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Carrying Life and Death: The Daily Routine of Hospital Stretcher Bearers in The Context of COVID-19

O artigo analisa o cotidiano de trabalho de maqueiros em um hospital federal durante a COVID-19, destacando a constante exposição à morte e a invisibilidade desses profissionais. A pesquisa, baseada em observações diretas e rodas de conversa, revela como a precarização do trabalho e a vulnerabilidade afetam a saúde mental dos maqueiros, além de enfatizar a importância de entender os aspectos subjetivos de sua experiência. O estudo conclui com a necessidade de mais pesquisas sobre a saúde e as condições de trabalho desses trabalhadores.

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Raiane Marcela
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Carrying Life and Death: The Daily Routine of Hospital Stretcher Bearers in The Context of COVID-19

O artigo analisa o cotidiano de trabalho de maqueiros em um hospital federal durante a COVID-19, destacando a constante exposição à morte e a invisibilidade desses profissionais. A pesquisa, baseada em observações diretas e rodas de conversa, revela como a precarização do trabalho e a vulnerabilidade afetam a saúde mental dos maqueiros, além de enfatizar a importância de entender os aspectos subjetivos de sua experiência. O estudo conclui com a necessidade de mais pesquisas sobre a saúde e as condições de trabalho desses trabalhadores.

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DOI: 10.1590/1413-812320232810.

10292023 2857

Carregando vidas e mortes: o cotidiano de trabalho

artigo article
de maqueiros hospitalares no contexto da COVID-19

Carrying life and death: the daily routine of hospital stretcher


bearers in the context of COVID-19

Luísa Maiola de Araujo ([Link] 1


Adriana Kelly Santos ([Link] 2

Abstract This article aims to analyze the dai- Resumo Este artigo analisa o cotidiano de tra-
ly work of stretcher bearers in a Federal Teach- balho de maqueiros em um Hospital Federal de
ing and Research Hospital in the context of Ensino e Pesquisa no contexto da COVID-19,
COVID-19, exploring the subjective aspects re- explorando os aspectos subjetivos referentes ao
lated to working in constant contact with death trabalhar em constante contato com a morte e
and the invisibility to which these workers are à invisibilidade a que esses trabalhadores estão
subjected. The proposed discussion stems from submetidos. Adotamos o referencial da Psicologia
a more comprehensive qualitative investigation. Social do Trabalho, como técnica de pesquisa fo-
The main methodological resource of the empir- ram feitas observação direta no cotidiano de tra-
ical research was the direct observation in the balho e rodas de conversa com os maqueiros, o
daily work that allowed one to capture nuanc- que permitiu capturar nuances do trabalho numa
es of the work in a dialectical analysis with the análise dialética junto aos trabalhadores. A tran-
workers. The data obtained were analyzed from sitoriedade e invisibilidade foram identificadas
the perspective of Social Psychology of Work. enquanto importantes categorias de análise desse
Transience and invisibility were identified as im- cotidiano trabalho, onde o processo de tornar-se
portant categories of analysis of this daily work, maqueiro era marcado por aspectos de precariza-
where the process of becoming a stretcher-bearer ção do trabalho e vulnerabilização do trabalha-
was marked by aspects of precariousness of work dor. O trabalho em contato com a morte também
and vulnerability of the worker. Working in con- foi compreendido como um fator de invisibilida-
tact with death was also understood as a factor de, onde a criação de vínculos e humor emergem
of invisibility, where the creation of bonds and como estratégias coletiva de enfrentamento da
1
Escola Nacional de Saúde humor appeared as a collective strategy to face dureza inerente ao trabalho. Conclui-se a im-
Pública Sergio Arouca the harshness of work. This article concluded by portância de olhar para os aspectos subjetivos do
(ENSP), Fundação Oswaldo examining the importance of looking at the sub- trabalho realizado pelos maqueiros, assim como a
Cruz (Fiocruz). R. Leopoldo
Bulhões 1480, Manguinhos. jective aspects of the work carried out by stretcher ampliação de pesquisas sobre a saúde desses tra-
21041-210 Rio de Janeiro bearers, as well as the expansion of research on balhadores.
RJ Brasil. the subject. Palavras-chave Saúde do Trabalhador, Psicolo-
luisamaiola@[Link]
2
Laboratório de Educação, Key words Occupational Health, Social Psychol- gia Social do Trabalho, Trabalhadores da Saúde,
Ambiente e Saúde, Instituto ogy, Health Personnel, COVID-19 COVID-19
Oswaldo Cruz (IOC),
Fiocruz. Rio de Janeiro RJ
Brasil.
2858
Araujo LM, Santos AK

Introdução do maqueiro. O Parecer de Câmara Técnica n°


05/2019/CTLN/CPOFEN11, reitera essa distinção
O presente artigo reflete sobre as relações entre e descreve algumas características sobre o traba-
saúde, trabalho e subjetividade no cotidiano la- lho a ser desenvolvido pelos maqueiros:
boral de maqueiros de um Hospital Federal de O maqueiro, por sua vez, além de transportar
Ensino e Pesquisa (HFEP) no contexto da pande- os pacientes de forma adequada, respeitando cada
mia COVID-19. O subfinanciamento do Sistema caso, deve seguir os princípios de humanização,
Único de Saúde somado ao congelamento dos ser ético, atuar nos serviços de saúde dentro das
gastos, deterioração dos serviços, constitui uma normas de higiene ocupacional e de biosseguran-
permanente crise no setor e agrava a precariza- ça, relacionar-se respeitosamente com os pacientes
ção da força de trabalho da saúde1. e seus familiares e atuar de forma coerente dentro
No contexto da COVID-19, os anos de 2020 e da hierarquia da estrutura organizacional do sis-
2021, foram marcados por constantes mudanças tema de saúde11.
na organização do trabalho, incluindo o aumen- Reconhecendo a escassez de pesquisas e di-
to na demanda e a intensificação dos processos retrizes sobre a saúde, o trabalho e as subjetivi-
de trabalho2, acrescida à constante exposição dos dades dos maqueiros, o presente estudo parte do
trabalhadores ao vírus SARS-CoV-2, ocasionan- pressuposto de que o processo de trabalho dos
do medo aos trabalhadores que, além de convi- maqueiros é invisibilizado no contexto hospita-
verem com o risco de se contaminarem e desen- lar. A pouca compreensão sobre as dimensões
volverem a doença, ainda estavam passíveis de subjetivas referentes às significações acerca da
transmiti-la às pessoas de seu convívio1. profissão (o tornar-se maqueiros) e sobre o tra-
Minayo e Freire3 salientam que para compre- balho em constante contato com a morte são
ender como os(as) trabalhadores(as) da saúde elementos que corroboram para a invisibilidade
foram atingidos pelo coronavírus, é necessário destes trabalhadores quando comparados a ou-
considerar a amplitude dessa força de trabalho, tros segmentos profissionais. Esse pressuposto é
atentando-se às especificidades desse contingen- explorado à luz do referencial da Psicologia So-
te sem homogeneizá-lo. Teixeira et al.1 reforçam cial do Trabalhado (PST) que busca, a partir da
a notável escassez de pesquisas, no contexto da análise dialética do processo de trabalho junto
pandemia, sobre a saúde dos trabalhadores que aos trabalhadores, reconhecer as disputas e con-
não possuem profissionalização, como é o caso tradições existentes no cotidiano de trabalho e os
dos maqueiros hospitalares. Para além do recor- elementos geradores de prazer/realização ou de
te da pandemia, não encontramos estudos que sofrimento/adoecimento.
analisem as questões subjetivas do cotidiano de As intervenções no campo PST pretendem
trabalho dos maqueiros hospitalares. Averigua- refletir sobre os valores, regras e preconceitos que
mos apenas investigações analisando os aspectos estão implícitos na organização do trabalho, tor-
ergonômicos e osteomusculares relacionados ao nando-os explícitos, de maneira a construir cole-
processo de trabalho dos maqueiros4-6 ou que tivamente conhecimentos sobre a atividade exe-
visam diminuir intercorrências no transporte de cutada e aprimorar os processos organizativos12.
pacientes intra-hospitalares7. As práticas cotidianas, os processos de signifi-
Igualmente, existem poucos documentos/ cações e as identidades são ferramentas fecun-
normativas que prescrevem as tarefas a serem das para compreender os modos como sujeitos
desempenhadas pelos maqueiros na dinâmica produzem e se constituem no ambiente laboral13.
hospitalar. O exame da Classificação Brasileira Dessa maneira articula-se a dimensão subjetiva
de Ocupações (CBO) mostra que os maqueiros às questões objetivas, materiais e estruturais do
pertencem à categoria de trabalhadores em Ser- trabalho, uma vez que as esferas macro e mi-
viços de Promoção e Apoio à Saúde, descrita pelo crossociais são relacionais e não dicotômicas14.
código 5155, com o título de Atendente de Enfer- Seguindo estes princípios, neste artigo prezamos
magem8,9. Já a Resolução COFEN nº 376/201110, pelo ponto de vista do trabalhador e discorre-
disponível no site do Conselho Federal de En- mos sobre o cotidiano de trabalho dos maquei-
fermagem (Cofen), salienta que não compete ao ros hospitalares no contexto da pandemia, bem
profissional de enfermagem conduzir maca e ca- como refletimos sobre os processos de significa-
deira de roda onde o paciente será transportado, ções e as identidades referentes ao trabalhar em
devendo essa atividade ser realizada pelo “pessoal constante contato com a morte e a invisibilização
de apoio (maqueiro)”, o que marca uma diferen- a que esses trabalhadores foram submetidos no
ça entre o trabalho da enfermagem e o trabalho enfrentamento à COVID-19.
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Ciência & Saúde Coletiva, 28(10):2857-2866, 2023


Metodologia ões de equipe, almoçamos, jantamos, tomamos
café da manhã e café da tarde com os maqueiros.
A partir da pesquisa-intervenção, de abordagem A partir dessa imersão no campo, captamos uma
qualitativa, este estudo investigou as relações en- gama de situações e fenômenos do real da ativi-
tre saúde, trabalho e subjetividade de maqueiros dade que dificilmente seriam obtidas se retirásse-
em um Hospital Federal de Ensino e Pesquisa mos os trabalhadores de seu ambiente laboral e/
(HFEP). A pesquisa-intervenção busca, com a ou não fossemos para este ambiente19.
participação dos sujeitos envolvidos, investigar Posteriormente, em fevereiro de 2022, como
as coletividades em sua diversidade qualitativa parte da intervenção foram promovidas as rodas
enquanto propõe uma intervenção micropolítica de conversa, uma vez por semana, no horário de
na experiência social15. Os aportes teórico-meto- trabalho e duraram, em média, 1 hora. Neste es-
dológico da PST se alinham a pesquisa-interven- paço dialógico, apresentamos, num primeiro mo-
ção, à medida que afirma que toda pesquisa é, em mento, uma história construída com fragmentos
alguma esfera, interventiva e não há intervenção de falas e situações coletadas durante a etapa de
que não demande uma pesquisa16. Com esse pro- observação. Dentre os temas abordados, estavam
cedimento, pode-se obter informações sobre os os fluxos em constante movimento e em contato
trabalhadores e seus processos interativos, des- com a morte, a realidade complexa de trabalho, a
crever e analisar os componentes desse complexo criação de vínculos, a invisibilidade e a intensifi-
sistema de significados17,18. cação do trabalho. Num segundo momento, pro-
O HFEP foi escolhido por ser uma referência pusemos que fotografassem seu cotidiano de tra-
para o atendimento a pacientes com COVID-19. balho de maneira que este registro pudesse trazer
Já a escolha por realizar a pesquisa com os ma- elementos e questões que, até então, estavam
queiros deveu-se à hipótese da invisibilidade implícitos na organização do trabalho. A partir
referente ao trabalho realizado por eles e pela desse olhar, foi possível aprofundar, coletivamen-
necessidade de compreender como o trabalho te, o debate das relações entre saúde, trabalho e
em contato com a morte afetava a saúde desses subjetividade e construir novos conhecimentos16.
trabalhadores. Os 17 maqueiros que atuavam no Os dados das observações e das rodas de con-
hospital entre dezembro/2021 e fevereiro/2022, versas foram registrados no caderno de campo,
período de realização do estudo, foram convida- gravados e transcritos. A partir da leitura trans-
dos a participar da pesquisa. Apenas 1 maqueiro versal do material coletado durante essas etapas,
trabalhava como rotina de segunda a sexta-feira classificamos os temas segundo a recorrência e
das 8h às 17h, enquanto os outros 16 trabalhavam ordenamos as categorias empíricas que ofereciam
subdivididos igualmente em 4 equipes, com es- informações sobre o trabalho prescrito x real e os
cala de 12 horas trabalhadas por 36 horas de des- aspectos subjetivos no trabalho. Na sequência,
canso (12x36). Duas equipes revezavam o plantão elencamos os núcleos de sentidos que expressam
diuturnamente (7h-19h) e duas equipes revezam a análise do cotidiano de trabalho dos maqueiros
durante a noite (19h-7h). Todos os maquei- – o trabalho como marcador social e produtor
ros assinaram o TCLE, conforme Resolução nº de identidades, o trabalho sob demanda, prescri-
466/2012/CNS (CAAE 51932221.4.3001.5262). ções imprecisas e o trabalhar na transitoriedade
A pesquisa-intervenção consistiu na observa- da vida. Por fim, as falas descritas nos resultados
ção direta do cotidiano de trabalho e nas rodas estão assinaladas por nomes fictícios.
de conversas com os maqueiros. A observação
direta do cotidiano de trabalho dos maqueiros
aconteceu entre dezembro/2021 e fevereiro/2022. Resultados e discussão
Para desenvolvê-la elaboramos um roteiro com
questões a serem observadas, como a criação de Tornar-se maqueiro
vínculo, as hierarquias e os efeitos do trabalho na
saúde e subjetividade. Durante o primeiro mês de Durante a pesquisa, escutamos as histórias e
observação foram cerca de 60 horas imersas no as trajetórias de cada trabalhador alinhavando os
ambiente do hospital, observando e escutando as pontos que os levaram a se tornarem maqueiros
diversas narrativas e vivências existentes ali. Nes- hospitalares em plena pandemia de COVID-19.
se itinerário, percorremos todas as alas e locais Os 17 maqueiros que participaram da pesquisa
por onde os maqueiros transitavam; acompanha- eram identificados com o gênero masculino, na
mos todas as equipes nos diferentes turnos, horá- faixa etária de 19 a 46 anos. As histórias que os
rios e dias da semana, inclusive fins de semana. levaram a atuar como maqueiro eram diversas ao
Acompanhamos as trocas de plantões, as reuni- mesmo tempo em que guardavam similaridades.
2860
Araujo LM, Santos AK

O atravessamento da pandemia e as dificuldades tória de André que estava prestes a se formar em


concretas e monetárias advindas desse contexto engenharia civil e, a partir da experiência no hos-
histórico onde muitos trabalhos foram suspen- pital, desejava especializar-se em engenharia bio-
sos, tanto pelas medidas de contenção sanitária química para trabalhar em hospitais. De forma
(isolamento físico) quanto pela crise econômica semelhante, Mateus e Luan, jovens com pouco
decorrente da gestão da pandemia, apareciam mais de vinte anos, relataram o desejo de estudar
nos relatos dos maqueiros: enfermagem futuramente. Já Vitor, após começar
Eu tinha uma loja, mas a proprietária quis au- a trabalhar como maqueiro em 2020, iniciou o
mentar muito o valor do aluguel e eu entreguei a curso de enfermagem no ano seguinte.
loja. [...] foi quando vi que o hospital tinha vaga Ao escutar as histórias destes trabalhadores,
[...] [perguntei] tem [que ter] experiência? [Ela compreendemos como as trajetórias de trabalho
respondeu] Não. Agora tô esperando surgir uma constroem o processo de tornar-se maqueiros e,
oportunidade pra radiologia (Kauã). a partir dessa interlocução pudemos nos apro-
Eu era motorista de caminhão. [...] Durante a ximar da(s) subjetividade(s) maqueiras, com-
pandemia caiu o movimento e eu precisava traba- preendendo como as identidades são “forjadas a
lhar com alguma coisa fixa [...]. Aqui é mais o me- partir das vivências concretas” de trabalho21.
nos um serviço de logística. Você pega aqui, leva
ali (Camilo). Um cotidiano de trabalho marcado pela
Já trabalhei em obra, praia vendendo água, até invisibilidade: “maqueiro na escuta?”
algodão doce. Então quando veio essa oportunida-
de agarrei com as duas mãos e pulei pra dentro A observação direta do cotidiano de trabalho
(Vitor). permitiu acessar os diferentes modos de traba-
Apenas 4 maqueiros já haviam trabalhado lhar e os diversos sentidos construídos no dia a
nesta função antes da pandemia, enquanto 13 dia de trabalho, onde se evidenciou as distâncias
trabalhavam como maqueiro pela primeira vez. entre o trabalho prescrito e o trabalho real, assim
O reconhecimento da dignidade do trabalho que como as dimensões psicossociais dos fenômenos
executavam durante a pandemia era verbalizado relacionados ao trabalho21,22. O trabalho prescrito
pelos trabalhadores em consonância com a per- refere-se à tarefa que o trabalhador deve desen-
cepção do trabalho enquanto algo transitório: volver, enquanto o trabalho real é a atividade, de
A gente vai levando junto né, o trabalho com o fato, desenvolvida pelo trabalhador a partir dos
sonho [...] [Aqui] é um trabalho digno como qual- ajustes e regulações que este necessita fazer para
quer outro, mas não dá pra parar, paralisar [...] A dar continuidade ao seu trabalho23.
gente tá aqui e tá procurando uma estabilidade. É Nesse sentido, compreendemos o hospital
sobre não cair na zona de conforto, aos poucos vai enquanto um campo vivo, onde os processos e
conquistando o que quer (Pedro). fluxos estavam em constante movimento. A di-
Eu tô aqui de passagem, eu vou passar em uma namicidade do campo era refletida pelo modo
prova (Guilherme). como os processos de trabalho eram modifica-
As histórias contadas trazem a dimensão do dos de acordo com as demandas do atual contex-
trabalho como maqueiro enquanto uma condição to pandêmico. Situação facilmente evidenciada
imediata e concreta de sobrevivência, enquan- nos relatos dos maqueiros que, com frequência,
to uma categoria de trabalhadores pertencentes comparavam as experiências atuais, relativas ao
a “classe-que-vive-do-trabalho”20 e que carrega período que transcorria a pesquisa, com àquelas
consigo o ideal da “profissão” a ser conquistada, experimentadas no início da pandemia em 2020:
para a qual é preciso percorrer um caminho que Ano passado [2020] a gente não tinha tempo
demanda certa temporalidade de espera. Nesse para parar, sentar e conversar aqui como a gente
“transitar”, o trabalho opera como um elemento tá, não tinha. Falando psicologicamente, a gente
potente na construção das identidades, pois a fica menos cansado, [...] antes a gente já vinha sa-
partir do trabalhar como maqueiro, transita-se bendo que ia ficar acabado. [...] a gente fazia tanta
na própria história, tornando-se um outro dife- movimentação aqui dentro que a gente saia cansa-
rente do que se era antes dessa experiência. do [...] transferência direto, movimentação o tempo
É nesse fluxo do tornar-se maqueiro, onde se todo, era óbito [...] está muito diferente pra gente de
adquirem novos conhecimentos e novas habili- nível de trabalho, a gente sabe que não está aquele
dades profissionais e interpessoais, que se desve- caos todo (Francisco).
la a função do trabalho na “constituição do ser Hoje isso aqui tá uma mão com açúcar, os me-
social”20. Os efeitos do “tornar-se maqueiro” na ninos que trabalham aqui hoje não fizeram ⅓ do
constituição social e subjetiva aparecem na his- que a gente fez (Kauã).
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Ciência & Saúde Coletiva, 28(10):2857-2866, 2023


Os maqueiros contratados desde o início da bre a importância da participação do trabalhador
pandemia, constantemente contavam histórias em espaços de decisão, a partir do seu próprio
sobre seus primeiros meses de trabalho, quando saber sobre o trabalho.
ajudaram a construir a estrutura física do hospi- Mesmo com o conhecimento e intervenção
tal, auxiliando na montagem de camas e armá- dos maqueiros para definição dos fluxos, ainda
rios: “Nós ajudamos a levantar isso aqui!”. As assim não havia qualquer prescrição redigida ou
atribuições a serem realizadas por eles, na época, Protocolos Operacionais Padrão. Para desenvol-
também eram outras. Eles nos contaram que no verem suas tarefas (ex: transporte de pacientes
início do trabalho precisavam executar diversas e materiais), os maqueiros eram solicitados por
funções como: checar os cilindros de oxigênios, meio do rádio com a emblemática frase: “Ma-
chamar os bombeiros no rádio: queiro na escuta?”. A solicitação era feita por ou-
[Com o tempo] descobriram que no contrato tros trabalhadores do hospital, o que caracteriza-
tinha gasista, os bombeiros ganharam um ramal va, segundo a chefia, um trabalho “sob demanda”.
próprio no rádio, foram reconhecendo que algu- Nessa relação, alguns maqueiros disseram se sen-
mas funções não são nossas. [...] Foi realmente tir invisíveis por não serem chamados pelo nome
separando, porque até então, a televisão não tá li- e trabalharem “apenas” levando “as coisas de um
gando, chama o maqueiro, tem que levar não sei o lado para o outro”. A inexistência de documen-
que em não sei onde, chama o maqueiro. [...] Era tos que balizassem as tarefas a serem desempe-
solicitação o tempo o tempo. Chamavam a gente nhadas pelos maqueiros aliada ao sentimento de
pra gente chamar a limpeza. [...] Chegou um pon- desvalorização no trabalho revela indícios sobre
to que ficou muito cansativo, desgasta muito, aí a invisibilidade dessa categoria no hospital.
agora com tudo um pouco mais definido, a gente Além disso, a ausência de espaços formativos
trabalha melhor (Francisco). repercutia nos trabalhadores sentimento de inse-
Esse excesso de tarefas era lembrado por eles gurança e vulnerabilidade, além de ocasionar um
como a época em que o “maqueiro era pau pra sobretrabalho. Os maqueiros destacaram que de-
toda obra”, o “faz tudo”. Pina e Stotz24 discutem vido à inexistência de capacitações, utilizavam-se
que a intensificação advinda do excesso de fun- de conhecimentos pregressos ou aprendiam “na
ções, demanda grande dispêndio de energia e re- prática”:
percute em um desgaste da saúde do trabalhador Na verdade, todo maqueiro que entra no hos-
que, não necessariamente se manifesta em pato- pital, geralmente não sabe nada [...] os próprios
logia, mas reverbera em uma perda da capacida- maqueiros ensinam [...] o mais antigo ensina o
de física e psíquica desse trabalhador. mais novo, sempre é assim. No [meu] outro [tra-
Além do desgaste, a intensificação do traba- balho como maqueiro], quando eu entrei tinha um
lho também era marcada pelas relações de po- antigo lá que me ensinou e eu já estou ensinando
der instituídas no hospital, onde os maqueiros os que tão entrando agora e assim continua [...] a
eram situados como aqueles trabalhadores que instituição não dá ensinamento e os próprios ma-
cumpriam ordens de diversas categorias por não queiros que se ensinam (André).
terem seus fluxos de trabalho definidos institu- Sabe-se que a inexistência de prescrições
cionalmente. A construção dos fluxos de traba- sistematizadas e a ausência de espaços de capa-
lho dos maqueiros foi gradativa e ocorreu com a citação, demandam do trabalhador um exercício
expressiva participação deles. Em geral, quando a psíquico para elaborar as tarefas, o que pode oca-
chefia os questionava sobre os fluxos, eles relata- sionar tensão e um desgaste psíquico para esse
vam o que estava ou não funcionando: trabalhador. Esse cenário também reflete a invi-
A gente via os buracos que acontecia nos fluxos sibilidade a que esses trabalhadores estão subme-
e sinalizava [a chefia]. Se via que não desse certo tidos e implicitamente transmite a mensagem de
[o novo fluxo], refazia (Francisco). que esse é um trabalho sem grandes exigências,
A gente aprendeu na marra, aqui não tinha o qual qualquer um consegue realizar, basta ter
fluxo nenhum, aqui não tinha plano de trabalho força física.
[...] quando a gente vê que não vai dar certo, a gen- A ausência de treinamentos também reflete a
te retruca [...] a gente tá aqui todos os dias, então falsa ideia de que este trabalho não envolve riscos
[a gente sabe que] funciona dessa forma e assim ocupacionais, porém, a Norma Regulamentadora
vai ser melhor do que dessa forma que vocês estão 17, a qual estabelece diretrizes de adaptação das
falando (Kauã). condições de trabalho às características psicofi-
O conhecimento dos maqueiros sobre os flu- siológicas dos trabalhadores, afirma a necessida-
xos/tarefas de trabalho e sua participação na defi- de de capacitação para trabalhadores que trans-
nição destes, reforça a ideia de Oddone et al.25 so- portam cargas regularmente, visando proteger a
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Araujo LM, Santos AK

saúde e prevenir acidentes de trabalho26. Apesar mesmos, o que reflete em dificuldades de se falar
dessa normativa, os maqueiros afirmam não ter sobre o tema, assim como de problematizar suas
recebido capacitação, o que desvela um contexto repercussões em nossa subjetividade.
de vulnerabilidade a possíveis acidentes e doen- Durante a pesquisa, pudemos acompanhar o
ças ocupacionais. trabalho dos maqueiros transportando os corpos
A inexistência de um sindicato e conselho para o necrotério, acompanhando os familiares
profissional específico para essa categoria tam- no reconhecimento dos corpos até a retirada dos
bém apareceu como marcador de invisibilidade corpos pelo serviço funerário. Nesse fazer coti-
e vulnerabilidade. Sobre esse assunto, André que diano, pudemos escutar os dizeres e os silêncios
também é maqueiro em outro hospital, relata sobre a morte e sobre o trabalhar em contato
que conversa com maqueiros de diversas insti- direto com ela. Para eles, a entrada no necroté-
tuições e observa as diferentes formas de regis- rio era vista como um trabalho “rapidinho”, algo
tro (atendente de enfermagem, maqueiros, apoio “tranquilo” e “normal”. Essas palavras nos dão
técnico), lotação em diferentes setores (hotelaria pistas dos mecanismos defensivos postos em ce-
e enfermagem), assim como a não padronização nas para lidar com a morte, elas são como pontes
dos adicionais de insalubridade. Para ele, a ine- que fazem elo entre o que é possível simbolizar
xistência de um sindicato coeso que represente a e representar desse encontro com o real – a fi-
categoria interfere diretamente nessas questões, nitude:
além de dificultar as possibilidades em reivindi- Aqui pra mim é de boa, chega o defunto já tá
car aumento salarial e adicional de insalubridade. embrulhado mesmo, joga ele na maca, joga na ge-
Apesar de alguns maqueiros não expressarem ladeira, é tranquilo (Márcio).
conhecimento sobre o tema ou considerarem in- Quando escutamos outro maqueiro, nova-
diferente, outros maqueiros disseram se sentir mente o modo eufêmico aparece, desta vez, o
“meio abandonados” e que caso tivessem uma trabalhador apesar de verbalizar questões sensí-
instância representativa não “ficariam tão à mer- veis em relação ao trabalho que executa, como
cê”, “sem ninguém com você para se articular”. o medo que sentiu ao iniciar suas atividades no
O pertencimento dos maqueiros ao sindicato de necrotério, ele também conclui que lidar com a
hotelaria, no caso do hospital pesquisado, apa- morte é algo “normal”:
rece no discurso de um dos trabalhadores como Mas é uma coisa que eu tive que aprender a
um fator de desproteção, visto que este sindicato lidar mesmo, mas não foi fácil não [...] de repente
é muito frágil e “quase não existe”. você começar a trabalhar com aquilo, você não tem
escolha, você tem que fazer. Então é assim, hoje pra
Subjetividade(s) maqueira(s): o trabalhar mim é normal. [...] Uma coisa minha de eu não
na transitoriedade da vida e a criação de gostar de ver, eu tinha medo de ver a pessoa mor-
vínculos como “casa” de sustentação ta. [...] Hoje em dia é muito normal pra mim. [...]
Não demorou muito não [para considerar normal]
Nesse transitar cotidiano, marcado por flu- porque foi muita coisa em cima da outra (Vitor).
xos e processos de trabalho transitórios, leva-se De acordo com sua fala, a tarefa de lidar com
o corpo-paciente de lá para cá, assim como se a morte, foi sendo facilitada com o passar do tem-
transporta materiais de um lado para o outro. A po e com a experiência adquirida aos desempe-
transitoriedade como elemento central no coti- nhar suas atividades no trabalho. Kovács et al.30
diano de trabalho dos maqueiros se expressa pe- ao abarcarem essa questão, afirmam que o tempo
los corpos em constante movimento no hospital, no serviço auxilia nas formas de enfrentamento
pelos vínculos que se constroem e pelos afetos das experiências vividas, porém não os protege
que os atravessam nesse trabalhar em constante de todas as situações, por isso a importância de
trânsito. espaços em que se possa falar sobre os efeitos de
De acordo com Freud27 a transitoriedade lidar com a concretude da morte para cada um30.
é compreendida enquanto o destino de todas O trabalhar em contato com a transitoriedade da
as coisas visto a finitude da existência humana. vida, não ocorre de modo linear, não é algo que
Apesar da certeza da transitoriedade, por vezes, se aprende a fazer e daqui para frente segue “de-
revoltamo-nos contra o fim. Para Maranhão28 e safetado”. Na vida, há inconstâncias que devem
Rodrigues29, nossa sociedade se relaciona com a ser olhadas com atenção:
morte considerando-a uma interdição, algo ino- Depois que eu perdi um parente, no final de
minável, um tabu. Com isso, há uma tentativa de dezembro, eu voltei a sentir e dói muito. Fazia
colocarmos a morte como algo distante de nós tempo que eu não perdia alguém, em dezembro eu
2863

Ciência & Saúde Coletiva, 28(10):2857-2866, 2023


perdi e a sensação foi horrível, e eu sinto que de lá “casa” foi expressa por alguns maqueiros ao con-
pra cá todo óbito que eu tiro, eu volto na lembran- tarem que no início da pandemia, em 2020, o
ça do que aconteceu em dezembro (Iago). necrotério teve algumas de suas partes montadas
O contato com a morte também pode des- pelas mãos dos próprios maqueiros. Além disso,
pertar o medo de ser o próximo a ser atingido devido ao alto número de óbitos, o necrotério foi
por ela, visto que a morte do outro sempre evo- habitado intensamente por eles:
cará a possibilidade da nossa própria morte, nos O necrotério é praticamente nosso. A gente co-
forçando a pensar sobre os nossos próprios limi- manda o necrotério. Ali é nossa casa que a gente
tes29. Francisco, que trabalha no hospital desde o fala. A gente vivia ali. [...] liberava um óbito, já
começo da pandemia, relatou que muitas vezes chegava outra funerária (Kauã).
pensou em abandonar o trabalho ao pensar que A união estava mais uma vez retratada na fala
não compensava ter um trabalho onde ele pudes- de alguns maqueiros, demonstrando a importân-
se perder sua vida: cia dos vínculos no cotidiano de trabalho. Nas in-
Será que eu vou estar aqui plantão que vem? terações, houve quem considerou a união como a
[Eu ficava] pensando que a vida é realmente um dimensão mais prazerosa do trabalho como ma-
sopro, o que eu vi de gente aqui falando, conver- queiro. Outros, concordando com isto, disseram
sando comigo de manhã e que eu tirei o corpo no que a tranquilidade atual do hospital tinha como
final do plantão [...]. Ficava pensando, quando vai ponto negativo a perda de união e da troca entre
chegar a minha vez? (Francisco). os trabalhadores que lá atuam.
Há na fala de Francisco uma dimensão de Nessa “casa”, espaço carregado de histórias e
sofrimento e de conflito entre a necessidade do significados, fomos convidadas a entrar. Fomos
trabalho e o medo de morrer por COVID-19. apresentadas a ele e acolhidas. Um exemplo disso
Tais reflexões reforçam a necessidade de exis- foi quando a primeira autora acompanhou Lucas
tir espaços onde se possa falar sobre o medo da e Guilherme no transporte de um corpo para o
morte e sobre os efeitos subjetivos que se deparar necrotério. Enquanto os maqueiros carregavam
com ela, cotidianamente, desvela na saúde desses o corpo, também fizeram uma brincadeira com
trabalhadores. ela. Ao colocarem o corpo dentro da câmera de
Assim como o modo eufêmico de se falar so- ar, Lucas a perguntou se estava ouvindo um ba-
bre a morte, analisamos que a criação de vínculos rulho, chamando-a para mais de perto. Lucas ao
e o humor também apareceram como estratégias perceber a apreensão, começa a rir e explica des-
defensivas criadas pelos trabalhadores, funcio- contraído, que o barulho é da câmera de ar.
nando como um mecanismo para transformar Alguns dias depois ao encontrá-los nova-
e minimizar a percepção da realidade de traba- mente transportando um corpo para o necroté-
lho que os fazem sofrer. Vale ressaltar que essa rio, ela os acompanha ao necrotério onde Gui-
transformação ocorre no nível psíquico, visto lherme puxa a gaveta inferior e Lucas levanta a
que o trabalhador nem sempre possui condições frente da maca, lentamente, para o corpo deslizar
de modificar a realidade concreta vivenciada no até a gaveta aberta. Guilherme, ao lado, auxilia
trabalho31. o deslizamento do corpo e ajeita com cuidado a
Ainda sobre as estratégias defensivas cria- cabeça dentro da gaveta. Posteriormente, quando
das coletivamente pelos trabalhadores, Batista e preenchiam o caderno de registros e conferiam
Codo32 em pesquisa sobre o trabalho de sepul- as gavetas. Lucas relembra o susto, rindo: “Então
tadores, afirmam que em trabalhos considerados você ficou assustada né, o pior que parecia mes-
sujos por envolverem estigmas como a morte, a mo alguém respirando”. Já familiarizada com o
coesão grupal ocorre como modo de lidar com contexto, sentindo-se em “casa”, responde que na
um a dureza do trabalho. Segundo eles, a apari- hora, achou que estava “tranquila”, mas na manhã
ção do humor, por meio de brincadeiras e risa- seguinte, quando foi embora do hospital, sonhou
das, é uma forma de lidar com a mácula existente com o que havia acontecido. Logo, diz que não
no trabalho32. estava tão “tranquila” assim e os dois começam
À medida que a palavra tomava a cena, era a rir.
possível observar que outros afetos modulavam Ao saírem do necrotério, já nos corredores
esse “silencioso” modo de trabalhar na transito- do hospital Guilherme conta que a última vez em
riedade da vida. Nas histórias contadas, a cola- que sonhou com cadáver foi quando era adoles-
boração entre eles estruturava as relações no co- cente e teve um amigo morto pela milícia. Explica
tidiano de trabalho, desde quando chegaram ao que na época, a milícia estava ocupando seu bair-
hospital. A denominação do necrotério enquanto ro e o local parecia “território de guerra”, onde
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Araujo LM, Santos AK

qualquer discussão era motivo de morte. Conta vai chorar junto? Se o cara desmaiar, ficar emo-
que viu muitos amigos morrerem, enquanto ou- cionado, passar mal, quem é que vai segurar o
tros entravam para a milícia. A história contada cara?”.
por Guilherme nos indica as situações de violên- Após acompanhar o transitar dos maquei-
cia as quais estão submetidos, cotidianamente, os ros nesse cortejo, notamos que as palavras, os
trabalhadores que residem nas periferias do Rio gestos e narrativas expressas por eles marcam a
de Janeiro, assim como aponta para a necessidade constância com que estes trabalhadores são con-
de investigarmos quais os efeitos simbólicos des- frontados com a transitoriedade da vida, seja no
te trabalho em contato com a morte. trabalho ou no dia a dia fora dele. Consideramos
A vivência em contextos marcados pela vio- que o afeto e o vínculo solidificam o “fazer” di-
lência é também explicitada na resposta de outro ário, encorajam os “enfrentamentos” e a criação
maqueiro com pouco mais de vinte anos. Quan- de “novas normas” no cotidiano de trabalho dos
do questionado sobre como é trabalhar em con- maqueiros.
tato tão próximo com a morte, ele responde que
não se afetava muito, pois já presenciou outros
“corpos mortos no chão da favela”, localizada Considerações finais
próxima ao hospital. Outro exemplo que susci-
tou questionamentos sobre os atravessamentos Apesar da complexidade existente no processo
da violência vivida no território e suas relações de trabalho dos maqueiros durante a pandemia
com os sentidos sobre morte, foi a história con- e sua importância para o funcionamento do hos-
tada por Márcio sobre o trabalho no hospital pital, constatamos que esses trabalhadores estão
durante o início da pandemia de COVID-19. Ao expostos a situações de vulnerabilidade e invi-
perguntá-lo sobre ter sentido medo nessa época, sibilidade institucionais e sociais, tais como: a
ele responde: inexistência de prescrições precisas, de espaços
Não fiquei com medo não, eu já passei por coisa de formação/capacitações, de padronizações de
pior [...] ver gente morrendo assim toda hora, aqui- registros trabalhistas e de instâncias representa-
lo lá pra mim era normal só ficava com medo de tivas especificas, além do trabalho em constante
levar isso pra casa [...]. Aqui é o Rio de Janeiro pai, contato com a morte.
nego morre na esquina, nego morre cortado, nego A invisibilização dos efeitos subjetivos rela-
morre na fogueira, é foda rapaz [risos] (Márcio). cionados ao trabalhar com a morte marca a ne-
O modo cômico em que Márcio relatou um cessidade de instituir espaços, onde os maquei-
cotidiano extremamente duro e violento, assim ros possam falar sobre seus sentimentos em lidar
como a brincadeira feita por Lucas no necroté- cotidianamente com a morte, como estratégia de
rio, pode estar relacionado com o que Fazzioni33 promoção de saúde no trabalho. Nesse ir e vir
explica sobre a imersão em ambientes violentos carregando vidas e mortes, a criação de vínculos
poder “ocasionar riso, mas, igualmente, medo”. A no cotidiano de trabalho apareceu como um im-
autora explica que ao fazer piada sobre a dureza portante elemento de enfrentamento às durezas
cotidiana explicita-se não a naturalização dessa do trabalho como maqueiro.
realidade, mas pelo contrário, uma possibilidade Durante a pesquisa, não realizamos uma aná-
para expressar e extravasar a tensão33. lise interseccional (classe, raça e gênero) para re-
Além disso, ao olharmos mais de perto este fletir sobre o trabalho realizado pelos maqueiros,
cotidiano de trabalho, pudemos notar que o sendo este um dos limites do estudo. Acredita-
modo aparentemente “naturalizado” em relação mos que seria importante em pesquisas futuras
à morte, recorrente na fala dos maqueiros, pode compreender como o gênero, a expressão da
sinalizar aspectos relacionados à necessidade de masculinidade e o racismo institucional se arti-
continuar a realizar suas atividades dia após dia, culam com os processos subjetivos e de saúde no
como nos diz Rodolfo: “Se o familiar chorar, tu trabalho dos maqueiros.
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Ciência & Saúde Coletiva, 28(10):2857-2866, 2023


Colaboradores Referências

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