Irish Wells, era loura, linda, de rosto ameninado, e porte esbelto e espigado.
Antes de sair de Monterrey em busca de
seu pai, cortara os cabelos como rapaz e, tanto por sua maneira de vestir como pelos gestos, tentava assemelhar-se a
um jovem, coisa que conseguira após alguns dias. Irish já completara os vinte e dois anos, e era de temperamento
resoluto. Esses dois fatores tinham-lhe auxiliado a parecer um representante do sexo oposto, imberbe e por volta de
dezessete anos. Trabalhara muito em sua granja de Monterrey até bem pouco, enquanto a possuíra. O trabalho deixara
seu corpo vigoroso, tornando as palmas das mãos um tanto calejadas. A mãe de Irish morrera repentinamente pouco
antes, e a linda jovem, ao ficar sozinha, vendera a granja para ir à procura do pai, de quem tivera notícias há algum
tempo. Sammy Wells ultimamente seguira o destino dos procuradores de ouro, já farto de trabalhar em sua granja de
Monterrey, sem sair daquela vida de mediocridade. Na última carta, mandava dizer que estava bem perto de conseguir
o que sonhara, e que logo voltaria coberto de ouro. 4 A mãe de Irish não tivera tempo de ler a carta, pois morrera antes
de sua chegada. Se a tivesse lido, obrigaria Irish a jurar que não se afastaria de Monterrey. A pobre mulher conhecia
bem a filha que tinha, sabendo que herdara o mesmo temperamento aventureiro, decidido e sonhador do pai. Foi tal
circunstância que levou Irish a acharse naquele momento a muitos quilômetros de distância de sua cidade natal, do que
fora seu lar, sozinha no pequeno acampamento que levantara às margens do Kern River. A jovem ia acender o fogo para
fazer café. Seu cavalo pastava na abundante relva que crescia por ali. A vigilância do acampamento, como sempre, fora
confiada a seu fiel cão "Silver". Subitamente, o animal ficou de pé e mostrou os caninos, enquanto soltara um surdo
grunhido de aviso. O cavalo levantou a cabeça, espelhando um vivo alarme em sua atitude e a linda loura correu para o
rifle que mantinha perto. "Silver" saltou com ímpeto, soaram dois tiros e o animal, atingido em cheio, caiu ao solo,
gemendo lastimosamente. Irish viu de onde tinham vindo os balaços e, embora não pudesse ainda divisar seus autores,
levou o rifle ao rosto, enquanto punha um joelho em terra. 5 Mais dois disparos consecutivos troaram, partindo de um
dos lados e o rifle lhe foi arrebatado como que por mão invisível. Virou-se contra o novo atacante, enquanto levava a
mão ao revólver, mas recebeu uma pancada no braço. Viu-se obrigada a soltar a arma que não terminara de puxar do
coldre. Um forte bofetão derrubou-a ao solo e, antes que pudesse levantar-se, foi cercada por três homens
relativamente jovens mal encarados, cada um apontando-lhe um rifle. Um deles disse, em voz rude: — Quieto
rapazinho! É muito novo para ser tão brigão... Irish ficou em silêncio. Seu olhar se fixou no canalha que falava ao animal
morto. Sua expressão foi suficientemente clara para que os agressores compreendessem que não lhes perdoava o
crime. Um deles deu de ombros, num gesto indiferente e disse: — É um animal! Muito pior se fosse você, não? E pouco
faltou para isso... — Aonde vai por aqui? - perguntou outro. Irish continuou silenciosa. Dois deles deixaram de apontar-
lhe as armas. Um falou: — Vou revistar seus pertences... Onde guardou o dinheiro? 6 A lourinha também não
respondeu, olhando para o último que falara com mais ódio que os outros. Era um dos que tinham atirado em seu
cachorro e além disso seu aspecto era mais desagradável, mais repulsivo. Não obtendo resposta, tentou golpear uma
perna de Irish com a coronha do rifle. Ela girou rapidamente no chão, o golpe falhou e o homem quase caiu, perdendo o
equilíbrio. O verme praguejou, irritado, e levantou a arma novamente, ansioso por machucá-la. Irish livrou-se por
pouco. No mesmo momento, uma enorme pedra ficou-lhe ao alcance da mão e, antes que o outro se refizesse do
segundo erro, atirou-lha ao rosto. O improvisado projétil atingiu seu objetivo com força. Ouviu-se um estalar, seguido
por um grito de dor do canalha, mais semelhante ao uivo de animal que a um. grito humano. O sangue começou a
escorrer-lhe pela boca e narinas. Irish correu depressa e mergulhou no rio, antes que os outros pudessem reagir. A linda
loura viu-se arrastada pela corrente, embora logo viesse à tona. Percebeu o ruído das detonações dos bandidos, assim
como seus gritos. 7 Dois silvos agudos fizeram-na estremecer; eram projéteis que atingiam a água, a pequena distância
de onde estava. Percebia os gritos dos bandidos e os disparos de maneira estranha, como se estivessem mais afastados
do que na realidade. Ouviu o silvo de mais dois balaços e tornou a mergulhar. Sentiu que seus pulmões estavam a ponto
de estourar e fez um enorme esforço para tornar a vir à tona. Suas roupas pesavam, principalmente os sapatos. Tentou
olhar para a margem onde tinham ficado seus inimigos, mas foi arrastada e engoliu água. Nada viu e teve a impressão
de que estava muito longe. Encontrou uma forte correnteza que a puxou para a outra margem e esforçou-se para poder
sair do rio, aproveitando o inesperado auxílio. Apesar do peso morto de suas roupas e calçados, bracejou
vigorosamente. O rio fazia uma curva e aquela mesma corrente grava, tornando a arrastá-la para longe da margem,
quando se julgava a ponto de alcançá-la. Apesar de sua grande coragem, sentiu medo. Estava cansada com o enorme
esforço e deixou-se arrastar, aguardando uma nova ocasião
favorável para melhor aproveitar a correnteza a seu favor. A água parecia puxá-la para o fundo e precisou apelar para
todas as suas forças a fim de manter-se à superfície. Travou uma luta impetuosa, onde tornou a engolir mais água, de
gosto sumamente desagradável. Estava começando a sentir-se perdida, quando viu algo emergindo perto dela. Pareceu-
lhe um tronco de árvore e fez um último esforço para alcançá-lo. Esta nova tentativa esgotou-a a tal ponto, que não
pôde resistir ao choque contra o tronco. Entretanto, aferrou-se desesperadamente a ele, deixando-se arrastar,
enquanto conservava a cabeça fora d'água. Julgou ouvir um grito. Fechou os olhos, embora mantendo na mente a ideia
de que precisava aguentar-se a qualquer preço. Empregou toda a sua força de vontade em evitar a perda dos sentidos.
Seus ouvidos zumbiam e o coração batia em desespero, sentindo ao mesmo tempo uma forte opressão no peito e na
cintura. Repetindo para si mesma, como numa ideia fixa: — Não devo soltar-me! Não devo soltar-me! * * * 9 Clark
Jackson erguera seu acampamento na