UNIVERSIDADE KIMPA VITA
FACULDADE DE DIREITO
DEPARTAMENTO DE ENSINO E INVESTIGAÇÃO DE DIREITO PRIVADO
TRABALHO DE FIM DO CURSO
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO
JURÍDICO ANGOLANO
Apresentado por:
ARIETH ELVÍDIA PANZO FRANCISCO
Orientador: Dr Guerra Mfumu Mavinga
Uíge, 2024
Arieth Elvídia Panzo Francisco
ASS:______________________________________________
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO
JURÍDICO ANGOLANO
Trabalho de Fim do Curso apresentado
à Faculdade de Direito da Universidade
Kimpa Vita como parte do Requisito
para obtenção do Grau de Licenciatura
em Direito.
Presidente:____________________________________________________
1º Vogal:______________________________________________________
2º Vogal:______________________________________________________
ÍNDICE
EPÍGRAFE .................................................................................................... VII
DEDICATÓRIA ............................................................................................ VIII
AGRADECIMENTOS ..................................................................................... IX
RESUMO ........................................................................................................ X
SUMMARY .................................................................................................... XI
ABREVIATURAS E SIGLAS ......................................................................... XII
INTRODUÇÃO ................................................................................................ 1
PROBLEMÁTICA ............................................................................................ 2
HIPÓTESES ................................................................................................... 3
JUSTIFICATIVA .............................................................................................. 3
OBJECTO ....................................................................................................... 4
OBJECTIVOS ................................................................................................. 4
Geral ............................................................................................................... 4
Específicos ..................................................................................................... 4
DELIMITAÇÃO ............................................................................................... 5
METODOLOGIAS ........................................................................................... 5
PLANO SUMÁRIO .......................................................................................... 5
CAPÍTULO I- NOÇÕES GERAIS DO CRIME E PENA ................................... 7
SECÇÃO I- PANORAMA GERAL DAS NOÇÕES DE CRIME E PENA .......... 7
a) Breves considerações. ............................................................................. 7
b) Conceito Material. .................................................................................... 7
c) Conceito Formal. ...................................................................................... 7
d) Conceito Analítico. ................................................................................... 8
e) Finalidades e legitimação da pena criminal. ........................................... 10
f) O problema dos fins da pena criminal. ................................................... 11
g) Teorias Absolutas: a pena como instrumento de retribuição. ................. 12
h) Teorias Relativas: a pena como instrumento de prevenção. .................. 13
A pena como instrumento de prevenção geral. ...................................... 13
A pena como instrumento de prevenção especial ou individual. ............ 15
Teorias mistas ou unificadoras. .............................................................. 15
i) Posição adoptada por Angola. ............................................................... 15
j) Finalidade e limite das penas criminais. ................................................. 17
SECÇÃO II- O DIREITO PENAL INFORMÁTICO ........................................ 18
a) Conceito de Direito Penal Informático. ................................................... 18
b) Os Delitos Informáticos. ......................................................................... 19
c) Os três elementos da segurança informática. ........................................ 21
Confidencialidade ......................................................................................... 22
Integridade .................................................................................................... 22
Disponibilidade. ............................................................................................ 23
d) O bem jurídico protegido. ....................................................................... 24
e) Classificação dos crimes informáticos (cibernéticos). ............................ 25
Crimes cibernéticos próprios .................................................................. 26
Crimes cibernéticos impróprios .............................................................. 26
CAPÍTULO II- CARACTERÍSTICAS DO DIREITO INFORMÁTICO ............. 28
SECÇÃO I- PANORAMA DOUTRINAL DA DELINQUÊNCIA INFORMÁTICA
...................................................................................................................... 28
a) Interatividade. ......................................................................................... 28
b) Mobilidade (ou portabilidade). ................................................................ 29
c) Conversabilidade.................................................................................... 30
d) Conectividade. ....................................................................................... 31
e) Mundialização. ....................................................................................... 31
f) Fraccionabilidade. .................................................................................. 33
g) Divisibilidade. ......................................................................................... 33
h) Intangibilidade. ....................................................................................... 34
i) Disponibilidade. ...................................................................................... 36
j) Pluralidade. ............................................................................................ 37
k) Ubiquidade (ou simultaneidade). ............................................................ 38
l) Anonimidade. ......................................................................................... 39
m) Velocidade .......................................................................................... 40
SECÇÃO II- OS CRIMES INFORMÁTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO
NGOLANO .................................................................................................... 42
a) Aspectos históricos. ............................................................................... 42
b) Noção. .................................................................................................... 43
c) Classificação dos crimes informáticos no ordenamento jurídico angolano.
44
d) Pressupostos do crime informático. ....................................................... 44
e) Autor do crime informático. .................................................................... 45
SECÇÃO III- OS CRIMES CONTRA AS COMUNICAÇÕES E SISTEMAS
INFORMÁTICOS. ......................................................................................... 47
a) Sabotagem Informática. ......................................................................... 47
b) Falsificação Informática.......................................................................... 48
c) Burla Informática e nas comunicações................................................... 49
d) Reprodução ilegítima de Programa de computador, Base de Dados e
Topografia de Produtos Semicondutores...................................................... 50
SECÇÃO IV- PROCEDIMENTO CRIMINAL ................................................. 51
a) Legitimidade. .......................................................................................... 51
b) Tribunal competente............................................................................... 52
c) Provas. ................................................................................................... 53
d) Penas aplicáveis nos crimes informáticos. ............................................. 56
SECÇÃO V- A CRIMINOLOGIA E A DIFÍCIL PREVENÇÃO DO
DELINQUENTE INFORMÁTICO. ................................................................. 56
a) A prevenção primária. ............................................................................ 56
b) A prevenção secundária......................................................................... 57
c) Prevenção terciária. ............................................................................... 58
CONCLUSÕES ............................................................................................. 60
SUGESTÕES ............................................................................................... 61
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................. 62
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
EPÍGRAFE
“Faria muito bem para nós se diariamente passássemos uma hora reflectindo sobre a
vida de Cristo. Devemos considera-la ponto por ponto e deixar que a imaginação toma
conta de cada sena, especialmente as finais. Ao meditar em seu sacrifício por nós, nossa
confiança nele será mais constante, nosso amor será fortalecido, e serremos mais
semelhantes a ele. Se quisermos estar salvos no fim, terremos que aprender ao pé da
Cruz a lição de arrependimento e humilhação”.
“Ellen G. White. O Desejado de Todas as Nações, Casa Publicadora Brasileira, 2021, p.
58”
VII
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
DEDICATÓRIA
É com grande admiração, respeito e carinho que tenho por eles.
Meus pais e o meu querido irmão Sebastião Rafael Lupini, por todo apoio
incondicional, certamente, sem vocês, esta monografia não viria de modo algum,
ser uma realidade.
VIII
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao supremo Deus e criador, Deus todo-poderoso, por todos milagres.
Ao meu Benquista Orientador, Dr Guerra Mfumu Mavinga, pelo
profissionalismo, paciência e mestria que foi fundamental na orientação desta
obra. Igualmente, agradeço ao corpo docente desta Faculdade que durante o
tempo que passei nesta casa dedicaram suas vidas, saber e profissionalismo
para me transmitir os conhecimentos que hoje me possibilita a ter um grau
acadêmico nesta ciência.
Deixo também o meu muito obrigado pelo corpo directivo, docente e em
extensivo aos funcionários administrativos desta instituição (Faculdade de
Direito da UNIKIVI), muito obrigado pelo privilégio que me concederam de
frequentar aqui a minha formação.
Agradeço igualmente aos meus pais, o meu querido amor, a minha irmã Maria e
ao ilustre jurista André Neves Vieira (este último, pelo empenho no auxílio
durante a elaboração desta monografia, que sem dúvidas, foi um elemento
fundamental para o inicio e conclusão da referida monografia, o meu muito
obrigado.
A todos os meus amigos que sempre torceram por mim, o meu muito obrigado
de coração.
IX
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
RESUMO
A presente pesquisa com a temática “Os Crimes Cibernéticos no Ordenamento
Jurídico Angolano”. A pertinência deste tema fundamenta-se no facto de que a
República de Angola é um Estado Democrático e de Direito (conforme
estabelece o n.º 1 do artigo 2.º da CRA), promove e defende os direitos e
liberdades fundamentais do homem, quer como indivíduo quer como membro de
grupos sociais organizados. No leque dos Direitos, Liberdades e Garantias
Fundamentais garantidos às pessoas na Constituição incorporam o Direito à
integridade pessoal, Direito à identidade, à privacidade e à identidade,
Inviolabilidade da correspondência e das comunicações, Propriedade intelectual,
bem como os direitos de personalidade previstos na lei, mormente o Direito à
reserva sobre a intimidade da vida privada, Direito à imagem, Cartas-missivas
confidenciais, Publicação de cartas confidenciais, cartas-missivas não
confidenciais (artigos 32.º, 34.º e 42.º da CRA e 75.º, 76.º, 78.º e 80.º do CC).
O “Crime de Informática” é todo aquele procedimento que atenta contra os
dados, que faz na forma em que estejam armazenados, compilados,
transmissíveis ou em transmissão. Destarte, constitui crime informático todo
facto humano tipificado na lei penal como crime e que seja praticado por meio
do computador, telemóvel ou qualquer dispositivo electrônico.
No plano do Código Penal Angolano (artigos 437.º à 444.º) os crimes
cibernéticos ou informáticos são classificados em dois grandes tipos,
nomeadamente os crimes contra os dados informáticos e os crimes contra as
comunicações e sistemas informáticos. O bem jurídico, segundo Miguel Polaino
Navarrete, seria o bem ou o valor merecedor da máxima protecção jurídica, cuja
outorga é reservada às prescrições do Direito Penal. Assim, o bem jurídico
protegido pelo Direito Penal Informático é a segurança electrónica quer dos
equipamentos utilizados como dos seus próprios usuários, desde a sua honra,
integridade e outros bens jurídicos fundamentais.
Palavras-chave: Direito Penal Informático, Informática, Crime Informático, Bem
Jurídico, Cibercrime, Internet e Usuário.
X
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
SUMMARY
This research had as its theme “Cyber Crimes in the Angolan Legal System”. The
relevance of this topic is based on the fact that the Republic of Angola is a
Democratic State based on the rule of law (as established in paragraph 1 of article
2 of the CRA), promotes and defends fundamental human rights and freedoms,
either as an individual or as a member of organized social groups. The range of
Fundamental Rights, Freedoms and Guarantees guaranteed to people in the
Constitution includes the Right to personal integrity, Right to identity, privacy and
identity, Inviolability of correspondence and communications, Intellectual
property, as well as personality rights provided for by law , particularly the Right
to privacy, Right to image, Confidential letters, Publication of confidential letters,
non-confidential letters (articles 32, 34 and 42 of the CRA and 75. º, 76th, 78th
and 80th of the CC).
“Computer Crime” is any procedure that attacks data, in the form in which it is
stored, compiled, transmitted or being transmitted. Therefore, a computer crime
constitutes any human act that is typified by criminal law as a crime and that is
carried out using a computer, cell phone or any electronic device.
In terms of the Angolan Penal Code (articles 437 to 444), cyber or computer
crimes are classified into two main types, namely crimes against computer data
and crimes against communications and computer systems. The legal good,
according to Miguel Polaino Navarrete, would be the good or value worthy of
maximum legal protection, the granting of which is reserved for the prescriptions
of Criminal Law. Thus, the legal asset protected by IT Criminal Law is the
electronic security of both the equipment used and its users, including their honor,
integrity and other fundamental legal assets.
Keywords: Computer Criminal Law, IT, Computer Crime, Legal Good,
Cybercrime, Internet and User.
XI
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
ABREVIATURAS E SIGLAS
1ª/1º............................................................................................Primeira/Primeiro
Artº…………………………………………………………………………………Artigo
Art.°s..........................................................................................................Artigos
Apoud…………………….......……………...…….Conforme, Segundo, Citado por
CC……………………………………………………..……………………Código Civil
Cfr…………………………………………..………………………Conferir na página
CRA………………………………………..… Constituição da República de Angola
CPA………………………………………..…………………….Código Penal Angola
CPPA………………………………………….………….Código do Processo Penal
Ed……………………………………………………………………………..….Edição
E.P……………………………………………………………………Empresa Pública
[Link]……………………………………...………………………………….…. E outros
Idem……………………..………Mesmo autor, mesma obra mas página diferente
Ibdem………………………...….….Mesmo autor, mesma obra e mesma página
MP…………………………………………..……………………….Ministério Público
Nº……………………………………………………...………………………...Número
Op. Cit……………………...…………………....…...Opus citatum (Obra já Citada)
SS……………………………………………………………………………..Seguintes
Pp…………………………………………………………………………….....Páginas
Ti………………………………………………………… Tecnologias de Informação
XII
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
INTRODUÇÃO
O espantoso crescimento da informática nas últimas décadas, trouxe grandes
benfeitorias para a sociedade como um todo. Com estes avanços tecnológicos,
surgiram novos tipos penais e também a transformação de crimes tradicionais em
crimes não mais praticados na sua forma habitual. A sociedade moderna já não
consegue viver sem os computadores, seja no trabalho, na escola, no uso pessoal
e nas suas mais variadas utilidades.1
Na década dos anos 70, o principal criminoso era o técnico da informática. Na
década seguinte, nos anos 80, tanto os técnicos de informática quanto os
funcionários de instituições financeiras eram os principais criminosos. Já na actual
década, qualquer pessoa física pode praticar os crimes da informática, pelas
inúmeras oportunidades que as novas tecnologias e os novos ambientes
organizacionais proporcionam. Internet em poucas palavras é um conjunto de redes
mundial, que teve origem inglesa, onde “inter” vem de internacional, e “net” significa
rede, ou seja, rede de computadores mundial.2
A internet é um meio pelo qual se permite o acesso a informações de todos os tipos,
além de obter uma grande variedade de recursos e serviços, como
compartilhamento de arquivos, e-mails, serviços de comunicação ao vivo, redes
sociais, entre outros.3
A internet (ou a “Rede” como também é conhecida) é um sistema de redes de
computadores interconectadas de proporções mundiais, atingindo muitos países e
usuários. Do conceito de internet partimos para, o conceito de crimes cibernéticos,
devido esse meio tem uma grande crescente, sendo que os usuários ficam
camuflados atrás de uma tela de um computador, perdendo um pouco de vergonha,
vindo a praticar delitos através desse modo. 4
São de suma importância esclarecer que não existe uma única nomenclatura sobre
crimes cibernéticos, e sim várias, sendo que não há um consenso sobre a melhor
1
Cfr. ALBUQUERQUE, Roberto Chacon de. A Criminalidade Informática. São Paulo: Juarez de
Oliveiras. 2006. p. 13.
2
Cfr. ANDREUCCI, Ricardo António. Legislação Penal Especial. 2ª Edição, Ver. Actual e Aume.
São Paulo: Saraiva. 2006. p. 8.
3
Cfr. Ibidem.
4
Cfr. Ibidem.
1
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
denominação que relacionam os delitos com a tecnologia. Segundo Antônio
Chaves, cibernética é a “ciência geral dos sistemas informantes e, em particular,
dos sistemas de informação”5 . Através do conceito analítico finalista de crime, pode
ser chegar a conclusão de que os crimes cibernéticos são todas as condutas
típicas, antijurídicas e culpáveis praticadas contra ou com a utilização dos sistemas
da informática.
O “Crime de Informática” é todo aquele procedimento que atenta contra os dados,
que faz na forma em que estejam armazenados, compilados, transmissíveis ou em
transmissão.6
Existe uma classificação doutrinária que divide os crimes cibernéticos em dois tipos,
nomeadamente os Crimes Cibernéticos Próprios e os Crimes Cibernéticos
Impróprios. Os crimes cibernéticos próprios são aqueles que só podem ser
praticados na informática, ou seja, a execução do crime e a consumação ocorrem
nesse meio, trata-se de tipos novos em que o bem jurídico tutelado é a informática,
são os crimes praticados contra os dados da vitima que utiliza o computador, ou o
celular da mesma. Nos crimes cibernéticos impróprios são aqueles que são
tipificados, no Código Penal, pois violam bens jurídicos comuns, ferem à dignidade
da pessoa humana, entre outros crimes que são praticados através do meio
informativo. No plano do Código Penal Angolano7 os crimes cibernéticos ou
informáticos são classificados em dois grandes tipos, nomeadamente os crimes
contra os dados informáticos e os crimes contra as comunicações e sistemas
informáticos.
PROBLEMÁTICA
Estando o nosso tema centralizado num estudo aprofundado a respeito dos crimes
cibernéticos no ordenamento jurídico angolano, especialmente os crimes contra as
comunicações e sistemas informáticos, levantamos as seguintes questões:
1- O que é o crime cibernético ou informático?
2- Quem são os sujeitos no crime cibernético?
5
Cfr. CHAVES, Antônio apud SILVA, Rita de Cássia Lopes- Direito Penal e Sistema Informático, p.
19.
6
Cfr. REIS, Maria Helena Junqueira. Crime Informático. Revista dos Tribunais. São Paulo: Revista
dos Tribunais, v.670: pp.180-181, 1991.
7
Cfr. Artigos 437.º à 444.º do referido Código.
2
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
3- Como são classificados os crimes cibernéticos no ordenamento
jurídico angolano?
4- Qual é o bem jurídico tutelado nos crimes cibernéticos?
HIPÓTESES
Sabendo que uma hipótese é uma formulação provisória das respostas às
perguntas levantadas na problemática, com a intenção de posteriormente ser
demonstrada ou verificada.
1- Provavelmente os crimes cibernéticos são todas as condutas típicas,
antijurídicas e culpáveis praticadas contra ou com a utilização dos sistemas
da informática e que atenta fundamentalmente contra os dados, que faz na
forma em que estejam armazenados, compilados, transmissíveis ou em
transmissão.
2- É possível que sejam agentes nos crimes informáticos todas as pessoas,
desde que que venha utilizar um sistema da informática e atenta contra
dados ofendendo assim, bens jurídicos penais legalmente salvaguardados.
3- É provável que o Código Penal Angolano classifique os crimes cibernéticos
em dois grandes grupos, a saber: os crimes contra os dados informáticos e
os crimes contra as comunicações e sistemas informáticos.
4- Provavelmente, a segurança dos sistemas informáticos seja o bem jurídico
tutelado nestes crimes pela lei penal.
JUSTIFICATIVA
O nosso ensejo em abordar esta temática, reveste-se de uma tamanha valoração
no panorama jurídico angolano, sendo que a República de Angola é um Estado
Democrático e de Direito, promove e defende os direitos e liberdades fundamentais
do homem, quer como indivíduo quer como membro de grupos sociais
organizados8. No leque dos Direitos, Liberdades e Garantias Fundamentais
garantidos às pessoas na Constituição incorporam o Direito à integridade pessoal 9,
Direito à identidade, à privacidade e à identidade10, Inviolabilidade da
8
Cfr. N.º 1 e 2 do Artigo 2.º da Constituição da República de Angola de 2010, pela Lei n.º 18/21, de
16 de Agosto.
9
Cfr. Artigo 31.º. Idem.
10
Cfr. Artigo 32.º. Idem
3
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
correspondência e das comunicações11, Propriedade intelectual12, bem como os
direitos de personalidade previstos na lei 13, mormente o Direito à reserva sobre a
intimidade da vida privada, Direito à imagem, Cartas-missivas confidenciais,
Publicação de cartas confidenciais, cartas-missivas não confidenciais.
A consagração e preservação destes direitos pela lei angolana, merecem uma
tutela penal, pois, o Código Penal Angolano tutela os bens jurídicos essenciais à
salvaguarda do Estado e dos cidadãos, bem como o desenvolvimento das
instituições, sem dúvida, constituem princípios e valores fundamentais em que
assenta a República de Angola. Neste sentido, temos verificado uma acentuada
desvalorização dos direitos de personalidade das pessoas nas mais diversas
plataformas digitais, bem como as sucessivas burlas nos mercados virtuais e outras
situações equiparadas que atentam contra a honra, bom nome, imagem e
desenvolvimento quer das pessoas e das instituições angolanas, razão pela qual,
tencionamos apresentar a doutrina jurídica atinente a esta matérias de modo a
despertar a atenção de toda comunidade que opera neste sentido de modo a ajudar
na abordagem e enquadramento desta temática.
OBJECTO
A nossa temática visa estudar de forma prática, suscita e objectiva, a problemática
dos crimes cibernéticos no ordenamento jurídico angolano, desde os conceitos
jurídicos doutrinais, seus sujeitos, consequência jurídica bem como o devido
procedimento criminal.
OBJECTIVOS
Geral
Analisar a noção jurídica do crime cibernético, suas modalidades e
características previstos no ordenamento jurídico angolano.
Específicos
Classificar os crimes informáticos previstos no Código Penal Angolano;
Identificar o bem jurídico penal tutelado nos crimes cibernéticos;
11
Cfr. Artigo 34.º. Idem
12
Cfr. Artigo 42.º. Idem
13
Cfr. Artigos 75.º, 76.º, 78.º e 80.º todos do Código Civil Angolano.
4
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
Demonstrar as consequências jurídicas previstas pela lei nos crimes
cibernéticos.
DELIMITAÇÃO
A luz do ordenamento jurídico angolano, as redes e sistemas informáticos são
protegidos por lei (isto é, pela lei penal), visando fundamentalmente, a protecção
contra qualquer acto de ataque, roubo informático, ciber-ataque e incidentes
informáticos porém, o campo do nosso estudo limita-se a uma análise incontornável
dos crimes contra as comunicações e sistemas de informação, desde os seus
pressupostos legais, seus agentes, procedimento criminal, bem como a
competência para julgar os mesmos crimes e o bem jurídico protegido no
ordenamento jurídico Angolano.
METODOLOGIAS
Todo trabalho científico necessita de um instrumento que lhe conduza a um certo
objectivo. E este instrumento é denominado por metodologia. Devido ao imperativo
científico, nesta pesquisa, amos utilizar os seguintes métodos:
Investigativo: com base nas pesquisas de livros e sites sustentamos melhor
a nossa problemática, tendo em conta as doutrinas que serão consultadas;
Dedutivo: permitiu-nos formular hipóteses para uma provável solução sobre
a problemática levantada no presente trabalho;
Hermenêutico: nos permitiu na interpretação das normas jurídicas, porque
as normas jurídicas nem sempre são claras e compreensível, no entanto,
com este procuraremos chegar ao verdadeiro sentido e alcance das normas;
Bibliográfico: através deste, procuramos, partindo de uma e várias
doutrinas referente a temática em abordagem, enquadrar à nossa realidade
e adoptar uma posição, de forma fundamentada.
PLANO SUMÁRIO
A problemática dos crimes cibernéticos, na sua especificidade e por conveniência
nossa, articulamos em dois (2) capítulos, relacionados com a particularidade do
tema e, em conformidade com a delimitação acima feita, de seguinte maneira,
nomeadamente a Introdução, o Desenvolvimento que se desdobra em três
5
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
capítulos com suas secções e subsecções devidamente organizadas e sintetizadas
entre si e por fim, as Conclusões, Sugestões e Referências Bibliográficas.
Sedo que no primeiro capítulo, abordamos a respeito das Noções Gerais do Crime,
seu panorama geral, tipologias, teorias da pena e o enquadramento jurídico
concreto no ordenamento jurídico angolano.
Já no segundo e último capítulo, tratamos de forma clara e sintética a respeito das
características do Direito Informático, seu panorama no mundo virtual partindo da
globalizando e da mundialização, que certamente tornou o mundo numa aldeia
global, seus desafios e compreensão. Igualmente, abordamos
pormenorizadamente a problemática dos crimes informáticos ou cibernéticos no
ordenamento jurídico angola, desde a sua base legal, compreensão e os aspectos
ligados a noção criminológica deste fenómeno.
6
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
CAPÍTULO I- NOÇÕES GERAIS DO CRIME E PENA
SECÇÃO I- PANORAMA GERAL DAS NOÇÕES DE CRIME E PENA
Nesta primeira secção deste capítulo, tencionamos abordar as questões relativas a
noções fundamentais de crime e pena, seus pressupostos e caracterização.
Ademais, abordar-se á igualmente as tipologias de crimes bem como a
problemática relacionada às teorias de pena, sua função social e modos de
aplicação no ordenamento jurídico angolano de modo a trazer uma claridade sobre
os fundamentos da pena e sua finalidade, particularmente no ordenamento jurídico
angolano.
a) Breves considerações.
Em verdade, é a sociedade a criadora inaugural do crime, qualificativo que reserva
às condutas ilícitas mais gravosas e merecedoras de maior rigor punitivo. Após,
cabe ao legislador transformar este intento em figura típica, criando a lei que
permitirá a aplicação do anseio social aos casos concretos. Nas palavras de Michel
Foucault: “é verdade que é a sociedade que define em função de seus interesses
próprios, o que deve ser considerado como crime: este, portanto, não é natural”. A
partir daí, verifiquemos os três prismas dispensados ao conceito de crime. 14
b) Conceito Material.
É a concepção da sociedade sobre o que pode e deve ser proibido, mediante a
aplicação de sanção penal. É, pois, a conduta que ofende um bem juridicamente
tutelado, merecedora de pena.15
c) Conceito Formal.
É a concepção do direito acerca do delito, constituindo a conduta proibida por lei,
sob ameaça de aplicação de pena, numa visão legislativa do fenómeno. Cuida-se
na realidade, de fruto do conceito material, devidamente formalizado. Quando a
sociedade entende necessário criminalizar determinada conduta através dos meios
naturais de pressão, leva sua demanda ao legislativo, que aprovando uma lei,
materializa o tipo penal. Assim sendo, respeita-se o princípio da legalidade (ou
14
Cfr. COSTA, Paulo José da. Direito Penal- Curso Completo. 7ª Ed.; Saraiva, 2000. p. 17.
15
Cfr. Ibidem.
7
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
reserva legal, para o qual não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena
sem lei anterior que a comine.
d) Conceito Analítico.
É a concepção da ciência do direito, que não define na essência, do conceito formal.
Trata-se de uma conduta típica, antijurídica e culpável, vale dizer, uma acção ou
omissão ajustada a um modelo legal de conduta proibida (tipicidade), contrária ao
direito (antijuridicidade) e sujeita a um juízo de reprovação social incidente sobre o
facto e o seu autor, desde que existam imputabilidade consciente potencial de
ilicitude e exigibilidade e possibilidade de agir conforme o direito. Justamente
quanto ao conceito analítico é que se podem encontrar as maiores divergências
doutrinárias.16
Há quem entende ser crime, do ponto de vista analítico:
Um facto típico e antijurídico, sendo a culpabilidade apenas um pressuposto
de aplicação da pena (René Ariel Dotti, Damásio de Jesus, Julio Fabbrini
Mirabete, Celso Delmanto, Flávio Augusto Monteiro Barros, entre outros);
Um facto típico, antijurídico, culpável e punível (Basileu Garcia, Munoz
Conde, Hassemer Baltaglini, Giorgio Marinuccii e Emilio Dolcini, entre
outros);
Um facto típico e culpável estando a antijuridicidade insta ao próprio tipo
(Miguel Reale Júnior, entre outros adeptos da teoria dos elementos
negativos do tipo);
Facto típico antijurídico e punível, constituindo a culpabilidade a ponte que
liga o crime à pena;
Um facto típico, antijurídico e culpável. Nesta corrente, que é
maioritariamente no Brasil e com a qual concordamos, dividem-se Finalistas
(Assistoledo, Heleno Fragoso etc…) e Causalistas (Nelson Hungria,
Frederico Marques Aníbal Bruno etc..).
O causalismo busca ver o conceito de conduta despido de qualquer valoração, ou
seja, neutro (acção ou omissão voluntária e consciente que exterioriza movimentos
corpóreos). O dolo e a culpa estão situados na culpabilidade. Logicamente, para
16
Cfr. COSTA, Paulo José da. Direito Penal- Curso Completo. 7ª Ed.; Saraiva, 2000. p. 18.
8
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
quem adopta o causalismo, impossível se torna acolher bipartido de crime (facto
típico e antijurídico), como ensina Frederico Marques para quem o delito possui,
objectivamente falando, dois elementos (tipicidade e antijuridicidade), mas não
prescinde da parte subjectiva (culpabilidade) para formar-se completamente.
O finalismo, de Hans Welzel (que aliás sempre considerou o crime facto típico,
antijurídico e culpável, em todas as suas obras), crendo que a conduta deve ser
valorada, porque se trata de um juízo de realidade e não fictício, deslocou o dolo e
a culpa da culpabilidade para o facto típico. Assim, a conduta sob o prisma finalista,
é a acção ou omissão voluntária e consciente que se despiu-o da consciência da
ilicitude, que continuou fixada na culpabilidade. Contudo, continuamos, pois,
convencidos de que crime é o facto típico, antijurídico e culpável.17
Para a compreensão da noção do crime, existe uma concepção geral a ser tida em
conta. Ora, esta concepção pode ser definida segundo o autor, como tripartida,
considerando somente os predicados da acção, tipicidade, ilicitude
(antijuridicidade) e culpabilidade. Estes predicados são na verdade os elementos
constitutivos do crime, que será visto como um comportamento humano dominado
(ou dominável) pela vontade (acção que nesta pesquisa não se consideram
elementos, sendo-os definindo na definição), acção esta que preenche os
elementos tipificados de um facto proibido (tipicidade), realizados em condições
que a ordem jurídica o sofra como dano não justificado (ilicitude) que o agente
livremente provocou ou se lhe reprova (culpabilidade)18
Quanto a pena da pena, devemos ter em conta que o Direito enquanto um conjunto
de normas de vária índole, que se destinam a regulação do comportamento
humano na sociedade, é produto do homem livre e consciente: no binómio
liberdade e consciência, surge o primeiro homem seguro de que, por si só e por
simples consciência moral, as vezes há a vontade humana que se manifesta
desenfreadamente errónea e o segundo homem destinatário da norma, é
consciente não só do seu acto, do momento e das circunstâncias da sua prática,
bem como da existência da norma jurídica e das quiçá dos elementos que a
constituem (previsão, estatuição e sanção). Esta estrutura da norma perfeita prediz
17
Cfr. COSTA, Paulo José da. Direito Penal- Curso Completo. 7ª Ed.; Saraiva, 2000. p. 20.
18 Cfr. BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito Penal. Parte Geral. 5ª Edição, Revista dos Tribunais
São Paulo. 1999. pp. 191-192.
9
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
que o incumprimento dos primeiros elementos invoca consequentemente o terceiro
elemento (sanção), que é em outros termos a pena, tal como a define Damásio E.
de Jesus, “pena é a sanção aflitiva imposta pelo Estado, mediante acção penal, ao
autor de uma infracção penal como retribuição de seu acto ilícito, consistente na
diminuição de um bem jurídico, e cujo fim é evitar novos delitos” 19.
De forma restrita, a norma jurídica é composta por preceito e sanção; onde o
primeiro exprime a proibição e o comando (preceito primário) e a sanção (preceito
secundário), é a consequência do descumprimento do preceito primário20.
É nestes termos, que Paulo José da Costa conceitua a pena como sendo
“consequência jurídica do crime, ou seja, a sanção prefixada pela violação do
preceito penal”21. Guilherme de Sousa Nucci, para quem, pena: “é a sanção
imposta pelo estado, através da acção penal, ao criminoso, cuja finalidade é a
retribuição ao delito perpetrado e a prevenção a novos crimes” 22.
e) Finalidades e legitimação da pena criminal.
Como já nos referimos atrás que o Direito enquanto um conjunto de normas de
vária índole, que se destinam a regulação do comportamento humano na
sociedade, é produto do homem livre e consciente: no binómio liberdade e
consciência, surge o primeiro homem seguro de que, por si só e por simples
consciência moral, as vezes há a vontade humana que se manifesta
desenfreadamente errónea e o segundo homem destinatário da norma, é
consciente não só do seu acto, do momento e das circunstâncias da sua prática,
bem como da existência da norma jurídica e das quiçá dos elementos que a
constituem (previsão, estatuição e sanção).
Esta estrutura da norma perfeita prediz que o incumprimento dos primeiros
elementos invoca consequentemente o terceiro elemento (sanção), que é em
outros termos a pena, tal como a define Damásio E. de Jesus, “pena é a sanção
aflitiva imposta pelo Estado, mediante acção penal, ao autor de uma infracção penal
19 Cfr. JESUS, Damásio E. de. Direito Penal. Parte Geral, 1.º Volume, 24.ª Edição. Saraiva. 2001.
p. 519.
20 Cfr. COSTA, Paulo José da. Direito Penal- Curso Completo. 7.ª Edição. Saraiva, 2000. p. 117.
21 Cfr. Ibidem. p. 11
22 Cfr. NUCCI, Guilherme de Sousa. Manual de Direito Penal. 3ª Edição. Revista dos Tribunais.
2007. p. 371.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
como retribuição de seu acto ilícito, consistente na diminuição de um bem jurídico,
e cujo fim é evitar novos delitos”23.
De forma restrita, a norma jurídica é composta por preceito e sanção; onde o
primeiro exprime a proibição e o comando (preceito primário) e a sanção (preceito
secundário), é a consequência do descumprimento do preceito primário 24.
É nestes termos, que Paulo José da Costa conceitua a pena como sendo
“consequência jurídica do crime, ou seja, a sanção prefixada pela violação do
preceito penal”25. Guilherme de Sousa Nucci, para quem, pena: “é a sanção
imposta pelo estado, através da acção penal, ao criminoso, cuja finalidade é a
retribuição ao delito perpetrado e a prevenção a novos crimes” 26.
Os fins das penas podem ser mediatos e imediatos. Os fins mediatos das penas
confundem-se com os fins do próprio direito penal que se traduz na defesa ou tutela
de valores e interesses que em certa comunidade são acolhidos como
fundamentais e por isso merecedores de tutela penal. No fim do século XVIII, com
a substituição das monarquias pelos Estados de direito, os fundamentos e
legitimação do direito penal passaram a radicar na necessidade social de garantir
aos direitos individuais e a vida em sociedade, e a pena passa a ser vista como
mal, embora socialmente necessário, cuja finalidade é a de prevenção geral da
intimidação ou dissuasão da prática do crime, mas devendo a sua aplicação estar
subordinado aos princípios da legalidade e da oportunidade27.
f) O problema dos fins da pena criminal.
O problema dos fins (rectius das finalidades) da pena criminal é tão velho quanto a
própria história do direito penal e tem sido discutido, vivamente e sem solução de
continuidade, pela filosofia (tanto pela filosofia geral, como pela filosofia do direito),
pela doutrina do Estado e pela ciência conjunta do direito penal. A razão de um tal
interesse e da sua persistência ao longo dos tempos está em que, à sombra do
23 Cfr. JESUS, Damásio E. de. Direito Penal. Parte Geral, 1.º Volume. 24.ª Edição. Saraiva. 2001.
p. 521.
24 Cfr. COSTA, Paulo José da. Direito Penal- Curso Completo. 7.ª Edição. Saraiva. 2000. p. 117.
25 Cfr. Ibidem. p. 11
26 Cfr. NUCCI, Guilherme de Sousa. Manual de Direito Penal. 3ª Edição. Revista dos Tribunais.
2007. p. 371.
27 Cfr. CARVALHO, Américo Taipa de. Direito Penal. Parte Geral-Questões Fundamentais. Teoria
Geral do Crime. 2ª Edição. Coimbra Editora. p. 55
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
problema dos fins das penas, é no fundo toda a teoria penal que se discute e, com
particular incidência, as questões fulcrais da legitimação, fundamentação e função
da intervenção penal estatal.
As respostas dadas ao longo de muitos séculos ao problema dos fins da pena, seja
pela ciência do direito penal, seja pela teoria do Estado ou pela própria filosofia,
reconduzem-se a duas (rectior, a três) teorias fundamentais: as teorias absolutas,
de um lado, ligadas essencialmente às doutrinas da retribuição ou da expiação; as
teorias relativas, de outro lado, que se analisam em dois grupos de doutrinas: as
doutrinas da prevenção geral, de uma parte, as doutrinas da prevenção especial ou
individual, de outra parte.28
Toda a interminável querela à roda dos fins das penas é recondutível a uma destas
posições ou uma das múltiplas variantes através das quais se tem tentado a sua
combinação. De cada uma destas teorias será dada, em seguida, notícia suscinta,
para depois se tentar a sua introdução na história das doutrinas penais e, por esta
via, acabar por se dar a conhecer o ponto de vista próprio sobre o problema.
g) Teorias Absolutas: a pena como instrumento de retribuição.
Para este grupo de teorias, a essência da pena criminal reside na retribuição,
expiação, reparação ou compensação do mal do crime e nesta essência se esgota.
Se, apesar de ser assim, a pena pode assumir efeitos reflexos ou laterais
socialmente relevantes (de intimidação da generalidade das pessoas, de
neutralização dos delinquentes, de ressocialização), nenhum deles contende com
a sua essência e natureza, nem se revela susceptível de a modificar: uma tal
essência e natureza, é função exclusiva do facto que (no passado) se cometeu, é
a justa paga do mal que com o crime se realizou, é o justo equivalente do dano do
facto e da culpa do agente.29
Como teoria dos fins da pena, porém, a doutrina da retribuição deve ser recusada.
Logo porque ela não é (verdadeiramente não quer ser, nem pode ser) uma teoria
dos fins da pena. Ela visa justamente o contrário, isto é, a consideração da pena
como entidade independente de fins, como entidade que, no dizer de Maurach
28
Cfr. COSTA, Paulo José da. Direito Penal. Curso Completo. 7.ª Edição. Saraiva. 2000. p. 117.
28 Cfr. Ibidem. p. 14.
29
Cfr. COSTA, Paulo José da. Op. Cit. p. 18.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
louvado na lição de Hegel, devem antes ser consideradas só finalidades empírico-
sociais: quando se pergunta pelo fim da pena indaga-se de efeitos relevantes na e
para a vida comunitária.
A doutrina da retribuição deve ser recusada ainda pela sua inadequação à
legitimação e ao sentido da intervenção penal. Estas podem apenas resultar da
necessidade, que ao Estado incumbe satisfazer, de proporcionar as condições de
existência comunitária, assegurando a cada pessoa o espaço possível de
realização livre da sua personalidade. Só isto pode justificar que o Estado furte a
cada pessoa o mínimo indispensável de direitos, liberdades e garantias para
assegurar os direitos dos outros e, com eles, da comunidade. Para cumprimento
de uma tal função, a retribuição, a expiação ou a compensação do mal do crime
constituem meios inidóneos e ilegítimos. 30
h) Teorias Relativas: a pena como instrumento de prevenção.
Contrariamente às teorias absolutas, as teorias relativas (do latim referir-se a) são,
com plena propriedade, teorias de fins. Também elas reconhecem que, segundo a
sua essência, a pena se traduz num mal para quem a sofre. Mas como instrumento
político-criminal destinado a actuar no mundo, não pode a pena bastar-se com essa
característica, em si mesma destituída de sentido social-positivo; para como tal se
justificar tem de usar desse mal para alcançar a finalidade precípua de toda a
política criminal, a prevenção ou profilaxia criminal.31
A crítica geral, proveniente dos adeptos das teorias absolutas, que ao longo dos
tempos mais se tem feito ouviu às teorias relativas é a de que, aplicando-se as
penas a seres humanos em nome de fins utilitários ou pragmáticos que pretendem
alcançar no contexto social, elas transformariam a pessoa humana em objecto, dela
se serviriam para a realização a sua eminente dignidade.32
A pena como instrumento de prevenção geral.
Nas teorias preventivas há que começar por distinguir tanto historicamente, como
segundo o sentido entre as doutrinas da prevenção geral e as doutrinas da
prevenção especial ou individual. O denominador comum das doutrinas da
30
Cfr. CHAVES, Antônio apud SILVA, Rita de Cássia Lopes. Direito Penal e Sistema Informático.
2000. p. 35.
31
Cfr. DIAS, Jorge Figueiredo. Direito Penal. Tomo I. 2.ª Edição. Coimbra Editora. 2007. p. 52.
32
Cfr. Ibidem.
13
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
prevenção geral radica na concepção da pena como instrumento político-criminal
destinado a actuar (psiquicamente) sobre a generalidade dos membros da
comunidade afastando-os da prática de crimes através da ameaça penal estatuída
por lei, da realidade da sua aplicação e da efectividade da sua execução.
A aludida actuação estatal sobre a generalidade das pessoas assume porém ainda
uma dupla perspectiva:
A pena pode ser concebida, por uma parte, como forma estatalmente acolhida de
intervenção das pessoas através do sofrimento que com ela se inflige ao
delinquente e cujo receio as conduzirá não cometerem factos puníveis: fala-se
então a este propósito de prevenção geral negativa ou de intimidação. Mas a pena
pode ser concebida, por outra parte, como forma de que o Estado se serve para
manter e reforçar a confiança da comunidade na validade e na força de vigência
das suas normas de tutela de bens jurídicos e assim, no ordenamento jurídico-
penal; como instrumento por excelência destinado a revelar perante a comunidade
a inquebrantabilidade da ordem jurídica, apesar de todas as violações que tenham
lugar e a reforçar, por esta via, os padrões de comportamento adequado as normas:
neste sentido se fala hoje de uma prevenção geral positiva ou de integração.33
O ponto de partida das doutrinas da prevenção geral é prezável, logo que ao
contrário do que sucede com as doutrinas da retribuição, ele se liga directa e
imediatamente à função do direito penal de tutela subsidiária de bens jurídicos.
Do ponto de vista desta, bem se compreende que se exija da pena uma actuação
preventiva sobre a generalidade dos membros da comunidade seja no momento da
sua ameaça abstracta, seja no da sua efectiva execução. Só assim se
compreendendo a tão antiga, quanto exacta (e hoje mesmo, em larga medida,
empiricamente comprovada) asserção de Montesquieu segundo o qual “si on
examine la cause de tous les relâchements, on vera qu ` elle vient de l´ impunité
des crimes et non de la modération des peines”34.
33
Cfr. DIAS, Jorge Figueiredo. Direito Penal. Tomo I. 2.ª Edição. Coimbra Editora. 2007. p. 55.
34 Cfr. MONTESQUIEU, De l´ Esprit des Lois. Dalibon. Vol. VI. 1822. p. 413.
14
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
A pena como instrumento de prevenção especial ou individual.
As doutrinas da prevenção especial ou individual têm por denominador comum a
ideia de que a pena é um instrumento de actuação preventiva sobre a pessoa do
delinquente com o fim de evitar que, no futuro, ele cometa novos crimes. Neste
sentido se deve falar de uma finalidade de prevenção da reincidência. Neste corpo
teórico unitário, porém, divergências profundas surgem quando se pergunta de que
forma deve a pena cumprir aquela sua finalidade?
Em definitivo, do que deve tratar-se no efeito de prevenção especial é, bem mais
modestamente, de com respeito pelo modo de ser do delinquente, pelas suas
concepções sobre a vida e o mundo pela sua posição própria face aos juízes de
valor do ordenamento jurídico, criar as condições necessárias para que ele possa,
no futuro, continuar a viver a sua vida sem cometer crimes. Neste último sentido se
podendo afirmar com justeza que a finalidade preventivo-especial da pena se
traduz e se traduz só na reincidência. Todas estas doutrinas se irmanam, todavia,
no propósito de lograr a reinserção social, a ressocialização (ou talvez melhor: a
inserção social, a socialização, porque pode tratar-se de alguém que foi desde
sempre um dessocializado) do delinquente e merecem, nesta medida que elas se
considerem como doutrinas da prevenção especial positiva ou de socialização. 35
Teorias mistas ou unificadoras.
Nas últimas décadas e ainda hoje, a maioria das doutrinas sobre fins das penas
radica em tentativas, as mais variadas, de combinar, sob diversos pontos vista,
algumas ou todas as doutrinas que atrás ficaram referenciadas. Há, todavia, ainda
aqui, que considerar com certa autonomia dos grupos de teorias mistas ou
unificadoras, consoante na combinação entrem ainda a ideia retributiva ou apenas
ideias preventivas. O juízo que sobre um grupo é outro se faça não é o mesmo; e
o compreendê-lo permite porventura, muitos títulos, uma melhor penetração da
solução que deve hoje conferir-se a todo o problema dos fins.36
i) Posição adoptada por Angola.
A este respeito e de acordo o ordenamento jurídico angolano, vale anunciar o
princípio da legalidade na aplicação de uma pena instituída no plano
35
Cfr. DIAS, Jorge Figueiredo. Direito Penal. Tomo I. 2.ª Edição. Coimbra Editora. 2007. p. 57.
36
Cfr. Ibidem.
15
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
Constitucional37 consequência do Estado democrático de direito, tendo o seu
fundamento na Constituição e da lei38 visando a observância da lei nos casos de
aplicação de uma pena, constituindo este um princípio fundamental garantido
constitucionalmente.
Assim, no plano da Código Penal Angolano39 esclarece as finalidades das penas e
medidas de segurança (vide artigo 40.º do CPA) segundo o qual:
1- A aplicação de penas e de medidas de segurança visa a protecção de bens
jurídicos essenciais e subsistência da comunidade e a reintegração do
agente na sociedade.
2- A execução da pena de prisão deve orientar-se no sentido da reintegração
da reintegração do recluso na sociedade, preparando-o para conduzir a sua
vida de modo socialmente responsável, sem cometer crimes.
3- A execução da pena de prisão serve também a defesa da sociedade,
prevenindo o cometimento de crimes.
A bom rigor, fazendo uma análise entre as duas teorias com o conteúdo legal
constante nas alíneas do artigo acima citado, no tocante as finalidades da pena,
não há dúvidas em afirmarmos que a tese acolhida no ordenamento jurídico
angolano é a da teoria relativa, que se desdobra em duas prevenções, sendo que
o n.º 3 do referido artigo acolhe a teoria da prevenção geral do crime, que defende
a sociedade prevenindo o cometimento de crimes e por fim, o n.º 2 do mesmo
artigo, acolhe a doutrina da pena como instrumento de prevenção especial do crime
visando a reeducação e reintegração do agente na sociedade prevenindo-lhe sobre
o cometimento de novos crimes.
Portanto, apontadas as várias críticas das teorias supracitas, hoje é consenso que
na aplicação de uma pena está implícita a ideia da retribuição, de intimidação do
delinquente e, ao mesmo tempo que pune e castiga o criminoso, a pena também
visa a alertar a maioria das pessoas na necessidade de se absterem de praticar
tais actos sob pena de também verem pesar sobre quem prevaricar a mesma
medida punitiva.
37 Cfr. N.º 2 do Artigo 6.º e n.º 2 do artigo 65.º ambos da Constituição da República de Angola de
2010, pela lei n.º 18/21, de 16 de Agosto..
38 Cfr. N.º 1 do Artigo 2.º da CRA.
39 Cfr. Aprovado pela lei n.º 38/20, de 11 de Novembro.
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A todo a todo, a redacção do novo Código Penal vem contemplar não só a finalidade
das penas como também das medidas de segurança e acolhe uma ideia eclética
que se baseia na retribuição, prevenção e correcção (ver o artigo 40.º do CPA).
j) Finalidade e limite das penas criminais.
No que refere a finalidade das penas criminais, é sempre importante esclarecer que
se a retribuição não tem qualquer palavra a dizer em matéria de finalidades da
pena, a ela pertence, segundo a sua história e segundo o seu conteúdo, o mérito
indeclinável de ter posto em evidência a essencialidade do princípio da culpa e do
significado deste para o problema das finalidades da pena. Segundo aquele
princípio “não há pena sem culpa e a medida da pena não pode em caso algum
ultrapassar a medida da culpa”. A verdadeira função da culpa no sistema punitivo
reside efectivamente numa condicional “proibição de excesso”; a culpa não é
fundamento da pena, mas constitui o seu pressuposto necessário e o seu limite
inultrapassável: o limite inultrapassável por quaisquer considerações ou exigências
preventivas, sejam de prevenção geral positiva de integração ou antes negativa de
intimidação, sejam de prevenção especial positiva de socialização ou antes
negativa de segurança ou de neutralização.40
A função da culpa, deste modo inscrito na vertente liberal do Estado de Direito é,
por outras palavras, a de estabelecer o máximo de pena ainda compatível com as
exigências de preservação da dignidade da pessoa e de garantia do livre
desenvolvimento da sua personalidade nos quadros próprios de um Estado de
Direito democrático. E a de, por esta via, constituir uma barreira intransponível ao
intervencionismo punitivo estatal e um veto incondicional aos apetites abusivos que
ele possa suscitar.41
A redacção do Novo Código Penal Angolano acolhe este fundamento nos termos
dos n.ºs 1 e 2 do artigo 42.º segundo o qual “a culpa é pressuposto irrenunciável
de aplicação de qualquer pena e em caso algum a pena pode ultrapassar a medida
da culpa”. A teoria penal aqui defendida pode resumir-se do modo seguinte:
1- Toda a pena serve finalidades exclusivas de prevenção geral e especial;
40
Cfr. DIAS, Jorge Figueiredo. Direito Penal. Tomo I. 2.ª Edição. Coimbra Editora. 2007. p. 59.
41
Cfr. DIAS, Jorge Figueiredo. Op. Cit. p. 61.
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2- A pena concreta é limitada, no seu máximo inultrapassável, pela medida da
culpa;
3- Dentro deste limite máximo ela é determinada no interior de uma moldura de
prevenção geral de integração, cujo limite superior é oferecido pelo ponto
óptico de tutela dos bens jurídicos e cujo limite inferior é constituído pelas
exigências mínimas de defesa do ordenamento jurídico;
4- Dentro desta moldura de prevenção geral de integração a medida da pena
é encontrada em função de exigências de prevenção especial, em regra
positiva ou de socialização excepcionalmente negativa, de intimidação ou de
segurança individuais.
Feita esta abordagem, é importante e verdadeiramente conveniente abordar a
noção do Direito Penal Informático, para fazer um enquadramento e melhor
42
seguimento do tema. A todo a todo, o Direito Penal Informático é tratado como o
conjunto de normas jurídicas de natureza penal, que visa sancionar todos crimes
cometidos através do uso das novas tecnologias e informação e comunicação.
Podemos igualmente afirmar que o Direito Penal Informático é um ramo especial
de Direito Penal que se reserva para sancionar os crimes informáticos.43
SECÇÃO II- O DIREITO PENAL INFORMÁTICO
Esta secção visa abordar aspectos ligados aos crimes informáticos, tanto como um
facto social e jurídico, incorporando os elementos integrantes da segurança
informática, bem como o bem jurídico protegido nestes crimes.
a) Conceito de Direito Penal Informático.
O Direito Penal Informático depreende-se partindo da dogmática científica do
Direito Penal (como ramo autónomo de Direito) e do estudo da legislação vigente
como o ramo especial do Direito Penal que prevê44 ilícito cometidos a partir de
dispositivos tecnológicos e por meio da internet. A este respeito, importa esclarecer
que o Direito Penal Informático, não apenas prevê os ilícitos cometidos por via dos
dispositivos tecnológicos e por meio da internet, como também prevê sanções
42
Cfr. BINTECOURT, Cesar Roberto. Falência da Pena de Prisão. Causas e Alternativas. 3ª Edição.
São Paulo: Saraiva. 2004. p. 89.
43
Cfr. BINTECOURT, Cesar Roberto. Tratado de Direito Penal. Parte Geral. Vol. I. São Paulo:
Saraiva. 2004. p.124.
44
Cfr. Artigos 437.º ao 444.º, todos da Lei n.º 38/20, de 11 de Novembro, Lei que aprova o Código
Penal Angolano.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
criminais aos infractores dos mesmos crimes bem como o procedimento criminal
relacionado ao mesmo, isto é, a quem incumbe a legitimidade para queixa ou
participação dos mesmos crimes.
b) Os Delitos Informáticos.
A expressão crimes informáticos não é adoptada de maneia uniforme pela doutrina,
que apresenta outras nomenclaturas para o mesmo estudo, quais sejam,
exemplificadamente “crimes da era da informação”, “crimes mediante computador”,
“crimes cibernéticos”, “cibercrimes”, “crimes de computador”, “crimes tecnológicos”,
“crimes digitais”, “tecnocrimes”, “netcrimes”, “crimes virtuais”, “crimes da tecnologia
da informação”, e até mesmo “e-crimes”.45
A informática é o ramo do saber que estuda o tratamento da informação através
da utilização de computadores e outros dispositivos de tratamento de dados como
celulares (telefones), etc. Destarte, por conta de a sociedade industrial desenvolver-
se com forte viés para a cultura da informação e comunicação, inclusive aplicando
a cada dia os estudos da Tecnologia de Informação (TI), o conjunto de actividades
provindas por computadores, que se destaca como serviço de maior expansão e
destaque no sector laboral, nomenclatura “informática” será privilegiada.46
Até sem saber, os caminhos feitos dentro da rede, as aquisições feitas com cartão
de crédito ou débito, pelo celular, as conversas que ocorrem com outros usuários
e até mesmo senhas e dados pessoais vagam pela rede, num ambiente em que
cada informação importa. O crime informático deve ser avaliado sob diferentes
perspectivas por conta de suas peculiaridades. 47
As regras comumente utilizadas para definir condutas e regras a sociedade levaram
em conta a ideia de Estado como sendo uma instituição composta cumulativamente
por população, território e governo, todos presentes e tangíveis. As regras penais
e outras estavam alicerçadas no conceito de ambiente físico, no qual crimes do
45
Cfr. BECARRIA, Cessare. Dos Delitos e das Penas. São Paulo: Martin Claret. 2005. p. 157.
46
Cfr. COSTA, Júnior Paulo José da. Curso de Direito Penal. 2ª Edição. São Paulo. Saraiva. 1992.
p. 190.
47
Cfr. CRUZ, Danielle da Rocha. Criminalidade Informática: tipificação penal das condutas ilícitas
realizadas com cartões de crédito. Rio de Janeiro: Forense. 2006. p. 308.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
mundo real ocorriam, e que tem como pilastras como a proximidade, a escala, o
constrangimento físico e padrões.48
De acordo com o Direito Penal do mundo físico, o ofensor e a vítima estão
necessariamente próximos quando o facto típico ocorre sendo, pois, impossível o
cometimento de por exemplo um estupro sem contacto, portanto entre pessoas
distantes. Com isso, é de se dizer que a criminalidade real é mais simples de se
combater uma vez que o agente criminoso está limitado no espaço e comete
apenas um crime por vez. Cometido o facto, o crime real tem local precisado e a
polícia passa a agir in loco, focada no ambiente em que houve o facto jurídico,
naquele segmento social.
Não é raro dizer que a criminalidade do mundo real segue padrões analisáveis
como locais de maior ocorrência, concentração de delitos em regiões mais
demográficas, maiores índices em regiões com fraca ou sem iluminação, entre
outros, permitindo-se, pois, intervenção dirigida da segurança pública e políticas
criminais de prevenção pontuais.49
O crime informático, por sua vez, tem características próprias, que boa parte dos
requisitos acima alencados são inaplicáveis. Tal categoria de crimes dispensa o
contacto físico entre a vítima e o ofensor, não exige grandes preparos como
visitação prévia de local para o cometimento do facto, ocorre em um ambiente sem
povo, governo ou território, não implica aparentemente em altos riscos, não gera
sensação de violência e não há padrões para seu acontecimento. 50
A falta de comunicação dos crimes informáticos se dá por três razões principais, as
quais passamos a citar abaixo:
A primeira é o acanhamento do ofendido que crê que ser lesado através da
informática implica em sensação de vulnerabilidade, fraqueza e
incapacidade em dominar a tecnologia, gerando, portanto, uma resistência
em expor-se;
A segunda, aplicável exclusivamente às pessoas jurídicas, especialmente
instituições bancárias, lojas virtuais e companhias de seguro, é o receio de,
48
Cfr. GARCIA, Basileu. Instituições de Direito Penal. 3ª Edição. São Paulo. Max Limonad. 1956.
pp 80-81.
49
Cfr. GARCIA, Basileu. Op. Cit. p. 84.
50
Cfr. GIL, Antonio de Loureiro. Fraudes Informatizadas. 2ª Edição. São Paulo: Atlas. 1999. p. 121.
20
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ao denunciar, gerar uma perda de confiança dos consumidores em
utilizarem-se da informática para contratar;
A terceira é a falta de crédito dado ao poder público para obter uma punição
razoável somada ao facto que a reparação da vítima dificilmente ocorre.
Destarte, o que se tem é que os crimes informáticos podem ser amplamente
compreendidos dividindo-se em meio tecnológico como alvo da conduta, o meio
electrônico como ferramenta para conseguir obter a finalidade delituosa.
Em nossa concepção, porém, são três as formas de se perpetrar aquilo que se
denomina delito informático:
1. Violando-se o meio informático em si, em seus elementos, fazendo uso de
ferramentas comuns;
2. Utilizando-se do meio informático como instrumento para atacar-se outro
bem jurídico; e
3. Violando-se o meio informático em si, em seus elementos, mas utilizando-se
para isso exclusivamente do meio informático (portanto não ferramentas
comuns).
Por conta da ciência, surgiu a informática e suas peculiaridades imateriais que
levaram a reclamação popular de protecção por sua importância. Conceitos como
soberania, território, tempo e espaço perdem sentido e surge um novo valor vindo
com a tecnologia. Novos riscos clamam por protecção penal e passa-se a concluir
pela existência de um novo bem jurídico, permanente, a ser denominado
“segurança informática”, e que merece melhor estudo.51
c) Os três elementos da segurança informática.
Certamente por estar-se diante de uma sociedade de risco “sui generis” necessário
se faz entender que tal conceito está directamente relacionado com a falta de
segurança frente à ideia de liberdade. Por segurança, compreende-se a condição
de algo ou alguém encontrar-se livre de perigo, perdas ou protecção.52 Assim, é
possível que se limite, com base na análise empírica dos crimes mais corriqueiros
51
Cfr. GARCIA, Basileu. Instituições de Direito Penal. 3ª Edição. São Paulo. Max Limonad. 1956. p.
87.
52
Cfr. CASTRO, Carla Rodrigues Araújo de. Crimes de Informática e seus Aspectos Processuais.
2ª Edição. Rev. Actual e Ampl. Rio de Janeiro. Editora Lumen Juris. 2003. p. 160.
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2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
que envolvem tecnologia, os componentes que tornam um sistema de informática
inseguro, por serem três (3) os pilares que sustentam o conceito de ambiente
informático. São três (3) elementos, de acordo com o Preâmbulo da Convenção de
Budapeste sobre Cibercrime a saber: a confidencialidade, a integridade e a
disponibilidade. Como vemos a seguir:
Confidencialidade
A confidencialidade é a garantia de sigilo no que se refere às informações tratadas
pelos aparatos informáticos e que pertencem a um número individualizável de
usuários, não sendo, pois, pública e não podendo ser lida, utilizada ou de qualquer
modo acessada por qualquer pessoa que não seja legítima ou legitimada. Isso se
dá porque é de se compreender o material informático como verdadeira
propriedade de um indivíduo.53
A intrusão informática, a leitura de e-mails não autorizada, o acesso às informações
particulares como senhas e dados bancários ou comerciais, o acesso ao correio
electrônico alheio para remetimento e difusão de malwares ou propaganda, a
leitura ou uso de senhas pessoais, número de cartão de crédito ou débito, e até o
assistir de filmes e o ouvir de músicas sem autorização dos produtores, são alguns
exemplos de condutas que violam directamente a confidencialidade a dados. 54
A reprodução de tais dados de modo a dar acesso a outrem e a divulgação, gratuita
ou onerosa, mostram-se igualmente violadoras de tal condição, caso os legítimos
proprietários ou disponibilizadores não tenham anuído com tais publicidades,
amplas ou restritas.55 É a confidencialidade, em suma, a qualidade de um dado
manter-se restrito a acessos alheios até que haja permissão para tanto, dada por
alguém legitimado56, conforme o caso.
Integridade57
O conceito de integridade é deveras equívoco, vez que passa uma primeira
impressão de materialidade. Íntegro poderia ser erroneamente conceituado como
53
Cfr. CASTRO, Carla Rodrigues Araújo de. Crimes de Informática e seus Aspectos Processuais.
2ª Edição. Rev. Actual e Ampl. Rio de Janeiro. Editora Lumen Juris. 2003. p. 163.
54
Cfr. Ibidem.
55
Cfr. CASTRO, Carla Rodrigues Araújo de. Op. Cit. p. 175.
56
Cfr. Artigo 6.º da Lei n.º 7/17, de 16 de Fevereiro, Lei de Protecção das Redes e Sistemas
Informáticos.
57
Cfr. Artigo 6.º. Idem.
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2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
algo que está fisicamente mantido completo em sua origem. Contudo, dados e
sistemas não são físicos ou tangíveis nem são compreensíveis num mundo
material, necessitando de um aparato que os traduza, torne equivalentes e os
traduzam. O melhor e mais compreensível sinônimo para integridade seria
inteireza. É ínsito ao Direito Penal Informático, quando se pensa em dados e em
sistema, a ideia de fraccionabilidade e divisibilidade.
É prerrogativa do usuário que seus dados existam na forma como foram criados,
copiados ou armazenados, sendo vedada sua modificação por terceiros sem
autorização, especialmente tendo-se em vista tratar-se de propriedade com valor
econômico. Uma alteração em um arquivo pode torná-lo imprestável, gerando
prejuízos patrimoniais de grande ordem.
De tal sorte, a modificação de dados originais, de sua programação, portanto, pode
levar a uma deturpação de seu fim, impedindo-o de servir para os fins aos quais
foram criados. A modificação de um simples bit de uma programação pode fazer
com que um arquivo seja corrompido e não mais possa ser lido pelos aparatos, ou
pode fazer com que tal arquivo acabe por cumprir uma função para a qual não
estava programado. A mudança do estado inteiro de um arquivo pode torna-lo
totalmente inadequado para seu uso original e até mesmo implicar em sua
destruição.
São exemplos de condutas em que se visa violar a integridade de um arquivo, que
pode existir por si ou pode fazer parte de um sistema, o cibervandalismo, a inserção
de malware para destruição de arquiva modificação de linhas de programação para
inutilizar arquivos, a quebra de senhas, a inserção de arquivos (cracks) que
permitem o uso de softwares piratas ludibriando os sistemas de verificação de
autenticidade, dentre outras, pois que de alguma forma modificam arquivos e fazem
com que seu uso ou seja modificação, ou impedido.
Disponibilidade.
A tecnologia desenvolvida pelo homem visa à melhoria e facilitação das tarefas
diuturnas. Por isso, foi trazida ao dia-a-dia para servir ao homem, no momento em
que este precisa ou deseja utilizá-la.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
Os aparelhos informáticos têm como característica a sua disponibilidade,
permitindo que seus proprietários possam utilizar-se deles para a tradução dos
dados e cumprirem seus objectivos através da execução de comandos 58.
Não basta que os dados e seu conteúdo estejam resguardados do acesso não
autorizado de terceiros e nem que estejam íntegros, em perfeito estado de inteireza,
se seu legítimo proprietário não consegue ter acesso a eles ou permitir que
terceiros o tenham. É necessário que para consolidar o conceito de segurança
informática tenha-se a ideia de acessibilidade ampla para o usuário autorizado.
Percebendo-se que a indisponibilidade dos dados poderia ser tão prejudicial quanto
à destruição dos mesmos e até quanto à sua confidencialidade, inegável é que a
disponibilidade compõe fundamentalmente a essência da informática como terceira
perna de sustentação.59
Analogicamente, de nada adianta ter-se um cofre com um segredo guardado
dentro, íntegro, se não se conhece a senha para abrir a trana e a porta. As condutas
mais comuns, violadoras da disponibilidade são os ataques a provedores
denominados "DoS” (Denial of Serviice), o erroneamente chamado “sequestro” de
arquivos, a inserção de malwares que se multiplicam tornando o uso da máquina
lento, o envio de arquivo que se instala na máquina alheia e a reinicializa
constantemente, entre tantas outras.60
Fazendo isso, importa esclarecer a noção jurídica do bem jurídico e
particularmente, o bem jurídico protegido nos crimes informáticos. Esta noção é
fundamental porque o Direito Penal existe e tão somente para preservar e tutelar
os bens jurídicos considerados essenciais para a salvaguarda dos interesses de
toda comunidade e não somente de uma única pessoa.
d) O bem jurídico protegido.
A ideia do bem jurídico está ligada a valores que devem ser proteídos pelo Direito
Penal, especialmente pelo facto de que o Estado democrático de Direito 61 deve
58
Cfr. Alínea a) do Artigo 35.º da Lei n.º 7/17, de 16 de Fevereiro, Lei de Protecção das Redes e
Sistemas Informáticos.
59
Cfr. ASCENSÃO, José de Oliveira. Estudos Sobre Direito da Internet e da Sociedade. Coimbra.
Almedina. 2001. P. 57.
60
Cfr. STEFEN, Flávio D. Segurança em Informática e de Informações. 2ª Edição. Rev e ampl. São
Paulo: SENAC São Paulo. 1999. p. 69.
61
Cfr. Artigo 1.º da Constituição da República de Angola de 2010, pela lei n.º 18/21, de 16 de Agosto.
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garantir aos seus cidadãos desenvolvimento pacífico e a coexistência de
semelhantes em igualdade de condições necessárias, verdadeiramente como
mantenedor da ordem social.
O bem jurídico, segundo Miguel Polaino Navarrete, seria o bem ou o valor
merecedor da máxima protecção jurídica, cuja outorga é reservada às prescrições
do Direito Penal62.
Um conceito de bem jurídico não pode ser limitado, de nenhum modo, a bens
jurídicos individuais; ele abrange também bens jurídicos da generalidade.
Entretanto, estes somente são legítimos quando servem definitivamente ao cidadão
do Estado em particular. Ele se diferencia do assim denominado conceito metódico
de bem jurídico, segundo o qual como bem jurídico unicamente se deve entender
o fim das normas, a ratio legis. A melhor oferta dos serviços digitais, o acesso dos
cidadãos à informação e ao conhecimento que se traduz na segurança informática
é o bem jurídico penal protegido nos crimes informáticos. Ainda, a protecção da
utilização do espaço cibernético angolano contra riscos a eles associados e
promover a inclusão digital é o bem jurídico protegido nos crimes informáticos no
ordenamento jurídico angolano63.
A necessidade de estipulação de valores como os da integridade, disponibilidade e
confidencialidade do meio ambiente informático faz com que se limite a esfera de
actuação do Direito Penal ao mínimo necessário no ambiente virtual que prima por
sua liberdade, sem paternalismos desnecessários. Então, para fins de clareza
quando ao estudo em tela, é de se definir delito informático a partir de seu objecto
de protecção, mormente a segurança informática ou electrónica.64
e) Classificação dos crimes informáticos (cibernéticos).
Os crimes virtuais têm modalidades distintas, dependendo do bem jurídico tutelado.
Nesse sentido, podemos dar como exemplo o crime de interceptação de dados,
que tem como bem jurídico tutelado os dados, ou seja, o que se quer é proteger a
transmissão de dados e coibir o uso dessas informações para fins delituosos, como,
62
Cfr. NAVARRETE, Miguel Polaino; COSTA, Guilherme. Programa de Política Criminal Orientado
para a Vítima de Crime, Coimbra Editora, Revista dos Tribunais, São Paulo, 2008, p. 52.
63
Cfr. Preâmbulo da Lei n.º 7/17, de 16 de Fevereiro, Lei de Protecção das Redes e Sistemas
Informáticos.
64
Cfr. Ibidem.
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por exemplo, captura de informações para envio de “e-mail bombing”, e o “e-mail
com vírus”, o “spam”. Esse tipo penal protege também a questão da inviolabilidade
das correspondências eletrônicas.
Existe uma classificação que divide os crimes cibernéticos em dois tipos: os Crimes
Cibernéticos Próprios e os Crimes Cibernéticos Impróprios. Os quais a seguir
adentraremos no assunto.
Crimes cibernéticos próprios
São aqueles que só podem ser praticados na informática, ou seja, a execução do
crime e a consumação ocorrem nesse meio, trata-se de tipos novos em que o bem
jurídico tutelado é a informática, são os crimes praticados contra os dados da vitima
que utiliza o computador, ou o celular da mesma 65. Conforme explica a Marco Túlio
Viana, em seu livro Fundamentos de Direito Penal Informático; “São aqueles em
que o bem jurídico protegido pela norma penal é a inviolabilidade das informações
automatizadas (dados).”.66
É estas condutas que são praticadas por “hackers”, tanto a invasão de sistemas,
modificar, alterar, inserir dados ou informações falsas, ou seja, casos que atinjam
diretamente os softwares dos computadores, que geralmente invadem
computadores através de Pen drives, e-mails, e em forma de arquivos que são
baixados em sites não confiáveis que contém “vírus”, a qual danifica diversos
arquivos ou programas, chegando até em alguns casos ter de efetuar a formatação
do computador em virtude do vírus.67
Crimes cibernéticos impróprios
Nos crimes cibernéticos impróprios são aqueles que são tipificados, no Código
Penal, pois violam bens jurídicos comuns, ferem à dignidade da pessoa humana,
entre outros crimes que são praticados através do meio informativo 68.
Com relação ao patrimônio, tem-se uma certa dificuldade em reconhecer os crimes
cibernéticos impróprios, pois não se consegue tipificar a informação armazenada
65
Cfr. Artigos 438.º ao 440.º do CPA sobre os Crimes Contra os Dados Informáticos.
66
Cfr. LIMA, Paulo Marcos Ferreira. Crimes de Computador e Segurança Computacional.
Campinas. São Paulo. Milenniu Editora. 2005. p. 283.
67
Cfr. Ibidem.
68
Cfr. Artigos 441.º ao 444.º todos do CPA (Sobre os Crimes Contra as Comunicações e Sistemas
Informáticos).
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como um bem material, mas sim um bem imaterial, insuscetível de apreensão como
objeto, por exemplo os crimes de transferência de valores em contas bancárias, no
qual os criminosos utilizam-se dos sistemas informáticos apenas como animus
operandi, ou seja, furtando dinheiro da conta da vítima através de um sistema
interligado a internet.69
69
Cfr. LIMA, Paulo Marcos Ferreira. Crimes de Computador e Segurança Computacional.
Campinas. São Paulo. Milenniu Editora. 2005. p. 285.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
CAPÍTULO II- CARACTERÍSTICAS DO DIREITO INFORMÁTICO
A partir da ideia de que há um novo paradigma a ser estudado, é fundamental que
se verifique que, apesar de novel, há padrões que regram as novas condutas
surgidas do novo ferramental e seus bens jurídicos inerentes e particulares. Desta
feita, para que melhor compreenda-se os parâmetros a serem enfrentados nas
investigações e nos processos crime, buscou-se selecionar uma série de
características especiais aplicáveis nesse ramo do Direito Penal, isto é, o Direito
Penal Informático.
Os delitos informáticos exigem algumas regras padrões a partir das quais todo o
raciocínio jurídico-penal se monta e a parir das quais emanam características que
se aplicam a todo um cabedal de condutas. São elementos a partir dos quais
nascem os fenómenos atinentes à violação da segurança informática ou à nova
ferramenta para lesionar de maneira inovadora os basilares bens jurídicos. 70
SECÇÃO I- PANORAMA DOUTRINAL DA DELINQUÊNCIA
INFORMÁTICA
A partir do nosso estudo concluímos que são características da delinquência
informática: a) a interatividade, b) a mobilidade, c) a conversabilidade, b) a
conectividade, c) a ubiquidade, f) a globalização, g) a fraccionalidade, h) a
divisibilidade, i) a intangibilidade, j) a disponibilidade, k) a pluralidade, l) a
velocidade e, m) a não territorialidade.71
Segue-se o desenvolvimento de cada uma das características da delinquência
informática para melhor compreensão e enquadramento das mesmas.
a) Interatividade.
A informática naturalmente pressupõe participação humana. Ainda que se diga que
este é o ramo do saber que cuida do tracto automatizado de informações, em
verdade este tracto só se dará a partir de uma ordem de um usuário, um comando.
O raciocínio que se faz é idêntico ao da calculadora, que faz uma operação
aritmética instantaneamente e sozinha, porém requer que alguém insira os dados
70
Cfr. MARTINS, Flávio Álves. Internet e Direito do Consumidor. Rio de Janeiro. Lumen Juris. 2002.
p. 56.
71
Cfr. LIMA, Paulo Marcos Ferreira. Crimes de Computador e Segurança Computacional.
Campinas. São Paulo. Milenniu Editora. 2005. p. 309.
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em sua plataforma para que, somente após a ordem, o cálculo seja feito. Um robô,
o computador ou o telefone celular cumpre com a função de programação (andar,
acessar a rede mundial de computadores, enviar uma mensagem de vídeo) após
seu usuário dar-lhe o comando para tanto.72
É conclusivo que o ambiente informático é de total interacção com usuário que o
utiliza, em verdade requerendo sine qua non a prática de comandos para que as
funções automatizadas se processem. Mais do que isso, o ambiente informático
permite que diversos usuários interajam ao mesmo tempo, cada qual fornecendo
comandos diferenciados e, assim, solicitando que a tecnologia responda com aquilo
desejado pelo ser humano. A interacção de mis de um usuário em um mesmo
ambiente faz com que se esteja virtualmente “em contacto”, havendo, desta
maneira, relacionamento.73
Desta maneira, é natural o entendimento de que a informática e seus sistemas
sempre serão meios para os quais fins estão programados. O sistema de Internet
baking tem como finalidade o controle de contas bancárias, investimentos e outros
serviços bancários, exclusivamente.
b) Mobilidade (ou portabilidade).
Esta é uma característica que vem sendo desenvolvida e cada dia torna-se maior
tendência no mercado informático. Somado à portabilidade dos aparatos, encontra-
se o faco de que o desenvolvimento de tecnologia de satélite, ondas de rádio (por
exemplo, blutooth e infravermelho) e tecnologias populares e empresariais de
acesso sem fio. Desta maneira, a primeira ideia de que o número de IP de uma
máquina conectada à Internet levaria ao reconhecimento de um local físico tem
perdido força, não podendo ser tido como uma premissa absoluta.74
Tal característica ainda não está presente para a maioria dos usuários, mas como
tem sido tendência tecnológica o aumento da velocidade de conexões, a redução
da dependência da tecnologia com fios e a convergência de funcionalidades
informáticos para uma máquina somente (o aparelho celular móvel, hoje
72
Cfr. MOREIRA, Rômulo de Andrade. Globalização e Crime. Revista dos Tribunais. São Paulo.
Vol. 10. 2003. pp. 469-496.
73
Cfr. Ibidem.
74
Cfr. NIGRI, Deborah Fisch. Crimes Informáticos: Necessidade de Regulamentação e Controle.
Boletim Legislativo. Rio de Janeiro. Vol. 31. 2007. p. 471.
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multifuncional), o aparecimento de tecnologias como a terceira geração de
telefonema móvel leva aos usuários a possibilidade de estarem conectados à rede
a qualquer momento, e em qualquer local com cobertura.
c) Conversabilidade.
Expressão traduzida do inglês “talkbility”, representa a capacidade dos aparatos
informáticos em comunicar-se entre si, graças à tendência de uniformização da
linguagem e da possibilidade de diferentes tecnologias interagirem entre si,
[Link]. assim, a impressora de uma marca funcionará com aparelhos
de qualquer marca, com diferentes sistemas operacionais. Também, diferentes
softwares de navegação conseguirão compreender a linguagem da rede e serão
hábeis para o acesso à rede mundial de computadores.
A habilidade de os aparelhos informáticos conversarem entre si faz com que haja
condições de haver troca de informações, e, desta feita, troca de comandos entre
aparelhos diferentes, levando-se, pois, a possibilidade de o usuário de um aparelho,
em paridade com outro, acesse-o, visualize suas informações e até mesmo
controle-o remontadamente75. A linguagem padrão que permite que os dispositivos
conversem entre si chama-se Protocolo TCP/ IP. É esta a linguagem utilizada
mundialmente para que a rede tenha acesso universal. Entretanto, não podemos
confundir a linguagem utilizada pelos aparelhos com a linguagem usada na rede
mundial de computadores.
Os arquivos criados com o uso dos mais diversos programas são transmissíveis
pela rede e chegam a um destinatário. Contudo, diversos arquivos são específicos
e somente podem ser abertos, visualizáveis e utilizáveis de certos programas. Por
sua vez, esta realidade é indiferente quando se trata de comunicabilidade. 76
Independentemente de se conseguir que o arquivo transmitido e recebido seja
funcional, o envio e a chegada ocorrerão e isso se dá pela “talkability” da rede ou
dos aparatos como telefones móveis. A partir dessa característica conclui-se que
não há relação entre delitos informáticos como de violação, intrusão ou contágio e
as espécies de aparelhos envolvidos. Um cartão de memória de aparelho celular
75
Cfr. PIERANGELI, José Henrique. Crimes Contra a Propriedade Industrial e Crimes de
Concorrência Desleal. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2003. p. 239.
76
Cfr. Ibidem.
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pode carregar um vírus que será inserido em um computador, ou uma impressora
em rede pode ser acessada ilegitimamente por uma máquina fotográfica com
capacidade de conectar-se.
d) Conectividade.
A conectividade é a capacidade tecnológica que um aparelho tem de se conectar
com outros aparelhos ou com a rede, como possível consequência. Não é uma
característica de todos os equipamentos informáticos, mas a grande maioria dos
novos aparelhos (filmadoras digitais, geladeiras, etc) têm sido fabricados com tal
capacidade, no intuito de permitir o acesso à rede mundial de computadores e até
para eliminar o uso de fios para a intercomunicação de aparelhos.77
Para que dois ou mais aparelhos se conectem, há a necessidade de
conversabilidade e de pareamento dos itens. Desta forma, a conexão entre
computadores depende de ambos falarem a mesma linguagem e serem capazes
de se compreenderem. Também, é fundamental que o usuário de um dos
dispositivos solicite conexão a outro usuário que, por sua vez, tem a tarefa de
aceitar ou não a ligação integrada. Uma vez conectados, pode-se dizer que há
comunicação entre os dispositivos e, então, troca de dados.78
De regra, esta é a forma como dispositivos conectam-se. Há, todavia, formas de se
conectar a aparelhos informáticos explorando brechas de segurança, tomando
conta da programação de um computador ou similar conectado e até mesmo
enganando o usuário que, acreditando que a conexão (ou o pedido de conexão) é
confiável, termina por autorizar em erro o pareamanto dos itens.
A par desta, existem outras características importantes do Direito Informático como
é o caso da Mundialização que abaixo vamos abordar com mais precisão e
caracterização.
e) Mundialização.
A informática e seus segmentos de aplicação foram responsáveis pela figura do
dito “cidadão do mundo”. A concepção da “rede das redes” derrubou barreiras
77
Cfr. REALE, Júnior Miguel. Direito Penal Aplicado. São Paulo. Revista dos Tribunais. 1992. p.
175.
78
Cfr. REALE, Júnior Miguel. Op. Cit. p. 179.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
geográficas, dando a qualquer usuário o poder da informação, o poder de visitar
locais antes exclusivos, próximo do desejo de conhecimento e distante da
xenofobia, das dificuldades financeiras e afins. Ao relacionarmo-nos, seja comercial
seja pessoalmente, com um usuário da informática, com um internauta ou com
pessoas jurídicas em rede, sempre resta uma sensação mista de proximidade
somada à de incerteza quanto à localidade de onde partiu o acesso. 79
Por um lado, acredita-se que o relacionamento virtual dá-nos mais intimidade com
o interlocutor, uma relação mais pessoal e dedicada. Por outro lado, um
pensamento mais detido leva-nos à cautela e insegurança, partindo-se da premissa
de que há fronteiras para o contrato entre pessoas e que quaisquer movimentos
podem gerar consequências jurídicas com apuração duvidosa, trazendo o
sentimento de fragilidade e super exposição o, visto que o contrato físico entre
pessoas na mesma cidade ou em diferentes hemisférios do planeta ocorre da
mesma forma e com a mesma velocidade.80
Aos comerciantes, a rede mostrou-se altamente vantajosa, promovendo marketing
a um numeral muito maior de potenciais consumidores a um preço baixo e com
penetração e lares e ambientes de trabalho. Aos usuários particulares, também
imensa capacidade de cultura, leitura de jornais, revistas, filmes, fotografias,
curiosidades, conhecimento científico imediato, até mesmo a possibilidade de
aplicação na bolsa, compras sem barreiras, jogos virtuais, músicas ilimitadas, etc.
Por isso, há que se compreender que ainda que vivamos num mundo com línguas
e culturas particulares para cada soberania, no que se refere ao contacto ou
potencialidade de interacção entre hemisférios, países e regiões, a tecnologia
retirou o carácter restritivo das fronteiras, garantindo que qualquer episódio corrido
em qualquer localidade do planeta terra seja imediatamente conhecido por todos
os países conectados, num misto de contaminação e interacção. 81 Portanto, são
características daa informática sua dinâmica e crescente disponibilidade ampla
79
Cfr. REINALDO, Filho Demócrito Ramos. Crimes Cometidos na Internet: Questões Técnicas
Dificultam Condenações. Revista Síntese de Direito Penal e Processo Penal. Porto Alegre. Vol. 5.
2004. pp. 158-161.
80
Cfr. REINALDO, Filho Demócrito Ramos. Op. Cit. p. 167.
81
Cfr. RIBEIRO, Luciana Antonini. A Privacidade e os Arquivos de Consumo na Internet: uma
primeira reflexão. Revista de Direito do Consumidor. São Paulo. Vol. 11. 2002. Pp. 151-165.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
para o ambiente virtual, ganhando velocidade na troca, com grande e ilimitada
abrangência e divulgação.
f) Fraccionabilidade.
Um dos aspectos fundamentais para a compreensão da delinquência informática
está no facto de que dados são fraccionais, ou seja, podem ser reduzidos a pedaços
de programação. Com isso, é de se entender que os arquivos economicamente
relevantes são longas cadeias de significados e é correcto apontar-se para o facto
de que não existem dados dessa modalidade que não sejam compostos por
diversas porções de linhas de programação.
Isto posto, a possibilidade de modificação de apenas uma parte de um arquivo de
dado é plena, até mesmo se adicionando linhas de programação. Assim, um
quebra-cabeças, a falta de uma peça leva à total inutilidade, levando todo o esforço
para um despropósito; o mesmo ocorre com um arquivo de dados. A falta de uma
linha ou um carácter da programação poderá levar a geração do arquivo para uma
inocuidade informática. Acrescer peças num quebra-cabeças, contudo, é um
despropósito, assi como modifica-las. Todavia, no processo de dados isso é
possível, conhecedores da linguagem podem modificar partes da programação
levando um arquivo ou comando a agirem de forma diversa da original. 82
Diante destas características, é correcto afirmar que arquivos, dados e comandos
podem ter sua integridade atacada, gerando resultados danosos, muitas vezes
mascarados e veiculados ardilosamente.
g) Divisibilidade.
O sentido a ser dado nesta característica não é o mesmo do dado à
fraccionabilidade. Enquanto que esta existe ligada á ideia de composição dos
dados e à sua segmentação, inerente à programação, a divisibilidade, por sua vez,
está directamente relacionada com a forma como estes são transferidos na rede
mundial de computadores.83
82
Cfr. REINALDO, Filho Demócrito Ramos. Crimes Cometidos na Internet: Questões Técnicas
Dificultam Condenações. Revista Síntese de Direito Penal e Processo Penal. Porto Alegre. Vol. 5.
2004. pp. 158-161.
83
Cfr. Filho Demócrito Ramos. Op. Cit. p. 174.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
Uma vez há fraccionabilidade dos dados e que há ordem correcta para que as
linhas de programação estejam compostas para haver significado, surge a
possibilidade de promover “cortes” nos arquivos com a criação de diversos trechos
de programação sem significado sozinhos, mas que, reagrupados com outros
trechos adequados referentes ao arquivo fragmentado, voltam a compor o arquivo
integral, agora transmitido para outro local da rede.
Um ponto juridicamente importante é a praticamente impossibilidade de controle
dos caminhos percorridos pelos pacotes até chegarem a seus destinos, podendo
passar por Estados soberanos diferentes, com regras diversas a cerca de, por
exemplo, pornografia ou direitos autorais.
A divisibilidade acaba por ser importante no estudo do Direito Penal Informático,
tendo-se em vista que o tráfego dos pacotes de dados é livre pela rede, sujeito a
interceptação e feito de forma repetida e incontrolável até que o destino receba os
arquivos necessários. Isso faz com que, primeiramente, possa haver interceptação
de dados durante sua transmissão e, em segundo plano, que tais interceptações
se dêem em soberanias em que não há previsão legislativa para cobrir tais práticas,
o que geraria uma permissão para a captura de tais dados.84
Também se mostra importante a divisibilidade pois ao mesmo tempo que denota
aumento de velocidade, explicita uma fragilidade da rede. A limitação de
transmissão e procedimento de dados (escrita a pacotes pequenos de dados), facto
que leva usuários mal-intencionados a provocarem verdadeiros boicotes em certos
serviços, sobrecarregando certas vias de acesso, obstruindo certos sites com
bombardeamento de comandos de envio e recebimento de pacotes de
informações, levando a sobrecargas e indisponibilidade.85
h) Intangibilidade.
Conforme anteriormente explanado, é inerente ao conceito de informática a criação,
utilização e troca de dados permanentes. A sociedade pós-industrial evoluiu e
passou a criar um novo produto com altíssimo valor: a informação. Com a migração
da mão-de-obra terciário, de serviços, e com o evoluir tecnológico para
84
Cfr. REINALDO, Filho Demócrito Ramos. Crimes Cometidos na Internet: Questões Técnicas
Dificultam Condenações. Revista Síntese de Direito Penal e Processo Penal. Porto Alegre. Vol. 5.
2004. pp. 180.
85
Cfr. Ibidem.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
instrumentos de trabalhos focados em trato de informação, a sociedade passou a
investir em uma espécie de círculo virtuoso.
Uma vez que os dados produzidos a partir da informática passam a ter valor real,
portanto, conclui-se que os bits agrupados tornam-se, bens juridicamente
relevantes. Contudo, a imaterialidade dos novos bens é óbvia.
Ocorre que os bits podem conter a representação digital de documentos
importantes, obras artísticas, investimentos financeiros, agenda de telefones,
dentre tantos outros dados importantes e que podem ter muito valor comercial se
correctamente utilizados. Ora, vê-se que os dados são simultaneamente algo que
satisfaz a necessidade humana e, por agregarem valor, por ter função, acabam por
merecer a protecção do Direito.86
Contudo, dados são criações humanas, fruto da inventividade e da compreensão
de sinais necessários. São, pois, obras originais, materiais, intangíveis, existentes
somente alocados em suporte material, que o grava por meios físicos, químicos e
magnéticos ou outros. Por conta dos símbolos que se formam da tradução de
programação, os dados passam a ter significado e tais significados, muitas vezes
representam ideias e conteúdos com valor pecuniário, constituindo-se verdadeiro
património. Paralelamente, é de se entender que as ideias pertencem a seus
autores a seus autores que podem explorá-la e contam com a protecção do direito.
A característica da imaterialidade mostra-se bastante peculiar pois leva a uma forte
dificuldade de adaptação das regras já existentes atinentes a delitos que violam
patrimônio e, portanto, gera uma necessidade de legislação especial.87
Crimes como o de furto ou roubo, exemplificadamente, exigem que o bem jurídico
afectado seja o património materializado na forma de coisa, portanto, um objecto
material. Some-se a isso o facto de que por conta da característica da pluralidade
(abaixo descrita com maior minúcia) não é possível que haja a subtração de um
dado, visto que na informática as técnicas utilizadas chama-se replicagem, ou seja,
86
Cfr. REINALDO, Filho Demócrito Ramos. Crimes Cometidos na Internet: Questões Técnicas
Dificultam Condenações. Revista Síntese de Direito Penal e Processo Penal. Porto Alegre. Vol. 5.
2004. pp. 188.
87
Cfr. ROSSINI, Augusto Eduardo de Sousa. Informática, Telemática e Direito Penal. São Paulo:
Memorial Jurídica. 2004. p. 132.
35
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
não se subtrai um bem material informático, mas sim se copia um idêntico e, quiçá,
se apaga a fonte da copia.
Certamente, também, a intangibilidade dificulta sobremaneira a perspecção
imediata da violação de dados pelas vítimas porquanto tais bens não ocupam
espaço físico nem quando armazenados. Ainda tratando da característica, é de se
destacar que se tendo em vista serem os dados imateriais e, portanto, impalpável
e de difícil percepção, ataques a tais bens móveis serão comumente da mesma
natureza, ou seja, virtuais, sendo a máquina do usuário alvo sujeita a receber
arquivos de dados com códigos maliciosos que darão ao dispositivo comandos
prejudiciais a seu proprietário.88
i) Disponibilidade.
A disponibilidade foi apontada previamente como um dos elementos da segurança
telemática. Trata-se da possibilidade de o legítimo detentor dos diretos de acesso
a determinado serviço, funcionalidade, arquivo ou programa fazê-lo a qualquer
momento que nele necessita, sem embaraços.
Assim, a informática existe a serviço do homem e no intuito de auxilia-lo como
ferramental para as tarefas que dele necessitem. Ocorre que o evoluir da
informática trouxe a característica da conectividade dos dispositivos entre si ou com
a rede mundial de computadores, o que influenciou directamente na ideia de
disponibilidade.89
A disponibilidade é, de maneira mais abrangente, a possibilidade não só de acessar
os dados existentes na própria máquina do usuário como também a possibilidade
de este ter acesso aos programas e serviços que contratou, gratuita ou
onerosamente, na rede, e que são garantidos a partir do acesso prévio a um site.
Ataques quanto a disponibilidade, podem ter duas espécies de alvo: o computador
de um usuário individual, ou a fonte que provém serviços e na qual milhares de
usuários ingressam e conectam-se.
Os objectivos dos delinquentes, por sua vez, também podem ser diferenciados, pois
ataques a serviços podem ser formas de protesto de cibervândalos,
88
Cfr. ROSSINI, Augusto Eduardo de Sousa. Informática, Telemática e Direito Penal. São Paulo:
Memorial Jurídica. 2004. p. 138.
89
Cfr. ROSSINI, Augusto Eduardo de Sousa. Op. Cit. p. 144.
36
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
ciberfundamentalistas, ciberterroristas e até mesmo descontentes; ataques
individuais, por sua vez em regra são ataques que pretendem alguma espécie de
vantagem pecuniária, vingança pessoal ou difusão de programas maliciosos
desenvolvidos.
j) Pluralidade.
A principal diferença entre o mundo tangível material e o mundo intangível virtual
ou informático é sua composição. A matéria que compõe os bens corpóreos é única
e formada de unidades denominadas átomos, que obedecem regras de ciências
como física e química. Em contrapartida, na informática tudo é formado por bits.90
No mundo real, a propriedade é única. O conceito de fungibilidade está relacionado
com bens com idênticas características, substituíveis em tese e porque qualquer
deles, se parecido, atende à mesma função. Contudo, é notório que uma
propriedade destruída jamais será a mesma, visto que aquela que a substituirá será
composta por outros átomos. Cada objecto material é, certamente um original único
e insubstituível etiologicamente.
Dados, a contrário, não são formados por matéria, mas sim por uma linguagem que
pode ser traduzida por programas e sistemas competentes para tal tarefa. Não tem
utilidade por si só, mas somente quando transformados numa linguagem
compreensível ao ser humano.91
Ocorre que qualquer aparelho informático com capacidade para transformar dados,
traduzindo-os para seu usuário lê de maneira idêntica tal sequência de bits, fazendo
com que o arquivo seja decodificado de modo idêntico, qualquer que seja o usuário.
Mais do que isso, os dados, por serem mera sequência de linguagem, podem ser
replicados identicamente, pois que não são materiais. Qualquer réplica do original,
portanto, tem exactamente as mesmas funcionalidades e poderá ser identicamente
traduzido por um aparato sendo, desta feita e na realidade, um original.
Em outras palavras, há a possibilidade de existirem diversos arquivos originais,
idênticos, e com as mesmas funcionalidades, pois que bits são imateriais e plurais.
90
Cfr. RIBEIRO, Luciana Antonini. A Privacidade e os Arquivos de Consumo na Internet: uma
primeira reflexão. Revista de Direito do Consumidor. São Paulo. Vol. 11. 2002. p. 173.
91
Cfr. SALVADOR, Netto Alamiro Velludo. Finalidades da Pena. Conceito Material de Delito e
Sistema Penal. São Paulo: Quartier Latin. 2009. p. 68.
37
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
Decerto os detentores dos direitos sobre programas, fotos, filmes, e outros arquivos
de dados, por não terem interesse em que seus direitos autorais sejam
vilipendiados, criam mecanismos de protecção ou renumeração de cópias. E isso
se dá exatamente pelo facto de que, sem tal protecção impeditiva, qualquer um
pode deter qualquer dado, com todas as características de um original e mesmas
atribuições.92
Com isso, arquivos benéficos ou maléficos não têm limite para existirem de maneira
plúrima, sendo que cada cópia será capaz de produzir os mesmos efeitos da
original programada.
Também, é imprescindível compreender-se que por se poder existir uma infinidade
de originais, o conceito de propriedade exclusiva não existe, podendo um arquivo
idêntico ser propriedade de múltiplos usuários ao mesmo tempo.
k) Ubiquidade (ou simultaneidade).
A ubiquidade, também denominada de simultaneidade e onipresença, está entre as
características mais marcantes da informática, visto que guarda relação com bens
intangíveis, assim como o direito autoral. Certos princípios da mecânica não têm
aplicabilidade ao pensar na delinquência informática. Enquanto que em geral dois
corpos não podem estar no mesmo lugar de espaço ao mesmo tempo, tal conceito
não tem aplicabilidade na informática, por conta do princípio da não territorialidade
ser aplicável a tais condutas.93
Na informática, graças à conectividade, pode-se estar em diversos lugares virtuais
ao mesmo tempo, independentemente da velocidade de sua conexão, da
capacidade individual ou de barreiras físicas e políticas. E assim, é a ubiquidade: a
capacidade de se estar presente em diversos lugares ao mesmo tempo.
A titulo de exemplo, um individuo pode estar na Turquia, acessar um portal de
informações em Angola que permite assistir vídeos que estão hospedados na
Inglaterra, mas que foram feitos por Sul-africanos. Onde está o usuário? Somando
ao conceito de velocidade, a ideia de que todos podem estar em diversos lugares
ao mesmo tempo, processando dados diferentes, praticando condutas livres, é
92
Cfr. RIBEIRO, Luciana Antonini. A Privacidade e os Arquivos de Consumo na Internet: uma
primeira reflexão. Revista de Direito do Consumidor. São Paulo. Vol. 11. 2002. p. 184.
93
Cfr. RIBEIRO, Luciana Antonini. Op. Cit. p. 189.
38
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
fundamental. E este conceito e aplicável na rede mundial de computadores, mas
não se limita a ela.
A partir de tecnologias de conexão sem fios e á distância, uma pessoa pode
conectar-se a um provedor a dezenas de quilômetros de distância, compartilhar
arquivos através de ondas de rádio há muitos metros e a impressão é a de que o
usuário está nos dois ou mais lugares ao mesmo tempo.
A este respeito, Código Penal Angolano94 é aplicado aos crimes informáticos
cometidos fora e dentro do território angolano de acordo as regras constantes nos
artigos 4.º e 5.º ambos do referido Código.
Por fim, há uma problemática quando se trata de ubiquidade de crimes informáticos,
especialmente no que toca ao facto de que uma acção pode ser considerada crime
em país e não em outro, gerando-se, pois, conflito no que se refere à forma de
repressão.
l) Anonimidade.
É característico da informática o facto de que as interacções e relações são feitas
entre aparelhos. Por sua vez, os aparelhos conectados são necessariamente
operacionalizados por serem humanos. Contudo, a tecnologia é universal e pode
ser utilizada por todo e qualquer individuo capaz de compreender seus membros,
sua linguagem e apresentar comandos a serem obedecidos.95
Diante disso, entende-se que computadores trocam informações entre si,
independentemente de quem esteja determinando suas funções. Não tem o ser
humano médio a capacidade de compreender a linguagem pela qual o computador
processa as informações e nem produzir as mesmas funções, necessitando do
intermédio da máquina. Assim, a informática acaba por tratar da troca de dados
entre os aparatos, estes sendo as pontas da relação comunicativa.
O usuário é um administrador de comandos a distância, operando um maquinário,
mas que o faz de maneira velada, pois que desnecessária é sua exposição para a
função. A ideia inicial da computação foi a de facilitação de tarefas para usuários,
94
Cfr. Lei n.º 38/20, de 11 de Novembro, Lei que Aprova o Código Penal Angolano.
95
Cfr. RIBEIRO, Luciana Antonini. A Privacidade e os Arquivos de Consumo na Internet: uma
primeira reflexão. Revista de Direito do Consumidor. São Paulo. Vol. 11. 2002. p. 194.
39
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
tendo surgido somente depois a concepção de relacionamento a distância. Desta
forma, o principal cuidado do cientista foi o de fazer com que a capacidade de
processamento de dados fosse ideal (e crescente conforme necessidade) para que
houvesse a substituição do homem.
Isto significa que foi restringida a função humana, em algumas tarefas, para,
exemplificadamente, um apertar de botões a distância, poupando o ser humano,
dando-lhe maior conforto e para que surgisse um crescimento em sua
produtividade. O afastamento do contrato directo com certas actividades,
concentrou esforços em conectar máquinas.
Por anonimidade virtual, entende-se que a falta de certeza quanto à identidade
imediata referente a um usuário, levando-se em conta a impossibilidade de se
atribuir o uso de um maquinário a uma pessoa.
Existem mecanismos que intentam diminuir as incertezas geradas pela
anonimidade virtual como o uso de nomes de usuário associados à senhas (chaves
de acesso), o uso de mecanismos de identificação por biometria (leitura palmar,
leitura digital, leitura de íris, etc), o uso de cartões pessoais com senhas variáveis,
tokens, controles de acesso, dentre outros mecanismos. Ressalta-se, todavia, que
os mecanismos visam diminuir incertezas e jamais levar à certeza absoluta quanto
à identidade do usuário, prevenindo-se ou mitigando-se as dificuldades e
inseguranças.96
Enfim, as relações informáticas têm como característica fundamental, por
ocorrerem através de aparatos, a falta de certeza absoluta acerca das
características do usuário interactor, levando a uma dificuldade imediata de
identificação do autor dos actos ocorridos.
m) Velocidade
A última característica de importância fundamental é a velocidade. Uma vez que a
cada dia as conexões tornam-se mais velozes, a transferência de dados passa
também a ser feita em espaços mais curos de tempo. Assim, arquivos maliciosos,
por terem tamanho diminuto, terminam por ingressar em aparatos alheios em
96
Cfr. SALVADOR, Netto Alamiro Velludo. Finalidades da Pena. Conceito Material de Delito e
Sistema Penal. São Paulo: Quartier Latin. 2009. p. 81.
40
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
função de segundo, de maneira praticamente imperceptível pelo usuário,
dificultando sua protecção e domínio dos acontecimentos dentro da máquina.
Outra característica fundamental trazida pela velocidade das conexões e dos
processamentos de dados está nos crimes de violação de direitos autorais
provenientes de peças audiovisuais, mídias fonográficos e até mesmo programas
de computador. Com o advento da velocidade crescente de transferência de dados,
mais usuários terminarão por ser incentivados a baixarem um grande numero de
dados, violando propriedades imateriais dos autores. A velocidade aumenta tanto
a possibilidade de baixar (download) arquivos legalmente protegidos para as
máquinas, quanto carregar na rede (upload) peças protegidas. E quanto maior a
velocidade e a capacidade e armazenamento, maior a incidência de tais acções
violadoras de bem jurídico.97
Finalmente, é peculiar à velocidade a maior e mis eficiente navegação pela rede
mundial de computadores elevando a capacidade de ataques (contaminações por
malwares, escravizão de máquinas, etc), assim permitindo uma maior abrangência
nas abordagens como a criação de múltiplos sites-armadilha (que contenha
scripts em suas páginas que terminam por instalar arquivos nas máquinas dos
usuários acessantes), a possibilidade de ataques múltiplos e até a prática de envio
98
de mensagens comerciais não solicitadas em quantidade bastante intensa.
Assim, tendo abordado as características do Direito Informático que conforme
vimos, são bastante importantes para a compreensão jurídica do crime informática,
passamos de forma clara, sintética e pormenorizado a abordar sobre o
enquadramento jurídico dos crimes informáticos no ordenamento jurídico angolano,
sua base legal, assim como os procedimentos jurídicos tendentes a compreensão
e criminalização destas acções.99
A todo a todo, feita a apresentação no plano doutrinária referente as características
principais do Direito Informática, bem como a formação e materialização do Direito
na informativa, importa fazer uma abordagem suscinta a respeito dos crimes
informáticos na legislação angolana. A este respeito, vejamos então.
97
Cfr. SALVADOR, Netto Alamiro Velludo. Finalidades da Pena. Conceito Material de Delito e
Sistema Penal. São Paulo: Quartier Latin. 2009. p. 81.
98
Cfr. Ibidem.
99
Cfr. Ibidem.
41
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
SECÇÃO II- OS CRIMES INFORMÁTICOS NO ORDENAMENTO
JURÍDICO NGOLANO
De acordo a nota característica organizacional dos capítulos, este último fica
reservado para abordagem das questões ligadas a noção do delito informático,
seus sujeitos ou agentes, pressupostos de existência, bem como o devido
procedimento criminal conducente a criminalização informática.
A demais, tratar-se-á igualmente os aspectos inerentes à natureza jurídica dos
crimes informáticos no ordenamento jurídico angolano, e finalmente, apresentar a
base doutrinal relacionada a prevenção dos referidos crimes.
a) Aspectos históricos.
Crime digital, crime informático, crime cibernético, cibercrime (em inglês,
cybercrime), crime electrônico (e-crime) são termos aplicáveis a todo a actividade
criminosa em que se utiliza de um computador ou uma rede de computadores como
instrumento ou base de ataque.100
De acordo com Kurbalija, o termo “informática”, permanece sendo utilizado
basicamente ao lidarmos com segurança, mas deixou de ser preponderante, como
na década de 1990. O prefixo “e” continua sendo usado nos negócios (como em
Inglês, e-commerce).
O termo “cibercrime” surgiu em Lyon, na França, depois da reunião de um
subgrupo das nações do G8 que assinalou e discutiu os crimes promovidos via
aparelhos electrónicos ou mediante a disseminação de informações pela internet.
Isso aconteceu no final da década de 1990, período em que a internet se expandia
pelos países da América do Norte.101
O subgrupo “grupo de Lyon” usou o termo para descrever, de forma muito extensa,
todos tipos de crimes praticados na internet ou nas novas redes de
telecomunicações, que se tornavam cada vez mais acessíveis a um grande número
de usuários.102
100
Cfr. SARDAS, Letícia de Faria. Novos Rumos no Direito Penal: os tipos penais e a internet.
Revista da EMERJ. Rio de Janeiro. Volume 7. 2004. pp. 77-95.
101
Cfr. SARDAS, Letícia de Faria. Op. Cit. p. 98.
102
Cfr. Ibidem.
42
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
b) Noção.
São de suma importância esclarecer que não existe uma única nomenclatura sobre
crimes cibernéticos, e sim várias, sendo que não há um consenso sobre a melhor
denominação que relacionam os delitos com a tecnologia. Segundo Antônio
Chaves, cibernética é a “ciência geral dos sistemas informantes e, em particular,
dos sistemas de informação”. Sendo a ciência da comunicação e dos sistemas de
informação, um termo mais amplo e apropriado, a denominação dos delitos tratados
nesse projeto de pesquisa sobre crimes cibernéticos.103
Através do conceito analítico finalista de crime, pode ser chegar a conclusão de
que os crimes cibernéticos são todas as condutas típicas, antijurídicas e culpáveis
praticadas contra ou com a utilização dos sistemas da informática.104
Fabrizio Rosa conceitua o crime cibernético, como sendo:
A conduta atente contra o estado natural dos dados e recursos oferecidos
por um sistema de processamento de dados, seja pela compilação,
armazenamento ou transmissão de dados, na sua forma, compreendida
pelos elementos que compõem um sistema de tratamento, transmissão ou
armazenagem de dados, ou seja, ainda, na forma mais rudimentar;
O Crime de Informática ‟é todo aquele procedimento que atenta contra os
dados, que faz na forma em que estejam armazenados, compilados,
transmissíveis ou em transmissão;
Assim, o „Crime de Informática “pressupõe does elementos indissolúveis:
contra os dados que estejam preparados às operações do computador e,
também, através do computador, utilizando-se software e hardware, para
perpetrá-los;
A expressão crimes de informática, entendida como tal, é toda a ação típica,
antijurídica e culpável, contra ou pela utilização de processamento
automático e/ou eletrônico de dados ou sua transmissão;
Nos crimes de informática, a acção típica se realiza contra ou pela utilização de
processamento automático de dados ou a sua transmissão. Ou seja, a utilização
103
Cfr. SARDAS, Letícia de Faria. Novos Rumos no Direito Penal: os tipos penais e a internet.
Revista da EMERJ. Rio de Janeiro. Volume 7. 2004. p. 175.
104
Cfr. SARDAS, Letícia de Faria. Op. Cit. p.189.
43
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
de um sistema de informática para atentar contra um bem ou interesse
juridicamente protegido, pertença ele à ordem econômica, à integridade corporal, à
liberdade individual, à privacidade, à honra, ao patrimônio público ou privado, à
Administração Pública, etc.
Portanto, crimes cibernéticos são todas as condutas típicas, antijurídicas e
culpáveis contra ou praticadas com a utilização de instrumentos eletrônicos que
podem entrar em rede, através da internet.
c) Classificação dos crimes informáticos no ordenamento jurídico
angolano.
O Código Penal Angolano tipifica os Crimes Informáticos no Título VIII classificando
os crimes informáticos em três (3) capítulos sendo que o Capítulo Iº (reservado para
as disposições gerais); o Capítulo IIº (relacionado aos Crimes contra os Dados
Informáticos) e finalmente o IIIº capítulo tratando dos Crimes contra as
Comunicações e Sistemas Informáticos, sendo que este último é o enfoque da
nossa temática em abordagem.
d) Pressupostos do crime informático.
Partindo dos pressupostos do crime nos seus aspectos gerais, para melhor
compreensão da noção do crime, nomeadamente, o facto, tipicidade, ilicitude e
culpabilidade. Vejamos agora, numa rápida visão sintética, o significado que
atribuímos aos termos facto, tipicidade, ilicitude e culpabilidade, que referimos
como sendo os elementos do crime, ou os níveis de análise conceitual do crime.
Mais adiante analisaremos de novo, mais aprofundadamente, esses mesmos
conceitos105.
Vejamos então:
O facto humano (sinónimo de acção humana positiva ou omissiva, de conduta e de
comportamento) compreende qualquer comportamento humano, comissivo ou
omissivo, que se tenha produzido sob o domínio da vontade do seu agente 106.
105
Cfr. SILVA, Germano Marques da. Direito Penal Português, Parte Geral II e Teoria do Crime.
Editorial Verbo, Lisboa, 2010, p. 12.
106
Cfr. Ibidem.
44
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
Tipo ou típico é a descrição abstracta que a lei faz do facto e a tipicidade consiste
na subsunção, na adequação de uma conduta da vida real a um tipo legal de
crime107. Sendo o tipo um modelo de comportamento proibido, abrange, ao
descrever a conduta proibida, o sujeito da acção, isto é, o agente do crime, a acção,
com os seus elementos objectivos e subjectivos, e, se for o caso, o objecto da
acção, bem assim o resultado, com a respectiva relação de causalidade 108.
Ilicitude ou antijuridicidade é a contrariedade entre o facto, o comportamento da
vida real, e o ordenamento jurídico. A ilicitude penal é a contrariedade do facto ao
ordenamento jurídico (penal)109. A culpabilidade ou censurabilidade é o juízo de
reprovação jurídica ao agente por ter cometido o facto ilícito 110.
Destarte, constitui crime informático todo facto hum ano tipificado na lei penal como
crime e que seja praticado por meio do computador, telemóvel ou qualquer
dispositivo electrônico. Para facilitar a compreensão esta categoria é definida como
sendo aquela em que o computador é o instrumento para a execução do crime,
podendo também, ser o meio para atingir um propósito ilícito. Aqui a máquina, sob
comandos, executa a tarefa ou transfere comandos para a execução em outra
máquina.
e) Autor do crime informático.
Em primeira impressão, a análise do autor do delito informático pode parecer fugir
da temática proposta no trabalho. Poder-se-ia argumentar que um trabalho sobre
vítimas não deve ater-se a raciocínios comportamentais da psiquiatria ou psicologia
do criminoso. Porém, o foco desta abordagem esposa não se atém ao Direito Penal,
mas sim ao estudo criminológico relacionado ao autor dos crimes em abordagem.
A criminologia, como ciência que exige um raciocínio completo da situação-delito,
demanda ser compreendida em todos os seus aspectos e analisada como um
fenômeno normal para que seja possível buscar modos de diminuir sua incidência
e prevenir parte dos acontecimentos, entendendo a fundo a realidade. Foi a ciência
responsável pela criação de teorias do autor e que serve de porta de entrada para
107
Cfr. SILVA, Germano Marques da. Op. Cit. p.13
108
Cfr. SILVA, Germano Marques da. Op. Cit. p.14
109
Cfr. Ibidem.
110
Cfr. Ibidem.
45
2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
o raciocínio vitimal. É, aliás, expressão de Hassemer, a de que “quem não
encontra uma vítima apropriada, não pode ser autor”111.
Ainda que separados e contraditos os critérios do positivismo jurídico inaugurado
por Lombroso e que davam à ciência biológica força para submerger as regras de
imputabilidade do Direito Penal à uma logica atávica, é natural que ao se tratar de
delitos informáticos (próprios e mormente impróprios) considere-se que existe um
perfil médio para tal delinquente.
A partir do momento em que se parte do pressuposto de que há a necessidade de
instrumentos informáticos para o cumprimento do delito, é natural que se leve em
conta as particularidades deste bem jurídico e desta ferramenta.
De acordo com o Dicionário Virtual Michaelis, a informática é “o ramo através da
qual ocorre o tratamento da informação, ou seja, o emprego da ciência da
informação com o computador electrônico”.
Para Roberto Chacon de Albuquerque, delitos informáticos são condutas da
modalidade colarinho branco porque só um determinado número de pessoas, com
certos conhecimentos técnicos podem chegar a cometê-los.
A este propósito, trata-se do usuário das novas tecnologias de informação e
comunicação. Ou ainda, apenas o utilizador da internet pode cometer crimes
informáticos, porque como dissemos atrás, refere-se aos crimes cometidos por via
ou com suporte a internet através de computadores e outros dispositivos
alectrónicos. Olhando a noção de autor apresentado pelo Código Penal
Angolano112, segundo o qual, é punível como autor quem:
a) Executar o facto por si mesmo;
De forma correctiva, lê-se que pode ser autor qualquer pessoa. Entretanto, para o
crime informático, não é qualquer pessoa como tal, sendo necessário que esta
pessoa seja utilizador da internet através do computador ou qualquer dispositivo
electrônico.
111
Cfr. HASSEMER, Winfried. Introdução aos Fundamentos do Direito Penal, Sérgio António Fabris.
Editor Porto Alegre, 2005, p. 110.
112
Cfr. Artigo 24.º da Lei n.º 38/20, de 11 de Novembro- Lei que aprova o Código Penal Angolano.
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2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
SECÇÃO III- OS CRIMES CONTRA AS COMUNICAÇÕES E SISTEMAS
INFORMÁTICOS.
Como atrás nos referimos, os Crimes contra as comunicações e sistemas
informáticos estão previstos no Capitulo IIIº do Título VIIIº referente aos crimes
informáticos. O Código Penal Angolano tipifica quatro (4) Crimes contra as
Comunicações e Sistemas Informáticos, mormente: sabotagem informática,
falsificação informática, burla informática e nas comunicações e reprodução
ilegítima de programa de computadores, bases de dados e topografia de produtos
semicondutores. Para maior compreensão, faz-se abaixo uma devido e clara
abordagem relacionada a cada um dos crimes.
a) Sabotagem Informática.
Prevista no artigo 441.º do CPA113, estabelece que: é punido com pena de prisão
até 2 anos ou multa até 240 dias quem, de modo ilícito:
a) Alterar, danificar, interromper, destruir, parte ou todo de uma rede de
comunicações electrónicos ou sistemas informáticos;
b) Perturbar gravemente o funcionamento de uma rede de comunicações
electrónicos, e sistema informáticos;
c) Afectar a capacidade de uso, através da introdução, transmissão,
danificação, alteração, e impedimento do acesso ou supressão de dados
informáticos ou através de qualquer outra forma de interferência na rede de
comunicações e sistemas informáticos.
Com vista a melhor esclarecer os termos acima iludidos, importa-nos então
esclarecer que um “sistema informático” é qualquer dispositivo ou conjunto de
dispositivos interligados ou associados e que um ou mais de entre eles desenvolve,
em execução de um programa, o tratamento automatizado de dados informáticos
armazenados, tratados, recuperados ou transmitidos por aquele ou aqueles
dispositivos, tendo em vista o seu funcionamento, utilização, protecção e
manutenção.
E por outro, compreende-se por rede de comunicações electrónicos, como os
sistemas de transmissão e, se for o caso, os equipamentos de comutação ou
113
Cfr. Lei n.º 38/20, de 1 de Novembro.
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2024
OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
encaminhamento e os demais recursos que permitem o envio de sinais por acabo,
meios radioeléctrico, incluindo as redes de satélite, as redes terrestres fixas (com
comutação de circuitos ou de pacotes, incluindo internet) e móveis, os sistemas de
cabos de electricidade, na medida em que sejam, utilizados para a transmissão
sonora e televisiva e as redes de televisão por cabo, independentemente do tipo de
informação transmitida.
A sabotagem informática é a danificação ou destruição do material de que é feito o
computador ou seus componentes. Os objectivos da sabotagem de computadores
são as instalações tangíveis, como também os dados intangíveis que contém os
programas de computação e outras valiosas informações, causando danos físicos
e lógicos. A sabotagem envolve, tanto o acesso sem autorização como o acesso
efetuado por um funcionário, em sistema de computador para a introdução de
programas conhecidos como o do vírus.
A modificação sem autorização e a supressão de dados do computador ou de suas
funções, seja pela Internet ou no próprio sistema, impedindo o seu normal
funcionamento, são atividades claramente criminais. A sabotagem de computador
pode ser o veículo para garantir vantagem econômica sobre um concorrente, pode
promover atividades ilegais de terroristas e pode também ser usada para destruir
dados ou programas com o propósito de extorsão.
b) Falsificação Informática.114
Conforme estabelecido na lei penal, existem procedimentos e características
próprias para o referido crime, tipificando que:
1. Quem, com intenção de enganar ou prejudicar, introduzir, alterar, eliminar
ou suprimir dados em sistema de informação ou, em geral, interferir no
tratamento desses dados, por forma a dar origem a dados falsos que possam
ser considerados verdadeiros e utilizados como meio de prova, é punido com
a pena de prisão de até 2 anos ou com a de muita até 240 dias.
2. Quando as acções descritas no número anterior incidem sobre os dados
registrados ou incorporados em cartão bancário de pagamento ou qualquer
outro dispositivo que permita o acesso a sistema ou meio de pagamento, a
114
Cfr. Artigo 442.º do Código Penal Angolano.
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OS CRIMES CIBERNÉTICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO ANGOLANO
sistema de comunicações electrónicas ou a serviço de acesso
condicionando, a pena é de 2 a 5 anos de prisão.
O bem jurídico tutelado por este crime de falsificação informática não é o
património, mas antes a integridade dos sistemas de informação, através da qual
se pretende impedir os actos praticados contra a confidencialidade, integridade e
disponibilidade de sistemas informáticos, de redes e dados informáticos.
Tradicionalmente a falsificação informática envolve o uso de cartões de bancos
roubados ou furtados. Usando software específico, pode-se codificar amplamente
as informações electrónicas contidas nas tarjas magnéticas dos cartões de bancos
e nos de crédito. Assim, compreende-se que o Código de Acesso é todo dado ou
senha que permite aceder no todo ou em pare e sob forma inteligível, a um sistema
de informação.
c) Burla Informática e nas comunicações.
Prevista no artigo 443.º do Código Penal Angolano, punido nos termos do crime de
furto qualificado conforme o n.º 3 do artigo 393.º do mesmo código.
De acordo com o Código Penal Angolano115, é punido com as penas estabelecidas
para o crime de furto qualificado no n.º 3 do artigo 393.º, atendendo ao valor do
prejuízo causado, quem, com o propósito de obter para si ou para terceiro
vantagem patrimonial pelas formas descritas, causar a outrem prejuízo de natureza
patrimonial:
1. Interferir no resultado de tratamento de dados, conforme definido na alínea
d) do artigo 250.º, mediante estruturação incorrecta de programa de
computador, utilização incorrecta ou incompleta de dados, utilização de
dados sem autorização, ou mediante intervenção, por qualquer outro modo
não autorizado, no processamento.
2. Usar programas, dispositivos ou outros meios que, separada ou
conjuntamente, se destinem a diminuir, alterar ou impedir, no todo ou em
parte, o normal funcionamento ou exploração do serviço de
telecomunicações.
115
Cfr. Lei n.º 38/20, de 1 de Novembro.
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Nesta disposição legal, parece-nos haver protecção jurídica de dois crimes, isto é,
o de burla informática e o de burla nas comunicações. Assim, o crime de burla na
informática é um crime de dano e o bem jurídico protegido é o património, razão elo
qual, vemos que a sua incriminalização, é nos termos do crime de furto qualificado
por ser um crime contra o património.
É utilizada em muitos casos de crimes econômicos, como manipulação de saldos
de contas, balancetes em bancos, etc, alterando, omitindo ou incluindo dados, com
o intuito de obter vantagem econômica. A burla informática e nas comunicações é
o crime de computador mais comum, mais fácil de ser executado, porém, um dos
mais difíceis de ser esclarecido. Não requer conhecimento sofisticado em
computação e pode ser cometido por qualquer pessoa que obtenha acesso a um
computador.
d) Reprodução ilegítima de Programa de computador, Base de Dados e
Topografia de Produtos Semicondutores.
Em todo caso, este é um dos crimes tipificados na Legislação Penal Angolana 116
protegendo bens jurídicos essenciais a sociedade. A legislação penal estabelece
que:
1. Quem, ilegitimamente reproduzir, distribuir, comunicar ao público ou colocar
à disposição do público um programa de computadores protegido por lei é
punido com pena de prisão até 2 anos ou multa até 240 dias.
2. Quem, não estando para tanto autorizado, reproduzir, distribuir, comunicar
ao público ou colocar à sua disposição do publico, com fins comerciais, uma
base de dados criativa, é punido com pena de prisão de até 3 anos ou pena
de multa de até 360 dias.
3. Quem, não estado para tanto autorizado, proceder à extracção ou
reutilização de uma base de dados protegida por lei é punido com uma pena
de prisão de até 2 anos ou pena de multa de 240 dias.
A todo a todo, compreendemos que a segurança dos sistemas informáticos é sem
dúvida o bem jurídico protegido neste crime. De referir que este bem jurídico é
116
Cfr. Artigo 444.º do Código Penal Angolano.
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supraindividual, ou seja, ultrapassa os interesses de uma única pessoa, mas sim,
afecta interesses de toda sociedade.
SECÇÃO IV- PROCEDIMENTO CRIMINAL
Esta secção é reservada para esclarecer fundamentalmente os aspectos
legais para criminalização das acções cometidas no uso das novas
tecnologias de informação e comunicação, para que todos usuários,
intervenientes processuais estejam cada vez mais preparados para
compreenderem e tratarem os processos que são submetidos a sua análise
a apreciação.
a) Legitimidade.
Em regra, nos crimes informáticos e particularmente nos crimes contra as
comunicações e sistemas informáticos, são crimes de natureza pública não
dependendo de queixa ou acusação particular, incluindo o crime de burla
informática e nas comunicações, conforme estabelecido no n.º 1 do artigo 424.º do
Código Penal Angolano. Em todo caso, convém prevenir que a distinção entre os
crimes públicos, semi-públicos e particulares é estreitamente legal, conquanto seja
legítimo uma ou outra pessoa para a queixa e acusação.
Vejamos então:
Os crimes públicos são todos aqueles cujos procedimentos criminais se
desencadeia “ex oficio”, sem dependência de queixa nem participação ou de
acusação particular. A esta realidade podemos afigurar como caso hipotético, o
crime de homicídio previsto e punível nos termos do artigo 147.º do CPA 117.
Ao passo que os crimes semi-públicos são aqueles cujos procedimentos a lei faz
depender de queixa ou de participação. É, por exemplo, o caso do crime de ofensas
simples à integridade física previsto no artigo 159.º do CPA 118.
Finalmente, os crimes particulares são aqueles cujos procedimentos a lei faz
depender não só de queixa, mas também de acusação particular. É o caso, por
117
Cfr. SAMBO, José A. Eduardo. Manual de Direito Processual Penal Angolano. Volume I, Artipol-
Artes Tipográficcas. Lda, Angola/Luanda. Novembro de 2022. p. 89.
118
Cfr. Ibidem.
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exemplo, do crime de injúrias, previsto e punível nos termos do n.º 1 do artigo 213.º
do CPA119.
A queixa e a acusação particular estão desenvolvidamente reguladas no artigo
124.º do Código Penal Angolano. Ao nível do Código Penal Angolano, os crimes
públicos não encontram nenhuma referência à necessidade de queixa, denúncia
ou da acusação particular no âmbito do tipo legal.
Paradoxalmente, os tipos legais dos crimes semi-públicos e particulares já incluem
uma referência à necessidade de queixa ou do exercício da acção penal por parte
do particular na própria disposição legal ou no capítulo. A esta situação, veja-se por
exemplo o n.º 2 do artigo 159.º do CPA.
Os artigos 48.º e 49.º ambos do Código de Processo Penal Angolano (CPPA),
inspiram-se no princípio da oficiosidade, enquanto os artigos 50.º e 51.º do mesmo
Código, reconhecem a existência de crimes particulares e semi-públicos.
b) Tribunal competente.
Quanto a temática do tribunal competente, a Constituição da República de Angola
estabelece que existem quatro (4) tribunais superiores na República de Angola,
nomeadamente o Tribunal Supremo, Tribunal de Contas, Tribunal Constitucional
Supremo Tribunal Militar, de acordo o n.º 1 do artigo 176.º da Constituição da
República de Angola.
Por outro, o sistema de organização e funcionamento dos Tribunais compreende o
seguinte:
a) Uma jurisdição encabeçada pelo Tribunal Supremo e integrada igualmente
por Tribunais da Relação e outros Tribunais;
b) Uma jurisdição militar encabeçada pelo Supremo Tribunal Militar e integrada
igualmente por Tribunais Militares de Região.
Os Tribunais da Jurisdição Comum são órgãos de soberania com competência para
administrar a justiça em nome do povo, em todas as matérias cuja competência não
119
Cfr. SAMBO, José A. Eduardo. Op. Cit. p. 90.
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seja atribuída a outras jurisdições, em conformidade com a Constituição da
República de Angola120.
A função jurisdicional comum na República de Angola é exercida pelo Tribunal
Supremo, pelos Tribunais da Relação e pelos Tribunais de Comarca 121.
No exercício da sua função jurisdicional, compete aos Tribunais da Jurisdição
Comum dirimir conflitos de interesses público ou privados, assegurar a defesa dos
direitos e interesses legalmente protegidos, bem como os princípios do acusatório
e do contraditório e reprimir as violações da legalidade democrática 122.
Em termos de competência, somos forçosos em afirmar que compete aos
Tribunais de Jurisdição Comum (nos Tribunais de Comarca em primeira
instância), na sala Criminal, conforme estabelecido no artigo 61.º da Lei n.º 29/22,
de 29 de Agosto- Lei Orgânica Sobre a Organização e Funcionamento dos
Tribunais da Jurisdição Comum em Angola.
c) Provas.
Ao bom rigor e como é bom de ver, Angola é um Estado Democrático e de Direito,
o Estado subordina-se ao princípio da legalidade. A submissão à legalidade é
também abrangente no seu “jus puniendi”, razão pelo qual, esta secção é
reservada para abordagem das questões relacionadas às provas, suas formas de
obtenção e avaliação em sede do processo penal.
A verdade material é aquela que se alcança através de exames exaustivos das
provas, da investigação dos factos e das circunstâncias reais e concretas em que
ocorreu123.
A luz do artigo 338.º do CPPA, o tribunal ordena, oficiosamente ou a requerimento
das partes, a produção de todas as provas legalmente admissíveis que reputar
necessárias a descoberta da verdade e à justa decisão da causa, quer tenham sido
indicadas na acusação, no requerimento do assistente para abertura da instrução
120
Cfr. Artigo 2.º da Lei n.º 29/22, de 29 de Agosto- Lei Orgânica Sobre a Organização e
Funcionamento dos Tribunais da Jurisdição Comum.
121
Cfr. N.º 1 do Artigo 3.º. Idem.
122
Cfr. N.º 2 do Artigo 3.º. Idem.
123
Cfr. RAMOS, Vasco Grandão. Direito Processual Penal, Noções Fundamentais. 2ª Edição,
página 78.
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contraditória que conduzido à pronúncia, na constatação ou no rol de testemunhas,
quer a sua produção tenha sido requerida na própria audiência de julgamento.
Constata-se no artigo acima referido que existe uma estreita relação entre o
princípio do inquisitório e o princípio da verdade material.
Esta verdade é a que se opõe à chamada verdade formal (jurídica ou processual),
estreitamente ligada ao sistema de provas formais ou legais do velho processo
inquisitório. A verdade formal é obtida a partir de atitudes processuais dos
respectivos sujeitos, em especial do arguido, da confissão ou da forma que ela
revestia, do valor das presunções previamente estabelecidas, de ônus probatórios
não cumpridos124.
O princípio da verdade formal está estritamente ligado ao princípio dispositivo. O
princípio da investigação ganha especial relevo sempre que o objecto do processo
penal for alcançar a verdade material, pois é no alcance da verdade material que
está a grande importância do princípio da investigação no âmbito do processo
penal. A descoberta da verdade material é extremamente importante no processo
penal, tendo em conta fundamentalmente a natureza das sanções penais e, por
outro lado, o facto de existirem ainda grandes limitações no que concerne ao
acesso dos arguidos a defensores oficiosos ou advogados125.
A verdade não pode ser procurada e encontrada por quaisquer meios, mas apenas
por aqueles meios processualmente admissíveis, mesmo que essa limitação possa
redundar no sacrifício da verdade126.
Constituem excepções ao princípio da verdade material 127:
Nos termos do CPPA128, só tem valor probatório, para efeitos de formação
da convicção do tribunal, as provas produzidas ou examinadas em
audiência.
124
Cfr. RAMOS, Vasco Grandão. Direito Processual Penal. Noções Fundamentais. 2ª Edição. p. 77
125
Cfr. SILVA, Germano Marques da. Curso de Processo Penal I. 6ª Edição, Verbo, p. 101.
126
Cfr. SILVA, Germano Marques da. Op. Cit.
127
Cfr. MENDES, Paulo de Sousa, cita Figueiredo Dias. Lições de Direito Processual Penal.
Almedina. 2021. p. 218.
128
Cfr. Artigo 400.º do Código de Processo Penal Angolano.
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Assim, o conhecimento privado dos juízes não tem consistência para
fundamentar uma condenação (Quod non est in actis non est in mundo129).
Se o juiz for indicado no processo como testemunha e declarar, por
despacho e sob compromisso de honra, que tem conhecimento de factos
que podem influir na decisão da causa, considera-se impedido (n.º 1 do art.º
37.º do CPPA).
Contudo, nada impede a utilização de factos notórios (como sabemos, os
factos notórios são aqueles que não carecem de prova, nem de alegação,
devendo portanto, considerar-se como tais os factos que são do
conhecimento geral. A titulo de exemplo: a capital de Angola é Luanda, a
Independência de Angola foi proclamada no dia 11 de Novembro de 197 e o
Primeiro Presidente de Angola foi o Dr António Agostinho Neto.
O princípio da legalidade dos meios da prova pressupõe que a verdade não
pode ser procurada e encontrada por quaisquer meios, mas apenas por
aqueles meios processualmente admissíveis, mesmo que essa limitação
possa redundar no sacrifício da verdade.
A existência de provas proibidas à luz do n.º 2 e 3 do artigo 146.º do CPPA
(as provas obtidas nos termos dos n.ºs 2 e 3 do art.º 146.º são nulas. Sempre
que o uso de meios proibidos a que se refere o artigo constituir crime, as
provas com eles obtidas só podem ser usadas com o objectivo de proceder
criminalmente contra o agente do crime cometido.
O valor probatório dos documentos autênticos (artigos 190.º, 304.º n.º 2 e
114.º n.º 2 todos do CPPA)130;
As sentenças civis que tenham julgado questões prejudiciais da acção penal
(artigo 91.º do CPPA).
Constitui nulidade insanável a não realização de actos legalmente obrigatórios na
instrução preparatória ou contraditória e a omissão posterior de diligências
essenciais à descoberta da verdade (al. g), n.º 1 do art.º 140.º do CPPA).
129
Cfr. MENDES, Paulo de Sousa, cita Figueiredo Dias. Lições de Direito Processual Penal.
Almedina. 2021. p. 218.
130
Cfr. RAMOS, Vasco Grandão. Direito Processual Penal, Noções Fundamentais. 2ª Edição. p.
79.
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d) Penas aplicáveis nos crimes informáticos.
A pena, definido anteriormente como a sanção aflitiva imposta pelo Estado ao
criminoso e que visa repreender o acto criminoso, bem como intimidar a população
para não pautar nas mesmas práticas, é definido de acordo o princípio da
legalidade.
Assim, as sanções previstas no Código Penal Angolano e aplicáveis nos crimes
informáticos constam a pena de prisão e de multa. Ou seja, são aplicáveis nos
crimes informáticos as penas de prisão e de multa conforme o caso 131.
Contudo, quanto ao critério de escola da pena132: se ao crime forem aplicáveis, em
alternativa, pena privativa e pena de não privativa da liberdade, o Tribunal dá
preferência à segunda (isto é, a pena não privativa de liberdade, que neste caso,
esta pena de multa), sempre que esta realizar de forma adequa e suficiente as
finalidades da punição. Assim, nos crimes onde a lei prevê a aplicação da pena de
prisão e de multa, preferir-se-á a segunda (pena de multa), desde que a que com
a sua aplicação sejam realizáveis as finalidades da penam conforme o caso.
Depois, importa agora analisar os aspectos técnicos ligados à criminologia e a
prevenção do crime informático, desde as suas modalidades preventivas e
procedimentos jurídicos para a sua implementação.
SECÇÃO V- A CRIMINOLOGIA E A DIFÍCIL PREVENÇÃO DO
DELINQUENTE INFORMÁTICO.
De acordo com Pablo de Molina, o estudo criminológico aponta três (3) como sendo
as formas de prevenção de conflitos para qualquer espécie de infracção penal,
compondo prevenção “primária”, “secundária” e “terciária”, levando-se em conta
o critério etiológico.133
a) A prevenção primária.
A prevenção “primária” é aquele em que se busca combater a cogitação delitiva
fazendo-se investimentos em educação, emprego, assistência social, previdência,
131
Cfr. Artigos 39.º, 437.º ao 444.º todos do Código Penal Angolano.
132
Cfr. Artigo 69.º. Idem.
133
SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. 2ª Edição. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2008.
P. 276.
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e que assim afectam a raiz social do conflito social, buscando evitar que ele venha
sequer a se manifestar134.
É natural que a falta de direitos básicos e de condições mínimas de sobrevivência
são pavios que levam um cidadão excluído social a cometer delitos. Diante de uma
análise comparativa simples, países com menos oportunidades e com maiores
desigualdades são, via de regra, mais violentos e com maior índice de
criminalidade. Assim, a intervenção preventiva estatal deve focar as diferenças
sociais como gênese do delito, investindo nos sectores culturais, económicos e
sociais por períodos longos, criando evoluindo um novo segmento social mais
igualitário e consciente, em que os delitos deixam de ser ponderados como opção,
focando-se na produção.135
b) A prevenção secundária.
A prevenção “secundária”, por sua vez, actua com foco na experiência obtida a
partir da análise empírica da criminalidade, após conhecer-se o tempo e o espaço
em que os delitos se exteriorizaram com certa frequência.
Embasando no conhecimento pragmático e estatístico, o Estado tem, pois,
condições de prevenir o acontecimento da infracção penal agindo desde
geograficamente (aumentando a iluminação, diminuindo o tempo em que s
semáforos ficarão vermelho, mantendo carros de policia em cruzamento, etc. até
através de politicas legislativas, politicas policiais de patrulhamento, e outros.
Tais actos produzem efeitos em prazos médios e curtos, vez que retiram ambiente
próprio do delinquente, agindo no foco potencial da acção, desincentivando o actuar
naquele local. Deve-se considerar, entretanto, que o criminoso planejador de suas
acções buscará ambientes mais propícios para o cometimento do tipo, caso esteja
determinado. Dante de tal facto, é de se compreender que a prevenção
“secundária” é paliativa e tem um efeito de prorrogação do momento e região do
delito somente.136
134
Cfr. MOLINA, Pablo de; Garcia António. Criminologia. 5ª Edição Revista e Actualizada. Editora
dos Tribunais. São Paulo. 2006. p. 476.
135
Cfr. Ibidem.
136
Cfr. SILVA, Júnior Délio. Crimes Informáticos: sua vitimação e a questão do tipo objectivo.
Coimbra. Coimbra Editora. Volume 2. 2006. p. 29.
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c) Prevenção terciária.
Finalmente, a prevenção “terciária”, que representa um foco de acção estatal
diferenciada. Enquanto que as prevenções anteriormente explanadas trazem
atitudes focadas em todos os cidadãos genericamente, esta modalidade foca na
figura do recluso condenado e, na evitação de reincidência. A intervenção tardia
visa utilizar-se de programas “ressocializadores”, “reeducativos” e de reinclusão
social, visando dar ao preso condições de, ao sair do estabelecimento prisional, ser
capaz de enfrentar o desafio da realocação social sem ser apartado da
produtividade e, assim, sem ser incentivado a cometer novos factos delituosos.137
O delito informático dispensa obviamente a presença física do ofensor, dispensa
contactos físicos e directos com a vítima, planeamento e força, ocorrem a partir de
uma acção contra uma multiplicidade de pessoas (crimes de um contra muitos) e
não respeitam lógica e estilo, sendo, pois, alvo de constantes modificações em suas
tácticas e ardis. Com isso, é imprescindível entender que a nova criminalidade
tenderá a somar-se com a clássica, gerando uma sobrecarga de acções criminais.
As prevenções primária e terciária também se mostram deveras ineficientes na
temática. Isso porque se acredita que o cidadão delinquente virtual compreende o
carácter ilegal de suas acções tem boa educação e até boas condições sociais. 138
Deste modo, não se pode dizer em necessidade de ressocialização para o
criminoso voluntário que pratica o facto imiscuído de motivos que não raro se
encaixam em qualquer das teorias criminais, mas sim em teorias de anulação de
responsabilidade ou de técnicas de neutralização, utilizadas pelos desviantes.
Cinco (5) são as técnicas de neutralização:
1- Negação de responsabilidade;
2- Negação de prejuízo;
3- Negação de vítima
4- Condenação dos condenadores;
5- Apelo a valores superiores.
137
Cfr. SOUSA, Luciano Anderson de. Expansão do Direito Pena e Globalização. São Paulo.
Quartier Latin. 2007. p. 486.
138
Cfr. SOUSA, Luciano Anderson de. Op. Cit. p. 500.
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No primeiro caso, culpam-se forças além do controle do vitimário para justificar a
acção. No segundo caso, a justificação está no facto de que a acção não gerou
prejuízo considerável à vítima.139 O terceiro caso, trata da ideia de retaliação ou
devolução de um sofrimento merecido à vitima. A condenação do condenador é a
tentativa de reversão da culpa a actitude, atribuindo-se o legislador e a lei penal
como duvidosos em sua acção ou legitimidade. E finalmente, o apelo a valores
superiores aponta a actitude como sacrifícios para priorizar valores mais
importantes ao agente, como uma crença ou um ideal politico.140
139
Cfr. SOUSA, Luciano Anderson de. Expansão do Direito Pena e Globalização. São Paulo.
Quartier Latin. 2007. p. 503.
140
Cfr. Ibidem.
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CONCLUSÕES
Volvidos na discussão desta temática que é actual e complexo, podemos concluir
através dos seguintes argumentos:
1- A informática trouxe novos paradigmas para o pensamento penal, por conta
de trazer consigo características que exigem que valores clássicos como a
personalidade da relação criminosa, a teoria da actividade na consideração
do local do crime, a limitação física do cometimento do delito, o cometimento
individual de delitos, entre outros devem ser reflectidos novamente, sob um
novo véu. Desse modo, as características trazidas pela tecnologia reflectem
sobremaneira no modo como o Direito Penal deve adequar-se e interpretar
seus valores;
2- A própria rede mundial de computadores é por si um ambiente de risco, vez
que permeada pela anonimidade dos usuários e pelo alto grau de êxito, o
que estimula a oportunidade de cometimento de delitos, sob uma máscara
aparente de impunidade. A intangibilidade do meio, o perfil do delinquente
informático e os novos bens jurídicos com necessidade de protecção fazem
com que os conceitos de prevenção primária, secundária e terciaria exijam
nova reflecção. Os métodos antigos de prevenção têm se mostrado
ineficientes pois o delinquente informático em nada se assemelha ao comum
e, por isso, requer cuidados diferenciados do Estado para que não haja nova
vitimização;
3- O novo bem jurídico urgido pela informática é a segurança telemática e isso
se dá pelo facto de que a tecnologia formada por “bits” mostra-se, melhor
um melhor ambiente do que um objecto individualizável. Destarte, assim
como outros meios ambientais, exige-se concepções novas de bem jurídico
imaterial que apontam para valores como a) a confidencialidade dos dados
produzidos e armazenados pela informática; b) a integridade de tais dados;
e c) a disponibilidade de acesso, leitura e uso de tais dados.
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SUGESTÕES
A todo a todo, tendo em vista a complexidade da temática desenvolvida e sobretudo
a sua importância social e económica, quer para a Comunidade Internacional e para
o Estado Angolano e como para população em particular, devemos reconhecer e
sugerir o seguinte:
1- Que a legislação internacional seja uníssona na tipificação dos crimes
informáticos e garantir maior cooperação e combate a tais delitos, bem
como, haja maior rigor na cooperação entre Estados de modo a evitar que
um acto seja crime num país e não ser no outro, tendo-se em vista a
velocidade, a mundialização e a ubiquidade serem características dessa
nova delinquência;
2- Que a comunidade internacional crie condições de mitigar as dificuldades de
persecução criminal profícua por limitações inter-soberânicas e as
dificuldades em composição de indícios de autoria e materialidade, que
como abordamos, também há prejuízos na efectivação de mecanismos de
constrição;
3- Que o Estado Angolano cria um programa eficaz de capacitação das
instituições com meios técnicos e humanos visando a prevenção e ainda
capazes de controlar estes crimes, sancionando os seus infractores;
4- Igualmente, que o Estado Angolano possa sensibilizar o povo para fazer
queixa e participação destes crimes, para responsabilizar seus infractores e
restabelecer a segurança da maioria parte da população;
5- Finalmente, que haja um controlo efectivo para evitar que os queixosos
(aqueles que fazem queixas e participação criminal), sejam intimidados ou
mesmo desencorajados a não fazerem tal procedimento.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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