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À Mesa

O curta-metragem 'À Mesa' explora as relações familiares e a falha de comunicação durante um jantar, utilizando silêncios e gestos para evidenciar o distanciamento emocional. A narrativa provoca reflexões sobre a importância do diálogo e da empatia nas dinâmicas familiares, destacando conflitos ideológicos e emocionais entre os personagens. Com uma abordagem minimalista e realista, o filme busca gerar identificação e reflexão no público sobre a convivência familiar.

Enviado por

Marina Mendes
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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À Mesa

O curta-metragem 'À Mesa' explora as relações familiares e a falha de comunicação durante um jantar, utilizando silêncios e gestos para evidenciar o distanciamento emocional. A narrativa provoca reflexões sobre a importância do diálogo e da empatia nas dinâmicas familiares, destacando conflitos ideológicos e emocionais entre os personagens. Com uma abordagem minimalista e realista, o filme busca gerar identificação e reflexão no público sobre a convivência familiar.

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À MESA

Escrito por Rafaela Barros Souza


1- Introdução
O curta-metragem "À Mesa" foca nas relações familiares e na falha de comunicação ,
mesmo que os membros da família se reúnam fisicamente durante um jantar.

A narrativa utiliza silêncios, olhares e gestos contidos para mostrar o distanciamento


emocional e o desconforto gerado por sentimentos e palavras não ditas. A mesa, que
deveria ser um símbolo de união, vira um palco de ausência de diálogo .

O filme, com sua abordagem minimalista, convida à reflexão sobre a importância da escuta,
da empatia e da presença nas relações humanas.

2 – Objetivo
Geral: Provocar o público a refletir sobre as relações familiares e emocionais,
questionando o modo como as pessoas lidam com o silêncio, a ausência de diálogo e os
sentimentos reprimidos no convívio diário. “À Mesa” busca representar como a falta de
comunicação pode gerar afastamento entre indivíduos que, apesar de próximos fisicamente,
estão emocionalmente distantes. A intenção é levar o espectador a reconhecer e repensar
comportamentos e dinâmicas comuns dentro de ambientes familiares, despertando empatia
e autocrítica.
O curta também pretende destacar aspectos simbólicos presentes nas interações entre os
personagens, como gestos, olhares e atitudes que revelam emoções não ditas, valorizando
uma linguagem visual intimista e sensível. Dessa forma, a obra busca não apenas contar
uma história, mas também propor uma reflexão sobre a importância do diálogo e da
presença nas relações humanas.
Específicos: Ser exibido em mostras e festivais acadêmicos, bem como em plataformas
digitais, visando ampliar o alcance da mensagem e promover o debate sobre as relações
familiares e afetivas contemporâneas. Além disso, pretende estimular o interesse por
produções audiovisuais autorais e incentivar a análise crítica do público em relação aos
temas abordados.
Público-alvo: Jovens e adultos interessados em narrativas dramáticas e reflexivas.

3- Visão do diretor
Este curta busca mostrar como um jantar familiar pode se transformar em um campo de
batalha ideológico. A mesa funciona como metáfora para poder, controle e disputa de
valores. O conflito central não é pessoal, mas de visões de mundo: tradição vs autonomia,
religião vs liberdade, status vs propósito, silêncio vs posicionamento. Cada personagem
representa uma lógica diferente de enxergar a vida, e a tensão cresce conforme as
máscaras sociais caem.

A abordagem será realista e teatral, com foco em diálogos, subtexto e pausas carregadas.
O público deve sentir que já viveu ou presenciou discussões assim. A linguagem emocional
será inspirada em Succession (tensão familiar, jogos de poder, ironia seca) e nos diálogos
contidos de O Poderoso Chefão, onde poucas palavras carregam peso.
Visualmente, adotaremos uma estética contida, observacional e claustrofóbica. A câmera
será fixa, com planos longos e poucos cortes, para manter o desconforto do tempo real. O
espaço fechado reforça a sensação de aprisionamento emocional. Nos momentos de maior
pressão, usaremos takes fechados inspirados em O Poço, explorando expressões,
respiração e silêncios. O som ambiente (talheres, cadeiras, suspiros) será usado como
elemento dramático.

A direção de atores será natural e precisa. Nada de exageros ou explosões, buscamos


verdade emocional. As discussões devem parecer reais, com interrupções, sobreposições
de fala e pausas tensas. Ninguém é totalmente certo ou errado, todos têm justificativas
legítimas. Isso afasta o maniqueísmo e aproxima o filme da vida real.

Não buscamos uma explosão final, mas um acúmulo de desgaste emocional. O conflito não
se resolve, ele permanece. Assim como na vida, a família continua mesmo sem concordar.
O filme termina mais com reflexão do que com conclusão.

“À Mesa” é sobre o peso de pertencer a uma família quando amar não significa concordar, e
conviver exige negociar quem você é com o que esperam que você seja.

4- Formato, Gênero e Duração


Formato: Curta-metragem narrativo
Gênero: Drama familiar, realista
Duração: 12 minutos

5- Sinopse
Um jantar familiar aparentemente comum se transforma em um embate silencioso de
valores e crenças. Júlia e Mateus, tentando preservar a harmonia, enfrentam críticas
veladas e provocações diretas de suas famílias, expondo diferenças ideológicas e
emocionais. Entre confrontos, cumplicidade e gestos de afeto, a noite revela o peso de
pertencer a uma família quando amar não significa concordar.

6- Argumento
Júlia e Mateus preparam um jantar em casa, conscientes de que os familiares de Mateus
podem provocar conflitos.
A chegada da família traz tensão imediata; críticas e comentários velados sobre a casa,
escolhas de vida e costumes surgem rapidamente.
O jantar se intensifica com discussões sobre carreira, fé, educação, meritocracia e tradições
familiares.
Júlia e Fernanda tentam controlar a situação, mas Helena e Paulo (pais de Mateus) mantêm
provocações.
A sobremesa traz um breve momento de leveza, mas o clima de tensão não se dissipa
completamente.
Ao final, todos se despedem, e Júlia e Mateus permanecem em silêncio, digerindo o conflito
e refletindo sobre a convivência familiar.

7- Perfil dos Personagens


Júlia – Anfitriã
30 anos, porte médio, semblante sereno, cabelos castanhos presos, vestido branco, avental
bege.
Firme e organizada, tenta controlar a situação com elegância.
Mateus – Anfitrião
32 anos, altura mediana, corpo levemente atlético, camisa social e jeans.
Bem-humorado, mas nervoso diante da família; tenta aliviar a tensão.
Helena – Mãe de Mateus
58 anos, imponente, cabelo curto, maquiagem discreta, vestido vermelho elegante.
Conservadora, crítica, gosta de controlar e impor tradições.
Paulo – Pai de Mateus
60 anos, presença firme, cabelos grisalhos, barba feita, camisa social clara.
Tradicional, defensor da fé e da disciplina, voz calma, mas convincente.
João – Irmão de Mateus
28 anos, magro, cabelos levemente bagunçados, barba por fazer, veste casual.
Sarcástico, observa com ironia e provoca, mas evita se posicionar totalmente.
Maria – Mãe de Júlia
55 anos, porte pequeno, semblante acolhedor, cabelo grisalho preso, vestido floral.
Amorosa, tenta amenizar conflitos com voz suave e firme.
Cláudio – Pai de Júlia
57 anos, robusto e sereno, cabelo grisalho curto, camisa de linho.
Defende valores progressistas, ponderado, intervém para acalmar.
Fernanda – Irmã de Júlia
27 anos, magra, cabelos soltos e cacheados, olhar empático.
Cúmplice de Júlia, firme e direta, ajuda a confrontar provocações.

8- Cenários
-​ Cozinha
Descrição:
Ambiente interno, principal local do preparo do jantar.
Iluminação aconchegante, com luz focada na bancada.
Objetos e elementos:
Bancada e tábua de cortar legumes.
Panelas e utensílios de cozinha.
Avental e utensílios de mesa.
Função na narrativa:
Introduz a relação do casal e estabelece o clima de tensão e cumplicidade.
Mostra a preparação para o encontro familiar e o esforço de Júlia e Mateus.
-​ Hall de entrada
Descrição:
Corredor da casa com porta principal.
Ambiente de transição entre cozinha/sala e exterior.
Objetos e elementos:
Maçaneta, porta de entrada.
Pequenos detalhes de decoração (quadros, tapete).
Função na narrativa:
Marca a chegada dos primeiros convidados.
Cria tensão pela formalidade e postura rígida dos familiares de Júlia.
Permite expressar reações corporais e olhares que aumentam a tensão.
-​ Sala de jantar
Descrição:
Espaço principal da interação familiar.
Ambiente elegante, mas tenso, com iluminação destacando a mesa.
Objetos e elementos:
Mesa grande com toalha de linho.
Pratos, talheres, copos, taças de vinho.
Lustre pendente, cadeiras organizadas simetricamente.
Travessas e pratos quentes servidos por Júlia.
Função na narrativa:
Cena central do conflito familiar.
Mostra o desconforto e a rigidez dos convidados.
Serve como palco para diálogos tensos, críticas veladas e pequenos alívios cômicos.

Observação geral dos cenários:


Todos os cenários se passam no interior da casa, mantendo unidade espacial.
A alternância entre cozinha, hall e sala de jantar cria ritmo visual e narrativa.
Cada cenário serve para construir tensão, revelar personalidade dos personagens e
desenvolver conflitos familiares, sendo a mesa de jantar o núcleo da narrativa.
ROTEIRO FINAL:
1. INT. COZINHA - NOITE Júlia, adulta, 30 anos, porte físico médio. Possui o semblante sereno, mas
o olhar carrega certa tensão. Cabelos castanhos presos de forma simples, veste vestido branco até
os joelhos, com um avental bege amarrado na cintura. Corta legumes com precisão, movimentos
rápidos e firmes. Ao lado, Mateus, 32 anos, altura mediana, corpo levemente atlético. Tem aparência
cansada, mas um sorriso fácil. Usa camisa social com as mangas dobradas e calça jeans. Mexendo
a panela distraidamente, lança olhares rápidos para Júlia, tentando parecer concentrado. Entre uma
tarefa e outra, os dois trocam olhares cúmplices, como se existisse um pacto silencioso entre eles.
MATEUS (SORRINDO, TENTANDO LEVEZA) Vai ser um banquete! Só espero que nosso jantar não
vire uma guerra, como sempre acontece. JÚLIA (IRÔNICA) Se virar, pelo menos teremos
testemunhas... e um bom advogado. Eles riem juntos. O riso é breve, sincero, mas logo se desfaz. O
silêncio que sobra é mais revelador do que as palavras. MATEUS (BAIXANDO O TOM, HESITANTE)
Falando sério... você acha que vai dar certo hoje? JÚLIA (CONTINUA CORTANDO OS LEGUMES,
FIRME, SEM OLHAR PARA ELE) Não sei... Mas podemos escolher como reagir. Respirar fundo,
sorrir, e não deixar que eles nos dominem. Mateus balança a cabeça, dá um riso nervoso. Ele tenta
mascarar a insegurança, mas o olhar inquieto o denuncia. MATEUS E se eu perder a paciência? 1
JÚLIA (PARA, OLHA PARA ELE POR ALGUNS SEGUNDOS) Relaxa, tá? Não vamos nos preocupar
antes da hora. O silêncio volta. Só o som da faca contra a tábua de madeira e da panela fervendo
preenche o espaço. De repente, a CAMPAINHA TOCA. O som é seco, metálico, brutal, cortando o
aconchego como uma lâmina. Júlia congela. A faca fica suspensa por um instante. Ela respira fundo,
fecha os olhos por um breve segundo, como quem se prepara para entrar em cena. 2. INT. HALL DE
ENTRADA - NOITE A câmera acompanha Júlia caminhando lentamente pelo corredor. Ela ajeita uma
mecha de cabelo atrás da orelha, respira fundo, mas a respiração sai entrecortada, tensa. Gira a
maçaneta. A porta se abre. Do lado de fora, estão Helena, mulher de cerca de 58 anos, porte ereto e
imponente, cabelos curtos e bem arrumados, maquiagem discreta e impecável, vestida com um
vestido vermelho elegante; Paulo, homem de 60 anos, presença firme e olhar calmo, cabelos
grisalhos bem penteados, barba feita, usa camisa social clara e calça de alfaiataria; e João, 28 anos,
magro e despojado, cabelos levemente bagunçados, barba por fazer, veste camiseta escura e
jaqueta jeans. A postura deles é ereta, rígida, quase militar. Os sorrisos são duros, ensaiados.
HELENA (ABRAÇO CONTIDO, BREVE, FRIO) Boa noite, Júlia. JÚLIA (SORRISO DISCRETO,
ESFORÇADO) Boa noite, Helena. Boa noite, Paulo... João. Eles entram em fila, atravessando a porta
como quem cruza uma fronteira. 2 JOÃO (OLHANDO EM VOLTA, TOM SARCÁSTICO) Vocês até
que arrumaram a casa, hein? Quase não reconheci. PAULO (OLHANDO PARA JÚLIA, SÉRIO)
Mateus está? JÚLIA Está terminando o jantar. Um silêncio breve, constrangedor. JÚLIA O que acham
de irmos para a sala de jantar? Todos assentem com pequenos movimentos de cabeça. Júlia os
acompanha até a sala de jantar. 3. INT. SALA DE JANTAR - NOITE A mesa está impecável. A toalha
de linho esticada, pratos simetricamente alinhados, talheres reluzindo sob a luz do lustre. Há um
cuidado quase cerimonial, como se cada detalhe fosse um gesto de defesa. Os convidados se
acomodam na mesa com gestos contidos. Júlia oferece taças de vinho e copos de água, com
movimentos medidos, calculados. O ambiente soa estranho. O som da música vindo da cozinha
contrasta com a rigidez da sala, como se estivesse tocando em outro mundo. PAULO (AJEITANDO O
COPO, HESITANTE) A casa de vocês está... arrumadinha. JÚLIA Obrigada. Fizemos o possível. 3
Um silêncio denso se instala. Helena observa cada detalhe do ambiente, como se estivesse em uma
inspeção. João observa a mãe, relaxado, com um sorriso debochado no rosto. Mateus entra na sala
de jantar, carregando um sorriso enorme no rosto. MATEUS (SORRINDO, CUMPRIMENTANDO
CADA UM) Boa noite, pai, mãe, João. (ALTO, PERFORMÁTICO) Espero que estejam com fome. O
jantar está quase pronto. Confesso que quase queimei metade da comida, mas consegui salvar a
outra metade. Um riso curto escapa de cada um, mas logo morre, sem eco. O silêncio retorna, mais
pesado do que antes. Helena apoia a taça na mesa, com um gesto lento, calculado. HELENA
(PAUSA, OLHANDO PARA JÚLIA) E como está o trabalho, Júlia? JÚLIA (ENGOLE SECO,
MANTENDO A POSTURA) Com as crianças é sempre um desafio... Entre ensinar, acalmar choros e
lidar com birras, cada dia é diferente. Mas é exatamente por isso que eu amo o que faço. HELENA
(SEM DISFARÇAR O TOM CRÍTICO) Imagino. Só fico pensando se não seria melhor dedicar mais
tempo à casa. À SUA família. Mateus desvia o olhar. Júlia mantém o sorriso, mas seus dedos
apertam a taça com força. JÚLIA (FIRME, SEM PERDER A DOÇURA) Eu dedico. Só que de um jeito
diferente. Um silêncio denso paira. João observa, divertido, como quem assiste a um jogo. 4 Júlia
ajeita os guardanapos com movimentos minuciosos. Sua respiração está controlada, quase
ensaiada. Helena alisa a toalha com a palma da mão, inspecionando. O silêncio é quebrado por um
comentário afiado. HELENA (OLHANDO PARA OS TALHERES, TOM DISFARÇADAMENTE LEVE)
Esses talheres... são tão diferentes. (PAUSA, SORRISO FALSO) Espero que não atrapalhem na hora
de cortar a carne. O olhar dela pousa em Júlia como um teste. JÚLIA (SUAVE, MAS FIRME, SEM
RECUAR) Tenho certeza de que vão cumprir bem o papel deles. Um silêncio breve. João não perde
a oportunidade. JOÃO (EM TOM DE HUMOR) Não reclama, mãe... pelo menos não são
descartáveis. Mateus ergue a taça, tentando se antecipar ao desconforto. MATEUS (FORÇANDO
ENTUSIASMO) Vamos brindar, então? À família reunida. Todos levantam as taças. O gesto é
protocolar, quase mecânico. Helena observa a mesa e as cadeiras, como se estivesse avaliando
cada detalhe. HELENA (OLHANDO AO REDOR, DISFARÇANDO CRÍTICA) Por que vocês
colocaram as cadeiras de um jeito diferente? Quase não conseguimos nos acomodar. Ela ri
brevemente, mas o olhar transmite julgamento. 5 PAULO (VOZ CALMA) Ah, deixa, Helena. Cada um
organiza do jeito que consegue. HELENA Claro... só acho que o espaço poderia ser mais bem
aproveitado. Júlia força um sorriso contido, girando discretamente a taça de vinho nos dedos. JÚLIA
(EDUCADA, TENTANDO MUDAR O FOCO) Querem mais vinho? Mateus observa, preocupado,
percebendo cada leve tensão. MATEUS (BRINCANDO, TENTANDO ALIVIAR) Na próxima, eu que
arrumo a mesa. Prometo colocar as cadeiras em ordem militar. João apoia o queixo na mão, com um
sorriso irônico e divertido. JOÃO (RINDO BAIXO, PROVOCANDO LEVE) Se for assim, quero
uniforme também. Não posso perder o desfile das cadeiras. Alguns risos curtos surgem, leves, sem
quebrar totalmente o peso do ambiente, mas trazendo um pequeno alívio. De repente, a
CAMPAINHA TOCA. O som corta a leveza recém-instalada. 4. INT. HALL DE ENTRADA - NOITE
Júlia abre a porta. O rosto dela se ilumina ao ver Maria, 55 anos, porte pequeno e semblante
acolhedor, cabelos grisalhos presos em um coque simples, vestindo um vestido floral leve; Cláudio,
57 anos, robusto e sereno, cabelos grisalhos curtos, usa camisa de linho e calça simples; e
Fernanda, 27 anos, 6 magra, expressão viva e olhar empático, cabelos soltos e cacheados, veste
calça jeans e uma blusa colorida. O abraço em Fernanda é longo, intenso, quase desesperado.
JÚLIA (BAIXO, NO OUVIDO DA IRMÃ) Me ajuda a sobreviver essa noite. FERNANDA (CÚMPLICE,
SORRISO SINCERO) Sempre. 5. INT. SALA DE JANTAR - NOITE Todos os convidados já estão
sentados, aguardando a comida ser servida. Júlia vem da cozinha trazendo os pratos quentes e
caminha lentamente até a mesa. Com gestos meticulosos, quase ritualísticos, ela serve os pratos
quentes à frente de cada convidado, primeiro Helena, depois Paulo, João, Mateus e, por fim, seus
próprios pais e Fernanda. Cada movimento mostra esforço e nervosismo. Em seguida, distribui as
travessas e retorna ao seu lugar. Tudo ocorre em silêncio, sem diálogo, enquanto a câmera
acompanha seus movimentos, ressaltando cuidado e paciência. A primeira fala que inicia a tensão
vem de Helena, com tom crítico, mas contido. HELENA (OLHANDO PARA MATEUS) Sabe… eu
ainda acho que você deveria trabalhar numa grande empresa de advocacia. Com pequenas causas,
não dá para crescer de verdade. Mateus engole seco, desconfortável, tentando sorrir. 7 MATEUS Eu
gosto de pequenas causas… para mim, fazer a diferença na vida de cada pessoa vale mais. Helena
cruza os braços, firme. HELENA Mas você poderia ganhar mais, ter prestígio, estabilidade. Não acha
que está desperdiçando potencial? Cláudio intervém, neutro, tentando acalmar. CLÁUDIO Toda
escolha profissional tem valor. O importante é que se sinta realizado e honesto com o que faz. João
observa a discussão, divertido, com ironia leve: JOÃO (RINDO BAIXO) Olha… nada como um jantar
para revisar a carreira do marido da filha. HELENA (IRÔNICA, IGNORANDO JOÃO) E você, Mateus,
não percebe que algumas estruturas existem para proteger, não limitar? MATEUS (EM UM TOM DE
VOZ ALTO) Proteger ou controlar? Porque parece que tudo que faço precisa da aprovação de vocês!
FERNANDA (INTERVINDO, CALMA) Não é sobre aprovação, Helena. É sobre perceber que
pequenas diferenças no dia a dia podem se transformar em tensão. HELENA (LEVANTANDO O
TOM) E como você sabe o que é tensão, se está sempre do lado da sua irmã? FERNANDA (FIRME,
OLHANDO PARA HELENA) 8 Porque convivo com pessoas diferentes, e sei que não basta impor
sua visão para que as coisas funcionem. HELENA (ERGUE A SOBRANCELHA, INTERROMPENDO)
Impor? É isso que você chama de impor? Minha filha, defender princípios não é imposição, é…
CLÁUDIO (INTERROMPENDO, CALMO MAS INCISIVO) É impor sim, Helena. Quando se espera
que todos sigam o mesmo molde, o mesmo caminho, isso é impor. Cada um constrói sua vida a partir
das suas escolhas, não das expectativas da família. HELENA (VIRA-SE PARA CLÁUDIO, RÍSPIDA)
Com todo respeito, Cláudio, mas sem tradição a família perde o rumo. É a disciplina, o valor do que
foi passado, que mantém a gente de pé. MARIA (INTERVINDO, VOZ DOCE, MAS FIRME) Tradição
sem amor sufoca. Não adianta ter regras se a casa está vazia de afeto. HELENA (SARCÁSTICA,
CRUZANDO OS BRAÇOS) E amor resolve contas no fim do mês? Resolve carreira mal planejada?
MATEUS (LEVANTA A VOZ, TENTANDO CONTROLAR) Mãe, já falamos disso. Eu não quero seguir
o caminho que você escolheu pra mim. HELENA (CORTANDO) Não é sobre querer, Mateus, é sobre
responsabilidade. JÚLIA (OLHANDO FIRME PARA HELENA, NÃO SE CONTENDO)
Responsabilidade não é abrir mão de si mesmo só pra caber no que os outros esperam. 9 HELENA
(OLHA PARA JÚLIA, FRIA) Você fala como se entendesse, Júlia… mas educar uma família exige
mais do que frases bonitas. JÚLIA (TENTA SE CONTER, MAS A VOZ SOBE UM POUCO) E exige
também não sufocar quem está tentando construir uma vida diferente. JOÃO (RINDO BAIXO,
PROVOCANDO) Pronto… eu sabia que em menos de meia hora a gente chegaria nesse ponto.
Sempre acaba virando uma guerra santa de princípios. FERNANDA (IRRITADA, ENCARANDO
JOÃO) Você acha graça porque nunca se posiciona. Fica aí, rindo, enquanto o mundo desaba. Existe
um nome para pessoas como você, que nunca se posicionam: covardes. JOÃO (ERGUE O TOM,
MEIO RINDO) Covardia é achar que qualquer debate de mesa vai mudar o mundo. Eu só economizo
saliva. CLÁUDIO (FIRME, PARA JOÃO) Não se trata de mudar o mundo, João. Se trata de assumir
posição. Neutralidade diante da injustiça é escolha. E das piores. HELENA (INTERROMPE,
EXALTADA) Injustiça? Pelo amor de Deus, Cláudio, vocês vivem inventando injustiça para justificar
preguiça. Quem trabalha, vence. MARIA (CORTANDO, INDIGNADA) Não, Helena! Quem nasce com
mais, vence mais rápido. Essa é a diferença. 10 HELENA (BATE A MÃO NA MESA, RÍSPIDA) E é
errado esperar que as pessoas lutem por si mesmas? JÚLIA (SEM CONSEGUIR SE SEGURAR,
FIRME, OLHOS FIXOS NELA) Errado é fingir que todo mundo começa do mesmo lugar. HELENA
(VIRA-SE PARA JÚLIA, TOM CORTANTE) Você fala como se fosse especialista em vida dura. Mas
você sempre teve escolhas, Júlia. Não aja como se você não fosse privilegiada. JÚLIA (ERGUE A
VOZ, PERDENDO O CONTROLE) Escolhas que lutei pra conquistar, Helena! Nada caiu do céu. Eu
escolhi trabalhar com o que amo, e se isso não cabe no seu conceito de sucesso… paciência!
MATEUS (TENTA CORTAR, NERVOSO) Gente, por favor… FERNANDA (INTERROMPENDO
MATEUS, FIRME) Não, Mateus. Ela tem razão. Não dá mais pra engolir em silêncio. HELENA
(OLHANDO DE UM LADO PARA OUTRO, EXALTADA, DRAMÁTICA) Então é isso? Vocês querem
transformar um jantar em tribunal contra mim? CLÁUDIO (SE INCLINA PRA FRENTE, FIRME)
Ninguém está contra você, Helena. Mas toda vez que alguém respira diferente, você transforma em
afronta. HELENA (LEVANTA A VOZ) Porque vocês não entendem que sem regra não há ordem! 11
Um silêncio pesado toma a mesa por um instante. Todos parecem respirar mais forte. Paulo, até
então contido, se ajeita na cadeira. Ele olha para Mateus e depois para Júlia, com expressão grave.
Sua voz sai calma, mas carregada de convicção. PAULO (FIRME, PAUSADO) A ordem não está
apenas nas regras da casa ou da família, Helena. A ordem começa em algo maior. (PAUSA,
ENCARA MATEUS) É por isso que, para mim, a fé sempre guiou nossos passos. Sem a religião, sem
a igreja… tudo se perde. É ela que nos ensina disciplina, que nos lembra quem somos e para onde
vamos. MATEUS (RESPIRA FUNDO, TENTANDO CONTER A IRRITAÇÃO) Pai, com todo respeito…
eu sei o que a fé significa para o senhor. Mas não é porque eu escolhi um caminho diferente que
estou perdido. PAULO (OLHANDO FIXO PARA O FILHO, QUASE EM SÚPLICA) Mas é que não
existe “caminho diferente”, Mateus. Existe o certo e o errado. A vida sem os ritos, sem a comunidade,
vira um amontoado de vontades individuais. A tradição não é prisão, é proteção. FERNANDA
(INTERVÉM, CALMA, MAS FIRME) Mas e se a fé de alguém não estiver dentro da Igreja? E se a
espiritualidade for outra? Eu acredito que cada um tem o direito de buscar o que lhe dá paz. PAULO
(VIRA-SE PARA ELA, MANTENDO A CALMA, MAS INCISIVO) E o que acontece quando cada um
inventa a sua própria fé? O caos. Família sem raiz se perde, sociedade sem raiz desmorona. É a
religião que nos dá chão. MARIA (SERENA, MAS CORTANTE) 12 Ou sufoca. Porque quando a fé
deixa de ser escolha e vira obrigação… não liberta, aprisiona, né? HELENA (ASSENTINDO PARA
PAULO, EXALTADA) Exato! E quem se afasta da tradição, se afasta também da família. MATEUS
(GRITANDO, IRRITADO) Não! Eu não me afastei da família. Eu só não quero ser obrigado a viver
exatamente como vocês. JÚLIA (BATE O GARFO NO PRATO, COM FORÇA) Chega! O silêncio cai
de imediato. Todos olham para ela. Júlia está trêmula, mas firme, os olhos marejados. JÚLIA (VOZ
FORTE, SEM DESVIAR O OLHAR) Olha aqui, gente. Isso não é tribunal, não é palanque político e
nem é sermão de igreja. É a nossa casa, a minha e do Mateus. E enquanto vocês estiverem aqui,
vão respeitar. JÚLIA respira fundo, ajeita a postura. O olhar dela percorre a mesa, como quem mede
até onde pode ir. JÚLIA (SERENA, MAS FIRME) Vou à cozinha buscar a sobremesa. Ela se levanta
devagar, recolhendo alguns pratos com as mãos trêmulas. Fernanda se adianta e a acompanha.
FERNANDA (BAIXINHO, AO SE LEVANTAR) Eu te ajudo. 6. INT. COZINHA - NOITE 13 A luz da
cozinha é mais suave, amarelada. O contraste com a tensão da sala é imediato. Júlia coloca os
pratos na pia e apoia as mãos no balcão, respirando fundo. Fernanda se aproxima, pega a travessa
com a torta ainda coberta. Há um silêncio breve entre as duas. FERNANDA (BAIXO, CÚMPLICE)
Falta pouco, Jú. Aguenta mais um pouco. JÚLIA (OLHANDO PARA ELA, COM OS OLHOS
MAREJADOS) É sempre assim. Parece que tudo o que eu faço está errado… eu sinto como se eu
fosse uma intrusa. FERNANDA (ENCARANDO, FIRME, MAS DOCE) Você não é intrusa. Você é o
que mantém o Mateus em pé. Se não fosse você, ele já teria quebrado. JÚLIA desvia o olhar, respira
fundo, enxuga discretamente uma lágrima. JÚLIA (VOZ EMBARGADA) E se eu quebrar também?
FERNANDA (SEGURA NA MÃO DELA, FIRME) Não vai. Porque eu tô aqui. E eu vou estar sempre
aqui por você, Jú. Um silêncio íntimo. Elas se olham, cúmplices. Júlia força um sorriso, frágil, mas
verdadeiro. JÚLIA Vamos. Fernanda pega a travessa com delicadeza. As duas retornam à sala,
recompostas. 14 7. INT. SALA DE JANTAR - NOITE A sobremesa é colocada no centro da mesa. Por
um breve instante, os olhares recaem sobre a torta como se fosse um objeto sagrado. O clima alivia
por segundos. MATEUS (SORRINDO, TENTANDO QUEBRAR O PESO) Essa é obra da Júlia. Se
tem algo que salva qualquer noite… é a torta dela. JÚLIA sorri discretamente, tentando se esconder.
Mas Helena não perde a oportunidade. HELENA (OLHANDO PARA A TORTA, COM FRIEZA)
Interessante… só achei o recheio um pouco mal distribuído. Mas eu gostei. O comentário corta o ar.
O sorriso de Mateus se desfaz. FERNANDA (OLHANDO FIXO PARA HELENA, RÍSPIDA) Por que é
tão difícil simplesmente agradecer, ou ficar calada? HELENA (sem perder a compostura) Eu
agradeço. Só acho que sempre dá para melhorar. MARIA (MANSA, MAS FIRME) Às vezes, Helena,
melhorar significa calar e deixar o outro respirar. O silêncio retorna. Todos começam a se servir da
sobremesa. Cláudio, ao cortar a torta, fala: CLÁUDIO (SERENO, MAS DIRETO) O problema é que
essa obsessão por tradição não cabe em tudo. Falam em valores e costumes, mas esquecem de
coisas 15 fundamentais, como cobrar do Estado que garanta um ensino público de qualidade.
HELENA (RÁPIDA, CORTANTE) Escola pública só ensina preguiça. Quem realmente quer algo na
vida, corre atrás de conseguir bolsa em escola particular, onde o ensino é outro nível. CLÁUDIO
(FIRME, MAS CONTROLADO) Não, Helena. Quem nasce com menos, corre mais e ainda chega
depois. PAULO (ENTRANDO, VOZ PESADA) Esse discurso é perigoso. É isso que enfraquece a fé,
a disciplina. Primeiro se abandona a religião, depois se joga a responsabilidade no governo.
FERNANDA (OLHANDO PARA PAULO, FIRME) Não é jogar no governo. É entender que ninguém
cresce sozinho. Nem fé sobrevive sozinha. JOÃO (RINDO BAIXO, DEBOCHADO) E lá vamos nós…
a ceia da revolução. FERNANDA (VIRANDO-SE PARA JOÃO, IRRITADA) Você não cansa de rir de
tudo? JOÃO (COM IRONIA) Canso. Mas prefiro rir do que ficar gritando como vocês. CLÁUDIO
(OLHANDO DIRETO PARA JOÃO, FIRME) Rir é mais fácil do que criar coragem para se posicionar.
16 João dá um sorriso amarelo, mas não responde. O clima é de silêncio constrangedor após a fala
dura de Cláudio contra João. Som de talheres batendo nos pratos. HELENA (ROMPE O SILÊNCIO,
TOM DE SURPRESA) Júlia, devo te elogiar. Essa torta está uma delícia! (PROVA OUTRA
COLHERADA, SORRINDO) Esse sabor me lembrou da nossa viagem ao sul, Paulo. Aquela torta que
a gente comeu no café colonial… lembra? PAULO (ESBOÇA UM SORRISO, APROVEITANDO A
DEIXA) Lembro sim. Era deliciosa… e essa aqui não fica devendo nada. HELENA (TRANQUILA) Eu
podia voltar só para comer aquela torta de novo. Mas agora… já tenho uma versão caseira em casa.
FERNANDA (MAIS LEVE, APROVEITANDO) É verdade, ficou uma delícia. Júlia, você devia anotar
essa receita e guardar as sete chaves. CLÁUDIO (MASTIGANDO, MAIS CALMO) Confesso que está
muito boa. Não sou de elogiar, mas essa merece. O ambiente ganha um tom menos pesado, mas os
olhares ainda carregam restos do embate anterior. Todos comem, tentando se distrair. HELENA
(SORRINDO, FORÇANDO LEVEZA) Lembrei agora de quando o Mateus quase ficou preso no
teleférico naquela viagem. PAULO (RI BREVEMENTE, MAS LOGO VOLTA AO SEMBLANTE SÉRIO)
É… verdade. Ele estava apavorado. 17 MATEUS (ENTRE RISOS, MEIO DEFENSIVO) Vocês nunca
esquecem isso, né? Eu tinha o quê, oito anos? FERNANDA (OLHANDO PARA ELE, SORRIDENTE,
MAS A VOZ BAIXA) Bom é ver que você sobreviveu e ainda está aqui pra rir com a gente. MARIA
(SUAVE, MAS SEM ESCONDER A GRAVIDADE NO OLHAR) É… quando a gente consegue lembrar
das coisas boas, fica mais fácil… por um instante. Um breve silêncio toma conta da mesa. A
sobremesa termina de ser comida. Alguns talheres batem contra os pratos, outros descansam sem
pressa. O clima permanece leve na superfície, mas o peso das discussões ainda se faz presente nas
trocas de olhares e nos gestos contidos. HELENA (SORRI DISCRETAMENTE, QUASE FORÇADA)
Bom… acho que é hora de encerrar a noite. PAULO (ASSENTINDO) Sim, está ficando tarde. Todos
se levantam lentamente, e trocam abraços de despedida. MATEUS (EM UM TOM DE VOZ LEVE)
Vou acompanhar vocês até a porta. JOÃO (COM UM MEIO SORRISO) Boa noite para vocês!
Cláudio olha para Júlia, que estava em pé ao lado da mesa. CLÁUDIO (CALMO) Obrigado por nos
receber, minha filha. Foi uma noite… interessante. 18 Mateus se retira do ambiente, acompanhado
por seus pais. MARIA (OLHANDO PARA JÚLIA, GENTIL) Vamos embora, querida. Júlia abraça seus
pais e sua irmã. JÚLIA (TOM DE VOZ LEVE) Muito obrigada por terem vindo! Vou acompanhar
vocês até a porta. A câmera acompanha a saída dos convidados. O som da porta batendo ecoa
brevemente, deixando para trás um espaço carregado de silêncio. 8. INT. SALA DE ESTAR - NOITE
Júlia se senta lentamente no sofá, exausta. A expressão é pensativa, os olhos ainda marejados. Ela
respira fundo, observando a sala vazia. O silêncio é pesado, quase palpável. Cada pequeno ruído da
casa, como o vento na janela, o tique-taque do relógio, o eco distante da campainha, ganha
importância. Mateus retorna, fechando a porta atrás de si. Sem dizer uma palavra, senta-se ao lado
de Júlia e a abraça. Os dois permanecem imóveis, no silêncio do abraço. A presença de cada um ao
lado do outro é suficiente. Eles compartilham o silêncio, digerindo não apenas o jantar, mas tudo o
que aconteceu naquela mesa, todas as palavras ditas, todas as tensões e pequenas vitórias da noite.
A câmera se afasta lentamente, mostrando o casal lado a lado no sofá, ainda abraçados, a sala
iluminada pela luz quente do abajur. O silêncio domina, carregado de pensamentos e emoções não
verbalizadas.

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