0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações238 páginas

?todos Os Animais Merecem o Céu - Marcel Benedeti

O livro 'Todos os Animais Merecem o Céu' é uma homenagem ao veterinário Marcel Benedeti, que exemplifica o amor pelos animais e a busca por compreender sua espiritualidade. A obra narra a história de um jovem veterinário que, após enfrentar desafios pessoais e profissionais, se dedica a investigar a vida espiritual dos animais, recebendo orientações de amigos espirituais. A narrativa destaca a importância do amor e da compaixão, tanto entre humanos quanto em relação aos animais, reforçando a ideia de que todos merecem um lugar no céu.

Enviado por

Andrea Bianchi
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações238 páginas

?todos Os Animais Merecem o Céu - Marcel Benedeti

O livro 'Todos os Animais Merecem o Céu' é uma homenagem ao veterinário Marcel Benedeti, que exemplifica o amor pelos animais e a busca por compreender sua espiritualidade. A obra narra a história de um jovem veterinário que, após enfrentar desafios pessoais e profissionais, se dedica a investigar a vida espiritual dos animais, recebendo orientações de amigos espirituais. A narrativa destaca a importância do amor e da compaixão, tanto entre humanos quanto em relação aos animais, reforçando a ideia de que todos merecem um lugar no céu.

Enviado por

Andrea Bianchi
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Todos os Animais Merecem o Céu

Obra premiada no Concurso Literário João Castardelli 2003 — 2004,


promovido pela Fundação Espírita André Luiz (FEAL).
Coordenadores do Concurso: João Carlos Bacurau e Aparecida
Quintal
Comissão Julgadora: Ana Maria B Paschoal, Arnaldo Epstein, Carlos
Coelho, Celeste P. da Silva, Cleonice S. Soares; Déa R. Conti, Dirceu
Luttke, Doracy dos R. Gonçalves, Dulcelina de Jesus, Eduardo Luiz Xavier
Fernando Bacurau; Gastão de Lima Neto, Lara Bacurau, Ildézio Bilmayer,
Jayme R Pereira, João Demétrio Lorichio, José Geraldo Ramos, José Pozzi,
Maria Rita Ortega, Marlene Santos; Nadir da S. L. de Assis, Nicelmo Abreu
Andrade, Paulo Nanini, Ricardo P. de Paula, Roberto Pasetchn Spério
Faccione e Valter S. de Souza

Consultora: Ana Gaspar


Homenagem a Marcel Benedeti

MARCEL, UM SEGUIDOR DE FRANCISCO DE ASSIS

Na cidade de Gubbio, na Itália, onde São Francisco viveu durante


algum tempo, havia um lobo “terrível e feroz, que devorava homens e
animais”. São Francisco teve compaixão pela população local e foi para as
colinas achar o lobo.
Logo, o medo do animal fez todos os seus companheiros fugirem,
mas Francisco continuou e, quando achou o lobo, fez o sinal da cruz e
ordenou ao animal para vir até ele e não ferir ninguém.
Milagrosamente, o lobo fechou suas mandíbulas e se colocou aos pés
de Francisco.“Irmão lobo, você prejudica a muitos nestas paragens e faz
um grande mal”, disse São Francisco. “Todas estas pessoas o acusam e o
amaldiçoam. Mas, irmão lobo, eu gostaria de fazer a paz entre você e
essas pessoas. ” Então, Francisco conduziu o lobo para a cidade e, cercado
pelos cidadãos assustados, fez um pacto entre eles e o lobo. Porque o lobo
tinha “feito o mal pela fome”, a obrigação da população era alimentar o
lobo regularmente e, em retorno, o lobo já não os atacaria nem a seus
rebanhos. Desta maneira, a cidade de Gubbio ficou livre da ameaça do
predador.
Os ensinamentos de São Francisco de Assis, “que amou os animais
como nossos irmãos”, foram revividos nas obras e no trabalho de Marcel
Benedeti, jovem veterinário, que é um exemplo a ser seguido.
Todos os Animais Merecem o Céu mostra como é grande o Amor do
Pai pela Sua Criação e que ninguém está desamparado. Tudo faz parte de
um projeto evolutivo pelo qual passa a Humanidade.
Grandes estudiosos já descreveram a inteligência dos animais, em
muitos artigos e teses. Marcel nos mostra mais que simples pesquisas; ele
relata como é grande o amor que eles sentem por seus donos. Por mais
ingratos que sejamos, ainda assim nos perdoam e continuam a nos amar,
deixando claro com seus exemplos que, realmente, Somos Todos Irmãos.

Homenagem da Equipe Mundo Maior


Trecho extraído do livro I Fioretti (Pequenas Flores) Ed. Vozes
Índice

Homenagem a Marcel Benedeti


Índice
Apresentação
Animais
Bob
O Malamute
Kayama
O Presente
O Incêndio
No Hospital
O Resgate
Tia Nana
Formosa
Suzy
Aprendizado
Café
Na Fazenda
Animais Assustadores
Sabatina
Em Auxílio
Os Condenados
Surpresas
No Mar
Os Animais Reencarnam
Todos os Animais Merecem o Céu
Ilustre Visita
Apresentação

A plateia aplaudia, entusiasmada, ao vê-lo recebendo o diploma de


graduação, como médico veterinário. Ali, naquele salão, cerca de
quinhentas pessoas estavam reunidas para contemplar os amigos e parentes
que se formavam, também, assim como ele.
Seus pais e suas irmãs estavam felizes por vê-lo colando grau, pois,
sabiam que não havia sido fácil para todos conseguir chegar até ali. Foram
anos de esforço e até mesmo de privações, para atingir aquele objetivo, uma
vez que vinha de uma família de operários e os recursos financeiros eram
escassos.
Mas, todos os esforços foram recompensados naquele momento.
Tornara-se médico veterinário. Ao receber o diploma, virou-se para a
plateia e agradeceu de volta a salva de palmas que recebeu, mostrando seu
cartucho azul e sorrindo como nunca.
De cima do palco, acenou para os parentes, em agradecimento,
quando os viu sentados entre o público. Havia, entretanto, algumas pessoas
que ele não conhecia, acenando, também, e estavam perto aos seus pais.
Quem seriam aquelas pessoas que pareciam tão felizes por sua
diplomação? Uma delas usava uma espécie de batina marrom escuro, com
um grosso cordão preso à cintura, de onde um crucifixo de madeira polida
pendia, brilhante. Poderia ser algum padre que o conhecia ou aos seus pais.
O eclesiástico estava acompanhando. Ao lado, estava alguém vestido de
branco como um médico, que segurava um livro e um pequeno cão da raça
fox terrier de pêlos duros. Ele também acenava. Ao lado de ambos, outra
figura bem-vestida. Pisava um terno azul, bastante alinhado. Eram três
pessoas ali, acenando e marcando presença no evento.
O recém-formado, por uma fração de segundo, desviou o olhar e já
não mais os encontrou ali. Seus parentes continuavam a aplaudi-lo, e
pareciam não se surpreender com o súbito desaparecimento daquelas três
pessoas. Com um grande aceno, e desceu do palco, levando seu cartucho.
Após a cerimônia, procurou seus pais para abraçá-los, enquanto,
discretamente, procurava aquelas pessoas entre os presentes, mas não as
encontrou mais.
Os colegas de turma se abraçavam, com lágrimas nos olhos pela
despedida, quando ele notou aquele que estava de roupas brancas, próximo
à porta do saguão, fitando-o, com um sorriso nos lábios. Quis ir até ele para
conhecê-lo e agradecer-lhe a presença, mas, naquele saguão repleto de
pessoas, perdeu-o de vista. Desde então, não mais os viu.
Passado algum tempo, em uma noite, quando estava prestes a pegar
— no sono, nota o surgimento de uma figura, agora conhecida, mas
inesperada.
O susto foi grande, pela surpresa.
De um salto, saiu da cama. O visitante inesperado, com sua voz
suave, acalmou o rapaz e explicou-lhe quem era. Após desculpar-se pela
surpresa, disse que eram amigos de outras vidas e que o acompanhava há
muito tempo, mas nunca se manifestou antes, pois, não havia chegado o
momento.
Pediu que não se assustasse quando se encontrassem novamente, pois
estariam muito próximos, a partir de então. Ele era um monge franciscano,
que estava ali, a seu próprio pedido, antes de reencarnar nesta vida atual,
para ajudá-lo a atingir as metas propostas para esta existência. Ele seria um
amigo com quem poderia aconselhar-se e pedir auxílio, quando precisasse.
O monge usava uma vestimenta típica, de tecido grosso e um capuz que
cobria metade de sua cabeça. As mãos magras e a pequena estatura davam a
ele uma aparência frágil, mas sua força estava em sua sabedoria e
ponderação, que dividiria com o recém-formado veterinário.
Desde então, os ouvia aconselhando-o em sua mente, como se fossem
seus próprios pensamentos. Somente diferenciava dos seus, porque as frases
eram sempre na terceira pessoa. Quando ele precisava de conselhos, ah
estava o monge ou o homem de branco com seu cão e seu inseparável —
livro. Este último foi um veterinário em uma vida anterior, que, também,
prometeu aconselhá-lo e intuí-lo positivamente na vida profissional. — Os
anos se passaram, o rapaz se casou, tornou-se pai, abriu sua própria Clínica
veterinária e levava uma vida tranquila, ao lado da esposa e da filha
pequena, que eram seus tesouros na Terra. Posteriormente, foi pai mais duas
vezes. A esposa, muito espiritualizada, o levou a conhecer a Doutrina
espírita. De inicio, estranhou os conceitos, mas lembrou-se de seus amigos
espirituais e acabou aceitando também como sua a doutrina, mas, nunca se
aprofundou nos conhecimentos que ela lhe oferecia, por simples
desinteresse.
Queria, apenas, acompanhar a esposa às reuniões, e nada mais. Suas
preocupações eram com a clínica e com a família. Nada de estudos
doutrinários, apesar de sua esposa insistir para que ele estudasse e
entendesse melhoro fundamento daquela doutrina.
Aos poucos foi se interessando pelos estudos referentes à Doutrina
Espírita e começou a fazer parte de um grupo de estudos no Centro Espírita.
Os assuntos eram, realmente, interessantes e mereciam sua atenção. Passou
a ler mais e mais livros. O Livro dos Espíritos passou a ser seu livro de
cabeceira, por conter perguntas objetivas e respostas claras a diversos
temas.
Como veterinário, pesquisou sobre o seu maior interesse, que era a
vida espiritual dos animais, e notou a escassez de informações a respeito.
Queria saber mais, uma vez que tinha a certeza de que os espíritos
superiores não estavam desinteressados em divulgar o assunto. Era possível
que as informações fossem raras, porque as pessoas ainda não estavam
preparadas para elas. Pesquisou e procurou livros que relatassem sobre seu
assunto de interesse e encontrou alguns: “Os Animais têm Alma?”, de
Ernesto Bozzano, escrito no início do século passado, e “Evolução
Anímica”, de Gabriel Delanne. No entanto, nenhum deles relatava como
eram tratados os animais no mundo espiritual.
Continuou sua busca, mas, pouco encontrou. Em seu consultório,
ouvia comentários de clientes, que indagavam, curiosos, sobre o porquê de
tanto sofrimento entre os animais e se eles reencarnavam. Queriam saber se
tinham alma ou espírito e quais atenções receberiam na outra dimensão. A
curiosidade do veterinário aumentava, a cada livro que lia, mas, não
encontrava as respostas que procurava.
Quando surgiu a oportunidade, pediu ao seu amigo espiritual “Monge
Franciscano” que o orientasse em sua busca, e a resposta foi: “ainda não!”.
Ele não entendeu a recusa, mas, não ousou questionar e esperou. Enquanto
esperava, continuou por sua conta a busca, durante meses seguidos. Nesse
ínterim, lhe chegou uma notícia, que o abalou e o entristeceu: era portador
do vírus da hepatite do tipo C, uma doença incurável e letal que contraiu,
em 1978, quando sofreu um acidente, em que quase desencarnou, e recebeu,
acidentalmente, sangue contaminado por este vírus, que somente se
transmite por transfusão sanguínea. Naquela época, não se sabia da
existência deste vírus. Chocado com a notícia, sentiu-se abatido depois que
soube que talvez tivesse apenas mais dois anos de sobrevida antes que
deixasse este mundo, pois, ainda não existe um tratamento eficaz.
Procurou, novamente, seu amigo monge para saber dele se seria bem-
recebido do outro lado, quando chegasse sua hora. O amigo disse-lhe que
não era o momento de se preocupar com isso, pois havia muito trabalho,
ainda, a fazer. Mas, o jovem médico não recuperou o ânimo, rapidamente.
Ainda estava convencido de que lhe restavam poucos meses de vida. Certo
dia, o amigo monge lembrou-lhe de que a vida era eterna e pediu que se
afastasse destas ideias tristes que lhe faziam baixar o padrão de
pensamentos.
Ainda não convencido, sofria por não se sentir preparado para a volta
à outra dimensão e pensou: se era inevitável o retorno, então, ao menos,
queria deixar uma boa impressão de si aos que ficassem. Procuraria ser uma
pessoa melhor do que havia sido até então. O amigo monge perguntou-lhe o
que o afligia e ouviu como resposta um pedido. Ele queria, ao ingressar na
dimensão espiritual, poder enviar aos que ficaram informações sobre a vida
espiritual dos animais.
O amigo espiritual sorriu, largamente, e disse: “Eu já esperava isso de
você .
O veterinário sorriu, também, sem entender por que, e ouviu, ainda:
“Você não precisa desencarnar para obter as respostas que procura.
Não se preocupe, você viverá, ainda, por muitos anos”.
O médico pediu que o auxiliasse a encontrá-las, então.
O eclesiástico lhe sugeriu que estudasse mais e anotasse tudo o que
encontrasse sobre o assunto, pois, as anotações lhe serviriam como uma
espécie de manual de consultas para entender o que viria depois. Feliz,
começou a fazer, no mesmo dia, suas anotações. Foram quatro anos de
pesquisas antes de encerrar suas notas.
Em uma noite, o monge surge-lhe e pergunta: “Podemos começar?”.
E ele entendeu que se referia ao recebimento das informações da
espiritualidade. No entanto, os meses se passaram sem que o amigo
espiritual fizesse novo contato.
Um dia, o veterinário, ao acordar, sentiu-se compelido a pegar uma
caneta. Estava ansioso, eufórico e entusiasmado com algo que não sabia o
que era.
Chegando ao consultório, sentou-se em sua escrivaninha, e, como se
fosse guiado por uma força invisível, começou a escrever as primeiras
palavras. Naquele instante, seus sentidos ficaram levemente entorpecidos,
sentindo como se flutuasse. Era uma sensação agradável, acompanhada de
intenso bem-estar. Desligou-se do mundo exterior.
Não ouvia mais as pessoas que passavam na rua e nem o som dos
automóveis que, antes, o incomodava. Perdeu a noção de tempo e espaço.
Suas mãos, impacientes, continuavam a escrever, enquanto uma tela se
formava em sua mente, através da qual podia acompanhar as cenas mais
comoventes e emocionantes por ele já presenciadas.
As cenas se desenrolavam, vivas, mas, ele era, meramente, um
expectador. Era como se ele pudesse tocar os personagens, se o quisesse.
Mas, apenas observava, ouvia e sentia o que acontecia. Sua secretária o
observava na escrita frenética, sem interrompê-lo. Eventualmente, era o
telefone que tocava ou um cliente que entrava em seu consultório para pedir
ajuda profissional, mas, nos intervalos de cada atendimento, reiniciava de
onde tinha parado, ansioso por conhecer o desfecho, que nem mesmo ele
sabia.
Após escrever milhares de palavras, repentinamente, voltou a si. Tudo
ao redor parecia estar exageradamente colorido, brilhante e barulhento.
Suas mãos não acompanhavam sua vontade de terminar o que começou. O
calor agradável que o acompanhou por muitos minutos, repentinamente,
tornou-se como um gelo colocado sobre a testa. As cenas desapareceram de
sua mente, as palavras do narrador deixaram de ser ouvidas. Por mais que
se esforçasse, as palavras não lhe ocorriam. Restava, apenas, parar e ver o
que escreveu.
Era a história de Paloma, uma égua da raça manga-larga que
retornava ao mundo espiritual. Só então entendeu o que estava acontecendo.
Eram as informações do mundo espiritual que desejava receber e que lhe
estavam chegando. No dia seguinte, novamente sente aquela compulsão de
pegar em uma caneta e escrever. Desligou-se do ambiente, de forma quase
involuntária, retornando a ele somente quando o dever profissional o
chamava de volta. Após cada atendimento, cada telefonema, retomava seu
trabalho de descrever o mundo espiritual dos animais.
A cada cena que lhe aparecia na mente, como se estivesse mergulhado
em um filme, surpreendia-se, pois não sabia por antecipação o que ocorreria
a seguir. A curiosidade também o impulsionava a continuar com este
trabalho que se tornou prazeroso para ele.
Aos poucos, envolveu-se com os personagens. Emocionou-se com a
passagem de Paloma, com a lealdade de Formosa, com o sofrimento de
Bob, de Sofia e dos outros. Alegrou-se com os momentos felizes e ria das
situações engraçadas. Surpreendeu-se ao saber da existência de animais no
umbral; revoltou-se com aqueles que os maltratavam. Era surpreendido a
cada cena e queria conhecer o desfecho daquelas narrativas.
Ao final de seu trabalho literário, descobriu que há muito a aprender e
a descobrir no convívio com os animais, que nos passam muitas lições de
humildade, paciência e resignação. Os animais são, realmente, nossos
irmãos não só não estão desamparados pela espiritualidade, como são bem-
assistidos. Existem tantos assistentes quantos forem necessários, pois eles
merecem a mesma atenção que nós.
Com o despertar dessa nova consciência que desponta com a nova era
e com o novo milênio, as pessoas já estão mais bem preparadas para aceitar
e reconhecer nos animais a sua própria imagem. Eles são nossos irmãos
caçulas, por isso cabe a nós a responsabilidade do bom exemplo.
FRANCESCO V1TA. São Paulo, 15 de março de 2004.
Animais

Eram três horas da manhã e uma brisa suave e refrescante soprava


fazendo sibilar as folhas pontiagudas dos pinheiros que rodeavam a
fazenda, como se fossem milhares de flautas executando uma melodia
monótona. A Lua cheia deixava cair sua luz prata sobre as águas do lago,
criando um efeito que lembravam pinceladas em um quadro pintado em
fundo escuro. Próximo ao lago, semelhante a um grande espelho que
refletia a grande bola branca brilhante, alguns cavalos pastavam sobre
aquela grama tímida pelo sereno. O luar intenso daquela noite deixava ver
os seres noturnos alados em VÔOS rasantes como sombras voadoras sobre
as folhagens do pasto. Eram morcegos frutívoros fazendo voos quase
acrobáticos, ligeiros, e corujas, observadoras, atentas com seus grandes
olhos, à luz vinda das lâmpadas que iluminavam o estábulo onde estavam
duas pessoas em um trabalho silencioso e delicado.
O trabalho exigia silêncio e concentração, por isso sussurravam
também para não assustar a velha Paloma, uma égua, já aposentada dos
trabalhos na fazenda desde que contraiu uma enfermidade no casco que a
impedia de trabalhar. Apesar da idade relativamente avançada, Paloma
mantinha uma aparência jovem, com seus pêlos macios e brilhantes tal
como quando deu sua primeira cria. Somente os pêlos encanecidos
denunciavam que ela já não era mais a jovem da época em que trabalhar era
diversão.
Paloma já tinha trinta e quatro anos de idade e sempre viveu na
fazenda onde nasceu. Por isso, era como se fosse um membro da família do
senhor Mataveira, dono daquelas terras.
Guilherme, o veterinário, estava dando assistência ao parto daquela
que já não deveria mais engravidar, devido a sua idade avançada. Quanto a
isso, quando indagado pelo veterinário, Mataveira justificou-se:
— Foi um descuido nosso, pois, há muito tempo Paloma já não era,
ao menos aparentemente, fértil. Acreditávamos que já estava estéril.
Infelizmente, Ventania, o nosso garanhão mais jovem, em sua fase mais
viril, na qual os hormônios estão à flor da pele, não se interessou em
distinguir uma fêmea jovem de Paloma. Nossa Paloma é uma senhora de
respeito, que nos ajudou muito em trabalhos que somente ela era capaz de
fazer, devido a sua agilidade e força. Hoje está fraca e velha, mas já foi
jovem e forte. Ventania devia tê-la poupado! — falou Mataveira,
sussurrando para não incomodá-la.
Guilherme, o veterinário de vinte e seis anos de idade, (com quatro de
experiência) estava ali não somente como veterinário, mas como amigo,
pois era conhecido do fazendeiro desde criança, quando vinha com seu pai
para comprar queijo e mel e cavalgar em Paloma. Guilherme olhava sério
para o senhor Mataveira, enquanto ouvia as explicações do amigo, quando
resolveu responder, também em voz baixa, depois de soltar o queixo que
apoiava com sua mão direita.
— Senhor Mataveira, os animais não são como nós. Eles não pensam
e não sabem distinguir situações que exijam raciocínio. Os hormônios
mandam em seus instintos, pois é somente isso que são. São os instintos que
os levam a procurar as fêmeas em época de reprodução, a fim de preservar a
sua espécie. Não podemos esperar deles uma atitude inteligente como
teríamos nós. Seus cérebros não foram feitos para pensar, por isso não
podemos condenar Ventania por dar vazão aos seus instintos reprodutores.
O descuido foi nosso em deixá-lo próximo dela e não perceber que
Paloma ainda estava com seus hormônios ativos. Agora não podemos
lamentar. Cabe a nós tentar o que for possível para mantê-la viva, pois,
Paloma foi fecundada por Ventania e já está em trabalho de parto, que será
bem difícil. O filhote passa bem, mas há outro grande problema: além do
fato de ela possuir um útero flácido, com possibilidade de se inverter e se
exteriorizar o filhote está numa posição inadequada. Ele se encontra de
costas, quando deveria estar de frente para o canal do parto. Teremos de
manipulá-lo e tentar modificar sua posição no interior de Paloma para que
consiga nascer. Isto significa uma situação de risco para ela, pois Paloma,
como sabemos, já é idosa e seu coração é fraco; talvez não suporte grandes
esforços durante as contrações — explicou o médico, pausadamente.
— Então, o risco dela não suportar e sucumbir também serão
grandes? — perguntou o dono da fazenda, muito apreensivo, temeroso pela
saúde de seu animal preferido.
— O risco, como já disse, é muito grande, devido ao seu estado de
debilidade física. Seria como se uma senhora com idade para ser bisavó
engravidasse. Há uma possibilidade de que não suporte a dor e o trabalho de
parto até o final. Os equinos são muito sensíveis à dor. Daremos
analgésicos, mas não há garantias — respondeu Guilherme, com seu olhar
penetrante, como se, com esse olhar firme, conseguisse colocar a ideia da
gravidade do problema de forma mais completa.
Mataveira entendeu e somente observou o trabalho do médico, que
começou sua intervenção. Guilherme era um veterinário experiente, apesar
da pouca idade. Por isso, utilizando-se de suas habilidades médicas, estava
monitorando a respiração e os batimentos cardíacos de Paloma. Eram
notáveis os sinais de cansaço, e uma certa arritmia cardíaca
comprometedora o preocupava. Ao contrário do que se esperava para o
início do parto, as contrações eram muito fracas e insuficientes para
expulsar o filhote, que já dava sinais de estar passando do tempo de nascer.
Uma intervenção cirúrgica parecia urgente, Mataveira, fazendeiro que
também tinha experiência, percebeu que algo não estava bem com sua égua
preferida e pediu ao médico que fizesse o que fosse necessário e possível
para salvá-la, mas se ela não sobrevivesse, ele entenderia.
João Rubens, o auxiliar de Guilherme, estava sempre atento aos
parâmetros de saúde de Paloma, enquanto seu patrão cuidava do filhote. A
pedido de Guilherme, João aplicou uma dose de sedativos previamente
preparada pelo doutor, fazendo com que Paloma relaxasse um pouco, o que
permitiu a intervenção. O filhote, muito grande e pesado, exigiu que o
doutor utilizasse alguns instrumentos médicos para melhor posicionamento
do potro, e exigindo de ambos esforços físicos extenuantes. Paloma estava
mais debilitada e fraca, e o médico percebeu que precisaria decidir quem
deveria salvar. Optou por salvar o filhote, pois Paloma já demonstrava
sinais de falência e não suportaria uma cirurgia. A manipulação do filhote
também estava se prolongando por mais tempo do que o esperado.
Duas horas se passaram, e Guilherme estava totalmente esgotado pelo
esforço. Posicionando o filhote em direção ao canal do parto, conseguiu
expor uma de suas patas, e a ponta do focinho podia ser vista também,
buscando o ar. O médico fazia trações lentas para não ferir o potro, mas
percebeu que Paloma começou a respirar com dificuldade e que sentia dor.
O doutor pediu ao auxiliar que aplicasse novamente os sedativos, a fim de
amenizar a dor e para que conseguisse suportar a intervenção.
Então, João aplicou uma nova dose na mãe. Ela parecia estar
suportando mais do que podia, tão-somente para dar tempo de tentar salvar
o seu filhote. Paloma relaxou um pouco e Guilherme retornou ao pequeno
potro, que se mostrava ansioso por se livrar da angústia de estar preso.
Guilherme podia sentir com sua mão o filhote, bem como observar os
movimentos das narinas do potro, que procuravam o oxigênio através da
pequena abertura para o exterior, Mas, Guilherme não percebeu que OS
movimentos das pernas do filhote perfuraram a parede uterina, provocando
uma hemorragia. Paloma contraiu-se de dor, mas permaneceu firme, à
espera do nascimento de seu filhote. Através dos instrumentos auxiliares de
tração, foi possível expor gradativamente o corpinho do filhote.
Com a ajuda de João, conseguiram retirar o escorregadio corpo
saudável da pequena Palominha, pois era uma fêmea, cópia idêntica da mãe.
Até mesmo a mancha branca entre os olhos que lembrava o contorno de
uma pomba em voo, ela possuía.
Com toalhas secas, Guilherme retirou os envoltórios e enxugou o
filhote, além de romper o cordão umbilical que o ligava à mãe.
Imediatamente, após ver-se livre de todo aquele material materno, pôs-se
sobre as quatro trêmulas patas e tentou dar alguns passos, mas caiu. Nova
tentativa de se levantar e, por fim, conseguiu firmar-se o suficiente para se
manter e caminhar de maneira insegura até próximo ao rosto da mãe, já
fraca. Normal mente, o filhote ao nascer procura mamar, mas Palominha
procurou o rosto de sua mãe como se soubesse o que estava para acontecer.
Permaneceu ali, trêmula, ao seu lado e se deitou, apoiando a cabeça sobre a
dela, como se tivesse alcançado o seu objetivo, e, então, relaxou. Ela
encontrou o que buscava com aquela que lhe deu a luz. Ao sentir o toque da
filha, Paloma abriu, leve mente, os olhos e seu olhar encontrou o do filhote
recém-nascido. A expressão de Paloma mudou em ver sua cria ao seu lado.
Era notável a felicidade estampada em seu rosto. Paloma a olhava com
grande ternura. Era uma linda potrinha, suas pernas eram esguias. Os olhos
expressivos depois de ver a mãe passaram a contemplar ao redor como se já
conhecesse a todos. Parecia que ela sorria com os olhos em agradecimento
pelo que fizeram Guilherme e João em seu favor e de sua mãe.
Guilherme estava aplicando medicamentos em Paloma, quando João
notou sua respiração ofegante. O auxiliar chamou o doutor que, deixando o
que estava fazendo, a examinou novamente. Guilherme pegou seu
estetoscópio e auscultou o coração da mãe, que estava ainda mais arrítmico
e fraco. Olha para Mataveira e fez um sinal com a cabeça de que a morte
era inevitável. Mesmo assim, ainda tentou aplicar-lhe alguns medicamentos
cardíacos estimulantes, mas, Paloma estava se despedindo de todos. Com
grande esforço, levantou um pouco a cabeça, passou um longo olhar em
todos e parou em Mataveira, a quem era mais apegada. Fixou seu último
olhar em seu maior amigo. Deu um longo e sonoro suspiro e deixou de
respirar, definitivamente.
Suas pupilas se dilataram, mas, como se uma força invisível a
guiasse, aproximou-se do filhote e tocou-a com seu focinho já gelado, para,
a seguir, ficar imóvel. Guilherme tentou reanimá-la, em vão. Mataveira deu
um impulso, saltou sobre Paloma e a abraçou, sem conseguir pronunciar
uma só palavra enquanto as lágrimas inundavam seus olhos. Permaneceu
em silêncio por alguns segundos e, enxugando as lágrimas, disse: Vamos
enterrá-la próxima à sede, ela merece um lugar especial para descansar.
Adeus, amiga. Que Deus a receba como você merece — disse Mataveira,
com o olhar distante no horizonte, como se estivesse fazendo um pedido
direto a Deus.
Em um canto escuro, estava João Rubens, chorando discretamente,
escondido de seu patrão. João era uma pessoa extrema mente sensível e
espiritualizada, que conseguia ver além do que via seu patrão materialista.
Ele estava sentido com a perda de Paloma e com a cena de Mataveira,
despedindo-se dela pela última vez.
Guilherme, ao contrário, encarava seu trabalho e seus pacientes de
uma forma extremamente racional, evitando deixar misturar sentimentos
com a rotina de trabalho.
João Rubens sabia que, se fosse flagrado naquele estado de
sentimento, seria repreendido, pois, seu patrão, apesar de ser uma ótima
pessoa, algumas vezes era duro demais. Acompanhando tudo em silêncio,
estava ali perto dona Natália, a esposa de Mataveira, que, assim como João,
era muito sensível. Notando a tristeza do auxiliar do veterinário,
aproximou-se dele e o abraçou, dizendo:
— Você é uma boa pessoa, João. Nós percebemos que tem algo difícil
de se encontrar nas pessoas: compaixão pelos animais. Fico feliz por você
ser assim. Nunca deixe de ser como é, e continue a ser um exemplo, pois,
talvez, um dia, outras possam ser como você. Boa noite, João. Vá para casa
e nos perdoe por incomodá-los a esta hora, tirando do sossego de seus lares
para acudir um animal que, praticamente, já estava morto. Agradeço-lhes
por virem nos atender, tendo que pegar estradas esburacadas neste escuro.
Sei que fizeram o possível.
Guilherme fingiu nem notar que dona Natália estava tentando mostrar
a ele, com sua discreta crítica, o quanto João poderia ensinar-lhe.
Desapontada por não atingir o coração do médico, dona Natália abraçou-o e
se afastou, em silêncio.
Assim que dona Natália deu-lhe as costas, o médico de animais
dirigiu um olhar de reprovação a João Rubens, por misturar sentimento com
profissionalismo, e ainda deixou que percebesse o seu estado emocional,
que ele considerava como uma falta grave no trabalho e, pior ainda, deixou
margem a comentários.
Voltando sua atenção para o trabalho e, após certificar-se que
Palominha estava bem, recomendou ao encarregado da fazenda que a
deixasse para ser amamentada com Flecha, que também acabava de se
tornar mãe havia poucos dias. Ela era jovem e poderia amamentá-la e ao seu
próprio filhote, sem dificuldades. O médico guardou seus pertences, sem
dizer uma palavra ao auxiliar que aguardava uma reprimenda. Despediram-
se de Mataveira e dos empregados da fazenda, que ainda estavam acordados
à espera de boas notícias sobre Paloma, que não vieram, mas a presença de
Palominha amenizou a gravidade da situação.
Partiram dali em um pequeno, mas confortável, veículo adaptado para
percorrer -os terrenos acidentados das fazendas a que assistiam. Guilherme,
ainda com feições de poucos amigos, nada disse a João, mas este já sabia o
que o esperava. Mal entraram no automóvel, Guilherme o repreendeu,
tentando, sem conseguir, não ser grosseiro, pois sua maneira de falar já era
normalmente áspera.
— João, você precisa aprender a controlar seus acessos de choro em
público. Não podemos demonstrar fraqueza aos nossos clientes. Caso
contrário, não nos chamam mais para atendê-los. Você precisa entender a
minha posição.
Já imaginou se todos ficam sabendo que você chora assim, cada vez
que morre um bicho? — dizia isso franzindo a testa, usando um tom de voz
autoritário.
— Perdoe-me, patrão, mas não pude me conter dessa vez, pois vi nos
olhos do senhor Mataveira o quanto ele e sua senhora sentiram pela perda
de Paloma. Não pude conter-me ante a cena comovedora de uma mãe
tentando, com suas últimas forças, tocar a filha pela última vez — disse
João, já aos soluços, como uma criança, com lágrimas caindo a cântaros.
— Calma, João. Eu não quis ser grosseiro com você! Não precisa se
ofender, pois, eu apenas acho que você não deve se envolver
emocionalmente com os pacientes. Animais, como eu disse ao senhor
Mataveira, não sabem de nada. Morrem e nem sabem o que aconteceu. Eles
não sentem e não são como nós. Veja se entende isso: animal é animal,
gente é gente. Não confunda as coisas, João. Procure não agir como se os
animais fossem capazes de ter alguma espécie de sentimento. Animal só
sabe comer dormir e dar cria. São somente instintos. Quando morrem é
como se uma máquina estivesse parando de funcionar. Sou como um
mecânico de animais. Se a máquina não quer funcionar direito, lá vou eu
tentar consertá-la; mas, se não tiver jeito, o melhor é substituí-la por outra
máquina. Simplesmente joga-se fora a máquina estragada e substitui-se por
outra. Morreu, morreu! O que se pode fazer se ninguém é eterno? Esqueça o
que aconteceu com a Paloma e vá descansar porque amanhã é outro dia.
João Rubens nunca respondeu às críticas do patrão, mas, desta vez
resolveu falar da maneira mais polida possível:
— Sinto muito, doutor, mas não consigo ser tão racional quanto o
senhor. Quando vejo um animal sofrendo, eu sofro junto. Por isso, não
quero ser veterinário. Prefiro continuar meus estudos supletivos e quando
for possível irei para a faculdade de Química. Só assim não precisarei mais
me deparar com tantos animais sofrendo — falou João, que no seu íntimo
queria mesmo era ser veterinário.
— Mas, eu pensei que gostasse de fazer o que você faz! — retrucou
Guilherme. Pensei que quisesse ser veterinário também, para trabalharmos
juntos.
— Sinto muito, doutor. E muito sofrimento para mim. Eu gosto do
que faço, pois ajudo o senhor a salvar animais que não sobreviveriam
sozinhos. E a maneira que tenho de contribuir com os nossos irmãos
animais.
Guilherme olhou para João com expressão de deboche e por pouco
não soltou uma gargalhada de desdém.
— Irmãos? Perguntou o médico, surpreso com o termo usa do por seu
funcionário, pois nunca supôs que um animal pudesse ser seu irmão por
considerá-los apenas objeto.
Para ele era uma ideia simplesmente fora da realidade.
— Você acredita em um absurdo destes? Quem, em sã consciência,
poderia supor que animais sejam nossos irmãos? Como você consegue ter
estas ideias tão doidas?
— Para mim, é algo natural, patrão! Sempre os considerei assim
desde criança. Não tenho muito estudo, mas sei que eles são inteligentes e
estão aqui na Terra para nos auxiliar. Eles aprendem conosco e nós
aprendemos com eles tentou explicar João Rubens.
— Inteligentes? — Guilherme riu, debochando, sem disfarçar desta
vez. — Você vem com cada uma que, algumas vezes, acho que lhe faltam
parafusos na cabeça. Que ideias mais esquisitas. Irmãos e ainda
inteligentes! Imagine eu sendo irmão de um burro, ou de um rato
transmissor de leptospirose. Eu, hein! falou Guilherme, em tom de
sarcasmo.
— Mas é isso mesmo, doutor. Por que o senhor acha que os animais
estão a nossa volta? Qual o propósito de estarem aqui convivendo conosco?
O senhor acredita que eles estejam aqui apenas para nos servir?
— E claro que sim — respondeu.
— É claro que não! — replicou João. — O senhor nunca se perguntou
por que alguns animais nascem em locais onde são bem tratados, enquanto
outros somente vivem sofrendo e morrem sofrendo também? Nunca se
perguntou por que um bovino é levado ao abate em um processo doloroso
de morte em massa, enquanto um cão de raça, por exemplo, é criado como
um rei, comendo as melhores comidas, sendo cuidado como uma criança,
recebendo o melhor tratamento possível?
— Uns têm mais sorte que outros — disse Guilherme.
— Se fosse só isso, não seria justo. Deus não agiria injusta mente com
ninguém, nem mesmo com um animal. Eu acredito que estejam aqui para
aprender algo conosco através destes Sofrimentos e alegrias que
compartilham conosco — argumentou João Rubens.
João do céu! Você está precisando de um psicólogo. Você está ficando
doido, mesmo. Onde já se viu? Animal não pensa, não entende nada do que
acontece ao seu redor.
— Guilherme ironizava, não querendo aceitar os argumentos do
amigo. Já pensou um cachorro descobrindo teorias científicas? — finalizou,
com uma barulhenta gargalhada.
João Rubens ficou ruborizado com as observações irônicas do
médico, que queria fazê-lo sentir-se um estúpido, e disse:
— Doutor, os animais são tão inteligentes quanto nós em alguns
aspectos, e talvez em outros sejam melhores que nós. Acredito que o
problema seja apenas de comunicação.
Eles não conseguem pronunciar palavras como nós e por isso não os
entendemos. No entanto, quando você dá uma ordem ao seu cão, por
exemplo, ele obedece. Você, muitas vezes, não o entende, mas ele consegue
entendê-lo.
— Ah, isso é verdade. O meu cão Bons é demais. Parece gente,
entende tudo e só falta falar — concordou Guilherme, ao me nos neste
momento.
— Então, doutor, o Bons já não é uma prova de que OS animais são
inteligentes? — perguntou o amigo a Guilherme, feliz por encontrar um
exemplo que o tocou intimamente, pois o médico adorava seu cão d tal
maneira que chegava a causar ciúmes em sua noiva, Cláudia.
— Vamos com calma — falou Guilherme. Eu não disse que o Bons é
inteligente. Eu acho que ele consegue copiar de nós algumas maneiras de
agir, mas é só uma repetição.
Não é espontâneo. Ele não poderia fazer algo se não tivesse me visto
fazer algumas coisas que ele repete — retrucou Guilherme, insatisfeito com
o argumento de João Rubens.
— Mas, doutor, o Bons é cego. Como poderia ver e copiar? —
argumentou o amigo, convencido do que dizia.
O automóvel estava se aproximando da casa de João e não teriam
tempo para continuar o assunto até O final, por isso João pediu:
— Por favor, doutor, pense no que estamos falando. Amanhã cedo, ou
daqui a pouco, pois já são quase seis da manhã, conversaremos a respeito.
Aí o senhor me diz se estou certo ou não, em acreditar no que falamos sobre
a inteligência dos animais.
— Tudo bem! Amanhã... Daqui a pouco, conversaremos a respeito.
Depois de alguns minutos, parou seu automóvel em frente à casa de João
Rubens. Despediram-se e Guilherme retornou, exausto, para sua casa, onde
foi recebido por Bons, que veio cor rendo e latindo, alegremente, pelo
retomo de seu melhor amigo.
Bons é um cão sem raça, que o médico recolheu em uma de suas
consultas à granja do senhor Ichimura. Ele estava passando de automóvel
por uma estrada que corta um intenso canavial, quando ouviu um som
estridente. Parecia um miado de gato, de tão agudo que era o som do latido
do recém-nascido filhote, mestiço com Cocker, que foi abandonado na beira
da estrada para morrer.
— Caramba! — exclamou Guilherme — Quem poderia ser tão ruim
assim para abandonar um filhote neste sol, sem água e sem comida?
Dificilmente, alguém passa por aqui.
Que gente mais doida! — pensou o médico.
O jovem doutor recém-formado parou seu veículo, desceu E saiu à
procura de onde vinha aquele choro sentido e agudo. Vasculhou entre os pés
de cana e encontrou um monte de pêlos pretos ressecados da poeira da
estrada, com os olhos tomados por uma secreção pegajosa causada pela
conjuntivite que estava a ponto de cegá-lo.
Estava em adiantado estado de subnutrição. Deveria estar ali há dias
sem se alimentar. Guilherme admirou-se com a força com que gania,
mesmo depauperado como estava.
Ao examiná-lo, notou que um líquido viscoso e mal-cheiroso escorria
e em papava os pêlos do abdome. Era uma miase. Enormes larvas de
moscas de até dois centímetros devoravam-lhe a carne, deixando um grande
ferimento, no qual se podiam ver os vermes movendo-se no interior.
— O senhor Ichimura que me perdoe, mas não poderei atendê-lo
agora — falou consigo mesmo.
Colocou o cãozinho enfraquecido, quase morto, em seu automóvel e o
levou a sua clínica para tentar reanimá-lo. Chegando à clínica, que ficava no
centro da cidade, Guilherme entrou como um tiro e foi direto à sala de
emergências. Sedou leve mente o pequeno cão e, cuidadosamente, retirou
larva por larva, deixando à mostra os tecidos internos e músculos lesados
pelas vorazes parasitas. Feito o curativo e cauterizada a ferida, o médico,
trêmulo de preocupação em salvar a vida do animalzinho, banhou-o com
anti-sépticos e ministrou medicamento que o livrou de uma possível
septicemia.
Terminada a aplicação de líquidos hidratantes, notou após uma
higienização dos olhos, que suas córneas estavam perfuradas em
consequência da infecção, da presença de pus e do contato prolongado com
o sol, que as queimou.
— Pobre ai. Está cego. Mas não se preocupe, eu farei o que estiver ao
meu alcance para salvá-lo, cãozinho — falou Guilherme ao pequeno
animal, enquanto ele movia a cabeça tentando localizar com os ouvidos
quem pronunciava tais palavras.
Sem que pudesse notar, João o observava, de longe, conversando com
o pequeno cão. Guilherme não se deu conta, mas estava conversando com o
que ele considerava um objeto sem discernimento. Foram vários dias de
tratamento, mas, incrivelmente no dia seguinte ao resgate, o pequeno já se
mostrava muito esperto e com uma fome desproporcional ao seu pequeno
tamanho. Comia vorazmente e, após comer, ficava com o abdome volumoso
que até dificultava seus movimentos. Guilherme não queria que se
alimentasse em excesso, mas deixou-o, pois estava ávido por comida, após,
sabe-se lá, quantos dias sem se alimentar.
Tendo alimentação regular e tratamento adequado, em alguns dias ele
estava irreconhecível. Seus pêlos brilhantes e macios, sua pele fofa que já
formava dobrinhas nas patas e no pescoço, davam a ele um ótimo aspecto,
mas sua visão não se restabeleceu. Foi levado para a casa de Guilherme,
onde cresceu saudável, mesmo cego e sem nunca conseguir ver,
desenvolveu outras sensibilidades que compensavam a falta de visão. O
médico procurou não modificar a disposição dos móveis e, com isso,
acostumou-se a se movimentar normalmente em casa sem se acidentar.
Assim, ele corria, brincava, como se pudesse ver; guiava-se por sons,
tato e olfato. Mal se podia notar sua deficiência. Era, sem dúvida, um cão
especial e Guilherme sabia disso. Por isso, adotou-o e cuida dele até hoje,
quando já completou seu quinto ano de vida. Bons era um belo cão de pêlos
longos e brilhantes, com orelhas longas e cobertas por densos pêlos
ondulados e negros.
Depois que foi resgatado da morte certa por Guilherme, nunca mais
ficou doente, nem sequer pegou um resfriado. Desde que foi adotado, são
inseparáveis. Por isso, quando Guilherme chega em casa, sempre é recebido
por seu amigo Bons, o resgatado que agradece a seu modo, em cada latido,
por ter sido salvo por este grande amigo.
Ao chegar em casa, então, após aquela noite de trabalho extenuante.
Bons o abraça e o lambe com tamanha alegria que parece que não o
encontra há anos. Bons correu, pulou, rolou pelo chão, latiu de alegria.
Apesar do cansaço, Guilherme não resiste ao convite de Bons e começa a
brincar com ele. Rolavam pela grama do quintal e corriam feito crianças de
um lado para o outro. Com esta algazarra toda, surge na janela, sonolenta,
Dona Elza, mãe de Guilherme.
— Guilherme Tavares Benati! Que bagunça é essa no meu jardim a
esta hora da manhã? Você não cresce, mesmo, hein! Olha a sua roupa, está
toda suja e babada. Vão tomar banho os dois, enquanto esquento o café!
— Oi, mãe! Foi culpa do Bons, eu estava quietinho! — brincou
Guilherme com sua mãe, como se fosse apenas uma criança com seu
cachorro.
Dona Elza entendeu a brincadeira do filho, sorriu e fez um sinal com
a cabeça chamando-os para dentro. Bons correu para frente, como se
pudesse ver.
— Senta, Bons! — ordenou Dona Elza. Bons abaixou-se e colocou a
cabeça entre as patas dianteiras e não se moveu dali, obediente. Então, dona
Elza repara no odor exalado pelo filho e pergunta: — Que cheiro é esse?
Guilherme dá um sorriso sem graça, pois por estar acostumado com
os cheiros que adquire no trabalho, esquece-se de que podem incomodar
outras pessoas. Ele foi direto tomar um banho para livrar-se daquele odor
que estava incomodando sua mãe e retornou para a mesa que o esperava
com seu desjejum. Mas antes de se ajeitar em sua cadeira, sua mãe fala:
— Filho, você vai acabar doente trabalhando deste jeito. Você está
desde a noite de ontem trabalhando. Ninguém aguenta este ritmo. Descanse
hoje — pediu dona Elza ao filho, que nem pensava em dormir. Ele só queria
comer algo e voltar para a clínica.
— Mãe, a senhora já deveria saber, vida de médico é assim mesmo, as
emergências surgem quando menos esperamos, seja dia ou noite. E além do
mais, eu não poderia deixar de atender a Paloma. Eu a conheço desde que
me conheço por gente. Lembra-se quando íamos com papai à fazenda do
senhor Mataveira comprar mel e queijo? Enquanto vocês ficavam de
conversa, eu ia cavalgar Paloma, acompanhado pelo seu Juca, o capataz.
Paloma era muito querida — explicou Guilherme, já com a voz um pouco
lenta por causa do sono que se aproximava e o abatia. Seus olhos estavam
irritados pela vigília prolongada, que o fazia esfregá-los sem parar,
enquanto bocejava várias vezes.
— Tudo bem! Você é quem sabe. Eu sou só sua mãe e você já está
bem crescidinho para saber o que é melhor para você ou não. Coma ao
menos, para não piorar sua saúde.
Eu fiz bolo de fubá com queijo, de que você tanto gosta. Ah! Antes
que eu me esqueça, a Cláudia ligou ontem, porque não o encontrou o dia
todo e estava preocupada com o seu excesso de trabalho — disse Dona Elza
ao filho, que mal prestava atenção às palavras, enquanto as pálpebras
pesadas caíam, obrigando-o a dar longas piscadas e fazer um grande esforço
para se manter acordado.
— Está bem, mãe. Já ligo para ela.
Dona Elza serviu-lhe o desjejum e foi cuidar dos seus afazeres
domésticos. Guilherme morava com sua mãe e com Bons; seu Vitor havia
morrido há dois anos de câncer no pulmão, pois era fumante inveterado.
Dona Elza nem gostava de tocar em assuntos relativos às doenças, pois a
faziam lembrar-se de quanto seu Vitor sofreu, quando a doença se alastrou
sem que OS médicos pudessem fazer algo a respeito.
Guilherme separou um pedaço de queijo fresco, que dona Elza
mesmo fez. Serviu-se de uma grande xícara de leite com café muito
açucarado e uma grande fatia de seu bolo preferido. Bebericou um pouco de
café, cuidadosamente, pois estava muito quente. Mais um gole, uma
mordida no bolo de fubá e o sono se abate sobre Guilherme.
Mastigava, lentamente, e, por fim, apoiando sua cabeça sobre seus
braços, adormeceu sobre a mesa. Mal fechou os olhos, sentiu-se leve, como
se flutuasse.
Estava sonhando. Subitamente, se vê em uma grande fazenda, muito
arborizada, onde soprava uma brisa refrescante sobre sua face, fazendo
movimentar sua cabeleira.
A entrada daquela fazenda era enfeitada por flores de um colorido
pouco comum, que pareciam ter sido plantadas com extremo cuidado por
um paciente jardineiro. Elas coloriam o ambiente de uma forma tão
harmoniosa que poderia ter sido feito por um artista plástico de muito bom
gosto. Pareciam exóticas, pois eram de espécies que nunca tinham sido
vistas antes por ele. A estrada que dava para a entrada da fazenda era muito
bem trabalhada por tijolos amarelos e pedriscos que pareciam ter sido
colocados um a um.
Olhando para cima, Guilherme se depara com um céu muito azul e
límpido e admira-o, pois não se conhece um céu assim tão limpo e com
atmosfera tão perfumada em lugar antes visitado pelo jovem doutor dos
animais.
Os pássaros de plumagens tão diferentes eram muito amistosos e
pousavam próximos ao médico, como se soubessem que ele não
representava qualquer ameaça. Eram de todas as cores, e seus cantos
pareciam música tocada por um experiente flautista. Na entrada, havia uma
grande porteira, com uma inscrição acima, no ponto mais alto: “Rancho
Alegre”.
— “Rancho Alegre!” Que lugar mais bonito! Parece um sonho! —
exclamou o médico. Quem será o dono disso tudo? Deve ser alguém muito
rico e deve ter muitos empregados para manter tudo tão organizado e limpo
deste jeito. Não me lembro de ter estado aqui antes, mas sinto-me
estranhamente familiarizado... Parece que já conheço este lugar, mas não
me lembro. Mas, de qualquer modo, estou admirado com tanta beleza, sem
falar do bem-estar que me invade. Gostaria de conhecer este lugar. Será que
alguém virá me receber?
Mal acabou de pensar nisso, notou, ao longe, uma figura conhecida,
que se aproximava. Estava mais jovem e mais disposto. Estava muito mais
forte e corado do que quando o viu pela última vez. Mas, sem dúvida, era
ele. A semelhança era muito grande para não ser. Era o pai do senhor
Mataveira.
— Senhor Gustavo! — exclamou Guilherme, estranhando a presença
deste que conhecia desde criança.
— Sim, Guilherme! Prazer em revê-lo bem e forte — disse o senhor,
que o doutor reconheceu como sendo seu velho amigo.
— Mas, o senhor não morreu? Eu não fui ao seu enterro por que não
me sinto bem em velórios, mas tenho certeza de que meus pais foram, O
senhor morreu ou estou sonhando? — perguntou, admirado, à aparição.
— Morrer? Ninguém morre, Guilherme. A morte é apenas uma
ilusão. E um período temporário entre dois estados evolutivos em que
apenas nos desvencilhamos do envoltório que nos ser viu enquanto
vivíamos no mundo físico e deixa de ser útil quando acertamos nosso
retorno ao nosso verdadeiro mundo, o espiritual. Aquele revestimento
físico, que foi somente um instrumento, é deixado para trás e devolvido à
natureza quando novamente nos reunirmos aqui nesta outra dimensão. —
explicou Gustavo, com voz paternal.
— Então eu morri também? — perguntou, assustado com a
possibilidade de ter desencarnado — devo ter cochilado enquanto estava
tomando meu café da manhã e me afoguei no leite, ou bati com a cabeça na
mesa, e nem notei que não estou mais vivo.
— Nada disso, Guilherme. Todas às vezes que dormimos, nosso
corpo espiritual, juntamente com a nossa consciência, se torna livre do
corpo físico pelo período que durar o sono. Estando libertos, agimos como
se estivéssemos desencarnados sem estar. Podemos voltar ao corpo físico a
qualquer momento. Com isso, iremos aonde quisermos, com a velocidade
do pensamento, pois nos movemos através do pensamento quando estamos
livres do denso corpo físico. Você ainda está ligado ao seu corpo físico
através destes fios brilhantes, quase invisíveis, que saem do seu peito e da
sua cabeça.
— Ah! E verdade. Posso perceber. Há mesmo um fio aqui. — falou
Guilherme, que tentou tocá-lo, mas suas mãos atravessaram os fios, como
se presenciasse uma ilusão óptica.
Tentou várias vezes tocar o cordão, sem sucesso, e desistiu. Então,
olhou para o seu amigo e notou que nele não havia resquícios de cordão ou
algo parecido.
— O senhor não tem cordão? Por quê? — perguntou Guilherme.
— Não, eu não preciso mais ter um, pois não estou mais encarnado.
Meus laços com o mundo físico se romperam há anos. Os únicos contatos
que faço com o mundo físico são apenas visitas ocasionais aos familiares,
quando me sobra tempo.
— Mas se o senhor não vive mais entre nós, então não precisa se
preocupar mais em sobreviver, nem tem que trabalhar para pagar contas e
os salários dos empregados, não vai mais fazer negócios com gado leiteiro e
mel. Como pode não ter tempo para reencontrar a família e os amigos? —
perguntou Guilherme, curioso.
— Com frequência, recebo visitas dos familiares, que vêm nos
auxiliar em nosso rancho, e de amigos que nos procuram para uma prosa e
também para trabalhar conosco, mas retornar ao mundo físico em visita
social é muito raro, pois pode não parecer, mas há mais trabalho a fazer
aqui do que quando eu era encarnado e trabalhava na fazenda.
— O senhor é o dono desta fazenda aqui também?
— Não, não. Sou apenas um dos trabalhadores. Esta fazenda é, na
realidade, uma colônia espiritual, isto é, uma comunidade que cuida dos
animais, auxiliando-os principalmente no seu aprendizado evolutivo. Há
vários colaboradores de diversas áreas de especialização e várias equipes
especializadas em assuntos relativos aos animais. Há os colaboradores das
equipes de resgate, de cirurgiões, os responsáveis por animais selvagens,
que incluem os animais marinhos e diversos outros. Aqui em nossa fazenda
trabalham muitos que foram, quando encarnados, veterinários, que nos
auxiliam, mas há muitos outros que se encontram ainda encarnados
também. Dentre os diversos especialistas, há aqueles que exercem as
mesmas especialidades que exercem na Terra, trabalhando aqui, em funções
semelhantes. Há aqueles que não são especialistas, mas são grandes
colaboradores e trabalhadores valorosos naquilo que fazem e que por isso
merecem tanto respeito quanto os Outros.
— Então, há muitos trabalhadores aqui que ainda vivem na Terra,
assim como eu? Como podem trabalhar no mundo espiritual estando
encarnados?
— Sim, há vários colaboradores encarnados, e quando dormem, assim
como você está fazendo agora, se transportam mentalmente até aqui para
exercer o que sabem e o que podem fazer para auxiliar os nossos irmãos
animais em sua escala evolutiva. Ficam pelo tempo que acharem necessário
ou que tiverem disponível, mas o melhor de tudo isso é o fato de que,
quando estão auxiliando, ajudam a si próprios também a se elevar
espiritualmente. Trabalhar na espiritualidade é um aprendizado constante,
pois já dizia São Francisco de Assis: “E dando que se recebe”.
— O senhor falando assim parece o João, meu secretário, que chama
os animais de irmãos.
— Você se refere ao doutor João Rubens? — perguntou Gustavo.
— Não, doutor não. O João Rubens mal fez o primário, está tentando
terminar o primeiro grau fazendo escola supletiva por correspondência. Ele
é semi-analfabeto. — explicou Guilherme, um tanto quanto constrangido
com o suposto mal-entendido. — Este aí deve ser outro João Rubens! —
completou Guilherme.
— Engano seu, amigo. Aqui ele é conhecido como doutor João
Rubens, e ele é um dos diretores mais graduados de nossa comunidade. Em
outras épocas, em reencarnações passadas, ele já ajudava em nossa
instituição e, aliás, é um dos fundadores desta que foi formada há mais ou
menos quinhentos anos por índios, negros africanos que eram escravos dos
senhores de engenho, e alguns europeus, principalmente portugueses e
ingleses. Depois disso, juntaram-se a nós vários japoneses, chineses,
egípcios e muitos outros de diversas nacionalidades e em épocas diferentes.
O doutor João Rubens, quando da época da fundação de nossa colônia de
animais, era um índio muito respeitado em sua comunidade. Como líder, era
uma pessoa extremamente justa e bondosa, mas sempre sentiu necessidade
de reencarnar para resolver problemas cármicos e para ajudar naquela outra
dimensão em que você vive hoje. Retornou a nós novamente como escravo
em diversas reencarnações. Em outras reencarnações, estudou medicina; em
outras, foi engenheiro, físico, químico, biólogo. Foi um cientista brilhante,
reconhecido por mérito entre a comunidade científica no século XX.
Recebeu prêmios importantes como cientista. Hoje, é um humilde auxiliar,
por opção, mas não o subestime. E uma mente notável expôs Gustavo a
Guilherme, que nem piscou, atento e boquiaberto.
Quem diria, hein! O João Rubens. Eu nem poderia imaginar. Esse
João Rubens sempre me surpreendendo comentou Guilherme, com um
misto de surpresa e constrangimento por tê-lo subestimado.
Notando que Guilherme ficou pouco à vontade com a notícia de ter
um auxiliar tão graduado, Gustavo o convidou para conhecer o “Rancho
Alegre”.
— Vamos entrando, vamos conhecer a casa! Nós o chamamos aqui
para isso mesmo.
— Vocês me chamaram? Como assim? Eu pensei que tivesse chegado
aqui por acaso.
— Depois que você e João Rubens conversaram sobre a vida
espiritual dos animais, sentimos que você estava quase amadurecido para
nos auxiliar. Se você quiser, é claro.
— Mas eu discordei de quase tudo o que o João me falou!
— Mesmo assim você está apto a auxiliar.
— O que devo fazer, então?
— Por enquanto, só conhecer a casa e depois a rotina dos trabalhos
daqui. Posteriormente, você irá trabalhar conosco efetivamente, mas, por
enquanto, ainda precisa preparar-se melhor para as tarefas que
desenvolvemos aqui. Mas, venha, vamos entrando...
Ao se aproximarem da grande porteira, ela se abriu, automaticamente,
tornando-se quase invisível para tornar-se novamente sólida, após a
atravessarem. Guilherme admirou-se com o mecanismo de abertura daquela
porteira enorme e exclamou:
Ah! Por isso não notei as porteiras se abrirem quando você saiu!
— Exatamente. Este portal somente se abre às pessoas cadastradas.
Assim, são evitadas invasões e ataques de selvagens que querem agredir
nossos irmãos que estão sob nossa responsabilidade.
— Selvagens? — perguntou Guilherme.
— Sim, os selvagens são seres ignorantes, no sentido espiritual. Não
são ignorantes intelectualmente, pois muitos deles são até mesmo doutores
na Terra; no entanto, se comprazem em ferir e maltratar animais. Organizam
caçadas e safáris no mundo físico para exterminar animais indefesos e,
durante o sono, libertam-se de seus corpos físicos e tentam entrar
clandestinamente em nossos limites, a fim de praticar este esporte
detestável, que é a caça de animais com armas plasmadas mentalmente por
eles. Os animais que estão aqui não podem ser aniquilados, pois já estão
desencarnados, mas, mesmo assim, podem sofrer graves desequilíbrios que
atrasariam seu retorno ao mundo físico, em função dos transtornos
decorrentes. Essas pessoas são frequentemente acompanhadas por seres
horripilantes, que se assemelham a animais em aspecto, apesar de serem
humanos vindos de regiões trevosas, agindo como guias de caça, indicando
os lugares onde se encontram os animais e fornecendo armas e munições
em troca de um pagamento que me arrepia só de pensar.
— Pagamentos?
— Sim, como pagamento pelos serviços de guia, eles entregam suas
energias vitais a eles, que os sugam enquanto estão em atividade na Terra
durante a vigília.
— Nossa! Que terrível. E se conseguirem entrar, como se defendem?
— Temos uma equipe de segurança a postos, ininterruptamente,
munida de armas elétricas que produzem descargas dolorosas que fazem os
encarnados desdobrados despertarem na Terra com horríveis dores de
cabeça. Os desencarnados atingidos pelos raios, geralmente desmaiam e são
levados de volta ao seu lugar nas profundezas. Enquanto os encarnados se
preocupam com a cefaléia, esquecem nossos animais e os seus parasitas
espirituais também não os alcançam, pois, os raios possuem uma
característica que é a de modificar seus padrões vibratórios. Quando os
mudam, tornam-se ‘indigestos’ aos parasitas que procuram se afastar, ao
menos, temporariamente. Na verdade, a descarga elétrica que recebem se
assemelha, em termos de frequência, ao passe magnético, ou à hóstia, ou,
ainda, quando vão à igreja evangélica, às energias da imposição das mãos.
Quando os selvagens se sobrecarregam destas energias positivas, que são
contrárias às energias que carregam consigo, normalmente, sentem forte
mal-estar e acordam.
— Deve ser uma guerra, não é mesmo?
— Sim, é terrível; mas, vamos entrando — convidou Gustavo
Caminharam por uma estrada rodeada de extensos jardins floridos e de onde
podiam ver diversas estradas que ligavam muitos prédios. Eram dezenas de
prédios em todas as direções. Continuaram a caminhar por alguns metros.
Então, Guilherme olhou para frente e percebeu uma nuvem de poeira que se
formava e se movia à grande velocidade em direção aos dois. Gustavo não
parecia surpreso, mas Guilherme ficou curioso.
— O que será aquilo? — perguntou Guilherme ao seu amigo Gustavo.
— Não reconhece? Olhe melhor.
— Parece um cavalo, e veja que cavalo esperto e ágil. Faz
movimentos muito rápidos como nunca presenciei algum animal destes
fazendo. Galopa tão velozmente que mal consigo acompanhar seus
movimentos. Ele parece flutuar no ar. Isso é incrível! — observou
Guilherme, admirado com tamanha agilidade em um animal tão pesado.
— Repare melhor e verá que é a nossa Paloma.
— Paloma?! Mas ela estava agora mesmo morrendo, por estar
totalmente enfraquecida. Como pode? Ela parece tão jovem e saudável!
— Lembra-se do que lhe disse sobre o corpo físico? — perguntou
Gustavo. — Pois então, o corpo de Paloma já estava gasto pelo tempo, mas
seu espírito permanece jovem.
A aparência dela agora é reflexo de como se sente neste momento e
era assim que também estava, mesmo quando sua máquina física falhou. O
corpo envelhece, mas o espírito não. Assim que a libertamos de seu corpo
físico, ela saltou para nossa dimensão como uma borboleta sai de sua
crisálida, já dando galopes, saltos, como se nada houvesse acontecido. De
fato, nem houve necessidade de sedá-la para proceder à soltura dos liames
que a prendiam ao seu velho corpo esgotado. E espantoso como eles não se
ressentem dos males sofridos no físico ao retornarem.
Enquanto Gustavo falava, Paloma vinha se aproximando dos dois. A
poucos metros, diminuiu seu ritmo e aproximou-se trotando, para
demonstrar como estava bem. E, mesmo quando estava a longa distância, já
havia reconhecido Guilherme. Aproximou-se ainda mais e devagar para
tocar-lhe a face com seu grande e quente focinho, como quem diz: “Eu
sabia que você viria. Bem-vindo, amigo, à minha nova casa”. Em seguida,
ofereceu um olhar meigo a ambos e afastou-se dali, a galope, até sumir de
vista Guilherme não tinha certeza, mas parecia-lhe que ouviu as palavras de
Paloma ecoarem dentro de seu cérebro. Tentou disfarçar, para não parecer
tolo, e se recompôs antes de perguntar:
— O que acontece com Paloma agora? Viverá aqui para sempre?
Aqui seria como o paraíso dos cavalos?
— Aqui não é o paraíso, mas é um Ótimo lugar, onde os animais são
bem tratados até se recuperarem e estar em condições de retornar ao mundo
físico e continuar seu aprendizado. Aqui se encontram não somente cavalos,
mas todas as espécies de animais que conhecemos na Terra, dos quais
cuidamos até sua recuperação. Aqui nós os preparamos para um novo
retorno à vida física. Mas, como pode perceber, não é exatamente um
paraíso, mas tão-somente uma colônia espiritual. Este lugar é apenas um
posto intermediário. Há muitos outros em outras localidades que cuidam de
assuntos ligados a animais mais evoluídos que os que conhecemos, cuja
tecnologia é desconhecida de nós. E necessário muito tempo de estudo e
trabalho para sermos levados a pontos mais avançados de trabalho que
estão, digo, com certeza, a muitos anos-luz de nossa capacidade. Nosso
trabalho aqui é bem elementar, se comparado com o que desenvolvem por
lá, mas não nos preocupemos com isso ainda.
Gustavo ia prosseguindo com o diálogo quando, subitamente, notou
que Guilherme estremeceu, como se fosse tomado por um grande susto,
para, a seguir, ter seus cordões prata avolumados e aumentado sem
consistência. Seus músculos se retesaram e suas pupilas se dilataram, O
cordão que o ligava ao corpo físico aumentou de diâmetro e parecia se
contrair. Estava como tomado por uma dor repentina que o impedia de
continuar o diálogo final, Guilherme, como se desmaterializasse diante de
Gustavo, desapareceu sem ter tempo de se despedir de seu velho amigo.
Guilherme retornou subitamente ao corpo físico, pois sua mãe o estava
acordando.
— Acorde, Guilherme! Acorde! Não durma sobre a mesa, você vai
ficar com a coluna toda dolorida. Tome seu leite e deite se em sua cama. Já
está arrumada, à sua espera.
Guilherme ainda sonolento e sem recuperar totalmente sua
consciência, acordou, falando de modo desconexo.
— O que foi? O que aconteceu? Senhor Gustavo? — perguntava
Guilherme atormentado pelo retorno inesperado e repentino à sua mãe.
— Que Gustavo, que nada. Você está sonhando. Vá deitar-se em sua
cama — pegando o filho pelo braço, carregou-o como a uma criança,
ajudando-o a encontrar o quarto e sua cama.
— Mãe! Eu vi o senhor Gustavo no sonho e a Paloma também estava
lá. Que sonho mais esquisito! Sonhei que ela falou comigo. Quanto tempo
eu dormi?
— Ah! Não chegou a um minuto, mas ali não é lugar de dormir.
Lugar de dormir é na cama — falou a mãe, com certa autoridade.
Ajudando-o a deitar-se, acomodou o rapaz e o cobriu, saindo
devagarzinho, sem dizer mais nada, pois notou que seu filho novamente
tinha pegado no sono. Em silêncio, afastou-se e fechou a porta atrás de si
com todo cuidado. O cansaço físico após o trabalho extenuante com Paloma
o havia esgotado. Por isso, dormiu sem notar que já estava em sua cama,
para onde caminhou automaticamente sem saber como chegou ali.
Bob

Guilherme dormiu como uma pedra. E, ao acordar, quatro horas


depois, de nada mais se lembrava, exceto algumas cenas e alguns diálogos
rápidos com o senhor Gustavo, o velho amigo. No entanto, algo ficou muito
marcado em sua mente: as palavras ditas mentalmente por Paloma.
A cena daquele contato de sua face com o focinho quente de Paloma
não saía de seu pensamento. Ele ainda podia sentir o hálito e a respiração de
Paloma, como se ela ainda estivesse ah do seu lado. Ele mantinha intacta a
impressão de poder ouvida, como se falasse com ele por pensamento, e isso
o deixou abalado, pois era muito céptico sobre estes assuntos espirituais.
Não conseguia pensar em outra coisa após acordar apressado por estar
atrasado para ir à clínica. Mesmo assim, acreditou que era por causa do
diálogo que teve com João Rubens, momentos antes de chegar em casa pela
manhã, a influenciado. Mas, naquele momento, sua preocupação maior era
com seus horários de trabalho.
— Mãe, por que você não me chamou antes? Estou atrasadíssimo! Os
clientes devem estar furiosos comigo. Eu já deveria estar na clínica há horas
— disse Guilherme, que segurava uma escova de dente e falava em voz alta
com sua mãe, que se encontrava em outro cômodo da casa. Apressado,
Guilherme escovava os dentes e se vestia, ao mesmo tempo.
— Eu deveria visitar o sitio do senhor Ichimura e do senhor
Nakayama logo cedo — completou — eles devem estar pensando que não
irei mais.
— Não se preocupe, filho — respondeu a mãe, falando também alto,
do outro lado da casa — a Cláudia passou por aqui e o encontrou em sono
pesado, por isso cuidou de tudo. Ela já deve ter organizado sua agenda de
hoje de modo a não sobrecarregá-lo. Você sabe, a Cláudia é a organização
em pessoa. Se ela não ligou é porque não surgiu nenhuma emergência.
Fique tranquilo, tenho certeza que estará tudo pronto, à sua espera, quando
você chegar no seu escritório.
Ainda apressado, Guilherme gritou de novo, já na porta da saída, e se
despediu de sua mãe.
— Mãe! — gritou Guilherme — Estou indo. Até mais tarde!
— Até mais tarde, filho. Tenha um bom dia de trabalho!
Saindo rápido, do lado de fora estava Bons, que veio correndo em sua
direção e pulou sobre ele para desejar-lhe um bom dia, mas acabou sujando
sua calça branca.
— Não, Bons. Seu desastrado! Agora vou ter que ir trabalhar sujo.
Veja o que fez na minha calça! Ah! Você nem pode ver. Fica aí. Depois nós
conversaremos sobre isso — bronqueou Guilherme.
Saindo apressado rumo ao consultório, Guilherme nem ao menos
reparou o quanto feriu os sentimentos de seu amigo. Bons sentiu-se o
último dos cães. Então, ficou ali, cabisbaixo. Abaixou as orelhas, como se
estivesse se desculpando. Ele parecia dizer: “Desculpe-me” e afastou-se
indo deitar-se, triste, sobre o tapete da porta da cozinha. Permaneceu imóvel
por horas, deixando Dona Elza preocupada.
Guilherme, ao chegar ao consultório, encontrou João Rubens, seu
auxiliar técnico, em uma animada conversa com sua noiva, Cláudia, que o
ajudava na clínica enquanto estava de folga no hospital onde trabalhava
dando plantões.
Ela é nutricionista do Hospital Municipal — o principal hospital da
cidade. Cláudia é descendente de japoneses. Aqui, seus parentes se
estabeleceram e criaram raízes.
Tiveram seus filhos e netos. Cláudia tem uma vitalidade de dar inveja.
Adepta da prática de yoga e tai-chi-chuan, possui energia de sobra para
trabalhar em seu plantão e ainda dar auxílio em uma creche e em outros
trabalhos voluntários pela cidade, com pessoas carentes.
No hospital é conhecida como mosquitinho, por não parar quieta um
segundo. Sobe e desce as escadarias do prédio com uma celeridade que
chama a atenção de todos.
Ela é muito querida pelos pacientes, médicos e enfermeiros, que a
respeitam por ser uma pessoa que se importa com todos. Passa de quarto em
quarto para obter a opinião dos pacientes sobre a qualidade e a aceitação
dos alimentos que são servidos, e ainda encontra tempo para ouvir o que
cada um tem a dizer. Todos querem contar como surgiu sua enfermidade e
como sofrem com isso. Cláudia, pacientemente, ouve a todos e sempre
transmite a cada um deles a confiança que os motiva a lutar contra o mal
físico que os aflige. Isso OS ajuda a enfrentar suas doenças com mais
ânimo, pois Cláudia sabe o quanto são carentes, principalmente aqueles
com enfermidades incuráveis.
A nutricionista é tão querida que em alguns chega a causar ciúme.
Sua chefe está constantemente dando-lhe reprimendas porque ela fica
ouvindo os “lamentos” dos pacientes.
Mas, Cláudia sabe que são apenas reações de ciúme, pois ela
consegue cumprir suas obrigações a contento, sem deixar de ouvir um
paciente que seja.
Ela faz seu trabalho, que vai além de sua obrigação, mas faz com boa
vontade. Quando os pacientes têm alta, voltam sempre ao hospital, somente
para visitá-la. E uma pessoa especial, sem dúvida, tímida, mas ao mesmo
tempo muito carismática. Ela é muito espiritualizada e compartilha com
João as mesmas opiniões, a respeito dos animais serem nossos irmãos, mas
nunca comentou com Guilherme a respeito disso, pois sabe como o seu
noivo é céptico.
Certa vez, perguntou-lhe sobre Deus. A resposta foi, no mínimo,
estranha para ela, cuja condição espiritual é elevada. Guilherme respondeu:
— Deus!? Deus não existe.
E apenas uma criação mental das pessoas para que se sintam
amparadas de qualquer forma, mas é só isto.
Cláudia, surpresa com a resposta, perguntou-lhe: — Guilherme, se
Deus não existe, o que faz tudo funcionar tão coordenadamente e
sincronizadamente no Universo? Quem criou e põe ordem nessa imensidão?
E a Natureza! A Natureza é perfeita — respondeu o noivo, certo de
que sua resposta era abrangente o suficiente para convencer sua noiva de
que seu argumento era melhor.
Então, Cláudia acalmou seu coração, pois notou que Guilherme
entendia Deus como sendo a Natureza e sentiu-se satisfeita, pois de certa
forma ele estava certo e discutir não era sua intenção. Aliás, Cláudia
raramente entrava em contendas por pontos de vista. Ela respeitava todas as
opiniões.
Por isso, ambos se davam bem, pois ela era o oposto de Guilherme.
Um completava o outro de certa forma. Dona Elza, a mãe de Guilherme,
não sabia ainda, mas ambos estavam planejando unir-se em matrimônio em
breve tempo e pretendiam ter João Rubens como padrinho.
Ao entrar na clínica, vendo João Rubens e Cláudia em animado
colóquio, Guilherme sentiu-se um pouco enciumado, e João Rubens
percebeu sua expressão e calou-se, repentinamente.
Cláudia estava de costas para a porta de entrada e, notando a mudez
repentina de João Rubens, virou-se e viu Guilherme com fácies de poucos
amigos.
— Bom dia, Gu! Era assim que ela o chamava. Dando-lhe um beijo
no rosto disse: Acordou mal-humorado? O que aconteceu? Levantou com o
pé esquerdo? — brincou a noiva, tentando reanimá-lo. Então, fez-lhe
cócega na barriga, oferecendo um largo sorriso.
— Ah! Foi o Bons. Encheu-me de terra. Olha só — falou Guilherme,
apontando com o indicador a pegada de poeira do cão carimbada em sua
coxa esquerda — como é que vou trabalhar, estando sujo de pata de
cachorro?
— Trabalhando, ué! Todos sabem que veterinário pode se sujar um
pouco no seu ramo. Ninguém liga para isso! Relaxe — e deu outro beijo no
rosto de seu noivo, que se mostrou mais sossegado.
— Tudo bem. Vamos à agenda — disse Cláudia. Algumas pessoas
ligaram e eu expliquei que você ficou a noite toda no senhor Mataveira em
uma emergência e voltou exausto.
Estava descansando um pouco, mas atenderia a todos. Marquei os
nomes dos que querem sua visita e os horários em que você poderia atendê-
los.
Guilherme examinou a agenda, verificou os horários e disse:
— Obrigado, Cláudia. Não sei o que eu faria sem você. Não sei onde
você consegue energia para fazer tantas coisas ao mesmo tempo. Trabalha
no plantão do hospital e, na sua folga, ao invés de descansar, vem aqui e
organiza a minha bagunça. Que energia! Guilherme estava admirado com a
vitalidade de sua noiva de pequenos olhos amendoados e cabelos pretos
com leve tom castanho.
— Irei atendê-los de acordo com sua organização. Aposto que o
primeiro da lista é o senhor Ichimura, estou certo?
— E ele mesmo! — respondeu a pequena sansei de pele branca como
algodão.
Guilherme, após conhecer seu roteiro e horários, começou a preparar
a valise que carregava consigo quando saía em consultas externas, e quis
saber:
— Mas, me digam, sobre que assunto vocês falavam tão animados!
— Falávamos sobre a espiritualidade dos animais. João me falou que
vocês conversaram a respeito — disse Cláudia.
— Isto mesmo, mas não sabia que você se interessava por isso. Eu sei
que você estuda assuntos relativos a estas coisas de espiritualidade, mas
achei que você só entendia de fantasmas.
Disse Guilherme, mostrando sua ignorância a respeito dos assuntos
espirituais.
Cláudia, com paciência extrema, nunca se exaltava com as
observações debochadas e sarcásticas do noivo. Ao contrário, via em suas
atitudes e palavras a oportunidade de expor suas ideias ao noivo céptico
que, aos poucos, estava aceitando melhor os assuntos preferidos dela.
— Ah! Como você é bobo, Gu! Não tem isso de fantasmas. São
espíritos. E animais também têm espírito. Quando morremos, nosso espírito
se liberta definitivamente e deixamos para trás nosso invólucro físico do
corpo e nos atiramos em outra dimensão: a espiritual, onde não mais
precisamos daquele corpo que nos serviu enquanto vivíamos na Terra.
Assim, temos nosso espírito livre. Alguns são encaminhados às colônias
espirituais para tratamento ou educação. Outros, que não acreditavam, ou
nem sabiam enquanto estavam encarnados que a vida continua, após a perda
do corpo físico, nem ao menos notam que não pertencem mais a esta
dimensão e ficam vagando por entre as pessoas. Antes de serem resgatados
por parentes e amigos que os esperam naquela dimensão, podem ser vistos
por algumas pessoas encarnadas que tenham maior sensibilidade mediúnica,
isto é, se mantêm perceptíveis aos que possuem vidência. Os animais são
como nós: quando morrem, também são encaminhados para a dimensão
espiritual e são acolhidos por equipes que os tratam e alimentam.
Guilherme interrompeu neste ponto, com intenção de fazer mais
deboches. Mas, Cláudia percebia um interesse oculto, que ele relutava em
revelar:
— E fantasma precisa comer? — Falou rindo.
— A maioria das pessoas está muito ligada aos hábitos terrestres.
Precisam se alimentar, dormir, vestir-se, etc. Os animais são mais ligados
ainda aos hábitos alimentares, por isso, apesar de não precisarem para
manter seus corpos físicos — que não possuem mais —, são alimentados
mais para não perturbar seus hábitos do que por uma necessidade real.
— Ah! — exclamou, dando um sorriso enigmático.
Cláudia continuou com sua explicação:
— Então, continuando de onde parei: os animais são agrupados por
afinidade, senão haveria um reboliço quando um cão, por exemplo, se
encontra com um gato. Eles mal distinguem as duas dimensões. Para eles
estarem aqui ou lá é a mesma coisa. Por isso, um cão que deteste gatos, ao
se deparar com um deles lá, o atacaria e o outro tentaria defender-se, usando
seus instintos que estão impressos no seu corpo espiritual. Se tivéssemos
uma boa vidência, notaríamos, talvez, a presença de espíritos de animais à
nossa volta, pois eles transitam facilmente entre as duas dimensões sem
distingui-las. E outra coisa interessante de se salientar:
E a vidência nos animais. Eles são naturalmente videntes. Eles veem
espíritos de seres humanos, por exemplo, que nós mesmos veríamos com
dificuldade, sem distinguir praticamente em que dimensão estão vendo.
Tanto veem a nós quanto aos espíritos que estão ‘em outras dimensões —
argumentou Cláudia, com destreza de palavras e paciência.
Nossa! Você está parecendo o João. Você acredita nestas coisas com
tanta convicção que quase chega a me convencer. Se outras não fossem as
minhas convicções, eu poderia achar que o que você diz é verdade mesmo
— disse Guilherme à noiva, que não se calou com a sinceridade do
parceiro.
— Mas o que te faz ter tanta certeza de que não é como eu digo? —
perguntou Cláudia.
A razão! E só pensar um pouco e tudo isso que você diz perde o valor
— respondeu, sem rodeios.
— Ora, Gu! Pense você, então, no que eu digo e me diga onde está o
absurdo de minhas palavras. Nós temos provas da existência da
espiritualidade e de seus habitantes o tempo todo. Muitos cientistas estão
atestando isso.
— Devem ser cientistas malucos ironizou o doutor.
Sem dar ouvidos aos comentários irônicos do noivo, Cláudia tenta
explicar-lhe sobre os estudos científicos a respeito.
— Na Rússia, os cientistas conseguiram provar que nós possuímos
também um corpo não físico, que eles chamam de corpo biofísico ou corpo
de bioplasma. Este corpo seria o nosso corpo espiritual. Parte deste corpo de
bioplasma nos acompanha após nossa desencarnação ou durante o nosso
sono, quando podemos abandonar temporariamente o corpo. Quando
dormimos nos livramos, durante o tempo que durar o sono, do corpo físico.
Estando novamente livres, entramos na dimensão espiritual para
retornarmos dela para mais um dia aqui, quando acordamos. Quantas vezes
sonhamos com pessoas que já partiram e obtemos delas informações que
somente elas poderiam nos trazer? — disse Cláudia ao companheiro
incrédulo, que permaneceu um momento imóvel tentando lembrar-se do
sonho que teve há pouco. Ele pareceu realmente interessar-se por este
tópico.
Se for verdade o que está dizendo, então, há pouco, em sonho,
conversei com o senhor Gustavo, pai do senhor Mataveira, e me encontrei
com a Paloma, que morreu — disse o médico.
— Claro, você realmente os encontrou. Não há dúvida.
Guilherme estava relutante em demonstrar interesse, e por isso quis
interromper a conversa, demonstrando um falso desinteresse.
— Vamos parar um pouco. Esse papo está me deixando cansado. Eu
vou sair para atender estes clientes e depois voltamos ao assunto. Irei ao
senhor Ichimura e à casa de Luciana, que está com sua gata doente. Volto
logo.
E saiu, apressado, sem levar o auxiliar, como se estivesse fugindo da
conversa.
Assim que saiu, entrou uma pessoa com uma gata nos braços. Era
Luciana, que a pedido de Bruno, seu irmão, preferiu não esperar por
Guilherme em casa e a trouxe para o consultório.
— Olá, Luciana — cumprimentou Cláudia. Não aguentou esperar
pelo Guilherme?
— Não é isso. O Bruno é muito estressado e não sossegou enquanto
não peguei a Branquinha para trazê-la para ser examinada e tratada. Eu sei
que não é grave, mas você sabe como é o Bruno, não é? Ele nunca deixa
nada para depois. Mas, deixe-me sentar um pouco. A caminhada me deixou
cansada. O doutor está ocupado agora? — perguntou Luciana.
— Ele acabou de sair para atender o senhor Ichimura e depois iria à
sua casa. Vou ligar para o seu celular e avisá-lo que você está aqui.
— Diga a ele que não precisa ter pressa. Faz tempo que não
conversamos e esta é uma boa oportunidade para pormos nossa conversa
em dia.
Concordando com a cabeça e dando um sorriso, Cláudia avisou o
veterinário que Luciana estava na clínica.
— Você está de folga hoje do hospital? — perguntou Luciana.
Não, já fui fazer meu plantão e estou dando uma pequena ajuda ao
Gu. Ele anda muito atarefado, ultimamente. Hoje trabalhou durante toda a
noite na fazenda do senhor Mataveira e está exausto.
— Pelo jeito você gosta também dos bichinhos, não é, Cláudia?
— Sim, adoro os animais, mas não gostaria de ser veterinária. Gosto
do que faço no hospital. Admiro os animais por sua natureza e inteligência,
principalmente.
— Isso é verdade. São muito inteligentes. A Pretinha, minha outra
gata, é demais. Não que a Branquinha não seja também, mas o que
aconteceu ontem foi muito interessante e provou o que eu digo. Estávamos
eu e o Bruno tomando nosso desjejum, quando Pretinha veio até nós,
miando, fortemente, e olhando para a jarra de leite, como que pedindo um
pouco de forma insistente. Estranhamos, pois ela não gosta de leite, mesmo
assim, peguei uma vasilha e coloquei um pouco para ela no chão. Para
minha surpresa, Pretinha saiu correndo e voltou acompanhando Branquinha,
como se estivesse amparando-a até se aproximar do leite. Deixou-a beber e
ficou observando-a o tempo todo, em silêncio. Parecia que ela estava ali
certificando-se de que ela tomaria tudo.
Ela estava preocupada com a saúde de Branquinha, que não acordou
bem naquela manhã.
— Então o leite era para a outra gatinha? — perguntou Cláudia.
— Exatamente. Ela se preocupou em saber se a Branquinha estava se
alimentando adequadamente e pediu o leite. Não é uma gracinha? Bruno
ficou tão comovido com a cena que quase chorou. Foi aí que notamos que a
Branquinha não estava bem de saúde e resolvemos chamar o doutor. E
também percebi como Pretinha é evoluída.
Como estavam na clínica, o assunto de animais se mesclou com os
espirituais e voltaram ao assunto de que conversavam antes de Guilherme
sair.
— Pois. O Guilherme não entende que os animais sofrem tanto
quanto nós e aprendem com o sofrimento. Não é, João? — falou Cláudia,
tentando puxar o tímido auxiliar para o assunto.
— Sim, é verdade, O patrão não aceita estes conceitos por acreditar
que animais somente existem para nos servir e servir aos seus próprios
instintos — respondeu João Rubens, timidamente. Mas, aos poucos,
acredito que se interessará pelo assunto e os entenderá melhor O tema é
muito vasto e complexo. O maior problema é a falta de material para
estudos. Existe somente o contato com eles e as explicações dadas por
mentores espirituais para conseguirmos um pequeno acesso às informações
mais profundas. Ontem, digo, hoje de madrugada, quando fomos atender
Paloma, lá no sítio do senhor Mataveira, pude presenciar as equipes
espirituais trabalhando conosco para salvar o filhote dela, a Palominha, e
desligar a sua mãe dos envoltórios físicos para que passasse para a outra
dimensão sem traumas.
João Rubens tinha uma mediunidade muito evidenciada.
— A equipe numerosa teve pouco trabalho com Paloma, que
colaborou com eles, facilitando tudo. Pude notar quando ela se soltou das
amarras e saiu de seu estado de semi-sonolência para o outro em que
inclusive tinha uma aparência bem mais jovem e vivaz. Saiu em um galope
em direção ao pasto, não sem antes fazer um carinho em seu filhote. Havia
várias pessoas, mas alguns só observavam como se estivessem ah para
aprender como era feito o trabalho que consistia em desativar pontos que
serviam como fixação do corpo físico ao corpo espiritual. Enquanto uns
aplicavam raios de energia sobre o corpo, outros aplicavam sobre o útero.
Parece que estavam fazendo o possível para que Palominha nascesse antes
que sua mãe se libertasse totalmente. Foi uma cena realmente comovente.
Difícil foi conter as lágrimas diante de tudo sem que o doutor notasse.
— Não é fácil para você ter um patrão excessivamente racional,
sendo você o outro extremo em termos de sensibilidade. Você consegue
vislumbrar o mundo espiritual, mas não pode compartilhar com ele o que
pode captar da espiritualidade — falou Luciana.
— Eu sei que o patrão se importa com o que se passa com os animais,
e sei também que ele é sensível ao sofrimento dos nossos irmãos, mas ele
prefere manter esta aparência indiferente por simples questão profissional.
Ele acredita que se demonstrar esses sentimentos, estará se expondo. Por
isso, as esconde, das pessoas e talvez até de si mesmo, algumas vezes.
Tenho certeza de que ele tem interesse por assuntos espirituais, mas não
quer se abrir.
Após algum tempo de conversa, o telefone toca. Era Guilherme,
avisando que já terminara a consulta no sítio do senhor Ichimura, e já estava
voltando para atender a gata Branquinha, da Luciana.
O sítio é um tanto retirado da cidade e para chegar até lá é necessário
passar pelo mesmo canavial onde Guilherme encontrou Bons. Sempre que
passa por ali, ele revive a cena do resgate do cão, que é hoje seu
companheiro, e se comove com essas lembranças.
Guilherme vai dirigindo, apressado, para não deixar Luciana
esperando por muito tempo no consultório. Enquanto isso, Bons, deixando
sua depressão momentânea por causa da reprimenda que recebeu de seu
dono, passou a se comportar de modo estranho, ficando um tanto agitado e
inquieto. De um momento para outro, Bons ficou ansioso e angustiado
como se algo o estivesse ameaçando. Dona Elza não podia ver o que era e
não podia entender o que estava ocorrendo e provocando esta transformação
em Bons, que não parecia o mesmo. Ele fixava o olhar em alguma coisa,
mas não poderia, pois era cego.
Repentinamente, começa a rosnar e a mostrar seus caninos
ameaçadores, enquanto continuava a fixar o olhar em algum ponto no
horizonte. Parecia que ele estava mesmo vendo algo. Dona Elza aproximou-
se dele e tentou tocá-lo, e conversar com ele para acalmá-lo, mas, como se
estivesse hipnotizado, não deu atenção à voz da mãe de Guilherme, que o
chamava sem ser ouvida. Quando ela o tocou no dorso para tentar acalmá-lo
com carícias, Bons deu um salto, como se estivesse querendo se defender
ou atacar alguém. Dona Elza assustou-se, pensando que ele queria atacá-la,
por isso correu para dentro de casa e trancou a porta da cozinha, isolando-se
do animal que estava transformado. Parecia um animal raivoso com a
aparência alterada como nunca antes havia visto.
Observava-o através da janela, temerosa por um ataque, e notou que
continuava rosnando insistentemente para algo ou alguém que somente ele
poderia ver. Dona Elza estava achando que o cão havia enlouquecido e não
queria ficar sozinha com aquele perigo, por isso ligou para o consultório,
mas seu filho não estava. Tentou ligar para o celular, mas não tinha sinal
algum, então, pediu à Cláudia que lhe avisasse sobre Bons e lhe pedisse que
voltasse para casa o mais rapidamente possível.
Naquele instante, Guilherme voltava pela estrada que cortava por
entre a enorme plantação de cana. Eram quilômetros e quilômetros de cana.
Repentinamente, ouve-se um estrondo e Guilherme quase perde o controle
de seu veículo, que derrapou e quase entrou no canavial. O susto foi grande,
mas nada sofreu.
— O que aconteceu? — pensou Guilherme.
Pálido de susto e com o coração disparado com aquele acidente que
poderia ter sido mais grave, se não fosse por sua perícia no volante,
Guilherme parou e deu um grande suspiro de alívio por estar bem.
Permaneceu imóvel dentro de seu veículo por algum tempo, tentando se
recuperar do susto, e em alguns minutos se refez. Ainda trêmulo e com a
respiração ofegante, desceu do veículo para verificar o que acontecera, e
qual era a causa daquele som que se assemelhava ao estouro de uma bomba.
Observando ao redor, notou uma tábua com várias pontas de aço
perfurantes que, coberta pela poeira da estrada, ficou camuflada.
Provavelmente, foi a causa do estouro dos dois pneus dianteiros.
— Que azar! — exclamou Guilherme em pensamento — dois pneus
furados, e só tenho um sobressalente. Terei que chamar um guincho para me
rebocar. Droga! Agora complicou tudo. Vou atrasar todas as consultas por
causa disso.
Nesse instante, em casa, Bons continuava com comportamento cada
vez mais estranho, agressivo e fora do normal. Começou a eriçar os pêlos
das costas e latir fortemente de forma ameaçadora para alguém ou alguma
coisa que dona Elza não podia ver o que era. De repente, a expressão de
Bons modificou-se completamente. Parecia um animal selvagem prestes a
atacar o inimigo. Com expressões faciais alteradas, partiu em disparada em
direção ao muro, batendo fortemente com a cabeça e desmaiando em
seguida.
Guilherme, nesse momento, nada sabia sobre Bons. Sua única
preocupação era conseguir ajuda para sair dali, daquele deserto de canas.
Mas, seu celular não tinha sinal por causa de uma colina que faria uma
barreira à transmissão das ondas. Se quisesse pedir ajuda, teria que
caminhar a pé por alguns quilômetros até o topo da colina onde haveria
sinal. Enquanto a ajuda não chegasse àquele local, ele estava isolado e
desprotegido. Retirando aquela tábua de pregos do caminho e observando
os estragos ocorridos por causa do acidente, não notou que surgiam dentre
as folhagens dois vultos.
Dois assaltantes se aproximaram de Guilherme, sorrateiramente,
quando ele estava distraído. Foram eles que, propositadamente, colocaram o
artefato perfurante na estrada, com intenções escusas.
Ao se aproximarem de Guilherme, gritaram, anunciando o assalto.
Assustado com mais esta surpresa, quase não podia se mover diante da
arma de grosso calibre portada por um dos homens de expressões duras.
Estavam com o controle da situação, mas notava-Se que eram inexperientes
e estavam mais assustados que o próprio assaltado.
Suas mãos tremiam, assim como sua voz, que ordenou a Guilherme
que lhes entregasse todo seu dinheiro. Guilherme tentou argumentar,
dizendo que tinha poucos valores consigo, mas poderiam ficar com seu
celular e seu relógio. Irritados, pois queriam somente o dinheiro, os dois
homens gritavam e ameaçavam atirar se não lhes entregasse, o que
acreditavam que o médico escondia. O jovem médico se viu em uma
situação de grave perigo, pois, realmente, não dispunha de valores
monetários consigo, apenas carregava o cheque recebido do senhor
Ichimura.
Quando Guilherme lhes ofereceu tal cheque, ficaram ainda mais
irritados. Foi então que um deles desferiu um tapa no rosto do médico, que
sangrou, imediatamente.
O medo invadiu seu intimo, acreditando que seria seu fim. Somente
um milagre poderia salvá-lo. Assim acreditava o noivo de Cláudia que não
encontrava mais saída para aquela situação de extremo perigo. Sentiu suas
faces esquentarem e seus vasos sanguíneos saltarem, produzindo um
latejamento em um dos lados de sua cabeça.
Seus olhos tornaram-se injetados como que tomados por uma
conjuntivite súbita. Seus instintos de defesa foram acionados e altas
quantidades de adrenalina corriam pelas veias do doutor.
Estava pronto a reagir contra os assaltantes, pois acreditava que não
iriam poupá-lo. Quando estava pronto a pular sobre seu oponente, para
tentar desarmá-lo, ouviu um som que vinha por trás de seu automóvel.
Parecia o rosnado de um animal selvagem.
— Só me faltava essa — pensou Guilherme — além de ser assaltado,
também ser ameaçado por uma fera do mato.
Mas, para sua surpresa, não era uma fera do mato, mas um conhecido
seu que surgiu, não se sabe de onde, e rosnava feito um urso, produzindo
um som assustador. Não era somente o rosnado que assustava, seu rosto
também era assustador. Grandes olhos amarelos fixos nos do assaltante
armado. Um forte latido de aviso e partia como um touro espalhando poeira
atrás de si.
Correu como uma fera enlouquecida para cima dos bandidos e sua
intenção era realmente fazer estragos nos larápios. Instintivamente, o
assaltante desviou sua arma, que estava apontada para o doutor, e disparou
contra aquele animal peludo com pêlos eriçados no dorso.
Quatro tiros e nenhum sinal de que o animal fosse desistir do ataque.
Aproximou-se tão rápido que não deixou tempo hábil para que o homem de
seus trinta anos e rosto cheio de cicatrizes evitasse o ataque daquele animal
feroz. Um salto sobre o assaltante e um grito de terror foi ouvido, O
bandido, assustado atrapalhou-se e escorregou.
Tentou fugir e tropeçou, ferindo-se no peito e no rosto. Seu comparsa;
notando o perigo, fugiu entre a plantação, abandonando o companheiro que
ficou por sua própria conta.
O ladrão, ainda armado, disparou mais dois tiros e a fera continuava a
atacá-lo, com agressividade. Acreditou que o animal fosse indestrutível,
pois seus tiros pareciam ineficazes. Não podia errar daquela distância.
Mirou entre os olhos, mas percebeu o projétil ricocheteando em uma rocha,
à beira da estrada. Enfim, o animal bravio, que surgiu como um fantasma,
sentiu-se satisfeito, pois seu contendor desistiu de tentar se defender, e
fugiu, levando consigo a arma que mostrou-se inútil contra aquela fera
terrível de olhar penetrante como, de uma águia que localizava sua presa.
O assaltante, amedrontado, fugiu aos gritos pelo mesmo local de onde
sairam, sem deixar vestígios. Repentinamente, um silêncio se fez presente.
Não havia mais sinal dos bandidos. Guilherme somente conseguia ouvir as
batidas de seu coração, que disparou ante esta ação inesperada de um
animal que surgiu para salvá-lo, talvez da morte certa.
Após quase um minuto de silêncio total, Guilherme recobra o seu
equilíbrio e se deparou com algo quase incrível e que seus olhos custavam a
acreditar.
— Bons? — pergunta Guilherme a si mesmo — Bons? E você,
amigão? — chamou em voz alta. — Vem aqui, quero te abraçá-lo.
Mas Bons permaneceu parado, olhando fixo nos olhos do doutor, e
apenas abanou a cauda enquanto um sorriso se desenhava em seus lábios
caninos. E como Bons não se aproximou, Guilherme encaminhou-se a ele,
perguntando:
— Como você chegou aqui, tão longe de casa? Como você consegue
enxergar? Como poderia ter se curado?
Guilherme parecia confuso com o que via, mas continuou
caminhando em direção ao amigo.
— Devo estar tendo ilusões, pois você não tinha olhos e agora seus
olhos estão perfeitos. Deixe-me abraçá-lo...
Antes que pudesse terminar a frase, Bons diafanizou-se e desapareceu
diante de seus olhos, como um fantasma. O céptico doutor ficou pálido mais
com esta surpresa do que esteve durante o assalto. Aquela situação
inesperada o abalou, provocando-lhe tonturas, e quase desmaiou. Apoiando-
se no pára-lama do seu automóvel, evitou a queda e recompôs-se. Parou um
instante para tentar entender o que aconteceu, mas nenhuma explicação
lógica lhe ocorria, exceto que estava excessivamente exausto e criou toda
aquela cena ilusória mentalmente em função também do susto com o
estouro dos pneus.
— Foi apenas uma ilusão — pensou Guilherme. Não houve
assaltante, nem Bons. Foi só minha imaginação. Preciso descansar. Tenho
certeza que se eu parar um pouco, este mal-estar passará e irei rir desta
situação imaginária. Mas, como farei para sair daqui? Posso ficar o dia todo
aqui sem que passe alguém. Terei mesmo que andar até o alto daquele
morro ah na frente e fazer com que o celular funcione.
Mal acabava de ter estes pensamentos, ouviu o Som de um veículo se
aproximando. Era Cláudia, que vinha surgindo na estrada poeirenta, seguida
de uma nuvem de terra que se elevava por trás. Ao notar o automóvel
naquela posição atravessada na estrada, Cláudia temia por algum acidente.
Estacionou seu veículo e veio em sua direção e o abraçou, perguntando:
— Está tudo bem com você? Você se machucou?
Guilherme, ainda atordoado pelo susto e pela sequência de fatos
estranhos, tentou responder:
— Acho que quando estouraram os pneus, devo ter batido com a
cabeça e tive alucinações, mas já passou. Ainda bem que você veio, pois
com os dois pneus furados e com o celular sem sinal, eu não poderia sair
daqui. Como você soube que eu precisava de ajuda? — perguntou
Guilherme.
— Eu não sabia — respondeu Cláudia —, mas algo me dizia para
encontrá-lo no caminho da fazenda do senhor Ichimura. Não sei explicar o
que me motivou, mas aqui estou, afinal. Tente colocar seu carro em uma
posição melhor e deixe-o aí. Depois o buscaremos. Precisamos ir para sua
casa. Sua mãe o está procurando.
— Aconteceu algo com a minha mãe? — perguntou o rapaz,
preocupado com a saúde da mãe. Ela está bem?
— Calma. Não é sua mãe, é o Bons. Ele não está bem.
— Bons!? Vamos indo, então. Ligarei do caminho para o mecânico
para que venha buscar o automóvel e o conserte.
Entraram no automóvel de Cláudia e dirigiram-se para a cidade, indo
à casa de Guilherme para verificar o que estava ocorrendo com Bons.
Ao chegarem, encontraram Luciana esperando ao lado da mãe de
Guilherme, com sua gata nos braços. Luciana também estava preocupada
com o paradeiro do médico e com a saúde de Bons, pois também havia
ajudado a cuidar do Bons quando foi achado, ainda filhote.
Ao entrarem, Guilherme cumprimentou Luciana e foi ao encontro do
amigo Bons, que estava ainda inconsciente, em consequência da batida na
cabeça.
Imediatamente, pegou a valise onde estavam seus instrumentos
médicos, começou a examiná-lo e aplicou medicamentos, tentando reanimá-
lo. Sem saber o que houve, perguntou à sua mãe o que aconteceu durante
sua ausência. Ela explicou que ele se tornou agressivo e correu de encontro
à parede.
— Quanto tempo faz que isso aconteceu? — perguntou o filho.
— Faz, mais ou menos, quarenta minutos, Ele estava bem e, de
repente, transformou-se. Parecia um louco. Lutava com um inimigo
imaginário. Arrepiava-se e rosnava.
Nem parecia o nosso pacato Bons. Ele estava estranho, mas eu fiquei
mais assustada quando ele saiu correndo e bateu com a cabeça no muro do
quintal. Pobre cão cego! — falou a mãe, já com lágrimas nos olhos,
penalizada, pelo estado de saúde de seu cão.
Guilherme ouviu o relato de sua mãe e engoliu em seco, pois
pensamentos estranhos estavam lhe ocorrendo, e começou a suar muito.
Parecia estar nervoso e ansioso com alguma coisa que não queria revelar.
O pequeno cão cego, rapidamente, voltou à consciência, reconheceu
seu dono e deu-lhe uma lambida nas mãos. Guilherme, mais tranquilo, pega
seu amigo, com muito cuidado, carrega-o para dentro de casa e o acomoda
em cima do sofá da sala entre duas grandes almofadas macias. Estando
medicado e mais consciente, Guilherme o deixa por uns instantes, enquanto
aproveitava a presença de Luciana para examinar sua gatinha, que também
não estava passando bem. Receitou um antibiótico e um antiinflamatório e
recomendou-lhe a ela que evitasse deixá-la receber correntes de vento.
— Ela está com faringite, mas logo estará bem. Não se preocupe.
Luciana, curiosa, quis saber de Guilherme a respeito do seu sumiço
durante a manhã. Guilherme respondeu:
— Uma coisa estranha me aconteceu e, agora, sabendo, o ocorrido
com o Bons, sinto-me confuso. Não sei explicar com palavras o que houve.
Não sei dizer se foi real ou imaginário, mas, de qualquer modo ocorreu algo
muito intrigante e até mesmo eu, que sou conhecido por minha
racionalidade, senti tremer as bases de meus conceitos e das minhas
convicções. Estou a ponto de admitir que algo sobrenatural aconteceu
comigo, hoje à caminho da cidade — disse o doutor, como se estivesse
revendo, mentalmente, todas aquelas cenas de agressão e de surgimento de
seu salvador.
Luciana estava muito curiosa para saber o que aconteceu e, não se
contendo de ansiedade, falou, intempestivamente:
— Pare de enrolar e diga logo o que aconteceu. Estamos curiosas.
Pois bem! Aconteceu que no mesmo instante em que Bons estava
tendo algum tipo de alucinação aqui em casa, eu também estava tendo na
estrada, após bater com a cabeça quando os pneus da caminhonete
estouraram — explicou Guilherme, no seu modo de entender.
A mãe de Guilherme ouviu tudo atentamente e, preocupada,
perguntou:
— Será que foi o bolo que eu fiz que lhe fez mal? Será que causa
alucinações? Você deu um pedaço para o Bons, que eu vi.
— Calma, mãe. Não foi o seu bolo, que, aliás, estava uma delícia. Foi
algo que não sei explicar apesar de que deve haver uma lógica para tudo
isso. Minha razão não encontra uma explicação, mas, com certeza, deve
haver uma.
Então dona Elza, ingênua, dá um suspiro de alívio.
Luciana olhou para Cláudia, fez um sinal com a cabeça e deu uma
piscadela para sua amiga, que entendeu o que ela estava tentando dizer.
Luciana deu a entender que deveria ser Cláudia a dar as explicações para o
fato.
Cláudia, entendendo o sinal, começa a falar olhando para Guilherme.
Ela sabia que o cepticismo do noivo dificultaria um pouco o entendimento
do que estava pronta a dizer, mas, mesmo assim, falou:
O que aconteceu, provavelmente foi o seguinte: Bons e Gu são muito
ligados. Isso não há como negar. O sentimento entre você e Bons é mútuo e
recíproco, por isso quando você bronqueou com ele, Bons passou a ficar
mais ligado ainda mentalmente em você, à espera de seu retorno para poder
desculpar-se a seu modo. Assim, muito ligados mentalmente, ele o seguia
em pensamentos e, como estava absorto em seu estado de depressão
temporária, manteve-Se neste estado, sentindo como se estivesse com você
naquele momento do acidente — explicou Cláudia.
No entanto, Guilherme estava relutante em mencionar o que
realmente aconteceu, para não passar por maluco, e disse:
— Há algo que não quis mencionar para que não me julgassem mal.
No mesmo instante em que Bons estava aparentemente atacando um
inimigo imaginário, eu estava, talvez, não tenho certeza, sendo assaltado na
estrada e...
A mãe de Guilherme ficou pálida com o que ouvia. Ela sempre teve
medo que algo assim acontecesse nas estradas desertas da cidade.
Guilherme a acalmou e continuou:
— No momento em que eu achava que não havia mais o que fazer,
exceto tentar-me defender, Bons surgiu do nada em minha presença e lutou
com os bandidos, livrando-me de uma agressão ou coisa pior. De início,
achei que fosse alucinação, mas a sequência de ações que minha mãe narrou
sobre o que aconteceu com Bons coincide com a mesma sequência de ações
que aconteceram comigo — explicou Guilherme, confuso.
Ao término da explicação quem não estava passando bem era
Guilherme, que sentiu um mal-estar ao lembrar-se do perigo que passou.
Preciso sentar-me. Estou um pouco atordoado. Falou Guilherme,
enquanto procurava sentar-se no sofá ao lado de Bons para relaxar um
pouco sua tensão.
— Será que o que vocês dizem sobre a consciência dos animais pode
ser verdade?
Cláudia, percebendo que Guilherme estava confuso, tentou explicar
melhor o que houve para que ele percebesse que o que ocorreu não era algo
tão inexplicável como ele imaginava.
— Guilherme, como eu disse, Bons estava ligado a você
mentalmente, por isso foi capaz de captar o perigo, mesmo antes de você,
que estava preocupado com suas consultas.
Ele foi capaz de perceber o perigo e se antecipar, instintivamente, até
mesmo antes do estouro dos pneus e ao surgimento dos malfeitores. O
desejo de protegê-lo era tão grande que Bons conseguiu materializar-se
através de algum mecanismo que não posso explicar ainda, mas pesquisarei
a respeito. Desta forma, ele foi capaz de afugentar os ladrões que,
provavelmente, imaginaram que estavam diante de um cão fantasma, já que
Bons não estava ali, fisicamente. Eu fico imaginando o susto que os
bandidos levaram quando viram um fantasma — falou Cláudia, rindo de sua
última observação.
— Incrível! Meu cão é um paranormal. E um cão com poderes
sobrenaturais.
— Não! — corrigiu Luciana, que prestava atenção às explicações e às
palavras de Guilherme — O que ocorreu com Bons não é sobrenatural. Foi
algo natural e Bons é um cão totalmente normal. Isso que você presenciou é
algo que poderia ocorrer com qualquer um, porque não foge às leis da
natureza. E certo que é algo que não acontece todos os dias, mas é
totalmente normal. Deus faz tudo perfeito e não teria uma falha sequer em
sua criação, por isso, nada do que ocorre pode ser considerado sobrenatural.
Pode estar acima de nossa capacidade de explicar ou de entender, pois
não sabemos de tudo ainda, mas, com certeza, não é sobrenatural.
Enquanto conversavam, o celular de Guilherme tocou. Era João
avisando que havia uma emergência na clínica. Despedindo-se de Luciana,
partiram, Guilherme e Cláudia, para o consultório veterinário.
Após atender a consulta de urgência que o aguardava e depois de
atender todas as outras pendentes, o médico retornou ao lar, ainda abalado
pela experiência que havia passado.
Exausto sentou-se diante da televisão para relaxar um pouco aquela
tensão que tornava seus músculos rígidos. Tentou esquecer, assistindo algo
divertido. Enquanto isso, Bons se aproximou, devagar, e tocou com o
focinho a sua mão esquerda, que pendia para fora do sofá. Ele estava se
desculpando por sujar suas roupas, pela manhã.
Guilherme, sentindo o toque amável de seu amigo, pegou-o
carinhosamente, e o abraçou. Aquela experiência, fora da rotina, provocava
reações e mudanças íntimas no médico. Ele estava deixando de ser aquela
pessoa dura que sempre foi, ao menos externamente, e tentava deixar
transparecer os sentimentos reprimidos. Era carinhoso, mas não conseguia
demonstrar. Era compassivo, mas não queria que soubessem.
Bons sorriu para seu dono, que aceitou seu pedido de desculpas.
Sentindo que estava tudo bem entre eles, então passou a lamber-lhe o rosto,
enquanto abanava a cauda.
Aconchegando-se ao lado de seu amigo, recostou sua cabeça e,
abraçado por ele, ambos adormeceram; após um dia difícil para os dois.
Dona Elza não quis acordá-los até terminar o jantar por isso desligou
a televisão e os deixou dormindo na penumbra daquela sala de decoração
simples, mas de bom gosto. A cabeça de Guilherme pendeu para o lado.
Estava já em sono profundo e começou a se desligar do corpo físico para
dirigir-se à colônia astral Rancho Alegre, em espírito liberto,
temporariamente, do fardo físico.
Tão rápido quanto o pensamento, surgiu em frente aos grandes
portões da colônia. Era como se tivesse sido levado para ali em uma
velocidade inimaginável. Quando menos esperava, apareceu ao seu lado o
senhor Gustavo.
— Bem-vindo novamente ao nosso humilde lar, jovem doutor! —
disse o velho amigo, com voz paternal.
— Olá! — cumprimentou Guilherme, alegre por reencontrá-lo.
— Você está mais calmo depois do susto que passou hoje? —
perguntou Gustavo.
— Estou melhor, obrigado — respondeu. Mas, como já sabia? Vocês
podem saber o que acontece comigo, daqui? — perguntou, curioso.
— Sim, é claro. Você foi aceito em nossa colônia como futuro
colaborador, então uma equipe maior o está acompanhando para ensinar-lhe
algo mais do que o que você já estava aprendendo conduziu até aqui.
— Uma equipe maior? Como assim? Eu nem sabia que havia alguma
equipe que me acompanhava.
Sim, uma equipe maior o acompanhará. Desde que você ingressou na
faculdade de medicina veterinária, você se tornou um dos nossos
colaboradores, por isso foi designado para você um mentor. Em
contrapartida, somos seus colaboradores também. Nossa equipe, que o
acompanhará agora, é composta por três pessoas que o auxiliarão em seu
dia-a-dia na clínica. A partir de agora, você, não somente terá a presença da
equipe durante a vigília, mas também durante a noite, quando seu corpo
repousa. Agora, você participará de aulas mais aplicadas aqui na colônia, e
não só no consultório, como foi até hoje.
— Mas não me lembro de ter aprendido algo com meu mentor. Será
que o que eu aprendi foi perdido?
— Não se preocupe. Tudo o que você aprendeu está guarda do em
algum dos seus níveis de consciência, e todas as informações que você á
recebeu serão afloradas quando chegar o momento certo. Os professores
que o acompanharão de agora em diante serão a senhora Vivian, a mais
experiente; a senhora Ana e a senhora Neuza. Até aqui elas se limitavam a
auxiliá-lo eventualmente em consultas e cirurgias, a pedido de seu mentor,
mas, agora, serão suas orientadoras, juntamente com outros que deverão
ministrar-lhe aulas práticas e teóricas.
— Eu conheço todas as técnicas cirúrgicas e conheço os métodos
semiológicos. Considero-me um bom médico. Acho que eles tinham muito
o que fazer — falou Guilherme, com um certo laivo de arrogância.
— Vejo que você ainda precisa amadurecer um pouco antes das aulas.
Mas vou dizer o que elas faziam. Muitas vezes, quando quadro clínico é
confuso e exige maiores observações para se chegar a um diagnóstico e
prognóstico, nós analisamos do nosso ponto de vista, ou já os temos de
antemão. Nós o intuímos a usar este ou aquele procedimento, a fim de que
você encontre por si mesmo a solução. Outras vezes, mesmo tendo
resultados laboratoriais em mãos, se você não chega a uma conclusão, neste
caso nós lhe passamos mentalmente o nosso parecer e você chega à
conclusão. Nosso auxílio chega até você em forma de pensamento, que
você acaba acreditando que sejam somente seus e que conseguiu tudo
sozinho. Como você precisa resolver os problemas por si só. Raramente
lançamos mão deste último método, pois este tipo de intervenção somente
ocorre em momentos de maior necessidade. Na maior parte do tempo, é por
sua conta. Nas cirurgias, o auxílio é em relação às anestesias e ao controle
de hemorragias.
Agimos sobre o sistema nervoso do paciente, a fim de que, com
reduzidas quantidades de anestésicos, o animal se torne sedado. Se o animal
for mais sensível, fazemos com que os efeitos dos anestésicos sejam
atenuados para diminuir os riscos, inclusive com os excessos. Agindo sobre
o sistema de coagulação sanguínea, ajudamos a minimizar as perdas de
sangue, por meio de descargas eletromagnéticas que cauterizam vasos
abertos e aceleram o processo de coagulação através de uma maior atração
entre as plaquetas, que aglutinam mais facilmente. Parte destas energias
eletromagnéticas é emprestada do seu corpo físico sem que você saiba,
canalizadas através de suas mãos. Você se lembra da Doroti, aquela
cadelinha de dona Luzia, que esteve internada para retirada de um câncer no
útero? Pois bem. Você se lembra de como ela se recuperou, rapidamente,
após a cirurgia, apesar da perda sanguínea? Nós, com auxílio do ectoplasma
que você possui, criamos um tamponamento das feridas que não queriam
cicatrizar e acomodamos o epíplon, aquela estrutura que se assemelha a
uma rede de pescar que recobre as vísceras sobre o ferimento, fazendo com
que ele agisse como se fosse um tipo de compressa hemostático natural. A
hemorragia cessou rapidamente, graças a nós daqui e a você de lá, com sua
vontade de salvar a vida da pequena Doroti — concluiu Gustavo.
— Então, nunca estamos sozinhos? Sempre há alguém ao nosso lado
para que os animais que atendemos se recuperem bem? — perguntou
Guilherme, com um misto de curiosidade e orgulho ferido.
— Sim — respondeu Gustavo. Mas, nem todos os animais que vocês
atendem devem sobreviver, pois cada qual tem seu roteiro de aprendizado,
e, ao final de algum estágio, é necessário iniciar outro. E para atravessar
para a fase seguinte, é necessário passar pela experiência da desencarnação.
As situações onde haja sofrimento fazem parte de seu aprendizado ou de
seus donos. Nisto não podemos interferir — falou Gustavo, com olhar
paternal.
— Já que estamos neste assunto, eu gostaria de saber porque o Bons
ficou cego e o abandonaram para morrer na beira da estrada — perguntou o
médico.
— Bons é o Bob reencarnado. Bob era aquele Malamute do Alasca
que estava sob seus cuidados quando você ainda era apenas uma criança.
Sim, lembro-me bem de Bob, com seus grandes olhos azuis e longos
pêlos cinzas e brancos. Era um filhote eterno, sempre brincalhão. Eu
adorava o Bob. Quem não gostava muito das suas peripécias era a minha
mãe, pois ele estava sempre destruindo alguma coisa e principalmente as
roupas que ela deixava no varal. Mas, as lembranças que tenho dele não são
boas, pois sempre quando me lembro da imagem dele, sem vida, ainda me
choco um pouco. Eu nunca soube o que realmente aconteceu e sempre que
tocava no assunto, minha mãe procurava falar de outra coisa, desviando-se
da questão central. Jamais quis insistir, pois acreditava que tudo tivesse
causado algum trauma, por ter sido ela e meu pai a encontrá-lo primeiro —
falou Guilherme.
— Deixemos este assunto para depois. Agora, eu gostaria de dizer o
quanto nossa equipe trabalhou para evitar que algo mais grave acontecesse
com você, hoje, pelas mãos de assassinos, com a ajuda de nosso amigo Bob
— comentou Gustavo. Como dissemos, nossas três companheiras estão
sempre acompanhando-o, e quando você se encaminhava para a
propriedade do senhor Ichimura, uma de nossas amigas captou ondas de
pensamentos que chamaram sua atenção. Eram dois homens armados que
planejavam assaltar pessoas que transitassem por aquela estrada deserta.
Imediatamente, a senhora Ana, da equipe médica que o acompanha,
contatou a equipe de segurança para que enviasse auxílio, a fim de evitar
que os senhores mal-intencionados levassem a termo seu plano. De acordo
com a equipe de segurança, não passaria outro veículo por ali, exceto o seu,
durante seu retorno à cidade. Ficaram de plantão, observando os dois
homens que eram acompanhados por entidades carregadas de energias
muito pesadas. Eram entidades trevosas que os intuíam a fazer o mal, com o
qual se divertiam. Nossa equipe materializou-se aos malfeitores
desencarnados que, acreditando estar diante de fantasmas, fugiram,
assustados, deixando os malfeitores encarnados à sua própria sorte. Por
isso, tornaram-se inseguros e cogitaram abandonar o projeto; mas, um
deles, muito atrasado evolutivamente no sentido do aprendizado espiritual,
insistiu no intento, Mesmo amedrontados, persistiram. A adrenalina
percorria-lhes o corpo, pois o temor era muito grande. A vítima poderia
estar armada, também. Estavam temerosos, mas, prosseguiram, colocando,
uma tábua com pregos longos escondida sob a poeira da estrada e as folhas,
dificultando ser vista por algum motorista, mesmo que fosse muito
observador. Quando você passou com seu veiculo sobre a tábua de pregos,
os pneus estouraram e você se viu obrigado a parar, bruscamente. Enquanto
você estava se recompondo, vieram, sorrateiros, por trás, para surpreendê-
lo.
Antes que você chegasse e fosse subjugado, nossa equipe aplicou-lhes
uma certa quantidade de energias que sobrecarregaram seus sistemas
nervoso e circulatório, causando fortes dores de cabeça e cólicas intestinais
que os incomodavam muito. Acreditaram que foi por causa de umas coisas
que comeram na cidade. Precisávamos da ajuda de alguém que os
assustasse, não temesse o perigo e que estivesse disposto a enfrentá-los.
Bons, era a primeira escolha. Bons, que estava em sua casa, pôde
acompanhar tudo o quanto ocorria, através de uma tela mental que criamos.
Para Bob, aliás, Bons, a ação ocorreu em tempo real, pois, ele estava
presente, ainda que somente em espirito. Os dois homens tinham energias
densas abundantes, suficientes para produzir a materialização de Bons, mas
ele não aceitou dormir, apesar de toda energia calmante que aplicamos nele,
por estar preocupado com sua segurança. No entanto, exaltado, acidentou-se
de encontro ao muro. Ele nada sofreu, pois nossa equipe aplicou-lhe
analgésicos. Inconsciente, desdobrou-se até onde você estava e recebeu
ectoplasma emprestado dos mal feitores. Materializado, Bob conseguiu
afugentá-los e salvar o dia. Enquanto isso, nossa equipe médica enviou uma
mensagem ao mentor espiritual de Cláudia, que, entendendo do que se
tratava, a intuiu a sair à sua procura, a fim de auxiliá-lo em seu retorno em
segurança — concluiu Gustavo.
— Puxa! Vocês estão atentos a tudo, hein! — comentou Guilherme.
— Não é bem assim. Nós trabalhamos em atividades relacionadas aos
animais. As outras equipes com funções gerais são de colônias que
trabalham paralelamente à nossa, visando o ser humano. Neste caso, você.
Por isso, foi pedida à outra colônia uma equipe de segurança, que se
incumbiu de afugentar os agentes das trevas e provocar mal-estar nas
pessoas que tentaram assaltá-lo.
O Malamute

Enquanto Gustavo falava, surgiu, cabisbaixo, alguém, que se


aproximou timidamente dos dois. Era um senhor de cabelos grisalhos, alto e
com o rosto vincado pela idade avançada. Parecia ter cerca de oitenta anos.
Ao aproximar-se dos interlocutores, permaneceu ainda cabisbaixo,
enquanto dirigia a palavra a Gustavo:
— Senhor Gustavo, perdoe-me a interrupção desculpou-se,
humildemente.
Pois não, senhor Benati respondeu Gustavo. Guilherme arregalou os
olhos. Mal podia acreditar no que via. Era seu pai, falecido há alguns anos.
Parecia tão mais velho do que era quando o viu pela ultima vez!
— Será que continuamos a envelhecer após a morte, será que
envelhecemos mais rápido por aqui? — perguntou-se Guilherme.
— Eu poderia conversar com Guilherme, mesmo que por alguns
segundos? — perguntou o senhor de aparência envelhecida.
— Muito bem! Fiquem à vontade. Eu os deixarei a sós e,
posteriormente, voltaremos á nossa conversa — disse Gustavo, decidido, e
desapareceu diante de Guilherme, em uma fração de segundo.
Aquele senhor de aparência humilde, com roupas simples, atitudes
tímidas e de voz muito baixa, deu um grande suspiro, como que para
adquirir mais força, ergueu a cabeça de forma lenta e insegura, expondo seu
rosto, que Guilherme reconheceu como sendo mesmo o de seu pai, mas não
teve coragem de encará-lo. Guilherme deu um salto e abraçou-o,
ternamente, sem dizer uma palavra. Lágrimas rolaram dos olhos de ambos e
assim permaneceram por algum tempo, como se imaginassem não poderem
se abraçar novamente. Então, Guilherme disse:
— Que saudade, pai. Finalmente o encontro. Mas, por que esta
aparência tão deprimida e envelhecida? Por que fica desviando o olhar e
não olha para mim? Não sente saudade também? — perguntou Guilherme,
triste pela atitude distante do pai.
— Não sou digno de olhá-lo nos olhos, filho! Estou aqui para pedir-
lhe que me perdoe pelo que fizemos — disse o senhor Benati.
— Mas perdoar por quê? O que o senhor poderia ter feito para que
necessite de perdão? Você só me deu alegria e me criou com o maior
carinho — falou o filho ao pai.
— Não se iluda com isso, filho. Sou um criminoso e estou aqui nesta
colônia para me redimir através do trabalho. Estou aqui por minha vontade
de me recuperar da culpa que me corrói por dentro.
— Que crime poderia ter cometido? Você sempre foi uma pessoa
notável e ótimo pai. Não diga tal inverdade.
Sou o responsável pela morte dolorosa de Bob. Com remorso, até
hoje me puno pelo mal que cometi a você e ao pobre cão inocente. A
consciência pesada foi a causa do surgimento do mal que me consumiu os
pulmões, destruindo-me a saúde e minha energia vital junto com meu corpo
físico. Sofro muito com as lembranças, por isso tenho esta aparência
envelhecida. Preciso que me perdoe, senão ficarei eternamente me
martirizando. Perdoe-me, filho. Perdoe-me! — implorou Benati ao filho.
Não acredito que vocês tenham tomado parte na morte de Bob, pois sei que
você e mamãe também o amavam. Não é assim? — perguntou ao pai, que
respondeu com a voz embargada e com os olhos inundados de lágrimas.
Não, não foi assim. Apenas o tolerávamos por sua causa. Seus uivos agudos
incomodavam, seus latidos incessantes tiravam o sossego, suas travessuras
tiravam-me o equilíbrio, eu não suportava mais a presença daquele animal
em casa. Resolvi envenená-lo e, quando fosse de manhã, o encontraríamos
já morto e diria a você que ele morreu de algum mal súbito. Infelizmente;
Bob era muito resistente e a dose de veneno que dei não o matou, apenas o
intoxicou e o atordoou. Pela ação do veneno, uma dor o maltratava, por isso
começou a gemer e a ganir. Aqueles gemidos altos poderiam acordá-los ou
chamar a atenção de alguém da vizinhança, por isso dei outra dose mais
forte. Ele era muito resistente e não morreu. Eu não sabia, mas os
trabalhadores desta colônia faziam o possível para que não morresse e, para
tanto, ministravam-lhe medicamentos energéticos capazes de neutralizar as
toxinas que lhe dei. A quantidade dada era suficiente para um animal com
quatro vezes o seu peso, mas ele continuava vivo, apesar de estar
semiconsciente. Irritado, peguei um objeto pesado que encontrei perto e
arremessei contra sua cabeça, acreditando que seria mais rápido assim, mas
ele ainda respirava.
Benati pára por um instante para enxugar as lágrimas de
arrependimento que rolavam por sua face, para continuar em seguida.
— Tornei a golpear-lhe o crânio, com mais violência. Por fim, decidi
embebê-lo em gasolina e atear fogo sobre ele. Dizia isso, enquanto sua voz
quase sumia entre soluços e engasgos. A imagem que mais me
impressionou e ainda tenho comigo e me consome o espírito foi vê-lo
ganindo alto de dor enquanto era consumido pelas chamas.
Seus olhos foram sendo cozidos nas órbitas, até explodirem,
espalhando um líquido quente que me atingiu o rosto. Ainda sinto o calor
das chamas sobre meu rosto.
Tentei enterrá-lo para que não vissem nada, mas não tive tempo, pois
já amanhecia. Sua mãe, quando acordou, me viu ao lado do corpo de Bob,
pois não houve tempo para escondê-lo. Ela impressionou-se tanto com o
que viu que nunca mais falou comigo até eu sucumbir pela enfermidade que
me tomou.
Dizendo isso, ajoelhou-se, colocou as mãos no rosto e chorou alto,
implorando perdão. Permaneceu nesta posição algum tempo, quando,
repentinamente, ouviu-se longe um latido. Era um cão de grande porte, com
longos pêlos cinza, que se aproximava, correndo e saltando alegre.
Era Bob. Ele não tinha marcas ou cicatrizes. Bob vinha trazendo uma
bola, que era seu brinquedo favorito. Corria atrás da bola, jogava-a para
cima, pegava-a novamente e corria. Estava fazendo gracinhas para chamar a
atenção. Ele tinha muito ciúme daquela bola e não deixava ninguém tocá-la.
Mas aproximando-se dos dois, Bob aquietou-se, e deixou cair a pequena
bola próxima às mãos do senhor Benati e novamente soltou outro latido,
que demonstrava alegria. Como Benati não se mostrava animado em brincar
com ele, começou a correr e a pular ao redor do pai de Guilherme. Por fim,
encorajado pelo filho, que lhe tocou no ombro, olhou para Bob, que o
chamava para brincar com a bola. Benati, diante daquele cão de olhos azuis,
não conseguia dizer uma só palavra. Ficou imóvel. Não podia acreditar no
que via: Bob o chamou novamente e saltou sobre aquele senhor de penosa
aparência, lambendo-lhe o rosto, a cabeça, as mãos e, novamente, ofereceu-
lhe o brinquedo. O senhor Benati, — por fim, pegou a bola e abraçou Bob
com grande carinho, o que o animal retribuiu com um uivo rouco de alegria.
Guilherme disse, então:
— Pai, o senhor não me deve nada. Não há o que perdoar. Não se
preocupe. Bob, no entanto, o perdoou.
Então, os três se abraçaram, demoradamente, enquanto Bob dava
uivos de alegria por estarem juntos novamente.
Kayama

Passado algum tempo, surge novamente o senhor Gustavo diante do


pai e do filho. O senhor Benati levanta-se e abraça Gustavo, em
agradecimento pela oportunidade de desabafar. Podia-se notar
rejuvenescimento em sua face. Suas rugas iniciaram um retrocesso e um
brilho criou-se ao redor...
— Sinto muito atrapalhar a reunião de família — Falou Gustavo, mas
o senhor Benati é esperado no pronto-socorro com urgência.
Despedindo-se de todos com abraços, Benati afasta-se em passos
acelerados em direção ao rancho, acompanhado por Bob, que brincava e
saltava sobre ele, que retribuía acariciando aqueles longos pêlos brilhantes.
— Há um pronto-socorro dentro do rancho? — perguntou Guilherme.
— Sim — respondeu Gustavo. Há vários setores ali dentro e, dentre
eles, o hospitalar. O senhor Benati é valoroso trabalhador do setor de
queimados. E um dos mais atuantes. Nunca se deixa abater pelo cansaço e
trabalha incessantemente. Ele é uma ótima pessoa, mas... — Gustavo fez
uma pausa.
— Mas o quê, senhor Gustavo? — perguntou Guilherme.
— Sua consciência não o deixava em paz, pela culpa. Por isso,
constantemente, era enviado ao posto de enfermagem para tratamento. Com
isso, sua aparência envelheceu muito. Com a conversa que tiveram, ele deve
ter conseguido colocar para fora tudo o que lhe fazia mal. E com o perdão
de Bob, acredito que tudo se encaminhará ao normal, de agora em diante.
Terminado o que tinha a dizer sobre o senhor Vitor, Gustavo convidou
Guilherme a conhecer a colônia. Caminhando em direção ao portal,
novamente o transpuseram sem dificuldade. Guilherme ficou maravilhado
com a beleza daquele ambiente arborizado e tranquilo. Era uma cidade onde
havia casas, ruas e prédios. Muitas pessoas caminhando de um lado para
outro. Entrando e saindo dos prédios e casas. Muitas pessoas estavam
acompanhadas de animais de estimação, passeando por ali, despreocupadas.
As pessoas passavam com animais de todos os tipos andando naturalmente.
Haviam também muitos animais que andavam desacompanhados por todos
os lugares.
Os prédios eram muito grandes e modernos. As casas eram modestas
e davam um aspecto mais rural à paisagem. Guilherme ficou admirado com
a quantidade de prédios.
Gustavo, como se lhe, adivinhasse os pensamentos, disse:
— Cada prédio destes é um setor especializado. São vários setores,
que você irá conhecer um a um. Hoje vou lhe mostrar parte do nosso
rancho, pois não tem como mostrar tudo de uma só vez, devido à grande
extensão de nossas fronteiras. Se pudéssemos compará-lo a alguma
extensão conhecida, poderíamos dizer que equivale ao tamanho do estado
de Minas Gerais — revelou Gustavo a Guilherme, que se espantou com a
informação. No entanto — continuou Gustavo, como sabemos, o tempo e o
espaço são conceitos relativos. Por isso, não podemos, na realidade, fazer
esta comparação, pois aqui o tempo difere do tempo conhecido na Terra.
Aqui, nos movemos com a velocidade do pensamento, isto é, com uma
velocidade maior do que a da luz. Isto significa que se formos solicitados do
outro lado da colônia, a centenas de quilômetros da entrada onde estamos
agora, poderemos chegar lá em uma fração de segundo. Deste modo, nosso
rancho toma-se pequeno. Assim como esta, há muitas outras facilidades que
temos aqui e que não existem na Terra, as quais tomam o nosso rancho um
espaço de pequena extensão. Não posso deslocar-me desta forma em sua
companhia porque você ainda não está acostumado a se mover ou a se
transportar deste modo. Se tentássemos, poderiam ocorrer acidentes, tais
como nos separarmos e você acabar indo para algum lugar indesejado por
lhe faltar um certo adestramento disciplinar mental. Outro empecilho são os
seus cordões prateados que fazem com que você se mova muito mais
lentamente do que nós, que não os temos. Neste caso, é preferível usarmos
as esteiras, que podem nos transportar rapidamente a qualquer lugar do
rancho, confortavelmente e sem acidentes — explicou o senhor Gustavo.
Andaram um pequeno trecho até chegarem à entrada de um grande
prédio.
— Vamos entrando? — convidou Gustavo. Aqui é a nossa recepção.
E o prédio central — falou o anfitrião, chamando-o com um sinal de
cabeça.
— Puxa, que grande é este prédio! — exclamou Guilherme,
espantando-se com o que via.
Gustavo apenas sorriu e apresentou-lhe as dependências do prédio.
Para facilitar a localização e conhecer as dimensões da colônia, Gustavo
acionou um dispositivo, que fez surgir um mapa em três dimensões.
— Aqui temos um mapa que nos localiza onde quer que estejamos
dentro do perímetro do rancho. Cada trabalhador cadastrado possui uma
espécie de ‘crachá’, que transmite um sinal eletromagnético, captado por
um comando central. Nesta central, são processadas todas as informações
relativas aos pacientes e trabalhadores do Rancho.
Sabendo a localização de cada trabalhador, fica mais fácil contactá-lo,
inclusive por pensamento, quando necessário — explicou ao convidado.
Estamos aqui — falou, apontando com o dedo indicador uma tela que
flutuava no centro da sala. Daqui iremos até o setor de animais silvestres,
pois é o setor mais próximo de nós. E um local muito interessante.
— Vamos? — perguntou animadamente a Guilherme, que estava
ansioso por conhecer tudo o que pudesse.
Saindo da sala, muito limpa e perfumada, mas com decoração simples
e muitos quadros de animais nas paredes brancas, caminharam até o lado de
fora do prédio, onde havia uma espécie de estacionamento, e se
encontravam vários veículos, compostos basicamente por apenas dois
assentos numa cabina pequena, suficiente para acomodar duas pessoas.
Aproximando-se de um dos veículos, a cabina se abriu automaticamente,
expondo seu interior, que foi rapidamente ocupado por eles.
— Acomode-se e vamos lá — convidou Gustavo. Então, Gustavo
pediu a Guilherme que fechasse os olhos por alguns instantes para, quase
imediatamente, pedir que, os abrisse.
— Pronto, chegamos! — disse a Guilherme, que não entendeu o que
houve.
— Já?! Já chegamos? — perguntou Guilherme, confuso.
— Sim. Aqui é o Setor de resgate de Animais Selvagens — explicou
Gustavo.
— Mas, como pode ser? Não levou nem um segundo para chegarmos
aqui. Que legal! Da próxima vez eu posso ir de olhos abertos? — brincou
Guilherme, que estava encarando tudo como diversão.
— Acho melhor que não permaneça com os olhos abertos enquanto
não adquirir o costume de se deslocar com a velocidade do pensamento —
respondeu o orientador ao novo aprendiz. O deslocamento deste aparelho se
faz em uma velocidade muito alta e, com certeza, você sentirá algum tipo
de mal-estar. Talvez tenha enjoo e suje o veículo com seus fluidos gástricos.
Se isso acontecer, será desagradável.
— Tudo bem. Eu só estava brincando. Prometo que me comportarei.
Descendo do veículo, encontraram um portal e um cercado que
isolava aquela ala do exterior. Entraram ao modo de quem entra no rancho,
com uma espécie de desmaterialização temporária do portal que permitiu a
entrada de ambos. Ao adentrarem o perímetro deste setor, depararam-se não
com prédios, mas com muitas cabanas de palha no estilo indígena.
Guilherme perguntou a seu monitor:
— Estas ocas fazem parte da decoração?
— Não, Guilherme — respondeu seu companheiro, rindo da
ignorância do amigo. Estas ocas são o setor de animais selvagens, onde
trabalham e também moram os colaboradores que atuam aqui.
— Mas, parecem ocas de índios.
— E que os colaboradores deste setor são índios, em sua maioria. Na
entrada principal, há os índios da América do Sul, que são responsáveis
pelos animais desta parte do continente. Pertencem, às mais variadas tribos
que convivem aqui em paz, sem inimizades. Auxiliam-se num propósito
comum, que é o equilíbrio ecológico da região.
Mais adiante — apontou com o dedo indicador — encontram-se
indígenas norte-americanos, que são responsáveis pelos animais do Norte
do continente e do continente Central desde o Panamá. Se notar, mais à
frente, verá habitações feitas de peles de animais. São os mongóis. Ali são
os indianos. Acolá estão os chineses. E, logo depois dos chineses, estão os
africanos e, australianos. Aquelas habitações feitas de um material que
lembra gelo são dos esquimós. Eles são os responsáveis por animais das
regiões árticas e antárticas. Estas últimas são compostas por riquíssima
fauna, que vive sob as águas geladas destas regiões.
Guilherme observou que as dimensões do setor eram reduzidas.
Como poderiam controlar toda a fauna silvestre do planeta a partir
deste pequeno espaço com construções rústicas? — pensou Guilherme.
Gustavo respondeu, mesmo antes que, perguntasse a respeito:
— Não se impressione com as proporções reduzidas deste setor. Ele é
maior do que parece.
— E! Engana mesmo, pois não entendo como pode ser maior brincou
Guilherme.
— Então, siga-me e lhe mostrarei o real tamanho dele. Caminharam
em direção a uma das ocas feitas de palhas secas. Ao se aproximarem,
encontraram um senhor que saiu de dentro de um destes alojamentos. Ele
tinha metade da cabeça raspada e um graveto espetado no lábio inferior. Sua
pele era escura e seu rosto era pintado, formando figuras como se tivesse
sido tatuadas. Suas vestimentas rústicas cobriam apenas uma pequena parte
do corpo. Era Kayamã, um indígena que viveu nas florestas da Amazônia
quando encarnado, e agora era um dos colaboradores da colônia.
— Senhor Kayamã — cumprimentou Gustavo, com um aperto de
mãos.
— Senhor Gustavo — cumprimentou o indígena com um forte abraço
após o aperto de mão. — Gostaria de lhe apresentar o senhor Guilherme.
Ele o acompanhará nos trabalhos, por algum tempo, como estagiário.
Espero que ele consiga aprender com o senhor ao menos o suficiente para
passar à próxima etapa. Sabemos que não é fácil acompanhá-lo, pois
reconhecemos que sua sabedoria é muito extensa; mas, como Guilherme é
muito esforçado, talvez consiga aproveitar algo falou Gustavo a Kayamã.
— Bondade sua, senhor Gustavo, pois o que sei não é nada
comparado ao conhecimento dos outros trabalhadores de nossa colônia. Por
favor, não me superestime.
Guilherme chamou o senhor Gustavo em particular e perguntou
baixinho:
— Vou mesmo fazer estágio aqui na oca dele? Pensei que teríamos
mais ação. E me parece que este tal Camarão é um pouco chucro. Ele é um
índio reprovou Guilherme, olhando disfarçadamente, por cima do ombro do
anfitrião para o indígena, que apenas sorriu ao seu olhar.
Gustavo, notando a prepotência do novo estagiário, disse:
— O nome é Kayamã e, por favor, Guilherme, seja mais humilde.
Seja mais paciente, se quiser aproveitar seu estágio, retrucou Gustavo ao
prepotente e preconceituoso médico, completando em voz alta:
— Deixarei vocês e retornarei mais tarde. Boa sorte, Guilherme.
E desapareceu, sem deixar vestígios de sua presença.
Guilherme olhou para o senhor Kayamã e, sem saber o que dizer, deu
um sorriso sem graça e perguntou meio sem assunto:
— O senhor é quem cuida dos animais daqui? — perguntou com um
ar um tanto arrogante, porém tímido por estar com uma pessoa
desconhecida.
O índio, muito confiante, mas humilde, respondeu sem dar
importância à arrogância do novo aluno:
— Eu apenas colaboro com meu humilde trabalho da maneira que
está ao meu alcance. — respondeu o senhor de rosto pintado e continuou
com outra pergunta:
— O senhor gostaria de acompanhar a rotina de nossa oca em prol
dos animais das florestas tropicais?
— Sem dúvida! Em cada oca uma surpresa — satirizou Guilherme,
que demorava em deixar sua prepotência de lado.
Mas Kayamã conhecia a personalidade do novo aluno e sabia que
deveria esperar por sua mudança de comportamento, que não demoraria a
ocorrer, e apenas sorriu um sorriso franco, chamando-o para entrar.
— Daqui acompanhamos nossos irmãos da floresta. Desde o menor
ao maior animal, isto é, desde uma formiga até uma grande anta. Todos
merecem a nossa atenção, pois o equilíbrio energético do planeta passa pelo
equilíbrio ecológico estes seres estão envolvidos diretamente. Daqui
podemos acompanhá-los através de fichas técnicas obtidas neste aparelho
que está à sua frente.
Então, mostrou uma tela semelhante à de uma televisão, mas muito
fina, como se fosse feita de um material mais delicado que papel, que
continha informações e imagens sobre os animais monitorados.
— Os controles são acionados mentalmente e as informações são
enviadas instantaneamente ao nosso cérebro, ficando incorporadas ao nosso
pensamento. — Falou o índio.
Mas, Guilherme não conseguia entender como, a partir de uma
instalação minúscula como era aquela oca, poderia controlar as fichas e o
comportamento de cada animal da floresta sem se atrapalhar, pois são
milhares de animais no total. Aquilo lhe parecia improvável.
— Muito interessante! Mas como é que vocês controlam tantos
animais ao mesmo tempo? Insetos, por exemplo, são milhares deles —
perguntou Guilherme, incrédulo da capacidade do novo conhecido e
orientador.
— Os insetos, assim como outros pequenos animais, tais como os
peixes, aves de pequeno porte e répteis possuem um sistema instalado em
seu DNA que monitora cada grupo como se cada grupo fosse um indivíduo.
Então, quando monitoramos os insetos, por exemplo, seria como se
estivéssemos monitorando não o indivíduo em si, mas o grupo a que
pertence. Cada grupo seria como um só organismo. Dentro de cada grupo
há informações sobre os gêneros, espécies, subespécies, mas que têm
importância.
Há outro setor do Rancho, como o de Ecologia Espiritual, por
exemplo, ou de Evolução. Aqui neste setor nos preocupamos com o
equilíbrio ecológico e com a evolução também, mas nossa preocupação
central é em relação a salvamentos e resgates. Kayamã, notando a confusão
mental que acabara de criar em Guilherme, fez uma pausa em sua
explanação para a seguir reiniciar, de forma mais lenta, para que o novo
aluno conseguisse acompanhar o raciocínio, pois Guilherme ouvia e coçava
a cabeça, pensativo, tentando entender os novos conceitos que estava
recebendo. Ao se reproduzir, continuou Kayamã —, cada inseto recebe
dentro do seu código genético moléculas de enxofre ligadas ao DNA, que
trabalham como agregadores entre indivíduos, espécies, gêneros e outros
grupos classificatórios de insetos. O mesmo ocorre com os outros pequenos,
como peixes, a maioria das aves e répteis, respondeu Kayamã, polidamente,
como se não fosse um homem das florestas. Guilherme estava boquiaberto,
surpreso com a maneira de falar e com o conhecimento daquele que julgou
incapaz. A cada informação adquirida, continuou o professor, ou a cada
aprendizado, transmitem, automaticamente, aos outros indivíduos da mesma
espécie, por exemplo, de modo que todos possam entender como reagir à
mesma situação pela qual passou o indivíduo. Assim, se uma ave, por
exemplo, aprende a quebrar uma semente usando um novo método, a
informação é incorporada ao seu código genético. Desse modo, outras aves
das gerações seguintes, e algumas vezes da mesma geração, passarão a usar
o mesmo método, natural e automaticamente, mesmo não tendo contato
direto com o indivíduo que descobriu o novo método. Isto ocorre com todos
os pequenos que ainda estejam inseridos dentro do mesmo corpo coletivo,
concluiu o senhor Kayamã.
— Corpo coletivo?! O que é isso? — perguntou Guilherme, intrigado.
Corpo coletivo significa, como já expliquei, que existe o indivíduo, mas
comportam-se de forma idêntica em coletividade, como se fossem um só
corpo formado por vários indivíduos da mesma espécie ou gênero ou outro
grupo de classificação. Guilherme parecia não entender bem o conceito, por
isso Kayamã tentou dar exemplos. Temos o reino animal, que engloba todos
os animais. Este é um corpo coletivo. Os gêneros formam outros corpos
coletivos; as espécies formam outros corpos coletivos, as subespécies
formam outros; e, assim por diante. São vários corpos menores dentro de
um maior explicou o professor. Os seres humanos estão nesta classificação
de corpo coletivo? Perguntou o aluno. Em parte, sim, mas os seres humanos
formam um grupo à parte, que não nos cabe estudar para não criar
confusões mentais, pois é um estudo mais complexo, respondeu. Enquanto
Kayamã dava as últimas explicações, notou que Guilherme dispersara-se,
observando os detalhes do interior da oca, que era uma moradia rústica com
chão de terra batida. No interior havia uma rede para descanso em um
canto, alguns artefatos indígenas em outro, um tambor feito com pele, um
arco e flechas feitos de palmeira e alguns colares com dentes de animais. A
oca era toda feita de palha de palmeiras.
Kayamã, notando a distração e a dúvida de Guilherme, disse: Tudo
aqui não é real, isto é, nada do que você vê aqui é o que parece ser. Sei que
deve estar se perguntando o porquê de artefatos feitos com peles e dentes de
animais, mas não são reais. Estes artefatos são criações mentais minhas,
inclusive esta oca. Criei este ambiente apenas para recriar o ambiente
indígena em todos os detalhes, para que eu pudesse me sentir em casa.
— Então, todas as outras habitações também são criações mentais —
concluiu Guilherme.
— Isto mesmo — respondeu — Nós apenas criamos as formas que
desejamos. E muito simples fazer isso por aqui. Tudo o que desejamos se
materializa com a força do pensamento explicou o índio.
Kayamã notou a curiosidade de Guilherme em saber como criavam
objetos, mentalmente.
— Tente você criar algo — sugeriu Kayamã. Imagine algo que queira
agora, mentalize sua materialização e observe o que ocorre.
Então, Guilherme fechou os olhos e deixou as mãos espalmadas para
frente e para cima como se estivesse segurando algo. Aos poucos um objeto
foi criando forma sobre a palma de uma das mãos. Um lanche com
hambúrguer. O índio olhou o que se formou, mas nada disse. Apenas ficou
em silêncio. Hum, que fome — exclamou o jovem doutor, adepto das
refeições rápidas.
Olhando para Kayamã, Guilherme notou um sinal de reprovação.
Guilherme desculpou-se e escondeu o lanche que demonstrava seu desejo
de consumir carne. Kayamã deixara de comer carne há muitas encarnações
e somente se alimentava de vegetais. Percebendo a reprovação de seu
orientador, imediatamente a criação mental de Guilherme se desfez.
— Pois bem, senhor Guilherme: vamos continuar nossas observações
a respeito dos nossos irmãos da floresta?
— Estou ansioso por isso — disse Guilherme à Kayamã.
— Como eu dizia — falou o índio —, no código genético, ou seja, na
sequência do DNA de cada espécie, é introduzida, automaticamente,
durante sua formação, esta molécula que os une para formar um ‘corpo
coletivo’. Quando estamos falando de grandes corpos, significa que os
indivíduos são seres que se encontram em uma escala evolutiva bem
primária. Nestas fases iniciais, a dor e o sofrimento têm valor relativamente
pequeno, pois existem mecanismos que os protegem neste sentido, há nos
seus DNA uma porção que os resguarda da dor desnecessária. A porção
desta molécula é ativada nos momentos críticos de perigo ou em caso de
morte iminente. Por enquanto, na fase em que se encontram, serve apenas
como uma espécie de alarme para indicar perigo, mas tem pequeno valor
como aprendizado. O aprendizado através da dor somente passa a ter peso a
partir de camadas populacionais mais adiantadas, em que o coletivo é
menor e mais numeroso. À medida que os indivíduos passam a ter
raciocínio mais individualizado o tamanho deste corpo diminui na mesma
escala. Esta forma de aprendizado ganha peso máximo somente nas faixas
da humanidade. Em faixas anteriores, ainda são protegidos contra ela, que
não poderia transmitir muitas lições ainda.
Fazendo uma pequena pausa, toma fôlego e continua.
— Durante as situações nas quais a dor extrema é inevitável, esta
porção do DNA é ativada. Com isso estimula nos fluidos corporais o
lançamento de substâncias anestésicas que agem sobre determinados pontos
do corpo físico, intermediários ao espiritual, fazendo com que se desliguem
automaticamente um do outro. Se não atingir o limiar crítico, o animal
recobra a consciência, mas, se ultrapassá-lo, abandona o corpo físico
definitiva mente e morre. Isso significa que na ativação deste mecanismo
eleva-se o limiar da dor em caso de óbito inevitável, o animal torna-se
inconsciente antes que note o que desencadeou sua mor te, lançando seu
corpo espiritual automaticamente dentro da dimensão extrafísica sem
traumas.
Antes que Kayamã pudesse continuar com sua explanação
interessante, Guilherme empalideceu, estremeceu seu corpo e arregalou os
olhos como se estivesse entrando em algum tipo de transe. Kayamã pensou
consigo mesmo, tentando alcançar o pensamento de Guilherme:
— Depois continuaremos. Até logo!
E Guilherme desapareceu rápido de dentro da oca. Era sua mãe
chacoalhando-o, freneticamente e a Bons para que acordassem e fossem
jantar.
O Presente

— Acordem, vamos. Hora de jantar! — chamava Dona Elza


insistentemente. Mas que pessoal difícil de acordar! Vamos, acordem! —
insistiu dona Elza. Temos uma comidinha especial para o Bons, que está
fraquinho e outra para o Gugu (era assim que sua mãe o chamava, quando o
tratava como criança), que também passou por maus bocados hoje.
Finalmente acordaram e Guilherme, com olhar distante e voz rouca,
chamou Bons que, rapidamente salta do sofá e corre na frente até a cozinha,
em busca do seu manjar merecido, após tudo pelo qual passou pela manhã.
Enquanto se serviam, Guilherme perguntou à mãe:
— Mãe, você se lembra do Bob? O Malamute cinza que eu tinha
quando criança e que uns arruaceiros mataram.
— Sim... Sim... Lembro... E... E claro — respondeu dona Elza,
gaguejando, nervosa, e desviando o olhar para longe do olhar do filho,
como se estivesse tentando esconder algo. Mas porque está perguntando
agora, assim, sem mais nem menos?
— Nada não, mãe! E que eu tive um sonho com o papai. Neste sonho,
aparecia o Bob, que brincava com a sua bolinha, e lambia as mãos do papai.
De repente, o rosto do papai se transformava em um rosto de monstro e em
seguida aparece o Bob morto, como vimos naquele dia.
Enquanto Guilherme talava, franzia a testa e contraía uma das
sobrancelhas, como se estivesse desconfiando de algo.
— Parece um sonho fantasioso demais — continuou ele — mas,
senti-me muito mal em vê-lo nesse sonho, aliás, pesadelo.
Nesse instante, dona Elza iniciou um choro sonoro, levantou-se e
correu para o quintal nos fundos da casa. Guilherme a seguiu e, ao alcançá-
la, abraçou-a, dizendo:
Desculpe-me, mãe. Não queria remexer em velhas lembranças
dolorosas.
— Não é isso, filho — disse Dona Elza. Preciso lhe contar o que
houve. Não suporto mais viver com isso, sei que estou envelhecendo e não
vou querer levar esta culpa comigo para o túmulo. Já perdemos o seu pai e
não pude me desculpar com ele. Preciso me livrar disso, senão chegarei
mais rápido ao lado de seu pai, onde ele estiver.
— Nossa, mãe! Não fique assim tão transtornada. Relaxe e me conte
o que houve. Não se preocupe, não sou mais uma criança. Só quero saber
para acabar com esta curiosidade, pois nunca acreditei que tivessem sido os
arruaceiros que ninguém viu a fazerem aquilo com o Bob. Mas, também
nunca imaginei quem poderia ter feito isso. Conte-me, então, o que houve.
Dona Elza iniciou seu relato, entre um soluço e outro:
— Eu pedi a seu pai que envenenasse o pobre cão.
Guilherme ficou pálido com o que sua mãe disse. Ele não poderia
supor que ela fosse capaz de uma crueldade com alguém.
Ele tentou disfarçar e deixou que ela continuasse.
— Seu pai recusou, pois achava preferível dá-lo a alguém do que
matá-lo. Ele achava que seria muita crueldade, mas eu insisti, pois eu sabia
que, se alguém o adotasse, você o tomaria de volta. Após muito insistir e
ameaçar que eu iria embora de casa se não o fizesse, acabou cedendo e
somente aceitou por causa da chantagem. Eu queria que Bob tivesse uma
morte rápida e sem dor, mas não sei o que deu em seu pai de querer
espancá-lo e queimá-lo. Deve ter sido horrível para Bob morrer lentamente
daquela forma. Achei que foi muita crueldade. Depois de ver Bob com o
crânio deformado, e seu corpo destruído, nunca mais eu quis olhar ou falar
com seu pai. Por isso entrou em depressão e desenvolveu o câncer de
pulmão, que o consumiu rapidamente. Eu matei os dois: Bob e seu pai —
concluiu ela, fazendo um pedido sentido:
— Perdoe-me, filho. Sei que não sou boa mãe, mas eu era ainda
muito jovem na época e não pensava muito nas consequências de meus
atos. Por favor, filho, me perdoe — pediu dona Elza, abraçando o filho, que
estava com lágrimas nos olhos, assim como ela.
Guilherme respondeu:
— Mãe, estas coisas estão no passado. Eu só tive curiosidade. Estou
sentido em saber que Bob sofreu tanto e que vocês também sofreram pela
culpa que os atormentou por anos seguidos. Mas se alguém precisa perdoar
alguém, não sou eu, pois não me sinto atingido. Eu era uma criança e pouco
me lembro. Não há o que desculpar Mas, espero que você não se puna por
estas coisas que já estão no passado. Esqueça. Não tocaremos mais no
assunto.
Elza disse, então:
— Tomara que seu pai me perdoe pelo que fiz a ele, destruindo-o
daquela maneira.
— Com certeza papai a perdoou. Ele sempre foi uma ótima pessoa.
Neste instante, a campainha toca. Era Cláudia, que trazia um pequeno
filhote de Malamute de mais ou menos trinta dias de vida. Parecia um
brinquedo, que cabia nas miúdas palmas das mãos da pequena sansei, noiva
de Guilherme.
— Oi, Cláudia, entre! — deu um beijo na face da noiva, que retribuiu
com outro.
— Quem é esta bolinha de pêlos cinzas que você está carregando?
O pequeno, ainda de movimentos lentos devido à pouca idade,
procurava o polegar de Cláudia para sugá-lo como a uma chupeta,
produzindo sonoros estalos. Cláudia, então, explicou: Este é Bob!
Dona Elza toma-se pálida ao ouvir o nome de Bob e pede para a
ajudarem a sentar-se. Cláudia faz uma pequena pausa enquanto a mãe de
Guilherme se recupera do mal-estar passageiro, e continua após notar que
ela já estava melhor.
— Há cerca de dez minutos, o deixaram em minha porta com um
bilhete pedindo que entregasse a Guilherme e à sua mãe este que foi o único
que sobreviveu de um acidente que vitimou a mãe, o pai e toda a ninhada.
Segundo ele, o acidente matou a todos, exceto este pequeno mordedor de
polegares.
Cláudia ria, enquanto o observava mordiscando seu polegar e
lambendo as patinhas, como se estivesse com um brinquedo.
— Não é uma belezinha? Veja que lindos olhos azuis completou
Cláudia, que o abraçou com carinho e o entregou a Guilherme, que
aconchegou o filhote em seus braços como se carregasse uma pequena
criança, aproximou-se de dona Elza e o entregou a ela.
Cláudia contou que no bilhete havia um pedido de desculpas e então
trouxe o presente o mais rápido que pôde.
Guilherme abraçou sua mãe e disse:
— Fique tranquila, de agora em diante, mãe. Papai a perdoou — falou
Guilherme demonstrando que estava aceitando a ideia da vida após a morte.
Dona Elza deixou cair uma lágrima sobre a cabeça do pequeno cão
que não parava de lamber-lhe a palma da mão. Cláudia, percebendo que era
um assunto de família, não queria atrapalhar, despediu-se e saiu, deixando-
Os a sós.
Esqueceram-Se até do jantar que já estava frio. Bons surgiu na sala,
abanando sua cauda, curioso para conhecer o novo companheiro. O cão
parecia entender que ganhou um amigo e demonstrava isso, pois, feliz, deu
um latido de boas vindas ao pequeno, que se assustou com aquele súbito
som. Aproximou-se devagar e começou a lambê-lo, em sinal de que
aprovou a sua presença.
Bons se afastou por alguns instantes e retornou com a bola que
pertenceu a Bob, o falecido, deixando-a cair sobre o colo de dona Elza que,
emocionada, o abraça e o beija. Passaram horas brincando com o novo
membro da família, que mais preferia dormir do que brincar.
Era cerca de meia-noite e Guilherme, já sonolento, colocou Bob em
sua cama ao lado de Bons e adormeceram juntos. Novamente, como vem
fazendo nas últimas noites, Guilherme se desdobra ao ‘rancho’, indo
diretamente à oca de Kayamã.
O Incêndio

— Boa noite, senhor Guilherme. Vejo que o senhor está se


interessando pelo assunto que estávamos desenvolvendo.
— Oi, senhor...
Guilherme esqueceu o nome de seu novo professor.
— Kayamã — completou seu mestre em assuntos de animais
selvagens.
João Rubens, que também aguardava a chegada de Guilherme, quis
saber:
— Como está sendo seu estágio.
— Tranquilo, por enquanto. Sem novidades. Então; prepare-se para o
trabalho, pois hoje a aula será bem movimentada.
João Rubens olha para o orientador indígena e pergunta:
Nosso amigo está em condições de receber aulas práticas, senhor
Kayamã?
— Creio que sim, mas a resposta a esta pergunta cabe a ele dá-la.
Guilherme, aproveitando a proximidade do amigo, perguntou-lhe,
baixinho:
— Esse aí é mesmo índio? Parece um inglês falando. Ele é tão
cerimonioso para falar. Eu pensei que os índios fossem mais toscos —
observou Guilherme.
O senhor Kayamã falou João Rubens, em voz alta, — é um dos mais
antigos colaboradores de nossa instituição. Ele escolheu viver como índio
por vontade própria. Por sentir-se bem com esta aparência e por estar
sempre em contato com a floresta, com os animais e, por estar desiludido
com a condição do homem da cidade, pretere a natureza como companhia.
Ele foi, em encarnações passadas, um brilhante cientista, engenheiro,
arquiteto, pintor, escultor, músico, escritor... Foi ganhador de vários prêmios
de elevada importância, tal como o prêmio Nobel de Física, e outro de
Literatura, em diferentes ocasiões. Foi introdutor de várias teorias
científicas que modificaram os rumos da ciência na Terra — concluiu João
Rubens, olhando para Kayamã, que permanecia em silêncio.
Guilherme ficou mudo. Mal podia acreditar que seu professor fosse
uma personalidade tão graduada e importante assim. Desde então, passou a
respeitá-lo mais. João Rubens, percebendo que estendeu demais sua
permanência ali, preferiu deixá-los a sós para continuarem com as aulas.
— Não quero atrapalhá-los em suas tarefas, pois sei que há uma
emergência em andamento. Por favor, continuem. Posteriormente, nos
veremos.
Despediu-se e sumiu.
Guilherme olhou para Kayamã, intrigado, e quis saber:
— Emergência?
— Sim. Uma equipe nossa já está no local, tomando providências e
tentando controlar a situação, mas eu o levarei lá para que auxilie e aprenda.
Dizendo isso, caminhou até próximo à tela do monitor e, com um
movimento rápido das mãos, abriu outra tela maior onde se podia ver uma
floresta em chamas, com vários animais em fuga, e Outros mortos
carbonizados.
— Aproxime-se, senhor Guilherme — pediu o índio. Veja qual é a
situação. Esta é parte da Floresta Atlântica. Como estamos em época de
seca, a vegetação torna-se propensa a queimar, facilmente. Basta uma
fagulha para que se torne uma bomba incendiária. Nossos colaboradores da
floresta se incumbem de controlar pequenos focos de incêndio, enquanto
outros tentam controlar o foco central do fogo, que se iniciou a partir de
uma ponta de cigarro acesa, jogada, displicentemente, sobre o capim seco.
Rapidamente, espalhou-se por extensa área, inclusive uma área habitada por
pessoas. Nosso trabalho inicial consiste em ir ao local do foco primário do
incêndio e extingui-lo; o segundo passo seria agir sobre o fogo diretamente,
evitando que se espalhe ainda mais. Se o controle imediato não for possível,
nossa equipe de resgate entra em ação para tentar salvar das chamas o maior
número que puder de habitantes animais ou humanos — explicou o índio,
com olhar sério, diante daquela situação de risco.
Kayamã terminou a explicação, convidando o novo aluno a seguir
com ele até o local da emergência.
— O senhor me acompanha?
Guilherme, sem experiência, pergunta:
— A ‘esteira’ nos levará até lá?
— Não, não é preciso, pois estamos praticamente lá — e pediu ao
aluno que o seguisse.
— Siga-me. Vamos trabalhar.
Dando apenas um passo, atravessou aquilo que Guilherme julgava ser
uma tela feita de um liquido ou gel que ondulava ao som das vozes dos
interlocutores.
Venha. Não tema — chamou Kayamã, que já estava do outro lado da
tela.
Atravessando sua mão de volta através da tela, pegou Guilherme pela
mão e o puxou também para o outro lado.
— Chegamos à floresta — explicou o índio —, isso que o senhor
julgava ser uma tela é, na verdade, um portal interdimensional, que pode
nos levar a qualquer parte do universo, apenas atravessando-o.
Olhando para trás, Guilherme, já pisando em solo fofo de húmus da
floresta quente e abafada, podia ainda ver nitidamente o interior da oca de
Kayamã através do portal.
— Já ouvi algo a respeito de portais interdimensionais, mas achei que
fosse ficção.
— Pois não são. Eles existem em todo o universo e são de grande
utilidade aqui em nossa dimensão. Na sua dimensão, somente agora estão
descobrindo sua existência, mas, não sabem ainda qual sua utilidade prática.
E somente uma questão de tempo para seu uso se tornar tão comum quanto
o telefone. Há portais minúsculos por onde passa apenas uma partícula
subatômica; e outros gigantescos, como são os buracos negros do espaço.
Mas, vamos ao que importa agora. Vamos ao trabalho. Posteriormente,
poderemos entrar em maiores detalhes sobre portais interdimensionais.
Afastaram-se do portal e encontram outros indígenas que estavam
trabalhando em algum projeto de combate ao fogo. Kayamã parou entre eles
e um passou-lhe algumas informações sobre o andamento dos resgates.
— Senhor Kayamã — falou outro indígena —, estamos a ponto de
perder o controle da situação. O fogo está se alastrando rapidamente e
precisaremos mesmo de ajuda externa para extingui-lo, pois espalhou-se por
uma área muito vasta.
— Não se preocupe. Já tomamos as providências. Pedimos reforços à
colônia Jonisi, para que nos envie uma equipe auxiliar. Provavelmente, já
devem estar trabalhando no sentido de provocar o adensamento das
partículas de água da atmosfera para que se derramem sobre o fogo como
chuva e controle as chamas. Enquanto isso não ocorre, passe-me o relatório
dos salvamentos realizados até o momento — pediu Kayamã, dirigindo-se a
outro indígena, que era o encarregado deste assunto.
— Foram evacuados da área de risco milhares de animais e levados
ao outro lado da floresta, aonde o fogo ainda não chegou. Mas, centenas não
conseguiram atravessar os portais, foram atingidos pelo fogo e não
sobreviveram, mas já estão sendo tratados no hospital, se recuperando, e
sendo encaminhados à reencarnação e deverão estar de volta assim que a
situação estiver novamente sob controle. Foram abertos muitos portais que
ainda estão ativos — relatou o amigo.
— Muito bem. Agradeço por seu relatório. Agora, iremos ao encontro
dos espíritos da floresta para obter deles os relatórios e saber como vão indo
as negociações. Até logo!
Despediram-se e caminharam pela floresta por alguns minutos. Mais
adiante encontraram uns seres que eram desconhecidos de Guilherme. Ele
nem imaginava que existissem formas de vida semelhante. Eram seres parte
humano, parte animal. Uns tinham feições de felinos, outros de canino,
outros ainda de aves, roedores, mas o corpo da maioria deles era semelhante
ao de humano. Eram seres híbridos ou espíritos da floresta.
Suas estaturas eram muito variadas, indo desde cinco ou dez
centímetros até próximo de um metro de altura. Em sua maioria, os corpos
eram cobertos por pêlos, mas deixavam ver a pele cujos tons variavam entre
muito clara até os muito pigmentados. Alguns tinham a pele parecida com a
de répteis, cobertas por escamas coloridas.
Falavam muito rápido, em uma linguagem estranha a Guilherme.
Eram agitados, movendo-se com extrema agilidade, subindo e descendo de
árvores e rochas muito rapidamente.
Seus movimentos lembravam os movimentos de esquilos. Ao se
aproximarem, apontando para eles discretamente com o indicador, Kayamã
explicou a Guilherme quem eram aqueles seres.
Aqueles são os espíritos da Natureza. São conhecidos na Terra como
faunos. Eles não são exatamente animais, são seres intermediários entre
uma espécie animal e outra. Eles nos auxiliam como porta-vozes dos
animais, pois nos trazem informações diretamente deles. São para os
animais como zeladores. Eles os protegem contra os caçadores, por
exemplo, criando ilusões de óptica, que os desorientam, enquanto os
animais se safam. Tratam dos animais doentes, usando energias obtidas dos
vegetais abundantes na floresta através de uma parceria que fazem com os
seres elementais relacionados às plantas. Seus rostos se assemelham aos da
espécie de que fizeram parte no seu estágio evolutivo anterior.
As espécies com que se parecem são as que mais auxiliam, pois são
as com que eles têm mais afinidade. Veja aquele grupo, por exemplo:
pareceu-se com jaguatiricas.
Isto significa que na última encarnação estavam estagiando como
jaguatiricas. Por isso, há afinidade com eles, a quem ajudam com mais
frequência. Mas, isso não significa que não ajudem outras espécies também.
Cada grupo orienta as raças e espécies afins, neste caso em que há um
incêndio, indicando rotas de fuga para que não corram em direção a algum
lugar sem saída, indicando os locais seguros e a localização exata dos
portais — explicou Kayamã.
Aproximam-se dos grupos de faunos e se cumprimentam
mentalmente, conversaram rapidamente e o senhor Kayamã conseguiu as
informações de que precisava. Após isso afastaram-se dali, indo em direção
ao foco inicial do incêndio. Guilherme, percebendo que se aproximavam
das chamas, fica preocupado por sua segurança apesar de estarem ali em
espírito somente.
— Senhor Kayamã, é seguro irmos nesta direção? O calor esta
aumentando.
— Está bem, eu sigo sozinho até eles e você me aguarda aqui.
— Eles quem? — perguntou Guilherme, curioso.
— Os elementais do fogo de retaguarda, que são submissos àqueles
que iniciaram o incêndio — respondeu o índio.
— Você vai conversar com o fogo?! — perguntou o incrédulo aluno.
Ah! Essa eu preciso ver.
E seguiu o mestre até uma distância e parou pouco antes de
alcançarem as chamas. O índio aproximou-Se das chamas e começou a falar
em um idioma totalmente estranho.
A seguir uma pequena chama se separou do foco principal e se
aproximou do senhor Kayamã que, em sinal de respeito, curvou-se em
reverência diante dela. Após alguns minutos, o índio curvou-Se novamente
e se afastou dali, voltando em direção a Guilherme que o aguardava. O
senhor Kayamã pegou a mão de Guilherme e pediu-lhe que fechasse os
olhos. Quando os abriu novamente, estavam em outro ponto da floresta
onde ficava o foco principal do incêndio, que estava na dianteira, destruindo
tudo.
Puseram-se à frente das chamas à certa distância. Kayamã orientou
Guilherme a fazer um sinal de reverência ao modo dos budistas, curvando-
se para frente com as mãos postas, juntamente com ele. Ao fazerem a
reverência, um grande foco de fogo se destacou e saltou diante deles sem
queimar a vegetação onde estava, apesar do calor.
Mentalmente o índio dialogou com aquele ser, que era pura energia.
Após alguns minutos, aquele ser em forma de uma grande chama se afastou
e retornou ao conjunto de onde se destacou e novamente confundiu-se.
Kayamã deu-se por satisfeito com o diálogo que teve e se afastou,
acompanhado por Guilherme.
— O senhor conversou com o fogo mesmo? — perguntou o aluno,
curioso por saber a resposta.
— De certo modo, sim. Na verdade o fogo é apenas sua manifestação,
pois caso contrário continuariam a queimar tudo que encontrassem à frente
até acharem que cumpriram a tarefa de destruição solicitada por um ser
humano.
— O fogo foi solicitado a queimar. Não foi um acidente, então?
— Na verdade foi um acidente. Uma pessoa inadvertidamente lançou
um cigarro aceso sobre o capim seco que se incendiou.
Mas o incêndio somente ocorreu porque a fagulha lançada nestas
condições é entendida pelos elementais como um pedido, que é
prontamente atendido, surgindo o incêndio.
Como estão fazendo isso por concessão, somente outro ser humano,
ou aquele que fez a solicitação, pode pedir sua extinção. A dificuldade de
controlar as chamas reside no fato de que uma vez iniciada a sua missão,
somente conseguem desativar todo o processo através de dois modos: por
falta de substrato comburente, ou por exaustão das chamas. Ambos os casos
podem demorar a se completarem, por isso pedimos ao líder que cesse seu
trabalho. Ele aceitou e já ordenou a extinção do incêndio. No entanto,
mesmo tendo iniciado a desativação, o processo leva alguns dias para ser
completado.
Seu líder, neste caso nos autorizou a intervenção através de outros
elementais. As águas das chuvas nos auxiliarão a diminuir rapidamente a
energia dos elementais do fogo, as Salamandras que estão no comando do
fogo. Então, agora iremos aos trabalhadores da colônia Jonisi para saber
como estão indo os entendimentos com os elementais da água e do ar.
Guilherme interrompe a fala de Kayamã.
— Espere um pouco. Você está indo muito rápido. Preciso de mais
explicações.
— Depois. Agora não há tempo — falou o indígena apressado —
segure novamente minha mão, feche os olhos e vamos a eles.
Guilherme, curioso, manteve-se de olhos abertos durante o salto
quântico de deslocamento. Ele queria saber qual era a sensação de
acompanhar o salto na velocidade do pensamento.
Parecia estar atravessando um túnel escuro em que luzes intermitentes
passavam muito rapidamente ao seu lado, deixando o zonzo. Atordoado
com toda aquela velocidade, passou mal apesar da viagem ter durado alguns
milésimos de segundo.
Mesmo durando um tempo quase infinitesimal, o tempo parecia
desacelerar. A impressão que se tinha era de que a velocidade era menor,
criando uma ilusão de estar demorando mais para completar o salto. Mesmo
assim era uma velocidade estonteante. Quando alcançaram o objetivo,
Guilherme empalideceu e eliminou jatos de fluidos gástricos. Constrangido
pelo vexame, deu um sorriso sem graça e desculpou-se. Chegaram ao topo
de uma colina onde encontraram-se com outros índios de uma tribo
diferente daquela encontrada anteriormente, que dialogavam com algumas
entidades cujos corpos eram tão sutis e vaporosos que quase os tornava
invisíveis mesmo para aquela dimensão. Aquelas entidades eram as
lideranças dos seres elementais do ar, que planejavam os meios de apagar o
fogo.
— Eram os silfos, os elementais do ar. Eles são seres capazes de
movimentar o ar, formando o vento. Mal chegaram e as entidades se
afastaram, produzindo um zumbido alto e uma corrente de vento no ar que
durou alguns segundos.
— Como estão as conversações com os silfos, com as ondinas e com
as sereias? — perguntou Kayamã a um dos trabalhadores indígenas, após se
cumprimentarem.
— Tudo acertado, senhor. Iniciarão imediatamente as manobras de
deslocamento das partículas pesadas do ar e dos vapores de água. Em breve
teremos chuva e as chamas se extinguirão, senhor.
Kayamã agradeceu a colaboração e se despediu de seus amigos,
chamando Guilherme a acompanhá-lo.
Guilherme, já recuperado do enjoo, agarra-se firmemente às mãos do
amigo. Estava temeroso por mais um incidente gástrico embaraçoso e
apertou fortemente os olhos.
Calma, senhor Guilherme. Não é mais preciso este cuidado. Abra os
olhos e dê um passo à frente.
Ao abrir os olhos, Guilherme deparou-se com o portal que deixava
ver do outro lado o interior da oca do senhor Kayamã. Guilherme apressado
em sair da floresta deu um salto em direção ao portal e aterrissou de barriga
no chão de terra batida da habitação singela de Kayamã.
Kayamã sorriu discretamente e falou após atravessar o portal:
— Sinto que as dúvidas pululam em sua mente. O que deseja
perguntar, senhor Guilherme?
Guilherme afobado fez muitas perguntas seguidas, atropelando as
palavras.
— Por favor, senhor Guilherme, uma pergunta de cada vez. Não tenha
tanta pressa, temos muito tempo ainda.
— Então, vamos começar do começo. Os portais, como surgem?
Seu orientador pára por um instante e responde:
— Os portais são a forma mais econômica, prática e fácil de viajar no
tempo e no espaço. Estes se abrem e se fecham continuamente no universo
e podem ser controlados por pensamento. Estes portais já são uma realidade
na Terra, pois os cientistas tiveram contato com este fenômeno em
observações laboratoriais, onde puderam observar elétrons se
teletransportando através de minúsculos portais a locais distantes dentro da
mesma molécula. Os portais são soluções de continuidade criadas entre dois
tempos ou dois espaços diferentes, independentes da distância que exista
entre eles.
O aluno, satisfeito, queria chegar aos seres da natureza e aos
elementais sobre os quais estava mais curioso.
— Os faunos. Quem são eles?
— São seres intermediários na evolução animal. Estão em estágios
entre uma e outra espécie animal. Por exemplo, um felino selvagem antes
de passar ao estágio de felino doméstico, deve passar pelo estágio de fauno
a fim de aprender algo sobre a nova espécie ou gênero em que irá ingressar.
Aprendem sobre cooperação e, principalmente, sobre convívio pacífico
dentro de um outro grupo novo, auxiliando quando necessário. Como seu
objetivo principal é se tornar um ser humano futuramente, apresentam
algumas características que lembram símios ou humanóides.
— E os elementais? Confesso que não entendi o que ocorreu na
floresta com relação a eles.
— Como o senhor sabe, tanto nós que vivemos aqui na dimensão
espiritual, quanto vocês que vivem na dimensão física, somos constituídos
por uma combinação de vários elementos químicos. Quando estamos
encarnados possuímos em nossos corpos uma grande concentração dos
elementos como o carbono, oxigênio, hidrogênio, além de uma infinidade
de outros elementos químicos em menores concentrações. Quando
desencarnamos, nossos corpos também possuem as mesmas constituições
bioquímicas e possuímos a maioria dos elementos químicos que possuíamos
quando encarnados, porém em menores concentrações. As nossas
moléculas, neste caso, encontram-se em menor número sendo bem menos
concentradas, dando-nos a aparência vaporosa aos sentidos dos encarnados
que têm dificuldades em nos captar visualmente. Estando aqui, nesta
dimensão, ocorre o mesmo com os elementais nem todos do lado de cá
podem visualizá-los, pois são sutis a nós por serem constituídos por apenas
um ou dois tipos de elementos químicos disse o senhor Kayamã, que fez
uma pausa para tomar fôlego antes de continuar. Guilherme permanecia em
silêncio, atento as explicações do orientador.
— Eu pensei que elementais fossem seres relacionados aos quatro
elementos da natureza, ou seja, a água, terra, o fogo e o ar.
— Não é um conceito errado, mas com o conhecimento da existência
dos elementos químicos, nada mudou, pois o ar é basicamente oxigênio, a
água basicamente hidrogênio, a terra basicamente O enxofre e o fogo
basicamente o carbono. Então, são quatro elementos também.
— Está bem. Entendi. Mas fale-me sobre os elementais do fogo.
— As chamadas Salamandras são seres tão reais quanto eu ou você.
Vivem em grupos, formando hierarquias. Eles têm os seus líderes e
subalternos que trabalham em conjunto. Seus corpos são simples e
basicamente constituídos por átomos de carbono. Conseguem concentrar ou
dispersar estes elementos que captam da natureza, nutrindo-se e
energizando-se deles. Quando concentram quantidades muito grandes
destes elementos, aumentam muito suas energias, formando nuvens de
carbono que se movem cada vez mais rapidamente, esbarrando-se uns nos
outros, criando uma energia conhecida como fogo. O fogo que vemos não é
o corpo de uma salamandra, mas a sua manifestação. Em alguns casos sua
energia aumenta em proporções muito elevadas, tornando-se difícil
diminuí-la rapidamente para voltar ao estado de repouso dos átomos de
carbono. Por isso, algumas vezes é necessário a ajuda de outros tipos de
seres elementais para desacelerarem o ritmo de atritos entre estes átomos
quando se quer extinguir um incêndio, por exemplo.
— Ah! Entendo agora. Por isso pediram o auxílio dos ventos e das
águas. Certo?
— Está correto, senhor Guilherme — respondeu o índio com olhar
sereno e voz branda — e observe, apontando o indicador para o portal — já
está chovendo na floresta como previsto e o fogo está sendo controlado.
O jovem olha para o portal que ainda permanecia aberto e vê a
floresta recebendo as generosas águas refrescantes, vindas do alto.
— Ufa! Que legal! — exclamou o estudante aliviado — mas como
era aquilo de conversar com o vento?
— A nossa colônia irmã Jonisi abriga irmãos índios habituados a
manipular e se relacionar com diversas energias da natureza. Dentre elas
estão as energias do vento e das águas. Eles normalmente vão aos locais
mais altos das florestas onde é mais fácil contatá-los e comunicarem-se com
estes elementais, pois como os silfos são elementais cujos corpos são
constituídos basicamente por oxigênio, são encontrados mais facilmente em
ambientes abertos como as colinas. Eles, os silfos, têm a capacidade de
manipular as partículas, moléculas e átomos suspensos na atmosfera,
transportando-os para onde quiserem. Sabendo que possuem esta
habilidade, nossos irmãos da outra colônia pediram-lhes aos silfos o auxílio
para combater o fogo. Somente concordaram quando se certificaram de que
os elementais das águas também estavam de acordo em oferecer sua ajuda.
— Por quê? Eles não se dão entre si?
— Não é isso. Acontece que, como os silfos, deverão mobilizar o
elemento água em vapor. As águas são de domínio das ondinas e se não
houver consenso, isto é, se não concordarem com a intervenção dos silfos,
pode significar uma invasão de domínio. Eles são rígidos quanto a isso. Se
as ondinas não concordarem, então eles não as mobilizam de jeito algum e
por consequência não haverá chuvas. No entanto, houve acordo.
— Existe ética até mesmo entre os elementais — observou
Guilherme.
— Isso mesmo e como eu dizia, os silfos, utilizando sua capacidade
de manipular partículas da atmosfera, concentraram em um mesmo local
uma grande massa de partículas suspensas no ar, que fizeram muita pressão
em uma pequena área. Com isso provocaram um deslocamento de ar que
estava por baixo desta coluna de partículas, fazendo-o circular sobre as
chamas, aquecendo-o. Esta massa de ar aquecida deslocou-se em direção
aos rios e fez aquecer a água que se evaporou e se elevou à atmosfera sob
forma gasosa, formando as nuvens de chuva. Ao atingirem altitudes
elevadas, perdem calor, se condensam e se precipitam na forma líquida
como uma chuva que é esta que estamos presenciando agora. Os silfos
concordaram em utilizar as águas dos rios, pois sabiam que as ondinas
também concordaram em acompanhá-los. As ondinas são elementais cujos
corpos são formados por oxigênio e hidrogênio, ou seja, água. Seus corpos
são compostos por água somente. A água rouba energia do carbono das
nuvens de fogo quando entram em contato, absorvendo-a e dispersando-a
em seguida. Com a diminuição da energia dos átomos de carbono do fogo,
fazem diminuir a velocidade dos elétrons, extinguindo a chama. Por isso, as
ondinas acompanharam os silfos em um trabalho conjunto.
Kayamã termina a explicação, prometendo levá-lo em outras
oportunidades a conhecer melhor o trabalho dos elementais da floresta.
Finda a explicação, surge o Senhor Gustavo.
— Olá, senhores! Como foi o trabalho de hoje?
Guilherme muito entusiasmado foi logo falando de forma apressada:
— Foi muito legal! Nós atravessamos um portal interdimensional,
conversamos com elfos, com o fogo, com o ar, fomos de um lugar para
outro tão rápido que vomitei, encontramos muitos índios, passamos um
calorão no meio do fogo e...
Falou tão rápido, que perdeu o fôlego.
— Calma, doutor. Temos muito tempo para falar sobre o assunto. Não
se afobe — falou Gustavo.
— Se me permite, senhor Kayamã, gostaria de acompanhar o senhor
Guilherme a outros locais, enquanto ele me conta como foi o seu
aprendizado na floresta.
— Claro. Já terminamos nossa tarefa de hoje. Fiquem à vontade.
Gustavo agradeceu e se retirou em companhia de Guilherme que foi
contando animadamente como foi sua aventura. Caminharam em direção ao
veículo, que Gustavo chama de cesteira, para irem ao próximo estágio.
No Hospital

— Chegamos — falou Gustavo ao convidado que estava de olhos


fechados, temeroso de passar por outro mal-estar de viagem.
— Onde estamos? — perguntou o médico. Aqui é setor de “resgate e
tratamento”. Vamos entrando. Vamos conhecer o hospital.
Encaminharam-se ao grande prédio daquele setor. Era um prédio
branco, com enormes portas que pareciam de vidro e com grandes janelas
envidraçadas por toda a fachada, que deixava ver as pessoas que
transitavam por seu interior. Ao se aproximarem da entrada a porta abriu-se
automaticamente e entraram, indo diretamente à recepção onde encontraram
um senhor de cabelos brancos, rosto rubro, demonstrando muita energia,
pele lisa e brilhante, que refletia sua aura igualmente radiante. Era o senhor
Benati. Estava rejuvenescido após seu reajuste com o filho, com a esposa e
principalmente com o Bob.
— Oi, pai. Tudo bem? — cumprimentou Guilherme abraçando o pai,
que os recebia com sorrisos e desta vez com a cabeça erguida.
— Estou ótimo, filho. Sinto-me como se fosse uma outra pessoa.
Parece que renasci. E agradeço a você por me...
Guilherme fez um sinal balançando a cabeça, pedindo ao pai que
esquecesse o assunto do Bob, pois aquele era um assunto passado e para
que aquelas lembranças não voltassem e nem pudessem causar algum tipo
de transtorno novamente. O senhor Benati sorriu e entendeu o que o filho
queria dizer e percebeu o quanto o seu garoto estava amadurecendo.
O senhor Gustavo aproveitou a oportunidade e o pequeno silêncio que
se fez para dizer que os deixaria e pediu ao senhor Benati que assumisse,
como guia de visita, a partir daquele momento e orientasse o filho,
conduzindo-o ao hospital. Despediu-se, prometendo retornar
posteriormente.
— Venha, filho — falou Benati, convidando-o a conhecer o prédio.
— Aqui onde estamos é a sala de recepção e a decoração foi criada
por nossos estagiários. Cada um que passa por aqui acrescenta algo ao
nosso patrimônio. Veja aqueles quadros, os vasos, o piso, a decoração do
teto e das portas. Percebeu como tudo aqui é decorado com motivos
animais? Você gostaria de deixar também uma lembrança?
Guilherme então mentalizou um quadro com o retrato de Bons, o seu
cão especial, que seu pai pendurou na parede ao lado dos outros quadros.
— Este quadro ficou muito bem aqui. Agora vamos continuar o nosso
roteiro de visita.
Abrindo uma porta próxima, entraram em um grande corredor que
nem dava para ver onde acabava. Era um corredor com centenas de portas.
Aproximam-se da primeira delas; então, o senhor Benati começou a orientar
o filho, que naquele momento também passou a ser seu aluno.
— Aqui, Gu, é a ala de queimados, onde trabalho. E como você já
teve a oportunidade de saber, chegaram muitos pacientes hoje vitimados por
um incêndio ocorrido na mata da região serrana de São Paulo. Então, não se
impressione com a quantidade de pacientes que temos hoje. Nem sempre
são tantos assim.
Entraram na sala e depararam-se com uma espécie de bancada com
vários níveis. Em cada nível haviam muitas celas, ou câmaras de
recuperação. As celas eram forradas de um material macio, praticamente
líquido e que continha somente um animal em cada uma delas. Era uma
visão futurista. Lembrava cenas de filmes de ficção científica.
As câmaras cilíndricas tinham o tamanho exato para conter o animal
que se mantinha deitado no fundo. Ali o paciente era acomodado de modo
que se amoldava perfeitamente em uma espécie de colchonete vaporoso que
adquiria o formato do animal em baixo-relevo e praticamente o recobria.
Sobre eles, além da substância vaporosa, um líquido preenchia o
espaço, mantendo-se em movimento no interior da cela em forma de tubo
transparente.
As celas eram dispostas por tamanho e os animais eram mantidos em
estado de suspensão, isto é, estavam inconscientes, como se estivessem
sedados, sob ação magnética exercida por um dispositivo ali instalado. O
que chamou a atenção de Guilherme foi o fato de nenhum dos animais
resgatados do incêndio apresentar sinais de queimadura pelo corpo.
— Pai, por que não há lesões extensas nestes animais resgatados do
fogo?
— E muito simples, filho. Em cada célula desta que você vê, há um
dispositivo que, além de induzir o sono, tem outras funções terapêuticas.
Veja como em cada uma das cabinas há uma iluminação com mudança
constante de frequência de cores. Estas luzes têm várias finalidades. Uma
delas é fazer uma espécie de escaneamento em cada paciente, informando,
de tempos em tempos, seu estado de saúde e de recuperação, transmitindo
os dados a uma rede central de informações, que analisa e automaticamente
personaliza o tratamento. Outra finalidade importante é a produção de uma
frequência de ondas mentais que faz com que sejam apagadas de suas
memórias as cenas de sofrimento, sem retirar; no entanto as sensações, que
servirão de alerta em caso de o animal enfrentar outro incêndio, este é o
aprendizado. Com isso tudo, as lesões desaparecem em questão de segundos
a minutos, e à medida que os animais se desprendem das lembranças do
ocorrido.
Guilherme então se lembra de uma informação que recebeu
anteriormente a respeito de um mecanismo de defesa que impede que o
animal sofra desnecessariamente, retirando-o de seu corpo físico no
momento da morte, e perguntou:
— Pai, o senhor Kayamã falou-me de um mecanismo que evita o
sofrimento dos animais no momento em que deixam o corpo, por ocasião de
sua morte. Por este mecanismo os animais são retirados rapidamente do
corpo físico antes que tenham tempo de sentirem no corpo espiritual o
surgimento das lesões. Estou certo?
— Em parte, filho — respondeu o senhor Benati, também entendido
neste assunto. Veja como a maioria com lesões são animais maiores. Veja
como os menores praticamente nada têm a ser tratado, além da inversão de
memória, O mecanismo a que você se refere arremessa-os tão rapidamente
para nossa dimensão, que não há contato com o que causou a destruição do
corpo físico, desligando totalmente um do outro. Além disso, quando se
lançam em nossa dimensão já estão inconscientes. Deste modo nada sofrem.
Este mecanismo é muito efetivo quando se trata de animais pertencentes a
um ‘corpo coletivo’ de grandes proporções, como ocorre, por exemplo, com
os insetos, com peixes, algumas aves, pequenos roedores, répteis, e outros
cuja individualidade não é bem caracterizada. Quando se trata de animais de
‘corpos coletivos’, de menores proporções, significa que possuem um nível
maior de consciência. Com isso a dor e o sofrimento têm um peso maior em
seu aprendizado evolutivo. Assim, nestes casos, os mecanismos de
desligamento são um tanto mais lentos, demorando-se em separarem-se do
corpo físico, podendo ser atingidos também em seus corpos espirituais.
Enquanto os pequenos se libertam em um estalar de dedos, os maiores
e com mais consciência de si podem demorar alguns segundos ou minutos
antes que isso ocorra.
— Ah! Certo. Entendi. Mas e os insetos? Por que não há insetos por
aqui?
— Os insetos, por serem muito numerosos, ficam em uma ala em
separado onde são tratados em conjunto para serem levados rapidamente de
retomo ao mundo físico. Os insetos chegam e retornam tão rapidamente que
não chegam quase a permanecer por aqui. Eles chegam e partem quase
imediatamente.
Guilherme observa uma estrutura flexível no interior das celas e
pergunta curioso:
— Para que servem aqueles ‘tubinhos’ que estão em todas as celas?
— perguntou Guilherme, apontando para aquela estrutura longa, fina e
transparente que ligava o animal ao topo da cela.
— São líquidos nutritivos. Eles necessitam ser alimentados, pois
mesmo inconscientes, seus instintos solicitam nutrição ao corpo, não
importando se estão ou não encarnados.
Guilherme repara que não havia somente animais selvagens na ala,
indicando que havia animais domésticos também e perguntou o porquê a
seu pai.
— Aqui nesta sala não ficam somente animais selvagens. Há também
os domésticos que desencarnaram em função de queimaduras. Por isso a
disposição das celas obedece a um critério que leva em consideração a
espécie e a origem dos animais. Os domésticos em sua maioria localizam-se
em uma área específica no final do corredor. Eles recebem um tratamento
diferenciado, pois alguns requerem um tratamento quase individual. Digo
‘quase’ pois ainda não são totalmente individualizados, por pertencerem a
um pequeno ‘corpo coletivo’, apesar de já possuírem uma certa consciência
e uma relativa individualidade marcantes. Por isso, podemos notar nos cães,
por exemplo, certas características de personalidade que distinguem uma
raça da outra no tocante ao comportamento. Há cães que se comportam de
forma característica dentro de uma mesma raça, que diferem de outra raça.
Por exemplo, há raças que são preponderantemente agressivas, enquanto
outras são extremamente dóceis. E estamos nos referindo às raças e não aos
indivíduos. Neste caso o ‘corpo coletivo’ é representado pela raça.
— O Bons é um cão sem raça definida apesar de lembrar um pouco a
raça Cocker. Ele é muito especial, pois é muito inteligente e esperto. Como
se caracteriza o seu ‘corpo coletivo’?
— Ele pertence ao dos animais domésticos também, mas o Bons é
muito inteligente e esperto porque está se individualizando. Estas
características individuais pertencem a ele e não ao ‘corpo coletivo’
— Quando este ‘corpo coletivo’ deixa de existir?
— O conceito de ‘corpo coletivo’ existe até mesmo entre os humanos,
em pequena escala, mas ainda está presente.
— Poderíamos ir aos animais domésticos? Estou curioso.
— Sim, vamos. E logo ali — falou, apontando para o fim do corredor.
Caminharam ao longo daquele corredor repleto de celas tubulares
ocupadas por animais de todas as espécies e de todos os tamanhos, até
chegarem onde estavam os animais domésticos.
Andaram e observaram vários deles, comparando-os aos selvagens.
— Notou como as lesões são mais extensas no corpo espiritual? —
perguntou o pai. Por terem maior consciência de si mesmos e do ambiente a
que pertencem, transferem os reflexos do trauma, da dor e do sofrimento ao
corpo espiritual. O modo como são tratados os pacientes animais
domésticos quase se assemelha ao modo como são tratados os seres
humanos em colônias de recuperação especializadas. Recebem, como eu já
disse, praticamente atenções individualizadas no tocante ao tratamento das
lesões, pois sua recuperação é mais lenta do que os não domésticos.
— Como assim?
— Os domésticos já possuem uma inteligência e percepção mais
aguçadas, além de possuírem sentimentos e emoções bastante
desenvolvidos se comparados com os não domésticos, os selvagens, que
possuem apenas esboços disto. Por isso os domésticos causam maiores
impressões no corpo espiritual, e a inversão de memória também se
processa com mais dificuldade por interferência do trauma emocional
sofrido.
— Como é isso de inversão de memória?
— Assim como ocorre em seres humanos, as lesões no corpo
espiritual se formaram mais em consequência do trauma emocional do que
do trauma físico, pois, como eu já disse, estes são animais que estão
adquirindo sentimentos e emoções semelhantes aos de pessoas. Desta
forma, no caso dos queimados, a dor e a angústia criadas durante o processo
que desencadeou a destruição do corpo físico criam um estado emocional
que fica estampado em seu mental. Estes sentimentos e emoções fortes
mantêm as lesões no corpo espiritual, pois se mantêm reverberantes em suas
memórias, dificultando sua recuperação. Então, através de um aparelho
instalado no teto de cada cela cilíndrica, cada molécula que circula na
região cerebral relacionada à memória dos animais é despolarizada
parcialmente. Com a despolarização, os elétrons que circulam em um
determinado sentido passam a circular em sentido oposto. Esta inversão dos
spins da memória é apagada temporariamente. A seguir é novamente
repolarizada com imagens positivas e agradáveis, de momentos felizes. As
lesões desaparecem por completo e não retomam. No entanto nem toda a
memória é apagada, pois se assim fosse teria perdido seu aprendizado.
Somente são apagados os momentos mais dramáticos que desencadeiam as
lesões. Esta técnica é amplamente utilizada nas colônias de humanos. Se
interessar, podemos posteriormente voltar ao assunto.
Benati fez uma pausa para dar passagem a um visitante encarnado que
andava pelo corredor onde estavam. Então, aproveitou para comentar o
assunto. Enquanto se recuperam, os domésticos recebem visitas dos amigos
humanos. E permitido que lhes transmitam suas energias de amizade e isso
favorece sua rápida recuperação. Os amigos são, em geral, encarnados, mas
há muitos desencarnados. Observe aquele senhor. Veja: quando a visita quer
dar sua energia, toca em uma estrutura metálica porosa localizada no
exterior da célula. Esta estrutura absorve a energia que se destina à
recuperação do amigo. No entanto a qualidade desta energia é variável e em
alguns casos pode até prejudicar o paciente. Quando isso acontece a energia
captada é classificada, filtrada e somente depois é enviada ao enfermo, que
assim não corre riscos de se intoxicar.
Guilherme observa e nota que existem algumas luzes do lado de fora
do cilindro, que acendem e apagam. Curioso, pergunta:
— O que indicam aquelas luzes?
— Se você observar, perceberá que quando elas acendem, a
temperatura se eleva no interior da célula. Veja o termômetro na lateral da
célula. Estas luzes e este aquecimento são resultado das preces e orações
enviadas aos animais ou de orações feitas a São Francisco de Assis.
— São Francisco?! Eu não entendi a relação entre as luzes e São
Francisco de Assis!
— Este santo é considerado protetor dos animais. Não que,
pessoalmente, ele esteja tratando o animal a pedido de seu dono, mas a
energia da prece se converte em energia terapêutica. Quando alguém faz
uma oração dirigida a São Francisco de Assis, a energia mental é enviada ao
Universo e se soma a outras energias idênticas. A seguir ela é distribuída a
cada animal do Universo, independentemente de quaisquer condições ou
estado evolutivo, pois a maioria das pessoas quando se lembra deste santo
católico, o relaciona, quase que automaticamente, aos animais, por isso
acabam enviando estas energias inconscientemente a eles também.
Guilherme olhava admirado para seu pai, pois não supunha que
tivesse tantos conhecimentos. Ao término de sua explanação,Guilherme dá
um grande sorriso. Benati perguntou:
— Satisfeito, filho?
— Sim, claro. Foi ótima a sua explicação. Eu não fazia ideia de que o
senhor entendia tanto assim destes assuntos.
Benati ainda trazia resquícios de culpas que adquiriu, durante suas
vidas anteriores, por isso, quando foi elogiado, lembrou se dos tempos em
que esteve nas trevas de sua ignorância.
— Pois é, filho. Foi a necessidade que me trouxe para cá depois de
amargar meses em locais trevosos de minha culpa, que me transformaram
em indigente espiritual.
Fiquei um farrapo humano até ser resgatado do pântano de energias
densas criadas por mim mesmo. Fui resgatado e levado ao hospital — a um
educandário onde recuperei a razão — e após me recuperar, pedi para ser
enviado para cá a fim de redimir minhas faltas contra os animais. Você se
lembra? Eu gostava de atirar em pássaros por diversão. Isso também pesou
em minha recuperação. Agora estou terminando o curso de enfermagem
com especialização em queimados. Logo estarei dando aulas e orientando
estagiários. Você está sendo minha primeira experiência como orientador.
— Puxa vida! Eu posso afirmar com todas as letras que foi uma ótima
aula. Estou agradavelmente surpreso e não somente por sua aparência que
está muito boa, mas também pelo seu desempenho. Achei que o senhor já
era veterano em aulas. Meus parabéns...
Antes que Guilherme terminasse a frase, surgem Gustavo e João
Rubens.
— Tudo bem senhores? — cumprimentaram os dois quase em coro.
— Como foi a visita à ala de queimados? — perguntou Gustavo com
a mão direita sobre o ombro do veterinário.
— Foi perfeito! Meu pai entende mesmo do assunto, hein!
— Concordo com você, Guilherme, por isso ele a partir de agora se
torna oficialmente um dos professores desta ala.
— O senhor Benati foi aprovado com louvor — falou João Rubens.
Os três o abraçaram, parabenizando-o e se despedem. Gustavo
chamando Guilherme, foram à ala seguinte.
— Esta é a ala de moléstias infecciosas. Para entrarmos nela
precisamos antes passar por uma descontaminação. Em seguida
receberemos um equipamento de proteção contra os eventuais agentes
infecciosos com que entraremos em contato. Sem estas providências,
poderiam ocorrer problemas sérios de saúde a você, que ainda é um
encarnado, pois se algum germe se instalar em seu corpo espiritual, causará
enfermidade também ao seu corpo físico. O equipamento protegerá
inclusive o seu cordão prateado.
— Nesta ala quem o acompanhará será a Dra. Ana — falou Gustavo,
enquanto João Rubens somente observava.
Uma luz verde sobre a porta se torna intermitente e um vapor se
desprende dela. O vapor era resquício da substância descontaminante
utilizada na ante-sala. Quando a porta se abriu, surgiu a senhora Ana,
usando um uniforme branco.
Ana era uma senhora que aparentava quarenta e poucos anos, cabelos
castanhos claros e lisos, nariz alongado e rosto suave.
Cumprimentou cordialmente os três e os convidou a entrar. Antes que
Guilherme pudesse concordar, novamente é surpreendido por aquele
fenômeno que o afasta de seus compromissos.
O Resgate

Desta vez não estava sendo acordado por sua mãe, mas sendo
chamado em outra localidade, ainda no plano espiritual, por sua noiva
Cláudia. Como se fosse uma mera ilusão, Guilherme desmaterializa-se e
surge junto de sua noiva.
A jovem trabalhava durante o dia em um hospital como nutricionista,
mas, ã noite, durante seu período de sono tísico, ela se desdobra em tareias
de auxílio. Guilherme algumas vezes a acompanhou, mas desta vez Cláudia
precisava auxiliar no resgate de pessoas que estavam envolvidas em um
acidente. I Jm avião caiu e havia muitos que acabavam de desencarnar e
necessitavam de orientação. Cláudia e Guilherme, durante a noite, em seu
sono físico, se dispuseram a ajudar as equipes do Hospital Espiritual Amor
e Caridade.
No hospital do astral são atendidas pessoas enfermas não somente
desencarnadas, mas também encarnadas desdobradas. Neste caso ocorreu
um acidente aéreo de grandes proporções próximo a uma região do Oriente
onde tem havido muitos confrontos bélicos. O avião de passageiros entrou
num espaço aéreo proibido a voos domésticos.
Foi confundido com um avião inimigo, sendo derrubado. Cláudia já
fazia parte da equipe de resgate e tinha mais experiência, mas Guilherme
era novato e acabava de ingressar nesta equipe. Ela o chamou até sua tenda
improvisada e mostrou-lhe as fichas dos passageiros, que ainda se
encontravam entre os destroços. Era um avião de grande porte, em que
morreram duzentas pessoas.
— A medida que fomos retirando as pessoas, os encaminharemos a
tenda da Cida — e apontou em direção a uma das tendas.
— Cida?! Minha tia Cida?
Ela mesma. Ela também auxilia nossa equipe. É assistente Social de
dia e de noite — brincou Cláudia.
— Tudo bem, eu os enviarei até ela e deixarei que assumam dali em
diante.
Buscando entre os escombros, descobriam as pessoas que estavam
com feridas extensas, queimaduras profundas e fraturas expostas. Em torno
de noventa pessoas já tinham sido resgatadas, restavam cento e dez a serem
recuperadas. A equipe de resgate era composta por doze pessoas, incluindo
Guilherme, Cláudia e Cida.
A maioria das pessoas resgatadas não tinha ideia do que aconteceu e
nem ao menos sabia que tinha desencarnado. Guilherme, à medida que
encontrava algumas pessoas, ajudava-as a se deitarem nas macas e as levava
à tenda de Cida para serem medicadas e orientadas, para depois serem
encaminhadas ao hospital.
Guilherme e Cláudia já tinham resgatado cerca de dezesseis pessoas,
quando surge o senhor João Rubens com dois cães.
— Alô! Eu trouxe ajuda. Eles são nossos melhores farejadores. São
ótimos neste trabalho de encontrar pessoas sob os escombros. Rubens pediu
a eles que buscassem as pessoas, então começaram a mostrar onde elas
estavam. Muitos, em estado de choque, sem emitir qualquer som e sem
esboçar reações, pareciam estar em uma espécie de transe. Obedeciam às
orientações mecanicamente. Com a ajuda dos cães o trabalho transcorreu
rapidamente e em pouco tempo todos tinham sido encaminhados às tendas
de atendimento.
Em cada tenda havia equipamentos energéticos de primeiros socorros
e tratamentos de emergência. Os mais conscientes eram orientados ali
mesmo antes de serem enviados ao hospital. Eram informados de que
ocorrera um acidente com seu avião, mas todos estavam sendo tratados.
Muitos faziam o sinal da cruz, dando graças a Deus por conseguirem
sobreviver a tamanho desastre. Eles eram tratados como se estivessem ainda
encarnados, recebendo medicação oral e injetável.
Recebiam tratamento para aliviar a dor, curativos e bandagens para
proteger as feridas e até pequenas cirurgias eram feitas. Em um certo
momento surgiu a equipe de transporte que os levaria ao Hospital Astral
Amor e Caridade’. Vieram cerca de três pessoas para cada acidentado. Entre
os auxiliares havia parentes e amigos desencarnados e encarnados
desdobrados, interessados em ajudar.
Diversas ambulâncias plasmadas eram usadas para transportar os
enfermos. Na verdade, o transporte era feito através de portais em forma
triangular ou piramidais que se abriam diretamente na ala de emergência do
hospital, mas os assistidos acreditavam estar sendo transportados da forma
convencional. Após todos terem sido levados, o senhor João Rubens
retornou ao rancho com seus cães, enquanto Cláudia, Guilherme, Cida e os
demais seguiram rumo ao hospital para continuarem o trabalho iniciado.
Ao chegarem lá, se dirigiram à ala cirúrgica. Recebiam tratamento de
higienização e trajes apropriados. Entraram em uma sala onde receberam
um jato de substância adocicada e perfumada como rosas. Suas roupas
foram substituídas por túnicas brancas e receberam luvas finíssimas e
transparentes. Na sala de cirurgia, muito ampla, havia cerca de mil pessoas
entre médicos, auxiliares e pacientes. Dentre os assistidos havia também
muitos envolvidos nos conflitos armados daquela região do Oriente.
Cláudia e Guilherme e mais dezenas de pessoas aguardavam em um
canto da sala à espera de serem chamados para auxiliar. Guilherme sentado
ao lado de Cláudia pergunta sussurrando:
— Se há tantos médicos e auxiliares somente nesta sala, então
quantos será que trabalham neste hospital?
— São milhares — responde Cláudia — e são incontáveis salas como
esta. Este hospital é maior do que muitas cidades que conhecemos.
— O que vamos fazer agora?
— Espere até alguém solicitar nossa ajuda, então você só precisa
fazer o que pedirem. Não se preocupe, pois eles sabem que somos novatos:
somos reconhecidos por este crachá com o marcador luminoso que muda de
cor de acordo com a experiência que adquirimos. A sua cor é alaranjada,
mostrando que você é inexperiente. A minha é lilás, mostrando que tenho
alguma experiência. Veja aquele ah — apontou para uma pessoa que
auxiliava — seu crachá é branco. Deve ser veterano — falou Cláudia,
também sussurrando.
Enquanto falavam, alguém fez sinal a Guilherme solicitando ajuda.
— O que eu faço? — perguntou Guilherme inseguro.
— Vá até a mesa e não se afobe — recomendou a noiva.
Guilherme encaminhou-se titubeante à mesa onde era chamado.
— Seja bem-vindo aos trabalhos! Meu nome é Fábio e esta é Jéssica.
Nós precisamos que você mentalize a consolidação desta fratura enquanto
aplicamos esta substância sobre os ferimentos. Entendeu? — perguntou
Fábio.
O jovem doutor dos animais, agora um simples auxiliar, fez que sim
com a cabeça e começou a imaginar a fratura cicatrizando, enquanto o
assistido recebia um banho de substância floculada rósea, semelhante a
minúsculas pétalas que se desfaziam ao tocarem a pele do paciente. A
medida que se desintegravam, os ferimentos iam se desfazendo e a fratura
melhorando.
— Muito bom! O senhor trabalha bem. Foi muito útil a sua
intervenção. Obrigado pela ajuda — agradeceu Fábio.
Enquanto isso, outra mesa solicitou ambos, Cláudia e Guilherme, e os
médicos pediram que eles acionassem o scanner’ enquanto terminavam de
suturar a pele do paciente.
Guilherme curioso prestava atenção à forma de suturar que consistia
em passar um pequeno aparelho sobre a ferida que se fechava facilmente. O
‘scanner’ era um aparelho portátil que, acionado, transferia diretamente à
mente de quem o aciona os resultados da leitura energética. De posse dos
resultados, deveriam transmiti-los aos médicos conforme fosse pedido.
Neste caso, o assistido ainda apresentava uma perda de energia no interior
do abdome e no alto da cabeça.
— Por favor, estanquem esta perda rapidamente pediu o médico.
Guilherme estremeceu de insegurança. Cláudia mais experiente pegou
as mãos de Guilherme e as colocou sobre os pontos indicados pelo aparelho
onde estavam ocorrendo as evasões descontroladas de energia e pediu que
imaginasse que o local do fluxo estava sendo cauterizado. Imediatamente o
scanner acusou a normalização circulatória.
O médico, notando a recuperação do paciente, agradeceu e os
dispensou. Outra mesa os solicitou. A paciente estava tendo crises
epileptiformes, apresentando contrações espasmódicas intensas quase
incontroláveis. Pediram que aplicassem energias relaxantes sobre o córtex
motor do cérebro a fim de aliviar as contrações. Ambos já sabiam o que
fazer e apoiaram as mãos levemente sobre a testa do paciente. Conseguiram
um relaxamento suficiente para que o médico procedesse ao ato cirúrgico
no cérebro espiritual da assistida. Através de uma técnica especifica
conseguiu retirar alguma coisa com forma globosa.
— E um parasita Ovóide — disse o cirurgião.
Colocando-o em um recipiente que se fechava hermeticamente,
enviaram a uma ala onde energizariam o parasita para que retomasse sua
forma humana, perdida antes de ser usado como objeto de tortura, por
espíritos que queriam prejudicar a paciente. Quando era encarnada sofria
muito com dores de cabeça e fortes convulsões intermitentes.
Terminaram seu trabalho naquela mesa e foram para outras, e assim
passaram toda a noite. Ao final da noite e início da manhã teriam auxiliado
em cerca de duzentas cirurgias. Ao terminarem o trabalho, Guilherme notou
que o seu crachá estava mudando de cor. Estava se tornando mais
avermelhado e com leve tom azulado, enquanto que o de Cláudia estava
francamente branco.
— Parabéns — disse Cláudia sorrindo — você já não é mais novato.
Mais uma noitada desta e você se torna um auxiliar experiente, capaz de
ajudar qualquer médico em qualquer tipo de intervenção cirúrgica.
— Parabéns a você também, pois seu crachá agora é branco. Você é
veterana.
— Estamos quase para terminar nosso trabalho, mas temos alguns
minutos ainda. Então vamos ajudar na limpeza da sala e levar os pacientes
aos seus quartos. O que você acha? — perguntou Cláudia entusiasmada.
— Tudo bem. Vamos lá — respondeu Guilherme, igualmente
entusiasmado em poder ajudar.
Restavam poucos pacientes para serem levados aos quartos e
Guilherme perguntou:
— Onde são os quartos e como chego lá?
— Basta tocar nesta placa ao lado da maca e ler o número do quarto
indicado, e automaticamente será transportado para lá. Quando estiver lá,
diga “sala de cirurgia” e você será trazido de volta.
Guilherme aprendeu rápido e em pouco tempo já tinham levado todos
aos seus quartos. De volta à sala de cirurgia, iriam iniciar a limpeza. A sala
estava repleta de restos de tecidos fluídicos espalhados por toda parte.
— Como limparemos tudo isso?
— Não se preocupe. Essa sala é pequena. Nós a limparemos em um
piscar de olhos.
— Pequena?! — exclamou Guilherme, surpreso.
Sem dizer mais nada, Cláudia dirigiu-se a uma espécie de painel
próximo onde várias placas luminosas piscavam. Guilherme pensou: “Deve
ser um destes painéis de controle que aciona automaticamente algum
dispositivo que limpará tudo isso em um instante”.
Cláudia aproximou-se do painel e tocou uma das placas e uma
escotilha se abriu na parede ao lado deles onde se podia ver vassouras,
esfregões e água.
— Você está brincando?! Vamos ter que limpar à maneira tradicional?
— perguntou Guilherme, assustado com a ideia de esfregar todo aquele
chão.
— Sim, vamos sim. Essa vassoura é a sua e esta é a minha. Aqui está
o balde e ali um retalho de tecido para passar nas mesas.
Guilherme não podia acreditar no que se meteu e começou a torcer
para sua mãe o acordar para ir para clínica. Ao tomarem as vassouras,
mergulhando-as no recipiente com liquido, que na realidade não era água,
iniciaram a esfregação do chão da sala cirúrgica. Guilherme, então,
surpreendeu-se, pois ao tocar no chão com as vassouras, a sujeira começou
a se desintegrar ao redor do ponto de contato com o piso, formando um halo
que aumentava rapidamente até atingir em poucos segundos toda aquela
área.
Nem foi preciso dar uma esfregada sequer no chão. Usando os
retalhos de tecidos embebidos no mesmo liquido ao tocarem nas mesas, se
autolimpavam. A seguir Cláudia aproximou-se do painel e tocou em outra
placa e uma nuvem espalhou-se como vento por todos os cantos da sala
deixando pequenos cristais espalhados por todos os lugares.
Outro toque, em outra placa, e um foco de luz se abriu próximo à
entrada da sala, que ao ser ativada emitiu uma forte onda de luz, como a do
sol que refletindo nos cristais, produziam um lindo efeito luminoso,
traduzindo se em inúmeras faixas coloridas com todas as matizes de cores
imagináveis. Quando as luzes se apagaram,Cláudia disse:
— Pronto, terminamos! A sala está limpa e esterilizada.
— Você me enganou, hein! — exclamou Guilherme.
— E só uma brincadeira que nós fazemos com os novatos. Também
me pregaram essa peça, mas não achei que teria tanto trabalho a fazer
quanto você achou, e eu estava tão entusiasmada que a brincadeira acabou
perdendo um pouco a graça, mas mesmo assim rimos muito quando me
surpreendi com a rápida limpeza.
Ao saírem da sala tiveram que passar novamente pela ante-sala para
receberem de volta as vestimentas anteriores e uma nova aspersão do vapor
esterilizante.
Tia Nana

Deixando o prédio, Cláudia sugeriu:


— Vamos visitar uns parentes meus em uma outra colônia?
— Vamos — concordou Guilherme.
Pedindo que Guilherme segurasse sua mão, desapareceram e foram
até uma colônia localizada no astral da região do Tibet. Ao chegarem
próximos à colônia sem fronteiras que a delimitasse, depararam-se com
pirâmides cercadas por um belo bosque repleto de grandes árvores e lindos
arbustos floridos com espécies vegetais inexistentes em nosso mundo. A
aproximação foi tão rápida e a parada tão repentina que assustou
Guilherme, o novato.
Pararam a cerca de um metro da pirâmide maior e, com o susto,
Guilherme afastou-se reflexamente cerca de trinta metros de distância até se
recompor e se aproximar novamente. Estando a esta distância, observou que
algumas luzes começaram a sair do solo ao modo de um chafariz luminoso.
Os raios luminosos se assemelhavam a fachos retilíneos de laser. As luzes
em finos feixes coloridos com todas as matizes de cores possíveis moviam-
se alegremente, produzindo um efeito altamente artístico e muito agradável
â visão. Aquelas luzes pareciam irreais, pareciam uma ilusão por beleza e
estética cadência de movimentos, sem paralelos para descrevê-las.
A pirâmide mais iluminada apresentava o seu topo como uma
plataforma com quatro vértices. Guilherme aproximou-se de Cláudia e
perguntou-lhe se sabia o motivo das luzes.
— Estão nos dando as boas-vindas — explicou Cláudia. Todas as
pessoas são bem-vindas, pois aqui nesta cidade astral temos representados
os cinco continentes terrestres. Aqui seria uma espécie de colônia de união
dos diferentes povos da Terra. Os meus tios estão no setor asiático, pois são
descendentes de japoneses. Vivem em setores representativos, não por
algum motivo de segregação, mas somente para que possam manter seus
costumes culturais sem se constrangerem diante de pessoas de culturas
diferentes. Você gostaria de conhecer rapidamente a colônia antes de irmos
aos meus parentes? — perguntou Cláudia.
— Sim, seria interessante — respondeu o rapaz.
Então flutuaram suavemente sobre a cidade e foram em direção a um
local todo florido com belos canteiros que formavam corredores que
convergiam a uma praça central onde havia um chafariz prateado.
Jorrava dali um líquido muito transparente, leve e sutil ao toque, que
mal se poderia sentir. A partir da praça central havia cinco corredores
ajardinados. Cada corredor conduzia a um setor representativo de
continente.
— Vamos parar aqui por alguns instantes! — pediu Guilherme.
— Estou curioso em saber o que é aquele prédio adiante.
Após descerem próximos à fonte, caminharam até o prédio que se
assemelhava às antigas e grandiosas construções romanas e gregas com suas
enormes colunas e pilares, que talvez necessitasse de dez ou mais pessoas
para abraçarem toda a circunferência. O prédio possuía uma escadaria de
mármore branco lustroso, que refletiam as luzes que iluminavam a fachada.
Na entrada, como ornamento, podiam ser vistas duas estátuas de leões
sentados como sentinelas de cada um dos lados, sobre pilares de gigantescas
proporções. Nas paredes detalhes ricamente esculpidos representavam
alguns dos costumes gregos e romanos de épocas antigas.
Eram centenas de degraus até o topo onde estava a entrada principal,
mas no meio caminho, a escadaria se dividia em duas direções.
Cláudia e Guilherme escolheram a escadaria do lado esquerdo, indo
até o topo onde encontraram uma enorme e pesada porta, feita de tábuas
polidas, presas com grandes dobradiças.
— Será que está trancada? — Guilherme perguntou a si mesmo.
Ao tocarem a porta perceberam que era apenas uma ilusão, pois suas
mãos a atravessavam facilmente. Sem resistência alguma, entraram num
enorme salão. Era uma biblioteca.
Suas estantes continham milhares de volumes de diversos autores
conhecidos e muitos outros, de quem nunca soubemos da existência, pois
são de outras dimensões.
Não havia espaços ociosos entre os volumes. As estantes estavam
repletas de livros e as mesas repletas de leitores silenciosos. Nas paredes
podiam ser vistos belos quadros, de pintores famosos, retratando antigos
heróis mitológicos com uma riqueza de detalhes impressionante. No centro
do salão havia uma grande estátua de coruja que parecia vigiar os
estudantes atentos.
Terminada a visita a tão belo prédio, buscaram a saída. A outra porta
poderia ser a saída. Seguiram para lá e a atravessaram, também sem
resistência alguma à transposição.
Descendo as escadarias, voltaram ao jardim que formava corredores e
seguiram caminhando ao chafariz central, para seguirem por outro corredor
que os conduzia ao setor que representava o continente australiano, a
Oceania.
Neste lugar encontraram pessoas com características físicas
facilmente definidas. Eram aborígines australianos. O ambiente da região
foi recriado com perfeição, pois era notável a semelhança que havia entre as
regiões desérticas e áridas daquela região da Terra e a daquele lugar.
Podiam sentir como se estivessem no Planeta Terra. A temperatura, a areia,
a vegetação em nada deixavam a dever à verdadeira Austrália.
Ficaram alguns minutos contemplando paisagem e notaram a
presença de cangurus e outros marsupiais, além de muitos animais típicos
daquelas regiões.
Cláudia disse:
— Provavelmente os moradores daqui têm permissão para reter estes
animais nesta dimensão, e também é provável que os próprios animais
estejam aqui por consentirem.
— Isto mesmo. Concordou alguém que se aproximou sem ser notado.
— Oi, vovô! Nós íamos visitá-los.
Abraçaram-Se alegres por estarem se revendo após muitos anos, pois
vovô Omori faleceu quando Cláudia era apenas uma criança.
— Nós estávamos fazendo turismo pela colônia antes de irmos para
lá, mas terminamos — disse Cláudia.
— Mas diga-me, vovô. O senhor concordou quando eu disse que estes
animais estavam aqui por espontânea Vontade? — perguntou Cláudia ao
avô recém-chegado.
— Sim, concordo plenamente — respondeu ele — estes, animais
sentem-se bem aqui neste ambiente recriado de seu habitat que se
assemelha perfeitamente o ambiente real da Austrália e Nova Zelândia.
Estes animais, antes de serem enviados às colônias especializadas para
reencarnação, ficam por aqui pelo tempo que quiserem, ou pelo tempo que
for permitido, pois há uma rotatividade, isto é, uns chegam, outros devem ir
para reencarnarem. Então, sempre há animais recém-chegados por aqui. Eu
sei destas informações porque sou voluntário em uma pequena colônia que
fica aqui no astral asiático se ocupa com trabalhos de salvamento e
reencarnação de animais. Em nossa colônia existem muitos animais que
preferem permanecer por aqui porque querem estar em companhia de seus
antigos donos que também vieram para cá. Lá em casa, temos alguns
animais, que conviviam conduziu na Terra e outros que conhecemos aqui.
Além disso, há as plantas como as samambaias, violetas e outras que sua tia
adora cultivar. Alguns deles precisam reencarnar, mas está sendo difícil
para nós que nos apegamos muito, deixá-los ir, mesmo sabendo que não
podemos atrasar e nem interferir nestes assuntos de evolução. Mas, se for
necessário não os impediremos de partirem.
Após terminarem a visita ao setor australiano da colônia, partiram
com o avô de Cláudia em direção à sua casa onde também moravam outros
parentes.
Ao chegarem na casa do vovô Omori, foram recebidos por alguns
cães, dentre eles, Kika, uma mestiça de pastor alemão, a preferida de tia
Nana, e alguns gatos, eram a paixão de tia Nana, por isso sempre teve a
companhia de um deles. Além de Kika, outros cães vieram receber os
visitantes. Os cães corriam, pulavam e latiam ao redor deles e do senhor
Omori, enquanto os gatos roçavam nas pernas em sinal de boas-vindas. O
alarido dos cães era intenso, mas se aquietaram a pedido de tia Nana que se
aproximou. Cláudia surpreendeu-se com a ótima aparência dela, pois soube
que estava hospitalizada por ocasião de seu retorno ao plano espiritual, em
decorrência de uma enfermidade. Os médicos diziam que ela demoraria um
pouco a se recuperar, mas estava muito bem. Estava com aparência mais
jovem e alegre, e a seu redor uma aura brilhante demonstrava sua saúde.
— Ah! Mas a senhora está uma beleza. Parabéns, tia! —
cumprimentou Cláudia.
— Muito obrigada. Você também esta uma belezinha.
— Que bom que a Kika está aqui também, não é mesmo tia?
— E mesmo, Cláudia. Estes animais e as minhas plantas são a nossa
alegria. Além deles há os hóspedes, que são os pássaros que vêm nos visitar
e compartilhar das refeições que sirvo a eles. Eles nos divertem muito após
cada dia de trabalho.
— Que bom que a tia já está trabalhando — disse Cláudia, feliz por
ver a tia tão saudável.
— Sim, estou trabalhando na biblioteca. Sou novata, mas estou
aprendendo rapidamente a rotina do trabalho e, com certeza, em breve
estarei a par de tudo.
— Qualquer dia destes a visitarei no trabalho. — Falou Cláudia.
— Será uma grande alegria recebê-la.
Na biblioteca eu trabalho quatro horas por dia, e o restante do tempo
aproveito para cuidar de minhas plantas e dos bichos que temos aqui.
A tia está mesmo disposta, hein! — falou Cláudia à sua tia, admirada
da disposição que aparentava.
— O meu problema é que eu ainda não me acostumei a plasmar a
comida dos animais e peço ao papai para fazer isso. Ele tem mais prática.
— Vocês querem chá com bolo? Acabei de fazer.
— Sim, claro. Estávamos trabalhando há horas e seria bom
“recarregar as baterias” com alguns pedaços de um de seus deliciosos bolos.
— Mas é um bolo plasmado. Você sabe, não é?
— Não importa. O que importa é que tenha sua ‘receita’ — brincou
Cláudia.
Após momentos de conversa amena sobre coisas do cotidiano,
Cláudia presenciou o fenômeno que puxa o corpo espiritual de volta ao
corpo físico, em Guilherme, que pouco conversou.
O corpo de Guilherme tornou-se tenso, suas pupilas se dilataram, seu
coração acelerou e sua respiração tornou-se ofegante. A tensão é seguida de
um ligeiro tremor e Guilherme desaparece da companhia de sua noiva e de
seus tios para retornar ao corpo físico. Já era manhã e alguns raios de sol
entravam pela janela do seu quarto.
Os pássaros cantavam alegres nas árvores de seu quintal e Bons, seu
cão, adivinhando que o amigo acordou, começou a arranhar a porta pedindo
para entrar.
Guilherme desperta tranquilo e começa a se arrumar para ir ao
trabalho, em sua clínica, sem se lembrar de nada do que ocorreu durante a
noite passada.
Formosa

Ao chegar a clínica, encontra João Rubens, seu auxiliar, à espera do


patrão. Estava limpando e varrendo o local de trabalho, que procurava
manter sempre dentro de uma limpeza impecável.
— Bom dia, João Rubens! — cumprimentou Guilherme, sorridente,
que a seguir o abraçou de maneira não habitual.
— Bom dia, patrão! — respondeu o humilde auxiliar com aquele seu
jeito simples de ser e de se dirigir às pessoas.
— O patrão parece mais alegre hoje e também mais disposto —
observou João Rubens.
— Não sei por que, mas sinto-me muito feliz hoje e mais ainda de
encontrá-lo aqui. Não sei por que, mas quando acordei, logo me lembrei de
você e senti muita vontade de abraçá-lo logo que cheguei. E como se eu
estivesse muito grato por algo que você fez e não sei o que é. Me sinto
como se tivesse encontrado um irmão mais velho. Agora que estou aqui em
sua presença sinto-me mais disposto ainda. Que estranho, não? Eu o vejo
todos os dias, mas parece que hoje algo está diferente. Não sei dizer o que é,
mas é algo bom — falou Guilherme ao companheiro de trabalho, que já
nem mais considera como um funcionário, mas sim, irmão.
— Pois eu também, patrão, acordei diferente hoje. Também acordei
mais feliz como se algo importante tivesse acontecido e eu tivesse
participado. Eu me lembro de ter sonhado com animais e o senhor também
estava neste sonho. O patrão gostaria de ouvir como foi o meu sonho? —
perguntou João Rubens.
— Claro que sim. Ainda é cedo e não temos nenhuma consulta
marcada, concordou Guilherme.
— Bem, doutor, eu me lembro que estava em minha casa cuidando de
meus animais. O senhor sabe que tenho vários, não é?
— Sim, eu sei.
— Eu tenho cães, gatos, pássaros, tartarugas e coelhos. Eu os trato
como se fosse gente, como (da) minha família. Quando estou triste,
converso com eles e eles parecem me entender de alguma maneira, pois
quando faço isso, não se ouve um latido, um miado, um pio. Todos ficam
atentos às minhas palavras. Certa época dois dos meus cães, o Gordo e a
Pintada, estavam brigando com muita frequência sempre que eu retornava
para casa, por ciúme. A Pintada chegou a morder o focinho do Gordo
fazendo-o sangrar. Então, chamei os dois e conversei sério com ambos e
pedi para se comportarem melhor e para não mais brigarem só para chamar
a minha atenção, por que eu gostava dos dois da mesma forma, sem
distinção. A partir desse dia nunca mais brigaram — falou João Rubens
entusiasmado por falar de seus amigos.
— João Rubens — chamou Guilherme — e o sonho?
— Ah! O sonho... Eu estava cuidando de meus amigos, alimentando-
os e acariciando-os quando surgiu um senhor já falecido, que o patrão deve
se lembrar. Era o pai do senhor Mataveira, o senhor Gustavo. Eu acho
estranho a presença dele no sonho, pois tivemos pouco contato e não
tínhamos uma relação direta. Somente soube de seu falecimento por meio
do senhor, patrão. No entanto ele estava em meu sonho dizendo que era
hora de partir. E quando dei por mim estávamos em uma grande fazenda
cheia de animais, inclusive a Paloma, que perdemos recente mente. Neste
sonho o senhor Gustavo pedia-me orientações sobre como dirigir e
administrar aquela grande fazenda. Parecia que eu entendia do assunto mais
do que ele, que era fazendeiro; e parecia que eu já sabia o que fazer.
Comecei a organizar e a delegar tarefas. Foi então que dei uma instrução
para chamar o senhor patrão, para ajudar. Era como se eu tivesse esse poder
de escolher quem eu quisesse e que achasse mais apto a desempenhar os
serviços. Não passou muito tempo e lá estava o senhor andando por esta
fazenda em companhia de seu falecido pai e do Senhor Gustavo. De repente
um incêndio se forma ao redor da fazenda e aumenta sem controle. Para
resolver o problema, chamamos um índio ao invés dos bombeiros. Mas este
índio era capaz de controlar o vento e a chuva, e foi o que aconteceu. Ele
fez chover e salvou a fazenda da destruição total. Entretanto, muitos
animais se feriram. Alguns estavam desacordados, mas estavam vivos, pois
eu pude ver que ainda respiravam. Muitas pessoas foram chamadas para
auxiliar no resgate e tratamento dos animais feridos.
Todos ajudaram a levá-los ao hospital em que o senhor também
estava ajudando a tratá-los. Fiquei muito feliz em vê-lo e a seu pai,
trabalhando juntos para salvar a vida daqueles animais doentes. Como eram
muitos os pacientes, chamei mais médicos para que pudessem ajudar,
vindos de outras cidades. Nenhum deles morreu graças a Deus e aos que
ajudaram neste trabalho. Voltei para casa e vi na televisão que havia
ocorrido um acidente de avião. Peguei meus cães e corri ao local do
acidente que parece que foi perto da minha casa. Os cães são bons
farejadores e poderiam ajudar a encontrar algum sobrevivente. Trabalhamos
muito e fiquei feliz em saber que todos sobreviveram. Foi muito bom saber
que nós três e meus cães tínhamos feito um bom trabalho...
Então, Guilherme interrompe o relato de João Rubens.
— Nós três? Quem estava lá também? — perguntou o doutor Eu, o
senhor e a doutora Cláudia também estava lá ajudando a retirar as pessoas e
fazer os curativos. Quando todos estavam a salvo dentro das ambulâncias,
nós três nos abraçamos, alegres pelo dever cumprido. Aí eu acordei.
— Puxa João Rubens, que noite movimentada, hein! E eu em
compensação nem sonho. Durmo como uma pedra. Se sonho raramente me
lembro de alguma parte do que sonho. Só lembro de algo quando cochilo
rapidamente. Hoje, por exemplo, nem sonhei. Mas acordei com uma
disposição e com uma vontade de trabalhar, que você nem imagina.
Acho que esta é a vantagem de não sonhar durante a noite — falou
Guilherme que continuou a conversar com João Rubens a respeito de
sonhos e sono.
Enquanto conversavam, João Rubens dispersou-se por um instante,
notando que havia uma pessoa passando em frente à clínica tentando puxar
uma égua que se recusava a andar. Ela trazia em seu dorso uma carga
pesada atrelada a uma carroça. O dono do animal começou a resmungar e
esbravejar, falando palavras de baixo calão ao animal que parecia esgotado.
Podia-se notar as grossas gotas de suor que rolavam pelo rosto e
costados do animal, molhando seu corpo e empapando seus pêlos. O suor
que escorria se misturava com o sangue que vertia por debaixo das amarras
apertadas. As cordas ásperas cortavam sua pele e deixavam expostas feridas
cujo odor atraía moscas que sobrevoavam o animal.
Ela estava muito fraca e suas pernas estavam trêmulas. Seus dentes
rangiam e sua expressão facial era de dor extrema. Pateava insistentemente
o chão como que para espantar a dor que a acometia que parecia piorar a
cada puxada que aquele homem forçava, puxando as cordas. Quanto mais
ele a forçava a andar, mais sangue escorria e caía no solo, que já se tingia
fortemente de vermelho. Seus gritos que pareciam de um alucinado já não a
assustavam mais, pois estava prestes a perder a consciência.
No entanto, ainda reuniu forças para tentar dar ao menos um passo.
— Com o esforço seus olhos se arregalaram e saltavam das órbitas, suas
narinas se dilatavam como que tentando extrair o máximo de oxigênio do ar
para tentar conseguir alguma força para caminhar e evitar que seu dono se
enfurecesse ainda mais e se tornasse violento.
Então, com esforço extremo quis dar um passo, mas fraquejou. Suas
pernas não suportaram, dobraram-se fazendo com que caísse com as
dianteiras flexionadas, ferindo ainda mais os joelhos.
— Animal estúpido! — gritou o dono do animal que tinha no olhar
uma expressão de louco.
Terminou a frase desferindo um poderoso murro entre os olhos da
égua que quase não resistiu e desequilibrou-se, atordoa da pelo golpe.
Nervoso com o pobre animal, o dono forçou ainda mais as cordas sobre
suas feridas expondo-as deixando ver a extensão dos ferimentos.
Guilherme, ao presenciar aquela cena, não se conteve e foi ao
encontro do animal a fim de tentar reanimá-lo. Tentou colocá-lo em pé, pois
estava quase por tombar e se caísse, toda carga viria por cima piorando a
situação. Ambos, João Rubens e Guilherme, ignorando a presença do dono
da égua, tentavam pô-la em uma posição melhor, mas ela ainda estava
zonza por causa da agressão que recebeu. O homem, que parecia estar fora
de si, soltou um sonoro grito advertindo-os a se afastarem dali, e que
fossem cuidar de suas próprias vidas, ameaçando-os.
— Tirem suas mãos de meu animal se não quiserem apanhar também
— gritou com voz grave o homem de seus quarenta anos.
Aquele homem de grande estatura era bem maior do que Guilherme e
parecia ser bem mais forte também, mas a ameaça não intimidou o doutor
que então falou:
— Desculpe-me senhor, mas não vê que esta égua não pode
trabalhar? Está ferida, sangrando e muito fraca por causa da infecção e da
febre. Ela precisa descansar e ser tratada. Precisamos aliviar a sua carga e
cuidar de suas feridas.
Antes que Guilherme terminasse o que tinha a dizer o homem se
aproximou dele com olhar de poucos amigos e já estava com os punhos
cerrados preparados para atingi-lo como fez com o animal. Guilherme
reflexamente se esquivou do golpe e ainda tentou argumentar, mas o
brutamontes lançou-se sobre ele e tentou agredi-lo novamente.
João Rubens, que somente observava, tentou interferir e evitar que
acertasse o patrão, nisso foi lançado longe com um só golpe daquele
homem desconhecido. João Rubens caiu e bateu com a cabeça na calçada e
um fio de sangue escorreu por sua face, manchando seu rosto.
O médico não conseguia mais conter-se e antes que seu agressor
pudesse notar, Guilherme instintivamente armou seu punho direito e
desferiu-lhe um grande soco, que derrubou sentado seu oponente.
O homem atordoado permaneceu nesta posição por alguns minutos
sem entender o que aconteceu. Guilherme socorreu João Rubens e
aproveitando-se da ausência temporária do dono da égua, que permanecia
sentado no chão, conseguiu desatrelar a égua e colocá-la em pé.
Uma pequena multidão se formou em volta daquela confusão e vendo
que o animal estava solto alguns vieram lhe trazer água, pois estava
sedento.
Guilherme desatou as rédeas e levou o animal a um local sombreado
ao lado de sua clínica, iniciando os curativos. As feri das profundas
deixavam ver o tecido subcutâneo lesado e até alguns músculos, estavam
cortados pelas cordas apertadas ao redor do tórax e abdome. Seu dono
quando recobrou a consciência viu sua carga solta e seu animal sendo
levado pelo médico. De longe gritou:
— Fique você, então, com este animal imprestável. Fique com esta
égua estúpida e preguiçosa que nem consegue fazer as mínimas tarefas sem
pedir descanso. Mas fique certo de que eu acertarei as contas com você
mais tarde — E afastou-se esbravejando e fazendo gestos sem sentido.
O pobre animal era pele e osso. A ferida aberta no dorso estava
repleta de larvas de moscas, que se instalaram e lhe devoravam a carne.
Foram atraídas pelo cheiro de sangue que escorria das feridas. Ela era
jovem, mas tinha aparência de uma égua muito mais velha por causa do
trabalho forçado ao qual estava sendo obrigada.
O médico não entendia como ela ainda conseguia suportar aquela
carga estando tão fraca e subnutrida. Guilherme consternado alimentou-a e
tratou das feridas, retirando-lhe as larvas e aplicando-lhe anti-sépticos e
antibióticos. A seguir levou-a aos fundos da clínica onde poderia descansar
longe de seu antigo dono.
Já dentro da clínica João Rubens ainda estava impressionado com a
agressividade do desconhecido, pois não estava acostumado com pessoas
que agiam deste modo. Mas impressionou-se ainda mais com a expressão
no rosto de seu patrão ao defendê-lo. Ele parecia transfigurado como uma
fera. Nunca João Rubens tinha visto aquela expressão nele antes. Então, o
auxiliar e amigo disse:
— Agradeço patrão, por sua intervenção. Aquele homem poderia ter
causado alguns estragos, pois ele era bem maior que nós. No entanto, me
perdoe patrão, mas acho que deveríamos ter controlado nossos instintos e
evitado o desenrolar das agressões. Poderíamos ter nos afastado para evitar
o desfecho violento. O senhor é muito forte. Nunca poderia imaginar que
seu soco fosse tão poderoso. Poderia tê-lo matado — concluiu.
— E, me descontrolei mesmo! Nem percebi a força que empreguei.
Foi tudo tão rápido, que nem tive tempo de pensar quando o vi sangrando,
virei bicho e fui para cima dele. Preciso controlar melhor meu lado animal.
Não é porque sou veterinário, que tenho que me comportar como um animal
selvagem — concluiu Guilherme.
— Mas por outro lado, patrão, pois tudo sempre tem um lado
positivo, o senhor demonstrou algo que mantinha escondido.
— O que, João?
— O senhor expôs sua compassividade pelo animal que estava
sofrendo e provavelmente morreria se não fosse sua intervenção. Se fosse
em outra época, o senhor diria que se o animal era dele, o problema também
era dele. Talvez nem tentasse fazer o que fez e virasse as costas ao
sofrimento do pobre animal. O senhor está mesmo diferente. Está mudando.
Está se transformando para melhor.
— Talvez estes dias agitados pelos quais tenho passado estejam me
servindo para alguma coisa, afinal! — disse Guilherme.
Foram para o interior da clínica. Enquanto a multidão curiosa se
dispersava, Guilherme entrou em contato com o senhor Mataveira e
perguntou-lhe se aceitaria o animal em sua fazenda, pois não poderiam tê-lo
na clínica. O senhor Mataveira não teve dúvidas e mandou buscá-lo
imediatamente.
A égua foi colocada junto aos outros equinos da fazenda, e receberia
os cuidados necessários para se recuperar e nunca mais teria trabalhos
forçados daquele dia em diante.
Passados alguns dias, a égua já estava se recuperando; nem parecia o
mesmo animal, adaptou-se ao novo lar e aos outros animais da fazenda
onde se dava bem com todos.
Ela era muito dócil.
Suzy

Naquele mesmo dia em que ocorreu o incidente envolvendo o


carroceiro e sua égua, entrou na clínica de Guilherme um rapaz e uma
senhora de cerca de setenta anos de idade, que trazia nos braços uma
cachorra da raça pequinês.
A cachorra tinha idade avançada, pois era notável a canície que
tomava todos os pêlos do rosto e pela catarata que tornava seus olhos
opacos. O rapaz parou ante o batente da entrada com a senhora e antes de
cumprimentar o médico, tez logo uma pergunta seca e sem rodeios:
— O senhor faz eutanásia?
— Sim. Quando a situação pede e me obriga. Mas este recurso é a
última opção. Somente usamos este procedimento quando já se esgotaram
todas as alternativas terapêuticas e o animal estiver sofrendo. João Rubens
observa seu patrão e pensa consigo mesmo:
— Puxa, o patrão mudou muito. Se fosse um mês atrás não d iria o
que disse agora, simplesmente os convidaria a entrar para combinarem os
valores do serviço.
João Rubens estava feliz por notar estas mudanças positivas em seu
patrão. Discreto, quieto em um canto da sala, João continuava a ouvir a
argumentação de seu patrão contra a eutanásia de conveniência, solicitada
por aquele jovem que acompanhava sua mãe e a cachorrinha, O jovem logo
notou a indisposição do veterinário em proceder à eutanásia.
Então o rapaz disse de forma áspera:
— Mas eu quero que você mate esse cão. Ele está muito velho e só dá
trabalho para minha mãe, que também é de idade. Esta cachorra já não
enxerga direito, faz suas necessidades em qualquer lugar e o senhor deve
concordar comigo que animal velho tem que morrer mesmo porque não
presta para mais nada.
Guilherme apenas observava e nada disse por algum tempo. Ele
estava se contendo para não ser grosseiro com o rapaz, permanecendo em
silêncio enquanto olhava para aquela senhora que segurava a cachorra nos
braços e que acompanhava o moço. Por fim, saindo de seu mutismo,
Guilherme perguntou ao rapaz:
— Esta é sua mãe?
— Sim, é minha mãe. Por que pergunta? — Você acha que ela o está
incomodando, porque também é velha? — perguntou o médico enquanto
mantinha um olhar inquiridor fixo nos olhos do rapaz.
O rapaz demorou a responder e o fez de forma insegura:
— Bem... Bem... É... É...
Sem responder exatamente a pergunta feita, disse:
— Isto não vem ao caso — dizia isto tentando desviar do olhar da
mãe.
Então Guilherme falou categoricamente:
— Não senhor. Aqui não fazemos eutanásia. Procure outro lugar que
faça.
— Mas é o seu trabalho. Você simplesmente faz a sua parte e eu pago
e pronto — falou o rapaz em voz alta e áspera novamente.
Guilherme, que ainda estava um tanto transtornado pelo episódio
envolvendo a égua, sentiu novamente a sua face se aquecer, pois estava
ficando zangado com a presença daquele rapaz impertinente e prepotente.
Por favor, pediu ao rapaz que se retirasse de sua clinica, pois sentiu-se
insultado. A senhora, que permaneceu em silêncio até então, perguntou ao
filho ingenuamente:
— Filho, o moço não quer atender a Suzy? — A senhora era surda e
nada ouviu do diálogo de ambos.
Mas antes de sair, o rapaz disse em tom de desafio:
— Se você não faz, outro fará. E puxando a mãe pelo braço de forma
brusca, retirou-se. Antes de sair, sua mãe novamente perguntou sem que
ninguém respondesse: — Por que o moço não quer consultar a Suzy?
Alguns minutos depois daquela discussão, o rapaz retornou e
passando em frente a clínica, acionou a buzina de seu veículo e acenou ao
doutor, como se estivesse dizendo: Alguém fez o que você não quis fazer e
eu me livrei daquele incômodo e você deixou de ganhar um dinheiro fácil.
Guilherme olhou para o rapaz que sorria com expressão sarcástica e
estampou em seu rosto a tristeza. Algo inusitado ocorreu ao doutor: uma
lágrima correu por sua face.
João Rubens entendeu que a mudança estava mesmo acontecendo ao
seu amigo, e achou melhor deixá-lo a sós. Afastou-se silenciosamente para
não incomodá-lo. Mais tarde souberam que o rapaz procurou uma loja de
produtos para animais, cujo dono tem a reputação de agir ilicitamente
atendendo animais, medicando-os, vacinando-os e até mesmo fazendo
intervenções cirúrgicas. Era um leigo se passando por veterinário. Por
alguma quantia em dinheiro, executou o pequeno animal com uma injeção
de inseticida.
O pobre animal morreu sofrendo sob a ação do veneno que lhe
paralisou os músculos respiratórios impedindo-o de respirar, enquanto
estava completamente lúcido. Após algum tempo João Rubens retomou e
encontrou seu patrão ainda triste.
Sentou-se próximo dele sem dizer uma palavra. O silêncio
permaneceu por algum tempo ainda até que Guilherme, então, interrompeu
aquela quietude:
— João Rubens, certa vez você me falou a respeito do sofrimento
entre os animais. Eu tenho pensado sobre isso e não consigo entender por
que a Natureza permite que os animais sofram e, principalmente, sofram em
função de ações exercidas por nós, seres humanos. Para mim é quase
inconcebível que isso ocorra. Não dá para entender por que um peixe é
mutilado durante a captura por pescadores que praticam a pesca predatória,
os golfinhos são mortos ao caírem nas redes de pescadores. Você já viu
como se prepara uma lagosta? Elas são jogadas em água fervente vivas. Os
touros durante os shows públicos de touradas são torturados por toureiros
que divertem as pessoas, fazendo-os sangrar até a morte. Quantos animais
são abandonados à própria sorte desde filhotes nas ruas, onde muitos
morrem ou são mal tratados por pessoas insensíveis. Muitos animais
silvestres são capturados e vendidos como objetos nas beiras das estradas
para viverem em cativeiro longe de seu hábitat natural. Os animais de circo
são obrigados a trabalhar sob a pena de receberem choques ou fisgadas com
instrumentos contundentes caso não obedeçam e não sejam dóceis. São
milhares de exemplos que eu poderia citar, mas não gosto nem de pensar.
Você deve estar pensando que eu mudei muito rápido de opinião a respeito
disso, mas acho que sempre acreditei nestas coisas e nunca dei a devida
atenção. O que você me diz disso, João Rubens?
— Bem, patrão, de acordo com o que eu sei, nós, os seres humanos,
chegamos a esta condição após passarmos por várias etapas evolutivas pelas
quais passam os animais hoje. Como espíritos, reencarnamos inúmeras
vezes, em diversas fases que incluíram aquelas em que os animais se
encontram agora. O que temos hoje, como carga de conhecimento
espiritual, se deve em boa parte ao aproveitamento que tivemos nestas fases
em que estivemos vestidos como animais. Nestas fases, em que ainda não
éramos humanos, estivemos desde entre os pequenos animais até os
grandes, como baleias, golfinhos, cavalos, etc. Todas as situações pelas
quais passamos nos servem até hoje, pois fizeram parte de nosso
aprendizado. Nossas aulas basicamente se resumiam em aprendermos a nos
defender e preservar a espécie, mas tivemos algumas noções preliminares
que nos ajudam hoje a discernir o certo e o errado, o bem e o mal. O que
aprendemos quando éramos animais nos ajudou a encontrar o caminho que
nos levará a um objetivo maior na espiritualidade posteriormente. Por isso,
já naquela época estávamos dando os primeiros passos que ainda deixam
reflexos nesta atual existência.
Para comprovar nossa passagem por estas fases, basta observar o
desenvolvimento de um embrião humano. O embrião que se desenvolve
dentro do útero de uma mulher passa por fases de amadurecimento que
representam um tipo de recapitulação das fases em que já estivemos antes
de sermos humanos. Dentro do abdômen de nossas mães, quando embriões.
Há momentos em que temos membranas interdigitais como as aves
aquáticas. Temos brânquias como peixes por um certo período também e
respiramos mergulhados em um líquido como se fôssemos animais
aquáticos. Nosso aprendizado começou imediatamente quando fomos
criados por uma Inteligência Maior, que o senhor chama de Natureza e eu
chamo de Deus. Não importa o nome que se dê ao criador de tudo o que
existe no universo, o que importa é que existe um Criador que nos colocou
nesta vida para aprender e crescer espiritualmente. Para nós humanos, o
sofrimento e a dor têm grande peso no sentido de aprendizado. Para eles
também há um peso, mas é menor. Se hoje temos consciência de nosso
mundo ao redor e das relações sociais é porque aprendemos ao longo das
existências anteriores, inclusive como animais. Quando éramos humanos
primitivos e estávamos ainda aprendendo a ser pessoas. Matávamos por
comida e por território. E certo que hoje há pessoas que ainda agem assim,
mas são minoria. Para a maioria não é conceptível a ideia de tirar a vida de
outra pessoa por questões materiais. Aprendemos isso com a experiência de
diversas vidas. Em breve todas as pessoas entenderão que também os
animais não devem sofrer por nossas ações impensadas e chegará o
momento em que eles conviverão pacificamente conosco sem se sentirem
ameaçados. Se existem pessoas como aquele senhor que queria fazer
eutanásia em seu animal que estava sadio é porque o sofrimento ainda faz
parte de seu aprendizado. Estas situações penosas são, para eles, os animais,
como “aulas práticas” sobre a dor e o sofrimento.
Guilherme ouvia a exposição de João, surpreso com os seus
argumentos, mas permaneceu em silêncio enquanto João continuava a falar.
— O senhor deve saber que somos seres eternos. Fomos criados em
algum momento, vivemos em fases muito primitivas de vida passando por
estágios mais adiantados até chegar a esta atual condição e prosseguiremos
nosso aprendizado e a nossa vida eternamente. Uma vida é um piscar de
olhos perante a eternidade e os sofrimentos surgem em condições
passageiras que se intercalam com momentos de alegria. E tanto uma
condição quanto a outra tem o mesmo valor como aprendizado. No entanto,
vivemos em um mundo relativamente atrasado evolutivamente onde o
sofrimento é muito frequente. Veja o caso desta égua que socorremos. Ela
sofreu muito sabe-se lá por quanto tempo nas mãos daquele homem, mas
agora vai para um lugar em que será muito bem tratada. Para ela o
aprendizado ocorreu em presença daquele que a fez sofrer e continuará
quando ela estiver na companhia do senhor Mataveira, onde será tratada por
pessoas que a respeitarão. Ela aprendeu sobre o sofrimento e agora irá
aprender sobre respeito e alegria. No caso daquela pequinesa ela passou por
momentos felizes com sua dona enquanto era jovem e saudável. Ela
absorveu o aprendizado da alegria de viver em companhia dos seres
humanos que a respeitavam como se fosse da família, mas na velhice
conheceu o desprezo e o abandono que se traduziram em sofrimento que
também servirá de aprendizado. Este aprendizado através das adversidades,
pelos momentos de alegria e outras situações que passamos somente tem
valor como aprendizado se considerarmos que vivemos muitas vidas.
Reencarnamos muitas vezes. Assim temos oportunidades infinitas de
evoluir por vidas sucessivas desde que ainda éramos seres microscópicos
até chegarmos ao que somos hoje. E não pára por aqui, pois evoluiremos a
condições ainda superiores. Se desconhecemos a encarnação provavelmente
nos revoltaríamos, e com razão, contra quem nos criou e supostamente
concedeu privilégios a uns e infortúnios a outros para seu próprio deleite.
Deus, no entanto, é justo. Se Ele permite que passemos por situações como
estas é porque é importante para nós e para nossa existência durante a
eternidade em que viveremos. O que os animais adquirem como
aprendizado permanece com eles durante a eternidade e o que foi aprendido
sempre será útil, posteriormente em vidas futuras. Por mais estranho que
possa parecer, a dor é apenas uma condição relacionada ao sistema nervoso,
O senhor mesmo, patrão, me disse uma vez que a dor é ilusória. É apenas
uma interpretação dada pelo cérebro a partir de um estímulo neurológico.
Quando sentimos dor, significa que algo em nosso organismo está em
situação anormal de equilíbrio. E um aviso de que algo está errado. Algo
estimulou as terminações nervosas que enviam descargas elétricas ao
cérebro, que as interpreta como sendo dor. Quando vamos ao dentista, por
exemplo, recebemos uma aplicação de anestésicos sobre o nervo facial.
Assim o médico trabalha em nossos dentes sem que sintamos dor ou
soframos com sua intervenção. Antigamente uma simples dor de dente
significava intenso sofrimento. Hoje não há a necessidade de aprendizado
com este tipo de dor. Os anestésicos que temos hoje são uma espécie de
premiação por nosso aprendizado. Quando sofremos e sentimos todas as
consequências deste sofrimento não desejamos passar novamente por ele.
Em um primeiro momento, pouco importa para nós se outros estão
passando pelos mesmos sofrimentos, mas quando passamos por eles, muitas
vezes, acabamos por não desejar que outros passem pelos mesmos apuros
que passamos. E o primeiro passo para nos tornarmos compassivos. Se isso
ocorrer, significa que aprendemos a lição — concluiu João Rubens com seu
jeito humilde de falar.
— Puxa vida, João! Você tem certeza de que somente fez o curso
primário? — perguntou Guilherme em tom de brincadeira, mas admirado
com a inteligência do amigo — você é muito inteligente. Mal sabe escrever,
mas entende de assuntos complexos e explica com uma clareza
impressionante. Conhece até neurofisiologia. Onde você aprendeu estas
coisas?
— Eu sou muito interessado nestes assuntos, então, estou sempre
pedindo emprestado os livros da doutora Cláudia e de sua amiga Luciana —
respondeu João Rubens encabulado pelo elogio do patrão.
— Diga-me João Rubens, o que você me diz sobre a eutanásia, do
ponto de vista espiritual — perguntou o médico, interessado em saber se o
que fazia era lícito, perante a espiritualidade.
— Bem, doutor, a eutanásia, ou morte branda, é um procedimento
terapêutico, apesar de muitos não considerarem assim, pois visa
principalmente o alívio do sofrimento de um animal que está sob a
influência de alguma enfermidade incurável. Quando está sofrendo muito, e
não mais existem terapias eficazes para curá-lo, é lícito que se pratique a
eutanásia. A decisão de fazê-la pode partir dos donos, mas é sempre o
veterinário o único capaz de avaliar a necessidade ou não de levar a termo,
tal responsabilidade. O médico veterinário é a única pessoa com
conhecimento suficiente para tomar esta decisão ou ao menos sugerir. O
dono de um animal, que se encontra em uma situação em que deve decidir
se continua a tratar ou fazer a eutanásia, deve sempre pedir antes um
conselho a um veterinário. Se ele aconselha a fazê-lo, então esta pessoa
pode ficar tranquila com sua consciência, pois foi o melhor a ser feito. E
uma grande responsabilidade nas mãos de uma só pessoa que irá decidir
entre a vida e a morte, mas em geral as decisões são as mais corretas. O
veterinário visa o melhor para o animal. Fazer eutanásia, quando nem todas
as possibilidades terapêuticas disponíveis foram esgotadas, é uma falta; e
proceder quando nada é tentado é outra ainda maior. No entanto, algumas
vezes nada há para ser feito, pois não há terapias adequadas que possam
conduzir à cura. Neste caso, talvez o animal venha a morrer em sofrimento,
então a eutanásia é a opção. A espiritualidade não condena que se faça a
eutanásia quando é feita baseada nestes critérios. Quando se procede à
antecipação da morte do animal com fins esportivos, por diversão, por
crueldade ou perversidade então estamos falando de assassinato, e não é
essa a condição para uma eutanásia, que é a favor do paciente. Existem
drogas que induzem à falência rápida de certos órgãos, como o coração,
sem sofrimento ou dor. E deve ser sempre aplicada por um veterinário. Mas
quando ao contrário, é feita por leigos, que recebem ainda algum
pagamento por isso, a culpa lhe pesará cedo ou tarde. Do mesmo modo,
quem entregou seu animal a um sofrimento desnecessário nas mãos destas
pessoas sem habilidade e sem conhecimento do que fazem, também sentirá
este peso. Este dono que procura um leigo é mais culpável que a pessoa que
se passa por veterinário. Aqui, no mundo físico, ele poderia alegar
ignorância, mas estando lá na espiritualidade nada fica escondi do —
finalizou João Rubens.
— Puxai O seu conhecimento me impressiona. Acho que em outra
vida você foi um professor — brincou Guilherme, sem saber que o que
sugeria era real — mas é muita responsabilidade a do veterinário, não é
João Rubens? Eu gostaria de saber mais a respeito destas coisas das quais
você tem muitas informações Estou ficando interessado. Nem sei como
nunca me interessei por isso antes. Mas nunca é tarde demais para aprender.
Enquanto conversavam, entraram na clínica algumas pessoas que
queriam vacinar seu cãozinho sem raça definida, mas era notável o
sentimento que havia entre o animal e seu dono, que não se importava se ele
tinha alguma raça. Dava para notar a alegria de estar com seu dono quando
o lambia na face e sacudia a cauda em sinal de felicidade e confiança.
Depois deste, outros vieram e tiveram que adiar a conversa para outra
oportunidade. Ambos passaram o dia entre vacinas, consultas e cirurgias.
Aprendizado

No final da tarde, Cláudia apareceu na clínica para irem jantar juntos.


Os dois somente ficavam a sós em finais de semana e quando não surgia
nenhuma emergência.
Como Guilherme estava livre de compromissos naquela tarde e início
de noite, Cláudia aproveitou para fazer o convite. Ao chegarem ao
apartamento muito limpo e bem decorado com motivos japoneses, foram
recebidos pelo senhor José, o pai de Cláudia, que apesar do nome era
descendente de japoneses, e dos mais tradicionalistas.
O senhor José é um nissei, que gosta de falar pouco, mas é muito
observador e inteligente. Ao entrarem foram recebidos também por dona
Ayako, mãe de Cláudia.
Dona Ayako, ao contrário do marido, é mais extrovertida e
caracteriza-se por sua comunicabilidade. Gosta muito de conversar, de
pintar quadros e de cantar. Ela coleciona alguns troféus que ganhou em
concursos de interpretação musical em que se destacou cantando músicas
tradicionais japonesas. As paredes do apartamento estavam repletas de
quadros pintados por ela, incluindo alguns que mereceram prêmios em
concursos de pintura.
A mesa estava posta e vários pratos japoneses foram servidos pela
mãe de Cláudia, que se orgulhava em poder oferecer estes pratos exóticos e
tão saborosos.
Guilherme serviu-se de um saboroso sushi, prato feito com algas e
arroz recheado com legumes, mas evita servir-se de ‘sashimi’, que é outra
comida típica japonesa, feita com peixe em filés servidos crus. Servidos os
pratos, entraram em animada conversação a respeito do cotidiano de cada
um. Entre um assunto e outro, iniciaram assuntos que eram os preferidos de
Cláudia, mas de que o senhor José não é um dos maiores admiradores, isto
é, espiritualidade.
Quando o assunto derivou para este lado, o pai de Cláudia preferiu
outro mais importante para ele, naquele momento, que era seu jantar e que
estava muito bom. Ele não faz críticas, mas prefere não participar. Ao invés
disso preferiu usar o seu tempo saboreando seu tempurá, seu moti e goles de
‘saquê’. Dona Ayako não se incomodava em participar destes assuntos, mas
também não discutia, preferindo mais ouvir do que opinar.
Começaram a conversar sobre reencarnação e principalmente a
reencarnação entre os animais já que havia à mesa um veterinário. Este era
um dos assuntos preferidos de Cláudia, grande estudiosa e conhecedora.
Guilherme perguntou:
— Cláudia, você acha mesmo que os animais reencarnam? Eu sempre
achei que quando se morre não tem mais volta. Sempre achei fantasiosa a
ideia, mas venho me interessando por este tema. Você me diz que não
somente as pessoas, mas também os animais reencarnam. Como pode ser
isso?
Cláudia dá um sorriso de satisfação por notar, pela primeira vez, seu
noivo dizendo abertamente este tipo de assunto, os quais antigamente lhes
pareciam absurdos.
Ela, então, começa a explicar:
— Quando nós desencarnamos, isto é, quando falecemos, nosso
espírito abandona o corpo físico e passamos a fazer parte de uma outra
dimensão, que não é mais a física. Nesta outra dimensão, muitas vezes
somos recebidos por parentes e amigos e dependendo de nossa condição de
saúde somos enviados a hospitais no astral para nos recuperarmos. Se
estivermos bem, somos enviados às colônias que nada mais são do que
cidades como as que conhecemos aqui com escolas, casas e pessoas
comuns. Vivemos lá, como se vivêssemos aqui nesta dimensão. Lá as
pessoas trabalham e estudam, mas quando chega o momento de retornar à
dimensão física, nosso espírito passa, então, por vários preparativos. Para
este fim somos auxiliados por uma equipe especializada neste assunto. Com
os animais não é diferente, Quando morrem, desligam-Se dos seus corpos
físicos e são recebidos na outra dimensão, a espiritual, também por pessoas
que se ocupam em recebê-los. São enviados a tratamentos da saúde, se
necessário, e preparados para a volta a nossa dimensão através da
reencarnação. Algumas vezes podem permanecer por algum tempo em
companhia de seus antigos donos que talvez se encontrem também naquela
dimensão. A equipe especializada em animais, de modo geral, quase
imediatamente os prepara para reencarnação e em poucos dias já estão
nascendo em alguma ninhada por perto de onde viviam antes. O retorno é
rápido porque os animais não têm grandes ajustes com suas consciências.
Por possuírem uma individualidade relativamente pequena e muito restrita,
não têm o que os hindus chamam de “karma”. A lei de ação e reação ainda
não pesa sobre a análise que determina em que condições será seu retorno.
Os erros e acertos cometidos durante a vida somente são importantes para
aprenderem a sobreviver. O que aprendem com estes erros e acertos, isto é,
seu aprendizado, fica gravado em setores de seus corpos espirituais. Quando
chegar o momento certo, este arquivo será acessado, ajudando-o a decidir a
melhor maneira de agir conforme o que aprendeu. Se é certo ou se é errado
eles não sabem definir, mas definem o que é melhor para eles em uma ou
outra situação de sobrevivência. Por isso assim que são recebidos,
imediatamente são preparados e reenviados para cá. Geralmente em locais
próximos ou até no mesmo local onde viveram na última reencarnação. Em
geral também retornam na mesma espécie até amadurecerem-se o suficiente
para ingressarem em alguma outra espécie mais adiantada evolutivamente
— concluiu Cláudia que falava aos dois ouvintes atentos e a seu pai que
ouvia, mas parecia estar mais interessado em equilibrar e devorar alguns
pedaços de nabo em conserva entre dois hachis.
— O Bons pode ser a reencarnação de algum outro cão que já
tivemos? — perguntou Guilherme.
— Sim. Pode ser que tenha sido algum cão que você já teve ou talvez
algum cão que seus pais tiveram.
— Ele poderia ser a reencarnação de Bob, um Malamute do Alasca
que morreu quando eu era apenas uma criança? — perguntou Guilherme
novamente à sua noiva. Ele estava interessado em conhecer a resposta
daquela que considerava a pessoa mais inteligente que conhecia.
— E bem provável que seja ele, pois você o encontrou e cuidou dele
com carinho e o aceitou apesar de cego. Mas, mesmo assim, se não for ele,
este que está com você, atualmente, está aprendendo também com você.
Pois eles reencarnam entre os seres humanos a fim de adquirirem
conhecimentos através da convivência conosco. A nossa responsabilidade
para com eles é bastante grande, pois a noção mais apurada de certo ou
errado que poderão adquirir neste contato virá através de nós, que somos
seus tutores. Eles aprendem conforme nós os tratamos. Se os tratamos com
respeito, eles aprendem sobre o respeito, mas se os tratamos com
indiferença ou com desprezo é o que irão aprender: indiferença e desprezo.
Se são agredidos, aprendem a ser agressivos também. Se tudo o que
pudermos ensinar for desprezo e indiferença, ou agressividade é provável
que reencarne em outro local, outro lar, a fim de aprender outras coisas, tais
como o respeito, a alegria e a compreensão. Em seu lugar deve vir outro que
o substituirá por outro que necessite deste tipo de aprendizado negativo —
concluiu Cláudia.
— Eu não acredito nestas coisas de reencarnação e nem de espíritos,
mas também não desacredito — exclamou dona Ayako.
— E isso aí, dona Ayako! — brincou Guilherme — se
reencarnaremos ou não, não vem ao caso agora, porque o importante agora
é este tepanhake que está especial e que ninguém faz melhor do que a
senhora. Deram boas risadas foram de conversa em conversa até que
Guilherme se deu conta do horário. Já passava da meia-noite. Ele, então,
despediu-Se de todos e foi para sua casa onde dona Elza o esperava ainda
acordada, mas muito sonolenta em frente a televisão.
— Ah mãe! Acordada ainda — exclamou Guilherme.
— Eu estava esperando você chegar. Não consigo dormir enquanto
não souber que você chegou em casa bem. Esta cidade está ficando
perigosa.
— Mãe, não se preocupe tanto assim comigo. Não sou mais uma
criança. Estou quase para me casar com Cláudia e a senhora continua
achando que sou ainda um bebê. E muito bom receber toda esta atenção que
a senhora me dá, mas assim fico mal-acostumado. Não se preocupe, mãe, vá
dormir. Descanse um pouco.
— Até amanhã, mãe.
Retirou-se em silêncio e após banhar-se, deitou-se e dormiu
pesadamente. Imediatamente viu-se no hospital de “Rancho Alegre” em
companhia do senhor Gustavo.
— Bem-vindo novamente, Guilherme — cumprimentou o amigo.
— Olá, senhor Gustavo. Não entendo como foi que vim parar direto
aqui no hospital. E a segunda vez que chego aqui sem ter passado pelos
portais? Pensei que era necessário passar pela entrada por medida de
segurança.
— Você já está cadastrado, então sua entrada é permitida sem
restrições. Por isso você pode vir diretamente ao hospital ou a outra ala que
queira. Se fosse algum intruso, provavelmente receberia uma carga
eletromagnética que o repeliria assim que se aproximasse dos limites do
rancho, mesmo que a aproximação se dê com a velocidade do pensamento
— explicou o anfitrião.
Guilherme interrompeu a explicação que o senhor Gustavo dava, pois
gostaria de entrar em um assunto importante. Então perguntou:
— Antes de continuarmos a excursão pelo hospital, eu gostaria de
tirar algumas dúvidas com o senhor. Pode ser?
— Sim, claro. Estou à sua disposição. Do que se trata?
— Hoje um senhor conduzia um animal carregando uma carga
excessivamente pesada estava passando em frente a minha clínica. O
condutor estava sendo muito agressivo com a sua égua e eu acabei por
interferir, reagindo de forma também agressiva com ele. Senti-me
perturbado com isso, pois acho que violência atrai violência, mas não pude
conter meus instintos — explicou Guilherme ao amigo que já estava a par
do assunto por intermédio dos médicos espirituais que acompanham o
jovem doutor.
— Sim, eu sei do ocorrido — respondeu Gustavo — o nome daquele
homem que você conheceu é Carlos. Ele foi um próspero fazendeiro e vivia
em uma fazenda numa cidade não muito longe daquela em que você mora.
Era muito rico e possuía bens materiais à custa de seu esforço e trabalho.
Sempre foi uma pessoa honesta e trabalhadora. Tudo o que ganhou foi
merecido. Era proprietário de muitos automóveis, aviões, animais e tinha
muito dinheiro. No entanto, tinha também uma esposa que não
compartilhava com ele do mesmo caráter. Ela era extremamente
gananciosa, mas nunca deixou transparecer isso ao marido que acreditava
que ela havia se casado por amor. Quando casou-se, seu objetivo era ficar
com a fortuna e depois livrar-se dele. Desde o início estava tudo planejado
entre ela e um companheiro escuso chamado Álvaro. Ele compartilhava
com ela os mesmos ideais de poder e fortuna a qualquer custo. Carlos,
entretanto, limitava o acesso dela ao dinheiro, dando-lhe apenas, uma
mesada que, para ela, não era suficiente. A esposa infiel e Álvaro em um
certo dia resolveram pôr em prática os planos para destituir o marido de
tudo o que possuía. Contrataram um assassino de aluguel para matar o
esposo, fazer parecer que foi um acidente e dividir tudo com o companheiro
e comparsa. Certa noite, Carlos retornava da cidade passando por uma
estrada deserta que dava acesso à fazenda, dirigindo seu automóvel
despreocupadamente. Quando vinha pela estrada, se viu obrigado a
diminuir drasticamente a velocidade do veículo em uma curva acentuada,
ladeada por um precipício perigoso. Ao final da curva notou que havia uma
obstrução no caminho. Uma árvore caída impedia sua passagem. Carlos
desceu e tentou remover o tronco pesado que não se movia ao seu esforço.
O silêncio era acentuado. Somente se ouvia o farfalhar das folhas das
árvores pelo vento, mas sentiu que não estava só. Algo dentro dele dizia que
estava sendo observado. Repentinamente surge de entre as árvores da beira
da estrada dois homens mascarados que o agarraram e o agrediram,
golpeando-lhe a cabeça. Puseram-no inconsciente de volta em seu veículo e
o empurraram no precipício. A queda era muito grande e dificilmente
alguém poderia sobreviver. No entanto, Carlos sobreviveu. Fraturou o
ombro e bateu com a cabeça em uma rocha ao ser lançado para fora do
veículo e ficou desmemoriado. Ao voltar a si, após horas desacordado,
andou sem rumo por dias, afastando-se do lugar onde morava. Durante este
tempo, se alimentou do que encontrava no caminho, vivendo como
andarilho indigente pelas ruas. Suas roupas sujas e rasgadas o faziam passar
por um morador de rua, Não se lembrava de quem era e nem de onde veio,
mas seu instinto de sobrevivência não se modificou. Não sabia mais ler e
nem escrever, mas aprendeu rápido a comercializar sucatas que encontrava.
Fazia serviços como limpar jardins em troca de comida. Sem conhecer seu
passado, tornou se uma pessoa amargurada, sem objetivos na vida. Queria
morrer, mas não tinha coragem para dar cabo à própria vida. Por. Isso tão
agressivo com as pessoas e até com animais. Ele acredita que assim, cedo
ou tarde, alguém o acabaria matando. Quando o senhor o agrediu, na
verdade ele esperava que o matasse para acabar com a sua angústia e
agonia. O senhor Carlos é uma ótima pessoa e é de extrema confiança, além
de ser muito trabalhador e esforçado. Ele somente precisa de alguém que o
apoie e lhe dê a confiança necessária para voltar a ser o que era antes do
atentado que sofreu. Com este apoio, ele voltará a ser o Carlos de
antigamente, que era autoconfiante, empreendedor e arrojado. Quando
perceber que sua auto-estima ainda existe ficará irreconhecível — concluiu
Gustavo que olhava para Guilherme como que perguntando se entendera o
recado.
— Então ele já foi rico, agora vive como mendigo e nem sabe disto
porque perdeu a memória? Ele só está a espera de um objetivo para voltar a
ser como era? — perguntou Guilherme, sintetizando a história contada pelo
amigo Gustavo.
Guilherme abaixa a cabeça e sente pesar em si a consciência.
— Eu tirei dele o seu meio de se sustentar e o fiz perder a carga que
levava para vender e ter com o que comer. Eu sou uma péssima pessoa
mesmo — recriminou-se Guilherme com os olhos úmidos.
— Não se culpe, Guilherme. Você, assim como a maioria de nós,
ainda está num estágio evolutivo onde, muitas vezes, é guiado pelos
instintos. Você apenas usou a força deles como meio de se proteger de um
agressor. Este é um ato perfeitamente normal à nossa espécie assim para
qualquer outra espécie animal que conhecemos. Somente precisamos
aprender a controlá-los, pois, fora de controle, nossos instintos podem se
tornar algo que poderia nos atrasar evolutivamente. Sem dúvida, com mais
esta lição tirada do episódio com Carlos, este controle será mais eficaz e
será mais fácil para você a partir de agora.
— Tentarei me controlar melhor. Espero não ter que chegar a estes
extremos novamente — falou Guilherme.
— Com relação à égua, o que você fez foi correto, pois ela estava a
um passo de desencarnar por causa da infecção e por causa da dor que
sentia. Você sabe que os equinos podem morrer quando submetidos a dor
extrema. Carlos passou em frente a sua clínica por nosso intermédio, isto é,
por nossa influência, para que você encontrasse e cuidasse de Formosa, a
égua, antes que morresse. Formosa tinha talvez uma ou duas horas de vida
se não fosse sua ajuda em medicá-la. Não se preocupe, pois fomos nós que
os colocamos em seu caminho por saber que poderíamos contar com sua
parceria no caso. Apenas procure ser mais controlado com sua
impulsividade. Eu sei que, quando retornar ao físico, saberá o que fazer.
O senhor Gustavo faz uma pequena pausa e observa Guilherme que
ficou absorto em pensamentos. Segurava o queixo pensativo enquanto
mantinha o olhar no horizonte.
Com certeza estava revendo alguns conceitos seus e revendo
mentalmente aquela cena em que Ocorreram as agressões mútuas entre ele e
Carlos.
Café

Gustavo, então, dá dois tapinhas no ombro de Guilherme que retoma


a consciência e o convida:
— Vamos continuar nossa visita ao hospital?
— Sim... sim, claro. Desculpe. Vamos — respondeu Guilherme,
voltando a si.
— Vamos à ala de enfermidades infecciosas, pois foi lá que paramos
no último encontro. A doutora Ana nos espera e dará explicações a respeito
das enfermidades que acometem os animais a partir de seus donos.
Ao se aproximarem da ala de moléstias infecciosas, a doutora Ana,
usando um uniforme impecavelmente branco e limpo, os cumprimenta e os
convida a entrarem. Antes, a doutora Ana aciona um dispositivo que
destrava a porta de entrada da ala onde são tratados animais vítimas de
agentes contaminantes astrais. Os animais enfermos desta ala podem ser
potencialmente perigosos á saúde de quem entrar em contato com eles sem
a devida proteção. Ao acionar o dispositivo, ouviu-se um chiado como se a
ala fosse lacrada sob pressão. Ao abrir-se, deixou escapar uma pequena
nuvem azulada ao redor dos batentes, visível somente pelo lado de tora.
— Esta é a entrada para a câmara de descontaminação e proteção —
talou Ana. — Nela passaremos por um processo que eliminará as formas
contamináveis que carregamos conosco e nos protegerá contra outras que
possam existir dentro da ala. Passamos por esta ante-sala ao entrarmos e ao
sairmos da sala de moléstias infecciosas a fim de evitar a entrada de germes,
assim como para evitar a saída de pessoas eventualmente contaminadas de
setor.
Ao atravessarem a porta, Guilherme sente como se estivesse passando
sob um turbilhão que soprava de cima para baixo. A doutora Ana explicou:
— Esta é uma cortina energética que faz uma limpeza preliminar mais
grosseira, superficial que busca e elimina quaisquer formas contaminantes
de germes mais expostos.
Após atravessarem o turbilhão, a porta se fecha por trás dos três de
forma hermética e um vapor sutil se desprende das paredes, tornando a
atmosfera interna mais densa que do lado de fora. Lá dentro, as partículas
deste vapor são aspiradas e penetram nos pulmões, chegando à corrente
sanguínea, espalhando-se por todo o corpo, promovendo assim uma
descontaminação completa do corpo do visitante. O vapor inalado, ao
circular, alcança cada célula do corpo espiritual, eliminando qualquer
agente infeccioso existente. Guilherme pergunta assustado a Dra. Ana,
lembrando-se de algo:
— E os meus cordões prateados? Será que não foram prejudicados ao
fechar a porta?
— Não se preocupe. A porta hermética não danificará os seus
cordões. Ao contrário do que você pensa, a descontaminação se estenderá
também a eles. Mais aliviado com as explicações, Guilherme relaxa e
continua a ouvir as orientações da doutora.
— Agora, ao diminuírem os vapores, esta luz se acenderá e uma fina
película energética nos cobrirá individualmente, semelhante a um filme
plástico muitíssimo fino e transparente. Não se afobem com a sensação
passageira de sufocação, pois a película se internará, revestindo-nos e
protegendo-nos por fora e por dentro, cobrindo inclusive os pulmões e
intestinos, o processo não leva mais do que um segundo, mas traz um certo
desconforto para quem não está acostumado. Assim que terminar,
poderemos entrar na sala já sem nenhum risco para nós ou para os pacientes
internados.
Quando o processo de revestimento terminou, uma luz ver de se
acendeu e a porta interna se abriu. Entraram primeiro a Dra. Ana e Gustavo.
Guilherme entrou em seguida e se deparou com várias pessoas. Eram jovens
em sua maioria e estavam à espera da professora. Todos usavam uniformes
verdes, cor que identificava os alunos do setor de moléstias infecciosas.
Guilherme observa a si mesmo e nota que também usava semelhante
vestimenta. Ele nem notou que foi substituída no interior da câmara.
— Senhoras e senhores — falou a doutora, dirigindo-se ao pequeno
grupo de alunos que estavam em pé, ao redor de uma mesa onde havia um
paciente canino atento a todos os movimentos e sacudindo a cauda à espera
do retorno de Ana.
— Este é o nosso novo aluno, Guilherme. Ele nos acompanhará de
agora em diante.
Todos cumprimentam o recém-chegado e a doutora Ana retornou à
mesa para começar a aula, enquanto o Senhor Gustavo se manteve à
distância, observando.
Aproxime-se também, senhor Guilherme. Nós vamos começar com
uma aula sobre anatomia patológica antes de visitarmos as instalações —
falou a doutora Ana, enquanto pegava um instrumento cilíndrico com
tamanho e forma de uma caneta.
Ana, antes de começar a aula, pergunta ao cão:
— Está pronto, Café? Podemos começar?
Café, um cão sem raça definida, marrom escuro, abanou a cauda,
concordando em auxiliar nesta aula como já fez também em outras. Ele se
deitou voluntariamente sobre a mesa, deixando o abdome exposto aos
estudantes que o observavam admirados com a espontaneidade daquele
animal extremamente dócil e inteligente. A doutora Ana, utilizando-se
daquele instrumento cilíndrico, inicia sua aula apontando uma luz branca
que saía de sua extremidade para o abdome de Café, que não se movia
enquanto a aula era ministrada, apenas abanava a cauda feliz por estar
colaborando.
— Este cão, senhoras e senhores, é o nosso amigo Café. Ele acabou
de retornar a nós vitimado por uma enfermidade viral mortal para os cães na
Terra. E a Parvovirose, uma enfermidade de alta virulência, que acomete
cães sensibilizados por energias ambientais debilitantes. Estes vírus viajam
junto a estas energias, distribuindo-se amplamente aos receptores caninos.
Outra maneira de se transmitirem é através de vetores como moscas
domésticas, por exemplo, que também absorvem estas energias. E sabido
que este vírus esta amplamente difundido por quase todo o planeta, mas
apesar disso o número de cães acometidos vem diminuindo rapidamente.
Não obstante a grande população canina, somente alguns se enfermam,
mesmo não estando imunizados com vacinas. Eu pergunto aos senhores:
Por que, estando o vírus em abundância no ar, somente alguns se enfermam
e dos que se enfermam, poucos resistem e desencarnam?
Os presentes se olharam à espera de que alguém respondesse, mas
ninguém se atrevia, até que Guilherme levantou a mão e deu uma resposta
puramente acadêmica:
— Estes animais adoecem porque seu sistema imunológico está
debilitado e sua resistência às doenças está mais baixa.
— Muito bem, Senhor Guilherme.
Guilherme sorriu contente por acertar a resposta.
— Sua resposta está correta... — fez uma pausa — mas parcialmente,
por isso vou reformular a pergunta.
— Por que alguns animais se tornam mais susceptíveis às doenças do
que outros, isto é, o que faz baixar a resistência de alguns em relação a
outros que permanecem resistentes?
Novamente se entreolharam à espera de que alguém respondesse.
Olharam para Guilherme que parecia ser o mais extrovertido e disposto a
responder. Guilherme sentiu-se encabulado com todos olhando para ele e
ficou ruborizado, preferindo não dizer nada, pois estava entendendo que a
resposta não deveria ser acadêmica, mas ser algo relacionado às energias
espirituais, coisa que não se aprende na faculdade de veterinária. Então uma
moça de seus vinte e poucos anos, pele muito alva, grandes olhos castanhos
e cabelos negros e espessos levanta a mão e responde:
— A resistência do animal cai proporcionalmente à quantidade de
energias pesadas e perturbadoras que são absorvidas por ele por estarem em
grandes concentrações no ambiente.
— Muito bem, Sra. Margaret. Isto mesmo. Esta é a resposta que eu
esperava ouvir. Somente uma alteração energética é capaz de obstruir a
energia vital que deixa de circular parcial e gradualmente pelo corpo do
enfermo. Estando encarnados, nós os seres humanos vivemos em constantes
trocas de energias através de nossas relações sociais. Estas trocas podem ser
positivas ou negativas. Uma e outra são absorvidas e se acumulam ao nosso
redor em forma de camadas que se sobrepõem. Se estas energias forem
preponderantemente negativas, podem causar efeitos negativos sobre nossa
saúde, algumas vezes. Quando passamos por situações que nos desagradam,
podem ocorrer explosões de raiva. Com estas explosões expandimos parte
destas que se impregnam no ambiente, podendo atingir pessoas, animais e
vegetais próximos ou a distância. Quando nos desequilibramos
emocionalmente, até em pensamento, também enviamos estas energias ao
ambiente. Pessoas menos preparadas, ao receberem este tipo de energia,
podem se intoxicar com elas, fazendo diminuir a atividade dos glóbulos
brancos que, apesar de aumentarem em quantidade, se tornam ineficientes
em seu trabalho de defender o corpo contra os germes ambientais. Deste
modo os glóbulos brancos tornam-se apáticos por estarem intoxicados e
trabalham muito lentamente. Com isso também a produção de substâncias
de defesa do organismo é feita em pequenas quantidades, dificultando o
ataque aos invasores que encontram o caminho livre para sua ação deletéria.
Esta energia densa é uma das preferidas dos seres espirituais que vivem na
escuridão, por isso ao menor sinal de debilidade física ou emocional, se
aproximam para sugar as energias vitais contaminadas. O enfermo se toma,
então, vítima de dois tipos de parasita até se esgotarem as forças e seu
organismo entra em colapso.
Os germes patogênicos são materializações de germes astrais
compostos de energias pesadas. Estão, sob o aspecto de vírus ou bactérias
ou outros agentes infecciosos...
Professora? — perguntou Guilherme — os agentes infecciosos não
são seres vivos?
— Sim, são mesmo, mas sua carga energética negativa os torna tão
perigosos como se fossem bombas de extrema potência prestes a explodir
porque agem em conjunto, multiplicando a quantidade desta energia densa.
A cada vinte minutos, surge uma nova geração de bactérias, por exemplo,
aumentando a carga energética perigosamente. As bactérias não patogênicas
são as que, antes de se materializarem, estavam sintonizadas com energias
mais leves e positivas, por isso na maioria das vezes não causam
enfermidades, isto é, podem se tornar patogênicas se se contaminarem com
aquelas energias das quais falávamos há pouco.
Neste instante outro aluno levanta a mão para perguntar:
— Senhora Ana, a senhora está querendo dizer que os animais que
vivem em nossa companhia adoecem em função de nossas energias,
pensamentos e atitudes?
— Sim, senhor Erico. O senhor está correto, pois somos responsáveis
pela boa ou má saúde de nossos companheiros animais. Eles adoecem
quando absorvem grande parte destas energias do ambiente. De modo geral,
o fazem quase que voluntariamente em nosso favor.
— Como assim?
— Quando os animais reencarnam em determinado lar, já sabem que
talvez tenham que absorver energias deletérias. Além disso, aceitam
adoecer em nosso lugar, absorvendo as piores energias que carregamos
conosco. Isto significa que a presença deles purifica o ambiente, mas os
torna sensíveis a doenças, livrando seu dono de perder a saúde de modo
heroico. E quando seu dono se sensibiliza emocionalmente, ao ver seu
companheiro sofrendo, muda seu padrão de pensamento que se toma
automaticamente mais leve, dispersando aquele mais pesados. Com estas
mudanças, a saúde do animal pode retornar.
Após as explicações de Ana, os alunos fizeram silêncio. Ficaram
preocupados em saber se já não causaram algum mal a seus animais com
seus pensamentos.
— Mais alguma pergunta? Se não, podemos passar ao exame do
nosso amigo Café.
Voltando a apontar o objeto com extremidade luminosa para Café,
Ana pede aos alunos que observem como agem os vírus causadores daquela
enfermidade.
— Observem aqui os intestinos, o fígado, a boca e o estômago de
nosso amigo e a quantidade de vírus nestes locais. Por serem mais materiais
do que energéticos, precisam entrar no organismo através de aberturas
naturais como a boca e as narinas para atingirem outros órgãos.
Enquanto Ana falava, formou-se uma tela fluídica como de uma
grande televisão que mostrava de forma ampliada as estruturas apontadas
pelo instrumento, como se aquele fosse uma pequena câmara filmadora.
— Vejam a tela enquanto aponto as estruturas envolvidas — pediu
Ana aos alunos que dirigiram os olhares à projeção formada ao lado da
mesa onde estavam — observem este vírus. Notem o halo negro ao seu
redor, que parece ter consistência de tão denso. Na projeção, o abdome de
Café torna-se transparente sob a ação do delicado aparelho empunhado por
Ana, deixando à vista os órgãos dentro da cavidade abdominal.
— Este halo, senhores, tem um diâmetro que varia de uma espécie
para outra de germes, de acordo com a sua patogenicidade, isto é, de acordo
com a sua capacidade de provocar doenças.
Na tela surgiam, automaticamente, gráficos que mediam o diâmetro
do halo e o seu valor numérico.
— Este vírus, por exemplo — continuou Ana — tem neste halo um
raio que equivale ao dobro do tamanho de seu corpúsculo.
Na tela surge uma tabela comparativa entre o valor dos halos e o
poder destrutivo do germe.
— Neste caso, o germe possui um poder deletério capaz de aniquilar
um cão em três dias. A energia individual contida neste halo energético, se
for somada com a dos outros corpúsculos virais existentes no enfermo,
resultará em uma energia com potencial destruidor extremo.
A doutora muda o foco do aparelho e o aponta ao estômago e depois
aos intestinos.
— Percebam o intestino delgado, ou o que restou dele...
Neste momento a Dra. Ana foi interrompida por uma aluna.
— Pois não, Ingrid — falou a professora, dirigindo-se à moça de
cabelos loiros, quase brancos, como é comum entre os descendentes de
alemães.
— Por que estando já desencarnado, Café ainda apresenta estas lesões
tão graves em seu corpo espiritual? Para mim parece estar tão bem de
saúde!
Ana desliga o aparelho e a tela temporariamente enquanto dá
explicações à aluna, que está preocupada com Café.
— Café é um companheiro nosso de longa data e sempre está
disposto a colaborar e nos auxiliar. Desta vez, aproveitando seu retorno
recente, ele concordou voluntariamente em nos deixar estudar suas lesões
consequentes à enfermidade que o vitimou, antes de ter seu corpo espiritual
submetido aos tratamentos de reparação corporal e desmaterialização dos
vírus. Ele recebeu uma carga energética que funciona como uma espécie de
anestésico para não sentir dores e faz com que sejam retiradas de sua
memória as últimas sensações, dolorosas para ele. Assim podemos
examiná-lo sem que ele sinta qualquer desconforto. Café é um animal muito
consciente de si, por isso pedimos sua permissão para retardar este processo
para nos fornecer material didático. Ele concordou plenamente e agradeceu
a oportunidade de ser útil.
Dizendo isso, ouviu-se o latido alegre de Café enquanto ele abanava
sua cauda mais forte como sinal de que o que a dra. Ana dizia estava
correto.
— Professora? — interrompe novamente Ingridi para fazer outra
pergunta interessante.
— Parece que a senhora conversa com os animais e que há um
entendimento mútuo entre vocês. Como isso ocorre?
Ana pára por um instante, medita um pouco antes de responder.
— A linguagem do pensamento é universal. Então podemos
conversar com qualquer ser e eles nos respondem de forma inteligível. O
que nos falta é algum discernimento para que aprendamos a distinguir o que
são os nossos e o que não são os nossos pensamentos. Assim não
confundiremos esta comunicação com imaginação ou fantasia. Nós
podemos entendê-los e eles podem nos entender por pensamento. E
somente uma questão de treinarmos nossas percepções. Se vocês quiserem e
Café concordar, poderemos praticar um pouco esta habilidade.
O cão deu outro latido bem sonoro, dizendo que estava de acordo.
— Você percebeu como eles nos entendem facilmente, enquanto nós
temos dificuldades em entendê-los? Neste aspecto eles estão bem mais
adiantados que nós, pois nós percebemos apenas alguns sinais seus como
latidos, ou expressões que fazem, ou quando abanam a cauda, mas
dificilmente entendemos o que dizem por pensamentos.
Ana religa o aparelho e a tela fluídica e retoma a aula.
— Então, voltando ao tópico anterior notem o intestino delgado.
Neste momento aponta novamente o aparelho fazendo um reajuste de foco
para que a alça intestinal torne-se realçada em cores que se destacam na
tela.
— Vejam o aspecto microscópico desta mucosa intestinal. Parece que
aqui foi jogada uma bomba atômica. As células e microestruturas foram
totalmente destruídas e o aspecto do que restou lembra realmente os
escombros de uma explosão atômica. Através destas lesões extensas
podemos ter ideia do potencial destruidor e da energia contida nestes
germes. Notem a nuvem escura que se formou internamente ao organismo
de Café. E a somatória daqueles halos energéticos observados de cada vírus,
individualmente, há pouco. Se um outro cão sensível e predisposto entrar
em contato com esta, também se tornará debilitado e com certeza adquirirá
a enfermidade ou sofrerá algum mal estar. O médico veterinário entrará em
contato direto com esta energia durante a consulta e o tratamento do animal
enfermo, por isso ele deverá estar muito bem centrado em seus objetivos
terapêuticos a fim de tentar a cura do animal, deixando o aspecto financeiro
em segundo plano sob o risco de contaminar-se com estas energias.
Outro aluno levanta a mão e pergunta a Ana:
— O veterinário deveria trabalhar sem pensar em cobrar pelos seus
serviços? Mas é a sua profissão e estudou para isso, não seria lícito, em
minha opinião, agir desta forma. A senhora não acha que ele estaria
deixando de ser caridoso com ele próprio? — perguntou a aluna Olinda.
— Não entenda mal. Eu não estou querendo dizer que o veterinário
não deva receber seus proventos pelos serviços que está prestando. O que
quero dizer é que o médico veterinário deve deixar esta preocupação para
após a consulta e tratamento, pois os pensamentos materialistas projetados
durante a análise e tratamento poderão formar uma solução de continuidade
com estas energias mais densas, criando uma espécie de ponte ou uma
comunicação energética perigosa entre médico e paciente que poderia
prejudicar a saúde do veterinário — explicou Ana aos alunos, que são em
sua maioria veterinários na Terra e à aluna preocupada com a possibilidade
de talvez mudar de profissão.
— Voltando ao vírus, quero que vejam esta energia que se forma aqui
— continuou Ana, mostrando com o aparelho manual que projetava a
imagem na tela — notem esta nova energia que vem se formando e
envolvendo aquela energia escura vista anteriormente. Vejam como está
aumentando e ganhando espaço. Notem que, apesar do aspecto sutil e
suave, está vencendo a outra mais pesada facilmente.
Ana mostra na tela a nuvem clara como neve que refletia as luzes da
sala, e se avolumava rapidamente.
— Esta nuvem é de origem externa em sua maior parte — uma parte
dela é originada do próprio animal que está lutando por sua vida e suplantar
a virose que o consome; outra parte pode vir de seus donos que desejam
muito que seu companheiro não pereça. Outra ainda pode ser do médico
que está atendendo o animal e também deseja ter sucesso sobre a
enfermidade e finalmente o restante vem de todas as partes do planeta a
partir das orações e pedidos de milhares de pessoas em favor dos animais.
São aquelas que se preocupam com todos os animais do planeta,
indistintamente, e pedem por sua saúde. Mesmo as que não são muito
amigas de animais, mas fazem orações a São Francisco de Assis, sem saber,
enviam parte da energia destas orações aos animais enfermos e debilitados
que em muitos casos se recuperam mesmo sem ajuda médica.
— Neste momento a maioria de nós está preocupada com Café, que
está pacientemente sendo examinado por nós. Muitos estão penalizados
com o aspecto de suas lesões. Com isso estamos enviando a ele,
inconscientemente, nossas melhores energias e ele está se recuperando antes
da aula terminar. Por isso, como o que era mais importante já foi dito,
vamos acompanhar a sua recuperação.
Então voltou a mostrar na tela as nuvens agindo sobre os órgãos de
Café, regenerando-os tanto no aspecto microscópico quanto no
macroscópico. O aparelho, ao modo de uma câmara filmadora minúscula,
mudou o foco para verificar a ação daquela nuvem clara que adquiria um
tom esverdeado, à medida em que avançava sobre a energia escura
consumindo-a.
A Dra. Ana, aproveitando OS últimos instantes de aula, brincou com
Café, fazendo cócegas em sua barriga, agradecendo-lhe a colaboração.
Café, alegre, latiu e virou-se de um salto sobre as quatro patas para, a
seguir, rolar sobre a mesa enquanto os alunos o acariciavam em gratidão.
Ingrid deu-lhe um grande abraço e disse mentalmente a Café: Obrigada,
Cafezinho. Sou-lhe muito grata pelo que fez por nós e espero retribuir-lhe à
altura algum dia.
Então, ouviu em seus pensamentos um latido e uma voz rouca como
se fosse a voz de uma pessoa com dificuldade em pronunciar palavras, que
dizia:
— Você já retribuiu estando aqui, agora.
A seguir recebeu de Café uma grande lambida no rosto e nas mãos.
Uma lágrima de alegria rolou em sua face. A seguir, abraçou-o novamente e
deu-lhe um beijo na cabeça.
Os outros alunos nada entenderam, mas Ana percebeu o que
aconteceu e, fez um sinal com a cabeça e deu uma piscadela para Ingrid
como que dizendo: — Muito bem, você entendeu.
Ao final, a professora Ana mostrou as instalações da sala de
tratamento de moléstias infecciosas e os outros animais internados. Mostrou
como funcionavam os aparelhos e para que ser via cada um deles, além de
recomendar a cada um que retornasse no dia seguinte com o senhor
Gustavo, pois iriam ter aulas externas, isto é, fora do rancho. Saindo da sala,
passaram para a ante-sala novamente, onde foram retiradas as películas
protetoras e devolvidas as roupas comuns. Guilherme não retornou para
casa, mas foi ao encontro de Cláudia que estava em companhia de Luciana.
Na Fazenda

Estavam observando Carlos, o dono de Formosa. Estava desdobrado e


abraçava sua égua, enquanto chorava copiosamente, se lamentando.
— Desculpe-me, Formosa, eu não queria lhe abandonar — dizia isso
com a voz quase sem força entre soluços de dor e tristeza — mas foi melhor
assim. Você vai ficar melhor com o doutor que vai alimentar e cuidar de
você. Quanto a mim, estou à beira de morrer e não queria que você ficasse
sozinha neste mundo. Não queria que você morresse comigo, por isso dei
você a ele. Carlos chorava alto como se fosse uma criança desamparada.
— Eu sei que estava sendo agressivo com você, mas não me odeie
por isso. Você foi a única “pessoa” que me compreendeu e me aceitou e eu
retribuí com agressões. Desculpe meu descontrole. Não suporto mais
viver... — e ouvem-se mais choro e mais soluços de Carlos.
As duas que estavam de longe, sem que Carlos notasse a presença
delas, também estavam em lágrimas, comovidas pela cena que assistiam.
Guilherme aproximou-se lentamente do grupo e perguntou a Cláudia o que
estava acontecendo e o que perdeu. Cláudia, então, sussurrando, explica ao
noivo:
Ficamos sabendo que Formosa era a égua preterida de Carlos antes de
ele perder a memória na época em que era um rico dono de terras. Com o
desaparecimento de seu dono, Formosa tornou-se um animal furioso e
incontrolável, que atacava quem se aproximasse. Pensaram que tivesse
contraído raiva, apesar de ser vacinada. Uma vez viu a esposa de Carlos e a
escoiceou gravemente, sendo levada ao hospital. Ela tomou-se uma ameaça;
então, resolveram matá-la a tiros. Formosa viu a movimentação ao seu
redor, percebeu o que queriam fazer e de algum modo conseguiu saltar por
sobre a sua baia, correu para o pasto arrebentando várias cercas e porteiras
até conseguir fugir. Foi perseguida, mas escapou, escondendo-se na mata e
entre as plantações de cana. Estava muito ferida e com a pele cheia de
cortes causados pelos arames. Foi encontrada por um sitiante da região que
cuidou dela até melhorar um pouco, mas por estar muito agressiva, ninguém
a queria por perto. Foi levada ao sítio de um amigo que a aceitou a
princípio. Certo dia, Carlos estava coincidentemente passando pela estrada
ao longo deste sítio, quando Formosa percebeu sua presença e correu em
sua direção alegre e o acompanhou relinchando para ele como se o
chamasse. Estava feliz por rever seu dono. O sitiante, notando o interesse
do animal por aquele homem desconhecido, ofereceu-a a ele que aceitou. A
partir de então, se tornaram quase inseparáveis. Mas Carlos, após algum
tempo, entrou em depressão desejando morrer. Soltou Formosa para que ela
fosse embora e voltasse para seu antigo dono que ele não sabia que era ele
mesmo. Como Formosa recusava-se a partir dali, passou a maltratá-la a fim
de que passasse a odiá-lo e o abandonasse. Maltratava fisicamente,
exagerando na quantidade de carga que ela poderia carregar. Mas Formosa
o amava. Amarrava cordas apertadas a fim de feri-la, mas Formosa não
queria deixá-lo e continuava leal.
Naquele momento em que o grupo estava reunido ah observando
Carlos desdobrado em espírito, Guilherme sentiu-se tocado não somente
pelo que estava presenciando, mas também por que já conhecia a história de
Carlos através do senhor Gustavo. Então, aproximando-se lentamente,
tocou no ombro daquele homem com quem teve o desencontro pela manhã,
olhou em seus olhos e pediu que o perdoasse.
— Por favor, senhor. Eu venho pedir que me perdoe pelo que fiz. Eu
gostaria de poder ajudá-lo, se me permitir, para redimir minha culpa.
Carlos notando sinceridade nas palavras do médico disse:
— Por favor, não se desculpe, pois a falta foi minha. Acovardei-me
diante da vida e queria que alguém me livrasse de suas garras — lamentou-
se Carlos.
Fez uma pausa, enxugou os olhos com as mãos e continuou:
— Quando estarei livre deste sofrimento? Eu era feliz e rico ao lado
de uma linda e fiel esposa. Repentinamente me vejo vítima da mulher que
mais amei. Fiquei sem um lar, sem amigos, sem nada...
Voltou a soluçar e abraçou Guilherme em prantos, pedindo que ele o
perdoasse por tentar jogar sobre ele uma responsabilidade que não tinha
forças para carregar sozinho.
Por isso tentou incitá-lo a eliminá-lo da vida.
Então, ambos se abraçaram e choraram juntos.
Guilherme disse:
— Farei o que estiver ao meu alcance para ajudá-lo a se recuperar. Sei
que você é uma boa pessoa e precisa ter amigos nos momentos difíceis.
Pode contar comigo, amigo...
Carlos balbuciou palavras quase ininteligíveis entre soluços, dizendo:
— Amigo... Somos amigos?
— Sim, assim eu o considero.
— Faz tanto tempo que não ouço alguém me dizer esta palavra. E
comovidos abraçaram-se. Cláudia e Luciana se aproximam e o abraçam
também. Guilherme diz:
— Todos somos amigos e um amigo nunca abandona o outro.
Ao dizer isso, notou Formosa agitada e disse-lhe:
— Você também é nossa amiga, por isso não a abandonaremos e não
deixaremos que você se separe de Carlos.
Guilherme, então, ouviu uma voz feminina muito distante que parecia
ir diretamente ao seu cérebro e dizia:
— Muito obrigada. Agradeço por ajudar meu mestre. Guilherme
arregalou seus olhos, surpreso pelo que acabava de ouvir, como se estivesse
se esforçando para ver se não era sua imaginação, então, abraçou Formosa e
entendeu que era dela a voz que ouviu.
Guilherme e os outros se afastaram de Carlos e de Formosa e
desapareceram. Carlos voltou a abraçar Formosa e ficou em sua companhia
até o amanhecer.
Mal raiou o dia e Carlos foi surpreendido por uma visita inesperada
que o encontrou dormindo entre algumas moitas de uma praça da cidade.
Era Guilherme, que viu como era difícil a vida de Carlos, entre folhas de
papelão e jornais velhos para aquecer-se. Olhando ao redor, viu que nem
tinha o que comer e o que vestir. Espalhados pelo chão, pedaços de trapos
com que se aquecia nas noites frias. Ao seu lado havia uma caixa de sapatos
que Guilherme abriu. Dentro, havia um pedaço de osso de boi com alguns
pedaços de carne que achou no lixo de um restaurante à beira da estrada, e
economizou para comer mais tarde. Na mesma caixa, uma espiga de milho
mastigada parcialmente e alguns pedaços de cana, que são abundantes
naquela região. Era tudo o que tinha para comer.
— Por isso ele estava com dificuldades em me acertar o soco e caiu
com tanta facilidade com o meu. Está muito fraco e, apesar de sua grande
estatura, não suportaria outro soco como o que recebeu de mim. Talvez eu o
tivesse matado se desse outro. Que grande canalha sou — pensou
Guilherme.
Quando Guilherme mexeu na caixa, acabou acordando Carlos que se
surpreendeu com sua presença.
— O que o senhor quer de mim? Quer levar o resto do que tenho? —
perguntou Carlos com uma voz fraca e melancólica — a minha fortuna está
toda dentro desta caixa de sapatos — falou, em tom de sarcasmo
depressivo.
— Não, meu amigo... — falou Guilherme que foi interrompi do por
Carlos:
— Você está enganado, pois eu não tenho amigos. Sou um ninguém
de quem todos querem distância falou com a voz embargada.
— Meu amigo, insistiu, vim até aqui para pedir desculpas pelo que fiz
e peço humildemente que me perdoe e aceite uma proposta que tenho para o
senhor — falou Guilherme ao homem que o fitava mudo e incrédulo.
— Esta manhã, antes de o sol nascer, estive na fazenda de um amigo
meu que está precisando de alguém forte como o senhor para trabalhar para
ele. O salário não é muito grande, mas ele oferece uma casa, roupas e
comida, pois todos os empregados almoçam e jantam em companhia dos
patrões. Só preciso saber se aceita, pois sua égua já está lá e com saudades
do senhor.
Quando Guilherme falou sobre o animal, os olhos de Carlos
brilharam, ele ergueu-se rapidamente e perguntou afobado:
— Como ela está? Está bem? Está comendo? Ainda sente muita dor?
As feridas estão sarando?
— Calma senhor...
— Carlos. Carlos é o meu nome.
— Pois bem, senhor Carlos, eu sei que deve estar preocupado com
ela, por isso acho melhor certificar-se pessoalmente de seu estado. Se quiser
me acompanhar, podemos ir para lá imediatamente.
Carlos concordou em acompanhar o doutor. Pôs-se em pé, recolheu
seus pertences, os colocou na caçamba da caminhonete de Guilherme e
seguiram em direção à fazenda.
Ao chegarem, foram recebidos pelo senhor Mataveira, filho do
falecido Gustavo. O senhor Mataveira recebeu Guilherme que apresentou
Carlos dando-lhes as boas-vindas.
Carlos, muito tímido, sentiu-se encabulado com a calorosa recepção.
— Seja bem-vindo, senhor Carlos, à minha humilde casa.
Carlos cumprimentou Mataveira, mas olhava através da porta da casa
como se estivesse procurando algo. O dono da fazenda entendeu o que ele
procurava e disse:
— Eu sei que o senhor deve estar querendo ver a égua, então, vamos
até lá?
Saindo da casa, andaram por uma curta estrada de terra que vai até as
baias dos cavalos. Ao entrarem, foram a uma baia especial para cavalos
doentes. Era toda isolada, e forrada por um revestimento de espuma
lateralmente e com palha macia no chão. Lá estava ela, a amiga de Carlos,
tomando soro na veia aplicado pelo doutor Guilherme durante a madrugada.
Ela já mostrava sinais de melhora e animou-se ainda mais após perceber a
presença de seu ‘mestre’. Formosa tornou-se agitada e somente se acalmou
quando seu dono se aproximou e a acariciou e a beijou na cabeça. Formosa
fechou os olhos para sentir aquele carinho que estava recebendo daquele a
quem considerava como um deus. Carlos a abraçou e ficou assim em
silêncio enquanto lágrimas rolavam pelo seu rosto. O senhor Mataveira
interrompeu o silêncio, dizendo:
— Nossa amiga...
— Formosa é o nome dela... — falou Carlos.
— Nossa amiga Formosa não pode ficar sem seu melhor amigo.
Gostaríamos que o senhor aceitasse ficar conosco aqui na fazenda e nos
auxiliasse a cuidar dela enquanto se recupera. Mas se depois que ela estiver
boa, ainda assim o senhor quiser partir, terá toda liberdade. No entanto,
gostaríamos que ficasse para cuidar, não somente dela, mas também dos
outros animais da fazenda.
Carlos olhou para o senhor Mataveira e fez que sim com a cabeça.
Este pediu ao senhor Carlos que o acompanhasse para lhe mostrar onde
passaria a morar daquele dia em diante. Era uma colônia de empregados da
fazenda, com oito casas geminadas; cada uma tinha um quarto, uma cozinha
simples, mas de bom gosto, e um banheiro igualmente simples, mas com
muita higiene. No quarto havia um guarda-roupa com calças, camisas e
botas de vários tamanhos.
— Por favor, escolha alguma destas roupas e botas, que lhe sirvam.
Banhe-se, barbeie-se, pois daqui a pouco minha esposa nos chamará para o
almoço e gostaria que o senhor participasse conosco.
Carlos deu um sorriso de agradecimento e Mataveira saiu, deixando-o
à vontade em sua nova casa.
Carlos dirigiu-se rapidamente ao banho. Já nem se lembrava mais
quando tinha tomado um banho de chuveiro antes. Tal vez nem tenha
tomado algum desde que bateu a cabeça. Com a mesa posta, Carlos surgiu e
nem parecia o mesmo, de banho tomado e barba feita. Mais tarde a esposa
de Mataveira se encarregou de cortar-lhe os cabelos excessivamente longos.
E deu-lhe um chapéu. Ele mal podia acreditar naquilo que estava
acontecendo. Nem cabia em si de tanta felicidade. Convidado ao almoço,
sentou-se timidamente, mas comeu como se fosse sua última refeição.
Todos pararam para olhar para ele, que desculpou-se por seus modos à
mesa, mas estava faminto. Após o almoço, o senhor Mataveira o convidou a
conhecer a fazenda e indicar-lhe as tarefas que esperava que fizesse além de
cuidar de Formosa. Após alguns dias, Formosa já estava totalmente
recuperada e Carlos quis continuar na fazenda em companhia dos novos
amigos. Era muito esforçado, trabalhava duro o dia todo e cuidava muito
bem dos animais.
Tinha habilidade com tudo como se já conhecesse a rotina de uma
fazenda. O senhor Mataveira notou o dinamismo de Carlos e ficou muito
contente, pois estava sempre se movimentando e fazendo algo. Nunca
deixava para depois algum trabalho e ficava atento a tudo na fazenda, para
não deixar nenhum serviço para trás.
O tempo foi passando e Carlos, sempre dinâmico e observador
procurou o senhor Mataveira para sugerir que fizesse uma integração de
produção, aproveitando resíduos que normalmente eram descartados como
lixo. Isso que era desprezado como refugo era, na verdade, alimento rico em
proteínas e vitaminas que serviriam de alimento aos animais. Representaria
uma grande economia de ração e uma suplementação nutricional de alta
qualidade. Sugeriu que fossem criadas abelhas no pomar para aumentar a
produção de frutas, que os resíduos das galinhas da granja fossem dadas aos
peixes como ração, pois continham muita proteína. Advertiu para que as
ovelhas não fossem colocadas com os bovinos, pois elas comem até as
raízes da grama, não deixando alimento suficiente aos bovinos. Carlos fez
diversas outras sugestões de medidas de economia. Mataveira admirou se
com a atitude e o conhecimento de administração rural daquele ex-morador
de rua. Analisou bem e aceitou as sugestões. Rapidamente os lucros da
fazenda se multiplicaram, tornando-se ainda mais próspera. Aumentaram as
produções de ovos, frutas, mel, peixes e as vacas, sua produção leiteira.
Carlos era um administrador nato.
Tudo na fazenda estava sendo reaproveitado, representando uma
economia cada vez maior. Com o passar do tempo, o senhor Mataveira
aumentou seu salário, pois se tornou o administrador da fazenda. Com isso
e com a economia que fez, comprou alguns lotes de terra do patrão e
começou seu próprio negócio em parceria com ele.
Com o passar dos anos tornou-se próspero novamente, tal como era
antigamente.
Animais Assustadores

Guilherme voltou da fazenda do senhor Mataveira, naquele dia em


que apresentou-lhe Carlos, feliz com a sensação de ter feito algo bom.
Conseguiu um emprego para o novo amigo e um lar para Formosa.
Guilherme naquele dia não falava de outra coisa e não se cansava de contar
a João Rubens e à Cláudia como Carlos ficou diferente depois de tomar
banho e fazer a barba, deixando aquela imagem de pessoa tosca e grosseira.
Ele repetia que, na verdade, Carlos era muito simpático principalmente com
os animais.
O assunto do dia foi Carlos e Formosa que estava se recuperando
muito rapidamente.
Ao final do dia, ao sair da clínica, Guilherme passou no apartamento
de Cláudia para irem ao cinema e a uma lanchonete, onde poderiam
conversar sobre amenidades.
Já noite, Guilherme retornou ao lar e preparou-se para dormir e
retornar, ainda que não soubesse conscientemente, ao rancho para adquirir
mais conhecimentos que se armazenavam em seu subconsciente. Em estado
de vigília, sequer sabia da existência deste local na dimensão espiritual.
Após deitar-se, Guilherme caiu logo em sono profundo. Seus olhos
começaram a se mover rapidamente sob as pálpebras semifechadas. O
corpo tremia em movimentos musculares involuntários que ocorriam em
feixes que se evidenciavam por contrações de braços e pernas, enquanto se
revirava na cama. No momento em que ocorriam estes eventos no corpo
físico, Guilherme chegava em espírito ao hospital veterinário do “rancho”,
O senhor Gustavo o esperava, mas não notou a presença da professora Ana
e dos outros alunos.
Onde estão todos? Será que me atrasei? — perguntou Guilherme ao
amigo.
— Sim. O senhor está um pouco atrasado .Todos já foram ao prédio
da biblioteca de onde partirá a excursão de aulas práticas falou o senhor
Gustavo, apontando para o prédio ao qual Guilherme deveria se dirigir
rapidamente O prédio da biblioteca era muito grande. Tinha o estilo
renascentista com longos corredores e escadarias largas de madeira muito
bem trabalhadas Rica em detalhes, as paredes eram esculpidas em relevo e
cobertas por quadros famosos da mesma época. O piso de mármore claro,
muito bonito, mas também era escorregadio, como se fosse encerado. O
médico entrou correndo pela entrada principal. Sem saber para onde se
encaminhar, perguntou à primeira pessoa que encontrou. — Para onde foi a
professora Ana e os alunos?
— Foram ao terceiro andar e já estão de saída respondeu a mulher que
Guilherme encontrou e que passava despreocupadamente por ali,
carregando consigo volumes literários de autores desconhecidos por nós
aqui na Terra.
Guilherme dirige-se ainda mais apressado ao terceiro andar, pelas
escadas, pulando os degraus de dois em dois de cada vez, chega ao terceiro
piso do prédio, mas pisa em falso no chão liso, escorrega e cai sentado.
Desconsertado, olha ao redor para ver se alguém o estava observando e
continua a correr em direção ao final do corredor.
Por correr naquele piso liso, ao se aproximar do batente, não
conseguiu parar e escorregou de novo, sem cair desta vez. As pessoas, de
dentro da sala, viram Guilherme passar escorregando pelo corredor e
avisaram ao professor da chegada do atrasado. Ao entrar, estava ofegante,
mas conseguiu cumprimentar a todos com acenos e desculpou-se com a
professora Ana. Tendo chegado o último aluno que faltava, iniciam a
escolha dos locais da excursão.
— Senhor Guilherme, o senhor é o único que ainda não indicou a
ficha de destino. Por favor, escolha uma das propostas.
Guilherme a fim de não perder mais tempo, pegou a primeira ficha
que encontrou sem se preocupar com o destino inscrito nela, e juntou-se aos
demais.
— Vamos formar grupos de acordo com as cores das fichas. São
quatro cores e cada grupo formado seguirá ao portal correspondente,
acompanhado por um professor. Dependendo de onde forem, peço que não
se afastem uns dos outros, pois pode ser perigoso.
O cartão de Guilherme era vermelho, então reuniu-se aos outros de
seu grupo.
— Os vermelhos, venham por aqui — chamou o professor Anésio,
que se apresentou em seguida e deu seus avisos costumeiros.
— Meu nome é Anésio e vou acompanhá-los a esta excursão. Para
onde vamos, teremos oportunidade de observar, mas não poderemos tocar
em nada. Procurem não se afastar uns dos outros. As anotações devem ser
feitas na volta, pois os alunos precisam ficar atentos aos perigos da viagem.
Em caso de perigo ou pânico, acionem o botão vermelho, bem à frente,
sobre o painel do veículo de que estaremos nos servindo durante o passeio.
Evitem olhar fixamente nos olhos das pessoas que encontraremos e não
tentem falar com elas. Uma tentativa de contato direto pode ser interpretada
erroneamente e prejudicar a excursão. Faremos o máximo silêncio possível.
Por favor, não conversem uns com os outros e nem comigo durante o
trajeto. Quando voltarmos, estarei à disposição para responder a quaisquer
perguntas. Seremos acompanhados por uma equipe de segurança, na ida e
na volta, nos protegendo de eventuais incidentes com os habitantes da
região. Esta equipe está armada com instrumentos eletromagnéticos capazes
de atordoar ou no mínimo assustar algum intruso que tente ser hostil
conosco. Quanto aos animais que encontraremos, nada temam, pois apesar
das aparências, a maioria é inofensiva, no entanto alguns podem ser
agressivos. Por isso, é preferível não tentar tocá-los. A aparência deles não
é agradável, mas não se assustem, pois os senhores não estarão sozinhos.
No entanto, como já foi dito, se houver pânico, lembrem-se do botão
vermelho, que uma vez acionado, abrirá um portal interdimensional
individual que conduzirá o aluno, e só o aluno, de volta à biblioteca, sem
riscos. Quando o botão de pânico é acionado, a desinfecção é feita
automaticamente naquele que o acionou, pois o por tal, ao ser utilizado, já
faz a assepsia do aluno que o utiliza. Mas os que ficarem, não deixem de
usar no final da excursão o dispositivo desinfetante do traje. Os senhores
receberão uma película protetora sobre a pele, semelhante àquela usada na
ala de moléstias infecciosas, para que não se contaminem ou que tragam
contaminantes para esta dimensão. Antes de sairmos, receberão também
esta roupa especial protetora, pois a película por si só não é garantia de
proteção. Estas medidas são necessárias porque a energia densa do local
algumas vezes consegue desintegrar a película falou o professor Anésio,
concluindo suas advertências.
Os alunos, atentos, estavam pasmos. Surpresos com informações tão
graves a respeito da primeira aula prática, fora do rancho. Parecia-lhes que
seria muito perigosa.
Um tanto temerosos, apesar das recomendações, os alunos
comentavam, entre si, em voz baixa, sobre uma excursão tão arriscada. Para
disfarçar o nervosismo, alguns tentavam rir. Mas Anésio, sempre sério, não
achava graça.
— Parece que vamos fazer uma excursão ao inferno — falou um dos
alunos em tom de brincadeira, enquanto tentava esboçar com dificuldade
um sorriso meio sem graça.
— O inferno não existe, senhor Erasmo — observou Anésio,
mantendo a expressão austera — é somente uma obra de ficção da mente de
pessoas que queriam assustar outras, menos esclarecidas. Os senhores não
deveriam temer o inferno, pois não existe.
Os alunos já sentiram-se mais aliviados, quando o senhor Anésio
continuou.
— No entanto, o lugar para onde vamos é real.
Eles se olharam surpresos com a resposta direta do professor.
— Alguém tem alguma dúvida? Alguém quer mudar para outro
grupo? — perguntou se alguém preferia ir em outra excursão mais
tranquila. Mas ninguém queria desistir para não passar por medroso.
— Não? Então podemos ir. Já que estão todos seguros, podem vestir
estes trajes e me sigam, por favor.
Vestiram-se em silêncio e seguiram-no pela escadaria até o andar
onde estava preparado o portal com destino desejado. Ao chegarem à sala,
encontraram um ambiente vazio. Não havia móveis, nem janelas ou
estantes, nada. Somente uma porta no lado oposto, trancada com um grande
cadeado. Era uma porta toda entalhada com riquíssimos detalhes de figuras
estranhas, assustadoras, que permanecia fechada, talvez por medida de
segurança. Anésio parou entre a porta e os alunos.
— Senhoras e senhores... O umbral — falou o professor, enquanto
abria a porta lentamente, deixando ver o ambiente sombrio que se
descortinava.
Aproveitando o silêncio que persistia entre os alunos, paralisados pelo
temor, esclareceu alguns pontos que faltaram ser ditos.
— Senhores, ao ultrapassarem esta porta, entrarão em uma espécie de
hangar, com veículos que nos servirão de transporte. Não ponham as mãos e
nem os pés para fora do veículo. Segurem-se firmemente, pois durante as
manobras, ele se inclina e poderão se desequilibrar. Durante o trajeto, feito
automaticamente, os senhores permanecerão em pé. Será uma excursão
rápida, não deverá durar mais que cinco ou talvez dez minutos — falou
Anésio aos alunos que hesitavam em entrar. Coragem! E só um passeio
cultural. Irei à frente. Anunciou o orientador.
Após a passagem do professor, entraram um a um, temerosos, como
se estivessem pisando em ovos. Agruparam-se para ocupar os veículos que
poderiam comportar apenas três passageiros, cada um. Eram plataformas
metálicas redondas que refletiam a cor bronze, como se fossem feitos de
cobre com revestimento interno que parecia de chumbo. Circundando o
lado de dentro havia como se fossem corrimões metálicos. Os alunos
ficavam com dois terços do corpo protegidos pela plataforma, deixando
expostos acima dos corrimões o tórax, os braços e a cabeça. Nas laterais e
abaixo havia holofotes direcionáveis com poderosas lâmpadas cujo alcance
era de alguns quilômetros.
Ao acomodarem-se nos veículos, teve início o movimento de
decolagem, absolutamente silencioso. O único som que se ouvia eram silvos
produzidos por ventos gelados que cortavam o ambiente sombrio e
assustador, fazendo arrepiar cada fio de cabelo e trazia um odor muito forte,
como se houvesse ali milhares de corpos em decomposição.
O ambiente não era menos arrepiante. O céu escuro, acinzentado com
nuanças avermelhadas, pouco deixava ver o fraco contorno do sol, cujos
raios mal penetravam a densa atmosfera. Ali não existia o dia. Era sempre
noite. Havia esparsas nuvens cinza chumbo ou francamente negras naquilo
que parecia ser um céu, onde não existiam também estrelas. O horizonte era
fracamente definido, pois misturava-se com as densas nuvens escuras como
poeira suspensas e em movimentos circulares que formavam figuras
assustadoras ao sabor daquele vento cortante. O campo de visão não
ultrapassava alguns metros, devido à escuridão típica do local. Ouviam-se
lamentos e gemidos de dor agudos, gritos tão altos que vibravam nos
ouvidos. Ouviam-se também sons de pessoas correndo, como se
acompanhassem a plataforma em movimento, cujos sons pareciam ser
produzidos em um piso lamacento. Olhando para o que parecia ser O céu,
viam-se enormes corpos voadores com silhuetas pouco definidas. Suas asas
davam a ideia de animais como os grandes pterodátilos da pré-história. Não
passavam de vultos, quase sem contornos, que voavam emitindo sons
semelhantes a sussurros que metiam medo. Batiam as grandes asas durante
o voo, mas não se podia ouvi-las quando se moviam. Silenciosos, exceto
pelos sussurros, pareciam ilusões de ótica. A medida em que as plataformas
se deslocavam, vislumbrava-se contornos que pareciam copas de grandes
árvores, ao longo daquele horizonte quase indefinível. As supostas árvores
estavam mais próximas e delas se ouviam sons sibilantes como se fossem
produzidos por pessoa afônica, que tentava falar.
Eram como palavras sopradas sem sentido. Mais próximo, percebiam-
se movimentos ondulatórios entre os supostos galhos das árvores. Naquela
floresta tenebrosa, aquilo que se julgava árvores, após se acenderem os
holofotes, podiam ser vistos centenas, talvez milhares de seres cilíndricos
como serpentes com grandes cabeças e olhos vermelhos que faziam
movimentos constantes, entrelaçando-se uns com os outros, fixos pela
extremidade oposta em algo que poderia ser um tronco seco de uma árvore.
A plataforma passa tão próxima destes seres que por pouco o botão de
pânico não foi acionado por um dos alunos que estavam na mesma
plataforma de Guilherme.
Guilherme, no entanto, desobedecendo às recomendações, tenta tocá-
los com as pontas dos pés através de uma abertura lateral da plataforma,
mas não os alcança. O botão não foi acionado, pois a plataforma mudou de
direção, afastando-se daqueles seres estranhos. Diminuindo de altitude,
aproxima-se do solo em total silêncio, para a cerca de dois metros do chão e
aciona os holofotes potentes em sua direção. Neste instante a correria foi
geral entre os pequenos seres que tentavam fugir das luzes. Semelhantes a
ratos, suas cores não variavam muito, eram em sua maioria cinzas ou
pretos. A plataforma se aproxima mais e nota-se que o solo estava coberto
por milhões de seres parecidos com insetos ou baratas enormes que, ao se
atritarem produziam um som quase metálico, acompanhado por chiados
produzidos pelos vários animais que circulavam sobre aquele tapete de
insetos. A quantidade destes insetos era tão grande que deixavam ver muito
pouco da rara vegetação rasteira do local.
Subitamente, ouviu-se acima um grito de mulher, seguido de muitos
outros, como se houvesse muitas mulheres se aproximando das plataformas.
Acenderam-se as luzes superiores e seres alados, com enormes rostos
humanos, surgiriam horripilantes, acima dos excursionistas que ficaram
paralisados com aquelas aparições. Estavam tão próximas que poderiam ser
tocadas se alguém se atrevesse a fazê-lo. A plataforma se afasta daqueles
seres que retornam ao seu voo após saciarem a curiosidade em relação aos
visitantes. Deslocando-se a baixa altitude, a plataforma se depara com uma
figura humana esfarrapada quase nua, com cortes profundos no rosto e
tórax, que, retesando os músculos do pescoço, rosto braços e pernas, gritou
tão alto que, novamente, quase o botão de pânico foi acionado pelo medo
que atingiu a todos.
A plataforma afastou-se, deixando aquela figura para trás. Outros
sons podiam ser ouvidos, acima das plataformas. Lembravam o coaxar de
sapos em uma lagoa, mesclados a outros que pareciam sons produzidos por
gralhas. As luzes se acenderam em direção ao alto e localizaram aves que
voavam apressadamente como se estivessem fugindo de algo ainda mais
assustador do que elas mesmas. Pareciam-se mais com morcegos do que
com aves propriamente ditas, voavam em bandos de dez a doze indivíduos,
deixando um rastro escuro de partículas, formando um traçado espesso.
Abaixo da plataforma novamente ouvem-se sons de pessoas, correndo em
solo alagado, gritando insultos aos excursionistas. As luzes apontam para
baixo e veem-se pessoas de aparência terrível, recolhendo pedras, paus e
objetos que encontravam para jogar contra o foco de luz que os
incomodava. Subitamente alguns deles saltam alto e alcançam algumas
plataformas, deixando seus ocupantes em pânico. Antes que tentassem
reagir contra aqueles estranhos, a equipe se aproxima rápido e lança
projéteis de descarga elétrica que os atordoavam, fazendo com que se
soltassem das plataformas. Livres daquele susto, os excursionistas se veem
quase que imediatamente diante de outro, pois à frente das plataformas
ouviam-se mais sons assustadores. Pareciam cavalos raivosos, impregnando
a atmosfera com um odor amargo que lembrava o fel. As luzes miram os
animais bufadores e encontram monstruosos equinos cavalgados por seres
simiescos, peludos como gorilas. Mascaram-se por causa das luzes, que os
deixavam aparentemente cegos. As plataformas seguem e notam adiante
luzes muito fracas como se fossem tochas de algum vilarejo medieval. A
iluminação extremamente fraca pouco deixava ver seus habitantes de
feições fechadas, taciturnas. Neste vilarejo encontraram cães, gatos,
galinhas e patos, que perambulavam por ali. Nas paredes das habitações
havia seres semelhantes a grandes aranhas. Outros se assemelhavam a
escorpiões e outros ainda a caranguejos cobertos por pêlos. Os alunos
olhavam para aqueles animais com expressão de surpresa, pois não
supunham encontrar animais domésticos por ali.
Afastaram-se do vilarejo, em direção ao hangar, para alívio da
maioria que estava muito tensa com tal experiência, mais para um pesadelo
do que para uma excursão cultural. Repentinamente dois dos integrantes do
grupo de Guilherme, Margaret e Bianca, ficaram paralisadas e como se
desintegraram no ar. Estavam voltando ao corpo físico, abandonando a
excursão e deixando o jovem sozinho na plataforma, que já se aproximava
do hangar suavemente. Todos desceram rapidamente dos veículos, como se
tivessem pressa de deixar o local e não repetir mais aquela experiência.
Caminharam céleres em direção ao portal e à biblioteca, em busca de
segurança.
— Esperem — gritou Anésio.
— Preciso fazer a chamada para verificar se estão todos aqui.
Feita a chamada e excluindo aqueles que voltaram aos corpos físicos,
Anésio percebeu que faltava uma pessoa.
— A Denise estava com quem? Quem a acompanhava?
— Ela estava conosco até agora pouco. Não percebi quando se
separou de nós — respondeu Helga, uma das alunas, que também era
parente de Denise.
— Eu a vi — falou Luiz Carlos — ela foi a primeira a descer das
plataformas e correu diretamente para o portal. Me pareceu que estava com
muito medo.
— Precisamos encontrá-la para a descontaminação, senão poderá
carregar germes para a nossa dimensão — falou o professor à equipe de
segurança, que seguiu à procura de Denise.
Atravessam o portal e encontram a jovem próxima a saída, chorando
e trêmula. Estava aterrorizada, mas não conseguia voltar ao seu corpo
físico. Acionaram o dispositivo descontaminante de seu uniforme e
aplicaram-lhe uma pequena descarga elétrica através de pequeno aparelho
semelhante a uma caneta, também instalado no uniforme.
Esse procedimento a enviou de volta ao corpo físico para acordar sem
se lembrar de nada e sem as sensações desagradáveis que teve durante a
aula.
— Acompanhem-me, por favor — pediu Anésio aos alunos que já
estavam descontaminados e atravessavam o portal de volta à biblioteca —
depositem seus uniformes naquela abertura para que sejam
desmaterializados, pois não é material reaproveitável.
— Agora vamos a sala de reuniões onde poderemos conversar. No
local havia uma grande mesa ovalada cercada por cadeiras de madeira,
aveludadas e macias. Era um ambiente muito iluminado, se comparado ao
local de onde vieram. Luminárias espalhadas pela a sala produziam uma luz
que quase se assemelhava à de um dia ensolarado.
— Por favor, acomodem-se e perguntem o que quiserem. Estou à
disposição para responder suas indagações a respeito da aula — falou
Anésio.
Mas todos estavam chocados com a viagem e não conseguiam
perguntar. Anésio, então percebe a indisposição do grupo e sugere:
— Sobre a mesa há vários frascos com líquidos nutritivos que têm a
função de eliminar as vibrações absorvidas daquele ambiente onde
estivemos. Sirvam-se e se sentirão melhor. Na primeira vez é assim mesmo.
Bebam e relaxem um pouco.
Todos se serviram rapidamente daquele líquido saboroso levemente
adocicado como mel diluído. Após cada gole os alunos suspiravam como se
estivessem deixando cair pesados fardos. Depois de alguns minutos, já
estavam mais tranquilos e alguém levanta a mão para perguntar algo ao
senhor Anésio.
— Professor, notamos o aspecto medonho dos seres que vivem ali
naquele ambiente inóspito do umbral e notamos que os animais também são
assustadores. Seria o ambiente pesado o causador de tais deformidades?
— Ocorre exatamente o contrário, minha cara amiga Maria do
Patrocínio. As energias pesadas próprias daqueles seres que encontramos,
tanto humanos, como os híbridos, os atraíram àquele ambiente. Não
chegaram ali inocentemente e nem adquiriram aquele aspecto em virtude de
algum tipo de castigo imposto por alguém. Aqueles seres já vibravam
daquela forma, por isso foram atraídos para ali como um pedaço de ferro é
atraído por um ímã. Sua própria energia somada à energia de outros que
estão ali formando aquela atmosfera pode deformá-los daquele jeito.
— Professor, eu sempre achei que os animais fossem seres puros e
por isso não poderiam ser atraídos a um local como aquele.
Como isso ocorreu, pois os vimos ali? — perguntou Ludmila.
— Os senhores ficariam surpresos em saber que a maioria dos seres
que julgam ser animais, na verdade, são pessoas com aspecto animalesco.
Aqueles cavalos, por exemplo, eram pessoas e os que os cavalgavam
também. Aquele ser com rosto humano, corpo alado e coberto por escamas,
era um ser humano que criou para si aquela forma, pois é assim que se
sente. Pessoas como estas poderiam ter servido de modelo para criação da
caricatura daquele ser imaginário que as pessoas fantasiosamente chamam
de diabo, demônio, satanás, etc., ou poderia ser o contrário. Esta caricatura
talvez tenha servido de modelo para aquele que provavelmente estava
querendo ser tão assustador e por isso respeitado no seu meio. Na verdade
são seres que merecem mais a nossa compaixão do que o nosso temor, pois
estão em baixa condição espiritual. Não são demônios e nem animais. São
pessoas envolvidas em energias densas por tanto tempo que fez com que
perdessem a forma humana. Algumas aves, os insetos, e os pequenos
animais vistos ali são realmente animais, mas não existem na Terra. Eles se
alimentam da energia abundante naquele local, auxiliando na eliminação de
grande parte dela que poderia ser ainda mais densa se não fosse por sua
ação depuradora. Outros animais que não fazem parte daquele ambiente,
como os cães e gatos, por exemplo, de alguma forma se envolveram em
energias pesadas, levadas por seres humanos que os usavam como
instrumento para fazer algum tipo de maldade a outros seres humanos. As
nossas equipes estão frequentemente recolhendo esses animais para
tratamento, pois não estão ah voluntariamente. No entanto, o fluxo de
resgate é menor do que o fluxo de ingresso a estas zonas de escuridão.
Anésio interrompe sua explicação ao perceber que alguém tinha
levantado a mão para perguntar.
— Pois não, senhor Benedicto.
— Por que o voo daqueles seres semelhantes a grandes aves era tão
silencioso, apesar de suas enormes asas?
— As asas são meramente acessórios da fantasia que aqueles seres
criaram para si. Na verdade o voo deles não depende do suposto
deslocamento de ar produzido pelas asas como ocorreria com as aves
terrestres. Voam por ação do pensamento. Se não tivessem asas, voariam
também, mas seu aspecto fica mais assustador quando exibem as grandes
asas. E é justamente o que querem: assustar e não somente as pessoas
encarnadas que produzem uma energia densa de medo, da qual se
alimentam, mas também os desencarnados de condições semelhantes à
deles, a quem podem dominar, usando-os e obrigando-os a trabalhar como
escravos. Quando seres como estes se tornam visíveis aos humanos
encarnados ou surgem em sonhos, grandes descargas de adrenalina e
cortisol são liberadas na corrente sanguínea da vítima que adensa suas
energias que, então, são absorvidas por eles.
— Pois não, senhora Simone — falou Anésio, indicando a outra aluna
que levantava a mão.
— Notamos a presença de algumas aves que não emitiam sons e
pareciam, apesar do aspecto denso, ser translúcidas, pois as luzes dos
holofotes as atravessavam. Como pode ser isso?
— Aqueles seres não eram reais. Eram criações mentais dos seres que
vivem naquele local. São materialização de pensamentos repletos de
energias densas.
Estas criações mentais têm, no entanto, a capacidade de produzir
lesões graves em quem as toque, podendo produzir distúrbios que atingem
inclusive o corpo físico do encarnado, causando até determinados tipos de
doenças. Aquele rastro, por exemplo, se for inalado por encarnados, poderia
causar lesões respiratórias, neurológicas ou enfermidades difusas por todo o
corpo físico. Os encarnados quando vão a lugares como estes,
desacompanhados de uma equipe de segurança, podem inadvertidamente
entrar em contato com estas energias. Isto ocorre frequentemente com
pessoas que se utilizam de indução química para se desdobrarem, isto é,
através do uso de bebidas alcoólicas ou do uso de drogas, que conseguem
alterar as polaridades magnéticas do corpo, fazendo com que o corpo
espiritual se afaste do físico, dirigindo-se àquelas paragens.
— Sra. Beny. Deseja saber algo? Perguntou à aluna que estava com a
mão levantada.
— Sim. O senhor disse que o inferno não existe. Ele seria então uma
caricatura do umbral?
— Antes seria interessante entender o que vem a ser o umbral —
ponderou o professor Anésio.
— O umbral não é exatamente um lugar, mas uma condição
energética, isto é, sua formação inicial ocorre a partir da reunião de seres
que possuem energia muito densa, cujas vibrações são muito semelhantes.
Imaginem que inicialmente uma pessoa, com uma forte vibração negativa,
viu-se desencarnada e errante, na dimensão espiritual. Uma outra, ao
desencarnar e tendo as mesmas características energéticas daquela que já
está na outra dimensão, imediatamente é atraída a ela, dobrando assim, a
intensidade energética. Mais dois desencarnam e também vibram igual aos
que estão ali. Estes também serão atraídos e a energia quadruplica. A
medida que indivíduos com as mesmas características energéticas
desencarnam e se juntam, estas energias se adensam cada vez mais, criando
uma atmosfera própria. Com grande disponibilidade destas energias,
disponibiliza-se também a matéria-prima para moldarem seus pensamentos,
pois esta energia densa é muito plástica. Deste modo podem ser criados
todos os ambientes do umbral que dão a ele o aspecto de lugar e não de uma
situação energética coletiva. O umbral é resultante do encontro de muitas
pessoas sofredoras. Não sendo um lugar, pode se formar em qualquer lugar
onde se reúnam pessoas encarnadas ou desencarnadas que possuam estas
vibrações energéticas densas. De modo geral, se formam bem próximo aos
habitantes da Terra, pois a nossa energia, quando encarnados, já é densa por
natureza. O inferno com o sofrimento eterno é apenas uma ilustração
fantasiosa, criada por algumas lideranças religiosas, que se utilizam do
medo e da ignorância para reforçar sua dominação — respondeu Anésio.
Os alunos ficaram pensativos e ao mesmo tempo preocupados,
querendo saber se suas energias se assemelhavam à do umbral, temerosos
em serem atraídos quando desencarnarem.
Anésio, adivinhando a preocupação dos alunos, esclarece:
— Não se preocupem, pois o que faz criar este padrão é
principalmente a culpa. Se fizermos tudo com boas intenções, mesmo que
não saia como o esperado, dificilmente vibraremos assim. Quando fazemos
algo, mesmo que não tenha consequências graves, mas gere culpa,
poderemos ser atraídos. No entanto, se fazemos algo desastroso, mas com
uma intenção positiva, não há ‘consciência pesada’. Não somos atraídos. Se
ainda assim tivermos nossa parcela de culpa, pois ninguém é anjo aqui, e
formos atraídos, lembrem-se de que nada é eterno. Perdoe-se a si mesmo,
livre-se da culpa. Nunca estamos sozinhos, abandonados. Peçam ajuda a
Deus. Ele nunca abandona ninguém. Basta um simples pedido sincero para
que retornemos aos nossos amigos da Luz. Eu posso dizer isto com
convicção, pois sou um resgatado das profundezas, aonde cheguei por causa
dos crimes que cometi.
Todos ficaram surpresos com a revelação, mas nada comentaram,
permanecendo em silêncio. Anésio aguardou alguns instantes e deu por
encerrada a aula.
— Amanhã nos reuniremos novamente e os senhores escolherão outro
tema.
Sabatina

Todos se despedem e saem do prédio, indo cada qual para onde mais
lhe interessava. Guilherme foi ao encontro do senhor Gustavo, pedindo que
lhe fosse dada a oportunidade de conhecer animais de outros mundos,
diferentes dos que existem em nosso planeta. Mas o senhor Gustavo não o
encorajou, pois exigiria um conhecimento prévio. Seria necessário entender
muito bem tudo sobre os nossos irmãos animais da Terra antes de procurar
estudos mais avançados, sem os quais pouco proveito seria revertido. Por
isso, sugeriu a Guilherme que escolhesse um tema de uma das fichas verdes
na próxima aula, pois seria interessante. Não tendo mais atividades
estudantis no ‘rancho’,Guilherme se despediu do amigo e foi ao encontro de
sua noiva. Juntos, percorreram vários lugares, em sonho, até o amanhecer.
Quando acordou, Guilherme se dirigiu à cozinha onde estava sua mãe
pondo a mesa do café da manhã.
— Bom dia, mãe!
— Bom dia Gu! — respondeu dona Elza sorridente.
— Como passou a noite? — perguntou a mãe, enquanto esperava o
leite ferver na panela.
— Ah! Passei uma noite horrível. Tive pesadelos a noite toda. Acho
que foi aquela pizza de calabresa do rodízio. Comi demais, por isso tive
estes pesadelos — falou Guilherme, e continuou.
— Sonhei que cheguei a um castelo enorme, frio e escuro, cheio de
fantasmas. Entrei morrendo de medo, mas entrei. Lá havia várias pessoas
que me puxaram para dentro de uma sala que parecia uma masmorra. Acho
que eles moravam na masmorra. O líder era um senhor bem mais velho,
com uma voz cavernosa que assusta qualquer um. Saí correndo, subi as
escadas e caí em uma sala escura, cuja porta dava para o sótão. Curioso,
abri e aí dei de frente com uns monstros que quiseram me atacar. Corri de
volta e tranquei a porta por onde eu entrei e vi a Cláudia. Foi o maior alivio.
Assim que a vi, tudo mudou. As coisas ficaram mais claras e surgiram
paisagens bonitas. O castelo sumiu e apareceu no lugar uma linda
montanha, coberta de árvores e flores coloridas com o sol surgindo por trás
dela, e o mar. Dava para sentir o vento batendo em meu rosto. Era tão real
que nem parecia sonho. Aliás, nem sei como consegui lembrar tanto assim
dos sonhos que tive hoje. Geralmente não lembro de nada — Guilherme ia
se servindo, enquanto contava seu sonho à mãe, mordiscando algo entre
uma frase e outra.
— Que noite, hein filho! Ainda bem que minha nora favorita
apareceu — comentou Dona Elza.
— Vocês vão sair hoje? — perguntou a mãe.
— Sim. Hoje é domingo e quero aproveitar para ficar com ela o
máximo que puder. A gente quase não se vê. Hoje vamos tirar a diferença.
Cumprindo o que disse, Guilherme passou o dia com sua noiva. O
tempo passou rápido, pois as horas voam quando estamos nos divertindo.
Ao final da tarde, quando o sol já estava se pondo, foram para uma
colina que tem uma linda vista da região, para apreciarem aquele espetáculo
da natureza.
À medida que o sol se escondia, deixando de exibir brilho e de
iluminar o céu, os olhos de Cláudia se enchiam de lágrimas. Eram de
alegria, mas algo a deixou inquieta por alguns instantes. Parecia que queria
dizer alguma coisa a Guilherme, mas sentia-se insegura. O rapaz notando a
expressão de dúvida no rosto da noiva pergunta-lhe:
— O que a está incomodando? Você não parece feliz. Aconteceu algo
que você queira me contar?
Cláudia retira de sua bolsa algumas folhas de papel e as entrega a
Guilherme.
— É uma carta psicografada de seu pai — falou Cláudia ao noivo,
esperando que não acreditasse e se recusasse a ler uma carta pretensamente
escrita por seu falecido pai e ainda não compreendesse a importância de tal
documento. No entanto, Guilherme pega os papéis e olha para Cláudia
como que esperando uma confirmação sobre o que acabava de ouvir. Então
desdobra as folhas e começa a ler em silêncio.
Querido filho. Estou enviando esta carta para dizer que lamento todos
os dias e peço a Deus que me ajude a retirar as marcas de culpa que ficaram
em mim pelo que fiz a Bob, a você e a sua mãe. Eu sei que já me perdoaram
mas eu ainda não. Agora não choro mais, porém, minha consciência me
cobra a cada instante uma reparação pelo erro. Espero que tenha gostado do
presente que lhe enviei. Sei que está sendo amado por vocês. Não é o Bob e
também não o dei a você como substituto. E apenas o meu pedido de
desculpas. Aqui onde eu vivo, trabalho em um hospital que cuida de
animais a fim de me redimir de meus atos impensados, no entanto, estou
gostando do que faço.
Gosto tanto que já não faço por obrigação com minha consciência,
faço por gosto. O mais importante do que tenho a dizer através desta carta é
a respeito do pedido que fiz ao diretor da instituição. Pedi a ele que me
inscrevesse como candidato a reencarnação. Fui aceito e os preparativos
estão sendo iniciados. Esta é a primeira vez que escrevo a vocês, desde que
cheguei aqui, pois não tinha condições para isso antes. Agora estou bem
melhor e como os preparativos se iniciarão no próximo mês, é provável que
esta seja a única carta que poderei enviar. Em breve estarei voltando e peço
a Deus que possa reencontrá-los em meu retorno. Diga a sua mãe que a amo
e que também anime um lugar para mim em seu coração a vocês todos.
Espero que você se case com Cláudia. Ela é uma ótima moça.
Fiquem todos com Deus.
Guilherme terminou de ler a carta com lágrimas nos olhos.
Cuidadosamente dobrou as folhas e as guardou em seu bolso.
Olhou para Cláudia que mantinha os olhos fixos no pôr-do-sol que já
praticamente não era visível no horizonte, abraçou-a, ficando assim até o
sol se pôr completamente.
Caminham abraçados até o automóvel e vão para a casa de
Guilherme, dar uma notícia a dona Elza. Anunciam que se casarão em breve
e já fixam a data.
— Finalmente vocês se decidiram. Estava na hora de me
encomendarem um neto.
— Calma, mãe. Só estamos falando em casamento. Os netos ficam
para depois.
Cláudia olha para Guilherme com expressão de reprovação, e ele
volta atrás no que disse.
— Está bem, vamos encomendar o Júnior o mais breve possível.
E todos riram por Guilherme já ter escolhido o nome para o neto de
dona Elza. Imediatamente começaram a planejar a cerimônia e tudo o mais.
Dona Elza era daquelas católicas fervorosas, e dona Ayako era
católica não praticante. Guilherme não era católico, Cláudia era espírita,
mas para agradar as mães resolveram fazer uma cerimônia na igreja da
cidade. Desde então, dona Elza e dona Ayako conversavam quase todos os
dias, felizes com os planos.
Aquele domingo foi especial e inesquecível para toda a família. Mas
findo o dia, Guilherme em sono se desdobra novamente ao “rancho” para
prosseguir com suas aulas.
Ao chegar à biblioteca, todos já estavam presentes, então o senhor
Gustavo anuncia:
— Antes de os senhores saírem para outra excursão, serão submetidos
a uma sabatina. Queremos avaliar o aproveitamento que estão tendo das
aulas. Espero que tenham estudado.
— Prova?! — pensou Guilherme, eu nem estudei nada. Nem sabia
que tínhamos que fazer provas aqui. E agora?
— Por favor — falou o senhor Gustavo. Peguem as folhas e
respondam às perguntas da forma mais completa possível. O tempo de
duração é de trinta minutos, de acordo com este relógio à frente de vocês.
Boa prova.
Cada um pegou uma folha de testes e se acomodou nas cadeiras que
ficavam ao redor da mesa de reuniões, onde estiveram no dia anterior.
Guilherme olhou para a sua prova e engoliu em seco. As perguntas eram
muito complexas e as respostas vinculadas umas às outras, isto é, se errasse
a primeira resposta, todas as outras estariam erradas também.
— O que vou fazer agora? Não sei a resposta da primeira pergunta,
aliás, não consigo entender nem o que está sendo perguntado.
Guilherme mordia os lábios e a ponta de sua caneta que já estava
ficando amassada. Seus calcanhares batiam nervosa e ansiosamente no chão
sem que uma resposta se formasse em sua mente. Quinze minutos se
passaram e ele sequer escreveu uma letra ou tocou a caneta na folha de
respostas. Entretanto, Glaucer, uma das alunas, se levanta dizendo:
— Terminei, e estava muito fácil. Nem parecia uma prova. Guilherme
sentiu-se enregelar por dentro e pensou: Se ela diz que está fácil assim e eu
nem consigo começar a prova, então estou perdido. Provavelmente serei
barrado das aulas e não poderei prosseguir com os estudos.
Vinte e cinco minutos se passam e Guilherme ainda não havia
conseguido iniciar as respostas de suas questões de avaliação. E pensava
consigo mesmo:
— Estas perguntas parecem sem sentido. Nunca ouvi falar destes
assuntos. Será que faltei tanto assim às aulas?
Vinte e nove minutos e nenhuma resposta às questões.
Trinta minutos se passaram sem que uma palavra fosse escrita na
folha de respostas. Guilherme já estava se considerando excluído da turma.
Então o senhor Gustavo retorna à sala, pede que deixem as folhas
sobre a mesa e aguardem os resultados.
Os alunos se olhavam em silêncio, mas a expressão de ansiedade era
notável nos rostos de cada um. Poucos minutos depois e o senhor Gustavo
retorna com os resultados de avaliação das provas.
— Senhoras e senhores, devo dizer que todos foram muito bem —
falou Gustavo enquanto se ouvia um burburinho entre os alunos que, ao
visto, estavam na mesma situação de Guilherme, isto é, entregaram em
branco a folha de respostas.
— Esta prova, senhoras e senhores — falou Gustavo — é uma
avaliação de alunos da colônia “Coroa Solar” localizada na “Constelação de
Cocheiro”. As perguntas se referem a questões relacionadas à anatomia,
fisiologia bioquímica, patologia e terapias de animais que vivem na região
da gal. Os senhores puderam notar a dificuldade em entender até mesmo o
que estava sendo perguntado. As respostas... Nem eu mesmo sei quais são.
Foi somente uma forma de demonstrar aos senhores o quanto é complexo o
entendimento das coisas que estão além de nosso alcance. Calculamos que
para podermos participar das aulas em “Cocheiro” deva levar talvez cento e
cinquenta anos de estudos antes que possamos entender os animais que
vivem naquela região. Quando estivermos em condições melhores de
entendimento, talvez recebamos uma visita de um dos orientadores de
“Cocheiro” para nos dar uma palestra a respeito de como trabalham e para
entendermos como estamos distantes daquela outra realidade. Procuremos
nos esforçar para sermos o melhor possível nesta condição atual. Aquela
outra ainda está no futuro. Parabéns, todos foram aprovados. E quanto a
Glaucer, foi só uma encenação combinada, pois ela também não sabia as
respostas — concluiu Gustavo com uma pequena risada que foi copiada
pelos alunos, e principalmente Guilherme, pois compreenderam a intenção.
Terminada a brincadeira com intenções sérias, o senhor Gustavo
pediu:
— Agora, por favor, todos se reúnam no andar superior para a escolha
das fichas de roteiro de excursão para onde desejam ir hoje.
Em Auxílio

Dirigindo-se ao andar de cima, Guilherme segue o conselho de seu


amigo Gustavo e escolhe a ficha verde. Enquanto esperavam pela
professora que iria dar a aula prática, os alunos conversavam a respeito da
excursão anterior. Após todos escolherem suas fichas, o senhor Gustavo
orienta os alunos para que se reúnam novamente de acordo com as cores
das fichas e aguardem o professor que os orientaria.
Então, surge uma moça muito bonita, com grandes olhos negros e
brilhantes como duas pérolas e a voz macia e suave como a de um anjo. Sua
aura brilhante iluminava por onde passava. Com um jeito meigo de falar,
pediu aos alunos que tivessem fichas verdes, a seguissem.
— Boa noite, meu nome é Vivian. Eu serei sua a orientadora durante
nosso passeio à crosta terrestre. Hoje iremos visitar lugares interessantes e
pitorescos onde poderemos interagir com os animais e pessoas que
encontrarmos. Imagino que após a prova por que passaram e a tensão a que
estiveram expostos, vocês devem estar cansados, mas posso garantir que ao
final de nosso passeio os senhores se sentirão revigorados. Hoje teremos a
oportunidade de estudar na prática como é feito o auxílio a nossos irmãos
animais em diversas situações em que não seremos meros espectadores,
mas teremos o ensejo de dar a nossa contribuição. Poderemos auxiliar na
reconstituição de corpos espirituais de animais enfermos, auxiliaremos
nossos assistidos e amigos veterinários em cirurgias de auto-risco, em
partos difíceis e muitos outros eventos, o que será realmente gratificante.
Parecia a Guilherme que a voz de Vivian vinha de todos os lados e era
tão agradável de se ouvir que mal prestou atenção ao que era dito, mas se
preocupava em sentir a vibração positiva que aquela voz quase divina
deixava no ar, sendo suficiente para acalmar os ouvintes que pareciam
flutuar quando ela terminou de falar.
— Senhores, então, eu gostaria que me acompanhassem até o andar
superior onde se encontra o portal aberto para nossa excursão.
Todos a seguiram com sorriso de satisfação, pois aquela moça
realmente encantava as pessoas.
— Aqui é o nosso ponto de partida. Iremos primeiramente a uma
clinica para tratamento de pessoas encarnadas, obviamente, portadoras de
deficiências neurológicas congênitas, cuja terapia se apoia basicamente no
contato físico com animais — falou Vivian, sorrindo.
— Podemos partir? Então vamos.
Dizendo isso, formou-se um grande vórtice à frente dos alunos e, à
medida que aumentava de tamanho, ia envolvendo todos que sentiam a
paisagem ao redor se modificar.
Aos poucos viram-se em um grande gramado verde e uniforme como
um tapete, podia-se notar a presença de muitos equinos. Para cada equino,
um instrutor acompanhava, puxando suavemente as rédeas, enquanto outro
seguia de perto os movimentos do animal que era cavalgado por uma pessoa
portadora de alguma deficiência neurológica ou alguma síndrome como, por
exemplo, o autismo. Os pacientes permaneciam sobre a sela no dorso do
animal que andava suavemente sobre a grama macia, fazendo com que
participassem destes movimentos. Os pacientes abraçavam o animal
enquanto ele andava, outros simplesmente sorriam.
Vivian então levou os alunos ao centro do gramado e pediu que
olhassem ao redor do animal.
— Observem — dizia Vivian com sua voz quase hipnotizante de tão
suave — notem aquele brilho ao redor dos corpos dos cavalos. Percebam
como ele aumenta quando caminha e mais ainda quando é abraçado pelos
pacientes. Percebam que é uma energia forte que envolve, além do animal,
também o paciente. Essa energia é muito semelhante à energia de equilíbrio
encontrada nos seres humanos. Então, os pacientes ao entrarem em contato
com eles, os animais da terapia, recebem uma grande carga de energias
reparadoras que fazem circular energias estagnadas pelo seu corpo e
principalmente nas células nervosas do cérebro, lesadas durante o
nascimento. Vejam como esta energia se move como um turbilhão sobre o
paciente e se concentra em suas terminações nervosas e no cérebro. E uma
verdadeira terapia de regeneração celular. Observem aquele garotinho que
foi vítima, ao nascer, de anoxia cerebral. Vejam aquela grande faixa escura
que envolve seu cérebro e que se estende em grande parte aos nervos
periféricos. Quando ele é colocado sobre o cavalo, imediatamente forma-se
um circuito que se fecha, fazendo com que seu sistema cerebral se encha
desta energia azul esverdeada que lhe traz momentos de lucidez e o ‘aterra’,
fazendo com que seu espírito entre em contato com a dimensão física, pois
se encontra mais frequentemente na dimensão espiritual. Vamos nos
aproximar e ver de perto como isso ocorre — pediu Vivian.
— Notem como o garoto percebe a nossa presença, enquanto está
alheio ao que ocorre em seu mundo físico. Esperemos até a energia do
equino envolvê-lo — pediu Vivian.
Então viram aquele brilho envolver o garoto que adquiriu
energeticamente a mesma cor do seu animal terapeuta.
— Vamos nos aproximar novamente. Percebam que ele está sorrindo
mais intensamente e olha para seus pais que estão próximos, reconhecendo-
os e acenando para eles.
No entanto não capta mais a nossa presença, significando que voltou-
se para a dimensão física, sua atual realidade. Ao entrarem em contato, a
energia amorosa e despretensiosa do animal preenche os espaços vazios dos
campos energéticos do paciente, tornando-o verdadeiramente reencarnado,
induzindo-o a desejar permanecer nesta dimensão, a física, e não a
espiritual. E assim que se processa, muitas vezes, a cura parcial e até total
em pacientes com essas disfunções congênitas — falou Vivian, enquanto
todos os alunos observavam em silêncio, maravilhados com o que viam.
— Venham, vamos nos aproximar daquele cavalo que está ali — disse
Vivian — toquem-no e sintam sua energia antes de ser tocado pelo paciente.
Vejam o diâmetro do halo de energia. Agora observem, após ser montado
por um paciente — aguardaram até ser montado por um garoto autista.
— Percebam como o diâmetro energético aumenta diversas vezes.
Agora sintam a energia. Toquem-no novamente pediu a encantadora Vivian,
com seu jeito extremamente delicado.
Então puderam sentir a vibração suave e balsamizadora, diferente
daquela anterior que era semelhante a de um cavalo qual quer, pronto para
um trabalho em campo na fazenda.
— O animal conhece seu potencial energético e se compraz em
auxiliar, transferindo essa energia aos pacientes de forma voluntária.
— Eu gostaria que vocês reparassem que os animais são conscientes
do que fazem, e fazem dessa forma porque simplesmente querem colaborar
na recuperação da saúde de uma pessoa com quem acabam criando vínculos
energéticos — e continuou:
— Vocês devem saber que existiu uma pessoa que acreditava que os
animais possuíam raciocínio lógico e estava disposto a provar isso às outras
pessoas. Ele resolveu que treinaria alguns equinos para aprenderem alguns
códigos de sons que poderiam produzir, pateando o solo. Com persistência e
paciência, conseguiu que os cavalos entendessem o código através dos
quais poderiam construir palavras e até frases simplesmente pelo som das
batidas de suas patas no chão. O treinador fazia perguntas aos equinos e eles
respondiam por batidas, passando a se entenderem mutuamente. Também
ocorria o contrário, isto é, os equinos perguntavam e o treinador respondia.
Os equinos entendiam o que seu treinador perguntava em idioma
germânico. Vejam seu nível de inteligência! Conseguido o intercâmbio
desejado, passou a ensinar-lhes as operações básicas de cálculos
matemáticos, que aprenderam rapidamente, dando respostas corretas.
Ensinou-lhes algo que não acreditava que pudessem aprender, mas
aprenderam: a raiz quadrada. O mais surpreendente ocorreu após terem
aprendido isto. Os equinos, por dedução, sem que lhes fosse ensinado,
conseguiam resolver problemas de raiz cúbica. Percebam que não se trata
de uma inteligência elementar, pois possuem inclusive raciocínio
matemático. Somente por essa experiência feita no início do século XX,
podemos concluir que os animais são inteligentes e merecem ser tratados de
forma diferente do que são tratados por nós, que os torturamos e os
matamos para nos alimentarmos de sua carne ou matamos por prazer ou
esporte.
Ao término de sua frase, Vivian observa ao longe algumas pessoas
conduzindo cães. Eram treinados para serem, também, animais de terapia.
— Vamos nos aproximar para senti-los também.
Todos a seguiram até próximo aos cães, que eram dóceis e
disciplinados. Eles são usados para recuperação de pacientes internados em
consequência de enfermidades graves e irreversíveis, que os torna
depressivos.
Ao chegarem perto dos cães, estes percebem a presença da equipe e
abanam a cauda em sinal de cumprimento.
— Toquem os cães e sintam sua energia. Percebam como é suave e
leve. Notem como, uma vez tendo tocado, torna-se difícil deixar de
acariciá-los. Observem o halo da energia que os acompanha. Notaram como
aquele halo verde, brilhante, que envolvia os cães, passou a envolver as
mãos e braços dos senhores, assim que os tocaram?
— Sim, absorvemos sua energia e sentimos um bem-estar E que nos
obriga a continuar o toque, pois é realmente ótimo. Esta energia se renova
imediatamente, sendo retirada diretamente do universo, por isso, ela pode
ser considerada como inesgotável, isto é, enquanto o animal for jovem e
saudável, pois à medida em que se torna envelhecido, a sua capacidade de
captar e transformar esta energia diminui.
Enquanto eram acariciados pelos alunos da equipe, os cães
mostravam-se alegres, pois suas auras aumentavam a cada toque que
recebiam.
— Vocês conseguem perceber a alegria com que eles nos distribuem
suas energias? São animais muito evoluídos e que já poderiam estar em
outros patamares encarnando em corpos de -animais mais adiantados, mas
preferem se manter nesta condição voluntariamente, pois se sentem úteis e
esta consciência facilita a eles absorverem a energia cósmica abundante no
universo — falou Vivian com sua voz quase sussurrante.
— Vamos ao hospital para onde são levados os cães e os
observaremos em atividade terapêutica.
Todos concordaram e se afastaram dos animais, não sem antes abraçá-
los como despedida.
O vórtice que os trouxe ao instituto de equoterapia se abriu
novamente, envolvendo-os e os levou ao hospital em fração de segundo.
Quase imediatamente se viram em um hospital infantil na ala de oncologia,
em que havia vários leitos com crianças desde recém-nascidos até doze ou
treze anos, portadoras de lesões causadas não somente pela enfermidade de
que sofriam, mas também pela ação dos quimioterápicos e da radioterapia.
— Vejam, ali está Fofão — falou Vivian, feliz por reencontrar um
velho amigo, que também o reconheceu.
— Vamos acompanhá-lo...
Fofão estava sendo levado ao quarto de uma garotinha de três anos de
idade, portadora de um hepatocarcinoma, ou câncer congênito do fígado.
— Observem a criança antes dela notar a presença de Fofão. Notem
as cores escuras em sua aura. Percebam como são quase monocromáticas,
variando entre o azul marinho, o cinza e cinza escuro, quase preto. Agora
notem as mudanças com a chegada de Fofão.
Fofão entra no quarto e quando a garota o vê, as cores que a
envolvem imediatamente se transformam tornando-se mais claras.
E as luzes que compõem a sua aura alternam em luminosidade, dando
impressão de que se movem. Mas ainda são cores escuras para um bom
padrão de saúde emocional.
Quando Fofão se aproximou e subiu em sua cama, um sorriso muito
bonito se estampou no rosto da garota que se transformou energeticamente,
tornando-se brilhante.
— Olhem a energia dela como busca a de Fofão, a fim de fazer uma
ligação com ele. Sua energia tornou-se mais clara, maior e inclina-se em
forma de cilindro em direção a nosso amigo. Vejam como, ao subir em sua
cama, a energia de Fofão efetivamente encontra a dela.
A garota abraça o cão e o acaricia como se ele fosse um grande
brinquedo.
— Olhem agora o que ocorre quando as energias se encontram.
A tonalidade verde do animal começa a predominar no campo
energético da menina que parece transformada em outra mais saudável. Sua
aura, tendo adquirido outra coloração, mais brilhante e maior, fazia que se
notassem estalos como se pequenos fogos de artifício fossem sendo
lançados de dentro dela e explodissem em luzes brilhantes e muito bonitas
ao seu redor. Os ouvidos dos alunos conseguiam captar os discretos
estalidos produzidos por estas mínimas manifestações energéticas da garota,
que se generalizaram, formando um jogo de luzes que variavam desde o
azul claro, passando pelo lilás e amarelo dourado. Era um pequeno
espetáculo presenciado pela equipe de alunos que nunca tinham visto nada
semelhante.
— Agora Fofão precisa visitar outra criança, mas vejam como esta
ficou sorridente e alegre. Ela deixou de sentir as dores que a incomodavam
tanto antes da chegada do cão, que nem a morfina controlava.
Fofão faz menção de se levantar e a energia da menina sofre uma
pequena queda, muito pequena, mas que pôde ser notada. Então aquele cão
da raça Lavrador, de longos pêlos dourados, se despede de sua amiga com
um toque do focinho no rosto dela e sai da cama da garota. Vivian pede aos
alunos que a acompanhem no exame da atividade bioquímica cerebral da
garotinha através de uma tela que ela criou diante deles.
— A energia doada por Fofão iluminou todo o seu corpo espiritual e
consequentemente, também seu corpo físico. Percebam o cérebro como teve
sua atividade aumentada. Olhem como são produzidas maiores quantidades
de hormônios capazes de aliviar a dor e auxiliar até mesmo na cura — dizia
Vivian, apontando para a tela. — As serotoninas e endorfinas são
produzidas em maior quantidade e minimizam os sintomas.
Alguns minutos se passaram enquanto examinavam a atividade
orgânica da menina que parecia curada, não fossem as lesões aparentes.
Vivian fecha a tela e pede para que os alunos notem que a luminosidade
permanece inalterada.
— Reparem que a energia continua circulando pelo corpo de nossa
amiguinha e continuará por, no mínimo, um dia inteiro garantindo a ela
momentos de bem-estar.
Todos saem do quarto e se reúnem do lado de fora.
— Aqui já terminamos. Que tal irmos auxiliar um parto distócico, isto
é, um parto complicado, em uma fazenda.
Os alunos estavam radiantes diante daquelas oportunidades.
Gostariam de acompanhar Fofão a outros quartos, mas aceitaram o convite
de Vivian. O vórtice novamente se formou diante deles como se fosse
controlado mentalmente por Vivian transportando-os até outra localidade,
dentro de um cercado onde estavam um veterinário e dois auxiliares, em
dificuldades para solucionar o parto de uma vaca holandesa, Estrela, cujo
filhote estava em posição inadequada, sob risco de morrer dentro do
abdome materno.
— A situação está complicada. Meu braço é curto para alcançar o
cordão umbilical que está muito tenso, ao redor do pescoço do filhote. Se
tentarmos puxar, poderá se romper e causar uma hemorragia que poderia ser
fatal à mãe e filho ou enforcá-lo — falou Francisco, o veterinário.
— Posso tentar? Meus braços são maiores e talvez eu consiga
‘alcançar e desvencilhá-lo — pediu um auxiliar.
Os braços dele eram realmente muito longos, era um homem de quase
dois metros de altura. Então vestiu suas longas luvas apropriadas ao serviço
e introduziu o braço até onde foi possível, mas pouco pôde fazer. Também
não conseguiu soltar o cordão que podia sentir com a ponta dos dedos.
O médico estava resolvido a retirar o filhote por uma incisão
cirúrgica.
— Temos de retirá-lo por cesariana. Vamos preparar o material e o
local para operá-la.
Enquanto organizavam o material cirúrgico, a equipe chefiada pela
professora Vivian, se aproximou a fim de coordenar os trabalhos de auxílio,
sob a supervisão da equipe espiritual que acompanhava o veterinário.
— Você e você — falou Vivian, apontando para dois alunos —
Apliquem energias anestesiantes sobre o útero de Estrela, enquanto você e
você — apontou para outros dois alunos — irão soltar o cordão que está ao
redor do filhote.
— Como faremos isso? — perguntou Guilherme que estava
incumbido do cordão umbilical.
— O processo é simples. Não se preocupem. Criaremos um pequeno
portal como o que nos transportou até aqui. Ele cobrirá parte do corpo do
filhote, fazendo com que o restante do seu corpo fique em outra dimensão,
dando a ilusão de desmaterialização, deixando o cordão solto em sua
posição correta antes de fecharmos o portal.
Assim fizeram e em poucos segundos estava tudo resolvido.
Antes da intervenção cirúrgica, Francisco faz mais uma checagem na
situação do filhote, palpando-o novamente e tem uma grata surpresa.
— Milagre! O bichinho se soltou sozinho.
Os alunos riram quando ouviram o veterinário chamar o que fizeram
de milagre.
Felizes por poderem ajudar, despedem-se da equipe espiritual de
Francisco e se afastam dali.
— Vamos ver como ajudar em uma cirurgia de risco? — convidou a
encantadora Vivian com seu sorriso que iluminava a todos.
O turbilhão com forma cônica novamente se forma e os leva a outro
local distante em milésimos de segundo. São transportados a uma clínica
veterinária e encontraram o doutor Alcebíades Marcei que estava
começando uma cirurgia.
— Caros amigos, o doutor está se preparando para aplicar anestésicos
em Pretinha. Ela apresenta câncer no baço, que já tomou todo o órgão que
deve ser retirado totalmente. O problema está no fato de Pretinha ser
cardíaca, ser nefropata e o tumor estar envolvendo muitos vasos,
dificultando o acesso cirúrgico. Nosso trabalho consiste em auxiliar na
eliminação dos empecilhos que possam dificultar a cirurgia.
— Valter, por favor, aplique energias anestesiantes em Pretinha para
que assim seja necessário uma quantidade menor de anestésicos químicos.
— Vera, por favor, fale mentalmente ao doutor para usar trinta por
cento a menos de anestésicos.
— Teresinha, por favor, ponha o baço em uma posição que facilite o
acesso para que a cirurgia seja o mais rápida possível.
— Guilherme, por favor, use um portal para retirar uma parte do
tumor que envolve os vasos sanguíneos.
— Eu guiarei as mãos de Alcebíades durante o ato cirúrgico,
enquanto Maurício se incumbe de regularizar as funções renais ao menos
durante a anestesia e a cirurgia, aplicando energias restauradoras e anti-
sépticas que eliminarão as bactérias que se encontram dentro dos
glomérulos renais de Pretinha.
Trabalharam em conjunto e coordenadamente. Pretinha se recuperou
fácil e rapidamente da cirurgia que transcorreu sem surpresas. Ao término,
Vivian pede aos alunos que aguardem um instante, pois o telefone iria tocar.
O telefone toca e o doutor atende. É uma emergência.
— Alô, doutor Alcebíades? — perguntou alguém do outro lado da
linha.
— Sim, sou eu — respondeu.
— Doutor aconteceu um acidente terrível. Um ônibus atropelou uma
cachorra sem dono, que vive em uma praça em frente a minha casa — falou
a pessoa com voz de quem estava muito ansiosa, quase em prantos.
— O ônibus fez uma curva repentinamente quando ela atravessava a
rua e não teve tempo de se desviar. As rodas passaram sobre seu corpo. Ela
está muito mal. Acho que não vai aguentar. O senhor pode socorrê-la, por
favor?
— Sim, claro. Irei agora mesmo. Diga-me onde você está.
— Não se preocupe, nós a levaremos até aí — e desligou o telefone.
Poucos minutos depois entram na clínica uma senhora e um rapaz
com a acidentada nos braços. A aparência dela era realmente
impressionante. Uma das pernas traseiras foi decepada e a outra apresentava
grande fratura exposta. A pele ao redor do abdome foi arrancada como se
fosse uma roupa, deixando à mostra as estruturas subcutâneas.
A pele que não foi arrancada estava fofa como se tivesse sido inflada
com ar. Mas incrivelmente a cachorra não apresentava sinais de sofrimento
ou dor. Isto deixava o doutor intrigado.
— Aproximem-se e olhem para esta tela — falou Vivian que criou
outra tela mental.
— Vamos aproveitar estes minutos enquanto o doutor a examina para
ver o que ocorreu com nossa amiga acidentada.
Na tela surgiu a imagem de um motorista, que conduzia o ônibus em
alta velocidade e de maneira imprudente, quando em uma curva que
circunda a igreja principal do bairro, a cachorra sem raça definida, que foi
abandonada quando ainda era filhote, atravessava a rua, despreocupada. Ela
estava acostumada a andar entre os automóveis, mas o ônibus surgiu muito
rápido e a atingiu. Com o impacto, a cachorra foi lançada para frente do
veículo, cujo condutor sequer cogitou em parar. Os pneus dianteiros
passaram sobre seu corpo frágil comprimindo o abdome e tórax, cujas
costelas se fraturaram. Com a pressão sobre o corpo, o diafragma se
rompeu. As costelas fraturadas se transformaram em lâminas perfurantes e
cortantes que transpassaram os limites torácicos atingindo o subcutâneo,
deixando escapar o ar dos pulmões, fazendo com que inflasse como um
balão que estourou como se fosse de borracha. A seguir as rodas traseiras a
atingiram, provocando as fraturas e o arrancamento de uma das pernas.
Foi uma sequência rápida, mas horrível de se presenciar, que
impressionou a todos.
— Notem que a equipe do ‘rancho’ que a assiste está próxima. Eles
desligaram parcialmente as terminações nervosas de nossa amiga, fazendo
com que sentisse o mínimo de dor. Se pudessem teriam evitado o acidente,
mas estava fora das possibilidades, uma vez que estava em seu roteiro esta
ocorrência, pois era parte do aprendizado dela.
A tela então foi fechada, pois o doutor Alcebíades já estava
terminando seu exame clínico.
— Sinto muito, senhora — falou o doutor — Nada há a se fazer. Não
há como recuperá-la deste acidente e não podemos deixá-la sofrer mais
ainda. O melhor seria fazer eutanásia.
Enquanto o médico explicava a situação da cachorra à senhora e ao
rapaz que a trouxeram, o médico espiritual que o acompanhava tocou-lhe as
mãos, transferindo a ele uma energia que seria repassada à paciente que iria
passar pela eutanásia. O doutor olhou para a cachorra consternado, pois ele
gostaria de fazer algo para que se recuperasse, mas não podia.
Decididos pela intervenção que a devolveria à dimensão espiritual, o
médico aproximou-se dela e a tocou paternalmente com a sua mão
esquerda. Neste instante uma luz dourada com nuanças violetas intensas
invade a sala de consultas por uma fração de segundo, como um flash, mas
entre os encarnados somente sua auxiliar, que é uma pessoa mais
espiritualizada, pôde perceber. Foi o início da transferência do pobre animal
acidentado de volta à outra dimensão. Os presentes pouco notaram a
mudança de consciência do animal, que se manteve tranquilo durante o
tempo todo. O médico aplicou-lhe uma anestesia geral, seguido de um
bloqueador cardíaco. Enquanto isso a equipe auxiliar solicitou a ajuda dos
alunos de Vivian que fizeram o restante do trabalho de resgate, recolhendo
o corpo espiritual da fêmea desacordada, fazendo o desligamento dos
pontos de fixação energéticos que uniam o corpo físico ao corpo espiritual.
Os alunos se aproximaram da mesa de atendimento em que ela ainda estava
deitada e tocaram os pontos amarelos com cerca de um centímetro de
diâmetro. Eram dezenas. Ao serem tocados, notaram algumas pequenas
explosões naqueles pontos luminosos, se desprendendo deles uma pequena
nuvem de vapor. Ela se deslocou suavemente de seu corpo físico e
escorregou para a outra dimensão como se estivesse untada com alguma
espécie de lubrificante. Seu corpo estava perfeito. Não havia sinais de
fraturas ou lesões extensas como as notadas no corpo físico. Um portal se
abre e a envolve completamente, levando-a ao hospital do ‘rancho’, onde
seria recebida pelas equipes especializadas em acidentes.
— Ela foi levada para as devidas providências e cuidados necessários
— falou Vivian aos alunos e completou: — Não se preocupem, pois ela
nada sentiu desde o impacto com o ônibus até a sua desencarnação. Agora
que foi recolhida para tratamento, logo se recuperará e poderá voltar à Terra
para viver com uma família que já foi escolhida. Ela retornará em perfeitas
condições.
Vivian e os alunos permaneceram na clínica com o doutor e sua
equipe espiritual durante toda a jornada. Findo o dia, Vivian os convida a
irem de volta à biblioteca para conversarem e tirar dúvidas. Sob a ação do
vórtice transportador, retornam ao prédio.
Ao chegarem ao ‘rancho’ foram à sala de reuniões, onde todos se
acomodaram. Alguém levanta a mão e pergunta:
— Neste momento estamos desdobrados, por ocasião de nosso sono.
Agora em nosso tempo é noite. Como pudemos estar durante o dia nos
lugares em que estivemos se estão tão próximos de nós? Também não
deveria ser noite?
— Esta é uma boa pergunta, Enzo — elogiou Vivian — como os
amados colegas sabem, o tempo e o espaço são conceitos relativos.
Conhecendo-se a teoria da relatividade de Einstein, podemos entender parte
deste fenômeno de deslocamento no tempo e no espaço. Einstein com sua
teoria dizia que o tempo não é o mesmo em todos os lugares do universo.
Aqui na dimensão espiritual, podemos nos deslocar com velocidades acima
da velocidade da luz. Não dá quase para imaginar a que velocidade nos
deslocamos, pois a velocidade da luz é de 300 mil quilômetros por segundo.
Deste modo podemos nos deslocar tão rapidamente, através de técnicas
comuns para nós daqui, que ir para o passado ou para o futuro é muito fácil,
pois tanto um quanto outro estão em um mesmo plano. O passado existe e o
futuro também. Que não existe, por incrível que pareça, é o presente. O que
existe é um passado extremamente recente, mas é passado. Neste momento
enquanto lhes digo estas palavras, cada palavra que pronuncio é parte do
passado. Como nos deslocamos em velocidade acima da velocidade da luz,
podemos viajar tão rápido e alcançar o tempo passado indo até aquele
momento. Em todos os lugares onde estivemos há poucos minutos, na
verdade estivemos lá, em tempo da Terra, ontem pela manhã.
Ouviram-se comentários em baixa voz. Os alunos estavam confusos.
— Eu sei que isso os confunde, mas imaginem o seguinte: Uma
estrela no céu, vista da Terra. A luz emitida por esta estrela é o que os
nossos olhos captam em um determinado momento, demorou no mínimo
quatro mil anos. Estou me referindo à luz emitida pela estrela mais próxima
da Terra, para atravessar o espaço e nos alcançar. Se nos deslocarmos com a
velocidade do pensamento ou através de portais, poderemos alcançar o raio
de luz quase no momento em que foi emitido, então estaremos no passado
de quatro mil anos atrás. Esta mesma luz que presenciamos a emissão
chegará à Terra após quatro mil anos.
— Então a senhora quer dizer que se nos deslocarmos muito rápido,
poderemos ir ao passado, mas que também é o presente? — perguntou
Romualdo que estava com a mão levantada.
— Tudo o que ocorre no presente já é passado, mas de certa forma,
sim, é isso mesmo.
Muitos se olharam, coçaram a cabeça ou, o queixo, tentando
raciocinar sobre o que foi dito e tentando entender a explicação da
professora. Por mais que pensassem sobre o assunto, muitos não alcançaram
a extensão das explicações.
— O que ocorre na prática é isso: Podemos viajar no tempo e no
espaço. Isso é um fato natural e breve será um meio de transporte comum
também na Terra. Os portais interdimensionais estão sendo estudados e logo
saberão, através de orientações de equipes espirituais, como utilizá-los.
Outra pessoa levanta a mão e pergunta a Vivian:
— Professora, através dos portais podemos não somente viajar no
tempo, mas também usá-los, de forma a auxiliar nas emergências que
encontramos hoje. Em uma destas emergências, foi possível retirar parte de
um tumor e enviá-lo a outra dimensão. Então, se pudemos retirar parte
daquele tumor, por que não o retiramos totalmente? — perguntou Lenita.
— Aqui em nossa dimensão espiritual, podemos fazer coisas que os
senhores nem imaginam e se lhes revelássemos agora, nem aceitariam a
possibilidade em tese. Nós temos condições de facilitar a vida de muitas
pessoas, mas não podemos interferir. Se tivéssemos permissão para tanto,
poderíamos acabar facilmente com todas as doenças existentes na Terra,
eliminar todos os germes patogênicos existentes na atmosfera do planeta, e
muitas coisas que vocês poderiam considerar como fantásticas, mas não
temos esta permissão. O planeta Terra é uma escola e se fizermos isso,
estaremos isentando seus habitantes do aprendizado, atrasando seu
aprendizado evolutivo. Temos permissão para auxiliar quando solicitam a
nossa ajuda ou quando a ajuda é viável e revestida de alguma forma de
aprendizado. Caso contrário, estaríamos prejudicando mais do que ajudando
— explicou Vivian, enquanto expunha seu belo sorriso.
Jane levanta a mão. Queria saber a respeito daqueles equinos que ela
mencionou que podiam se comunicar com seu dono.
— Os senhores devem saber que não somos a forma mais inteligente
do Universo. Estamos em uma escala considerada baixa de evolução se nos
compararmos a outros seres que habitam outros mundos. O mesmo ocorre
na Terra. Os seres humanos dividem com outros seres, que na maioria das
vezes consideramos como estúpidos, um grau elevado de inteligência. Estes
cavalos são um exemplo, assim como os golfinhos e as baleias; os cães e
tantos outros que humildemente preferem não expor seu potencial
intelectual. Preferem submeter-se a nós a nos confrontar. Se os humanos
reconhecerem essa inteligência, certamente haverá conflitos, pois somos
inseguros por natureza. Haveria confronto com os animais por temor da
concorrência e por perder escravos baratos. Em pouco tempo deixariam de
existir animais. Enquanto os consideram como crianças desprotegidas,
sentindo-se superiores, os protegem — concluiu Vivian.
Todos ficaram pensativos e em silêncio. Nenhum dos alunos fez mais
perguntas, então Vivian sugeriu que se houvesse interesse, poderiam se
juntar a outra equipe que estaria voltando à Terra em poucos minutos para
uma excursão a um matadouro de bovinos na cidade de Bauru. Os
interessados deveriam se dirigir ao primeiro andar onde o professor já os
esperava.
Os Condenados

Alguns alunos, e dentre eles Guilherme, quiseram participar de mais


esta viagem para acompanhar como as equipes espirituais trabalham em
prol do alivio do sofrimento destes animais.
Guilherme se dirigiu com os outros alunos para onde estava o
professor Anésio, que iria conduzir a turma.
Anésio disse que ainda tinham dez minutos antes da saída. Guilherme
quis aproveitar o pouco tempo para visitar seu pai e saber como iam as
preparações para o seu retorno ao mundo físico.
Indo até a saída do prédio, tomou uma esteira e foi ao hospital ao
encontro do pai. Ao se encontrarem, abraçam-se.
— Como estão indo as coisas? Já estão acertando a sua reencarnação?
— Sim — respondeu o pai — hoje mesmo estive no departamento de
reencarnação para escolher o modelo de corpo em que devo retomar. De
acordo com isso, é escolhido um óvulo específico da minha futura mãe e
um espermatozóide específico de meu futuro pai. Mas, filho, preciso lhe
pedir algo para que eu possa prosseguir com os trâmites reencarnatórios.
Gostaria de falar com Cláudia também.
— Então vamos até ela. E partiram sem dificuldade, pois Guilherme
já adquiriu a habilidade de se deslocar por pensamento.
Encontraram Cláudia em uma colônia hospital, auxiliando enfermos a
se recuperarem. Ao vê-los, se aproxima e os cumprimenta.
— Cláudia, este é meu pai. Ele deseja conversar conosco e fazer um
pedido.
— Ah! Sim, já nos conhecemos.
— Bem, meus filhos, para eu continuar com meu projeto
reencarnatório, preciso voltar como filho de um casal que possa dar a mim
uma educação de boa qualidade para que eu, tendo apoio e amparo
necessários, consiga reparar meus erros do passado. Eu, em outras e não.
Somente nesta última reencarnação, maltratava animais por diversão e
nunca fui educado no sentido de não prejudicá-los. Nas cidades do interior é
comum e até faz parte da cultura a caça de animais por diversão. Agora
tenho consciência de meus erros, mas quando voltar à Terra precisarei de
pais que me mostrem desde criança a importância dos animais como nossos
irmãos e não como objetos de diversão. Precisarei de pais que se importem
com o bem-estar das pessoas e dos animais. Eu gostaria de voltar ao plano
físico como filho de um casal que tenha esta consciência. Enfim, eu gostaria
que Cláudia me recebesse como seu filho — pediu Benati com lágrimas nos
olhos.
O casal permaneceu em silêncio por alguns instantes, surpreso com o
pedido. Benati os olhou e disse novamente:
— Se não quiserem, eu entenderei, pois sei que não fui um bom pai e
reconheço meus erros. Sei que não posso forçá-los a esta responsabilidade.
Não poderíamos receber melhor presente de casamento que este, senhor
Benati. Para mim não seria um pesar, seria uma honra recebê-lo como filho.
Isso me tornaria a pessoa mais feliz do mundo.
— A mim também, pai. Nada me faria mais feliz do que poder
recebê-lo entre nós novamente.
Um paciente estava tendo convulsões, e precisavam de Cláudia com
urgência. De longe uma voluntária faz um sinal para Cláudia, chamando-a.
Ela se despede para ir ao dever, não sem antes agradecer a oportunidade que
o senhor Benati oferecia a eles em tê-lo como filho.
Guilherme e Benati retornam ao rancho’. Ao chegarem, despedem-se
e Guilherme diz ao pai:
— Não há bem maior neste mundo que a paternidade e por isso sou
duplamente feliz, pois o terei por perto de novo e terei um filho.
Com lágrimas nos olhos, Guilherme se despede do pai e retorna ao
prédio da biblioteca.
O senhor Anésio o aguardava para que partissem em auxilio aos
animais prestes a serem abatidos em um matadouro. Estando todos
reunidos, Anésio convida os alunos a seguirem através do portal aberto que
os levaria ao novo aprendizado. Ao atravessarem o portal, chegaram a uma
instalação industrial ampla, produtora de carnes e derivados de carne
bovina. Era um grande prédio central. A frente dele, muitos caminhões
frigoríficos aguardavam pelos carregamentos e outros traziam bovinos
vindos de fazendas criadoras da região.
Por detrás do prédio, havia um grande cercado onde cerca de
trezentos bovinos se aglomeravam à espera de seu destino certo. O piso do
cercado era de terra e acabava de chover. O chão estava lamacento e
escorregadio. Os animais estavam ansiosos e agitados, movimentando-se de
um lado para outro, enquanto algumas pessoas andavam entre eles,
selecionando os animais que se feriram durante o transporte ou que
apresentassem alguma evidência de não estar saudável. Entre os animais
havia um que estava estressado e fraco, nem podia se levantar. Ouviu-se
uma das pessoas dizer:
— Este não serve para consumo. Leve-o à graxaria.
A graxaria era o local onde eram enviados os animais rejeitados e os
rejeitos de carne que não podem ser usados como alimento para humanos.
O que puder ser aproveitado será convertido em embutidos ou servirá à
indústria química ou farmacêutica. Os animais sadios continuavam dentro
do cercado para serem levados ao seu destino dentro das instalações.
Aquelas mesmas pessoas passaram a conduzi-los forçosamente em direção
a um cercado que dava em um corredor que se estreitava cada vez mais, até
que passasse apenas um de cada vez. Os animais eram obrigados a seguir
por ali, pois os encarregados aplicavam descargas elétricas por meio de um
aparelho para que através da dor obedecessem e seguissem ao corredor.
Grandes bufadas e respiração ofegante seguidas de mugidos tristes e
lamentosos podiam ser ouvidos entre os animais que esperavam o encontro
com o carrasco na outra extremidade do corredor. Os mais afoitos tentaram
inutilmente saltar sobre a cerca muito alta, com intenções frustradas de
fuga. Mas livrar-se daquele fim era impossível. Entre choques e gritos dos
encarregados, os bovinos, amedrontados, encaminhavam-se ao único local
onde poderiam ao menos se livrar dos choques. Sem opções, iam se
enfileirando no corredor estreito, entrando somente um de cada vez.
O grupo de estudantes observava tudo, mas nada podiam fazer além
de observar. Notavam os olhares de angústia e desespero em cada animal
que não notava suas presenças.
Os olhos dos bovinos estavam esbugalhados de terror.
Anésio pede aos alunos que apurem a Visão e percebam as presenças
estranhas dentro do cercado e ao redor.
— Observem a quantidade de entidades desencarnadas que se
encontram entre os animais.
Eram centenas ou talvez milhares de seres com aparência medonha
como aquelas vistas durante a visita ao umbral, com seus corpos
deformados. Pareciam personagens de filmes de horror, que se
movimentavam rapidamente como sombras, entre os animais que sentiam e
temiam suas presenças. Eram entidades escuras, de baixo padrão energético.
Alguns corriam alucinados de um lado para outro, gritando como
dementados, outros cavalgavam os animais por diversão, Outros gritavam
aos funcionários estimulando-os a aplicarem mais descargas elétricas nos
animais para que estressados, produzissem mais adrenalina e cortisol.
Estressados, os animais produzem maiores quantidades de energias
densas das quais se alimentavam como esfomeados, sugando-os, ao agarrar-
se aos animais. Estes tentavam fugir desesperadamente das entidades que os
assustavam mais que os funcionários com seus aparelhos de tortura, mas
não tinham para onde ir. Aqueles seres riam alto, felizes com a
possibilidade de absorverem as energias dos animais prestes a serem
abatidos. Gritavam e uivavam como lobos à espera de mais energias
produzidas pelos pobres animais que já estavam impregnados delas. A cada
choque que os funcionários aplicavam nos animais, ouviam-se gritos de
estimulo ao redor, pois significava mais energia para serem sugadas.
A medida em que entravam pelo corredor; o animal que ia à frente
consegue ver a porteira aberta na outra extremidade. Seria a saída daquele
inferno? Iludidos com a falsa ideia de poderem fugir dali, corriam
apressados com os olhos fixos na porteira aberta. Liberdade finalmente.
Aproximam-se rapidamente, acreditando estar diante da chance de se
livrarem do cativeiro, mas quando a porteira se fecha diante deles
impedindo sua passagem ou seu retorno, faz com que fiquem presos no
corredor da morte. Nesse momento, ouviu-se um grito longo de satisfação
de uma das entidades que estavam sobre a grade da porteira. Dá um salto e
imediatamente agarra-se ao tórax do animal que se assusta com seu
movimento brusco para sugar-lhe a energia que escorria em fluxo
acinzentado mais abundante ainda espesso como graxa, o que para eles era
um banquete.
Anésio pediu que observassem acima da porteira. Havia um
funcionário escondido, portando uma enorme marreta. A porteira se abre e
o animal, com esperança de deixar aquele sofrimento, vai em busca de uma
provável liberdade, que não encontrará vivo. Ao entrar, as porteiras se
fecham e o animal não pode mais retroceder e antes que note a presença do
funcionário, ela desce sobre sua cabeça, fazendo-o perder os sentidos.
Dos alunos ouviu-se em uníssono um som de lamento pela pena que
causava.
A marreta caiu pesadamente sobre o crânio do animal que
desacordado rolou para dentro do prédio. Antes que recobrasse a
consciência os funcionários o penduraram pelas pernas de trás em um
dispositivo elevatório e cortam-lhe as jugulares que jorravam sangue em
abundância. Nesse momento centenas de entidades que estavam à espreita
saltaram sobre o sangue, aos montes, como moscas sobre o açúcar.
Lambuzavam-se daquele líquido como animais selvagens sobre a sua presa.
Outros agarravam-se à carcaça da pobre vítima para sugar-lhe as últimas
energias.
Anésio pede para observarem a carne já embalada e pergunta:
— Os senhores notam algo de diferente nesta carne em relação ao que
acompanharam até o momento?
Todos observaram melhor e viram ainda entidades abraçadas aos
pedaços de carne e uma nuvem escura ao redor da peça comercial de carne.
Então falou:
— Esta energia permanecerá com a carne enquanto existirem células
vivas nela e enquanto não se deteriorar a última célula, aqueles seres
permanecerão ali, tentando sorver o que puderem. Mesmo após cozida, a
carne levará parte desta energia, em um bife, por exemplo, que poderá ser
servida a qualquer pessoa. A pessoa que ingeri-la, absorverá parte daquela
energia escura consequente ao que passou o animal antes de sua morte e
algo das entidades que se mantiveram em contato com a peça o tempo todo.
Alguém pergunta ao professor Anésio:
— Professor. E por isso que não se recomenda comer carne vermelha
antes de algum tratamento espiritual?
— Isso mesmo, senhor Marcelo, não se recomenda comer qualquer
carne, mesmo a de frango ou de peixe, antes de qual quer tratamento
espiritual. Na verdade o ideal seria que deixássemos de ingerir carne de
modo geral, mas como a maioria de nós ainda sente necessidade desse tipo
de energia, então o consumo é aceito fora dos tratamentos que envolvam
energias espirituais. Com o tempo, todos teremos aversão a ingerir carne e
acabaremos por achar incrível que alguém possa matar para comer. Em
relação à carne vermelha, o que a diferencia de uma branca é a quantidade
de mitocôndrias, isto é, microestruturas encontradas dentro das células
musculares da carne de consumo. As mitocôndrias são pequenas fábricas,
do ponto de vista espiritual, de ectoplasma. Isso significa que ao nos
alimentarmos desse tipo de carne estamos ingerindo ectoplasma
impregnado por aquelas energias de sofrimentos pré-agônicos do
abatedouro. A carne de peixe e frango possuem uma menor quantidade de
mitocôndrias e consequentemente menos ectoplasma será ingerido por nós,
mas mesmo em quantidades menores podemos sentir a energia densa do
sofrimento pré-agônico da ave ou do peixe. A quantidade desta energia é
dezenas de vezes menor que a notada na carne vermelha, mas ela existe
ainda assim.
— Professor — chamou uma aluna.
— O que acontece quando ingerimos esta energia? — perguntou Emi,
uma descendente de japoneses.
— Vamos ver o que acontece ‘in loco’ — respondeu Anésio.
— Vamos ao refeitório do matadouro, onde as pessoas estão se
alimentando de carne agora mesmo.
Ao chegar, se encontraram dezenas de funcionários almoçando e o
prato principal era carne.
O professor Anésio abriu uma tela fluídica à frente dos alunos e pediu
que observassem qual o trajeto da energia no organismo:
— Vejam. A pessoa que ingere carne, imediatamente, tem a cor de
sua aura alterada. Os tons tornam-se escuros. Observem os intestinos.
Notem como revestem-se de uma espécie de fuligem negra. As células
intestinais parecem relutar para absorverem, mas assim que o fazem,
tornam-se escuras. Essa energia escura circula pelo sangue fazendo agregar
moléculas de gorduras, nas paredes dos vasos sanguíneos levando a risco de
formar estreitamentos. Ao chegarem às células do corpo, essas também
tornam-se escuras, vejam — e apontou o dedo indicador para a tela onde se
podiam ver as células corporais intoxicando-se com essas energias.
— Professor — perguntou Guilherme — esse tipo de energia pode ser
visto entre a presa e o predador carnívoro na natureza?
— Não. Esse tipo de energia é própria de animais que passam por
longos períodos de sofrimento no abatedouro. Na natureza tudo é muito
rápido e não dá tempo de gerar esse tipo de energia — respondeu Anésio.
— Professor — chamou René — um aluno que se destacava dos
outros por causa de seu jeito de garoto adolescente — esses bovinos
recebem as mesmas atenções ao desencarnarem como vimos outros, para
não sofrerem? — perguntou preocupado com o bem-estar dos seus irmãos
abatidos ali.
— Sim. Cada animal recebe atenção em particular de nossas equipes
de resgate que evitam sofrimentos desnecessários. Momentos antes de
receberem o impacto sobre a cabeça são submetidos a energias
anestesiantes que fazem com que nem ao menos sintam que foram atingidos
por algo. Nesse momento as equipes estão espalhando fluidos calmantes no
curral a fim de diminuir-lhes o estresse. Não podemos impedir que morram
para servir aos humanos, pois aceitaram voluntariamente reencarnar como
animais que seriam usados nessas condições como meio de nutrir-nos. Essa
escolha faz parte de seu aprendizado por isso não podemos interferir —
concluiu Anésio.
A visita estava por terminar, então o professor convidou-os a voltarem
ao prédio da biblioteca, recomendando o retorno para o dia seguinte para
continuação das aulas práticas.
Guilherme, ao acordar pela manhã, de nada se lembrava do sonho,
mas sentiu muitas saudades de seu pai falecido, e uma grande vontade de
encontrar e abraçar Cláudia. Não foi para a clínica, como de costume, mas
ao hospital onde sua noiva trabalhava. Chegando lá, perguntou por ela. A
recepcionista apontou para o final do corredor onde Cláudia estava
conversando com uma enfermeira. Ele a surpreende com um abraço,
deixando-a embaraçada na presença da amiga que sorriu, compreendendo
que era o noivo.
— Puxa! Que vontade louca de te encontrar e de te abraçar. Parece
que faz um século que não te vejo. E a abraçou novamente.
— Gu! O que aconteceu?
— Não sei, mas me sinto melhor agora que te encontrei. Acho que
agora posso ir trabalhar mais sossegado.
Beijando-a no rosto, despediu-se e saiu do hospital em direção a sua
clínica.
Surpresas

Ao chegar, encontrou João Rubens com uma gata e dois filhotes.


— Oi, João Rubens. De quem são esses gatinhos? São seus?
— Não senhor, patrão. Abandonaram aqui na clínica e os achei dentro
de uma gaiola de passarinho apertados como sardinhas em lata.
— Coitados! — exclamou Guilherme surpreso ao ver o tamanho
desproporcionalmente pequeno da gaiola que os continha.
— Devem estar com fome. Vamos alimentá-los.
— Não se preocupe, patrão, já os alimentei. Comeram como
desesperados. Acho que estavam muito tempo sem comer.
Guilherme os examina e constata que os filhotes estavam saudáveis,
mas a mãe está fraca e cheia de cortes e cicatrizes pelo corpo. Muitos
vermes intestinais a vampirizam e uma infecção causa-lhe tremores febris.
— Precisamos medicá-la. Não sobreviverá se não for tratada
rapidamente — pegando sua maleta de primeiros socorros, faz assepsia dos
ferimentos e ministra-lhe antibióticos.
— Pobrezinha. Como será que veio parar aqui? Por quanto sofrimento
terá passado antes de chegar? — pensou Guilherme.
— Podemos ficar com ela, patrão? — perguntou João Rubens,
preocupado — eu cuidarei deles e os alimentarei. Limparei a sujeira e trarei
a comida de casa para eles — falou, supondo uma recusa do patrão.
— Tudo bem, João Rubens. Mas eu trago as rações — falou
Guilherme.
Então adotaram a pequena família de felinos que finalmente
encontraram um lar.
Os gatinhos não tinham mais que um mês de idade e a mãe não mais
que um ano. A mãe era quase toda branca, mas tinha algumas manchas
marrons e pretas na cabeça e tórax. Seus pêlos eram curtos e os olhos
grandes eram verdes.
Os dois filhotes eram muito parecidos um com o outro. Pêlos cinzas e
brancos longos e sedosos. Abdome abaulado indicando que acabavam de
mamar. Olhos espertos que prestavam atenção a cada movimento próximo a
eles.
Enquanto Guilherme e João conversavam, os filhotes brincavam com
a cauda da mãe que se movia nervosamente por causa da dor que sentia.
Estava muito magra e fraca.
Era perigoso continuarem mamando, pois podiam adoecer também.
— Vamos dar-lhes leite e alimentos sólidos, pois já estão em
condições de desmamar — falou o médico — assim a mãe terá condições
de se recuperar mais rapidamente.
Os gatinhos adaptaram-se facilmente ao novo lar e em pouco tempo
se alimentavam sozinhos. Brincavam bastante, gastando energia de sobra
que tinham, enquanto a mãe já estava se recuperando das feridas e da
infecção. Corriam e brincavam o tempo todo, pulavam um por cima do
outro como duas crianças. O passatempo favorito dos filhotes era se
esconder. Os filhotes eram a diversão dos que visitavam a clínica, pois além
de bonitos eram também sociáveis, buscando contato com as pessoas que
ansiavam por adotá-los.
Sofia, a mãe, acabou ficando na clínica aos cuidados de João Rubens
e Guilherme, e se tornou parte da família. As vezes Guilherme a levava para
casa e ela brincava com Bons e Bob, que já estava com aparência mais
adulta. Os três brincavam como já se conhecessem há muito tempo até se
tomarem quase inseparáveis. Ela foi morar definitivamente na casa de
Guilherme junto com os Outros dois que não a deixavam em paz. Sempre
correndo de um lado para outro como três irmãos felizes por estarem juntos.
Quando menos se esperava, vinha Sofia correndo, atravessando a casa como
um raio, seguida de Bob, o filhote, e Bons o cão cego, que não perdia uma
diversão por nada no mundo junto com seus dois novos companheiros.
Aliás era o que mais se divertia. Certa noite Cláudia chega à casa de
Guilherme, ficam conversando até de madrugada sobre os planos de
casamento e acabaram cochilando sobre o tapete macio da sala junto com
Sofia, Bons e Bob. Sofia sobre o abdome de Guilherme e Bob e Bons com
suas cabeças apoiadas sobre o abdome de Cláudia. No dia seguinte, ao
chegar novamente à clínica, Guilherme era esperado por uma senhora que
segurava um pequeno filhote de Rotweiller com cerca de trinta dias de
idade.
— Bom dia — cumprimentou Guilherme. — Em que posso ser útil?
— Este é um dos filhotes de minha Rotweiller que deu cria há um
mês e acidentalmente caiu e bateu com a cabeça no chão. Ficou
desacordada por duas horas e agora não pára de chorar. Guilherme
examinou e constatou uma lesão cerebral. A filhote de Rotweiller estava
cega, assim como o seu cão Bons, mas não apresentava qualquer outro
sintoma mais comprometedor.
— Sinto muito, seu cãozinho está cego — falou à senhora, que não
pareceu abalar-se com a notícia desagradável.
— Ela tem recuperação? O tratamento é dispendioso?
— Não senhora. O tratamento é relativamente barato, mas não há
garantias de que volte a enxergar — explicou o médico.
— Então quero fazer a eutanásia — falou de forma fria e sem o
menor sinal de arrependimento do que dizia.
— Senhora, seu cão está saudável. Ele só não consegue enxergar e
além do mais é só um filhote que poderá aprender a conviver com a
cegueira se ela for irreversível.
— Mesmo assim, não quero gastar com um cão cego, prefiro a
eutanásia — respondeu secamente.
— Sinto muito, mas não posso fazer isso — falou Guilherme.
— Eu não vou gastar com essa cachorra. Eu faço criação para vender.
Se vai dar prejuízo, é melhor fazer a eutanásia — insistiu a mulher.
— Sinto muito, mas não farei — tornou Guilherme.
— Pois então, fique com ela para você — e entregou o pequeno cão
cego nas mãos do médico, girou sobre o calcanhar, dando as costas ao
doutor e saiu sem se despedir, contrariada. Guilherme segurava o filhote e
ficou parado sem ação. Não sabia o que dizer e nem o que fazer diante
daquela situação e da frieza, quanto a um assunto tão grave. Guilherme
olhou para João Rubens e exclamou:
— Este mundo não tem mais jeito!
— Se as pessoas não se sensibilizam em uma situação como essa,
então com o que se sentirão tocadas? — perguntou João Rubens ao patrão,
também surpreso com a reação inesperada da senhora, abandonando o
filhote de vez.
— Mais um para a família... — falou Guilherme.
— Teremos que amamentá-lo por alguns dias ainda, pois é muito
novo, não sabe mastigar e não pode alimentar-se sozinho.
Ao olhar para aquele cãozinho, que parecia um brinquedo de pelúcia
se espreguiçando sobre as palmas das mãos de Guilherme, não havia como
resistir. Resolveram ficar com mais um integrante na família. Foi medicado
e a cada dia seguia-se um tratamento rigoroso a fim de que readquirisse sua
capacidade visual. Dois meses se passaram e não havia sinais de
recuperação. Sua visão não se restabelecia. Já estava pesando quase dez
quilos de pura energia. Desajeitada por natureza e sem ver por onde andava,
derrubava tudo no seu caminho dentro da clínica. As pessoas que
frequentavam a clínica a achavam uma graça e chamava a atenção por sua
beleza e vitalidade.
Brincava com todos os clientes. Muitos perguntavam se Guilherme
não venderia o filhote. Quando o médico dizia que não venderia, mas daria
a quem cuidasse muito bem dela, muitos se interessavam rapidamente. No
entanto, quando explicava que ela era cega, subitamente o interesse
desaparecia.
— Ah! Ela é cega. Então deixa para lá. Não tenho tempo nem para
cuidar de mim, muito menos de um cão cego diziam alguns.
— Pensando bem, não tenho espaço em casa. Ela é muito grande —
diziam outros, dissimulando a intenção de não adquirir um cão deficiente.
Quatro meses de idade e a cachorrinha já ganhava corpo de cão adolescente,
mas não via um palmo diante de si. No entanto a deficiência visual não a
impedia de brincar dentro da clínica, correndo e pulando alegremente como
se pudesse ver tudo. Seus outros sentidos se aguçaram para compensar a
falta de visão. Certo dia entrou na clínica uma senhora humilde que queria
fazer um pedido ao médico.
— Doutor Guilherme, minha cachorrinha morreu há alguns meses
porque já era muito velha. Ela era muito querida e minha filha está sentindo
muito a sua falta. Não sei o que fazer, pois ela queria outra cachorrinha e eu
não posso comprar. Pensei em passar por aqui e perguntar ao doutor se não
saberia de alguém que quisesse doar algum cachorrinho para substituir a
Penélope.
— Puxa vida! — exclamou Guilherme contente com a possibilidade
de arranjar um lar definitivo para o filhote e ainda contentar a criança que
perdeu sua cachorrinha.
— Eu tenho um filhote, que é linda, brincalhona, inteligente,
obediente, mas...
— Mas o que doutor?
— Ela é cega...
O senhor está doando porque ela é cega, doutor?
— Não, não é por isso. Estamos à procura de alguém que a ame tanto
quanto nós e tanto quanto amo o meu Bons que também é cego. Na verdade
ela foi abandonada aqui pelo fato de ter perdido a visão e nós a adotamos à
espera deste alguém.
— Pois o senhor achou. Eu a quero. Será uma grata surpresa à minha
filha, que aguarda ah do lado de fora — falou a senhora, apontando para a
porta da entrada da clínica onde uma criança a aguardava em silêncio.
— Ora, por que a senhora não a deixou entrar também? Traga-a para
dentro para que ela veja se gosta da cachorrinha. Talvez ela não queira
porque não é todo mundo que iria querer ter um animal cego em casa —
falou o médico sem medir as palavras.
— Está bem, eu a chamarei. A senhora saiu da clínica e retornou com
a filha. Era uma criança de seus dez anos de idade, loura, rosto alongado e
nariz afilado. Ela era realmente muito bonita. Parecia uma boneca.
Entraram de mãos dadas, mãe e filha. Ao se aproximarem a mãe diz:
— Filha, cumprimente o doutor que nos dará um belo presente. Então
a menina estende o braço direito e não encontra a mão do médico.
Guilherme busca a sua mão, a cumprimenta e olha em seus olhos
inexpressivos. Ela apresentava algumas manchas brancas que cobriam as
córneas.
— Ela perdeu a visão em um acidente há dois anos, doutor.
Guilherme não conseguia dizer uma palavra. Estava desconcertado. Sua
expressão dolorida era de quem pedia profundas desculpas por dizer o que
disse há pouco. Enquanto isso João Rubens vinha trazendo a cachorrinha e
a colocou nos braços da menina que a abraçou forte.
Enquanto era lambida diversas vezes pela Rotweiller que simpatizou
imediatamente por ela.
— Mamãe — chamou a menina.
— Estou aqui, filha.
Virando-se em direção à mãe, a garota diz:
-Ela se chamará Penélope também.
Deu um grande sorriso e continuou a abraçar a pequena Rotweiller.
Agradeceu ao médico dando-lhe um beijo no rosto, e foi retribuído por ele.
Deu outro beijo em João Rubens que estava com lágrimas nos olhos. A mãe
abraçou o médico e João Rubens, pegou Penélope em um braço, deu a outra
mão à filha foram para casa felizes. No dia seguinte, a nova dona de
Penélope liga ao doutor para dar notícias:
— Doutor — falou a senhora — quando chegamos, parecia q ela já
conhecia a casa. Foi direto ao lugar onde ficava a nossa Penélope e deitou-
se do mesmo modo como fazia, à espera de sua ração e biscoito. Mas o que
eu queria dizer é que ela voltou a enxergar e está correndo por toda parte,
alegre como se estivesse querendo mostrar sua alegria em poder enxergar.
A senhora fez uma pausa ao telefone para enxugar as lágrimas que
não a deixavam falar direito.
— Doutor, não sei como agradecer a alegria que o senhor nos
proporcionou, pois minha filha se transformou com a chegada de Penélope
e nossa esperança em ter nossa filha enxergando de novo, com o exemplo
dela, se renovou. Deus o abençoe pelo que fez por nós. Aquele foi um dia
especial na vida daquelas pessoas. E aquela notícia da recuperação de
Penélope também deixou Guilherme muito feliz. Naquela noite Guilherme,
ao final do expediente, despede-se do amigo e agora compadre João Rubens
e retoma para casa, para a companhia da esposa Cláudia, ansioso para dar-
lhe a notícia da recuperação de Penélope. Em casa, Cláudia o esperava
também para lhe dar outra notícia. Ela corre para seus braços e o beija.
Estava mais feliz que o habitual e antes que Guilherme pudesse contar o
que aconteceu na clínica, Cláudia diz:
— Vamos jantar fora para comemorar... Papai.
O novo pai demorou um pouco para cair em si, mas quando entendeu,
começou a rir sem parar e depois a chorar e depois a rir de novo de alegria
pela ótima notícia.
Cláudia estava grávida e em breve estaria retomando à dimensão
física o pai de Guilherme, agora como filho, O casal estava radiante.
Ligaram para todos os parentes e amigos para contar a boa nova e saíram
para comemorar. Tarde da noite retornam para mais uma noite de sono e
mais uma jornada de aprendizado no astral, O retorno ao rancho foi especial
assim como todo o dia pelo qual passou Guilherme. Ele mal podia esperar
para dar a notícia também ao amigo Gustavo.
Ao chegar ao hospital encontrou o amigo para quem contou a
novidade. Este ficou muito feliz e parabenizou-o. Gustavo ficou feliz
também por saber que o amigo Benati estava completando seu caminho de
volta ao mundo físico em companhia de tão boas pessoas como eram
Guilherme e Cláudia. Gustavo comenta sobre a alegria da reencarnação não
somente para o reencarnante, mas também para os amigos que ficam na
dimensão espiritual, torcendo para que tenha sucesso e consiga levar a
termo seus propósitos registrados no projeto reencarnatório, e aos que o
esperam na Terra como pais e parentes e aguardam ansiosos sua chegada
para ser amado. A conversa transcorria animada sobre a reencarnação do
pai de Guilherme, mas estava quase na hora de começar a aula. Antes que
seguisse à sala de aula, Gustavo comenta:
— Não é só o senhor Benati que está feliz por sua volta ao plano
físico, Penélope também.
— Penélope, a Rotweiller? — perguntou Guilherme.
— Sim, a nova Penélope é a reencarnação da velha Penélope. Ela
retornou ao lar. A antiga dona da Rotweiller já havia vendido toda a ninhada
a um lojista de artigos para animais de outro estado, por isso intervimos
para que ela retornasse à casa de Juliana, a garota cega. Então fizemos com
que, a Rotweiller sofresse um pequeno acidente e desligamos
temporariamente as terminações nervosas do nervo óptico para que, ficando
cega não fosse vendida e ficasse por perto à espera da verdadeira dona.
Sugerimos que ela levasse a filhote a um veterinário, ou seja, até você, pois
sabíamos que não faria a eutanásia. Como já conhecíamos a criadora e
sabíamos de seu temperamento, era previsto que a abandonasse na clínica.
Aguardamos que as vacinas fossem feitas e que ela chegasse a uma idade
adequada para que Juliana a reencontrasse por nossa indicação intuitiva. Foi
o que aconteceu. Assim que retornou ao lar, reconectamos suas terminações
neurológicas e ela voltou a enxergar.
O resultado foi duplamente positivo, pois ela reencontrou a família e
dona Izilda e o senhor Augusto readquiriram a fé em que Juliana volte a
enxergar, pois se Penélope conseguiu, então ela também pode conseguir. De
acordo com os relatórios da colônia responsável pelos projetos
reencarnatórios de Juliana, a recuperação de sua visão deve ocorrer dentro
de um ano — concluiu Gustavo feliz, com um sorriso no rosto.
— Bem, já que estamos falando de uma abandonada que reencontrou
o lar, poderíamos falar de outra abandonada? Eu poderia aproveitar estes
últimos minutos para saber sobre nossa Sofia?
— Vou falar rapidamente sobre ela, senão você vai se atrasar para a
aula — avisou Gustavo.
Sofia se chamava Catarina, tinha um dono que bebia muito e não
cuidava dela. Sóbrio ele era boa pessoa, mas embriagado era outra. Um dia,
quando retornou para casa bêbado, por diversão, quis acertar Catarina com
uma faca de cozinha. Só para ver se acertaria daquela distância. E acertou.
Gravemente ferida, Catarina foge de casa e se torna independente, vivendo
da caça e de alimentos que conseguia fortuitamente.
Recuperou-se das lesões, mas era uma gata sem experiência de vida
fora de casa. Era muito nova quando entrou no cio pela primeira vez, já
vivendo nas ruas. Conheceu Frajola, um gato sem raça definida, cinza e
branco, que apesar de ter donos e um lar ficava mais tempo nas ruas do que
em casa. Sofia o conhece e o elege como futuro pai de seus filhotes. Não
tinha onde morar e nem o que comer, mas os instintos a chamavam à
procriação. Prenha, perambulava à procura de alimentos no lixo. Enquanto
estava distraída buscando o que comer, dois cães se aproximaram
sorrateiros. Pretendiam atacá-la e matá-la, pois ela invadiu o seu território.
Foi surpreendida por eles que a cercaram, deixando-a encurralada em
uma rua sem saída. Atacaram em conjunto, mas ela conseguiu escapar com
nossa ajuda. Muito fraca, desfaleceu em frente a um bar onde estava seu
antigo dono que a reconheceu e a recolheu, prometendo cuidar dela e que
não a deixaria mais fugir. Não demorou muito tempo para que novamente
ébrio, começasse a torturá-la com pontas de cigarro acesas. Não estava
ainda bem recuperada, mas preferiu ir embora de vez. Mais alguns dias se
passaram e os filhotes estavam para nascer, porém o primeiro dos filhotes
morreu dentro de seu abdome, impedindo o nascimento dos outros cinco
que estavam bem. Contrações fortes se sucediam mas não havia como
expulsar o filhote morto.
Novas contrações se seguem e por fim expelia líquido amniótico, mas
não o filhote. O odor do líquido atrai cães que a encontraram escondida por
trás de algumas tábuas, em um depósito abandonado. Tentam atacá-la de
surpresa, porém ela nota a presença de um deles que tropeçou em uma lata.
Rápida, consegue arranhar um e outro no rosto e foge para cima do telhado
onde encontrou lugar mais seguro. Com o susto conseguiu expulsar o feto
morto, facilitando assim o nascimento dos outros filhotes.
Escondida em uma fenda no telhado, lá estava ela dando à luz a cinco
filhotes. Ainda úmidos, Catarina ou Sofia os lambia tentando livrá-los de
suas membranas fetais. Uma um foram nascendo, sendo limpos e colocados
para mamar com um carinho materno extremo. Pouco saía para se alimentar
e já estava ficando fraca por causa disso. Aproveitando alguns momentos
enquanto dormiam, deixou-os para procurar algum alimento e água.
Estavam com duas semanas de nascidos quando, aproveitando a saída da
mãe, um gavião, ao notar os movimentos dos filhotes pela fenda, em um
voo rasante alcançou dois deles que não tiveram a menor chance de escapar
das garras daquela ave de rapina.
Sofia, de longe, vendo aquela enorme ave se aproximando de seu
esconderijo, pressentiu o perigo a que estavam expostos seus filhotes.
Rapidamente largou os restos de alimentos que procurava no lixo de um
restaurante ah perto e correu o mais veloz que suas pernas podiam suportar
mas não foi o suficiente. Quando conseguiu chegar, a ave já tinha estado em
seu ninho e levado os dois menores. Sofia notou a ausência dos dois e
percebeu que já estavam mortos nas garras daquela ave sorrateira que ela
podia ver de longe afastando-se.
Olhou para o alto e soltou um grande miado de dor pela perda. Antes
que retornasse em busca de mais algum filhote, Sofia os transportou a outro
local mais seguro onde não houvesse cães ou aves de rapina. Um jardim.
Parecia que ah era seguro entre aquelas moitas. Sofia saía de seu novo
esconderijo para buscar alimentos mas sempre por perto para não perdê-los
de vista. Os filhotes já estavam de olhos abertos e brincavam. Um dia, Sofia
saiu para encontrar alimento e retornou rapidamente, mas notou que os
filhotes tinham sumido. Ela tentou não entrar em pânico e saiu à procura de
suas crias. Deveriam estar por perto. Talvez tenham-se distraído, brincado e
se afastaram.
Sofia miava, na esperança de ouvir uma resposta deles, porém, isso
não acontecia. Continuou a procurá-los e por fim ouviu o miado de um
deles. Vinha de dentro da casa. Sofia saltou até a janela da sala e pôde vê-
los. Estavam tentando tomar leite dentro de um prato, todos lambuzados.
Andavam dentro do prato e se molhavam. Um lambia o outro e perceberam
que era leite e passaram a lamber o leite do prato. Os três estavam dentro do
prato tomando o leite que era oferecido por Elvirinha, uma garota de cerca
de seis anos de idade que adorava gatos, mas nunca pôde ter, pois seu pai
não permitia.
Elvirinha pediu ao pai que a deixasse ficar com os filhotes, mas ele se
recusava, dizendo que assim que terminassem o leite, os devolveria a sua
mãe. Elvirinha olha para a janela e vê Sofia. Ela insiste com seu pai e pede
para ficar também com Sofia. Novamente o pai recusa, então começa a
chorar. Seu pai sabia que quando começava a chorar não pararia tão cedo.
Ele concorda em deixá-los, mas seu plano era livrar-se deles quando ela
adormecesse. Seu pai pensou em soltá-los, mas provavelmente retornariam.
Pensou em matá-los, mas não tinha coragem.
Resolveu levá-los para longe. Alguém os adotaria. Lembrou-se de
uma gaiola de passarinhos que tinha guardado na garagem. Era muito
pequena para caber todos, mas forçando a entrada por uma pequena
abertura colocou todos dentro dela e a deixou em frente a sua clínica onde
passaram a noite toda, antes de serem encontrados pelo doutor João Rubens.
E é isso... Agora é melhor você ir para a aula porque eu já falei demais e
você vai se atrasar.
— Sei que estou atrasado, mas me diga como as equipes de
assistência agiram no caso de Sofia.
Gustavo explicou rapidamente:
— As nossas equipes estão sempre monitorando os animais. Nenhum
escapa de nossa vigilância. Não importa se tem dono ou não, se é selvagem
ou doméstico, se é um inseto ou um cavalo inglês puro-sangue. Todos
recebem atenção e auxílio. Sofia não poderia estar sem essa assistência.
Nossa equipe tentou evitar que seu dono a acertasse com a faca, provocando
uma contração muscular involuntária em alguns músculos de sua mão, mas
mesmo assim conseguiu acertá-la. Se não fosse nossa interferência o golpe
seria mortal. Seu dono se arrependeu e pediu-nos que a trouxesse de volta,
em suas preces, mas embriagado torna-se outra pessoa.
Não cumpriu o prometido. Quando foi atacada por cães que
pretendiam se divertir à custa de Sofia, os confundimos com sons que os
distraíram por tempo suficiente para que ela se safasse. Aplicamos energias
balsamizadoras enquanto tentava expulsar o feto morto, que, aliás, também
só foi expulso com nosso auxílio, pois estimulamos algumas glândulas
uterinas a secretarem abundantemente para tornar as paredes mais lisas e
escorregadias. Não podíamos interferir no episódio do gavião, pois estava
em seu roteiro perder três dos seis filhotes, a levamos à casa de Elvirinha
que os alimentaria e por fim foi trazida até você que poderia cuidar deles.
— Que resumida, bem! — brincou Guilherme. Gustavo olhou para
Guilherme e franziu a testa.
— Eu já entendi. Estou atrasado.
— Você entendeu — respondeu o amigo.
No Mar

Guilherme agradeceu a paciência do amigo, despediu-se e correu para


a sala de aula na biblioteca onde normalmente se reúnem. Chegando
estavam todos reunidos a sua espera. Ele se desculpou pelo atraso e ocupou
seu lugar. A aula daquele dia foi ministrada pelo professor Eder. Era uma
pessoa simples em seu modo de falar e de agir, apesar da inteligência
aguçada. Foi engenheiro em sua encarnação, mas ainda adota o jeito
simples que tinha quando era jovem e morava em uma cidade do interior.
Vestia-se ao modo de um boiadeiro: calças jeans, botinas de bico fino,
cano longo e saltos altos, camisa xadrez vermelha e azul, um cinturão com
grande fivela como um boiadeiro em relevo e chapéu do tipo Panamá.
— Nosso assunto de hoje será a ecologia marinha. Falaremos sobre os
animais do oceano — assim Eder iniciou a aula.
— Os oceanos se formaram há milhões de séculos. Naquela época
não havia vida orgânica na Terra. Somente vida inorgânica. Um dos alunos
interrompe a aula e pergunta:
— Professor o senhor falou em vida inorgânica. Eu pensei que para
ter vida, o ser deveria necessariamente ser orgânico.
Sendo inorgânicos, seriam eles minerais? — perguntou Pedro
Henrique.
— Então vamos começar do começo — falou Eder em tom de
brincadeira — inicialmente o sistema solar surgiu a partir de explosões
gasosas ocorridas no Sol, que se condensaram e formaram o que hoje são os
planetas. No início a consistência do planeta era macia como uma geleia
quente, aliás, muito quente, pois a temperatura era de milhares de graus
centígrados. Com o passar do tempo os gases e os minerais foram se
acomodando e a temperatura foi baixando, criando a atmosfera primitiva do
planeta, composta por milhares de gases diferentes que se aqueciam, se
evaporavam e se precipitavam como uma chuva cáustica que voltava à
superfície. Os gases, além de cáusticos, eram também tóxicos a qualquer
tipo de vida orgânica. Os únicos seres que poderiam permanecer naquelas
condições eram os seres inorgânicos. Eder fez uma pausa, olhou para os
alunos, enganchou os polegares no cinturão e esperou que alguém
perguntasse alguma coisa.
— Vocês não vão perguntar quem eram os seres inorgânicos que
viviam, ainda vivem e continuarão a viver na Terra enquanto ela existir?
Guilherme levanta a mão e aceita a brincadeira.
— Professor, quem eram os seres inorgânicos que viviam, ainda
vivem e continuarão a viver na Terra enquanto ela existir? Eder dá uma
risada e continua com a aula.
— São todos os átomos e partículas subatômicas dos elementos
químicos, que estão em toda parte ainda hoje, formando os minerais, o ar, a
água, etc. e todos eles possuem vida. Não uma vida como a entendemos em
relação aos seres orgânicos, como os vegetais e animais, mas se constituem,
sim, em uma forma de vida. São formas extremamente primitivas, mas
essenciais e de vital importância à nossa existência, pois fazem parte de
nossa constituição física e de todos os seres orgânicos que não existiriam
sem eles. Os seres orgânicos mais primitivos são estágios avançados dos
seres inorgânicos. As moléculas de ácido ribonocléico e ácido de
desoxirribonucléico são o primeiro estágio da transição entre estes dois
grupos de seres, os inorgânicos e orgânicos. Estas duas moléculas
basicamente formadas de carbono e nitrogênio se tornaram orgânicas e com
capacidade de replicarem ou de se reproduzirem dando origem aos ramos
orgânicos que conhecemos hoje. Os primeiros seres orgânicos que surgiram
foram os vírus. Depois vieram as bactérias e daí em diante surgiram as
outras formas de vida que conhecemos. Um dos átomos mais importantes
para a vida orgânica é o carbono. Ela está presente em quase todas as
moléculas orgânicas, como as proteínas das quais somos formados em
grande parte. O oxigênio do ar que respiramos, em conjunto com outro
átomo, o hidrogênio, forma a água, que é um líquido vital para nós
enquanto encarnados. O enxofre está presente em muitas moléculas
orgânicas. O ferro está presente em nossas células sanguíneas. O cálcio, o
magnésio, o sódio, o potássio convivem conosco, nos auxiliando nas
transmissões neurológicas e contrações musculares sem as quais
desencarnaríamos ou, aliás, nem existiríamos como somos. Eles convivem
conosco e nós dependemos deles.
— Professor. Quando foi que começou esta dependência química? —
brincou outro aluno que estava se sentindo à vontade com a aula
descontraída do alegre professor Eder, que ensinava brincando.
— Esta dependência começou mesmo antes de existirem os
orgânicos, pois à medida em que os inorgânicos se organizaram para formar
moléculas cada vez mais complexas, juntando com outras que chegaram à
Terra vindas do espaço com os milhares de asteroides que atingiam o
planeta todos os dias, deram origem aos seres orgânicos que são na verdade
o resultado desta organização dos seres inorgânicos. Os vírus foram os
primeiros seres orgânicos formados, que não necessitavam ser parasitas
como são hoje. Estes se organizaram também, dando origem às primeiras
bactérias e depois células que levavam consigo os elementos químicos de
que necessitavam para viver. Estas se organizaram para dar origem a outros
seres mais complexos até chegar ao que somos hoje, seres compostos por
muitas células, que por sua vez são compostos por muitos elementos
químicos inorgânicos. Chegando aos dias de hoje, temos os oceanos e
mares repletos de seres que conhecemos e tantos outros seres que a maioria
de nós ignora a existência. Nos oceanos é que está os maiores contingentes
de flora e fauna existentes no planeta, onde também está o melhor exemplo
de equilíbrio entre os seres, que convivem em perfeita harmonia. Os seres
marinhos também vivem sob nosso acompanhamento, aliás, é um ótimo
lugar para trabalhar, é uma tranquilidade. Quase não há o que fazer, pois
tudo funciona em perfeito equilíbrio há milhões de anos, que foi projetado
pelos engenheiros astrais. Nossa intervenção neste ambiente é mais
importante quando deparamos com os desequilíbrios provocados por nós
mesmos, os seres humanos, que nem fazemos parte daquele ambiente.
Provocamos grandes desequilíbrios quando praticamos a pesca predatória,
dizimando milhares de peixes, baleias, golfinhos, muitos dos quais
simplesmente descartados como refugo, sem ao menos servirem como
alimento. Quando deparamos com derramamento de óleo no mar há uma
interrupção da entrada da luz solar que nutre o plâncton, principal alimento
da maioria das espécies marinhas. Quando morrem muitos plânctons,
morrem espécies maiores também, As manchas de óleo empapam as asas
das aves marinhas que não conseguem mais caçar e morrem de inanição ou
pela intoxicação. Quando as coisas estão indo bem no oceano é uma
maravilha, principalmente a paisagem. Hoje iremos conhecer algumas
espécies ameaçadas e se possível, auxiliaremos em algumas ocasiões, se
necessário.
Eder parou por alguns segundos, olhou novamente para os alunos
com os polegares enganchados no cinturão e uma das sobrancelhas
levantadas. Ele queria dizer algo. Os alunos achavam engraçado o seu jeito
brincalhão.
— Antes de partirmos, gostaria de dizer aos marinheiros de primeira
viagem para não entrarem em pânico quando estivermos sob as águas.
Lembrem-se que estaremos lá em espírito, não necessitamos respirar. Agora
mesmo estamos fazendo movimentos respiratórios mais por hábito do que
por necessidade, Não há perigo de se afogarem. Não se afobem. No entanto,
se mesmo com o aviso alguém achar necessário, antes de sairmos, podem
usar estes equipamentos de mergulho — e apontou para algumas máscaras e
aqualung que estavam sobre a mesa.
— Não vai fazer diferença usar ou não, exceto como reforço mental.
Os que estiverem prontos, sigam-me — e foram à sala onde estava aberto o
portal para o mar.
O portal era muito grande, com cerca de vinte ou trinta metros
quadrados. Deveria ter o tamanho de uma tela de cinema. Parecia que
estavam diante de um aquário gigante. Podiam ver os animais marinhos que
estavam do outro lado, e até tocá-los. A visão era um espetáculo que
deixava os alunos admirados. Os mais inseguros estavam equipados com
máscaras e tubos de oxigênio plasmados por Eder.
— Estamos prontos? Podemos partir agora? — perguntou Eder —
então vamos e lembrem-se, não se afobem, pois a sensação de falta de ar é
ilusória. Respirem normalmente e percebam que não se afogarão.
Todos fizeram um sinal que sim, mas mesmo os que não usavam
equipamento de mergulho sentiram uma certa insegurança, pois era a
primeira vez da maioria no Reino do mar. Eder atravessou o portal, seguido
dos outros que entraram um a um e mesmo com o aviso, alguns ficaram em
pânico após alguns segundos dentro da água salgada do mar, mas Eder os
acalmou, inflando os próprios pulmões e todos notaram a ausência de
perigo. Estavam sob as águas geladas de algum lugar da região polar do
planeta.
A quantidade de peixes e outros animais marinhos era
impressionante. Atuns passavam por ali em grandes cardumes. O Sol
atravessava as águas, criando um efeito luminoso excepcionalmente bonito
sobre os cardumes, dando a impressão de estarem diante de um grande
animal. Os reflexos formavam um ambiente multicolorido. Os animais
marinhos sentiam a presença do grupo, mas não se amedrontavam e
aproximavam-se por curiosidade, para brincar e fazer gracinhas,
desinibidamente, como se já os conhecessem.
A certa distância notaram um grupo de golfinhos fugindo de algo que
parecia aterrorizá-los. A seguir uma enorme baleia tenta mergulhar e não
consegue. Uma grande mancha avermelhada surge ao seu redor, turvando as
águas profundas que deixaram de receber a luz do Sol.
Eder percebeu que algo não estava indo bem na superfície.
— Vamos subir.
Éder chama o grupo que se deslocou rapidamente até acima do nível
do mar. Lá observam um barco clandestino que preparava o segundo tiro de
arpão. O barco havia arpoado o pobre cetáceo que estava quase por receber
o segundo projétil. O cabo que prendia o arpão estava muito tenso. A baleia
usava toda sua força para se livrar da armadilha, mas era impossível. Em
pouco tempo desistiu de resistir, ficando inconsciente, o segundo arpão não
era para a grande baleia. Próximo ao grande mamífero estava seu filhote
recém-nascido que chorava, produzindo sons estridentes por perder sua
mãe. As equipes de resgate estavam a postos para minimizar o sofrimento
do animal inconsciente, sob ação magnética de fluidos sedativos.
Rapidamente a equipe desligou o corpo espiritual do cetáceo e enviou-o à
dimensão extrafísica antes que recobrasse a consciência e relutasse em
deixar o corpo físico, deixando seu filhote desamparado. Não havia o que
fazer, exceto resgatá-la ao ambiente marinho recriado em uma localidade
específica do rancho, onde são recebidas as espécies aquáticas. O filhote
insiste em ficar ao lado do corpo da mãe, sem entender o que ocorria. O
arpoador já se preparava para disparar o tiro sobre ele. Éder produz um
efeito luminoso ao lado do marinheiro que por um instante tem sua atenção
desviada. Enquanto isso foi aplicada uma corrente elétrica sobre os
músculos do braço, provocando uma contração, que fez com que passasse
longe o tiro que poderia ser fatal. A equipe de resgate entra em contato com
os golfinhos próximos, para que auxiliassem no afastamento do filhote para
outra região fora de perigo, antes que outro projétil fosse armado. Os
golfinhos se aproximam e param ali ao seu lado por alguns segundos como
se estivessem conversando com o filhote. Poucos instantes depois a
pequena baleia solta um som grave muito longo e alto de lamento e
acompanha os golfinhos para longe do perigo. Há menos de vinte
quilômetros dali, os golfinhos acompanhados por alguns membros da
equipe de resgate se aproximam de baleias da mesma espécie do filhote que
o aceitam imediatamente, sendo amamentado e colocado junto com os
outros. Foi adotado pelo grupo. A equipe assegura-se de que não existe
mais perigo e retoma ao barco, que continua à procura de mais baleias a fim
de completar sua cota diária. Interfere nos radares. Criando um obstáculo
virtual à frente, com isso desviaram-se de sua rota. Confundiram o radar,
mas não conseguiram confundir o arpoador que acertou a pobre baleia. A
equipe de Eder acompanhou toda a operação de perto. Foi tudo muito
rápido. Estavam a cerca de seis metros acima do nível do mar e podiam ver
o barco se afastando, levando a reboque o enorme animal.
— Professor Eder, as tentativas de impedir a ação predatória do barco
baleeiro resultaram em frustração, pois o filhote perdeu sua mãe. Então,
quer dizer que a equipe pode falhar algumas vezes? — perguntou Bete, que
era irmã de Leda.
— Sim, podem ocorrer falhas, pois apesar de contarmos com pessoas
experientes no resgate, ainda somos humanos. Além disso, tem a forte
intenção do arpoador que interfere em nossa ação. Muitas vezes não há
como intervir, somente podemos auxiliar o animal minimizando seu
sofrimento.
— Mas, professor, eu acreditava que os espíritos fossem infalíveis.
— Não somos. Somos apenas pessoas como vocês. Quando perdemos
nossa roupagem física de encarnados, e entramos na dimensão espiritual,
não nos tornamos Deus. Ele sim é infalível. Mesmo aqueles a quem vocês
chamam de anjos, que são espíritos mais adiantados que nós, também estão
sujeitos a cometer falhas. Somente Deus não falha. No entanto, aquilo que
poderíamos entender por falha, muitas vezes são determinações que vêm do
Alto sem que saibamos.
— Outra pergunta, professor — disse Guilherme, que permanecia
suspenso no ar junto com os outros alunos. — Os golfinhos sempre
auxiliam as equipes de resgate?
— Sempre não, mas com bastante frequência. Na maioria das vezes,
são excelentes membros da equipe dispostos a arriscar suas vidas em favor
de outro animal ou pessoa em apuros no mar. São muitos os casos de
náufragos salvos por eles, que o fazem espontaneamente ou por nosso
pedido. Eles chegam a enfrentar tubarões para proteger o náufrago e lutam
corajosamente em seu favor. Além disso, também são nossos informantes
nestas regiões geladas, enviando notícias, pedindo auxílio, solicitando nossa
presença e intervenção em muitos casos de incidentes envolvendo pessoas e
animais.
Marcos pergunta sobre o barco baleeiro.
— Professor, os baleeiros são profissionais que vivem desta atividade,
que apesar de ilegal em muitos países, não deixa de ser uma forma de
sobrevivência. Como podemos analisar essa situação?
— Marcos, os pescadores e caçadores de animais marinhos merecem
trabalhar para sobreviver como qualquer outra pessoa. Não podemos
impedi-los diretamente. Eles pescam e caçam por que há quem consuma o
produto de suas atividades. O ideal seria se as pessoas se conscientizassem
e deixassem de consumi-los, evitando a matança exagerada de milhares de
baleias e golfinhos, e outras espécies, anualmente. Muitas estão quase em
extinção por esse motivo, apesar de estarmos fazendo o possível para que
isso não aconteça. As baleias e golfinhos têm muita consciência, mais do
que vocês imaginam, e quando reencarnam nesta condição já sabem o risco
que vão enfrentar e o aceitam voluntariamente. Como eu disse, não
podemos agir diretamente impedindo a caça e a pesca, pois milhares de
famílias dependem desta atividade. O que fazemos com frequência é agir
sobre a mente de políticos influentes para que regulamentem e policiem esta
atividade. Os golfinhos fazem salvamentos espetaculares, fazem acrobacias
e gracinhas ao redor dos barcos de recreio; aceitam ser capturados para
serem estrelas de shows aquáticos, não por serem presas fáceis, mas para
fazer um ‘marketing’ através de demonstrações de inteligência, para
sensibilizar a opinião pública em favor dos animais marinhos, para
deixarem de consumir os produtos derivados. Não podemos impedir, mas
podemos influenciar nas mudanças de hábitos. Vocês já devem ter reparado
que está diminuindo o consumo de carne ano a ano. Chegará em breve uma
época em que não a comeremos mais. As pessoas não conceberão a ideia de
matar para comer. A tecnologia, a engenharia de alimentos e a genética
trabalharão em conjunto para criar alimentos sintéticos. Existe um projeto
para isso em breve. Por enquanto os humanos estão indo nesse sentido com
a produção dos transgênicos e com a manipulação genética. Em breve, a
carne natural será substituída por carne sintética, que será idêntica em sabor
e textura à carne obtida do abate de animais. Essa necessidade de comer
carne deixará de existir e com isso deixaremos nossos irmãos animais
viverem em paz. Até mesmo não consumiremos vegetais, somente proteínas
e outros nutrientes sintéticos, produzidos em laboratórios de manipulação
genética. Enquanto isso não ocorre, tentaremos dificultar que matem
animais em excesso, além do necessário para venderem e sobreviverem —
concluiu Eder.
A equipe de alunos passou horas observando animais marinhos em
seu hábitat, então Eder pediu:
— Vamos ao continente. Está havendo matança de bebês focas.
Ao chegarem em uma região costeira isolada, vários filhotes de focas
já estavam mortos. Dezenas de corpos estavam deixados sobre o gelo,
manchado de sangue. As equipes estavam a postos e já resgatavam os
filhotes assassinados enquanto outra equipe induzia os caçadores a terem
fortes cólicas intestinais e turvação da visão. Com isso abandonaram a
intenção de continuar com a matança, ao menos temporariamente. As
cólicas eram intensas e todos sentiam-se atordoados devido à ação
eletromagnética de energias aplicadas pela equipe espiritual. Os homens
recolheram o que podiam de cadáveres e os levaram ao barco com intenção
de retornarem outro dia.
— Professor? — chamou Neuza, uma das alunas.
— Acredito que a mesma explicação que foi dada em relação às
baleias, vale para os bebês focas?
— Nem tanto, pois a caça aos bebês é proibida em praticamente todos
os lugares. Portanto estes caçadores são criminosos, não somente à nossa
óptica, mas também à dos humanos da Terra. Nesse caso, podemos intervir
mais intensamente, causando inclusive essas dores e turvação da visão ou
outros métodos que impeçam a matança, mas sem interferir
demasiadamente no livre-arbítrio do caçador.
— Eder? — perguntou Guilherme — sabemos como age a equipe de
resgate, mas ainda não acompanhamos as equipes de reencarnação. Seria
possível visitar esta ala do hospital algum dia?
— Sim, sem dúvida. Podemos ir para lá agora, se concordarem. Essa
seria uma visita que faríamos amanhã, mas se estiverem interessados,
podemos ir agora.
Todos concordaram, então Eder abre um portal que os leva à câmara
anterior da ala de reencarnação, localizada no setor sul do “Rancho Alegre”.
Ao chegarem, foram recebidos por João Rubens.
Os Animais Reencarnam

— Bem-vindos, senhores. Posso notar que estão muito interessados


no assunto de reencarnação, pois a aula de vocês seria amanhã. Mas vamos
lá, então.
Despedindo-se, Éder deixa os alunos sob a orientação de João
Rubens, que ali não era o simples auxiliar de veterinário, mas sim o diretor
João Rubens, um dos mais graduados trabalhadores do Rancho.
Vamos à câmara de esterilização, receberemos um traje que isolará
nossas energias, evitando que os candidatos â reencarnação se contaminem
conosco.
Feito o preparo, entraram na câmara de reencarnação. O ambiente
lembrava filmes de ficção científica.
Eram tubos e mais tubos onde se podiam ver embriões e tetos de
animais vertebrados e invertebrados mergulhados em um líquido viscoso
que os mantinha flutuando enquanto pareciam adormecidos. As paredes
branquíssimas e os uniformes brancos do pessoal contrastavam com os
milhares, talvez milhões de tubos de tamanhos e larguras variáveis, que iam
desde alguns milímetros até dezenas de metros.
Podiam ser vistos tetos embriões em diversas fases e de várias
espécies de animais.
— Professor João Rubens — perguntou Ivana — eu pensei que o teto
e os embriões se desenvolviam no abdome ou no ovo no mundo tísico e não
aqui. Será que estou enganada?
— Os tetos e embriões, que os senhores podem ver, estão
mergulhados nesse líquido nutritivo que se assemelha ao líquido que os
envolve quando estão dentro do ovo ou no abdome materno. No entanto, se
observarem mais atentamente por alguns minutos, perceberão que eles estão
adquirindo formas cada vez menores e adquirindo aspecto cada vez mais
primitivo. Estão se miniaturizando da forma que tinham quando aqui
chegaram, após desencarnarem na Terra, para outra mais jovem. Estão se
adaptando, tornando-se embriões, depois fetos para chegarem à forma de
mórula segmentada para, a seguir, serem transferidos ao mundo físico, isto
é, à reencarnação definitivamente. Esta é uma fase de readaptação em que,
estando inconscientes, são mergulhados nesse liquido e recebem uma
conexão em forma de cordão umbilical que os ligará ao ovo ou à mãe
diretamente. Através desses cordões ligados à dimensão física, já estão
recebendo os estímulos da mãe com quem fazem trocas energéticas para
que se reconheçam após o nascimento como mãe e filho. Com isso, tanto
energias da mãe circulam pelo filhote como as do filhote circulam pela mãe,
promovendo a estimulação dos instintos maternos para que cuide do filhote
até ele poder se manter e também faz com que o filhote procure a mãe
instintivamente, por reconhecer nela a sua própria energia. Quando a
miniaturização chegar à fase de mórula, inicia-se a gestação ou a incubação
nos ovos, pois nesse ponto o animal está totalmente integrado ao mundo
físico. A partir de então segue o mesmo trajeto no sentido contrário, pois
aqui estava involuindo até a mórula, mas lá no físico inicia sua evolução a
partir desse ponto até se tornar embrião e feto maduro a ponto de nascer.
— Senhor João Rubens, quanto tempo ficam nesta fase de
miniaturização antes de estarem prontos para reencarnarem? — perguntou
Guilherme.
— Cerca de dois a três dias para cães, por exemplo, mas em alguns
casos pode chegar a meses, como é o caso de animais maiores como os
elefantes e baleias, por exemplo, cujo tempo de miniaturização é ao redor
de sessenta a noventa dias. No entanto, no caso de animais menores podem
levar horas ou em insetos apenas segundos — explicou João Rubens.
— João! Digo, senhor João Rubens — desculpou-se Guilherme.
— Quando nascem animais com defeitos genéticos, a que se deve
isso?
— Pode haver vários motivos específicos, o mais comum, que seria o
aprendizado, mas podem ocorrer alterações induzidas por ação humana por
uso de medicamentos ou intoxicações maternas que podem causar lesões ao
corpo espiritual do feto que está se formando. O corpo espiritual é como se
fosse o molde do corpo físico, portanto se o corpo sutil estiver malformado
em função de ações eletromagnéticas deletérias, o corpo físico será
identicamente lesado. A medida em que o corpo espiritual adquire o
formato que o filhote terá quando nascer, as células vão ocupando os
espaços preestabelecidos como se fosse um bolo crescendo dentro de uma
fôrma. Se a fôrma for redonda o bolo também se torna redondo, se for
quadrada, terá a mesma forma. Se for uma fôrma amassada e assimétrica o
bolo será idêntico. Nosso corpo espiritual é a fôrma, e o corpo físico é o
bolo. Aqui seguimos um procedimento padrão, então não há como o corpo
espiritual se formar de outra maneira, mas estando a mãe sob a ação destes
produtos ou até mesmo de elementos de poluição do ar, existe a
possibilidade de que esses elementos desmagnetizem algumas partes do
corpo espiritual, deformando-o — explicou João Rubens ao amigo.
— Os animais podem escolher onde nascer? — perguntou Roberto, o
aluno mais velho que, apesar de brasileiro, tinha aparência de um escocês
típico com seus cabelos encaracolados e acinzentados.
— Não, os animais possuem seu livre-arbítrio muitíssimo restrito
enquanto encarnados e aqui obedecem a padrões determinados. Quem
decide onde irão nascer é uma comissão que analisa as fichas dos animais
periodicamente, para avaliarem se nascem novamente no mesmo ambiente,
na mesma família ou se na mesma espécie animal.
— Que critérios a comissão segue para tomar essas decisões?
— O principal critério baseia-se na sociabilidade com outras espécies,
que é fundamentalmente uma forma de amor interespecífica, isto é, à
medida em que aprenderem a conviver com outras espécies pacificamente,
podem experimentar nascer naquela outra. Mas, antes, passam por outra
fase de adaptação para não haver choques energéticos.
— Como assim?
— Estes, ao retomarem à dimensão espiritual e estando em condições
de reencarnarem em outra espécie, mais adiantada evolutivamente, devem
passar por uma fase intermediária como seres espirituais da floresta. Isso
significa que passarão por uma fase de gnomos, elfos, duendes, ou outros,
pois nesta fase prestam serviços à comunidade animal auxiliando-os por
exemplo, a se livrar de parasitas, em sua higiene, em partos, protegendo
ninhos enquanto os pais estão fora em outras atividades. Seriam como
zeladores dos animais da floresta. Se forem bem-sucedidos, poderão, depois
que amadurecerem e retornarem ao plano espiritual, retomar à floresta
como animais mais evoluídos, com maior grau de sociabilidade. Este
processo se repete sucessivamente e o espírito animal vai de estágio em
estágio até se tomar próximo dos humanos, com quem aprenderá para que,
em futuras encarnações, seja um ser humano, a princípio primitivo como os
macacos, por exemplo, e depois de muito aprenderem, poderão retornar
como o ‘homo sapiens’ — explicou o orientador.
— A fase pela qual passam os animais até chegarem a ser humanos é
de muito tempo? — perguntou novamente Roberto.
— E, sim, uma fase relativamente longa. Pode haver um lapso de
talvez centenas ou milhares de anos antes que cheguem à fase de
individualidade em que nos encontramos. Antes de reencarnarem,
conviverão muito conosco para aprenderem como agir e como pensar da
forma como pensamos. Quando se sentirem humanos, estarão prontos a
estagiar em nosso meio. Inicialmente poderão reencarnar como pessoas que
têm pouco desenvolvimento intelectual, podendo ser também um tanto
agressivas. Alguns possuem instintos animais ainda muito aguçados, dando
excessiva importância ao sexo e ao apetite. Podem ser egoístas e
territorialistas. Alguns possuem habilidade física com resistência acima da
média, tornando-se atletas.
— O senhor não está generalizando, não é mesmo? — interrompeu
Erica?
— Não. Existem grandes pacifistas e intelectuais, por exemplo, que
possuem habilidades físicas, enquanto há pessoas de pequeno intelecto que
são extremamente dóceis. Nestes casos não são animais estagiando entre
nós. Há os que são egoístas e territorialistas e muito instintivos, mas já estão
na fase humana há tempo, portanto não se pode considerá-los como recém-
chegados. Portanto, são humanos patentes com instintos a serem superados.
A maioria de nós traz ainda muitos instintos animais, úteis a nossa
sobrevivência. À medida em que formos evoluindo e não tivermos a
necessidade de nos defender de ataques físicos e mentais, estes instintos
tendem a desaparecer. E provável que dentro de algumas décadas tenhamos
que recorrer cada vez menos a eles, que são resquícios de nossa vida
animal, e talvez em breve tempo estejamos em um estágio acima deste em
que agora estamos, onde os instintos simplesmente inexistem.
Satisfeitos com as explicações, os alunos permaneceram em silêncio
por algum tempo.
Então o senhor João Rubens interrompe a aula para dar um aviso.
— Senhores, amanhã teremos a última aula deste ciclo e para
encerramento convidamos uma pessoa ilustre para fazer a prece de
encerramento e talvez dizer algumas palavras de incentivo. Gostaríamos
que amanhã não houvesse atrasos, e se possível cheguem um pouco antes
para prepararmos energeticamente a sala de palestras e, posso assegurar,
será um dia inesquecível.
Visitaram o restante das instalações da ala e o senhor João Rubens
deu por encerrada a aula do dia. Todos se despediram, passaram novamente
pela ante-sala e voltaram a seus corpos, pois já estava amanhecendo.
Todos os Animais Merecem o Céu

Ao acordar, pela manhã, Guilherme estava feliz, mas ao mesmo


tempo estava ansioso sem saber por quê. Ele não sabia conscientemente,
mas inconscientemente queria retornar ao rancho para a última aula e para
assistir à palestra daquela pessoa tão ilustre que viria. Tomou o desjejum,
preparado por Cláudia, e foi para a clinica.
Ao chegar, encontra seu amigo João Rubens tranquilo, como sempre.
— Bom dia, João Rubens. Como passou a noite?
— Bom dia, patrão. Pois é... Tive mais um daqueles sonhos em que
eu era o diretor; só que desta vez, de uma escola. Eu dava aula como se
fosse um professor, convidei os alunos para uma festa de final de ano em
que o prefeito iria fazer um discurso.
— Cada sonho estranho que você tem, hein, João Rubens! —
exclamou Guilherme.
— ldoje eu me lembrei do sonho que tive e foi emocionante. Quer
ouvir?
— Sim, patrão, por favor.
— Bem, eu era o capitão de um navio pirata. Estávamos em alto mar
sendo atacados por outro navio. Ordenei que atirassem contra o inimigo,
mas não era mais o inimigo, e sim uma baleia que tinha sido acertada por
arpão e havia um golfinho pedindo ajuda. Mergulhei na água para salvar a
baleia, mas ela também sumiu. Quando voltei à superfície, vi os piratas do
outro navio matando focas na praia. Quando cheguei lá, não havia mais
focas e nem piratas. Voltei ao meu barco e não era mais um barco, mas sim
um laboratório espacial cheio de cilindros transparentes com extraterrestres
dormindo dentro. Eu ia começar a fazer uma experiência, quando você
apareceu usando uma roupa espacial. Levei o maior susto e acordei —
terminou Guilherme.
— O senhor disse que o meu sonho era estranho?! — brincou João
Rubens.
— Para quem nunca se lembra de sonho algum, até que lembrei
bastante coisas do que eu vi.
Ficaram contando seus sonhos um ao outro até que dona Elza ligou
para a clínica para contar que Sofia trouxe um presente.
— Filho, sua gata nos trouxe um filhote que nem abriu os olhos ainda.
O que devo fazer?
— Mãe, a senhora precisa dar leite para ele na mamadeira como se
fosse uma criança. Nesta idade só sabem mamar. Mas aguarde que já vou aí
para ver o que Sofia aprontou.
Guilherme foi à casa de sua mãe, que agora morava sozinha com os
animais, depois que ele se casou com Cláudia. Dona Elza cuida dos animais
que lhe fazem companhia, mas não contava com mais esse acréscimo na
família.
Chegando, Guilherme depara-se com um minúsculo gato que cabia na
palma de sua mão. Deveria ter apenas alguns dias de vida.
— Será que Sofia roubou este filhote de alguma gata que deu cria por
perto? Talvez esteja com saudades dos seus filhotes e acabou sequestrando
este — pensou Guilherme.
Mentalmente Guilherme pergunta a Sofia: — De onde veio este
filhote, Sofia?
Sofia olha nos olhos de Guilherme, dá um miado manhoso e segue em
direção à porta de entrada da casa que estava aberta. Ela pára por alguns
segundos, olha novamente para Guilherme, dá outro miado e sai.
— Será que ela quer me dizer onde encontrou o filhote?
Guilherme começou a seguir Sofia, que atravessou a rua, entrou em
um terreno baldio, atravessou sua extensão até o lado oposto onde alguns
caixotes estavam empilhados.
Guilherme aproximou-se e ouviu um miado muito fraco, quase
inaudível. Podia-se ouvir o som do ar passando pelas cordas vocais, mas
sem força para conseguir que vibrassem.
Retirou os caixotes do caminho e encontrou uma gata semimorta por
inanição. Não conseguia sair dali, pois tinha a coluna fraturada,
provavelmente fora atropelada, e tinha acabado de dar à luz a quatro
filhotes. Deveriam ter nascido há um ou talvez dois dias, pois ainda estava
molhada de líquido amniótico e toda suja de terra.
Guilherme pegou a gata e a levou às pressas ao consultório para tentar
reanimá-la e buscar algum tratamento em sua coluna. Guilherme aplicou-
lhe vários medicamentos de emergência, mas seu estado era extremo. Os
esforços foram em vão e a gata desconhecida entrou em óbito. O médico se
sentiu impotente diante daquela situação em que nada podia fazer para
salvá-la. Pegando o animal em seus braços, levou-a à outra sala, envolveu—
a cuidadosamente em um tecido e fez algo que não era de seu feitio, uma
prece silenciosa.
— Deus, cuide bem desta gatinha quando ela chegar aí. Ela deve ter
sofrido muito por aqui e acho que ela merece ser bem recebida pelo Senhor.
Se ela teve que passar pelo que passou sem poder escolher, eu peço que a
compense dando-lhe tudo de bom que o Senhor puder dar a ela. Não sei se
existe um ‘céu de animais’ para onde eles vão quando morrem, mas acho
que sim, pois o João Rubens me falou que existe. Acho que ela merece ir
para este céu. Acho que todos os animais merecem o céu. Por isso peço ao
Senhor que a deixe entre amigos para que não sofra mais. O João Rubens
me falou também que eles são sempre bem recebidos aí. Espero que seja
mesmo assim e espero que o Senhor ouça meus pedidos. Que assim seja.
João Rubens entra na sala e vê o patrão com os olhos cheios de
lágrimas, aproxima-se tocando-lhe o ombro em sinal de solidariedade e
lamento, e diz:
— Fique tranquilo, patrão. Deus não desampara ninguém e
principalmente os animais.
— Estou triste pensando no sofrimento que ela deve ter passado.
Grávida, com as pernas e coluna fraturadas, sem poder sair para se
alimentar. Não podia se mover. Os outros filhotes também morreram por
inanição, pois não tinha leite para amamentá-los. Isso tudo é muito triste,
João Rubens.
— Deixe comigo, patrão. Vá descansar um pouco. Eu cuido dela
agora.
— Dando o pequeno embrulho a João Rubens, Guilherme vai à sala
dos fundos e se senta tristemente em sua poltrona, pensativo. Tenta relaxar
por alguns instantes e, abatido pela tristeza causada pela morte da gatinha
que nem conhecia, adormece.
Retorna imediatamente ao rancho em busca do amigo Gustavo para
saber se a gatinha estava bem. Gustavo pega as fichas da gatinha sem dono
que viveu toda a vida nas ruas, sem um lar. Apesar de não ter dono, ela
nunca deixou de ser assistida pela equipe espiritual que a recebeu no
hospital.
— Agora ela está sob a ação de sedativos, luas está bem. Não há mais
fraturas e ela já está sendo encaminhada à reencarnação — falou Gustavo
— você sabe da gatinha do senhor Wellington, que mora no número trinta e
dois da sua rua? Ela ficará grávida esta semana e a gatinha voltará como um
de seus filhotes. Talvez você a adote. O que acha da ideia? — perguntou o
amigo a Guilherme que mostrava-se menos ansioso.
— Ótimo. Agora fico mais tranquilo.
Guilherme baixou a cabeça, mostrou novamente um ar triste e fez um
pedido ao amigo.
— Senhor Gustavo, haveria a possibilidade de eu poder visitar meu
pai que está sendo preparado para reencarnar?
— Sim, claro. Como não? Vamos lá imediatamente. Segure minha
mão. E partem.
Instantaneamente surgem na outra colônia.
— Aqui é a colônia onde está seu pai. Vamos à recepção esperar pelo
diretor. Ele, com certeza, nos liberará à visitação.
— Será que iremos atrapalhar em alguma coisa?
— Não, não há problemas. Normalmente as visitas devem ser
marcadas com antecedência, mas o responsável é uma ótima pessoa e muito
acessível.
Encontraram o diretor que liberou a visita, mas deveria ser
acompanhado por um trabalhador da instituição, pois o senhor Benati estava
em processo acelerado de involução.
Foram ao setor de readaptação da ala de reencarnação. O
procedimento era idêntico ao do rancho, em relação à reencarnação. Existia
uma ante-sala de isolamento onde era feita a desinfecção e o visitante
receberia um traje isolante de energia de proteção aos reencarnantes. Estes
se encontravam dentro de grandes cilindros transparentes contendo também
um liquido viscoso rosa azulado que cintilava ao reflexo das luzes
ambientais. Em cada um deles, também se podia ver uma espécie de cordão
umbilical ligado ao fundo do cilindro que se comunicava com o corpo
materno. O acompanhante os levou ao cilindro onde estava o pai de
Guilherme em estado de involução já avançada.
Estava irreconhecível, com a aparência de uma criança de sete ou
talvez oito anos de idade. Diferentemente do que ocorre com os animais, os
humanos já iniciam a gestação no campo físico, enquanto o reencarnante
ainda se encontra no plano astral em processo de readaptação e
miniaturização. Quando a gestação estiver em tomo de oito semanas, estará
praticamente todo transferido ao corpo materno. Antes disso, o candidato à
reencarnação consegue acompanhar mentalmente, através da ligação do
cordão, tudo o que acontece no ambiente onde se encontra a sua mãe.
Dentro do abdome, antes das oito ou nove semanas de gestação, o feto em
desenvolvimento repete os movimentos que são feitos pelo reencarnante
dentro do cilindro. Nesta fase, o “corpo físico” do feto seria como uma
marionete do corpo espiritual.
Somente a partir da nona à décima terceira semana é que se pode
considerar que o reencarnante esteja realmente reencarnado, mas este
processo somente se completa aos sete anos de idade quando, a partir de
então, pode-se considerá-lo totalmente integrado ao meio físico.
Guilherme pergunta ao acompanhante se poderia falar com o pai.
— Ele pode me ouvir? Eu poderia falar com ele?
— Sim, ele pode. Apenas toque o tubo com sua mão direita assim
poderão conversar mentalmente.
Guilherme agradece a explicação e toca o cilindro.
— Oi, pai. O senhor pode me ouvir?
O senhor Benati, que parecia estar em estado de suspensão de
consciência, abre os olhos e olha para o filho.
— Oi, Gu. Que boa surpresa vê-lo aqui. Fico feliz que ainda
possamos nos ver antes que eu retorne. Só me restam poucos dias. Talvez
três ou quatro. Estou em processo de miniaturização acelerada. Não há mais
como retroceder e estou com medo de falhar novamente.
— O senhor conseguirá, eu prometo.
— O... bri... ga... do... filho. — Benati começa a falar com muita
dificuldade. — A partir de ho... je e em pou... cas horas minha me... me....
mória come... cará a ser bloque... ada, por isso estou tendo dificul... dade
em falar. Faltam-me as pala... vras. Me perdoe, filho.
Com grande esforço Benati consegue recompor sua memória e falar
com Guilherme.
— Estou feliz por meu retomo, mas, filho, me perdoe pela aparência
que terei ao nascer, pois pedi à comissão reencarnatória que considerasse a
necessidade de eu nascer com lesões de pele para eu sentir as dores de
queimadura. Disseram que não havia necessidade, pois eu já havia me
redimido e a quantidade de queimados que tratei compensou o que fiz de
errado em minha vida contra os animais. Mes... mo assim insis... ti. Então...
de., .ve... rei ter lesões que somente de... sapare... cerão quando eu tiver ao
redor de três anos de idade. Des... culpe o trans.., torno que de... verei
causar a vocês.
Guilherme nota a grande dificuldade de seu pai em manter os
pensamentos em ordem. As palavras estavam ficando mais espaçadas.
Então o acompanhante advertiu Guilherme que deixasse seu pai repousar.
Ele percebe que o aspecto de seu pai estava mudando rapidamente ante seus
olhos. Estava mais jovem ainda. Soltando sua mão do cilindro, Guilherme
olha para o pequeno Benati que um dia foi seu pai e se despedem com o
olhar. Guilherme e Gustavo saem do prédio, agradecem ao diretor pela
concessão e retornam ao rancho. Na clínica o telefone toca e acorda o
médico que tentava relaxar em sua poltrona. Guilherme retorna
repentinamente ao seu corpo e acorda assustado e com taquicardia. Atende
ao telefone. Era Cláudia dizendo que não estava se sentindo bem.
Guilherme levanta-se rapidamente, avisa João Rubens de sua saída e vai
para casa acudir a esposa grávida. Em casa Cláudia estava suando muito,
com febre e com contrações fortes no abdome.
— Vou chamar a doutora Magda. Ela deve chegar rapidamente.
Guilherme liga para a médica que não tarda. Ela a examina e constata
que as contrações involuntárias estavam muito fortes e eram perigosas para
o bebê.
— Vou medicá-la e ela deverá se sentir melhor, mas deverá ficar em
repouso por toda a semana — falou a médica.
A médica se despede de Cláudia, e Guilherme a acompanha até a
saída. Cláudia com grande percepção espiritual conseguia ver o que estava
ocorrendo. Eram espíritos trevosos que queriam impedir que Benati
reencarnasse. Eram inimigos de vidas anteriores que ainda não o perdoaram
pelo que fez há séculos.
— Deus me ajude — pediu Cláudia. Começou a fazer mentalmente
uma prece a São Francisco de Assis e pediu que não deixasse levar o seu
filho. Antes que terminasse a prece, surgem várias entidades espirituais
vestidas com túnicas brancas se apresentando como trabalhadores do
Hospital Espiritual e Caridade, onde Cláudia auxiliava durante o sono como
voluntária. Estavam ali para libertar aqueles espíritos mal-intencionados.
Imediatamente os malfeitores se viram presos dentro de um campo
eletromagnético em forma de pirâmide da qual tentavam escapar mas não
encontravam a saída.
A seguir, Cláudia que acompanhava tudo o que estava acontecendo
viu que dentro da pirâmide começaram a surgir pequenos flocos finos como
neve e em forma de pétalas de flor que, ao tocarem nos corpos dos
ocupantes da pirâmide, os tornavam sonolentos e eles se sentavam como
exaustos. Ali dentro daquele campo magnético, suas vestes maltrapilhas
foram trocadas por túnicas alvas. Repentinamente a pirâmide e seus
ocupantes desaparecem. Os homens de branco olharam para Cláudia,
sorriram e disseram:
— Foram levados ao hospital para tratamento. Agora tudo estará bem.
Despediram-se com um aceno de mão e partiram rumo ao hospital.
Imediatamente Cláudia se sentiu melhor e quis se levantar. Neste
instante Guilherme estava voltando e viu sua esposa se preparando para sair
da cama.
— Não, não, não. A médica pediu repouso.
— Já estou me sentindo melhor não se preocupe — acalmou o
Cláudia.
— Hoje não irei trabalhar. Ficarei em casa para cuidar de você. Você
não pode se esforçar. Deite-se — ela o atende e Guilherme a cobre
cuidadosamente.
Guilherme liga para João Rubens para que feche a clínica e vá para
casa, mas antes deveria deixar um recado aos clientes para ligarem no
celular, se necessário.
Ficou com a esposa o dia todo para certificar-se de que não ia fazer
qualquer esforço. Apesar de realmente estar bem melhor, não se afastou
dela. Os clientes perceberam que o doutor deveria estar com algum
problema e deixavam o que não era urgente para outro dia, no entanto, no
final da tarde o telefone toca. Era a dona de Valente, um cão sem raça
definida; ela estava aos prantos do outro lado da linha.
— O que houve, senhora?
— E o Valente. Ele não está nada bem. Acho que não sobreviverá.
Cláudia, notando a expressão de preocupação do marido, diz a ele:
— Pode ir atender. Não se preocupe comigo, estou bem agora.
— Eu volto em um instante. Não saia da cama.
Guilherme saiu rapidamente para atender o cão. Ao chegar notou
Valente quase em estado de choque. Aplica-lhe medicamentos de
emergência e pergunta à senhora o que aconteceu.
— Nosso Valente já não é mais um jovem e surgiu-lhe um nódulo
tumoral nos testículos. Foi feita a cirurgia há alguns dias, mas ele conseguiu
retirar a proteção, retirou os pontos da cirurgia e coçou o local que
infeccionou. Ele estava bem, mas agora começou a vomitar e ficou muito
fraco.
Guilherme confirma a infecção e explica:
— Valente passou por uma cirurgia difícil para retirada do câncer, por
isso sua resistência orgânica decaiu e mesmo com os antibióticos que já
vinha tomando não conseguiu eliminar as bactérias oportunistas, que devem
ser resistentes a este medica mento.
— Doutor pegamos o Valente quando ele tinha um mês, o
amamentamos, cuidamos dele como se cuida de um bebê. Sempre foi forte
e nunca adoeceu. Nós o amamos como se fosse nosso filho. Acho que ele
está sofrendo e não queremos que sofra. Preferimos, mesmo que nos doa
profundamente, que fosse feita a eutanásia.
Guilherme estava indeciso. Não tinha certeza da irreversibilidade do
quadro, mas sua dona sofria muito ao ver seu querido Valente naquele
estado.
— Está bem. Vou levá-lo — decide Guilherme.
A dona de Valente e seu marido pediam que fosse feita a eutanásia,
mas intimamente gostariam de tentar um pouco mais, mesmo assim o
entregaram, pois também não suportavam ver seu velho cão debilitado
daquela forma.
Guilherme colocou-o em seu automóvel e o levou à clínica para
concretizar o prometido. No entanto, o olhar de Valente dizia:
— Dê-me mais uma chance... Vou me recuperar.
Aqueles olhos encontravam os de Guilherme em súplica, então,
Guilherme que já iniciara a preparação do anestésico que precedia o
bloqueador cardíaco, não resistindo ao pedido de Valente, desistiu do que
estava prestes a fazer. Ao invés disto continuou com o tratamento em sua
clínica, medicando pacientemente o animal que pedia para viver.
Dias se passaram e Valente estava mostrando sinais de melhora. Mais
outros dias se seguiam e Valente reiniciava uma decaída em seu quadro
geral. Era como se Guilherme estivesse interferindo em algo que não sabia.
Por mais que o veterinário se esforçasse aplicando diversos medicamentos,
não obtinha os resultados que esperava. Valente não estava melhorando e o
quadro infeccioso se agravou. O médico trocou a medicação, pois com
certeza a bactéria era resistente aos antibióticos usados. Experimentou os
mais modernos recursos ao seu alcance, mas Valente não reagia. As
esperanças estavam minguando junto com a saúde do corajoso cão, que
lutava bravamente para vencer a infecção oportunista. O quadro de Valente
voltou a entrar naquela mesma situação em que estava anteriormente.
Valente olhava para Guilherme como se pedisse para não desistir, pois ele
também estava lutando com todas as forças.
O médico voltou a preparar a medicação e novamente aplicou, mas
desta vez fez uma oração a São Francisco de Assis para que olhasse por
Valente e que o ajudasse a se recuperar. Foi uma prece fervorosa. Guilherme
não sabia, mas as equipes espirituais estavam trabalhando em favor de
Valente, não para curá-lo, mas para livrá-lo de parte do seu sofrimento com
o câncer que já o consumia. Visto da espiritualidade, depois que Guilherme
fez aquela prece por Valente, os medicamentos usados pelo médico
tornaram-se brilhantes como o Sol e as equipes ministraram com mais
intensidade os medicamentos espirituais energéticos. As células de Valente
começaram a se reavivar e a se tomarem mais radiantes. Guilherme, ao
término da medicação intravenosa, colocou Valente em seu alojamento e
afastou-se desanimado.
— Sinto muito, Valente, acho que não posso fazer mais nada por
você. Já fiz tudo que estava ao meu alcance. Somente um milagre para
conseguir a sua recuperação — falou o médico, afagando a cabeça de
Valente que, muito fraco, ainda reuniu forças para abanar a cauda como
agradecimento por tudo o que o doutor estava fazendo.
A seguir pensou consigo mesmo:
— Terei que proceder o que prometi ao seu dono. Eu também não
quero ver você sofrendo com esta enfermidade que está minando todas as
suas forças.
O médico volta à sua sala onde já aguardavam outros pacientes para
serem atendidos, para depois concretizar o que prometeu.
Doutora Neuza, da equipe espiritual que estava acompanhando o caso
de Valente, falou mentalmente ao subconsciente do jovem:
— Guilherme, não se preocupe, estamos tratando o corpo espiritual
de Valente que está muito debilitado, mas está se recuperando. Seu tempo
na dimensão física acabou.
Seu retorno era esperado há alguns dias, mas por seu pedido e de seus
donos, foram concedidos a ele mais alguns dias. Mas sua etapa foi
concluída e o seu corpo físico já está muito desgastado pelo tempo. E
necessária a renovação. Ele deverá retornar a nós para em seguida voltar à
sua família em um novo corpo sadio, no qual permanecerá muito tempo
para completar a próxima fase de sua evolução. Não podemos interferir nos
desígnios do Alto. Valente terá ainda protelado seu tempo por mais um mês.
Seu corpo não suporta mais que isso. O tumor estava programado
desde que nasceu, para se desenvolver no momento certo e trazê-lo de volta
a nossa dimensão. Valente nos pediu que não retornasse pela eutanásia, por
isso o intuímos a não proceder à intervenção. Era seu desejo retornar
naturalmente. E um animal especial, muito evoluído, já com um certo grau
de individualidade que permite a ele desejar algo para si, mas mesmo tendo
seu livre-arbítrio limitado, a comissão da análise considerou o pedido.
Tinha um ótimo aproveitamento em seu aprendizado, por isso, apesar da
comissão ter planejado para ele o retorno através do câncer, foi permitido
um retorno lento. Valente aos poucos, durante este mês, irá afrouxando suas
ligações com o corpo físico e deixando-o aos poucos, sem traumas. Com
isso, manterá seu corpo físico com alguma energia vital circulando e o
funcionamento precário dos órgãos.
Guilherme, após atender os pacientes, retorna a Valente com a
intenção de aplicar-lhe o sedativo antes da injeção letal, mas, para sua
surpresa, ele estava em pé animado para retornar ao lar.
O médico ficou muito feliz em não ter que fazer o que não queria.
Abraçou Valente que latiu de alegria.
No dia seguinte, levou Valente ao seu dono, que tinha plena certeza
de que seu cão já não pertencia a este mundo. Foi uma alegria geral. A
surpresa foi muito grande.
— Valente, meu querido. Você voltou — falou sua dona com lágrimas
de alegria nos olhos.
Guilherme despediu-se de todos e voltou para seu consultório, feliz
com o desfecho do episódio de Valente.
Ilustre Visita

No rancho, Gustavo tomava as providências para receber a ilustre


visita daquele elevado espírito que, sem dúvida, seria um estímulo aos
voluntários. Pediu a todos os trabalhadores que mentalizassem por alguns
instantes uma energia tão forte quanto a energia solar, para que nenhum
resquício ele energia mais pesada pudesse prejudicar a estada do convidado.
A guarda foi redobrada nos limites do rancho, pois a aproximação de
caçadores poderia comprometer e pôr a perder todo o trabalho de
higienização e proteção ambiental.
Faltavam somente alguns minutos para a última aula que seria a de
encerramento de ciclo. Gustavo prepara o palanque nos jardins do rancho,
onde se podia ouvir o som de água correndo por fontes belíssimas que
enfeitavam aquela beleza arquitetônica que era aquele jardim. O lago era
cristalino, as flores não se igualavam a qualquer uma conhecida na Terra.
Verificou a cúpula onde deveria permanecer a ilustre figura durante sua
estada, para se proteger das energias do ambiente, que eram por demais
concentradas para seu corpo sutilíssimo.
Verificou todos os itens, mas nada notou de anormal. Mesmo assim,
acionou as luzes violetas higienizadoras por garantia. Aquela luz fazia uma
espécie de varredura luminosa no ambiente, fazendo passar feixes de luz ao
longo de todo o local à maneira de um ‘scanner’, tornando a atmosfera
ainda mais agradável.
Completando o clima, entre as flores muito bem distribuí das pelo
jardim, havia rosas de cores diversas e outras flores lindíssimas com
perfumes suaves que tomavam todo o ambiente. Faltavam menos de trinta
minutos e todos estavam à espera da última aula, inclusive Guilherme que
chegou cedo. Também os professores e colaboradores lá estavam. Além
deles, muitos animais ansiosos, aguardavam a chegada do visitante. Havia
animais de todos os tamanhos, espécies e raças, inclusive os aquáticos,
dentro do lago cristalino.
O senhor Gustavo anuncia que o visitante estava para chegar a
qualquer momento e pediu aos presentes que procurassem manter o padrão
energético o mais positivo possível para evitar transtornos ao palestrante, se
quisessem vê-lo mais nitidamente, pois de tão sutil que é seu corpo é
necessária uma iluminação especial que o tome visível à plateia, sem isso,
sua visão seria diáfana a alguns dos presentes.
O senhor Gustavo já estava acionando as luzes especiais e a cúpula de
proteção, quando aproxima-se uma pessoa que representa o palestrante e
pede que não acione nenhum dos dois sistemas, pois não seria necessário.
Ele explica que o palestrante, em uma demonstração de humildade,
condensará suas energias para se tornar visível a todos e não permanecerá
sob a cúpula para não constranger aos espectadores.
Uma cortina que estava estendida por trás do senhor Gustavo
escondia os bastidores do palanque, mas enquanto Gustavo falava puderam
notar uma luz que surgiu intensa por alguns segundos e se refletia no tecido
da cortina. Novamente surge outra pessoa e se dirige ao senhor Gustavo.
Era um homem franzino, de baixa estatura, braços finos assim como suas
feições, e usava uma túnica idêntica à dos trabalhadores do rancho. Deveria
ser um dos trabalhadores da instituição que trabalhava nos preparativos da
palestra e que deveria estar dando algum recado sem importância, pensaram
todos, com exceção de Gustavo, João Rubens e outros que já o conheciam.
As pessoas impacientes tentavam olhar por detrás da cortina, ansiosos pela
chegada, mas não perceberam que era o palestrante que acabava de chegar e
com sua grande humildade não queria se diferenciar dos demais
trabalhadores de quem se considerava um mero colaborador.
O senhor Gustavo anuncia sua chegada:
— Senhoras e senhores, apresento-lhes o palestrante de hoje, que nos
faz esta visita especial de encerramento de ciclo.
Neste momento as pessoas bateram palmas mecanicamente, olhando
para o palanque e ainda por trás da cortina à espera do visitante. Aquele
homem franzino aproximou-se da borda do palanque e faz uma reverência
aos espectadores. Todos olharam um para o outro se perguntando: — Será
ele?
Esperavam por alguém que causasse mais impacto com sua presença,
alguém que causasse comoção ao simples olhar. Aquele era comum, sem
aqueles aparatos que normalmente as pessoas esperam de um espírito
elevado. Muitos não entenderam a dificuldade que havia para um espírito de
tão elevada categoria e sutileza adensar seu corpo para se tornar visível e
apresentar-se sem a proteção da cúpula, que o abrigaria das energias
emanadas pelos ouvintes, e não se deram conta de quão humilde era aquele
que vinha ao encontro deles como um igual.
Aquele homem de baixa estatura e compleição delicada parou diante
dos ouvintes, juntou os dedos das mãos e cumprimentou a todos com uma
voz tão suave que parecia irreal. Assemelhava-se a um pensamento que
brotava na mente das pessoas que o ouviam. Então todos sorriram
surpresos, pois não havia dúvidas de que não era um simples trabalhador da
casa, mas aquele que todos esperavam.
Cumprimentou a todos, inclusive os animais e as plantas, o lago, o
céu, o vento e o Sol. Agradeceu a Deus a oportunidade de poder estar ali,
diante daquelas pessoas que tinham as mesmas preocupações que ele tinha
quando viveu na Terra. Ele que via todos os seres do mundo como irmãos
que merecem tanto de Deus quanto nós, pois somos realmente irmãos.
Iniciou sua palestra a respeito da vida plena em que estaremos um dia
quando reconhecermos os direitos à vida que têm os nossos irmãos animais,
nossas irmãs plantas, e acima de tudo nossa grande irmã Terra que sofre
com a nossa ação depredatória. A Terra que contém a vida em todo o seu
potencial, e que cada coisa nela contida é um irmão ou uma irmã. Ressaltou
a dádiva que é poder viver na Terra e ter contato com todos esses irmãos e
poder trocar energias com todos eles. Agradeceu a chance de ter vivido na
Terra e ter tido a oportunidade de conhecer a água, o céu, a lua, o Sol, o
vento, os rios, os peixes, e todos os animais e plantas, e todos os seres da
floresta, os elementais, o fogo, o chão, as pedras, a chuva, as pessoas, enfim
todos. Agradeceu a Deus por poder ter sido útil a Ele e ter podido amar a
todos os seres criados por Ele igualmente.
A palestra era tão tocante que não se via uma pessoa sem lágrimas
nos olhos ao ouvir aquelas palavras que iam direto ao coração. Pediu a
todos que nunca se vissem como inimigos, mas como irmãos e que
procurassem sempre o amor antes de tudo, e encerrou com uma linda prece.
Louvado seja Deus na Natureza, mãe gloriosa e bela da beleza e com
todas as suas criaturas.
Pelo irmão Sol, o mais bondoso, o verdadeiro, o belo, que ilumina
criando a pura glória. A luz do dia!
Louvado seja Deus pelas irmãs estrelas, belas, claras irmãs silenciosas
e luminosas, suspensas no ar.
Pela irmã Lua que derrama o luar.
Louvado seja pela irmã nuvem que há de nos dar a fina chuva que
consola.
Pelo céu azul e pela tempestade, pelo irmão vento, que rebrama e
rola.
Louvado pela preciosa e bondosa água, irmã útil e bela, que brota
humilde e casta e se oferece a todo o que apetece o gosto dela.
Louvado seja pela maravilha que rebrilha no lume o irmão ardente,
tão forte que amanhece a noite escura e tão amável que alumia a gente.
Louvado seja pelos seus amores.
Pela irmã Madre Terra e seus primores, que nos ampara e oferta seus
produtos, árvores, frutos, ervas, pão e flores.
Louvado seja pelos que passaram por tormentos do mundo doloroso
e, contentes, sorrindo, perdoaram.
Pela alegria dos que trabalham.
Pela morte serena dos bondosos.
Louvado seja Deus na mãe querida, a Natureza, que fez bela e forte.
Louvado seja Deus pela vida.
Louvados seja Deus pela morte.
No momento em que proferia a prece, do alto caíam finas gotículas
que perfumavam o ambiente e pequenos flocos que flutuavam suavemente
sobre os presentes e, ao tocá-los brilhavam como se enorme quantidade de
energia se desprendesse daqueles corpúsculos mínimos, atingindo a todos.
Ao despedir-se, saiu tão humildemente como quando entrou. Alguns
iam bater palmas, mas ele pediu que não o fizessem, mas que meditassem
sobre o que foi dito. Dizendo essas últimas palavras, baixou a cabeça, fez
uma reverência e afastou-se para trás da cortina sem dar as costas aos
ouvintes.
Viu-se novamente, no local, um enorme clarão que súbito
desapareceu.
O senhor Gustavo, comovido com as palavras do orador e ainda com
os olhos úmidos, deu por encerrado o ciclo de aulas:
— Caros amigos. De hoje em diante todos os senhores são
considerados membros ativos de nossa comunidade é estão convidados a
fazer parte do nosso pequeno grupo de professores, pois, tendo atingido
todos os objetivos, conseguiram graduarem-se. Por isso gostaríamos de tê-
los não somente como alunos do próximo ciclo, mas também como
professores que ministrarão aulas aos novos que chegarão em breve.
Gustavo aproxima-se de cada aluno e toca-lhe no peito, deixando uma
espécie de marca luminosa que os identifica como formados no primeiro
ciclo e que lhes dava passe livre a todas as alas do Rancho Alegre.
Todos se congratularam felizes e retornaram às atividades de auxílio
em que tinham mais afinidade. Guilherme quer continuar o segundo ciclo
com o senhor Kayamã, com quem pretende aprender mais sobre os animais
da floresta,Ao amanhecer, Guilherme retorna ao corpo físico para mais um
dia de trabalho. Cláudia sente-se muito bem durante toda a gestação; ao
final do nono mês nasce Mateus, o filho tão esperado: grandes olhos negros,
cabelos lisos e espetados, como os de japoneses de quem era descendente,
saúde perfeita, exceto por uma mancha eritematosa, avermelhada, que tinha
nas costas, e era coberta por bolhas, deixando aparentes as lembranças
subconscientes do garoto que tinha seus acertos, consigo mesmo, ainda por
concretizar.

Você também pode gostar