Mosquitos (Diptera: Culicidae): Vetores de Importância Sanitária e sua Bioecologia no
Brasil
Resumo
Os mosquitos da família Culicidae representam um dos grupos de artrópodes de maior
relevância para a saúde pública no mundo devido à sua capacidade de transmitir
agentes patogênicos. No Brasil, sua importância é evidenciada pela endemicidade de
doenças como dengue, malária, febre amarela, chikungunya e zika. Este artigo revisa a
bioecologia desses insetos, abordando sua morfologia, ciclo de vida, relações com
fatores ambientais e os principais gêneros de interesse sanitário no país, com base em
pesquisas científicas recentes.
1. Introdução
Os mosquitos constituem o grupo com a maior capacidade vetorial de patógenos
entre os artrópodes hematófagos . Pertencentes à ordem Diptera, família Culicidae,
esses insetos estão distribuídos globalmente e são responsáveis pela transmissão de
uma vasta gama de doenças, incluindo malária, arboviroses (como dengue, febre
amarela, chikungunya e zika) e filarioses . No Brasil, a diversidade de ecossistemas, que
vão desde a Floresta Amazônica até grandes centros urbanos, cria condições propícias
para a proliferação de diferentes espécies, tornando o estudo de sua ecologia uma
ferramenta fundamental para o desenvolvimento de estratégias de controle e vigilância
epidemiológica.
2. Bioecologia dos Mosquitos
2.1. Ciclo de Vida e Morfologia
Os mosquitos são insetos holometábolos, ou seja, possuem ciclo de vida completo com
quatro fases distintas: ovo, larva, pupa e adulto. As três primeiras fases são
estritamente aquáticas, enquanto a fase adulta é alada e terrestre .
• Ovos: A morfologia dos ovos pode variar significativamente entre as espécies.
Por exemplo, estudos de microscopia eletrônica de varredura com espécies do
gênero Coquillettidia revelaram que características ultraestruturais como
comprimento, largura e índice dos ovos são distintas entre Cq.
venezuelensis, Cq. juxtamansonia, Cq. albifera e Cq. shannoni, auxiliando na
taxonomia do grupo .
• Larvas e Pupas: As larvas são geralmente filtradoras ou raspadoras,
alimentando-se de matéria orgânica presente na água. Os criadouros são
extremamente variados, incluindo desde pequenos recipientes artificiais (como
pneus e garrafas) até grandes corpos d'água, como lagos e represas, e até
mesmo plantas aquáticas .
• Adultos: Na fase adulta, tanto machos quanto fêmeas alimentam-se de
carboidratos (néctar e seiva) para obter energia. No entanto, as fêmeas da
grande maioria das espécies são hematófagas, necessitando do sangue para o
desenvolvimento dos ovários e a maturação dos ovos .
2.2. Fatores que Influenciam a Dinâmica Populacional
A abundância e a distribuição das populações de mosquitos são fortemente
influenciadas por fatores abióticos, como clima e paisagem, e bióticos, como a
disponibilidade de criadouros e hospedeiros.
• Clima (Temperatura e Pluviosidade): A relação entre clima e mosquitos é
complexa e varia entre espécies. A temperatura e a precipitação são
determinantes sobre as populações, afetando o padrão de composição da
fauna . Estudos na Amazônia com o gênero Mansonia demonstraram que o
número de imaturos coletados foi positivamente correlacionado com a
temperatura, pH e condutividade da água, com um aumento acentuado na
estação chuvosa .
Para o Aedes aegypti, modelos entomológicos que consideram a pluviosidade
como fator dependente ajudam a descrever a dinâmica populacional do vetor,
auxiliando gestores públicos no controle de arboviroses . No entanto, em
parques urbanos de São Paulo, a abundância de Ae. aegypti foi correlacionada
com temperaturas, mas não com a precipitação, sugerindo que outros fatores
locais podem ter maior influência .
• Paisagem e Uso do Solo: Modificações ambientais, tanto em áreas naturais
quanto urbanas, criam novos nichos ecológicos. Na Amazônia, a construção de
usinas hidrelétricas e a formação de represas alteram a dinâmica de criadouros,
impactando a ecologia de gêneros como Mansonia, cujos imaturos se
desenvolvem em macrófitas aquáticas .
Em áreas urbanas, parques e áreas verdes funcionam como reservatórios de
biodiversidade, abrigando uma fauna variada de mosquitos, incluindo vetores.
Espécies como Aedes albopictus prosperam em áreas com maior cobertura
vegetal no interior de parques, enquanto Ae. aegypti predomina em áreas
periféricas e de transição com maior atividade humana .
3. Principais Gêneros de Mosquitos de Importância Sanitária no Brasil
Diferentes gêneros de mosquitos estão associados à transmissão de diferentes agentes
patogênicos.
3.1. Aedes
O gênero Aedes é o principal vetor de arbovírus em áreas urbanas. As espécies Aedes
aegypti e Aedes albopictus destacam-se na dispersão dos vírus da dengue, febre
amarela urbana, chikungunya e zika .
• *Aedes aegypti *: É altamente adaptado ao ambiente urbano, com criadouros
predominantemente artificiais. Estudos mostram sua correlação com
temperaturas mais elevadas e maior presença em áreas antropizadas .
• *Aedes albopictus *: Originalmente associado a áreas de mata, demonstra
grande plasticidade ecológica, podendo ocupar tanto nichos mais florestados
quanto periurbanos .
3.2. Anophelinae (Anopheles, Nyssorhynchus e Kerteszia)
A subfamília Anophelinae é responsável pela transmissão do protozoário causador da
malária (Plasmodium spp.) . Estudos recentes elevam antigos subgêneros ao nível de
gênero, como Nyssorhynchus e Kerteszia, que concentram os principais vetores no
Brasil .
• *Nyssorhynchus darlingi *: É o vetor dominante na região Amazônica, onde
ocorrem mais de 99% dos casos de malária no país. Sua distribuição está
associada a áreas de floresta, rios e regiões com rápido desmatamento e
ocupação humana .
• *Nyssorhynchus aquasalis *: Vetor efetivo em áreas do litoral atlântico .
• *Kerteszia cruzii *: Vetor associado à transmissão de malária no bioma da Mata
Atlântica, onde utiliza como criadouro a água acumulada em bromélias .
3.3. Culex
O gênero Culex é amplamente distribuído e possui grande importância sanitária. A
espécie Culex quinquefasciatus (conhecido popularmente como pernilongo ou
muriçoca) é o vetor urbano da filariose linfática e um potencial transmissor de
arbovírus, como o Vírus do Oeste do Nilo .
• Ecologia urbana: Em estudos no Rio de Janeiro, Cx. quinquefasciatus foi a
espécie mais abundante em áreas urbanas, com taxas de sobrevivência
variando conforme o perfil socioeconômico da região. Essa variação sugere que
a capacidade vetorial e o risco de transmissão podem diferir entre bairros .
• Distribuição: Ao lado de outras espécies como Culex nigripalpus e Culex
chidesteri, é comumente encontrado em parques urbanos e áreas residenciais,
proliferando-se em águas poluídas e ricas em matéria orgânica .