Ela demonstrou surpresa, olhando-o com atenção, apalpando-o para se certificar de que ele não estava ferido.
— Como
conseguiu sair com vida? — Não participei do ataque. Estava numa colina, observando tudo. Nada pude fazer. Eles
simplesmente fuzilaram os soldados, sem lhes dar chances de defesa... — Meu Deus! Perderam a razão! — E atacaram
as mulheres. Estão agindo como os loucos de Quantrill. Não são soldados, são animais recalcados, assassinando e
violentando, Rose. Temos que detê-los. — Estão fazendo isso por dinheiro, Oates. Vão arrecadar fundos para pagar as
dívidas dos fazendeiros e evitar que suas terras vão a leilão... Um emissário chegou há pouco, trazendo o produto do
ataque à Fazenda Graceland... — Como? — surpreendeu-se ele. — A adega do saloon vai ser usada novamente como
esconderijo. Está lá a mala com o dinheiro roubado... — Você a examinou? — Não, e deveria? Oates ficou intrigado com
o que estava acontecendo. Pelo visto, Rose estava sendo enganada. E não apenas ela. Todos os que confiavam nos
planos loucos de ressurgimento do Sul. A guerra estava irremediavelmente perdida e aquelas terras eram agora
devastadas por abutres de todos os tipos. — Rose, preciso examinar essa mala. — Por quê? Sabe que não posso. Seria
loucura! Traição! Eu seria morta por isso... — surpreendeu-se ela. — E se eu lhe garantir que não há dinheiro nela? A
garota olhou-o desconfiada, mas sem entender o que poderia estar se passando. — Como pode afirmar isso? — A mala
com o produto do roubo está bem escondida agora. Eu a tirei dos emissários que a levavam para o Coronel. Ela recuou,
olhando-o atônita. — Fala sério? — Sim, eu a escondi. — Nesse caso, o que há naquela mala que escondi na adega? —
Acredito que não encontrará nada de valor lá. — Neste caso... — Acho que está sendo enganada, querida. Você e todos
os outros. Desconfio que o produto do roubo, não apenas desse, mas de todos os outros que seguramente serão
cometidos, não irá ajudar fazendeiros ou qualquer outro necessitado. — Meu Deus! Como puderam pensar em
semelhante traição? — São os tempos, querida. Poderia me deixar ver essa mala? Ela hesitou por instantes. Se fossem
apanhados juntos, examinando aquela mala, seria o fim para os dois. Por outro lado, a suspeita que Oates lançar sobre a
sinceridade dos planos do Coronel e de seus comandados era terrível demais para não ser apurada. — E tem mais, Rose.
O xerife participou pessoalmente do ataque. Estava lá todo o tempo, enquanto os soldados ianques eram fuzilados e as
mulheres eram violentadas. Deve chegar daqui a pouco à cidade com uma história bem fantástica. — Está bem —
concordou ela. — Vamos até o saloon, disse ela, decididamente. Os dois saíram juntos. Algumas pessoas os viram e se
surpreenderam. Eles pegaram seus cavalos e cavalgaram para o saloon. Quando haviam atravessado a divisa entre as
duas partes da cidade, foram barrados pela aproximação do xerife com seus ajudantes. O homem da lei ficou surpreso
ao ver Rose na companhia do delegado federal, mas não se manifestou a respeito. — Atacaram a Fazenda Graceland,
mataram os soldados, violentaram algumas mulheres... — informou o homem da lei, fazendo um ar solene e grave. —
Quem atacou, xerife? — indagou o delegado. — Guerrilheiros... — Rebeldes? — Sim... Roubaram uma fortuna —
afirmou, olhando na direção de Rose. Percebia alguma coisa estranha nela. Não via ali aquele olhar de cumplicidade que
conhecia, mas uma inesperada acusação, como se Rose o olhasse com asco. — Se eram guerrilheiros e mataram
soldados da União, só há uma coisa a fazer neste caso — falou Oates. O que via no olhar dela deixava-o muito
preocupado. — Pedir a implantação da Lei Marcial novamente na cidade e solicitar a vinda de um destacamento da
Cavalaria. — O quê? — surpreendeu-se o xerife, percebendo que aquela medida jogaria por terra todos os planos feitos
pelo Coronel. A presença dos soldados ianques representava um perigo inesperado para qualquer ação mais ousada. Os
soldados rebeldes seriam caçados com a mesma animosidade que motivara aquela guerra. — Deveria pensar melhor
nisso, delegado. A presença de soldados ianques na cidade pode ser uma ameaça à ordem e encarada como uma
provocação... — E a cada vez que um deles circulasse pelas ruas com seu uniforme azul, seria considerado um alvo por
algum rebelde encima de um telhado, não? — Já passamos por isso antes, delegado. Pense bem, por favor — insistiu o
xerife. — Agora temos que ir. Se quiser discutir melhor o fato, estarei em meu gabinete. O homem da lei e seus
ajudantes se afastaram, dobrando uma esquina. Rose e Oates continuaram seu caminho. O xerife, porém, preocupava-
se com o que vira na expressão de Rose. Assim que saíram das vistas dos dois, ele se deteve. — Don e Billy, quero que
vocês sigam aqueles dois e vejam o que vão fazer — ordenou. — Quer que tome alguma providência em relação ao
delegado? — Não, ele não me preocupa no momento. Vai pensar duas vezes, antes de chamar os soldados. Também
não quer a cidade em pé de guerra. O que me preocupa é Rose. O que ela fazia com ele, assim abertamente? — Está
bem, xerife. Vamos seguí-los — afirmou Don, fazendo um sinal para Billy. Os dois se afastaram e o xerife esporeou seu
cavalo. Esperava encontrar Robert Woodfarm a sua espera no gabinete para discutirem os últimos acontecimentos e o
sucesso do primeiro ataque. Enquanto isso, Rose e Oates chegavam ao saloon. Assim que desmontaram, alguns homens
diante do prédio já se puseram em guarda. O delegado demonstrou que estava ali em paz, mantendo suas mãos
próximas das armas, no entanto. Rose arrastou-o para dentro do saloon. Assim que entraram, os homens se levantaram
e ficaram na porta, olhando com curiosidade o que se passava lá dentro. Burt, o sócio de Rose, surpreendeu-se ao vê-la
com o delegado. — O que está havendo, Rose? — indagou. — Venha comigo, Burt. Você poderá testemunhar algo
abominável — disse ela, apanhando um lampião e acendendo-o. — Aonde vai? — quis ele saber. — À adega! — Espere!
- pediu ele, olhando-a assustado. Sabia que a mala contendo o produto do ataque estava escondida lá dentro. Seria um
risco para Rose levar o delegado federal lá dentro. — Não se preocupe, Burt. Se estamos certos, não há dinheiro
naquela mala — falou ela, entendendo a preocupação dele. — Como? — É isso mesmo o que você ouviu — falou ela,
caminhando na frente dos dois. Os homens na porta do saloon haviam ouvido aquilo, inclusive Don e Billy, que se
olharam surpresos. — O que faremos? — indagou Billy. — Vá avisar o xerife do que está acontecendo aqui — ordenou
Don. — E você? — Eu vou ficar e observar. Não estou gostando do que está acontecendo. Segundo o xerife, o dinheiro
estaria em segurança aqui, no saloon, com Rose. Se estamos sendo enganados, quero saber quem está por trás disso,
Billy. — Está bem, vou avisar o xerife, então. Rose e os dois homens desceram por uma escada, até uma grande porta
feita com pranchas de madeira maciça. Burt se adiantou, abrindo-a. Entraram na escuridão fria da adega. O lampião
iluminou garrafas dispostas em estruturas de madeira, caixas e teias de aranhas. A garota foi até uma dessas estruturas
de madeira e puxou-a. Oates se apressou em ajudar. Atrás daquela espécie de estante havia uma caverna, que se
estendia sob o saloon. Caminharam alguns passos, até uma mesa. Sobre ela estava a mala. Com gestos nervosos, Rose
desamarrou os laços que a fechavam, depois abriu-a. — Eu sabia! — afirmou Oates. Burt estava perplexo, sem
entender. Vira quando os emissários haviam trazido aquela mala, informando que era o produto do roubo na fazenda.
Só via ali, agora, papeis velhos, gravetos e folhas secas. — E o dinheiro? — indagou ele, atônito. — Acho que todos
vocês estão sendo enganados — falou Oates. — Maldição! O que significa isto, afinal? — perguntou Rose, indignada
com aquilo. — Temos abutres dos dois lados, querida. Ambos estão rapinando esta terra e sua gente — informou Oates.
— Os outros precisam saber disso — disse Burt. — Mas temos que fazer isso de forma a não provocar uma revolta. Já
basta o que fizeram na fazenda, matando soldados e violentando mulheres. Isso já é suficiente para que a Cavalaria seja
mandada para cá, com funestas conseqüências. É hora de apaziguar, não de fomentar o ódio. Todos terão muito a
perder com um recrudescimento nas hostilidades. — Oates tem razão, Burt. O povo tem direito de saber o que está se
passando, mas deve deixar para a lei as providências. Não temos mais aqui um caso de revolta