Saúde Digital e Seus Impactos No Acesso À Atenção Primária Por Grupos Minoritários: Revisão Sistemática
Saúde Digital e Seus Impactos No Acesso À Atenção Primária Por Grupos Minoritários: Revisão Sistemática
Como citar Silva GOL, Fernandes GR, Rocha JC, Aguilar GT, Lottici ID, Dode AD, et al. Saúde digital e seus impactos no acesso à aten-
ção primária por grupos minoritários: revisão sistemática. Rev Panam Salud Publica. 2025;49:e96. [Link]
RPSP.2025.96
RESUMO Objetivo. Identificar na literatura intervenções digitais aplicadas no contexto da atenção primária à saúde
(APS) e avaliar seus impactos no acesso à saúde por grupos populacionais minoritários.
Métodos. Realizou-se uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados que avaliaram intervenções
digitais no contexto da APS, tendo o acesso à saúde como desfecho principal. A busca foi realizada nas
bases PubMed, Scopus e LILACS até janeiro de 2025, sem restrições quanto a idioma, país ou ano. As inter-
venções foram ainda analisadas segundo o modelo PROGRESS-Plus para identificar os marcadores sociais
de vulnerabilidade contemplados nos estudos.
Resultados. Foram incluídos seis estudos, todos realizados nos Estados Unidos, que enfocaram popula-
ções com vulnerabilidade de raça (pessoas negras, hispânicas/latinas), sexo (mulheres), nível de educação
(pessoas com baixa escolaridade) e nível socioeconômico (indivíduos de baixa renda). A maioria dos partici-
pantes (adultos com idade de 30 a 60 anos) apresentavam sobrepeso/obesidade e comorbidades crônicas.
Em todos os estudos, as soluções digitais foram integradas a práticas interprofissionais, envolvendo nutri-
cionistas, enfermeiros, farmacêuticos, médicos e/ou psicólogos, e foram bem-sucedidas em melhorar os
desfechos clínicos e ampliar o acesso à saúde. Entretanto, foram relatadas barreiras de letramento digital
e em saúde, assim como dificuldades no uso de recursos digitais, especialmente entre participantes com
menor escolaridade.
Conclusão. Transformar em equidade o potencial das intervenções digitais exige superar barreiras como
letramento limitado, baixa conectividade e desigualdade social, por meio de intervenções com desenho par-
ticipativo e políticas públicas orientadas por princípios de justiça social.
Palavras-chave Disparidades nos níveis de saúde; telemedicina; saúde digital; atenção primária à saúde; acessibilidade aos
serviços de saúde.
As iniquidades no acesso à saúde, definidas como desigual- de recursos, a concentração de profissionais e a infraestrutura
dades evitáveis e injustas causadas por fatores socioambientais precária limitam tanto a oferta quanto o uso efetivo dos servi-
(1, 2), permanecem entre os principais desafios enfrentados ços (3-5). Essas desigualdades impactam grupos historicamente
pelos sistemas de saúde globalmente, especialmente em paí- marginalizados (indígenas, negros, pessoas com deficiên-
ses de baixa e média renda. Nessas regiões, a má distribuição cia, população em situação de rua, privados de liberdade,
1
Hospital Moinhos de Vento, Departamento de Responsabilidade 2
Universidade de São Paulo, Faculdade de Saúde Pública, São Paulo (SP), Brasil.
Social, Porto Alegre (RS), Brasil. Gabriela de Oliveira Laguna Silva, 3
Hospital Moinhos de Vento, Departamento de Saúde Digital, Porto Alegre
[Link]@[Link] (RS), Brasil.
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LGBTQIAPN+ e moradores de áreas rurais ou periféricas), las, pessoas privadas de liberdade ou egressos do sistema
resultando em maiores taxas de morbimortalidade e menor prisional;
acesso a serviços essenciais (4-6). • Intervenção: intervenções digitais em saúde (síncronas ou
No Brasil, a atenção primária à saúde (APS) é o eixo central assíncronas);
do Sistema Único de Saúde (SUS), estruturado com base nos • Comparação: atendimento presencial;
princípios de universalidade, integralidade e equidade com • Desfecho: acesso à saúde;
vistas a ampliar o acesso à saúde e garantir o cuidado contí- • Tipo de estudo: ensaios clínicos randomizados.
nuo (7, 8). Embora os marcos legais do SUS reconheçam a saúde
como direito de todos e dever do Estado, aspectos que devem A revisão sistemática seguiu as diretrizes PRISMA-Equity
ser concretizados mediante políticas sociais e econômicas (9, (20). O protocolo foi registrado na plataforma PROSPERO
10), a cobertura e a qualidade dos serviços ainda apresentam (CRD42024581305) e publicado na plataforma medRxiv (21),
variações significativas entre as regiões, refletindo a escassez e assegurando a transparência e a reprodutibilidade metodológica.
a má distribuição de profissionais, bem como a precariedade A busca de artigos foi realizada nas bases MEDLINE (Pub-
da infraestrutura local (6, 8, 11). Por seu papel como porta de Med), Scopus e LILACS, combinando descritores controlados
entrada e articuladora do cuidado, a APS desempenha um e termos livres relacionados à saúde digital, APS, populações
papel central na redução dessas desigualdades (5, 8). Nesse minoritárias e iniquidades em saúde, com operadores boole-
contexto, as ferramentas digitais de saúde emergem como anos. A estratégia completa de busca pode ser consultada no
estratégias complementares à APS, sobretudo em cenários com protocolo do estudo (21). A busca foi concluída em 31 de janeiro
escassez de infraestrutura e dificuldade de acesso aos serviços de 2025. Adicionalmente, as referências dos estudos incluídos
(11-14), alinhando-se à Estratégia Global de Saúde Digital da foram examinadas manualmente em busca de estudos relevan-
Organização Mundial da Saúde (OMS), que reconhece o poten- tes não capturados nas bases eletrônicas. Não houve restrições
cial das tecnologias digitais para fortalecer os sistemas de saúde quanto a ano, idioma ou país. Foram excluídos literatura cin-
e promover o acesso universal (15). zenta, artigos retratados, cartas, artigos de revisão e estudos
Os recursos digitais — como sistemas de telemedicina, apli- que não tinham o acesso à saúde como desfecho principal.
cativos móveis, plataformas educacionais em saúde, mensagens
de texto, chamadas automatizadas e redes sociais digitais vol- Seleção dos estudos
tadas ao cuidado — vêm sendo utilizados para aumentar a
cobertura, apoiar a longitudinalidade do cuidado e promover A seleção dos estudos ocorreu em duas etapas, incluindo
o autocuidado, especialmente em populações com acesso res- triagem de títulos/resumos e leitura completa, e foi realizada
trito aos serviços presenciais (16, 17). Além disso, a integração por dois grupos de revisores independentes (ADD, IDL, GRF
de recursos digitais tem demonstrado eficácia na promoção da e MEVC; e GOLS, GTA e JCR) na plataforma Rayyan (22), com
equidade, ao possibilitar que grupos socialmente vulneráveis avaliação cega. A resolução de divergências foi feita por con-
acessem serviços de saúde com maior qualidade e continui- senso ou pela consulta a outro revisor (TCM). Duplicatas foram
dade (18, 19). No entanto, a implementação da saúde digital removidas automaticamente e complementadas por verificação
na América Latina ainda enfrenta desafios, como infraestrutura manual. O fluxo de seleção foi documentado conforme o dia-
tecnológica insuficiente, necessidade de capacitação, regu- grama PRISMA 2020 (23).
lamentação limitada e desigualdades socioeconômicas, que
podem intensificar exclusões já existentes (19). Extração dos dados e avaliação do risco de viés
Compreender como as iniquidades afetam populações histori-
camente excluídas e de que modo as estratégias digitais podem A extração de dados foi feita independentemente por dois
contribuir para superá-las é essencial. Apesar do crescente uso de grupos de revisores (ADD, IDL, GRF e MEVC; e GOLS, GTA,
tecnologias digitais na APS (14), poucos estudos analisam como JCR e TCM) usando um formulário padronizado que incluiu:
essas intervenções abordam determinantes sociais da exclusão país, ano, população-alvo, tipo de intervenção digital, caracte-
em saúde (13). A ausência de abordagens interseccionais — que rísticas do serviço da APS onde a intervenção foi conduzida,
considerem fatores como raça, gênero, classe e território — com- desfechos de acesso/equidade e resultados. Adicionalmente,
promete o potencial dessas ferramentas para promover acesso cada estudo foi avaliado quanto à presença ou abordagem das
equitativo (17). Considerando o potencial das tecnologias em dimensões de equidade descritas na estratégia PROGRESS-Plus,
saúde, esta revisão sistemática teve como objetivo identificar as de modo a mapear quais marcadores sociais de vulnerabilidade
intervenções digitais aplicadas na APS descritas na literatura e foram contemplados para a caracterização da amostra, desenho
avaliar seus impactos no acesso à saúde por grupos minoritários. da intervenção e/ou análise dos resultados nas estratégias digi-
tais implementadas na APS. As dimensões de vulnerabilidade/
MATERIAIS E MÉTODOS equidade da PROGRESS-Plus incluem: local de residência,
raça/etnia, cultura e idioma, ocupação, gênero e/ou sexo,
Realizou-se uma revisão sistemática para responder à religião, nível educacional, status socioeconômico e capital
seguinte pergunta: o uso de tecnologias digitais amplia o acesso social — entendido como redes de relacionamento e/ou apoio
à saúde para populações minoritárias em comparação ao aten- interpessoal que influenciam o acesso a recursos sociais e de
dimento presencial? Essa pergunta foi desdobrada do seguinte saúde. O componente “Plus” abrange fatores adicionais, como
modo, conforme o esquema PICOS (20): características pessoais associadas à discriminação (por exem-
plo, idade ou deficiências), aspectos relacionais (relações que
• População: indígenas, LGBTQIAPN+, pessoas em situ- agravam situações de exclusão, como ausência de apoio fami-
ação de rua, pessoas com deficiência, negros, quilombo- liar, negligência, abandono, pais fumantes ou convivência com
FIGURA 1. Seleção de estudos na revisão sistemática sobre saúde digital e acesso de grupos minoritários à atenção primária
Identificação
Registros identificados de:
PubMed (n = 311) Registros removidos antes da triagem:
Scopus (n = 356) Registros duplicados removidos (n = 285)
LILACS (n = 255)
Registros selecionados
Registros excluídos (n = 636)
(n = 648)
Triagem
Relatórios excluídos:
Relatórios avaliados para
Não era ensaio clínico randomizado (n = 1)
elegibilidade
Não era com população minoritária (n = 3)
(n =12)
Não era em atenção primária à saúde (n = 2)
Inclusão
comportamentos de risco) e situações temporárias de vulne- FIGURA 2. Avaliação do risco de viés dos estudos incluídos
rabilidade (24). Cada estudo foi avaliado quanto à presença na revisão sistemática sobre saúde digital e acesso de grupos
explícita dessas dimensões na caracterização da amostra, na minoritários à atenção primária
estrutura da intervenção e/ou na análise dos resultados, per-
Identificação do estudo D1 D2 D3 D4 D5 Geral
mitindo mapear quais marcadores sociais de vulnerabilidade
foram contemplados pelas estratégias digitais voltadas ao Steinberg et al., 2014 (25) ! ! + + + !
acesso á saúde na APS. Sarkar et al., 2024 (26) ! + + + ! !
O risco de viés foi avaliado pela ferramenta Risk of Bias 2
(RoB 2) (25, 26), abrangendo cinco domínios: randomização, Gerber et al., 2023 (27) + + + + ! +
desvios da intervenção, dados ausentes, mensuração do des- Foley et al., 2016 (28) + + – – ! –
fecho e seleção dos resultados. Cada domínio foi classificado
conforme os algoritmos da ferramenta (“baixo risco”, “algumas Carter et al., 2011 (29) ! – + – – –
preocupações” ou “alto risco de viés”). Bennett et al., 2013 (30) ! + + + ! !
A busca identificou 933 registros, dos quais 648 perma- + Alto risco
neceram para triagem após a remoção de duplicatas. Após a
leitura de títulos e resumos, 12 artigos foram avaliados na D1 Processo de randomização
íntegra, resultando em seis estudos incluídos na síntese final D2 Desvios das intervenções pretendidas
D3 Dados de resultados ausentes
(figura 1). Os seis estudos incluídos (27-32), publicados entre
D4 Medição do resultado
2011 e 2024, foram conduzidos nos Estados Unidos da América D5 Seleção do resultado relatado
e enfocaram populações negras, latinas/hispânicas e indiví-
duos em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Apenas
um estudo teve baixo risco de viés (figura 2). Três apresenta- Intervenções e desfechos dos estudos
ram algumas limitações e dois foram classificados como de alto
risco. As principais limitações foram: descrição incompleta da As intervenções analisadas combinaram estratégias síncro-
randomização, ausência de cegamento, tratamento inadequado nas e assíncronas voltadas ao manejo de condições crônicas
de dados ausentes e relato seletivo de desfechos. Informações em populações em situação de vulnerabilidade. As tecnolo-
detalhadas sobre a busca, seleção e extração de dados estão dis- gias empregadas incluíram chamadas automatizadas com
poníveis no Material Suplementar, que pode ser solicitado ao resposta interativa por voz (IVR), mensagens de texto moti-
autor correspondente. vacionais, módulos educativos on-line, teleconsultas com
profissionais de saúde e redes sociais virtuais entre partici- misto urbano-rural (30) e um em contexto geográfico não
pantes. Em todos os estudos, essas soluções digitais foram especificado (32). Nenhum avaliou a influência do local de resi-
integradas a práticas interprofissionais, envolvendo nutricio- dência no acesso à saúde ou às tecnologias digitais em saúde.
nistas, enfermeiros, farmacêuticos, médicos e/ou psicólogos,
compondo modelos de cuidado que articulam tecnologia e Raça/etnia/cultura/língua
suporte humano qualificado. Os detalhes de cada intervenção
são apresentados na tabela 1, enquanto as principais caracte- A dimensão raça/etnia foi abordada em todos os estudos. As
rísticas metodológicas e demográficas, bem como os domínios intervenções envolveram indivíduos negros e latinos/hispâni-
de equidade mapeados pelo modelo PROGRESS-Plus, apare- cos, populações que muitas vezes enfrentam barreiras sistêmicas
cem na tabela 2. O domínio religião do PROGRESS-Plus não no acesso à saúde. Dois estudos (29, 32) consideraram o idioma
foi abordado em nenhum estudo. Os domínios abordados são como critério de elegibilidade, mas sem aprofundar barreiras
descritos a seguir. linguísticas como fator de desigualdade.
Todos os estudos incluídos foram conduzidos nos Estados Três estudos incluíram dados sobre ocupação: Steinberg
Unidos: quatro em contexto urbano (27-29, 31), um em contexto et al. (27) observaram que 71,4% das participantes do grupo
TABELA 1. Síntese dos estudos incluídos na revisão sistemática sobre saúde digital e acesso de grupos minoritários
à atenção primáriaa,b
Referência Ferramenta digital Profissionais Desfecho principal Resultado geral do estudo PROGRESS-Plus
utilizada envolvidos avaliado
Steinberg et al., 2014 (27) IVR + aplicativo móvel Nutricionistas Mudança de peso e Correlação significativa entre A adesão ao IVR foi maior entre
(health coaches) redução de IMC a adesão às chamadas IVR participantes de maior idade e escolaridade.
e a perda de peso e redução Ainda assim, a intervenção foi eficaz
do IMC mesmo nas mulheres com baixa renda e
baixa escolaridade, superando barreiras
econômicas e ampliando o autocuidado.
As participantes consideraram o IVR fácil
de usar e compatível com sua rotina,
indicando boa aceitação apesar da baixa
literacia digital.
Sarkar et al., 2024 (28) Teleconsultas Médicos Controle da pressão Maior proporção de A intervenção por teleconsulta mostrou-se
(monitoramento arterial pacientes com pressão eficaz mesmo entre os participantes em
domiciliar) arterial controlada e níveis pior situação socioeconômica, superando
tensionais melhores no barreiras de custo e ampliando o acesso
grupo intervenção ao cuidado.
Gerber et al., 2023 (29) Teleconsultas + ligações Farmacêuticos Redução de HbA1c Redução significativa de A intervenção via mHealth foi eficaz em
telefônicas + SMS HbA1c no grupo intervenção uma população majoritariamente negra e
(–1,4% vs. –0,6% no latina, com baixa renda e escolaridade e
controle) alta vulnerabilidade social, contribuindo
para reduzir disparidades no controle do
diabetes tipo 2.
Foley et al., 2016 (30) IVR + SMS + Nutricionistas e Mudança de peso Redução média estimada de A intervenção remota foi eficaz para
teleconsultas psicólogos 2,8 kg em 12 meses no grupo promover perda de peso em uma
intervenção população com múltiplas comorbidades,
baixa renda, baixa escolaridade e alto
risco social, demonstrando viabilidade e
potencial para ampliar o acesso em grupos
em situação de vulnerabilidade.
Carter et al., 2011 (31) Plataforma on-line Enfermeiros Redução de HbA1c, Associação significativa da A intervenção digital foi eficaz na
(módulos, vídeos) + pressão arterial e IMC intervenção com manter população afro-americana de baixa renda e
rede social privada + HbA1c ≤ 7% e manter um escolaridade, com múltiplas comorbidades,
teleconsulta IMC saudável. Contudo, não superando barreiras econômicas e
foi encontrada correlação da estruturais e melhorando o controle
intervenção com manter a glicêmico e o autocuidado.
pressão arterial em 130/80
Bennett et al., 2013 (32) Ligações telefônicas Nutricionistas Mudança de peso e Maior perda de peso e A intervenção digital remota foi eficaz em
automatizadas redução de IMC redução de IMC no grupo mulheres negras atendidas em centros
(coaching) intervenção com manutenção comunitários, demonstrando viabilidade
da mudança após 18 meses para expandir o acesso a cuidados
preventivos nessa população.
a
As intervenções foram síncronas e assíncronas em todos os estudos, exceto no de Sarkar et al. (28), que utilizaram apenas a modalidade síncrona.
b
HbA1c: marcador laboratorial que reflete os níveis médios de glicose no sangue nos últimos 2 a 3 meses; IMC: índice da massa corporal; IVR: interactive voice response – sistema automatizado de resposta por voz utilizado em
chamadas telefônicas. No contexto das intervenções em saúde digital, o IVR permite que os participantes interajam com menus de áudio usando comandos de voz ou teclado telefônico. Esses sistemas são programados para fornecer
lembretes, orientações de saúde, mensagens motivacionais e coleta de dados autorreferidos, sem a necessidade de interação com um profissional humano em tempo real.
TABELA 2. Características dos estudos incluídos na revisão sistemática sobre saúde digital e acesso de grupos minoritários à
atenção primáriaa
Por sua vez, Gerber et al. (29) abordaram o apoio social reforçam o potencial das tecnologias digitais, quando integra-
como parte da intervenção. Nesse estudo, health coaches — das ao cuidado interprofissional, para promover práticas de
profissionais capacitados para oferecer suporte psicossocial, cuidado contínuo e centrado no usuário, mesmo em popula-
motivacional e orientação comportamental — atuaram de ções tradicionalmente excluídas dos serviços presenciais (34).
forma remota como rede de apoio construída pela própria Entretanto, observam-se lacunas na integração de múltiplas
intervenção digital, com o objetivo de superar barreiras como dimensões de vulnerabilidade social e exclusão digital. Nos
insegurança alimentar e baixo letramento em saúde, além de estudos analisados, marcadores sociais como raça e renda foram
facilitar o acesso aos serviços. considerados isoladamente, sem abordar interações entre dife-
rentes determinantes sociais (34-36). Mesmo nas intervenções
Características pessoais associadas a voltadas a mulheres negras de baixa renda, grupo situado na
discriminação, aspectos de relacionamento e intersecção de múltiplas dimensões de exclusão social, os mar-
relações tempo-dependentes cadores serviram apenas como critérios de inclusão, sem análise
interseccional crítica (36-39). Essa ausência de uma abordagem
Os estudos descreveram múltiplas camadas de vulnerabi- interseccional limita a capacidade das tecnologias digitais de res-
lidade social, clínica e psicossocial entre os participantes. As ponder adequadamente às experiências vividas por pessoas com
populações eram compostas por adultos com idade de 30 a 60 múltiplas desvantagens sociais. A teoria da interseccionalidade
anos, majoritariamente com sobrepeso/obesidade e comorbi- destaca que sistemas de desigualdade, como racismo, sexismo
dades crônicas. Três estudos (29–31) enfocaram pacientes com e classismo, se entrelaçam, gerando experiências singulares fre-
diabetes tipo 2 não controlado (HbA1c elevada), hipertensão quentemente invisibilizadas por análises unidimensionais (36,
e outras doenças crônicas, com destaque para a presença de 37). Mesmo que os estudos não tenham explorado diretamente
multimorbidades e para a complexidade do cuidado. Duas os conceitos de exclusão ou justiça digital, a análise de suas limi-
intervenções (27,32) foram direcionadas exclusivamente a tações permite inferir que, ao não considerar esses aspectos, as
mulheres negras de baixa renda e baixa escolaridade. Sintomas intervenções digitais, além de ineficazes, podem reforçar padrões
depressivos e vulnerabilidades psicossociais foram menciona- pré-existentes de desigualdade e marginalização (2, 8, 39-41).
dos em cinco estudos (27, 29–32), porém sem detalhamento dos Barreiras de comunicação e de letramento, tanto em saúde
métodos de avaliação ou análise da relação com determinantes quanto digital, também foram frequentes. A exigência de flu-
sociais. Em três estudos (29–31), baixo letramento em saúde, ência em inglês como critério de elegibilidade, por exemplo,
barreiras linguísticas e dificuldades tecnológicas limitaram o excluiu potenciais beneficiários — pessoas que não dominam o
engajamento nas intervenções, especialmente entre participan- idioma, como imigrantes latino-americanos, refugiados e indiví-
tes com menor escolaridade ou fluência digital, embora esses duos com baixa escolaridade, justamente grupos que enfrentam
fatores não tenham sido avaliados sistematicamente como barreiras estruturais no acesso à saúde e que demandam maior
variáveis associadas aos desfechos. Por fim, os participantes suporte institucional. Ao invés de promover equidade, tal exi-
foram recrutados em clínicas públicas comunitárias voltadas gência limita o alcance das intervenções digitais àqueles que já
ao atendimento de populações de baixa renda, frequentemente têm condições mínimas de letramento e fluência, deixando de
vinculadas a programas públicos de assistência (29, 31, 32). contemplar os que também precisam de estratégias inclusivas
e adaptadas (29, 32). Dificuldades no uso de recursos digitais
DISCUSSÃO foram relatadas, especialmente entre participantes com menor
escolaridade (30, 31), indicando que limitações de letramento
A presente revisão sistemática identificou, na literatura funcional e digital podem comprometer a adesão e a efetividade
científica, seis publicações que descreveram ensaios clínicos dessas estratégias (42, 43). Tais barreiras reforçam a necessidade
randomizados envolvendo intervenções digitais voltadas para de tornar as tecnologias em saúde não apenas tecnicamente
grupos vulnerabilizados na APS. Todos esses estudos foram acessíveis, mas também adaptadas às capacidades comunicati-
conduzidos nos Estados Unidos, um país de alta renda, com vas, cognitivas e culturais dos usuários (19).
sistema de saúde majoritariamente privado, e tiveram foco em A saúde digital tornou-se prioridade estratégica tanto para
populações com características específicas de vulnerabilidade agências multilaterais, como a OMS, quanto para governos
— raça (pessoas negras, hispânicas/latinas), sexo (mulhe- nacionais, culminando na Estratégia Global de Saúde Digital
res), nível de educação (pessoas com baixa escolaridade) e (2020–2025), que recomenda soluções equitativas e sustentá-
nível socioeconômico (indivíduos de baixa renda). Apesar da veis com foco em interoperabilidade, governança de dados e
heterogeneidade nos formatos e abordagens, os estudos conver- fortalecimento dos usuários (15). A literatura recente aponta
giram em objetivos relacionados à promoção do autocuidado crescimento acelerado da produção científica em saúde digital,
supervisionado, ao monitoramento remoto de parâmetros clí- especialmente nos últimos 5 anos, impulsionado por avanços
nicos e ao apoio comportamental personalizado. Esses modelos como inteligência artificial, big data e machine learning, consoli-
demonstraram potencial para melhorar desfechos clínicos espe- dando-se como pilar dos sistemas de saúde (42). Contudo, sua
cialmente em contextos de disparidade na APS — como reduzir implementação deve considerar os caminhos por onde as desi-
a hemoglobina glicada (29, 31), controlar a pressão arterial (28), gualdades se manifestam e se perpetuam (39, 41). Para evitar
perder peso (30, 32) e ampliar a adesão ao autocuidado (27). a marginalização de grupos vulnerabilizados, é fundamental
Os achados são particularmente significativos quando se consi- que as estratégias digitais evoluam junto ao cenário tecnoló-
dera a inclusão nos estudos de pessoas com multimorbidades, gico, garantindo que os benefícios da inovação alcancem todos,
que frequentemente enfrentam dilemas complexos ao priorizar sem aprofundar disparidades existentes (43, 44). Esse potencial
cuidados de saúde em contextos de restrição financeira, o que só será alcançado com intervenções desenhadas sob perspec-
pode agravar ainda mais as desigualdades (33). Tais resultados tiva crítica dos determinantes sociais da saúde e abordagem
interseccional, reconhecendo o acúmulo e interação de diferen- de 10 anos (27, 30-32), demonstrando a baixa inclusão dos fato-
tes camadas de exclusão (38, 39, 41, 45). res de iniquidade, mesmo diante do aumento exponencial de
Experiências internacionais sugerem estratégias para enfren- publicações em saúde. Por fim, existe a possibilidade de exclu-
tar esses desafios. No Reino Unido, o National Health Service são de estudos relevantes devido a limitações nas estratégias de
(NHS) desenvolveu o modelo Inclusive Digital Healthcare busca e no número de bases de dados consultadas, o que tam-
(46), que orienta ações para reduzir desigualdades digitais, bém deve ser considerado ao avaliar o escopo dos resultados.
incluindo plataformas de telessaúde com suporte multilíngue, Em conclusão, a presente revisão sistemática sugere que
integração entre serviços digitais e presenciais e iniciativas para intervenções digitais implementadas no âmbito da APS têm o
populações em situação de rua, migrantes e pessoas de baixa potencial para melhorar os desfechos clínicos e ampliar o acesso
renda. No Canadá, programas de telessaúde foram co-desenha- à saúde em populações vulnerabilizadas, especialmente quando
dos com comunidades indígenas, adaptando tanto ferramentas integradas a modelos de cuidado interprofissionais. No entanto,
tecnológicas quanto processos de cuidado, respeitando bar- transformar esse potencial em equidade exige superar barreiras
reiras linguísticas, culturais e desafios locais de conectividade como letramento limitado, baixa conectividade e desigualdade
(47). Esses exemplos demonstram que promover equidade social, por meio de intervenções com desenho participativo e
em saúde digital exige mais do que acesso físico à tecnologia: políticas públicas orientadas por princípios de justiça social. A
requer estratégias que atuem sobre os determinantes sociais da aplicação de abordagens como o PROGRESS-Plus pode facilitar
exclusão digital e garantam sistemas inclusivos, responsivos e o mapeamento de vulnerabilidades e prevenir novas exclusões
culturalmente sensíveis (48, 49). no processo de digitalização do cuidado.
Para a APS, o desafio não está apenas em ampliar o uso de Recomenda-se que futuros estudos considerem diferentes
tecnologias, mas em garantir que elas funcionem como ferra- contextos sociais e territoriais, especialmente em países de
mentas de equidade em saúde. Intervenções digitais podem média e baixa renda, e adotem metodologias capazes de captar
gerar ganhos concretos de saúde e inclusão quando desenha- a complexidade das exclusões sociais. É fundamental desenvol-
das de forma colaborativa e culturalmente sensível (36, 43, ver estratégias de saúde digital com foco explícito em equidade
44). Quando adaptadas às realidades locais, essas ações não para que os avanços tecnológicos promovam o fortalecimento
apenas facilitam o uso da tecnologia, mas também reforçam a da APS e a redução das desigualdades em saúde.
APS como espaço de acolhimento e cuidado centrado nas pes-
soas. Promover equidade em saúde digital requer mais do que Contribuição dos autores. GOLS e MEVC conceberam o
acesso: demanda um ecossistema de suporte e compromisso estudo, participaram do delineamento, análise dos dados, inter-
contínuo com a justiça social e com o fortalecimento do cuidado pretação dos resultados e redação do manuscrito. GRF, GTA,
primário em todos os seus territórios. IDL, JCR e ADD contribuíram com a investigação, extração de
Esta revisão apresenta algumas limitações que devem ser dados, interpretação dos resultados e revisão do manuscrito.
consideradas na interpretação dos achados. Todos os estudos TCM e FCC supervisionaram o projeto e contribuíram com a
incluídos foram conduzidos nos Estados Unidos, um país de administração e revisão final. Todos os autores aprovaram a
alta renda, o que restringe a generalização dos resultados para versão final.
contextos de média e baixa renda, bem como para realidades
com sistemas universais de saúde e diferentes condições sociais Agradecimentos. Agradecemos a Francieli Ariane Lehnen
e tecnológicas. O sistema de saúde dos Estados Unidos é pre- Muck, bibliotecária da FAMED/UFRGS, pelo seu apoio na
dominantemente baseado em seguros privados, com acesso busca de literatura; e a Bruna Silveira da Rosa, estatística do
condicionado à capacidade de pagamento ou à cobertura de Núcleo de Apoio à Pesquisa no Instituto de Pesquisa do Hospi-
planos, em contraste com os princípios de universalidade, inte- tal Moinhos de Vento, pela contribuição nas análises.
gralidade e equidade que orientam sistemas públicos como o
SUS. Essa diferença impactou tanto o desenho das interven- Conflitos de interesse. Nada declarado pelos autores.
ções quanto a interação dos usuários com os serviços digitais,
dificultando a transposição direta dos resultados para sistemas Financiamento. Ministério da Saúde do Brasil, por meio do
baseados na atenção primária. Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sis-
Adicionalmente, embora os elementos do PROGRESS-Plus tema Único de Saúde (PROADI-SUS).
tenham orientado a análise das desigualdades, eles não foram
utilizados intencionalmente no desenho das intervenções. Declaração. As opiniões expressas no manuscrito são de
Assim, a leitura interseccional apresentada nesta revisão foi responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem neces-
construída a partir das informações disponíveis nos artigos. sariamente a opinião ou política da RPSP/PAJPH ou da
Entre os estudos incluídos, quatro foram publicados há mais Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
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Digital health and its impacts on the access of minority groups to primary
care: a systematic review
ABSTRACT Objective. To identify digital interventions applied in the context of primary health care (PHC) and assess their
impact on access to health care by minority population groups.
Methods. We performed a systematic review of randomized clinical trials evaluating digital interventions in
PHC settings, with health care access as the primary outcome. Searches were carried out in the PubMed, Sco-
pus, and LILACS databases up to January 2025, with no restrictions regarding language, country, or year. The
interventions were further analyzed using the PROGRESS-Plus framework to identify the social vulnerability
markers addressed in the studies.
Results. Six studies were included, all conducted in the United States, focusing on populations vulnerable due
to race (Black and Hispanic/Latino individuals), gender (women), education level (individuals with low educa-
tional attainment), and socioeconomic status (low-income individuals). Most participants (adults aged 30 to 60
years) were overweight or obese and had chronic comorbidities. In all studies, digital solutions were integrated
into interprofessional practices involving dietitians, nurses, pharmacists, physicians, and/or psychologists,
and were successful in improving clinical outcomes and expanding access to care. However, barriers related
to digital and health literacy were reported, as well as difficulties using digital tools, particularly among partici-
pants with lower educational levels.
Conclusion. Realizing the equity potential of digital interventions requires overcoming barriers such as limited
literacy, low connectivity, and social inequality through participatory design approaches and public policies
guided by principles of social justice.
Keywords Health status disparities; telemedicine; digital health; primary health care; health services accessibility.
Palabras clave Disparidades en el estado de salud; telemedicina; salud digital; atención primaria de salud; accesibilidad a
los servicios de salud.