desértico. Sabem que iriam para a forca sem alternativa...
Enquanto falavam, Clark foi atirando a roupa para Irish e
depois esticou a manta para que ela tornasse a vesti-las. Quando terminou, contemplou-a sorridente, e disse: — Não
está mal. Quem não sabe pode muito bem confundi-la com um rapaz. Que deseja ser doravante? — Que pensariam do
senhor se o vissem com um rapaz como eu? — Certamente nada de bom. Mas se alguém atrever-se a qualquer
insinuação, encontrará algo que não vai gostar. Irish não hesitou em responder: — Sou mulher e continuarei a sê-lo. —
Não teme que pensem mal de você, vendoa com um sujeito como eu? — Que pensem o que quiserem. Não matarei
ninguém por isso. — Porque é mais valente do que eu — replicou o jovem. — Obrigada. É muito generoso — replicou
ela, com certa coqueteria. 27 CAPÍTULO III Irish virou-se, graciosamente, e disse: — Por onde e como atravessaremos? O
caso não é para atirar-se a nado. — Como imaginava vir para o lado de cá? — Tinha meu cavalo e confiar-me-ia a ele. —
Um pouco mais acima de onde levantou o acampamento, o rio alarga-se um pouco e há um lugar vadeável por onde
atravessei. — É mais esperto que eu — respondeu ela. — Não tenha muita certeza. Agora, já que vamos continuar
juntos, precisamos esclarecer... — Sim? — Você resolveu continuar como mulher e bastante linda, por certo. — A
segunda parte é por sua conta... — Exato. É algo que salta aos olhos. Linda e atraente. — E que tem isso? — Vai portar-
se comigo como uma mulher muito mulher? — Que quer dizer? —Você entendeu. Quando uma mulher quer,
principalmente se é como você, pode deixar um homem louco, mesmo um mais sensato que eu. Como pretende portar-
se quanto a mim? — Alegro-me por ter falado a sério. Seremos dois amigos. 28 — De acordo. - Depois, acrescentou: —
Você não é mulher com quem um homem se divirta e eu não desejo perder minha liberdade. Entendidos? — Não se
preocupe, jovenzinho. Não tentarei conquistá-lo, se é isso que receia. — É justamente o que receio. Pouco importa
enfrentar três sujeitos como os que a atacaram. Mas tenho medo de uma jovenzinha como você, se enfiar na cabeça a
ideia de roubar-me a liberdade. — Não acontecerá nada disso. — Então, em frente, amigo! — respondeu Clark.
Estendeu a mão direita a Irish e ela lhe deu a sua que desapareceu dentro da dele. Contudo, não abusou, apertando-a
além do conveniente. Montaram no magnífico cavalo de Clark, com Irish na garupa. Jackson assoviou, para esquecer
que tinha muito perto de si o tentador corpo da jovem. Irish mostrou-se correta, embora não pudesse evitar encostar-se
nele algumas vezes, principalmente quando vadearam o rio. Não fizeram nenhum comentário, ambos fingindo não
perceber. Quando chegaram ao acampamento dela, a jovem apressou-se a saltar do cavalo, e nos primeiros momentos
evitou olhar para Clark. Correu até sua sacola de viagem, vendo tudo remexido. Exclamou: 29 — Malditos! Levaram
todo o meu dinheiro! — Muito? — Uns duzentos dólares! Ainda bem que deixei o resto em Monterrey, no Banco. O
cavalo pastava tranqüilamente. Contudo, o corpo do cão desaparecera, fenômeno que Irish apontou ao companheiro,
muito irritada: — Estava morto, tenho certeza! E não ficou nem sombra dele! Foi aqui mesmo que caiu. Clark estudou o
lugar e disse: — Apagaram as marcas, habilmente. — E para quê? — O corpo de um cão morto a tiros denunciaria sua
violência. — E a violência que praticaram comigo? — Essa não deixou marcas. Embora afogada, seu corpo apareceria
mais tarde águas abaixo, sem qualquer sinal de violência além do afogamento... Irish comentou pensativa: —
Compreendo. Daria a impressão de que caíra no rio. — Justamente — E que fariam do cão? — Certamente o levaram
consigo para enterrar. Ou colocaram-lhe uma pedra no pescoço, metendo num saco e atirando ao rio. — Pobre "Silver",
tão leal, tão bonito!... — Sim, foi uma pena... Ratos malditos! Após uma breve pausa, Clark acrescentou: 30 — Estas
distantes regiões estão longe do braço da Lei, embora às vezes algum representante apareça por aqui... Ou alguém que
possa denunciar a violência. E aqueles vermes tomaram suas precauções para evitar qualquer aborrecimento.
Repentinamente, Irish empalideceu, expressando seus pensamentos em voz alta: — Deixaram-me sem dinheiro! Que
farei agora? Mal tenho cinco ou seis dólares num bolsinho comigo... — Arranjar-nos-emos como for possível. .Com esse
dinheiro, nem mesmo poderia voltar a Monterrey. — Mas não posso ser-lhe pesada... Seria comprometer minha
independência. — Não pense que tenho muito mais dinheiro que você, embora tenha ganhado em Sequoia. Como
disse, aquele fulano me deixou limpo. — E de que viveremos? — Há caça e pesca. E poderei ganhar mais, Você pagará
seu sustento trabalhando. Cozinhará e tomará conta de minha roupa. Não gosto de lavá-las... — Nem eu, mas concordo.
Assim, ganharei o que gastar. — Trato feito? — Trata feito — respondeu ela. Tornaram a apertarem-se as mãos. 31 —
Então, recolha seus pertences e, em marcha. Agora cada um tem seu cavalo e podemos viajar comodamente. — Sim. É
melhor — assentiu ela. Depois, perguntou: — Por que tem tanto medo do casamento? — Nasci solteiro... A Natureza
assim dispôs e ela sabe mais do que eu. Assim, não serei estúpido a ponto de corrigir o que ela fez. — Também nasceu
despido e está vestido — replicou ela — Demônios! É verdade! Não tinha pensado nisso. Vou despir-me... — Pare com
as brincadeiras... A natureza não produz uísque e no entanto embriaga-se... — Mas a bebedeira passa, enquanto que o
casamento é para a vida toda... —Replicou Clark com ar ingênuo. — Muito engraçadinho... - Após uma brava pausa, ela
continuou. — Não pense que quero caça-lo. Vou dizerlhe o que sucede. — Que tenho eu? — perguntou Clark, fingindo
um cômico susto. — Que o senhor é um covarde que tem medo de contrair responsabilidade. Isso é tudo. Vamos
andando? — Depois do banho, um balde de água fria... Paciência, irmão! .— exclamara Clark, com ar divertido.