O acampamento ficava situado numa pequena elevação do terreno, mas a curva evitava que pudesse avistar o de Irish.
Quando houve o incidente entre a jovem e os bandidos, o vento permitiu que Clark ouvisse o ruído dos tiros. O homem
já acendera o fogo e dispunha-se a fazer café. Levantou-se- e ficou atento à direção de onde provinham os tiros. —
Nada. A curva impediu-me de ver... Talvez sejam caçadores, embora não deva descuidar-me por um momento. Ficou
olhando para aquela direção e percebeu novos tiros. Moveu a cabeça em sentido negativo e falou para si mesmo: —
Minha intuição diz que não são caçadores... Apertou os olhos para ver melhor. Julgou perceber uma cabeça assomando
à superfície das águas do rio. Foi no instante em que Irish era arrastada para a margem em que ele estava e, quando ela
bracejou, esforçando-se para atingi-la, ele pôde distinguir melhor. Ao notar que voltava novamente para o centro da
torrente, resolveu ir em seu socorro. 10 Alto, vigoroso e decidido, Clark não vacilou um só momento e correu para a
margem. Enquanto tirava os sapatos e a camisa, seguia com olhar a impotente luta do náufrago. Atirou-se à correnteza
quando Irish aferrouse ao tronco. Além do seu visor físico, Clark era um exímio nadador e acertou a água em vigorosas e
seguras braçadas, calculando bem a força da corrente para alcançar o tronco antes que passasse à sua frente. Chegou
com tempo de sobra e suportou habilmente o choque contra a madeira friamente atirado de um lado para outro pela
violência das águas. Aferrou-se a ele, verificando se Irish não se tinha soltado e começou a manejá-lo com habilidade em
direção à margem. A princípio, enquanto aproveitou a direção da correnteza, foi fácil, mas depois precisou lutar
impetuosamente. Ficou extenuado. Contudo, conseguiu triunfar e abordou a margem quando já tinham ultrapassado o
lugar de seu acampamento em mais de trezentos metros. Atolou o tronco à beira do rio para que a corrente não
tornasse a arrastá-lo e, sem se soltar, chegou até onde estava Irish, que pouco faltava para perder os sentidos. 11 Com
jeito, o jovem separou-a do tronco e levantou-a até a margem, depositando-a no chão. Em seguida, pulou também.
Embora não tivesse desmaiado, Irish estava exausta, inteiramente esgotada, dando a impressão de já estar
inconsciente. Clark murmurou: — Pobre rapaz! Veremos o que houve... Abaixou-se e tomou a jovem nos braços para
cobrir a enorme distância que o separava de seu acampamento. — Ainda bem que não pesa muito. Caso contrário,
depois do esforço que fiz no rio... Tendo Irish nos braços, Clark sentiu uma emoção que qualificou de inexplicável.
Contemplou o rostinho da jovem, seus olhos cerrados, sua boca carnuda, sumarenta e fresca. Comentou: — Bonito
demais para um rapaz... Caminhou depressa, sem se preocupar muito com os pés descalços magoados pela aspereza do
terreno. Quando chegou ao acampamento, reavivou o fogo, após colocar Irish estendida perto do calor. Uma vez o fogo
reanimado, começou a descalçar a jovem, dispondo-se então a despi-la de sua jaquetinha de pele de gamo. 12
Conseguiu tirá-la facilmente e enrugou o cenho, estranhando a compleição do peito da jovem, que nada tinha de
masculino. Vacilou um momento, um ar perplexo apareceu-lhe no rosto e então decidiu tirar-lhe a camisa, enquanto
dizia para si mesmo: — É preciso tirar-lhe a roupa para secá-la. Desabotoou dois botões e, apesar do apertado corpete
que ela usava, intuiu a verdade. Enquanto isso, Irish saía de sua espécie de letargia, impelida pelo instinto, encolheu-se
como um novelo, ao mesmo tempo que levava as mãos ao busto, protegendo-o. A jovem arregalou os olhos e fitou seu
salvador com expressão de assombro e medo. Aquilo foi o bastante para que Clark compreendesse afinal. Falou-lhe: —
Não se assuste, jovenzinha. Tomei-a por um rapaz e por isso atrevi-me... Asseguro-lhe que pode ficar tranqüila... Irish
compreendeu e murmurou debilmente: — Obrigada... — Não precisa contar agora o que houve. Vou dar-lhe roupa seca
e uma manta. Você tire isto enquanto vou recolher o resto de minha, roupa e os sapatos... Com os dentes
castanholando, ela afirmou com a cabeça, aceitando a idéia. — Depois, farei um café bem quente. Um trago de uísque
não lhe iria mal, só que não deve 13 abusar. Seria muito engraçado se depois disso ficasse embriagada... Enquanto
falava, estendeu à jovem um cantil com uísque. Em seguida, apanhou roupa limpa e seca, deixando-a perto dela.
Esticando a manta, formou uma espécie de anteparo para que ela se despisse por trás dele. — Vamos, confie em mim. -
Irish sorriu levemente, e disse: — Estou certa de que posso confiar. — Obrigado. Clark sentiu-se recompensado pelo
sorriso que recebeu, o olhar daquelas grandes e expressivas pupilas azuis e, mais que as palavras, o tom com que foram
pronunciadas: — Obrigada ao senhor... Não precisou afastar-se muito até o lugar em que deixara, suas roupas e
calçados. Sentou-se na relva e calçou-se, vestindo também a camisa, sem parecer ter muita pressa em terminar a
operação. Finalmente ouviu a voz de Irish a chamá-lo, timimente: — Já pode vir... Aproximou-se vagarosamente,
enquanto ela desfazia o anteparo da manta. Enquanto caminhava, confessou para si mesmo que era uma figurinha
deliciosa, apesar de 14 suas roupas masculinas, grandes e folgadas demais. Poderiam ser um bom disfarce. Repetiu-se
monotonamente: — Não deve encará-la como mulher... Não deve... Não deve... Suspendeu repentinamente o curso de
seus pensamentos ao ve-la abaixar-se para recolher a roupa molhada, deixando em relevo a curva suave dos quadris.
Coçou a nuca e disse: — Será difícil não encará-la como mulher. Contudo, cuidado, Clark. Esta é uma boa garota;
daquelas com quem, ou casamos ou deixamos em paz... Parara alguns instantes e depois de concatenar suas últimas
ideias, prosseguiu para o acampamento. Quando chegou ao lado dela, Irish torcia suas roupas, dispondo-se a secá-las
em seguida. — Não tenha pressa. Descanse. Tomaremos café e, se ainda não almoçou, comeremos assim que fique mais
calma. Depois então estenderá suas roupas... — Estou bem e esta será minha primeira providência. Tomei tanta água do
rio, que nem mesmo pensei em chegar até lá para lavar a roupa... — Compreendo que esteja assustada... Bem, se já
está melhor, vá e lave agora. Enquanto isso, farei o café. 15 — O senhor é muito amável... — Não vejo nada de
estranho. O natural na vida é que nos ajudemos uns aos outros, principalmente quando estamos perdidos nestas
imensidões. Clark abarcou o panorama com um gesto. Depois, perguntou: — É verdade. Que fazia você, sozinha num
lugar onde não existe uma habitação humana em muitos quilômetros de raio? — Não se importa se conversarmos
depois? Quero secar minha roupa o quanto antes... Tenho que recuperar meu cavalo e minhas coisas, se é que ainda
estão lá. — Posso ir agora, se quiser. — Não; prefiro ir consigo. Se eles deixaram, ainda estará lá... Se não, para que
pressa? Além disso quero enterrar "Silver". Era meu cachorro, sabe? E eles o mataram.