Carrying Life and Death: The Daily Routine of Hospital Stretcher Bearers in The Context of COVID-19
Carrying Life and Death: The Daily Routine of Hospital Stretcher Bearers in The Context of COVID-19
10292023 2857
artigo article
de maqueiros hospitalares no contexto da COVID-19
Abstract This article aims to analyze the dai- Resumo Este artigo analisa o cotidiano de tra-
ly work of stretcher bearers in a Federal Teach- balho de maqueiros em um Hospital Federal de
ing and Research Hospital in the context of Ensino e Pesquisa no contexto da COVID-19,
COVID-19, exploring the subjective aspects re- explorando os aspectos subjetivos referentes ao
lated to working in constant contact with death trabalhar em constante contato com a morte e
and the invisibility to which these workers are à invisibilidade a que esses trabalhadores estão
subjected. The proposed discussion stems from submetidos. Adotamos o referencial da Psicologia
a more comprehensive qualitative investigation. Social do Trabalho, como técnica de pesquisa fo-
The main methodological resource of the empir- ram feitas observação direta no cotidiano de tra-
ical research was the direct observation in the balho e rodas de conversa com os maqueiros, o
daily work that allowed one to capture nuanc- que permitiu capturar nuances do trabalho numa
es of the work in a dialectical analysis with the análise dialética junto aos trabalhadores. A tran-
workers. The data obtained were analyzed from sitoriedade e invisibilidade foram identificadas
the perspective of Social Psychology of Work. enquanto importantes categorias de análise desse
Transience and invisibility were identified as im- cotidiano trabalho, onde o processo de tornar-se
portant categories of analysis of this daily work, maqueiro era marcado por aspectos de precariza-
where the process of becoming a stretcher-bearer ção do trabalho e vulnerabilização do trabalha-
was marked by aspects of precariousness of work dor. O trabalho em contato com a morte também
and vulnerability of the worker. Working in con- foi compreendido como um fator de invisibilida-
tact with death was also understood as a factor de, onde a criação de vínculos e humor emergem
of invisibility, where the creation of bonds and como estratégias coletiva de enfrentamento da
1
Escola Nacional de Saúde humor appeared as a collective strategy to face dureza inerente ao trabalho. Conclui-se a im-
Pública Sergio Arouca the harshness of work. This article concluded by portância de olhar para os aspectos subjetivos do
(ENSP), Fundação Oswaldo examining the importance of looking at the sub- trabalho realizado pelos maqueiros, assim como a
Cruz (Fiocruz). R. Leopoldo
Bulhões 1480, Manguinhos. jective aspects of the work carried out by stretcher ampliação de pesquisas sobre a saúde desses tra-
21041-210 Rio de Janeiro bearers, as well as the expansion of research on balhadores.
RJ Brasil. the subject. Palavras-chave Saúde do Trabalhador, Psicolo-
luisamaiola@[Link]
2
Laboratório de Educação, Key words Occupational Health, Social Psychol- gia Social do Trabalho, Trabalhadores da Saúde,
Ambiente e Saúde, Instituto ogy, Health Personnel, COVID-19 COVID-19
Oswaldo Cruz (IOC),
Fiocruz. Rio de Janeiro RJ
Brasil.
2858
Araujo LM, Santos AK
saúde e prevenir acidentes de trabalho26. Apesar mesmos, o que reflete em dificuldades de se falar
dessa normativa, os maqueiros afirmam não ter sobre o tema, assim como de problematizar suas
recebido capacitação, o que desvela um contexto repercussões em nossa subjetividade.
de vulnerabilidade a possíveis acidentes e doen- Durante a pesquisa, pudemos acompanhar o
ças ocupacionais. trabalho dos maqueiros transportando os corpos
A inexistência de um sindicato e conselho para o necrotério, acompanhando os familiares
profissional específico para essa categoria tam- no reconhecimento dos corpos até a retirada dos
bém apareceu como marcador de invisibilidade corpos pelo serviço funerário. Nesse fazer coti-
e vulnerabilidade. Sobre esse assunto, André que diano, pudemos escutar os dizeres e os silêncios
também é maqueiro em outro hospital, relata sobre a morte e sobre o trabalhar em contato
que conversa com maqueiros de diversas insti- direto com ela. Para eles, a entrada no necroté-
tuições e observa as diferentes formas de regis- rio era vista como um trabalho “rapidinho”, algo
tro (atendente de enfermagem, maqueiros, apoio “tranquilo” e “normal”. Essas palavras nos dão
técnico), lotação em diferentes setores (hotelaria pistas dos mecanismos defensivos postos em ce-
e enfermagem), assim como a não padronização nas para lidar com a morte, elas são como pontes
dos adicionais de insalubridade. Para ele, a ine- que fazem elo entre o que é possível simbolizar
xistência de um sindicato coeso que represente a e representar desse encontro com o real – a fi-
categoria interfere diretamente nessas questões, nitude:
além de dificultar as possibilidades em reivindi- Aqui pra mim é de boa, chega o defunto já tá
car aumento salarial e adicional de insalubridade. embrulhado mesmo, joga ele na maca, joga na ge-
Apesar de alguns maqueiros não expressarem ladeira, é tranquilo (Márcio).
conhecimento sobre o tema ou considerarem in- Quando escutamos outro maqueiro, nova-
diferente, outros maqueiros disseram se sentir mente o modo eufêmico aparece, desta vez, o
“meio abandonados” e que caso tivessem uma trabalhador apesar de verbalizar questões sensí-
instância representativa não “ficariam tão à mer- veis em relação ao trabalho que executa, como
cê”, “sem ninguém com você para se articular”. o medo que sentiu ao iniciar suas atividades no
O pertencimento dos maqueiros ao sindicato de necrotério, ele também conclui que lidar com a
hotelaria, no caso do hospital pesquisado, apa- morte é algo “normal”:
rece no discurso de um dos trabalhadores como Mas é uma coisa que eu tive que aprender a
um fator de desproteção, visto que este sindicato lidar mesmo, mas não foi fácil não [...] de repente
é muito frágil e “quase não existe”. você começar a trabalhar com aquilo, você não tem
escolha, você tem que fazer. Então é assim, hoje pra
Subjetividade(s) maqueira(s): o trabalhar mim é normal. [...] Uma coisa minha de eu não
na transitoriedade da vida e a criação de gostar de ver, eu tinha medo de ver a pessoa mor-
vínculos como “casa” de sustentação ta. [...] Hoje em dia é muito normal pra mim. [...]
Não demorou muito não [para considerar normal]
Nesse transitar cotidiano, marcado por flu- porque foi muita coisa em cima da outra (Vitor).
xos e processos de trabalho transitórios, leva-se De acordo com sua fala, a tarefa de lidar com
o corpo-paciente de lá para cá, assim como se a morte, foi sendo facilitada com o passar do tem-
transporta materiais de um lado para o outro. A po e com a experiência adquirida aos desempe-
transitoriedade como elemento central no coti- nhar suas atividades no trabalho. Kovács et al.30
diano de trabalho dos maqueiros se expressa pe- ao abarcarem essa questão, afirmam que o tempo
los corpos em constante movimento no hospital, no serviço auxilia nas formas de enfrentamento
pelos vínculos que se constroem e pelos afetos das experiências vividas, porém não os protege
que os atravessam nesse trabalhar em constante de todas as situações, por isso a importância de
trânsito. espaços em que se possa falar sobre os efeitos de
De acordo com Freud27 a transitoriedade lidar com a concretude da morte para cada um30.
é compreendida enquanto o destino de todas O trabalhar em contato com a transitoriedade da
as coisas visto a finitude da existência humana. vida, não ocorre de modo linear, não é algo que
Apesar da certeza da transitoriedade, por vezes, se aprende a fazer e daqui para frente segue “de-
revoltamo-nos contra o fim. Para Maranhão28 e safetado”. Na vida, há inconstâncias que devem
Rodrigues29, nossa sociedade se relaciona com a ser olhadas com atenção:
morte considerando-a uma interdição, algo ino- Depois que eu perdi um parente, no final de
minável, um tabu. Com isso, há uma tentativa de dezembro, eu voltei a sentir e dói muito. Fazia
colocarmos a morte como algo distante de nós tempo que eu não perdia alguém, em dezembro eu
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qualquer discussão era motivo de morte. Conta vai chorar junto? Se o cara desmaiar, ficar emo-
que viu muitos amigos morrerem, enquanto ou- cionado, passar mal, quem é que vai segurar o
tros entravam para a milícia. A história contada cara?”.
por Guilherme nos indica as situações de violên- Após acompanhar o transitar dos maquei-
cia as quais estão submetidos, cotidianamente, os ros nesse cortejo, notamos que as palavras, os
trabalhadores que residem nas periferias do Rio gestos e narrativas expressas por eles marcam a
de Janeiro, assim como aponta para a necessidade constância com que estes trabalhadores são con-
de investigarmos quais os efeitos simbólicos des- frontados com a transitoriedade da vida, seja no
te trabalho em contato com a morte. trabalho ou no dia a dia fora dele. Consideramos
A vivência em contextos marcados pela vio- que o afeto e o vínculo solidificam o “fazer” di-
lência é também explicitada na resposta de outro ário, encorajam os “enfrentamentos” e a criação
maqueiro com pouco mais de vinte anos. Quan- de “novas normas” no cotidiano de trabalho dos
do questionado sobre como é trabalhar em con- maqueiros.
tato tão próximo com a morte, ele responde que
não se afetava muito, pois já presenciou outros
“corpos mortos no chão da favela”, localizada Considerações finais
próxima ao hospital. Outro exemplo que susci-
tou questionamentos sobre os atravessamentos Apesar da complexidade existente no processo
da violência vivida no território e suas relações de trabalho dos maqueiros durante a pandemia
com os sentidos sobre morte, foi a história con- e sua importância para o funcionamento do hos-
tada por Márcio sobre o trabalho no hospital pital, constatamos que esses trabalhadores estão
durante o início da pandemia de COVID-19. Ao expostos a situações de vulnerabilidade e invi-
perguntá-lo sobre ter sentido medo nessa época, sibilidade institucionais e sociais, tais como: a
ele responde: inexistência de prescrições precisas, de espaços
Não fiquei com medo não, eu já passei por coisa de formação/capacitações, de padronizações de
pior [...] ver gente morrendo assim toda hora, aqui- registros trabalhistas e de instâncias representa-
lo lá pra mim era normal só ficava com medo de tivas especificas, além do trabalho em constante
levar isso pra casa [...]. Aqui é o Rio de Janeiro pai, contato com a morte.
nego morre na esquina, nego morre cortado, nego A invisibilização dos efeitos subjetivos rela-
morre na fogueira, é foda rapaz [risos] (Márcio). cionados ao trabalhar com a morte marca a ne-
O modo cômico em que Márcio relatou um cessidade de instituir espaços, onde os maquei-
cotidiano extremamente duro e violento, assim ros possam falar sobre seus sentimentos em lidar
como a brincadeira feita por Lucas no necroté- cotidianamente com a morte, como estratégia de
rio, pode estar relacionado com o que Fazzioni33 promoção de saúde no trabalho. Nesse ir e vir
explica sobre a imersão em ambientes violentos carregando vidas e mortes, a criação de vínculos
poder “ocasionar riso, mas, igualmente, medo”. A no cotidiano de trabalho apareceu como um im-
autora explica que ao fazer piada sobre a dureza portante elemento de enfrentamento às durezas
cotidiana explicita-se não a naturalização dessa do trabalho como maqueiro.
realidade, mas pelo contrário, uma possibilidade Durante a pesquisa, não realizamos uma aná-
para expressar e extravasar a tensão33. lise interseccional (classe, raça e gênero) para re-
Além disso, ao olharmos mais de perto este fletir sobre o trabalho realizado pelos maqueiros,
cotidiano de trabalho, pudemos notar que o sendo este um dos limites do estudo. Acredita-
modo aparentemente “naturalizado” em relação mos que seria importante em pesquisas futuras
à morte, recorrente na fala dos maqueiros, pode compreender como o gênero, a expressão da
sinalizar aspectos relacionados à necessidade de masculinidade e o racismo institucional se arti-
continuar a realizar suas atividades dia após dia, culam com os processos subjetivos e de saúde no
como nos diz Rodolfo: “Se o familiar chorar, tu trabalho dos maqueiros.
2865
LM Araujo participou integralmente das ativida- 1. Teixeira CFS, Soares, CM, Souza EA, Lisboa ES, Pinto,
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des de campo, da análise de dados e da redação
fissionais de saúde no enfrentamento da pandemia de
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