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Neurose e Psicose e Sua Relação Com Os Sistemas Nosográficos Atuais

O documento explora a evolução dos conceitos de neurose e psicose, destacando suas definições históricas e a transição nas classificações diagnósticas, especialmente no DSM e na CID. A neurose, caracterizada por conflitos psíquicos, e a psicose, definida por rupturas com a realidade, foram reestruturadas ao longo do tempo, refletindo mudanças na compreensão psiquiátrica. O texto também critica a ênfase contemporânea na farmacologia e na objetividade, em detrimento da psicanálise e da subjetividade na prática clínica.

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Neurose e Psicose e Sua Relação Com Os Sistemas Nosográficos Atuais

O documento explora a evolução dos conceitos de neurose e psicose, destacando suas definições históricas e a transição nas classificações diagnósticas, especialmente no DSM e na CID. A neurose, caracterizada por conflitos psíquicos, e a psicose, definida por rupturas com a realidade, foram reestruturadas ao longo do tempo, refletindo mudanças na compreensão psiquiátrica. O texto também critica a ênfase contemporânea na farmacologia e na objetividade, em detrimento da psicanálise e da subjetividade na prática clínica.

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Neurose e Psicose e sua relação com os sistemas

nosográficos atuais
Algumas considerações sobre a Neurose
• O termo neurose surgiu no final do século XVIII, proposto por
William Cullen.

• O sistema nervoso seria o regulador de todos os fenômenos


vitais, seja da saúde, seja da doença.

• Desse modo, a neurose seria uma afecção do sistema nervoso


sem febres e sem a possibilidade de imputar uma lesão
localizável.
Algumas considerações sobre a Neurose

• Na obra de Pinel, o termo de "névrose" é introduzido para designar


as doenças do sistema nervoso sem base orgânica conhecida.

• Desse modo, podemos notar que a neurose cria dificuldades para


as pretensões médicas e científicas da psiquiatria devido ao
caráter de lesão não-localizável que não permite a afirmação de
uma etiologia biológica.
Algumas considerações sobre a Neurose

• No texto “Neurose e Psicose”, Freud (1924) - A neurose seria o


resultado de um conflito entre o eu e o id.

• Termo “neurose” a designação das doenças mais “leves”, nas


quais o paciente tem “consciência de seu caráter mórbido”
Algumas considerações sobre a Psicose

• Psicose, por sua vez, surgiria apenas no século XIX, proposto pelo
Barão Ernest von Feuchterslen “uma ruptura radical do sujeito
com as formas socialmente compartilhadas de organização da
realidade e da experiência do eu próprio”.

• O termo “psicose” foi criado, no âmbito da medicina mental,


justamente para especificar o “psíquico” como distinto do
“neuronal”.
Algumas considerações sobre a Psicose

• A noção de “psicose” designava as doenças mentais graves


diferentes das doenças neurológicas e da neurose.

• Kraepelin reordenou a nosografia psiquiátrica em termos das três


grandes entidades clínicas “loucura maníaco-depressiva”,
“paranoia” e “demência precoce” (logo renomeada, por Bleuler,
“esquizofrenia”).
Algumas considerações sobre a Psicose

• Em 1911, Eugen Bleuler: renomeou a demência precoce para


“esquizofrenia” – indicando a ênfase nos aspectos psicológicos,
nomeadamente a cisão da personalidade (do grego skhízein:
“separar”, “dividir”).

• “porque a cisão das mais diversas funções psíquicas é uma de


suas características mais importantes”
Algumas considerações sobre a Psicose

• Assim é que o termo “psicose” passou a nomear o conjunto


dessas doenças. Por psicose (ou psicoses), entendia-se: psicose
maníaco-depressiva, paranoia e esquizofrenia.

• Pode-se dizer que, ao longo do século XX, essas três patologias


caracterizaram o campo da psiquiatria.
Neurose e Psicose
• A confluência do trabalho da psiquiatria e da psicanálise ao longo
do século XX, estabeleceu-se a demarcação entre a neurose e a
psicose, cada uma delas designando uma classe de patologia,
uma condição de fundo, correspondente a um modo específico
de estar na vida e na relação com o outro.
• A cada uma correspondem: uma unicidade de estrutura – “a”
neurose, “a” psicose, no singular – e uma diversidade de
manifestações clínicas – as neuroses histérica e obsessiva e as
psicoses esquizofrenia, paranoia, psicose maníaco-depressiva,
por exemplo - categorias psiquiátricas “pré-DSM”
Neurose e Psicose
• Para Freud as duas assumem o caráter psíquico, diferenciando-se
no tipo de resposta que pode ser arranjada ou como o eu se porta
no conflito entre as pulsões e o mundo externo.

• No texto “Neurose e Psicose”: "A neurose é o resultado de um


conflito entre o ego [eu] e o id [isso], ao passo que a psicose é o
desfecho análogo de um distúrbio semelhante nas relações entre
o ego [eu] e o mundo externo"
Contudo...
• A terminologia “neurose” perdurou até os anos 80 nas
classificações.

• Na psiquiatria contemporânea, o termo "neurose" é cada vez


menos empregado em sua forma substantiva nos sistemas
diagnósticos.

• O glossário de termos técnicos não inclui a nomenclatura


“psicose”, mas apenas o adjetivo “psicótico”, para designar um
“comprometimento maciço no teste de realidade”
DSM e suas edições

• Em sua primeira edição, publicada em 1952, o DSM se baseava


em uma compreensão psicossocial da doença mental, na qual o
uso de terminologias como “mecanismos de defesa”, “neurose” e
“conflito neurótico” evidenciavam uma leitura psicanalítica dos
fenômenos psicopatológicos.
DSM e suas edições

• A segunda versão foi publicada em 1968.


• Sua construção surgiu em meio a Guerra do Vietnã e, devido a
uma clara necessidade empírica oriunda da época, nota-se uma
grande influência da teoria comportamental em detrimento da
concepção biopsicossocial dos transtornos mentais utilizada até
então.
• Ainda assim, o modo psicanalítico de compreensão permaneceu
vigente.
DSM e suas edições

• Em 1980 o DSM-III foi publicado.


• Nessa versão, porém, as noções da psicanálise cederam espaço
ao novo paradigma da ciência, pautado em critérios da medicina
baseada em evidências.
• Esse fato foi considerado uma revolução científica, de modo que
a terceira versão do manual “foi o marco da mudança de
paradigma da psiquiatria, que até o momento era regida
predominantemente pela psicanálise”
DSM e suas edições
• Visa a reformular o diagnóstico psiquiátrico ao desenvolver
critérios discerníveis para as categorias diagnósticas.

• Ocorre extinção da classe de psicopatologias denominada de


neurose, visando “não suscitar questões etiológicas e, assim, a
expressão doença mental passa a ser substituída por transtorno
mental”
DSM e suas edições

• O termo neurose é abandonado e desmembrado em diversas


entidades como: transtorno de ansiedade, transtornos
somatoformes e transtornos dissociativos.

• Baseado principalmente em princípios de testabilidade e


verificação empíricas.
DSM e suas edições
• Em 1994 foi lançado o DSM-IV, o qual, por sua vez, foi revisado em
2000, mas sem grandes acréscimos.

• O DSM-IV-TR justifica que o termo “psicótico” nunca teve


definição amplamente aceita e, para fins desse manual, foi
“conceitualmente definido como uma perda dos limites do ego ou
um amplo prejuízo do teste de realidade” (APA, 2004)

• “Psicótico” é reduzido à presença de certos sintomas, que variam


em certo grau entre as categorias diagnósticas.
DSM e suas edições
• DSMV, foi publicado em 2013. Apostando no “diagnóstico
dimensional, que englobaria o sujeito por completo”.

• DSM-5-TR, foi publicado em 2022.

• DSM-V, que, na contemporaneidade, figura como o representante


do discurso biologizante, no qual se substituem “[...] as grandes
categorias (neurose, psicose, esquizofrenia) por descrições
especificadas de fenômenos objetivos, trazendo um
empobrecimento à lógica diagnóstica, pois se privilegia a
descrição dos sintomas ao invés da patologia”
CID e o termo neurose

• A Classificação Internacional de Doenças em sua 10ª Edição (CID


10 – de 1992), ainda mantinha, sob forma de adjetivo, a categoria
de "transtornos neuróticos".

• A CID-10, o termo neurótico é usado apenas ocasionalmente,


diluído em diversos transtornos que "são agora arranjados em
grupos de acordo com os principais temas comuns ou
semelhanças descritivas“.
CID
CID-10 CID-11
• 6B20 transtorno obsessivo-compulsivo
• F34.1 Distimia Neurose obsessivo-compulsivo
Neurose depressiva Neurose anancástica
• F40.1 Fobias sociais
Neurose social • 6B23 hipocondria
• F41.1 Ansiedade generalizada Neurose hipocondríaca
Neurose ansiosa
• 6B40 Perturbação de Stress Pós-
traumático
Neurose traumática
CID e o termo psicose

• O termo psicótico é mantido por haver um uso descritivo


conveniente: "seu uso não envolve pressupostos acerca de
mecanismos psicodinâmicos, simplesmente indica a presença
de alucinações, delírios ou de um número limitado de várias
anormalidades de comportamento tais como excitação e
hiperatividade grosseiras, retardo psicomotor marcante e
comportamento catatônico" (OMS, 1993)
Algumas considerações finais

• Alguns trabalhos demonstram que, senão a intenção, certamente


o efeito dessas mudanças foi a supressão da referência à
psicanálise;
• Favoreceu a ênfase cada vez maior na ação farmacológica no
tratamento;
• Obriga os pesquisadores a abandonar os conceitos próprios ao
seu campo de saber
Algumas considerações finais

• Abandona toda uma tradição de debates em favor de um sistema


baseado na estatística, no ajustamento cognitivo e na exclusão
da subjetividade;

• “o tipo de modelo diagnóstico” praticado pela CID e pelos DSMs


“deixa o julgamento clínico em segundo plano” e produz certa
“superficialização da psicopatologia, como se os sintomas
fossem evidentes e precisassem apenas ser contados”

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