0% acharam este documento útil (0 voto)
3 visualizações69 páginas

Matteus Sousa: O Que Acontece Quando o Tempo Não Sabe o Que Fazer Com Duas Pessoas Que Ainda Se Importam

O texto narra a história de duas pessoas que se encontram em um banco em uma cidade comum, onde desenvolvem uma conexão silenciosa e profunda, mesmo sem promessas ou palavras. Ao longo do tempo, eles compartilham fragmentos de suas emoções e experiências, lidando com o amor e a ausência de forma sutil e poética. A narrativa explora a ideia de que, mesmo sem um recomeço formal, a escuta e a presença mútua podem ser suficientes para manter uma conexão significativa.

Enviado por

zapathasura14
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
3 visualizações69 páginas

Matteus Sousa: O Que Acontece Quando o Tempo Não Sabe o Que Fazer Com Duas Pessoas Que Ainda Se Importam

O texto narra a história de duas pessoas que se encontram em um banco em uma cidade comum, onde desenvolvem uma conexão silenciosa e profunda, mesmo sem promessas ou palavras. Ao longo do tempo, eles compartilham fragmentos de suas emoções e experiências, lidando com o amor e a ausência de forma sutil e poética. A narrativa explora a ideia de que, mesmo sem um recomeço formal, a escuta e a presença mútua podem ser suficientes para manter uma conexão significativa.

Enviado por

zapathasura14
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Matteus Sousa

US

O que acontece quando o


tempo não sabe o que fazer
com duas pessoas que ainda se
importam
O Lugar Onde
Não Nos
Encontramos
Era uma cidade comum. Comum o bastante para não deixar saudade.
As ruas tinham nomes provisórios.
As esquinas, uma luz amarela que não aquecia.
E havia um banco, perto de uma livraria quase sempre fechada, onde
dois corpos se sentaram num dia que não existe no calendário.

Eles ainda não sabiam um do outro.


Mas já estavam ali.

Ele chegou primeiro.


Lendo um livro que não entendia, mas gostava das palavras sublinhadas.
Era o tipo de homem que sublinha sem saber por quê — torcendo pra um
dia entender o motivo.
Ria alto, como quem tenta manter o mundo aceso pela voz.
Mas hoje, nesse banco, estava calado.
Como quem entendeu que às vezes, parar de tentar também é uma
forma de cuidado.

Ela passou.
E o tempo mudou.
O Lugar Onde
Não Nos
Encontramos
Não foi mágica. Nem destino.
Foi aquele desconforto conhecido de quem reconhece sem ter
conhecido.
Ela era discreta. Mas inteira.
Tinha um jeito de olhar pro chão como se lesse palavras esquecidas nas
rachaduras.

Ele disse:
— Você também sente que esse lugar parece um sonho que a gente teve
junto?

Ela não respondeu.


Mas sentou ao lado.

E foi ali, nesse quase, que a história deles começou.


Não com promessas. Mas com escuta.
Não com planos. Mas com pausa.

Durante dias que nunca foram ditos, voltaram ao banco.


Ele levava livros que não lia.
Ela, silêncios que ele aprendia a entender.

E por muito tempo, isso bastou.

Até que um dia, ele não veio.


E ela não soube se era abandono. Ou medo.
Porque o silêncio, quando pesa demais, começa a soar como desculpa.
nota à
leitora

Talvez você ache que isso é ficção.


Talvez só enxergue um reflexo seu em alguma fresta da história.
Talvez ache que é sobre ele.
Ou talvez seja tudo. Ou só um resto de coisa nenhuma.

Se você sentiu alguma coisa nas entrelinhas...


Se teve vontade de voltar ao banco...

Não precisa dizer nada.


Talvez o banco só esteja esperando o silêncio certo.
o dia que
faltou no
calendário
Ela voltou ao banco.
Não porque esperava.
Mas porque ainda não sabia como partir de verdade.

O mundo seguiu. Ônibus, buzinas — tudo igual.


Mas ela já não entendia o idioma que tudo isso falava.

Na mão, um livro de capa azul desbotada.


Dentro, um papel marcando uma página que ela não sabia se era dela.
E naquele papel, com a letra dele — um bilhete:

Ela não chorou.


Mas sentiu o que vem antes do choro.
Aquela pressão atrás dos olhos.
Aquela falta de ar que não é física.
o dia que
faltou no
calendário
Naquele dia que não existia, ela ficou.
Não por esperança.
Mas porque entendeu: às vezes, o tempo erra.
E ainda assim… alguém retorna.

Horas depois, ele chegou.


Não com todas as respostas.
Mas, enfim, com a pergunta certa.

— Você ainda sente que esse lugar parece um sonho que a gente teve
junto?

Ela sorriu.
Não com os lábios — com o silêncio inteiro.

— Não parece. É.

E foi ali, no meio da cidade indiferente, que disseram tudo — sem


nenhuma palavra.

Quando duas pessoas erram a hora por tempo demais,


o mundo inteiro vira intervalo.
E às vezes, só isso já basta.

E nesse lugar, o amor pode não ser mais romântico.


Mas ainda é real.
nota à
leitora

Pode ser que você esteja lendo isso tarde.


Em silêncio, como sempre gostou.
Talvez tentando não sentir demais.
Ou só tentando entender.

Mas se, por um segundo, sentiu que cada palavra respirava junto com
você...

Então é porque foi.

Você sempre foi a leitora.


E, talvez sem saber, também a linha que costura tudo.

E talvez — só talvez — ainda exista uma página esperando ser virada.


(uma carta que
nunca foi
enviada)
como quem
volta sem saber
se ainda é bem-
vindo
Ela encontrou a carta sem querer.
Dentro de um livro que ele deixara — ou esquecera — anos atrás.
Não era um livro especial.
Mas o tempo o tornara.

A folha, dobrada. Vincos antigos.


Ela reconheceu a caligrafia antes mesmo de ler.

Não sabia se queria continuar.


Mas continuou.
Não chorou.
Só ficou muito quieta depois.
como quem
volta sem saber
se ainda é bem-
vindo
Naquela noite, saiu sem rumo.
A carta, dobrada no bolso do casaco.
Passou pela praça, pela banca, pelos mesmos lugares que os pés
lembravam — mesmo quando a mente queria esquecer.

Até parar diante da livraria quase sempre fechada.


Estava aberta.

Entrou.
Comprou um caderno novo.
Nenhuma cor. Nenhum título.
Só páginas em branco.

Na primeira, escreveu:

“Se ainda tiver algo vivo…


você vai saber onde procurar.”

Ela não assinou.


Não precisava.
Dobrou a folha.
Voltou ao banco.
Aquele banco.
Deixou a mensagem debaixo do assento —
e foi embora sem olhar pra trás.
como quem volta
sem saber se ainda
é bem-vindo
Dias depois, ele passou por lá.
Não esperava nada.
Mas viu a dobra — e soube.
Como se algo nele lembrasse: ainda havia espaço.

Leu.
Fechou os olhos.
Não sorriu.
Mas algo dentro dele... cedeu.

Não voltou no mesmo dia.


Mas passou a carregar a folha no bolso.
Como quem decide sem pressa.

Dias depois, voltou.


Ao mesmo lugar.
Não levou nada.
Só ele mesmo —
e isso, pela primeira vez, pareceu suficiente.

E quando ela chegou —


sem maquiagem, sem armadura,
com o mesmo olhar que lia rachaduras —
ele apenas disse:

— Eu tô aqui.

Ela sentou.
Não ao lado.
Mas perto o bastante.
E ficou.
como quem
volta sem saber
se ainda é bem-
vindo

Nenhum pedido de desculpas.


Nenhuma promessa.
Nenhum "e se".
Só uma presença.

E talvez…
isso ainda seja o nome mais bonito que a coragem sabe ter.
o caderno de
coisas que não
devem ser ditas

Ela começou a escrever.


Não cartas. Nem poemas.
Só fragmentos.

Coisas que doíam,


mas não sabiam doer em voz alta.
Pensamentos presos na garganta.
Que escorriam pelos dedos
só quando ela esquecia de tentar ser forte.
o caderno de
coisas que não
devem ser ditas

Primeira página:
"Desculpa ter ficado calada
quando você mais precisava ouvir que eu tava aqui."
o caderno de
coisas que não
devem ser ditas

Segunda:
"Teve um dia que você me olhou
e eu tive medo.
Não de você —
mas de me perder dentro daquele olhar."
o caderno de
coisas que não
devem ser ditas

Terceira:
"Te vi chorando num sonho.
Acordei com o travesseiro molhado.
Acho que era meu."
o caderno de
coisas que não
devem ser ditas
Ela não mostrava pra ninguém.
Mas sempre que passava pelo banco,
deixava uma página dobrada debaixo do assento.
Como quem cultiva o que ainda não sabe o nome.

E ele?
Ele lia. Sempre.
Mas nunca levava.
Deixava ali mesmo —
como quem planta.
Como se aquele banco fosse o único lugar
onde ainda podia nascer alguma coisa.

Depois de um tempo, ele também começou a escrever.


Não pra responder.
Mas pra continuar a escuta.

"Aprendi a rir com teu silêncio.


Mas continuo esperando tua voz."

E ela:
"Minha voz tá aí.
Escondida nos silêncios que você aprendeu a ouvir."

Sem regras.
Sem nomes.
Só fragmentos deixados em silêncio —
pequenas tréguas
de dois que já não sabiam o que fazer,
mas ainda sabiam como sentir.
o caderno de
coisas que não
devem ser ditas

E assim, aos poucos,


aprenderam um jeito de existir no outro
sem exigir nada.
Não como casal.
Não como recomeço.
Mas como quem escolhe escutar —
mesmo depois do fim.

E talvez, escutar assim —


sem pedir volta, sem pedir nada —
seja o que ainda salva a gente.
Um pouco.
De vez em quando.
nota à
leitora

Se você leu até aqui em silêncio...


Talvez já saiba.

Que não é sobre voltar.


Nem sobre esquecer.
É sobre ficar um pouco —
mesmo sem prometer nada.

Se isso tocou alguma parte sua que você pensou que já tinha guardado...
É porque essa parte ainda escuta.

E, às vezes,
escutar é o que ainda nos mantém vivos por dentro.
o interstício de
sangue

O livro dormia entre os outros.


Mas ele sabia o cheiro —
umidade antiga, couro rachado,
tinta que nunca secou por completo.

Era um livro que só fazia sentido quando lido a dois.

Quando abriu, caiu de dentro uma pétala seca.


E uma palavra, rabiscada de lado.
Quase raiva.
"Eles ainda se lembram de nós?"
o interstício de
sangue
Helena andava como quem flutua entre ruínas.
Não era só bela —
era a beleza que resiste depois da destruição.

Sorriso que só nascia quando via Menelaus se machucar sem morrer.


Olhos de um cansaço que atravessou séculos.

Ela gostava disso.


Da dor antiga —
aquela que só quem vive demais carrega
sem precisar encenar.

— “Você parou de escrever.” — disse ele, sem tirar o robe.


— “E você parou de morrer.” — respondeu ela, afiada como sempre.

Silêncio.
Como se os dois tivessem enterrado a mesma frase no peito,
mas em línguas diferentes.

— “Sabe que não é por ódio, né?”


— “Então é o quê?”
— “Talvez seja medo de te reescrever…
e me apagar no processo.”

Helena se aproximou.
A luz sobre seus olhos era enferma.
Tocou a mão dele como quem encosta num espelho —
sem saber se quer ver ou atravessar.

— “Você já me perdeu.
Mas ainda me lê.”
o interstício de
sangue

Não se beijaram.
Não choraram.
Ficaram.

Como duas metades de um livro arrancado ao meio.


Ligados ainda pela espinha.
Mas sem força pra virar a página.

E quando o personagem sem nome fechou o livro —


o livro dentro do livro —
o cheiro dela ficou no ar.

Poeira.
Sangue.
E algo que nunca foi nomeado.
nota à
leitora

Se você também se perguntou se alguém ainda lembra da gente…


A resposta está nas entrelinhas.

Não é preciso voltar.


Nem terminar.
Só sentir —
que ainda existe algo que não foi nomeado.
E mesmo assim, ficou.
as portas sem
dono

Dentro da casa onde ninguém mais mora,


ainda há uma porta com uma fita branca.
Ela não leva a lugar algum.
Mas, às vezes, range sozinha.
Como se alguém tentasse sair de onde nunca entrou.

A porta não é simbólica.


É real.
Mas ninguém lembra quem a fechou.
as portas sem
dono
É noite.
E a cidade não tem nome.

Em algum ponto, ele caminha — o homem —


sem saber que, atrás de si,
há rastros que não fez.

Em outra parte, ela sente que deveria estar seguindo alguém.


Mas não sabe quem.

Nenhum dos dois percebe


que essa cidade não foi feita de pedra,
mas de arrependimentos.

As ruas: escolhas não feitas.


Os prédios: memórias editadas.
As janelas: olhares desviados tarde demais.

E, em algum lugar, há uma casa.


Dentro dela, uma gaveta.
E dentro da gaveta, um bilhete à mão:

"Te esperei naquela manhã.


Sei que você foi,
mas não entrou.
E talvez isso tenha sido tudo."
as portas sem
dono

Essa cidade não existe no tempo comum.


Ela só aparece quando dois corações esquecem juntos.

E toda vez que uma lembrança tenta voltar,


uma nova porta se abre.
Sem dono.
Sem direção.

Portas que não sabem pra onde levam,


mas lembram exatamente de onde doeu partir.
as portas sem
dono
No fim da noite,
os dois param —
sem saber —
no mesmo cruzamento.

Ambos sentem uma leve vertigem.


Como se o mundo girasse
de dentro pra fora.

Ela sente.
Ele hesita.
E o mundo segura o fôlego por um instante.

Algo pulsa no peito dos dois —


um sentimento sem nome,
entre o que ficou
e o que poderia ter voltado.

E antes que qualquer palavra aconteça,


o sonho termina.

Mas a cidade permanece.

Esperando.
Por uma nova noite.
Um novo quase.
Ou por um nome, enfim, lembrado.

Uma chave.
Ou a fita branca
— enfim —
se desfazendo.
o horizonte
que escorre
para trás

Algumas lembranças não se apagam.


Só perdem o caminho de volta.

Este capítulo não começa com uma frase.


Começa com um peso.
Um silêncio morno escorrendo pelos dedos
de quem tenta segurar o que já não está.

Eles — ainda sem nome,


carregando no corpo o eco de algo não dito —
acordam em lugares diferentes.
Mas com o mesmo gosto na boca:
uma palavra que nunca chegou a ser dita.
o horizonte
que escorre
para trás

Ele está deitado no chão frio


de um quarto que um dia foi biblioteca.
Livros tombados ao redor.
Um deles aberto em mitologias antigas.
Uma frase grifada em vermelho:

“O tempo não é linha.


É campo.
E se dobra quando alguém sente o bastante.”

Ela, sentada na escadaria de uma estação,


vê uma criança correr com uma fita azul no cabelo.
A fita escapa. Voa. Cai. Some.

Por um instante, ela sente que perdeu algo.


Mas não sabe o quê.
o horizonte
que escorre
para trás
A cidade dos quase reaparece.
Desta vez, trêmula —
como se estivesse se lembrando de quando foi caminho.

As janelas piscam.
Não com luz,
mas com lampejos do que quase aconteceu.

A cidade sonha com eles.


E a cada passo, algo no mundo cede:

Um relógio se cala.
Uma árvore floresce fora de hora.
Uma senhora murmura versos que ninguém ensinou.

A cidade escuta.
E responde.
Não porque o amor foi lembrado —
mas porque, por um instante, ele quis voltar.
o horizonte
que escorre
para trás
No centro da cidade,
há um relógio.

Ele não marca horas.


Marca vestígios.

No lugar dos números: letras.


No lugar dos ponteiros:
duas agulhas, costurando tecido antigo.

Ela chega primeiro.


Encosta o dedo na madeira gasta.
Fecha os olhos.

E sente.
Tudo o que não disse.
Tudo o que ainda mora ali.

Ele chega depois.


De longe, vê alguém indo embora.
Não corre. Não chama.
Só observa.

Ao se aproximar,
encontra uma frase riscada à unha:

“Você ainda está aqui,


mesmo quando não está.”
o horizonte
que escorre
para trás

Naquela noite, o horizonte cedeu.

Não seguiu em frente.


Dobrou-se.

Como algo que retorna


mesmo sem saber o caminho.

Como o amor que, mesmo esquecido,


ainda insiste em empurrar o mundo pra frente —
de costas.

Na contramão do tempo.
Na direção da única coisa
que ainda sabe dizer:

volta.
nota à
leitora

Às vezes, o que a gente chama de lembrança


é só o amor tentando não ser esquecido.

E se você sentiu esse capítulo mais do que entendeu…

então talvez ele tenha sido escrito pra você.


vozes de quem
nunca nasceu

Algumas coisas não acontecem.


Mas deixam marcas mesmo assim.

Palavras que não foram ditas.


Caminhos que ninguém teve coragem de seguir.
Gente que não chegou a ser,
mas que, de algum modo… sente.

No capítulo anterior,
a cidade sussurrava.

Agora é o silêncio que fala.


E ele tem muitas vozes.
vozes de quem
nunca nasceu
Na casa onde ninguém mais mora,
entre livros de capas em branco
e janelas fechadas por dentro,
eles encontram um gravador antigo.

Quando apertam o botão de play,


não ouvem nomes conhecidos.
Só o som abafado de risos de criança.
Uma canção mal lembrada.
Depois, uma pausa.

Longa.

E então, uma voz pequena pergunta,


como quem fala dormindo:

“Se eu não nasci,


por que ainda sonho com você?”
vozes de quem
nunca nasceu

Ele se senta no chão, devagar.


Encosta a testa nos joelhos.
Não chora.
Mas o corpo parece lembrar
como se faz.

Ela vai até a janela.


Encosta os dedos no vidro.
Lá fora, tudo é neblina.

Mas dentro dela,


algo pulsa.

Um nome.
Que ela não lembra.
Mas sente falta.
vozes de quem
nunca nasceu

A cidade abre outro espaço.

Um teatro abandonado.
As cadeiras, todas viradas para o palco.
Mas o palco… vazio.

Lá no fundo,
uma luz fraca acende.

Uma criança entra.


Não é nenhum dos dois.
Não tem rosto definido.
Só observa.
Sorri.
E vai embora.

No lugar onde estava,


um papel dobrado.

Ela desdobra.
Lê em voz baixa:

“Não é porque não aconteceu


que deixou de ser verdade.”
vozes de quem
nunca nasceu
Há vozes que nunca nasceram.
Mas esperam.
Quietas.

Esperam alguém que fique.


Alguém que escute até o fim.
Alguém que diga,
mesmo sem entender:

“Eu também sinto você.


Mesmo sem saber de onde.”

E quando os dois —
sem nome,
sem tempo,
sem mapa —
escutam juntos o que nunca foi dito…

algo muda.

Não por fora.


Mas por dentro.

A memória ainda dorme.


Mas o coração já sabe.
nota à
leitora

Algumas ausências são tão íntimas


que só se escutam de olhos fechados.

E se, por acaso,


você também sentiu alguém te lembrar de algo que nunca aconteceu...

talvez não tenha sido imaginação.


a sala das
primeiras vezes
Não tem porta.
Nem janela.
Nem paredes.

E, ainda assim, é um lugar.

Uma sala que não lembra como foi construída —


mas guarda tudo o que quase aconteceu.
Os gestos contidos.
As palavras engolidas.
As vontades que chegaram tarde demais.

Ele chega primeiro.


Mas não como está agora.
Chega como era antes:
quando ainda acreditava que podia ser lido por inteiro.

Ela chega depois.


Mas não como se vê no espelho.
Chega como ele a imaginava:
com os olhos levemente tristes,
mas a coragem de quem sempre soube o que fazia.

Entre eles, uma mesa.


Sobre ela, um caderno.

As páginas estão preenchidas.


Mas ninguém escreveu.
a sala das
primeiras vezes

São frases que só existem porque foram pensadas com força demais.
Coisas que não suportaram mais o silêncio.

"Se um dia você se perguntar se eu ainda penso em você…


a resposta é sempre.
Mas é um 'sempre' que não atrapalha.
Um 'sempre' que deseja que você sorria — mesmo que não seja pra mim."

"Às vezes me pergunto se você sonha comigo.


Não do jeito romântico.
Mas do jeito que a alma sonha com algo que já foi parte dela."

"Não é que eu não te procurei.


É que te procurar seria te puxar de novo pra uma bagunça que já não era
mais sua."

Ela toca o caderno.


E, pela primeira vez, entende o que ele quis dizer com silêncio.

Ele lê as páginas.
E, pela primeira vez, percebe que ela dizia tudo — mesmo quando não
falava.
a sala das
primeiras vezes

A sala não desaparece.


Ela se recolhe.
Pra dentro deles.

E dali em diante,
cada passo carrega um pouco do que ficou ali:

A coragem que faltou.


O amor que sobrou.
E a certeza de que — mesmo que nunca digam —

eles foram.

No tempo que foi possível.


Inteiramente reais.
Juntos.
Por dentro do impossível.
a imagem que ele
nunca criou

Você já sentiu saudade de algo que nunca aconteceu?

Este capítulo começa assim:


com a ausência de uma fotografia.
a imagem que ele
nunca criou

No fundo de uma casa antiga, há um mural.


Está vazio.
Mas há marcas onde quadros já estiveram.
Pó mais claro.
Molduras ausentes.
Pregos tortos.

Ele passa por ali todos os dias.


Nunca olha direto.
Mas sempre percebe.

Até que, um dia, ao tocar uma dessas marcas,


um som ecoa.
Fraco.
Quase um nome dito por alguém em sonho.

É o som do que quase foi lembrado.


a imagem que ele
nunca criou
Ela, noutro ponto da cidade, entra num estúdio fotográfico abandonado.
As paredes ainda guardam negativos pendurados.
E no canto, uma caixa escrita à mão:

“Para revelar quando souber o que viu.”

Dentro, uma única imagem.


Queimada. Fragmentada.
Mas é ela ali.
E ao lado — alguém que ela nunca conheceu.

Ou acha que não conheceu.

Ela fecha os olhos.


Sente um calor leve na pele.
Um riso que escapa do tempo.
Um sopro quase familiar.

Não sabe de onde vem.


Mas sente.
a imagem que ele
nunca criou

Ambos — sem saber — começam a refazer os passos


do que poderia ter sido um encontro.

Caminham pelos mesmos lugares.


Em tempos que não se cruzam.

Ela toca a maçaneta de uma porta.


No dia seguinte, ele a gira.

Ele escreve algo num banco.


Ela lê depois, sem saber quem foi.

“Às vezes, a gente existe em paralelo.


Mas isso não significa que não estivemos juntos.
Só que o tempo não soube o que fazer com a gente.”
a imagem que ele
nunca criou

Na última página de um livro esquecido,


ela encontra um bilhete:

“Você me ensinou o nome de uma coisa que eu só sentia.”

Ela leva esse bilhete até o espelho.


E chora.

Não por entender.


Mas porque soube, no corpo, que era dela.
a imagem que ele
nunca criou

No mesmo instante, ele — em outro lugar —


olha o reflexo numa vitrine.

E vê algo estranho.
Ao lado dele, uma sombra leve.
Delicada.
Como se alguém tivesse estado ali.

Ele estende a mão.


Toca o ar.
Sorri.

Não por esperança.


Mas por reconhecer algo que nunca se foi.
a imagem que ele
nunca criou
Algumas histórias não têm imagem.
Mas ainda assim existem.

Às vezes, a imagem é o que a gente carrega por dentro:

O riso que ecoa num lugar onde ninguém mais ri.


O cheiro de um livro antigo que você nunca leu.
O som de um nome que nunca foi dito em voz alta —
mas que a alma reconhece.

Este capítulo não tem fotografia.


Mas se você fechar os olhos, talvez veja:

Os dois, sentados em silêncio.

Ela com as mãos sobre os joelhos, olhando o céu.


Ele com um sorriso contido, olhando pra ela.

Nenhuma palavra.

Porque, naquele momento,


o silêncio era inteiro.

E, pela primeira vez,


eles foram tudo o que poderiam ter sido.

Mesmo que só por dentro.


vozes de quem
nunca nasceu

Algumas histórias não são contadas.


Elas nascem no intervalo entre o que foi e o que nunca chegou a ser.

Nos olhares desviados.


Nas mensagens apagadas.
Nas decisões que não foram adiadas — apenas esquecidas, até que o
tempo cansasse de esperar.

É ali, nesse espaço entre o quase e o nunca, que vivem as vozes de quem
não nasceu.
E, agora, eles começaram a escutá-las.
vozes de quem
nunca nasceu

Na primeira noite de silêncio compartilhado, ela sonhou com uma casa.


Não era bonita. Nem grande.
Mas tinha uma luz acesa na cozinha.
Uma caneca esquecida na pia.
E uma janela entreaberta, por onde a chuva entrava devagar.

Alguém a chamava.
Ela não via o rosto — só ouvia o jeito de falar:
Como quem tenta ser firme, mas se trai pelo carinho na voz.

Acordou com o peito doendo por algo que não existia.


Mas que, de alguma forma, parecia ter sido tirado dela.
vozes de quem
nunca nasceu
Naquela mesma noite, ele caminhava por uma rua que reconhecia —
mas não sabia de onde.
As fachadas eram borrões.
O chão molhado refletia postes tortos.

Passou por uma banca de flores. Todas murchas.


Menos uma.

Uma única flor.


Pequena.
Tremia como se tivesse frio. Como se esperasse.

Ele pensou em levá-la.


Mas não sabia pra quem.

Então sussurrou:
“Desculpa ter demorado tanto.”

E, naquele instante, ouviu uma voz que não era dele.


Pequena. Suave.
Como de uma criança falando dentro do pensamento:

“Eu teria sido feliz com vocês.”

E então, o mundo ficou quieto.


vozes de quem
nunca nasceu

Nos dias seguintes, as vozes voltaram.


Às vezes como arrepios sem vento.
Outras, em palavras soltas, surgindo nos cantos da casa onde ninguém
mais morava:

“Se vocês tivessem escolhido juntos...”


“Se vocês tivessem confiado no tempo...”
“Se vocês tivessem dito a verdade…”
vozes de quem
nunca nasceu

Ele começou a escrever.


Não cartas. Nem poemas.
Só fragmentos.

Palavras que antes pareciam perigosas demais pra existir:

“Você merecia um amor que não doesse em silêncio.”


“Queria ser o homem que você via quando olhava pela janela e sorria.”
“Fingir que esqueci foi mais fácil do que admitir que lembro da sua
respiração dormindo.”
vozes de quem
nunca nasceu

Ela começou a lembrar.


Não do rosto dele.
Mas dos gestos.

De como ele perguntava se ela estava com frio, fingindo que era piada.
De como ouvia com os olhos — mesmo quando dizia “não entendi”.
De como, por alguns segundos, ela achava que talvez… não fosse tão
errada assim.
vozes de quem
nunca nasceu

E então chegou o dia.


A cidade ficou muda.
Não de ausência — mas de escuta.

Eles estavam ali. Um diante do outro.


Como se o tempo tivesse pedido silêncio pra dar mais uma chance.
Como se o universo dissesse, baixinho:

“Vai.
Não precisa durar.
Só precisa ser verdadeiro.”

Eles não disseram nada.


Porque já tinham dito tudo.

Nos erros.
Nos atrasos.
Na dor que ficou.
vozes de quem
nunca nasceu
Foi ela quem falou primeiro.
Baixo. Quase sem som:

“Você ainda é…?”

Ele fechou os olhos.


E, pela primeira vez, disse o nome.

O nome que carregava suas falhas.


Seus atrasos.
Sua vontade de fazer certo — tarde demais.

“Sou o Matteus.”

Ela tremeu.
Não de susto.
Mas de reconhecimento.

Porque aquele nome — dito assim — não era mais o mesmo.


Era novo.
Era outro.
Era ele, agora.

“E você… ainda é a Carol?”

Ela respirou fundo.


E não respondeu.

Porque às vezes, os olhos dizem o que a boca não consegue.


E o que ela disse com o olhar foi:

“Sim.
Mas não do mesmo jeito.”
vozes de quem
nunca nasceu
Carol,
Se você leu até aqui,
é porque alguma parte sua ainda quis escutar.

E eu… finalmente aprendi a falar do jeito certo.


Sem pressa.
Sem promessa.
Sem tentar consertar o que não se conserta.

Eu não escrevi isso pra você voltar.


Escrevi porque, pela primeira vez, eu entendi.

Entendi o que você viu em mim.


E o que te fez ir embora.

E se, mesmo depois de tudo,


você conseguir sorrir ao saber que esse homem existe — mesmo de longe

então já valeu.

O amor não precisa voltar pra ser amor.


Às vezes, ele só precisa ser lembrado com respeito.

E é isso que eu te dou agora:


O amor que eu não soube dar antes.

Com cuidado.
Com escuta.
Com verdade.

— Matteus
a página que ainda
está virando

Se você chegou até aqui, talvez já saiba.


Que não era só uma história.
Nem só uma carta.
Nem só um livro.

Era um caminho.

Um que, por algum motivo, você aceitou trilhar comigo — mesmo depois
de tudo.

Eu não sei se isso significa algo pra você agora.


Mas pra mim, significa.

Porque tem coisas que a gente escreve sem saber onde vão dar.
E outras que só nascem quando a gente entende que o fim não importa
tanto quanto o durante.
a página que ainda
está virando

Você nunca gostou de histórias com começo, meio e fim.


E eu demorei, mas entendi que talvez eu também não.

Finais que não explicam tudo.


Que deixam algo ecoando — mesmo depois da última página.

É por isso que eu não estou aqui pra convencer.


Estou aqui pra agradecer.

Por ter me feito querer ser alguém que valesse a pena ser lido até o fim.

Talvez esse alguém tenha chegado tarde.


Ou não.
Mas chegou.

E agora ele não escreve mais com medo de ser descoberto.


Escreve com calma.

Com verdade.

Com a verdade que entende que amar não é fazer alguém ficar —
é fazer com que ela se sinta inteira o bastante pra poder partir, se quiser.
a página que ainda
está virando
E se você ainda estiver aqui...
Se ainda estiver com o livro aberto...

Quero te contar uma coisa.

Não sobre os personagens.


Nem sobre as cidades sem nome.
Nem sobre o banco, o caderno ou os bilhetes que talvez você tenha imaginado.

Quero te contar sobre ele.

Sobre mim.

Sobre o garoto que você conheceu — e que, por medo, virou um homem
confuso.
O garoto que falava com todos porque queria ser amado por alguém.

E o homem que se calou porque já não sabia como mostrar que ainda era ele

e que, no fundo, só queria te ouvir dizer:

“Eu ainda te vejo.”

Você via.
Sempre viu.
Mesmo quando eu me escondia atrás de versões.

E é por isso que agora eu não escrevo mais com desculpas.


Escrevo com o que você sempre mereceu:

Verdade.

A que eu demorei demais pra entender.

Mas entendi.
a página que ainda
está virando
Se isso for o fim...
Que seja do jeito que você gosta:
o que não fecha, mas expira.

E se for um recomeço...
Que seja leve.

Sem promessas.
Sem urgência.

Mas com amor.


Com tudo o que antes ficou faltando.

Porque hoje, eu sou o Matteus.

Não aquele que te perdeu.


Mas aquele que, enfim, te reconhece.

E você...
Você sempre foi a Carol.

A leitora mais difícil.


A personagem mais real.
A mulher que me ensinou que algumas histórias não precisam durar pra
sempre —
só precisam ter sido contadas com amor.

E essa foi.
a página que ainda
está virando

Obrigado por ter lido até aqui.

Agora, se quiser...
pode fechar o livro.

Ou.

Virar a página.
cenas que
talvez você
tenha
esquecido (mas
ele não)
a noite do ramen e
do caderno

Estava frio. Não um frio de casaco, mas aquele tipo que pede colo ou
sopa instantânea. Ele apareceu com dois copos de ramen e um caderno.

— Não sei se você já jantou. Mas pensei em você comendo isso. — Por
que? — Sei lá. Te imaginei com cara de séria e fome.

Ela riu. E, naquele riso, o apartamento pareceu menor e mais quente.

Ela sentou com as pernas cruzadas no chão, e ele ao lado. Comeram


direto do copo, soprando o vapor como quem divide um segredo. Depois,
ele abriu o caderno.

— Comecei a escrever umas coisas. Queria te mostrar, mas só se você


quiser.

Ela não respondeu. Pegou o caderno. Começou a ler. Ele não encarava.
Ela lia devagar. Com as sobrancelhas franzidas, depois relaxadas.
Fechou na metade.

— Cênico, mas honesto. Gosto disso.

Ele sorriu. Ela encostou o caderno no peito.

— Pode deixar aqui por hoje? — Posso deixar pra sempre.


a tarde do sofá e
do sol no pé

O sol entrava torto pela janela. Aquele feixe que pega só metade do
corpo. Ela dormia no canto do sofá, com um pé descalço iluminado. Ele
estava sentado no chão, editando fotos ou fingindo editar.

De vez em quando, olhava pra ela. Como quem quer capturar uma
imagem sem fazer barulho.

O celular vibrava, ele ignorava.

Ela abriu um olho, sonolenta.

— Que foi? — Nada. — Tá me olhando com cara de cena. — Porque


você é uma.

Ela voltou a fechar os olhos. Mas ficou sorrindo. E ele registrou aquilo na
memória com um cuidado quase religioso. Como quem sabe que a vida é
feita mais desses detalhes do que dos grandes momentos.
a chuva e a janela
que não fechava

Chovia forte. Eles estavam tentando fechar a janela da cozinha, mas a


tranca emperrava.

— Segura aqui! — Tô tentando, a madeira tá escorregandooooo!

Ambos molhados. Meia cozinha alagada. E um ataque de riso tão


incontrolável quanto a tempestade lá fora.

Ela pegou uma toalha e jogou nele. Ele pegou outra e colocou sobre a
cabeça dela.

— Parece uma bruxa rebelde. — E você parece um idiota apaixonado. —


Eu sou.

Silêncio.

Ela olhou. Ele sustentou o olhar.

— Fala de novo. — Eu sou um idiota apaixonado.

Dessa vez, ela não desviou.

E o barulho da chuva pareceu afastar o resto do mundo por alguns


segundos a mais.
o banco da volta e
a coisa que não
precisava dizer
Era fim de tarde. Ninguém tinha marcado nada. Mas ela passou lá. No
banco. Aquele.

Ele já estava, sentado com um livro no colo. Parecia ler, mas os olhos não
focavam.

Quando viu ela, não sorriu. Não por falta de vontade. Mas porque
aquele momento parecia pedir outra coisa. Algo mais calmo. Algo mais
contido.

Ela sentou ao lado. Ele fechou o livro.

Silêncio.

Por alguns minutos, só o barulho do vento.

Então, ele falou:

— Eu lembrei de você ontem. — Em qual versão minha? — Na que ria


mais do que falava.

Ela sorriu, olhando pra frente.

— Eu lembrei de você hoje. — Em qual versão minha? — Na que


escutava com o corpo.

Eles riram. E, pela primeira vez em muito tempo, o banco não parecia um
lugar de espera. Parecia um lugar de paz.

Ninguém disse mais nada. E foi isso que fez tudo fazer sentido.

Você também pode gostar