HABEAS CORPUS 254.
626 SERGIPE
RELATOR : MIN. GILMAR MENDES
PACTE.(S) : RAIMUNDO LIMA VIEIRA
IMPTE.(S) : DANIELLE DOS SANTOS FERREIRA
COATOR(A/S)(ES) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA
DECISÃO: Trata-se de habeas corpus impetrado por Danielle dos
Santos Ferreira, em favor de Raimundo Lima Vieira, contra decisão
monocrática do Superior Tribunal de Justiça que negou provimento ao
Aresp 2.491.134/SE.
A impetrante narra (eDOC 1) que o paciente, ex-Deputado Estadual
em Sergipe, foi condenado à pena de 10 anos, 4 meses e 4 dias de
reclusão, em regime fechado, e pagamento de 231 dias-multa, pela prática
dos crimes do art. 312, caput, do Código Penal e art. 1º da Lei 9.613/1998,
com redação dada pela Lei 12.683/2012 (peculato e lavagem de dinheiro),
por fatos ocorridos em 2014, quando o paciente ainda exercia o mandato
parlamentar, o qual encerrou apenas em 31 de janeiro de 2015.
Aduz que o agravo em recurso especial interposto em face do
acórdão condenatório foi julgado em 25.2.2025 e transitou em julgado em
12.3.2025. Dessa forma, entende que se aplica ao presente caso a tese
firmada por esta Corte na sessão virtual de 28.02.2025 a 11.03.2025, nos
autos do HC 232.627/DF, na qual se fixou tese no sentido de que a
prerrogativa de foro para julgamento de crimes praticados no cargo e em razão
das funções subsiste mesmo após o afastamento do cargo, ainda que o inquérito
ou a ação penal sejam iniciados depois de cessado seu exercício, com aplicação
imediata da nova interpretação aos processos em curso, ressalvados todos os atos
praticados pelo STF e pelos demais Juízos com base na jurisprudência anterior.
Requer a concessão da ordem de habeas corpus para “a desconstituição
da decisão proferida pelo STJ e reconhecendo a competência do Tribunal de
Justiça de Sergipe para processar e julgar a ação penal inicialmente tombada sob o
nº 201555000726 no juízo de Lagarto, pois as condutas imputadas ao paciente
foram praticadas durante o exercício do mandato e em razão das suas funções de
deputado estadual”. (p. 8)
É o relatório.
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HC 254626 / SE
Decido.
O mérito da controvérsia não foi apreciado por órgão colegiado do
Superior Tribunal de Justiça, nem pelo Tribunal de Justiça do Estado de
Sergipe, de modo que sua apreciação por este Tribunal resultaria em
dupla supressão de instância.
A despeito de meu posicionamento pessoal em contrário, as duas
Turmas e o Plenário desta Corte firmaram jurisprudência no sentido de
não conhecer dos writs extintos por decisão monocrática do STJ, sem o
manejo do agravo interno para o órgão colegiado. Nesse sentido: HC
241.927 AgR, rel. Flávio Dino, Primeira Turma, DJe 12.7.2024; HC 237.281
AgR, rel. Edson Fachin, Segunda Turma, DJe 8.7.2024; e HC 169.788, rel.
Edson Fachin, rel. p/ acórdão Alexandre de Moraes, Tribunal Pleno, DJe
6.5.2024.
Evidentemente, em obediência ao princípio da proteção judicial
efetiva (CF, art. 5º, XXXV), a aplicação desse entendimento
jurisprudencial pode ser afastada no caso de configuração de patente
constrangimento ilegal ou abuso de poder, o que, todavia, não é o caso
dos autos.
No julgamento do HC 232.627/DF, do qual fui Relator, ponderei que
a prerrogativa de foro assegura a certos agentes o direito de serem
julgados por órgãos específicos do Poder Judiciário, afastando as regras
comuns de competência em matéria penal, cujo objetivo é preservar o
interesse da sociedade no sentido de que esses agentes possam exercer
livremente suas funções, protegidos contra pressões indevidas, com
ampla autonomia.
Destaquei as oscilações jurisprudenciais sobre a abrangência do
instituto, definindo a extensão do foro especial ora pela natureza do
delito (contemporaneidade e pertinência temática), ora pelo exercício
atual de funções públicas (atualidade), que, a meu ver, traduz o
propósito do art. 53, §1º, da Constituição de 1988 (“Os Deputados e
Senadores, desde a expedição do diploma, serão submetidos a julgamento perante
o Supremo Tribunal Federal”).
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HC 254626 / SE
Enfatizei que o entendimento até então prevalecente, firmado no
julgamento da AP 937-QO, Rel. Min. Roberto Barroso, DJe 11.12.2018, no
sentido de que a prerrogativa de foro deve ser limitada aos crimes
praticados no cargo e em razão do cargo, reduz indevidamente o alcance
da prerrogativa de foro, distorcendo seus fundamentos e frustrando o
atendimento dos fins perseguidos pelo legislador. Ele também é
contraproducente, por causar flutuações de competência no decorrer das
causas criminais e por trazer instabilidade para o sistema de Justiça.
Ora, a diplomação do parlamentar, sozinha, não justifica a remessa
dos autos para os Tribunais. O encerramento do mandato também não
constitui razão para o movimento contrário – retorno dos autos para a
primeira instância.
No voto por mim proferido, sustentei que a interpretação do foro
especial deve ser concebida e aplicada em vista da natureza do crime
praticado pelo agente, e não de critérios temporais relacionados ao
exercício atual do mandato. Daí a necessidade de estabelecer um critério
geral mais abrangente, focado na natureza do fato criminoso, e não em
elementos que podem ser manobrados pelo acusado (permanência no
cargo), preservando os aspectos centrais do entendimento firmado na AP
937-QO.
Diante desse quadro, propus, no julgamento do HC 232.627/DF, a
fixação da seguinte tese: a prerrogativa de foro para julgamento de crimes
praticados no cargo e em razão das funções subsiste mesmo após o afastamento do
cargo, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados depois de cessado seu
exercício, no que fui acompanhado pela maioria dos Ministros desta
Suprema Corte.
Feitas essas considerações e analisando o caso concreto, observa-se
que as condutas imputadas ao reclamante teriam sido praticadas quando
exercia o cargo Deputado Estadual na Assembleia Legislativa de Sergipe,
tendo relação com suas funções públicas.
Ocorre que, compulsando os autos, verifico que não assiste razão à
impetrante. Isso porque, ainda que se considere a aplicação imediata da
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HC 254626 / SE
nova orientação jurisprudencial, delineada no HC 232.627/DF, tal
aplicação não pode retroagir para invalidar atos processuais praticados
sob a égide do entendimento anterior, sob pena de violação ao princípio
da segurança jurídica.
Nesse sentido, no próprio julgamento do HC 232.627/DF, como já
afirmado, consignei expressamente a necessidade de modulação dos
efeitos da nova orientação, propondo "a aplicação imediata da nova
interpretação aos processos em curso, com a ressalva de todos os atos praticados
pelo STF e pelos demais Juízos com base na jurisprudência anterior. A ressalva
segue a mesma fórmula utilizada nas questões de ordem suscitadas no Inq. 687,
Rel. Min. Sydney Sanches, e na AP 937, Rel. Min. Roberto Barroso".
Essa modulação, acolhida pela maioria, visa a preservar a segurança
jurídica e a validade de atos processuais praticados de boa-fé com
fundamento na jurisprudência até então vigente, evitando-se a repetição
desnecessária de atos e o prolongamento indevido dos processos.
No caso em tela, a sentença condenatória foi publicada em
27.03.2020 e toda a tramitação da ação penal ocorreu antes do
julgamento do HC 232.627/DF, tendo o presente processo sido julgado no
STJ apenas em 28.2.2025 e já transitado em julgado.
Nesse sentido: Rcl 77207, de minha relatoria, Dje 3.4.2025.
Assim, não se tratando de decisão manifestamente contrária à
jurisprudência do STF ou de flagrante hipótese de constrangimento ilegal,
descabe autorizar a supressão de instância.
Ante o exposto, nego seguimento ao habeas corpus (art. 21, § 1º,
RISTF).
Publique-se.
Brasília, 28 de abril de 2025.
Ministro GILMAR MENDES
Relator
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