Funções psíquicas
elementares e suas
alterações no
exame do estado
mental
Não existem funções psíquicas isoladas e alterações
psicopatológicas compartimentalizadas desta ou daquela
função.
É sempre a pessoa na sua totalidade que adoece.
Funções psíquicas no exame do
estado mental
FUNÇÕES MAIS AFETADAS NOS FUNÇÕES MAIS AFETADAS FUNÇÕES MAIS
TRANSTORNOS PSICO- NOS TRANSTORNOS DO HUMOR E DA AFETADAS
ORGÂNICOS PERSONALIDADE NOS
TRANSTORNOS
PSICÓTICOS
Nível de consciência Afetividade Sensopercepção
Atenção* Vontade Pensamento
Orientação Psicomotricidade Juízo de realidade
Memória Personalidade Vivência do Eu e
Inteligência alterações do self
Linguagem**
*Também nos quadros afetivos (mania, principalmente).
**Também nas psicoses.
1. Alterações patológicas quantitativas da consciência:
rebaixamento do nível de consciência
• Consciência, aqui, é fundamentalmente o estado de estar desperto,
acordado, lúcido.
• Os diversos graus de rebaixamento da consciência são:
1) obnubilação 2) torpor 3) sopor 4) coma
• Vários fatores e condições médicas e/ou psicopatológicas podem
produzir a perda abrupta da consciência. Tal perda pode ser causada
por fatores emocionais, neurofuncionais ou orgânicos de diversas
naturezas. Podem também ser rapidamente reversíveis ou irreversíveis,
indicando quadros orgânicos mais graves.
2. A atenção e suas alterações
• A atenção pode ser definida como a direção da consciência, o
estado de concentração da atividade mental sobre determinado
objeto.
• Os termos “consciência” e “atenção” estão estreitamente
relacionados.
2. A atenção e suas alterações
• A alteração mais comum e menos específica da atenção é sua
diminuição global, a chamada hipoprosexia.
• Nessa condição se verifica uma perda básica da capacidade de
concentração, com fatigabilidade aumentada, o que dificulta a
percepção dos estímulos ambientais e a compreensão;
• Lembranças tornam-se mais difíceis e imprecisas, e há
dificuldade crescente em todas as atividades psíquicas
complexas, como o pensar, o raciocinar e a integração de
informações.
2. A atenção e suas alterações
• Hiperprosexia consiste em um estado da atenção exacerbada,
no qual há uma tendência incoercível a obstinar-se, a deter-se
indefinidamente sobre certos objetos com surpreendente
infatigabilidade.
• Aprosexia a total abolição da capacidade de atenção, por mais
fortes e variados que sejam os estímulos utilizados.
• Distração X Distraibilidade
2. A atenção e suas alterações
• TDAH: dificuldade marcante de direcionar e manter a atenção a
estímulos internos e externos.
• Quadros maníacos: diminuição marcante da atenção voluntária.
• Quadros depressivos: com muita frequência há diminuição
geral da atenção, ou seja, hipoprosexia.
• Esquizofrenia: o déficit de atenção também é muito importante.
A inadequada filtragem de informação irrelevante é uma
dificuldade comum em pacientes com o transtorno.
3. A orientação e suas alterações
• A avaliação da orientação é um instrumento valioso para a
verificação das perturbações do nível de consciência, da
percepção, da atenção, da memória e de toda a cognição.
• As alterações da orientação também podem ser decorrentes de
déficits cognitivos graves (como nas demências) e de qualquer
transtorno mental grave que desorganize de modo marcante o
funcionamento mental global.
3. A orientação e suas alterações
• Geralmente a desorientação ocorre, em primeiro lugar, em
relação ao tempo.
• Só após o agravamento do transtorno o indivíduo se desorienta
quanto ao espaço e, por fim, quanto a si mesmo.
3. A orientação e suas alterações
• Orientação autopsíquica é aquela do indivíduo em relação a si
mesmo. Revela se o sujeito sabe quem é: seu nome, idade,
profissão, estado civil, com quem mora, etc.
• Orientação alopsíquica diz respeito à capacidade de orientar-se
em relação ao mundo, isto é, quanto ao espaço (orientação
espacial ou topográfica) e quanto ao tempo (orientação
temporal).
Semiotécnica da orientação e suas
alterações
Orientação Orientação Orientação
temporal: espacial: autopsíquica:
Que dia é hoje? Qual o dia da semana? Qual o dia Onde estamos? Como se chama a Quem é você? Qual o seu nome? O que
do mês? Em que mês estamos? Em que ano cidade em que estamos? E o bairro? faz? Qual a sua profissão? Quem são
estamos? Qual a Qual o caminho e quanto tempo leva seus pais? Qual a sua idade
época do ano (começo, meio ou fim do ano)? para (verificar a idade real do paciente)? Qual
Aproximadamente que horas são agora? Lembrar- vir de sua casa até aqui? Que edifício é o seu estado civil?
se de que alguns este (hospital, ambulatório, consultório,
sujeitos com baixa escolaridade (menos de oito etc.) em que estamos? Em que
anos) podem, eventualmente, apresentar andar estamos?
dificuldades na orientação
temporal e, sobretudo, nas noções de duração e
continuidade temporal (Anthony; Le Resche; Niaz,
1982).
4. A sensopercepção e suas alterações
Nas alterações quantitativas, as imagens perceptivas têm
intensidade anormal, para mais ou para menos, configurando:
• Hiperestesias: anormalmente aumentadas em sua intensidade
ou duração.
• Hipoestesias: anormalmente diminuídas em sua intensidade ou
duração.
• Hiperpatias: quando uma sensação desagradável (geralmente de
queimação dolorosa) é produzida por um leve estímulo da pele.
4. A sensopercepção e suas alterações
• Anestesias: perda da sensação tátil em determinada área da
pele.
• Analgesias: perda das sensações dolorosas de áreas da pele e
partes do corpo.
• Parestesias: são sensações táteis desagradáveis, em geral
espontâneas, descritas pelos pacientes como “formigamentos,
adormecimentos, picadas, agulhadas ou queimação” mais ou
menos intensas.
4. A sensopercepção e suas alterações
• As alterações qualitativas da sensopercepção são as mais
importantes em psicopatologia.
• Ilusões, as alucinações e a alucinose.
4. A sensopercepção e suas alterações
• Ilusão: caracteriza pela percepção deformada, alterada, de um
objeto real e presente. Estados de rebaixamento do nível de
consciência, estados de fadiga grave, alguns estados afetivos.
• Alucinação: alucinação é a percepção clara e definida de um
objeto (voz, ruído, imagem) sem a presença de objeto estimulante
real.
4. A sensopercepção e suas alterações
• As alucinações auditivas são o tipo de alucinação mais frequente
nos transtornos mentais.
• Muito frequentemente, a alucinação audioverbal é de conteúdo
depreciativo e/ou de perseguição. O insight em relação às
alucinações audioverbais, na esquizofrenia, geralmente é
pequeno ou ausente.
4. A sensopercepção e suas alterações
• As alucinações audioverbais também ocorrem nos transtornos do
humor: no episódio de mania, são ouvidas, mais comumente,
vozes com conteúdo de grandeza ou místico-religioso, e, na
depressão grave, podem-se ouvir vozes com conteúdo negativo,
de ruína ou culpa.
• Com relativa frequência, as alucinações auditivas também são
experimentadas por pacientes com transtornos da personalidade
borderline.
4. A sensopercepção e suas alterações
• As alucinações visuais complexas, ou configuradas incluem, por
exemplo, figuras e imagens de pessoas (vivas ou mortas, familiares
ou desconhecidas), de partes do corpo (órgãos genitais, caveiras,
olhos assustadores, cabeças disformes, etc.), de entidades (o
demônio, uma santa, um fantasma), de objetos inanimados,
animais ou crianças.
• As alucinações visuais complexas podem, eventualmente, incluir
visões de cenas completas (p. ex., o quarto pegando fogo), sendo
então denominadas alucinações cenográficas.
4. A sensopercepção e suas alterações
• Alucinações táteis: o paciente sente espetadas, choques ou
insetos ou pequenos animais correndo sobre sua pele. Também
são relativamente frequentes as alucinações táteis sentidas nos
genitais, que sentem de forma passiva que forças estranhas
tocam, cutucam ou penetram seus genitais.
• As alucinações táteis são frequentes na esquizofrenia, no delirium
tremens e nas psicoses tóxicas, sobretudo naquelas produzidas
pelo uso de cocaína (até 15% dos usuários dessa droga podem ter
tais alucinações).
4. A sensopercepção e suas alterações
• Alucinose: fenômeno pelo qual o paciente percebe a experiência
alucinatória como estranha a sua pessoa.
• O indivíduo permanece consciente de que aquilo é um fenômeno
estranho, patológico, não tem nada a ver com sua pessoa,
estabelecendo distanciamento entre seu self e o sintoma.
• Em sua modalidade visual, a alucinose ocorre com maior
frequência em pacientes com intoxicações por substâncias
alucinógenas, como LSD, psilocibina, Ayahuasca, etc.
Semiotécnica da sensopercepção
ALUCINAÇÕES AUDITIVAS ALUCINAÇÕES VISUAIS ALUCINAÇÕES TÁTEIS
Tem ouvido vozes de pessoas estranhas ou Tem visto algo estranho, que lhe chamou Sente algo estranho em seu corpo? Sente
desconhecidas? Ouve vozes atenção? Essas visões se mexiam ou como se lhe tocassem o corpo,
sem saber de onde vêm? São ruídos, murmúrios eram fixas? Assustou-se com elas? beliscassem, batessem ou beijassem?
ou vozes bem claras? Desagradam-lhe as vozes Descreva para mim. De onde vêm essas Tem a sensação de que tocam nos seus
que ouve? Fica irritado(a)? Tem medo? Por quê? visões? genitais? Sente como se houvesse um
Que lhe dizem as vozes? Xingam, insultam ou animal ou inseto dentro de seu corpo?
ameaçam? Acredita que eu também possa ouvi-
las? Ouviu as vozes durante a entrevista? As vozes
que o(a) senhor(a) ouve são reais ou produtos de
um transtorno ou doença?
5. A afetividade e suas alterações
Embora seja controversa a ordenação das experiências da vida
afetiva, na tradição psicopatológica distinguem-se cinco tipos
básicos de vivências afetivas:
• Humor ou estado de ânimo
• Emoções
• Sentimentos
• Afetos
• Paixões
5. A afetividade e suas alterações
• O humor, ou estado de ânimo, é definido como o tônus afetivo do
indivíduo, o estado emocional basal e difuso em que se encontra a
pessoa e determinado momento.
• As emoções podem ser definidas como reações afetivas
momentâneas, agudas, desencadeadas por estímulos significativos.
Assim, a emoção é um estado afetivo intenso, de curta duração,
originado geralmente como reação do indivíduo a certas excitações
internas ou externas, conscientes, não conscientes ou inconscientes.
5. A afetividade e suas alterações
• Os sentimentos são estados e configurações afetivas estáveis.
• Em relação às emoções, são mais atenuados em sua intensidade
e menos reativos a estímulos passageiros. Os sentimentos estão
comumente associados a conteúdos intelectuais, valores,
representações.
5. A afetividade e suas alterações
• Define-se afeto como a qualidade e o tônus emocional que
acompanham uma ideia ou representação mental.
• Os afetos acoplam-se a ideias, anexando a elas um colorido
afetivo. Seriam, assim, o componente emocional de uma ideia.
Em acepção mais ampla, usa-se também o termo “afeto” para
designar, de modo inespecífico, qualquer estado de humor,
sentimento ou emoção.
5. A afetividade e suas alterações
• A paixão é um estado afetivo extremamente intenso, que domina
a atividade psíquica como um todo, captando e dirigindo a
atenção e o interesse do indivíduo em uma só direção, inibindo os
demais interesses.
• Não há transtorno mental, condição psicopatológica, no qual
não esteja afetado, primária ou secundariamente, o sistema
emocional da pessoa.
5.1. Reação afetiva
• Denomina-se sintonização afetiva a capacidade de a pessoa ser
influenciada afetivamente por estímulos externos; assim, o
sujeito entristece-se com ocorrências dolorosas, alegra-se com
eventos positivos, ri com uma boa piada. Enfim, entra em sintonia
com o ambiente.
• A irradiação afetiva, por sua vez, é a capacidade que o indivíduo
tem de transmitir, irradiar ou contaminar os outros com seu
estado afetivo momentâneo; por meio da irradiação afetiva, faz
outros entrarem em sintonia com ele.
5.1. Reação afetiva
• Na rigidez afetiva, o indivíduo não deseja, tem dificuldade ou
impossibilidade tanto de sintonização como de irradiação afetiva.
Portanto, trata-se de uma característica das pessoas que têm
alteração do afeto (embotamento afetivo, distanciamento afetivo
etc.), presentes em algumas doenças como autismo e
esquizofrenia.
ALTERAÇÕES
PSICOPATOLÓGICAS
DA
AFETIVIDADE
5.2 Alterações do humor
• Distimia: é o termo que designa a alteração básica do humor,
tanto no sentido da inibição como no sentido da exaltação.
• Disforia: diz respeito à distimia acompanhada de uma tonalidade
afetiva desagradável, mal-humorada.
• Quando se fala em depressão disfórica ou mania disfórica, está
sendo designado um quadro de depressão ou de mania
acompanhado de forte componente de irritação, amargura,
desgosto ou agressividade.
5.2 Alterações do humor
• Os dois polos básicos das alterações do humor, ou timopatias,
são o depressivo, ou hipotímico, e o maníaco, ou hipertímico.
• Assim, hipotimia refere-se à base afetiva de todo transtorno
depressivo. Por sua vez, o termo hipertimia (ou distimia
hipertímica) refere-se a humor patologicamente alterado no
sentido da exaltação e da alegria.
5.2 Alterações do humor
• No espectro maníaco, o termo euforia, ou alegria patológica,
define o humor morbidamente exagerado, no qual predomina um
estado de alegria intensa e desproporcional às circunstâncias.
• Já no estado de elação, há, além da alegria patológica, a
expansão do Eu, uma sensação subjetiva de grandeza e de poder.
O Eu vai além dos seus limites, ganhando o mundo.
5.2 Alterações do humor
• A puerilidade é uma alteração do humor que se caracteriza pelo
aspecto infantil, simplório, regredido. O indivíduo ri ou chora por
motivos banais; sua vida afetiva é superficial, sem afetos
profundos, consistentes e duradouros.
• Verifica-se a puerilidade especialmente em alguns pacientes com
esquizofrenia em indivíduos com déficit intelectual.
5.3 Alterações das Emoções e dos
Sentimentos
• Fobias: São medos determinados psicopatologicamente,
desproporcionais e incompatíveis com as possibilidades de
perigo real oferecidas pelos desencadeantes, chamados de
objetos ou situações fobígenas.
• Pânico: crises agudas e intensas de ansiedade, acompanhadas
por medo intenso de morrer ou de perder o controle e de
acentuada descarga autonômica (taquicardia, sudorese, etc.). As
crises caracterizam-se pelo início abrupto de uma sensação de
grande perigo e desejo de fugir ou escapar da situação.
5.3 Alterações das Emoções e dos
Sentimentos
• O ciúme é um fenômeno emocional complexo no qual o indivíduo
sente receio, medo, tristeza ou raiva diante da ideia, sensação ou
certeza de que a pessoa amada gosta mais de outra pessoa (ou
objeto) e pode abandoná-lo ou preterí-lo.
• Apatia: É a diminuição da excitabilidade emocional. Os
indivíduos acometidos, apesar de saberem da importância afetiva
que determinada experiência deveria ter para eles, não
conseguem sentir nada, não reagem afetivamente. O paciente
torna-se hiporreativo.
5.3 Alterações das Emoções e dos
Sentimentos
• Anedonia: É a incapacidade total ou parcial de obter e sentir
prazer com determinadas atividades e experiências da vida. O
indivíduo relata que, diferentemente do que ocorria antes de
adoecer, agora não consegue mais sentir prazer sexual, não
consegue desfrutar de um bom papo com os amigos, de um
almoço gostoso com a família, de um bom filme, etc.
• Anedonia é um sintoma central das síndromes depressivas,
podendo ocorrer também em quadros esquizofrênicos e em
transtornos da personalidade.
5.3 Alterações das Emoções e dos
Sentimentos
• A labilidade e a incontinência afetiva são consideradas formas
de hiperestesia emocional, indicando exagero e inadequação da
reatividade afetiva.
• Podem ocorrer em quadros de depressão ou mania, estados
graves de ansiedade e esquizofrenia.
• Riso patológico e o choro patológico: ocorrem como episódios
imotivados de choro e/ou riso intensos e abruptos, de curta
duração, em forma de crises, associados geralmente a lesões
e/ou disfunções neuronais.
ALTERAÇÕES DA
AFETIVIDADE E
TRANSTORNOS
5.3.1 Transtorno depressivo
• No transtorno depressivo (TD), praticamente todas as alterações
afetivas negativas podem ser vivenciadas. A tristeza pode ser
mais ou menos central, intensa e explícita, podendo haver,
entretanto, “depressão sem tristeza”, mas com outros sintomas
de depressão.
• Os sentimentos de culpa e arrependimento são frequentes. A
autoestima geralmente é ruim ou péssima. Os pacientes fazem
acusações a si próprios insistentemente, podendo, nos quadros
mais graves, ter ideias delirantes de culpa, castigo ou
condenação.
5.3.2 Mania
• A mania se caracteriza por humor alegre, às vezes eufórico ou
exaltado; outras vezes, o humor alegre é substituído pela
irritabilidade ou mesmo agressividade (sobretudo ao longo do
episódio maníaco, quando o indivíduo se sente frustrado ou
impedido de realizar seus desejos e ideias).
• O paciente tende a sentir seu Eu expandido (elação do Eu),
poderoso. Seu sentimento corporal, vital, pode ser muito positivo
– “jamais me senti tão bem”.
5.3.3 Esquizofrenia
• Nas fases agudas ou nos surtos de esquizofrenia, podem surgir,
nos primeiros momentos, sentimentos de estranhamento, de
sensação de que o mundo, as coisas e o próprio Eu estão
diferentes, modificados ou carregados com significações
esdrúxulas, incompreensíveis.
• Sentimentos e vivências recorrentes de perseguição e
insegurança, ao longo da evolução do transtorno, marcam muitos
quadros de esquizofrenia.
5.3.3 Esquizofrenia
• Com o avançar da esquizofrenia, após os primeiros anos ou
décadas pode surgir uma mudança qualitativa da afetividade, em
que a apatia, a anedonia, a hipomodulação do afeto, certo
distanciamento e indiferença afetiva encaminham o sujeito para
um estado afetivo mais grave, com verdadeiro embotamento e
vazio afetivos.
5.3.4 Transtornos de personalidade
• No transtorno da personalidade borderline (TPB), pode-se
verificar uma frequência maior de humor disfórico e sentimentos
crônicos ou recorrentes de vazio. Assim, a depressão associada
frequentemente ao TPB é descrita como depressão com
sensação de vazio interno.
• O humor e as reações afetivas podem ser descontrolados, muito
instáveis, revelando a dimensão de impulsividade associada a
esse transtorno da personalidade.
Semiotécnica da afetividade
Humor ansioso: Humor irritado: Humor triste, apático ou Humor hipertímico (alegre):
inibido
Sente-se nervoso(a)? Sente-se Você tem-se irritado com mais Você tem-se sentido triste ou Sente-se mais alegre que o
agoniado(a)? Com inquietação facilidade que antes? Os melancólico(a)? comum? Mais disposto(a)?
interna? Sente angústia ou ruídos (da rua, de pessoas Desanimado(a)? As coisas que Tem, nos últimos dias, mais
ansiedade? Sente medos ou falando, de buzinas, etc.) o(a) antes lhe davam prazer vontade de falar e andar
temores? Sente-se tenso(a)? Tem incomodam muito? As agora lhe são indiferentes? que geralmente? Sente-se
dificuldades para relaxar? Tem crianças o(a) incomodam? Sente-se cansado(a), sem mais forte? Mais poderoso(a)?
dificuldades para se concentrar? Tem Tem discutido ou brigado com energia? Sente-se fraco(a)? Sente o tempo passar mais
insônia? Sente dores de cabeça, facilidade? Às vezes acha que Não se alegra com mais nada? rápido?
dores nas costas, etc. Tem vai explodir? Os nervos estão à Perdeu (ou aumentou) o
taquicardia, falta de ar? flor da pele? Tem, às vezes, apetite ou o sono? Perdeu o
vontade de matar ou esganar interesse pelas coisas? Tem
alguém? vontade de sumir ou morrer?
6. A vontade, a psicomotricidade, o
agir e suas alterações
• A vontade, ou volição, é uma dimensão complexa da vida
mental, relacionada intimamente com as esferas instintiva,
afetiva e intelectiva (que envolve avaliar, julgar, analisar, decidir),
bem como com o conjunto de valores, princípios, hábitos e
normas éticas socioculturais do indivíduo.
• O ato volitivo é traduzido pelas expressões típicas do “eu quero”
ou do “eu não quero”, que caracterizariam a vontade humana
sensu stricto.
6.1 ALTERAÇÕES DA VONTADE
• Hipobulia/abulia: apresentam diminuição ou até abolição da
volição. O indivíduo refere que “não tem vontade para nada”,
sente-se muito desanimado, sem forças, sem energia.
• Geralmente, a hipobulia/abulia encontra-se associada à apatia, à
fadiga fácil e à dificuldade de decisão, tão típicas dos pacientes
com depressão grave.
6.1 ALTERAÇÕES DA VONTADE
• Atos compulsivos, ou compulsões: é geralmente uma ação
motora complexa que pode envolver desde atos relativamente
simples, como coçar-se, picar-se, arranhar-se, até rituais
compulsivos complexos, como tomar banho de forma repetida e
muito ritualizada, lavar as mãos e secar-se de modo repetitivo
e/ou estereotipado, por inúmeras vezes seguidas, etc.
6.1 ALTERAÇÕES DA VONTADE
• Atos impulsivos: A impulsividade é definida como uma
predisposição para agir e reagir de forma rápida, não planejada,
respondendo a estímulos externos ou internos com pouca ou
nenhuma preocupação sobre as possíveis consequências
negativas para si e/ou para os outros.
• Eles também se caracterizam por serem incontroláveis.
6.1.1 Tipos de impulsos e compulsões
patológicas
• Automutilação: É o impulso (ou a compulsão) seguido de
comportamento de autolesão voluntária.
• Ocorrências leves e moderadas em indivíduos com transtorno da
personalidade borderline, TOC. As formas graves de
automutilação são a autoenucleação (extração do próprio olho) e
a autoamputação do pênis ou de uma mão, que ocorrem em
pacientes psicóticos, geralmente com esquizofrenia em estado
alucinatório-delirante, e indivíduos com psicoses tóxicas,
produzidas por alucinógenos.
6.1.1 Tipos de impulsos e compulsões
patológicas
• Frangofilia: Impulso patológico de destruir os objetos que
circundam o indivíduo. Está associado geralmente a estados de
excitação impulsiva intensa e agressiva.
• Ocorrências: esquizofrenia e mania; TP borderline, antissocial.
6.1.1 Tipos de impulsos e compulsões
patológicas
• Piromania. É o impulso de atear fogo a objetos, prédios, lugares,
etc.
• Ocorre principalmente em indivíduos com transtornos do
controle de impulsos e/ou transtornos da personalidade
borderline, narcisista ou antissocial.
6.1.1 Tipos de impulsos e compulsões
patológicas
• O impulso, o comportamento e o ato suicida: Há, em muitos
pacientes gravemente deprimidos e ansiosos, o desejo de morrer
e de “desaparecer”.
• Os grupos diagnósticos que mais frequentemente envolvem o
impulso, ideação grave e/ou comportamentos de suicídio são:
depressão moderada ou grave, dependência de álcool ou outras
drogas, esquizofrenia, distimias. Já os transtornos da
personalidade que mais apresentam ideação e/ou
comportamento suicida são os da personalidade borderline,
esquizoide, histriônica.
6.2 ALTERAÇÕES DA PSICOMOTRICIDADE
• Assim como o ato motor é o componente final do ato volitivo, as
alterações da psicomotricidade frequentemente são a expressão final
de alterações da volição.
• A agitação psicomotora é um sinal psicopatológico muito frequente e
relativamente inespecífico, sendo vista todos os dias nos serviços de
emergência e de internação psiquiátrica. Está associada a quadros
maníacos, episódios esquizofrênicos agudos, quadros psico-
orgânicos agudos (por intoxicação com substâncias, síndromes de
abstinência, etc.) e quadros paranoides em pessoas com deficiência
intelectual e em indivíduos com demências.
6.2 ALTERAÇÕES DA PSICOMOTRICIDADE
• Por sua vez, a lentificação psicomotora reflete a lentificação de
toda a atividade psíquica (bradipsiquismo). Toda a movimentação
voluntária torna-se lenta, difícil, “pesada”, podendo haver período
de latência entre uma solicitação ambiental e a resposta motora
do paciente.
• O que se denomina classicamente em psicopatologia de inibição
psicomotora é um estado acentuado e profundo de lentificação
psicomotora, com ausência de respostas motoras adequadas,
sem que haja paralisias ou déficit motor primário.
6.2 ALTERAÇÕES DA PSICOMOTRICIDADE
• O estupor é a perda de toda a atividade psicomotora espontânea,
atingindo o indivíduo de modo global, na vigência de um nível de
consciência aparentemente preservado e de capacidade
sensório-motora para reagir ao ambiente.
• O estupor costuma envolver toda a atividade voluntária, incluindo
a comunicação verbal e não verbal, a mímica, o olhar, a
gesticulação e a marcha.
6.2 ALTERAÇÕES DA PSICOMOTRICIDADE
• Estereotipias motoras são repetições automáticas e uniformes
de determinado ato motor complexo, indicando geralmente
marcante perda do controle voluntário sobre a esfera motora.
• Maneirismo é um tipo de estereotipia motora caracterizado por
movimentos bizarros e repetitivos, geralmente complexos, que
parecem buscar certo objetivo, mesmo que esdrúxulo. Trata-se
de alteração do comportamento expressivo (mímica, gestos,
linguagem), em que a harmonia normal do conjunto de gestos do
indivíduo é substituída por posturas e movimentos estranhos.
Semiotécnica da volição e da psicomotricidade
O paciente comparece à consulta por iniciativa própria ou é trazido por alguém?
A atitude geral do paciente é passiva ou ativa? Colabora com o entrevistador, é
indiferente ou se opõe a ele?
Como são seus movimentos espontâneos? Seus gestos são lentos e “difíceis” ou
rápidos e “fáceis”? Anda de um lado para outro? Esfrega as mãos? Mexe as
pernas inquietamente?
Fala espontaneamente ou apenas quando solicitado?
Mostra-se hostil, contrariado, agressivo? Parece ter dificuldades em controlar
seus impulsos?
Faz movimentos inadequados? Faz movimentos ou gestos bizarros?
paciente parece ter dificuldade em controlar suas emoções?
7. O pensamento e suas alterações
O que caracteriza o pensamento normal é ser regido pela lógica
formal e orientar-se segundo a realidade e os princípios de
racionalidade da cultura na qual o indivíduo se insere.
ELEMENTOS CONSTITUTIVOS:
• Conceitos
• Juízos
• Raciocínio
7.1 Alterações dos conceitos
• Desintegração e transformação dos conceitos: Ocorre quando
os conceitos sofrem um processo de perda ou transformação
radical de seu significado original. A desintegração e a
transformação dos conceitos são bastante características da
esquizofrenia e podem ocorrer também nas síndromes
demenciais.
• Condensação dos conceitos: Ocorre quando dois ou mais
conceitos são fundidos; o paciente involuntariamente condensa
duas ou mais ideias em um único conceito.
7.2 Alterações dos juízos
• Quando articulamos dois conceitos, duas ideias, como mesa e
estudo, e afirmamos a proposição “está é uma mesa de estudo”,
estamos formando juízos.
• A noção de juízo consiste, portanto, na articulação entre dois ou
mais conceitos ou termos.
• Formar juízos é o processo que conduz ao estabelecimento de
relações significativas entre conceitos.
7.2 Alterações dos juízos
• Juízo deficiente ou prejudicado: É um tipo de juízo falso que se
estabelece porque a elaboração dos juízos é prejudicada por
deficiência intelectual e pobreza cognitiva do indivíduo. Os juízos
são por demais simplistas, concretos.
7.2 Alterações dos juízos
• Juízos de realidade ou de existência: As alterações do juízo de
realidade em psicopatologia têm seu exemplo mais
paradigmático no delírio, ou ideias delirantes.
• Os juízos de realidade e as dimensões a eles relacionadas, como
falsidade ou veracidade e graus de certeza, de evidência e de
coerência.
7.2 Alterações dos juízos
• O delírio: designa um sintoma psicopatológico, a ideia delirante,
que é alteração do juízo de realidade.
• Quando um indivíduo acometido por uma psicose afirma que “os
vizinhos preparam um complô para matá-lo”, o conteúdo é de
perseguição, mas o que está patologicamente alterado é a
atribuição de realidade absoluta a esse pensamento, ou seja, o
modo como o juízo de realidade se constitui.
7.2 Alterações dos juízos
• Não é tanto a falsidade do conteúdo que faz um juízo, uma
crença, ser um delírio (embora quase sempre a crença delirante
seja falsa), mas sobretudo a justificativa para a crença que o
delirante apresenta, o tipo de evidência que lhe assegura que as
coisas são assim.
• Sua crença é total; a seu ver, não se pode colocar em dúvida a
veracidade de seu juízo delirante.
7.2 Alterações dos juízos
• Características ou indícios externos do delírio:
1. O indivíduo que apresenta o delírio tem convicção extraordinária
uma certeza subjetiva praticamente absoluta;
2. É impossível a modificação do delírio pela experiência objetiva,
por provas explícitas da realidade, por argumentos lógicos,
plausíveis e aparentemente convincentes;
3. O sujeito engendra sua própria “religião, seu próprio sistema
ideológico ou científico”, que são criações geralmente falsas,
individuais e associais.
7.2 Alterações dos juízos
• Comportamentos perigosos, violentos, foram relacionados aos
seguintes fatores do delírio: afirmar que está sendo espionado ou
seguido, que conspiram contra ele, estar sob o controle de uma
pessoa ou de uma força, inserção de pensamentos e crer que tem
poderes especiais. O afeto “sentir raiva” é um elemento
importante nessa relação de delírio com violência.
RELAÇÕES ENTRE DELÍRIO E ALUCINAÇÃO
Delírios, com certa frequência, surgem depois das alucinações, possivelmente como um
processo desencadeado ou influenciado por elas. Por exemplo, ao ouvir vozes que ameaçam
de morte o sujeito, ele passa a formular o delírio de que planejam contra ele, de que o
matarão.
Em uma parte dos pacientes as alucinações surgem depois dos delírios, é plausível que a
atividade delirante, em um sujeito vulnerável, afete a sensopercepção, e o indivíduo passe a
alucinar.
Mais que isso, delírios e alucinações não apenas podem se incrementar reciprocamente,
mas as alucinações podem dar uma espécie de “prova de realidade” ao delírio – “se ouço
essas vozes me ameaçando, é porque realmente tramam contra mim e vão me matar”. Na
mesma linha, o delírio pode conferir sentido à alucinação (“ouço as vozes porque eles são da
máfia e querem acabar comigo”). Forma-se um círculo de confirmação e sentido no qual,
mutuamente, delírio e alucinação ajudam a sustentar o estado delirante-alucinatório da
psicose.
ALGUNS CONTEÚDOS OU TEMÁTICAS DELIRANTES
Delírios de perseguição Delírio de ruína (ou niilista)
Delírio de referência (de alusão ou Delírio de culpa e de
autorreferência) autoacusação
Delírio de influência ou controle Delírio de negação de órgãos
Delírio de grandeza ou missão Delírio hipocondríaco
Delírio religioso ou místico Delírios de falsa identificação
Delírio de ciúmes e de infidelidade Delírio erótico
8. O PROCESSO DO PENSAR
• O curso do pensamento é o modo como o pensamento flui, sua
velocidade e seu ritmo ao longo do tempo.
• Já a forma do pensamento é sua estrutura básica, sua arquitetura,
preenchida pelos mais diversos conteúdos e interesses do
indivíduo.
• O conteúdo do pensamento pode ser definido como aquilo que
lhe dá substância, seus temas predominantes, o assunto em si.
Há tantos conteúdos de pensamento quantos são os temas de
interesse do ser humano.
8.1 Alterações no CURSO do pensamento
• Aceleração do pensamento: O pensamento flui de forma muito
acelerada, com uma ideia se sucedendo à outra rapidamente,
podendo até ser difícil acompanhar o ritmo do indivíduo.
• Lentificação do pensamento: Nesse caso, o pensamento
progride lentamente, de forma lenta e dificultosa. Há certa
latência entre as perguntas formuladas e as respostas.
• Descarrilhamento do pensamento: O pensamento passa a
extraviar-se de seu curso normal, toma atalhos colaterais,
desvios, pensamentos supérfluos, retornando aqui e acolá ao seu
curso original. Geralmente está associado a marcante
distraibilidade.
8.2 CONTEÚDO do pensamento
• O conteúdo do pensamento é aquilo que preenche a estrutura do
processo de pensar.
• O conteúdo do pensamento apenas preenche uma forma, uma
estrutura. Nesse sentido, corresponde à temática do
pensamento. Assim, para Dalgalarrondo, não se pode falar
propriamente em alterações patológicas do conteúdo do
pensamento. Há tantos conteúdos quanto são os temas de
interesse ao ser humano.
8.2 CONTEÚDO do pensamento
• Os principais conteúdos que preenchem os sintomas
psicopatológicos são:
• persecutórios
• depreciativos, de ataque à autoestima
• de poder, riqueza, grandeza ou missão
• religiosos, místicos, mágicos
• eróticos, sexuais, de ciúmes
• de culpa
• conteúdos hipocondríacos
9. A linguagem e suas alterações
associadas a estados, condições ou
transtornos psicopatológicos
• A linguagem é o principal instrumento de comunicação dos seres
humanos. Além disso, é fundamental na elaboração e na
expressão do pensamento e das emoções.
9.1 A linguagem e suas alterações associadas a
estados, condições ou transtornos
psicopatológicos
• Logorreia: existe a produção aumentada e acelerada (taquifasia)
da linguagem verbal, um fluxo incessante de palavras e frases,
frequentemente associado à aceleração geral de todos os
processos psíquicos (taquipsiquismo), podendo haver perda da
lógica do discurso.
• quadro maníaco
9.1 A linguagem e suas alterações associadas a
estados, condições ou transtornos
psicopatológicos
• Bradifasia: o paciente fala muito vagarosamente; as palavras
seguem-se umas às outras de forma lenta e difícil.
• quadros depressivos graves, estados demenciais
9.1 A linguagem e suas alterações associadas a
estados, condições ou transtornos
psicopatológicos
• Ecolalia: É a repetição da última ou das últimas palavras que o
entrevistador (ou alguém no ambiente) falou ou dirigiu ao
paciente, uma repetição em eco da fala. É um fenômeno
automático, involuntário, realizado sem planejamento ou
controle.
• Esquizofrenia, transtornos do espectro autista (TEAs)
9.1 A linguagem e suas alterações associadas a
estados, condições ou transtornos
psicopatológicos
• Tiques fonéticos ou verbais: são produções de fonemas ou
palavras de forma recorrente, imprópria e irresistível. No tique
verbal, o paciente produz geralmente sons guturais, abruptos e
espasmódicos.
• Coprolalia: é a emissão involuntária e repetitiva de palavras
obscenas, vulgares ou relativas a excrementos, que ocorre em
cerca de 25% dos pacientes com transtorno de Tourette.