista divergentes conflitavam tanto em relação à
nosografia, à distribuição da loucura em gêneros, espécies e
subespécies, quanto em relação às modalidades terapêuticas
baseadas nas diferentes teorias nosológicas.
• A busca de correlatos orgânicos era o principal objetivo da ciência
neuropsiquiátrica do final do século XIX.
• A concepção organicista da loucura da segunda metade do século
XIX enfatizava a ação dos fatores causais precipitantes ou
determinantes sobre o “terreno orgânico” - o sistema nervoso.
• O postulado organicista reinante era o de que a essência da
loucura ou seu substrato orgânico é uma “lesão” neuroanatômica
(estrutural) ou neurofisiológica (funcional).
• Os postulados principais do organicismo desta época podem ser resumidos
do seguinte modo:
1) não há um aparelho psíquico ou um substrato do gênero;
2) as causas morais (afetivas) não produzem diretamente a loucura mas agem
sobre o substrato de causas predisponentes, isto é, sobre o cérebro;
3) as causas primárias da loucura são os processos de natureza orgânica,
como o sexo, a idade, a regularidade da atividade sexual, etc;
4) fatores causais morais como as emoções, os desejos, as frustrações, etc.,
podem incidir indiretamente sobre o sistema nervoso predisposto e
desencadear secundariamente a loucura.
• Desconsideravam qualquer explicação metafísica ou puramente
psíquica, já que a psique era uma entidade teórica que não se
submetia à uma necropsia, por ser de natureza “espiritual”.
• A preocupação de simplificar e purificar as descrições clínicas
decorria de uma concepção em que as anomalias congênitas,
precocemente adquiridas, seriam elaborações patológicas da
atividade psíquica cerebral, o que resultava na difícil conciliação
de dois pontos de vista conceituais da psiquiatria: a concepção
organicista clássica e a concepção psicodinamicista moderna.
• O insucesso do projeto clínico clássico e de sua elaboração
teórica não ocorreu pela decomposição analítica exaustiva dos
quadros psicopatológicos em elementos simples e sim pela falta
de uma solução satisfatória, ou então pela falta de solução do
problema diagnóstico, isto é, da falta de uma compreensão sobre
a natureza causal e estrutural do distúrbio psicopatológico, assim
como da falta de entendimento sobre o prognóstico ou a previsão
evolutiva da doença e do doente.
A PSIQUIATRIA
MODERNA E A
ERA PSICODINÂMICA
• A grande mudança da psiquiatria francesa do início do século XX
girou em torno do problema das “neuroses” com a “doutrina das
constituições mórbidas”, que seria desenvolvida por Ernest Dupré
em sua obra intitulada “Patologia da Imaginação e da Emoção”
• Tudo o que era obra da lesão, do acaso ou do desconhecido, na
visão clássica, agora se tornava a expressão de ações psíquicas
mobilizadas pelas pulsões, desejos, aversões, medos, recusa da
realidade ou reação a algo vivido ou esperado.
• A psicanálise surgiu como uma teoria do “aparelho psíquico”, um
método de investigação do psiquismo humano e dos processos
inconscientes desconhecidos, além de uma técnica de
tratamento das doenças mentais.
• Preencher uma lacuna científica no âmbito da psicologia e da
psicopatologia, ligando a medicina à filosofia da mente e à
epistemologia da neurociência e da psicopatologia.
• A psicanálise freudiana foi muito criticada pela sua suposta
tendência reducionista com sua ênfase na etiologia sexual das
neuroses e a uma igualmente suposta prática baseada em
pressupostos equivocados.
• Um segundo movimento surgiu em 1904 na Suíça na Universidade
de Zurique com Eugen Bleuler (1857-1939) e Carl Gustav Jung
(1875-1961), a partir de algumas ideais de Sigmund Freud (1856-
1939) com o intuito de uma compreensão mais dinâmica das
psicoses.
• Em 1906, Bleuler publicou seu livro sobre a Paranóia e Carl Gustav
Jung, a obra “A Psicologia da Demência Precoce: um ensaio”
• A principal contribuição conceitual de Bleuler foi o termo
esquizofrenia e caracterização da essência da esquizofrenia -
incorporando nela as contribuições da psicanálise freudiana e
estabelecendo uma hierarquia de sintomas fundamentais simples
e complexos ao lado de sintomas acessórios.
• Jung pelos conceitos de complexo, de arquétipo e de inconsciente
coletivo.
• “Como dissemos, a conexão entre os achados anatômicos e o
quadro psicológico da doença é de tal modo fraca que devemos
examinar a fundo os aspectos psicológicos da doença, o que
raramente se tem feito até hoje”. (Jung)
• O organodinamismo de Henri Ey constituiu a última e a mais
importante tentativa da psiquiatria de teorizar e explicar a
patologia mental através de uma concepção ampla e global
(holista).
• Organodinamismo não tem o significado de organicismo ou de
orgânico, e sim de “organização”, sendo que a palavra inteira
remete à organização dinâmica do sujeito ao longo de sua
existência, vista como uma autoconstrução contínua.
• Fenomelogia:
• Karl Jaspers (1883-1969), a partir de sua importante obra
intitulada “Psicopatologia Geral”, faz uma crítica
conceitual sistemática da psicopatologia e propõe uma
classificação “não dogmática”.
• Os próprios doentes tinham dificuldades de explicar as
suas próprias vivências subjetivas, a si mesmos e a seus
psiquiatras; daí, a impropriedade de qualquer tentativa de
interpretação literal das elaborações delirantes ou de
suas incoerências aparentes.
• Minkowski - O que o método fenomenológico procura
principalmente evitar é uma explicação baseada numa teoria
unilateral ou numa posição teórica mecanicista, estática e
reducionista, que queira explicar o todo pela generalização de
uma de suas partes.
• Coloca como um ponto crucial no entendimento da loucura que
“não é mais ‘ser doente’ que serve em primeiro lugar de porta de
entrada às nossas investigações, mas ‘ser diferente’
• O doente mental, nesse sentido, é um ser radicalmente diferente
dos demais, inserido num modo de existência particular que
apresenta uma natureza fenomênica diferente, cujas
características essenciais devem ser estudadas antes de se
procurar estabelecer explicações causais.
• O autismo é fenomenologicamente definido por Minkowski como
um distanciamento da vida ambiente com uma possível falha na
capacidade de intuição e de vivência do tempo, além de uma
predominância compensatória, relativa ou absoluta, da vida
interior. O autismo é, portanto, quase sinônimo de “interiorização”
e, de certa forma, os esquizofrênicos seriam
fenomenologicamente sonhadores vigís ou imaginadores
excessivos.
• A neuropsicologia tem início a partir de 1970 e passa a englobar o
estudo dos mecanismos neuronais dos quais depende o
comportamento humano. Uma tentativa de aproximação ou
correlação entre as patologias associadas a lesões cerebrais e
algumas síndromes psiquiátricas.
• Lantéri-Laura divide artificialmente a evolução psiquiátrica em quatro grandes períodos históricos, a saber:
• 1) Período Pré-clássico da alienação mental (1793-1854): “a loucura”, no singular, é concebida homogeneamente como
uma única enfermidade mental, ainda que podendo se apresentar sob quatro formas distintas ou aspectos
psicopatoplásticos: mania, melancolia, idiotismo e demência;
• 2) Período Clássico das enfermidades mentais (1854-1926): “as doenças mentais”, no plural, são concebidas
heterogeneamente por várias espécies mórbidas naturais, autônomas e irredutíveis entre si, e respaldadas pela
cientificidade do método anatomoclínico e pela semiologia ativa;
• 3) Período Moderno (1926-1977): os distúrbios mentais são concebidos pelos conceitos operatórios de estrutura de
personalidade (análise fenomeno-estrutural de Minkowski, psicanálise de Freud, construtivismo sintético de Jung,
organodinamismo de Henri Ey, etc.;
• 4) Período Pós-moderno ou “Ateórico” (1977 em diante): os transtornos mentais não são concebidos por nenhuma
teorização específica, homogênea ou heterogênea; adota-se uma postura pretensamente ateórica, na esperança de que
os avanços das pesquisas neurobiológicas e neurofarmacológicas venham clarear o panorama caótico do campo
psicopatológico.
Período Pré-clássico
• Philippe Pinel (1745-1826)
• Franz Joseph Gall (1758-1828)
• Jean-Étienne Dominique Esquirol (1772-1840)
• Johann Christian August Heinroth (1773-1843)
• Johann Friedrich Herbart (1776-1841)
• Étienne-Jean Georget, Joseph Guislain (1797-1860)
• Jules Baillarger (1809-1890)
• Wilhelm Griesinger (1817-1868)
PERÍODO CLÁSSICO
• Jean-Pierre Falret (1794-1870) • Jean-Martin Charcot (1825-1893)
• Antoine Bayle (1799-1858) • Valentin Jacques Joseph Magnan
• Gustav Theodor Fechner (1801-1887) (1835-1916)
• Benedict Augustin Morel (1809-1873) • Moritz Benedikt (1835-1920)
• Jules Baillarger (1809-1890) • Jules Cotard (1840-1887)
• Charles Ernest Lasègue (1816-1883) • Richard von Kraft-Ebing (1840-1903)
• Karl Ludwig Kahlbaum (1816-1883) • Ewald Hecker (1843-1909)
• Jules Ph. J. Falret (1824-1902) • Emil Kraepelin (1856-1926)
• Jules Séglas (1856-1939)
PERÍODO MODERNO
• Ambroise Liébault (1823-1904) • Gatian Gaëtan de Clérambault (1872-1934)
• Hippolyte Bernheim (1840-1919) • Carl Gustav Jung (1875-1961)
• Joseph Breuer (1842-1925) • Ludwig Binswanger (1881-1966)
• August Forel (1848-1931) • Karl Jaspers (1883-1969)
• Emil Kraepelin (1856-1926) • Hermann Rorschach (1884-1922)
• Sigmund Freud (1856-1939) • Eugène Minkowski (1885-1972)
• Joseph Babinski (1857-1932) • Ernst Kretschmer (1888-1964)
• Eugen Bleuler (1857-1939) • Percival Bayle (1892-1973)
• Pierre Janet (1859-1947) • Henri Ey (1900-1977)