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23

O delegado Oates captura dois soldados sulistas que transportavam uma mala cheia de dinheiro e os ameaça de morte para obter informações sobre um ataque planejado. Ele reflete sobre a traição e a miséria que cercam os homens, mas acaba perdendo um deles quando tenta escapar. Ao retornar à cidade, Oates reencontra Rose, sua amada, e discute as consequências da guerra e os ataques recentes.
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23

O delegado Oates captura dois soldados sulistas que transportavam uma mala cheia de dinheiro e os ameaça de morte para obter informações sobre um ataque planejado. Ele reflete sobre a traição e a miséria que cercam os homens, mas acaba perdendo um deles quando tenta escapar. Ao retornar à cidade, Oates reencontra Rose, sua amada, e discute as consequências da guerra e os ataques recentes.
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Por isso, lançou-se sobre ele, caindo os dois na poeira.

Oates socou-o no queixo repetidas vezes, até que ele se


imobilizasse. Amarrou-os, então. Depois foi examinar a mala feita de tecida, uma "carpetbag", ou bolsa feita de carpete,
usada pelos homens do Norte. Havia mesmo uma pequena fortuna ali e o interesse do delegado era saber por que eles
a levavam naquela direção. Foi examinar os cavalos. Nenhum deles se machucara na queda. Apanhou os cantis de água
e foi acordar os dois soldados, jogando-lhes água na cara. — Oates, seu maldito! Você deveria estar morto, seu
renegado — disse um deles, olhando o delegado com ódio e se debatendo, tentando se livrar da corda que o prendia. —
Se falar desse jeito de novo, eu lhe quebro todos os dentes da boca — rugiu Oates. — Para onde iam com aquela
sacola? — Jamais saberá. — Iam levá-la ao Coronel, não? — Vai pagar por isso, Oates... — Está falando demais para o
meu gosto — ameaçou Oates. — Será que ainda não percebeu sua situação? Aliás, será que ainda não percebeu a
minha situação? — emendou. Os dois sulistas se olharam, sem entender. — Estou com uma pequena fortuna naquela
mala e os únicos que sabem que ela está comigo são vocês... Se eu ficar com ela, não vou querer que ninguém saia por
aí abrindo o bico e dizendo o que eu fiz... Assim, algum de vocês tem uma pá no cavalo? Senão, vão ter de cavar com as
próprias mãos... — O que quer dizer com isso? — indagou um deles. — Que terei de matá-los, rapazes. É simples, não?
Ali tem mais dinheiro do que ganharei em toda a minha vida — continuou Oates. — Não posso perder essa chance. Não
pretendo passar o resto de minha vida servindo de alvo para gente do Norte e do Sul. — É um miserável renegado,
Oates! Um ladrão! — Não serei melhor do que vocês. — Que causa? — A gloriosa causa do Sul... — Ao diabo com o Sul!
Não percebem que o Sul está morto? Que seus despojos estão sendo disputados por vermes vindos de todo o país? Que
não será possível lutar contra isso? — indignou-se o delegado. — Fala isso porque é um covarde, que se vendeu... Não
chegou a terminar. Oates acertou-o na boca, jogando-o para trás. O soldado caiu, cuspindo pedaços de dentes e sangue.
— Não estou com muita paciência para lidar com vermes agora — falou Oates. — Principalmente depois do que vi lá
embaixo. Gloriosos soldados matando gente a sangue-frio e atacando mulheres. Isto é o que sobrou da glória do Sul?
Sem dizer mais nada, Oates apanhou sua faca e cortou o laço em duas partes. Começou a trançar um macabro nó de
forca no primeiro pedaço, depois fez o mesmo no outro. Os dois soldados olhavam-no apavorados. Ele passou as cordas
pelo galho de uma árvore, depois trouxe os cavalos dos soldados para perto. — O que vai fazer? — indagou um deles,
apavorado. — Vou mostrar como devem ser tratados os covardes e assassinos... — Não pode fazer isso conosco... —
berrou um deles, quando Oates o agarrou pelos colarinhos, fazendo-o se levantar. — Eu lhe digo o que pode ou não ser
feito... — Temos direito a um julgamento justo... — Tiveram, quando fuzilaram aqueles homens lá embaixo e atacaram
aquelas mulheres. O soldado tentou protestar. Oates acertou-o no estômago, depois o carregou, jogando-o sobre a sela
do cavalo. Passou o laço em seu pescoço, depois esticou a corda. — Espera, Oates, vamos conversar — disse o outro, de
quem o delegado tinha quebrado alguns dentes. — O que tem para me dizer? — perguntou, erguendo-o e levando-o
para a sela do outro cavalo. — Espere, Oates... Não pode fazer isso... Eu falo... Eu digo tudo que quiser saber... Oates já
havia passado o laço pelo pescoço dele. Esticou a corda. Escolheu um galho caído no chão, limpou-o das folhas secas,
improvisando um chicote. — Oates, pelo amor de Deus! Não pode nos matar assim! Você foi um dos nossos... Pelos
velhos tempos... O delegado parou, como se pensasse. Ficou agitando a vara em sua mão, fazendo-a assobiar. Os
cavalos se moveram inquietamente diante daquele barulho. Ele olhou para os dois. — O que acham que podem me
contar que lhes salvará a vida? — perguntou. — O que você quiser saber. — Para começar, para onde iam com a mala
de dinheiro? — Levar para o Coronel... — Muito bem! Nosso herói se transformou num ladrão — comentou ele. —
Sabem alguma coisa das emboscadas contra mim e Riley. — Não, disso não sabemos de nada. Examinou-os. Pareciam
sinceros. Conhecia aqueles dois. Haviam servido juntos sob o comando do Coronel. Eram homens de confiança e leais
não à causa rebelde, mas fiéis ao comando do Coronel, que sempre fora, naquela região, uma figura de peso, uma lenda
viva realmente. Se estavam de novo metidos em escaramuças, não o faziam por vontade própria, mas por lealdade ao
velho militar. — O que mais estão preparando? — indagou. — Não sei... Recebemos ordens de atacar Graceland... Só
isso... Talvez haja mais coisas... Não sei... — respondeu o homem com os dentes quebrados, ainda cuspindo sangue. —
Vou levá-los presos, rapazes — falou. — Será o mesmo que nos matar aqui — informou um deles. — Não se preocupe!
O xerife e seus ajudantes tomarão conta de vocês... Os dois homens se olharam apavorados. — Quando ele souber que
falamos, estaremos mortos — disse um deles, num fio de voz, confirmando as suspeitas do delegado. — Por quê? —
insistiu. — Porque o xerife estava mancomunado com vocês durante o ataque? Porque eu o vi junto com os oficiais,
antes de vocês montarem para vir para cá? Os dois abaixaram a cabeça e não precisaram dizer nada. Apesar de tudo,
Oates não conseguia culpá-los. Eram homens de quem tudo fora tirado: a família, as colheitas, a terra, a sobrevivência.
Viviam de esperanças, por mais desesperadas que fossem. Eram vítimas dos espertalhões ou de fanáticos como o
Coronel. Só que, por trás daquilo tudo, Oates via um grande golpe. Um golpe para tornar alguns poucos ricos à custa da
miséria dos desesperados. Olhou-os com pena. A questão agora era saber o que fazer com eles. Se os levasse para o
xerifado, com certeza seriam mortos para não falar, como acontecera com Pete, na noite anterior. Havia uma pequena
cela no escritório ocupado pelos delegados federais, mas, com Riley ferido, não haveria como montar guarda todo o
tempo. Soltá-los seria outra estupidez. O elemento surpresa e o suspense a respeito do paradeiro do dinheiro roubado
poderiam ser mais úteis naquele momento para ele, enquanto continuava suas investigações. — Está bem, rapazes, não
morrerão agora — disse o delegado, cortando com sua faca o laço do pescoço de um deles. Quando se preparava para
fazer o mesmo com o segundo, o primeiro esporeou seu cavalo, tentando escapar. — Maldição! — exclamou o
delegado. Sem pestanejar ele arremessou sua faca, cravando-a pouco abaixo da nuca do soldado, que pendeu para o
lado e caiu pesadamente na poeira. — Seu bastardo nojento! — berrou o outro, tocando o cavalo para cima de Oates. O
delegado saltou para o lado. O cavalo avançou e passou rente a ele. O soldado ficou dependurado na ponta da corta,
com os olhos esbugalhados e o pescoço grotescamente retorcido. — Maldição! — praguejou. Acabava de perder duas
importantes testemunhas. Com eles em suas mãos poderia intimidar os conspiradores. Agora nada havia que pudesse
fazer. Pensou em enterrá-los, mas achou melhor não fazer isso. Iria dar o que pensar quando fossem encontrados,
quando não aparecessem com o dinheiro. Voltou ao seu posto de observação. Os soldados de cinza já haviam saído e
uma grande confusão reinava no local. Pensou em ir até lá, mas já sabia o que havia acontecido e nada poderia mais ser
feito para salvar aqueles homens nem evitar o sofrimento e a humilhação daquelas mulheres. Em parte não deixava de
ser um castigo para todos eles, sedentos de diversão, tripudiando sobre aquela terra castigada e sofrida. Cavalgou de
volta para a cidade, mas, antes de chegar lá, arrumou um esconderijo para a mala numa velha mina abandonada. O
local era seguro. Oates o conhecia desde garoto, quando brincava por ali. As notícias do ataque já circulavam. Assim que
desmontou diante do escritório, já surgiram pessoas perguntando se ele sabia alguma coisa a respeito. — Não sei o que
houve — disse ele. — Onde está o xerife? — Deve estar lá... — O que houve, realmente? — Estão dizendo que um
exército confederado atacou a Fazenda Graceland... — Um exército! — surpreendeu-se Oates, notando nos olhos das
pessoas um brilho de esperança. Era isso apenas o que as mantinha vivas naqueles tempos de humilhação. — Vou ver
isso em seguida. Antes quero ver como está meu amigo — disse, entrando. O médico vinha saindo. Havia acabado de
examinar Riley. — Eu disse que ele era forte como um touro. Se não o amarrar na cama, ele vai acabar se levantando
antes do tempo. Mas, pelo menos, ele está em boas mãos. Tenho certeza que vai se recuperar logo — disse o médico,
com um sorriso divertido nos lábios. — Em boas mãos? Como assim? — estranhou Oates. — Uma boa enfermeira, boa
comida... Vai se levantar logo — confirmou o médico, rindo e saindo. Oates foi até o quarto de Riley conferir o que
estava acontecendo. Parou na porta, surpreso, quando viu quem estava com o ferido, dando-lhe sopa na boca. — Rose!
— exclamou. Apertando-a em seus braços e beijando-a, Oates nem tentava se lembrar mais de quantas e quantas vezes
sonhara com aquela cena. A mesma coisa acontecia com Rose. Desde que a guerra terminara e que fora dada
oportunidade aos soldados e oficiais rebeldes de jurarem fidelidade à bandeira da União, Oates passara a ser hostilizado
pelos seus ex-companheiros de batalhas. Para Rose aquilo fora terrível, porque a afastara dele por algum tempo. Oates
fora para Washington, onde acabara sendo nomeado Delegado Federal. Ele mesmo insistiu para ser mandado para
Atlanta, uma cidade que a maioria dos outros delegados evitava. — Oh, Deus! Como eu sonhei com isso! — murmurou
ela, com os olhos brilhantes e o corpo trêmulo de emoção. — Oh, Rose! Fique comigo! — Não posso... — E por que não?
— Meus amigos... — Nossos amigos, não se esqueça. Quero o bem deles, mas não da forma como eles querem obter
isso. Atacaram a Fazenda... — O que soube sobre o ataque? — Eu não soube, Rose. Eu estava lá.

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