Prólogo
Antes do Sino.
A estrada estava errada.
Rick percebeu isso antes mesmo de ver a fumaça. O silêncio ao redor era denso demais, como se os
pássaros tivessem abandonado o lugar horas antes do perigo chegar. Ele caminhava com a maça apoiada
no ombro, o escudo pendendo pesado no braço, cada passo ecoando em sua própria cabeça mais do que
no chão.
Uma vila deveria ter sons.
Martelos. Vozes. Crianças.
Ali, só o vento.
Mais adiante, entre as árvores, algo se moveu. Não rápido — decidido.
O homem surgiu da trilha lateral coberto de peles, um machado azul pendendo da mão como se fosse
parte do braço. O frio parecia segui-lo, uma presença invisível que mordia a pele. Ele não diminuiu o
passo ao ver Rick. Não acelerou. Apenas continuou.
Eles se cruzaram a poucos metros de distância.
Rick sentiu o peso da ausência naquele homem. Não de fé — de qualquer coisa. Tentou dizer algo,
qualquer coisa que soasse como aviso ou cumprimento.
Nada pareceu necessário.
O homem passou por ele como se já estivesse indo embora antes mesmo de chegar.
Rick seguiu adiante, com uma sensação incômoda de que aquela não seria a última vez.
Do outro lado da colina, Helldalf observava a estrada de cima de uma elevação coberta de árvores mortas.
As correntes em suas mãos estavam imóveis, mas não silenciosas — o metal parecia tenso, como se
antecipasse o uso.
Ele havia seguido rastros errados por dois dias. Demônios dispersos. Criaturas menores. Nada que
justificasse o que sentia agora.
Então viu a fumaça.
Não subia em colunas organizadas, como incêndios comuns. Subia em manchas irregulares, engolindo o
céu aos poucos. Helldalf cerrou o punho, sentindo os elos pressionarem a palma da mão.
— Tarde — murmurou para ninguém.
O sino começou a tocar.
Não era um toque de aviso treinado. Era alguém puxando a corda como se estivesse se afogando. O som
chegou até eles quase ao mesmo tempo, atravessando a estrada, a floresta e o ar pesado.
Rick parou.
O homem do machado também.
Helldalf fechou os olhos por um instante — não em oração, mas em aceitação.
2
Então todos se moveram.
Não juntos.
Não por acordo.
Mas porque o mundo havia decidido que aquele seria o ponto de encontro.
E, enquanto avançavam em direções diferentes rumo ao mesmo destino, algo invisível se deslocava com
eles — uma presença antiga, satisfeita.
O ataque já havia começado.