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Kelvin

O trabalho de Kelvin Roberto Chitache aborda a proteção dos direitos do consumidor no contrato de adesão em Moçambique, destacando a importância da Lei n.º 22/2009 e da Constituição da República na defesa dos direitos dos consumidores. O autor conclui que a implementação efetiva dessa lei é insuficiente, com muitos cidadãos ainda desconhecendo seus direitos. O estudo enfatiza a necessidade de ações informativas por parte do Estado e das autarquias locais para promover a conscientização sobre os direitos do consumidor.

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albertofullane
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Kelvin

O trabalho de Kelvin Roberto Chitache aborda a proteção dos direitos do consumidor no contrato de adesão em Moçambique, destacando a importância da Lei n.º 22/2009 e da Constituição da República na defesa dos direitos dos consumidores. O autor conclui que a implementação efetiva dessa lei é insuficiente, com muitos cidadãos ainda desconhecendo seus direitos. O estudo enfatiza a necessidade de ações informativas por parte do Estado e das autarquias locais para promover a conscientização sobre os direitos do consumidor.

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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE

EXTENSÃO DE MAPUTO
LICENCIATURA EM DIREITO

KELVIN ROBERTO CHITACHE

PROTEÇÃO DOS DIREITOS DO CONSUMIDOR NO


CONTRATO DE ADESÃO

MAPUTO, FEVEREIRO DE 2025


UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE
EXTENSÃO DE MAPUTO
LICENCIATURA EM DIREITO

KELVIN ROBERTO CHITACHE

PROTEÇÃO DOS DIREITOS DO CONSUMIDOR NO


CONTRATO DE ADESÃO

Monografia a ser apresentada à Universidade Católica


de Moçambique, Extensão de Maputo, como requisito
parcial para obtenção do grau de Licenciatura em
Direito. Supervisora:

MSC. Helena José Dimitri.

MAPUTO, FEVEREIRO DE 2025

II
DECLARAÇÃO DE AUTENTICIDADE

Eu, Kelvin Chitache, natural de Maputo, portador de Bilhete de Identidade nº 100106482671p e


inscrito sob número de matrícula 714210209. Asseguro que o trabalho de conclusão de curso é o
resultado do meu esforço de investigação, com a orientação do meu supervisor. Todo o conteúdo
é genuíno, e todas as fontes consultadas são devidamente referenciadas no texto, notas e na lista
de referências bibliográficas.
Adicionalmente, confirmo que o trabalho não foi submetido a qualquer instituição com o
propósito de obtenção de qualificação académica.

Por ser verdade, passo a assinar

Maputo, aos______/_______/2025

___________________________________________

Kelvin Roberto Chitache

III
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE
EXTENSÃO DE MAPUTO
LICENCIATURA EM DIREITO

PROTEÇÃO DOS DIREITO DO CONSUMIDOR NO CONTRATO DE ADESÃO

Classificação ________ Valores

Candidato/a:______________________________________

Os elementos do júri:

Presidente: _______________________________________

Oponente: ________________________________________

Supervisor:________________________________________

MAPUTO, FEVEREIRO DE 2025

IV
AGRADECIMENTOS
Em primeiro lugar, agradeço a Deus, dom da vida, o senhor fonte de toda
orientação e força, por guiar-me durante toda esta jornada académica. Sua presença constante e
amor incondicional foram minha rocha inabalável e, por isso expresso minha mais profunda
gratidão. Que o trabalho seja uma maneira humilde de honrar Sua grandeza e misericórdia.

Agradeço aos meus amados pais, Adolfo Chitache e Luísa Victorino Chai-Chai
Chitache, cujo amor e apoio foram os alicerces nesta jornada. Desde o início, estiveram ao meu
lado, incentivando-me, inspirando-me e acreditando no meu potencial. A vocês, meus queridos
pais, devo tudo.

Aos meus irmãos e irmãs, Émerson Chitache, Elton Chitache, Chris Victor A. Chitache,
Mariamo Lucas Banze Chitache e Françoise Chitache e aos meus sobrinhos Ethan Chitache
agradeço por serem minha fonte constante de apoio e inspiração. Vossas palavras de incentivo,
apoio inabalável e sorrisos encorajadores foram luzes brilhantes nos momentos de desafio.

Agradeço a todos meus familiares, tios, tias, primas, primo e demais, pelo apoio incondicional
que me deram durante o percurso.

Aos meus amigos Adelina Febo, Amigo Rassul, Assis Rossolo, Chefe da turma Letícia Gambeta,
Neyd Arthur, Júlia Cuna e tantos outros, expresso a minha gratidão porque estiveram ao meu
lado em cada etapa desde percurso. O apoio e memórias compartilhadas tornaram a jornada
inesquecível.

Ao Alberto Fulane, não tenho palavras suficientes para expressar minha gratidão. O agradeço
pelo esforço que teve para me incentivar a estudar e a deixar de ser preguiçoso. A sua amizade
foi uma bênção.

Agradeço, incansavelmente, também à minha docente e Supervisora Dr.ª Helena Dimitri, pela
orientação sábia e comprometida. Sua dedicação e apoio foram muito importantes para a
realização desde trabalho.

Por fim, aos meus docentes um forte abraço, pelos ensinamentos adquiridos em suas aulas e que
de certa forma contribuíram na minha longa caminhada estudantil.

V
DEDICATÓRIA

Dedico o trabalho aos meus queridos pais, cujo


amor é inabalável, apoio incondicional e
encorajamento constante, foram a luz que
iluminou o caminho de minha jornada académica.

Aos meus avós Alberto Júlio, Leopoldina Adolfo,


Victorino Chai-Chai (in memoriam).

VI
EPÍGRAFE

“A política não deveria ser arte de dominar, mas sim


a arte de fazer justiça.”

Aristóteles.

VII
LISTA DE ABREVIATURAS

ADECOM- Associação de Defesa dos Consumidores de Moçambique.

Al- Alínea;

Art- Artigo;

CC- Código Civil;

CCom- Código Comercial;

Cfr. – Conferir;

Cf. - Confira;

CRM - Constituição da República;

LDC- Lei de Defesa do Consumidor;

CP - Código de Publicidade;

VIII
RESUMO
A República de Moçambique é um Estado de Direito, baseado no pluralismo de expressão, na
organização política democrática, no respeito e garantias dos direitos e liberdades fundamentais do
Homem (Cfr. Artigo 3) e, de justiça social (artigo 1, in fine), ambos, da Constituição da República,
também alinha-se no sentido de salvaguardar os direitos fundamentais, In Sub Judice. Os direitos dos
consumidores, conforme previsto no artigo 92, da Lei Mãe, e da Lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro, que
institui o sistema de defesa dos consumidores em Moçambique.
A relação de consumo é instituída através de um acto de consumo. Nasce, quase sempre, na base de um
contrato que tem como partes integrantes o consumidor e o fornecedor. Por conseguinte, o contrato de
consumo consiste na convenção mediante o qual o consumidor adquire, para fins pessoais, bens ou
serviços oferecidos por empresários e, cujo âmbito é regulado pela lei de defesa do Consumidor
A lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro, incide sobre as relações taxativamente consideradas as relações de
consumo. Por relações de consumo, entende-se que são bilaterais, pois num dos pólos, temos o fornecedor
que pode ser produtor, fabricante, importador, comerciante e prestador de serviços, ou então, aquele que
se dispõe a fornecer bens e serviços à terceiros; noutro pólo, temos, o consumidor que se sujeita às
condições impostas por titulares de bens ou serviços no atendimento das suas necessidades de consumo.
Com o presente trabalho, concluímos que em Moçambique não há implementação efectiva da lei da
defesa do consumidor, por parte dos entes que a lei incumbe. Não só, a lei de defesa do consumidor, ainda
não é conhecida pela parte significativa dos cidadãos, pois o Estado e a autarquias locais não
desenvolvem acções tendentes à informação geral do consumidor.

Palavras-chave: Contrato de Adesão, Protecção, Consumidor, Cláusulas Abusivas.

IX
ABSTRACT

The Republic of Mozambique is a State of Law, based on pluralism of expression, democratic political
organization, respect and guarantees of human rights and fundamental freedoms (Cfr. Article 3) and
social justice (article 1, in fine), both, of the Constitution of the Republic, also aligns in the sense of
safeguarding fundamental rights, In Sub Judice. Consumer rights, as provided for in Article 92 of the
Mother Law, and Law No. º 22/2009, of September 28, establishing the consumer protection system in
Mozambique.
The consumption relationship is established through an act of consumption. It is almost always born on
the basis of a contract that has the consumer and the supplier as integral parts. Therefore, the consumer
contract consists of the agreement by which the consumer acquires, for personal purposes, goods or
services offered by entrepreneurs and, the scope of which is regulated by the Consumer Protection Law.
Law No.º 22/2009, of September 28, focuses on relations strictly considered consumer relations. By
consumer relations, it is understood that they are bilateral, because at one pole, we have the supplier who
can be a producer, manufacturer, importer, merchant and service provider, or the one who is willing to
provide goods and services to third parties; in another pole, we have the consumer who is subject to the
conditions imposed by owners of goods or services in meeting their consumption needs.
With this work, we conclude that in Mozambique there is no effective implementation of the consumer
protection law by the entities responsible for the law. Not only that, the consumer protection law is not
yet known by the significant part of citizens, because the State and local authorities do not develop
actions aimed at general consumer information

Keywords: Accession Contract, Protection, Consumer, Abusive Clauses.

X
Índice
DECLARAÇÃO DE AUTENTICIDADE...................................................................................................3
AGRADECIMENTOS................................................................................................................................5
DEDICATÓRIA..........................................................................................................................................6
EPÍGRAFE..................................................................................................................................................7
LISTA DE ABREVIATURAS....................................................................................................................8
RESUMO....................................................................................................................................................9
ABSTRACT..............................................................................................................................................10
INTRODUÇÃO.........................................................................................................................................13
1.1. CONTEXTUALIZAÇÃO.............................................................................................................15
1.2. JUSTIFICATIVA..........................................................................................................................16
1.3. PROBLEMATICA........................................................................................................................18
1.4. OBJECTIVO.................................................................................................................................19
1.5. Geral..........................................................................................................................................19
1.6. Específicos.................................................................................................................................19
CAPITULO I:............................................................................................................................................20
2. PROCEDIMENTO MEDOLOGICO.............................................................................................20
2.1. METODOLOGIA......................................................................................................................20
2.2. Tipo de Abordagem...................................................................................................................20
2.3. Técnicas de recolha de dados.....................................................................................................20
2.4. Método de pesquisa: Bibliográfica.............................................................................................20
2.5. Pesquisa Documental.................................................................................................................21
CAPITULO II:..........................................................................................................................................21
3. Direito do Consumidor......................................................................................................................21
3.1. Evolução Histórica do Direito do Consumidor..........................................................................21
3.2. Breves Fundamentos Pré-constitucionais A Constitucional de Defesa do Consumidor em
Moçambique..........................................................................................................................................22
3.3. Definição do Direito do Consumidor.........................................................................................24
3.4. Mercado de Consumo................................................................................................................25
3.5. Contrato de consumo.................................................................................................................26
3.6. Consumidor...............................................................................................................................26
3.7. Fornecedor.................................................................................................................................26

XI
3.8. Natureza Jurídica.......................................................................................................................27
3.9. Relação de consumo..................................................................................................................28
CAPITULO III:.........................................................................................................................................29
4. Contrato de Adesão...........................................................................................................................29
4.1. Generalidade..............................................................................................................................29
4.2. Conceitos do contrato de adesão................................................................................................32
4.3. Modo de formação.....................................................................................................................33
4.4. Caracterização...........................................................................................................................34
4.5. Natureza jurídica........................................................................................................................36
CAPITULO IV:.........................................................................................................................................37
5. Protecção do Direito de consumidor no contrato de Adesão..........................................................37
5.1. Protecção...................................................................................................................................37
5.2. Direito do consumidor na ordem jurídica Moçambicana...........................................................37
5.2.1. Constituição da república como eixo dos direitos fundamentais............................................37
5.2.2. Código Civil..........................................................................................................................38
5.3. O Sistema Moçambicano de Defesa do Consumidor.................................................................39
5.3.1. Direito à qualidade dos bens e serviços..................................................................................40
5.3.2. Direito à protecção da vida, saúde e da segurança física........................................................41
5.3.3. Direito à formação e à educação para o consumo..................................................................41
5.3.4. Direito a informação do consumo..........................................................................................42
5.3.5. Direito à protecção dos interesses económicos......................................................................43
5.3.6. Direito à prevenção e acção inibitória....................................................................................43
5.3.7. Direito à reparação de danos..................................................................................................43
5.3.8. Direito à protecção jurídica e direito à uma justiça acessível e pronta...................................44
5.3.9. Direito de participação por via representativa........................................................................45
5.3.10. Direito à Protecção contra a publicidade enganosa e abusiva...............................................45
5.3.11. Tutela Administrativa, civil e penal.......................................................................................46
6. Contrato de adesão em Moçambique.................................................................................................47
6.1. Regime geral dos contratos de adesão........................................................................................48
6.2. Cláusulas Abusivas do contrato de adesão.................................................................................51
6.3. Efeito das cláusulas abusivas a Luz do Código Comercial........................................................52
CONCLUSÃO..........................................................................................................................................54

XII
RECOMENDAÇÕES E SUGESTÕES.....................................................................................................55
REFERENCIA BIBLIOGRAFICA...........................................................................................................56

XIII
INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como tema: Proteção dos Direitos do Consumidor no Contrato de
Adesão. O tema em estudo enquadra-se no âmbito que a doutrina cunha os novos ramos de
direito, concretamente, o direito do consumidor. É uma disciplina transversal entre o direito
público e o direito privado. Pois, assegura e protege um determinado sujeito de direito, o
consumidor, nas relações jurídicas frente a um profissional. O tema tem relevância a nível
mundial e nacionais, visto que a maioria dos Estados têm mostrado mais interesse desde os
tempos passados, em implantar políticas que proporcionam qualidades de bens e serviços aos
cidadãos no âmbito das relações do consumo.

O momento triunfal aquando da defesa do consumidor em Moçambique, foi com a chegada da


Constituição da República de 2004 quando se introduziu o capítulo V (Direitos e Deveres
Económicos, Sociais e Culturais), o artigo 92 da CRM com epígrafe (Direito do consumidor).
Sem sombra de dúvida que na história do constitucionalismo moçambicano, foi a primeira vez
que uma Constituição, diga-se, Lei Mãe, de forma expressa, aberta, directa e, explícita, veio
tratar da matéria inerente à defesa dos consumidores em Moçambique. Destarte, constituindo um
novo direito que veio se juntar ao leque dos direitos fundamentais já existente no ordenamento
jurídico interno.1

O Prof. António Herman defender que direito do consumidor é um ramo novo do direito,
disciplina transversal entre o direito privado e o direito público, que visa proteger o sujeito de
direito, especificamente o consumidor, em todas as suas relações jurídicas frente ao fornecedor,
um profissional, empresário ou comerciante.2
Quanto à sua natureza jurídica, o direito do consumidor, integra no direito privado bem como no
direito público, defendido por André Almeida que pertencendo ao direito Privado. Não se trata
de Direito Civil nem de Direito Comercial, mas situa-se entre ambos. Compreende-se que o
conteúdo possa suscitar dúvidas quanto à sua natureza jurídica.

1
Abreu vassula (2024, p15) MIRANDA, Jorge, Manual de Direito Constitucional, Tomo IV, Direitos
Fundamentais, 3ª Edição, Coimbra, p. 7: direitos fundamentais os direitos ou as posições jurídicas activas das
pessoas enquanto tais, individual ou institucionalmente consideradas, assentes na Constituição, seja na Constituição
formal, seja na Constituição material
2
CARVALHO, Jorge Morais, Manual de Direito do Consumo, Almedina, 2021.p. 48 e 49.

14
Quanto as relações de consumo, a lei de defesa do consumidor, incidem sobre as relações
taxativamente consideradas as relações de consumo. Por relações de consumo, entende-se que
são bilaterais, pois num dos pólos, temos o fornecedor que pode ser produtor, fabricante,
importador, comerciante e prestador de serviços, ou então, aquele que se dispõe a fornecer bens e
serviços à terceiros; noutro pólo, temos, o consumidor que se sujeita às condições impostas por
titulares de bens ou serviços no atendimento das suas necessidades de consumo.
A Constituição da República é o eixo dos direito fundamentais, servindo como a lei nuclear,
mesmo que o seu conteúdo não assuma o mais alto-relevo que é possível conceber na tarefa que
um acto legislativo desempenhará: ser o núcleo do Ordenamento Jurídico. Uma vez que a
Constituição é o fundamento da ordem jurídica, então, as normas constitucionais prevalecem
sobre todas as restantes normas do ordenamento jurídico (n.º 4, art.º.. 2, Constituição
Moçambicana).

A proteção do consumidor procura, na sua génese, corrigir as disparidades intrínsecas da relação


consumidor-fornecedor, especialmente no que concerne ao desequilíbrio quanto à informação, ao
poder negocial, à segurança e ao acesso à justiça. Contudo, embora haja orientações sobre as
principais características de uma legislação eficaz de protecção do consumidor, a matéria é
muitas vezes, uma das últimas áreas nas quais as economias em desenvolvimento concentram-se.
A Protecção dos Direitos do Consumidor no Contrato de Adesão, enquadra-se no contexto
mundial, histórico, moderno. Desde a antiguidade constituiu preocupação dos governos garantir
a inocuidade dos alimentos através da institucionalização de normas alimentares que visam
assegurar a aptidão dos alimentos nutritivos, que se produzam em quantidades suficientes
capazes de cobrir às necessidades da população mundial que cresce de forma galopante.
É sabido que em Moçambique, as cláusulas abusivas em contratos de Adesão representam um
grande problema que afecta os direitos dos consumidores de várias formas.

O problema é uma dificuldade teórica ou prática, no conhecimento de coisa de real importância


para qual se deve encontrar uma solução.3O trabalho reflecte sobre a eficácia de defesa dos
direitos dos consumidores nas relações de consumo que emanam do comércio da compra e
venda, à luz da Lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro, e de outras legislações nacionais e
3
. MARCONI, Marina de Andrade e LAKATOS, Eva Maria: (2007). Fundamento de Metodologia Científica, São
Paulo, 6ª edição, editora Atlas SA.

15
internacionais com ênfase na matéria de proteção ao consumidor que temos constatado, no dia-a-
dia das relações de consumo.
A Lei de Defesa do Consumidor serve para proteger os direitos dos consumidores nas relações
de consumo, garantindo que empresas e fornecedores ofereçam produtos e serviços de forma
justa, segura e transparente, bem como equilibrar a relação entre ambos.
O problema do consumidor em relação ao contrato de adesão reside no desequilíbrio de poder
entre as partes. Nesse tipo de contrato, a empresa (fornecedora do serviço ou produto) define
todas as cláusulas unilateralmente, sem permitir que o consumidor as negocie. Assim, o
consumidor tem apenas duas opções: aceitar integralmente ou recusar o contrato, sem margem
para alterações. Face a necessidade que o consumidor tem, este acaba por aderir ao contrato que
muitas das vezes gera mais desvantagens do que benefícios. Dai a necessidade que surgiu de
fazer o estudo para analisar até que ponto a lei de defesa do consumidor protege o consumidor,
onde estabelecemos a seguinte pergunta de partida:
Até que ponto a lei de defesa do consumidor protege o consumidor face aos contratos de
Adesão?

A relevância do estudo reside na importância do tema, além disso, na necessidade de se iniciar


um debate de modo a promover junto das entidades competentes a intensificação da supervisão
das cláusulas abusivas nos contratos de adesão e quiçá, sensibilizar as instituições de defesa do
consumidor a incentivar denúncias para estes tipos de casos, incluindo a sensibilização ao
legislador doméstico a integrar com mais precisão estas matérias na lei civil. Em suma, pela
necessidade de se melhorar a proteção dos direitos dos consumidores, de modo que o
ordenamento jurídico adopte medidas de prevenção imediatas.

O objectivo geral do trabalho é perceber e reflectir sobre o sistema jurídico de defesa dos
consumidores em Moçambique. E traçamos como objectivos específicos os seguintes: estudar a
Lei de Defesa do Consumidor, analisar o regime jurídico do contrato de adesão, pesquisar os
direitos dos consumidores face ao contrato de adesão; analisar até que ponto a lei de defesa do
consumidor protege o consumidor das cláusulas abusivas.

16
O trabalho está dividido em quatro capítulos. No primeiro capítulo apresentamos a metodologia,
onde explicamos o tipo de pesquisa feita, a abordagem usada, bem como as técnicas e métodos
usados na colecta de dados. O segundo capítulo corresponde ao marco teórico, onde
apresentamos os pontos de vista dos diferentes autores. No terceiro capítulo apresentamos o
Direito Comparado e seguidamente o capítulo de demonstração dos resultados. Por fim, as
conclusões e as recomendações, bem como a referência bibliográfica.

17
CAPÍTULO I. METODOLOGIA

Neste capítulo apresentamos a metodologia adoptada para a realização do trabalho, destacando o


método de pesquisa, o tipo de abordagem e as técnicas de recolha de dados.
A metodologia é definida como a teoria dos métodos, isto é, o estudo do modo de produção do
conhecimento e a análise crítica das técnicas e instrumentos empregados na pesquisa. 4

1.1 Pesquisa quanto ao tipo de abordagem


Segundo Silveira e Córdova a abordagem qualitativa apresentam como uma das principais
características a objectivação do fenómeno a ser pesquisado, por meio da compreensão da
percepção subjectiva do sujeito, que será descrita e explicada a partir da relação estabelecida
entre o sujeito e o contexto no qual o fenómeno está inserido. 5 Este tipo de abordagem é
justificado pelo facto de se buscar compreender e analisar a proteção dos direitos do consumidor
no contrato de Adesão e que responsabilidades caem para o fornecedor em caso das cláusulas
abusivas.

1.2 Quanto ao método de pesquisa


Uma das técnicas que levamos em consideração é a pesquisa bibliográfica, esta que é definida
como o levantamento de toda a bibliografia já publicada, em forma de livros, revistas,
publicações avulsas e imprensa escrita. Sua finalidade é colocar o pesquisador em contacto
directo com tudo aquilo que foi escrito sobre determinado assunto. 6

Pesquisa Documental
Na pesquisa documental o investigador centra a sua investigação em determinados dados
obtidos nos próprios documentos e registos, que estão em arquivos, tais como certidões,
fotografias, desenhos, cartas, entre outros. Estes documentos registam factos sobre um
determinado assunto ou de uma determinada época.7

4
MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria, Fundamentos de metodologia científica, 3.ª ed, São
Paulo, Atlas, 1991, pág. 24.
5
GERHARDT, Tatiana Engel, SILVEIRA, Denise, Métodos de Pesquisa, Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Editora UFRGS, 2009, pág 32.
6
Idem, págs. 43-44.
7
ALVES, Maria da Piedade; Metodologia Científica; Escolar Editora, 2012, pág. 40.

18
Quanto aos procedimentos técnicos
A pesquisa é documental e bibliográfica. A presente pesquisa será elaborada a partir de materiais
que não receberam tratamento analítico bem como, a partir de material já publicado, constituído
principalmente de livros, artigos de periódicos e actualmente com material disponibilizado na
Internet.8

[Link] Quanto aos objectivos


A pesquisa é descritiva. Descritiva visto que a análise do início da personalidade jurídica no
ordenamento moçambicano implica a descrição dos direitos de um ser já concebido e dos direitos
do nascituro, tirando dos mesmos as situações controvérsias sobre os mesmos.

[Link] Quanto a abordagem do problema


A pesquisa qualitativa, segundo Triviños (1987), a abordagem de cunho qualitativo trabalha os
dados buscando seu significado, tendo como base a percepção do fenómeno dentro do seu
contexto. O uso da descrição qualitativa procura captar não só a aparência do fenómeno como
também suas essências, procurando explicar sua origem, relações e mudanças, e tentando intuir
as consequências. Portanto, o método qualitativo pressupõe uma pesquisa que não é feita em
números.

[Link] Quanto ao método de abordagem


Foi utilizado o método dedutivo, este método parte de geral para particular, segundo ANTÓNIO
GILL9, parte de princípios reconhecidos como verdadeiro e indiscutíveis e possibilita chegar a
conclusões de maneira puramente formal, isto é, em virtude unicamente de sua lógica. Este
método usa silogismo, que consiste numa construção lógica que, a partir de duas preposições
chamadas premissas, retira uma terceira, nela logicamente implicadas, denominada conclusão.
Portanto, o presente estudo partiu de uma análise dos direitos de um ser já nascido em relação a
um ser ainda não nascido.

8
Cfr. SILVA, Edna Lúcia & MENEZES, Estera Muszkat, Metodologia de Pesquisa e Elaboração de Dissertação,
3a edição revisada e atualizada, UFSC, Florianópolis, 2001, p. 21, in apud Gil, 1991.
9
GIL, António Carlos, Metodos e Técncas de Pesquisa Social, 6a ed. Editora Atlas, São Paulo, 2008, p. 9.

19
CAPÍTULO II: REVISÃO DA LITERATURA
Neste capítulo começamos por apresentar a breves fundamentos constitucionais sobre a defesa
do consumidor em Moçambique, os conceitos relevantes para compreensão do tema e análise do
problema, bem como, as teorias encontradas relacionadas ao tema do estudo.

2. Breves Fundamentos Pré-constitucionais a Constitucional de Defesa do Consumidor


em Moçambique
Segundo Abreu Vassula, em Moçambique, não obstante, as constituições de 1975 e 1990, não
terem de forma expressa consagrado ao texto constitucional normas que directamente
protegessem ao consumidor, isso não significou que a inexistência de normas cujo escopo é
defender os interesses do consumidor no ordenamento jurídico moçambicano.
A forma de provar os seus ideias, a Lei n.º 5/82, de 9 de Junho, 10 cujas normas, previam a defesa
do consumidor, respectivamente: o artigo 13 (Incumprimento de medidas em prejuízo da
conservação de bens), punia todo aquele que por inerência do cargo que ocupa não agisse no
sentido de impedir a deterioração, alteração, corrupção, inutilização ou perca de matérias-primas,
produtos elaborados ou outros bens; o artigo 15 (Incumprimento de normas de segurança), punia
todo aquele que não cumprisse com as normas de seguranças destinadas a evitar o perigo da
produção e disso resultar um prejuízo; o artigo 22 (Defesa do escoamento), sancionava em casos
de retardar, perturbar ou, por qualquer forma, prejudicar o escoamento de bens ou produtos, ou o
correcto abastecimento das estruturas de produção ou de comercialização; o artigo 24 (Desvio de
produtos), punia todo o comerciante que ao invés de revender os produtos a que tivesse
obrigação os alienasse.
O mesmo cita ainda que o momento triunfal aquando da defesa do consumidor em Moçambique,
deu-se com a chegada da CRM de 2004, quando se introduziu ao Capítulo V, Direitos e Deveres
11
Económicos, Sociais e Culturais, o artigo 92 , Com a epígrafe: Direitos dos consumidores; no
n.º 1, refere-se aos direitos dos consumidores como sendo: direito à qualidade dos bens e
serviços consumidos; à formação e à informação, à protecção da saúde, da segurança dos seus
interesses económicos, bem como à reparação de danos; o n.º 2, trata da matéria atinente à
publicidade, proibindo todas as formas de publicidade oculta, indirecta ou enganosa; e, o n.º3,

10
Abreu Vassula (2024, p13) 2Lei de Defesa da Economia, e que foi revogada pela Lei n.º 9/87, de19 de Setembro
11
Em 2018, a Constituição da República de Moçambique de, 2004, sofreu revisão pontual por intermédio da Lei n.º
1/2018, de 12 de Junho. Apesar disso, o artigo e o seu conteúdo foi mantido

20
dedica-se às entidades públicas e privadas de defesa dos consumidores, e o direito que essas
entidades têm do apoio do Estado, de serem ouvidas sobre as questões que digam respeito à
defesa dos consumidores, e do reconhecimento legal à legitimidade processual para a defesa dos
seus associados.
Parece, sem sombra de dúvida ser na história do constitucionalismo moçambicano, a primeira
vez que uma Constituição, diga-se, Lei Mãe, de forma expressa, aberta, directa e, explícita, veio
tratar da matéria inerente à defesa dos consumidores em Moçambique. Destarte, constituindo um
novo direito que veio se juntar ao leque dos direitos fundamentais já existente no ordenamento
jurídico interno12
Foi por se reconhecer a relevância da publicidade no seio das relações de consumo que no
mesmo ano em que se aprovou a Constituição de 2004, outrossim, foi aprovado o Decreto n.º
13
65/2004, de 31 de Dezembro , Do qual destacamos os seguintes princípios: princípio da
identificabilidade (art.6); publicidade oculta ou dissimulada (art.7); princípio da veracidade (art.º.
8); publicidade enganosa (art.9); princípio do respeito pelos direitos do consumidor (art.10);
saúde e segurança do consumidor (art.11). Volvidos, cincos após a aprovação da Constituição de
2004, eis que, a Assembleia da República, aprovou a Lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro, que
instituiu em Moçambique um sistema de defesa do consumidor em vista a salvaguardar os seus
direitos. Sete anos após a aprovação da Lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro, o Conselho de
Ministro cria o Decreto n.º 27/2016, de 18 de Julho, Regulamento da Lei da Defesa do
Consumidor. Com a aprovação da lei de defesa do consumidor em Moçambique e do respectivo
regulamento veio-se materializar e consolidar de forma especial o previsto no artigo 92 da
Constituição da República, por conseguinte, concretizando-se um sistema de defesa do
consumidor no ordenamento jurídico.

2.2. Definições Relevantes


2.2.1 Definição do Direito do Consumidor
O Direito do consumidor é um ramo novo do direito, disciplina transversal entre o direito
privado e o direito público, que visa proteger um sujeito de direitos, o consumidor, em todas as
suas relações jurídicas frente ao fornecedor, um profissional, empresário ou comerciante.
12
Abreu vassula (2024, p15) MIRANDA, Jorge, Manual de Direito Constitucional, Tomo IV, Direitos
Fundamentais, 3ª Edição, Coimbra, p. 7: direitos fundamentais os direitos ou as posições jurídicas activas das
pessoas enquanto tais, individual ou institucionalmente consideradas, assentes na Constituição, seja na Constituição
formal, seja na Constituição material
13
Que foi revogado pelo Decreto n.º 38/2016, de 31 de Agosto (o

21
Para Abreu vessula ʺo direito do consumidor, insere-se no pacote do designado, novos Direitos.
Inicialmente, houve, na doutrina, a preocupação de saber se se podia empregar a expressão
direito do consumo ou direito do consumidor.ʺ A conclusão dessa discussão foi de que se podia
adoptar indistintamente as duas expressões. Contudo, nós sufragamos a orientação subjectivista,
que se vinca na figura do consumidor. Dado que, fundamentalmente, o Direito do Consumidor,
ao estabelecer um conjunto de princípios e regras fá-lo em vista à proteger o sujeito consumidor.
Assim sendo, o direito do consumidor é o conjunto de princípios e regras destinadas à protecção
do consumidor.

2.2.2 Definição do Mercado de Consumo


Segundo Marilena “Mercado de consumo é um processo através do qual compradores e
vendedores interagem com intuito de obter informações sobre aquilo de desejam comprar e
vender, bem como com o objectivo de determinar os termos da operação económica, vale dizer,
o preço das mercadorias e as quantidade a serem compradas e vendidas.” 14

2.2.3 Definição do Contrato de consumo


A relação de consumo é instituída através de acto de consumo, que nasce, quase sempre, na base
de contacto que tem como partes integrantes o consumidor e fornecedor. Não há tipos
específicos que são tidos sempre como contratos de consumo. Esses contratos são caracterizados
através da qualidade dos sujeitos contraentes. 15 Desse modo, a compra e venda, a locação, o
depósito, o seguro, e outros, podem ter natureza civil, comercial ou de consumo. Pois, há certos
contratos que pela sua forma não podem ser tidos como consumo, estando inseridos,
necessariamente, em relações interempresariais. Tendo como ex.: os contratos de franchising e
fractoring.

Segundo MOUZINHO, é importante saber se uma relação é ou não de consumo é o de que, no


caso de existência de uma lei específica de defesa de consumidor, as partes devem recorrer a ela
sempre que vislumbre desequilíbrio na relação contratual. No ordenamento jurídico
moçambicano, os contratos entre particulares estão submetidos a dois regimes jurídicos distintos:
o civil e o comercial. Na disciplina dos contratos civis e comerciais, o direito positivo tem, regra,
14
, NICOL´S, Mouzinho, Protecção do Consumidor na Ordem Jurídica Moçambique, Maputo, PbliFix,2010, p43
15
Idem

22
carácter supletivo sobre o conteúdo e forma destes, assim, aplica-se somente nas omissões dos
contraentes.16

2.2.4 Definição de Consumidor


Consumidor é todo aquele a quem sejam fornecidos bens prestados serviços ou transmitidos
quaisquer direito, destinados ao uso não profissional, ou tarifa, por pessoa que exerça com
carácter profissional uma actividade económica que vise a obtenção de benefício. 17
Segundo a regra geral, quem é consumidor não é fornecedor. Assim, o empresário que adquire
matérias-primas para a sua indústria, ou faz uma aquisição para revenda, não é consumidor em
sentido técnico para os fins desde estudo. Mas quem é fornecedor pode, fora de sua actividade
profissional, ser consumidor.

2.2. 5 Definição de Fornecedor


Fornecedor é todas as pessoas singulares ou colectiva, publicas ou privadas com carácter
profissional (incluindo profissionais liberais), que habitualmente desenvolvem actividade de
produção, fabrico, importação, construção, distribuição ou comercialização de bens ou serviços a
consumi9dores, mediante a cobrança de um preço18.
Para LAZZARINE citado por Nicol’s, Mouzinho ʺ são fornecedores, os fabricantes, os
produtores rurais, os construtores, os comerciantes, os importadores, os montadores, os
prestadores de serviços de uma maneira geral, os bancos (inclusive nas operações de
empréstimo), os financeiros, as seguradoras, as empresas de assistência medica, os hospitaleiros,
hotéis, as agências de viagens, estado, os consórcios, os cartões de crédito, etc.ʺ.19

2.3 Natureza Jurídica


O Direito do consumidor íntegra tantas as normas de direito publico como de direito privado
deste último20, na sua maioria, ao qual reconhecemos que pertence. Segundo, CABANA ʺUma
vez pertencendo ao direito Privado, não se trata de Direito Civil nem de Direito Comercial, mas
situa-se entre ambos. Compreende-se que tal conteúdo possa suscitar dúvidas quanto à sua
16
Idem, p44
17
Glossário da Lei de defesa do Consumidor- lei n.º 22/2009 de 28 de Setembro
18
Idem
19
NICOL´S, Mouzinho, Protecção do Consumidor na Ordem Jurídica Moçambique, PbliFix, Maputo,2010, p45
20
Cfr. PINTO, Carlos Alberto da Mota, Teoria, ob. cit., p. 54.

23
natureza jurídica. Questiona-se então: poderemos falar num ramo de direito autónomo, coeso, ou
integrá-lo noutro, como o Direito Civil?ʺ 21
Tal questão está longe de obter uma resposta clara22. Menezes constata que o Direito do
Consumo abrange regras sobre a formação dos contratos, publicidade, responsabilidade civil,
bem como regras processuais, sancionatórias e administrativas. Contudo, a conclusão que obtém
não se nos afigura a melhor.23
É comum a defesa da não autonomia com o facto de ser necessário recorrer a normas e princípios
de outros ramos do Direito. E efectivamente recorre. Assim se define a multidisciplinariedade do
Direito do Consumidor, reconhecida como flexibilidade temporal, conjugando princípios
clássicos e soluções inovadoras dos tempos que se vivem, e mesmo fora do Direito, no âmbito
dos campos políticos, económicos e sociológicos 24.
O Direito Civil é considerado, usualmente, o “Direito Comum das pessoas comuns”. Relações
jurídicas de índole civil entre pessoas comuns pressupõem, naturalmente, posições de paridade 25
imaginemos determinado contrato de compra e venda, com obrigações legais e contratuais
definidas para ambas as partes.
26
Segundo José de Oliveira Ascensão ʺ Julga ser suficiente o argumento de que a qualidade de
consumidor pertence a todos nós, nas mais variadas situações, como decorrência da simples
condição humana. Mas não nos conseguimos abstrair, não obstante a quantidade relevante de
normas civis no Direito do Consumidor, das especificidades que nutrem a sua particular relação
jurídicaʺ.
Quanto ao Direito Penal, Mário Monte ʺreivindica uma certa autonomia para um existente
conjunto de normas de natureza penal que se dedica à protecção de bens jurídicos ligados ao
consumo, enquanto parte do chamado direito penal secundário, o direito penal do consumo.
Decorre, logicamente, dos imperativos constitucionais, não parecendo existir motivo para se
colocar a hipótese de inserir o Direito do Consumidor no Direito Penal.ʺ27

21
ALMEIDA, André. F.M. Direito do Consumidor, Coimbra, Janeiro de 2018, pp 17
22
Idem, p 17
23
Cfr. CORDEIRO, António Menezes, Tratado de Direito Civil, Vol. I, 4.ª Ed. (Reformulada e actualizada),
Almedina, Coimbra, 2012, p. 318
24
ALMEIDA, André. F.M, op cit, pp16 -17
25
A paridade de que falamos não se digna a aparecer, contudo, no âmbito do Direito do Consumidor. O negócio
jurídico de consumo, com notas especiais, compõe-se com a presença de duas entidades, singulares ou colectivas,
tendo como objecto certo bem ou serviço apto a satisfazer necessidades pessoais do consumidor.
26
ALMEIDA, André. F.M. Direito do Consumidor, Coimbra, Janeiro de 2018, pp 18
27
Idem, p18

24
2.4 Relação de consumo
A relação de consumo é instituída através de um acto de consumo, que nasce, quase sempre, na
base de um contrato que tem os integrantes: o consumidor e o fornecedor. Por conseguinte, o
contrato de consumo consiste na convenção mediante o qual o consumidor adquire, para fins
pessoais, bens ou serviços oferecidos por empresários e cujo âmbito é regulado pela lei de
Defesa do Consumidor.
A lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro, incide sobre as relações taxativamente consideradas de as
relações de consumo. Por relações de consumo, entende-se, as relações bilaterais em que num
pólo temos o fornecedor que pode figurar como produtor, fabricante, importador, comerciante e
prestador de serviços, ou então, aquele se dispõe a fornecer bens e serviços a terceiros; noutro
pólo, temos, o consumidor, aquele que se sujeita às condições impostas por titulares de bens ou
serviços no atendimento das suas necessidades de consumo.
O decreto-lei2328 sobre o regime jurídico dos contratos comerciais, indica-nos duas
classificações contratuais possíveis: a) contratos de livre estipulação (n.º 1, artigo 24, conjugado
com o n.º 1, artigo 405, do Código Civil), que são aqueles em que as partes têm a liberdade de
celebração e de estipulação; e, b) contrato de adesão, à luz do n.º 2, do artigo 24, da lei citada,
consiste na convenção cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou
estabelecidas unilateralmente por uma parte, sem que a outra possa contestar ou modificar
substancialmente o seu conteúdo. Nas relações de consumo, esta segunda classificação dos
contratos (contratos de adesão), são o protótipo. Quase sempre (senão sempre), o sujeito
vulnerável (o consumidor) vê- se na situação de sujeição face às imposições pré-estabelecidas
pelo fornecedor. Sublinhamos, que nem todos os contratos podem ser considerados ou tidos
como de consumo. Pois, esses, podem estar inseridos nas relações entre empresas. V.g., cessão
de direitos autorais e da constituição de associação, cooperativa ou sociedade civil. No nosso
ordenamento jurídico, pensamos que os contratos entre os particulares estão submetidos a três
regimes jurídicos distintos, nomeadamente: o civil, o comercial e o de consumo.29
A lei de defesa do consumidor, define, os principais sujeitos da relação de consumo,
respectivamente, consumidor e fornecedor.

28
Decreto-Lei n.º 3/2022, de 25 de Maio (Regime Jurídico dos Contratos comercial).
29
VASSULA, Abreu, Protecção e Garantia dos Consumidores no ordenamento jurídico Moçambicano, 2024, p 17

25
2.5 Definição de Contrato de Adesão
Uma das figuras mais interessantes do Direito Contratual moderno é o contrato de adesão.
Grande esforço tem a doutrina para explicá-la à luz dos conceitos tradicionais, mas sérias
dificuldades apresentam-se porque se tem observado que a sua estrutura não se ajusta bem no
esquema clássico do contrato.
Os contratos de adesão são comuns em diversas actividades comerciais em Moçambique, tais
como: é o caso de operações bancárias, seguros, transportes aéreos, terrestres, marítimos,
fornecimento de água, electricidade, internet, televisão, telefone entre outros.
No contrato de adesão uma das partes tem de aceitar, em bloco, as cláusulas estabelecidas pela
outra, aderindo a uma situação contratual que encontra definida em todos os seus termos. O
consentimento manifesta-se como simples adesão a conteúdo preestabelecido da relação
jurídica.30
Conforme o ângulo de que seja focalizada, a relação contratual tem duplo nome. Considerado
sob o aspecto da formulação das cláusulas por uma só das partes, recebe a denominação de
condições gerais dos contratos e é analisada à luz dos princípios que definem a natureza desse
material jurídico. Encarada no plano da efectividade, quando toma corpo no mundo da eficácia
jurídica, é chamada contrato de adesão e examinada em relação ao modo por que se formam as
relações jurídicas bilaterais. A bem dizer, a cumulação dos dois aspectos significa que se
apresentam como dois momentos lógicos e cronologicamente diversos do mesmo fenómeno. 31
No primeiro momento, o empresário formula o esquema contratual abstracto, redigindo as
cláusulas do conteúdo das relações contratuais que pretende concluir uniformemente com
pessoas indeterminadas.
No segundo momento, o eventual cliente da empresa adere a esse esquema, travando-se entre os
dois uma relação jurídica de carácter negociai, com direitos e obrigações correlatas, sem
qualquer conexão jurídica com os outros vínculos que, do mesmo modo e com igual conteúdo, se
formam com distintos sujeitos.
O fenómeno é um só e uma só a categoria jurídica. Faltaria sentido prático à formulação de
condições gerais para contratos uniformes, se a possibilidade não houvesse de concluí-los em
número indefinido. Enquanto não ingressam no comércio jurídico, tais condições não passam,
para empregar expressões alemãs, de simples Stückpapier ou de mero Musterformulare, sem
30
AZEVEDO, António; MARIANO, Paulo, Contratos, 26ªedição, Rev, RJ,2009, P 128.
31
Idem, p129

26
interesse prático ou dogmático. Por sua vez, o comportamento do cliente que provoca a formação
de uma relação concreta só adquire significado particular se implica adesão às condições gerais
previamente estatuídas pelo empresário.32
Nestes, conceitos encontram-se elementos básicos da conceituação de contrato, que sejam, a
vontade, o indivíduo livre, criação de direitos e obrigações protegidas e reconhecidas pelo
direito. O contrato é o negócio jurídico de convergência de manifestação de vontades
contrapostas por excelência, que tem por objecto a circulação de riquezas com vistas ao
atendimento das necessidades dos contratantes, regendo a relação de interesses entre as duas
partes, com vínculo umbilical com o instituto da propriedade.
2.5 Conceitos do contrato de adesão
A lei de defesa do consumidor no seu nº 1 do artigo 27 define contrato de adesão como ʺ aquelas
cujas cláusulas tenham sido aprovados pela autoridade competente ou estabelecidas
unilateralmente pelo fornecedor de bens e serviços, sem que o consumidor possa discutir ou
modificar substancialmente o seu conteúdoʺ.
Para o Menezes Cordeiro define o contrato de adesão como ʺ um contrato formado com base um
conjunto de condições postas de forma inalteradas por uma parte- o aderido- aprovação de uma
generalidade de outras partes- os aderentes- em ordem à formação de outras tantos contratosʺ 33

2.6 Modo de formação


O modo de formação dos contratos de adesão tem suscitado controvérsias. Os autores esforçam-
se em descrevê-lo e explicá-lo a fim de patentear a sua originalidade.
Aponta-se primeiramente que, nesse contrato, a fase das negociações preliminares não existe.
Em princípio, assim sucede. O esquema contratual está pronto, devendo aceitá-lo integralmente
quem se proponha a travar a relação concreta. Contudo, sempre há cláusulas que não podem ser
preestabelecidas e, de modo geral, elementos imprevisíveis. De regra, por conseguinte, fica uma
faixa, mais larga ou estreita, na qual cabem entendimentos prévios entre os contratantes, se bem
que, as mais das vezes, o contrato prévio se destine somente à determinação de dados pessoais,
dispensáveis, aliás, em vários contratos de adesão. Admite-se, outrossim, em prática chancelada
por legislações, a possibilidade de modificar algumas cláusulas gerais, mediante acordo entre as

32
Idem
33
CORDEIRO, António Menezes, Direito das Obrigações, 1º Volume reimpresso, Associação Académica da
Faculdade de Direito de Lisboa, 1988, p.101

27
partes. Quando ocorre, pode-se falar, a bem dizer, em negociações preliminares, dado que se
travam entendimentos acerca do conteúdo do contrato a concluir, entendimentos que significam
"taxativas". Quanto ao mecanismo da formação desse contrato, observado pelo ângulo das regras
comuns à categoria geral, a particularidade é simplesmente respeitante à iniciativa da proposta,
que tanto pode ser da empresa como do cliente. No primeiro caso, há oferta ao público,
considerando-se perfeito e acabado o contrato no momento em que o cliente declara a aceitação,
frequentemente sob a forma de comportamento típico. No segundo caso, convite à oferta; o
contrato conclui-se quando a empresa aceita. O rigor, a adesão manifesta-se, no seu significado
próprio, na hipótese de oferta ao público, mas a inversão não retira da figura os traços distintivos.
Por outras palavras, a figuração não se desconjunta em razão do modo como se arma.34
Proposta e aceitação sujeitam-se, para valerem, às normas comuns, que sofrem, entretanto,
alterações na aferição da capacidade e dos vícios do consentimento. Em certos contratos de
adesão, exige-se, do aderente, somente a capacidade natural, e o consentimento por erro é
irrelevante. Quando a natureza dos serviços a prestar configura a posição da empresa como
oblato ou aceitante, não pode recusar-se a contratar. Por isso que ela própria é quem estabelece
as condições de sua prestação, despropositada seria a faculdade de recusa, tanto mais quanto, na
maioria dos casos, presta-os em regime de monopólio, ou tem virtualmente seu exercício. As
cláusulas gerais são juridicamente irrelevantes antes de se inserirem no contexto de um contrato
individual35.
A sua formação não constitui um negócio jurídico, mas puro e simples facto interno na esfera do
empresário, de sorte que a sua transcendência jurídica começa a partir do momento em que passa
a ser conteúdo das declarações contratuais de vontade. A relação jurídica é criada
contratualmente, provocando, o acordo de vontades, a incorporação das condições gerais ao seu
conteúdo como parte integrante da lex contractus.

2.7 Caracterização36
O conceito de contrato de adesão torna-se difícil em razão da controvérsia persistente acerca do
seu traço distintivo. Há, pelo menos, seis modos de caracterizá-lo. Distinguir-se-ia, segundo
alguns, por ser oferta a uma colectividade. Segundo outros, por ser obra exclusiva de uma das

34
Cfr, AZEVEDO, António; MARIANO, Paulo, Contratos, 26ªedição, Rev, RJ,2009, P 133
35
Idem pp 133-34
36
Idem p135

28
partes, por ter regulamentação complexa, porque a preponderante posição de uma das partes, ou
não admitir discussão a proposta, havendo quem o explique como o instrumento próprio da
prestação dos serviços privados de utilidade pública.
A discrepância na determinação do elemento característico do contrato de adesão revela que a
preocupação da maioria dos escritores não consiste verdadeiramente em apontar um traço que
permita reconhecê-lo. Predomina o interesse em descrevê-lo ou de explicá-lo, antes que o de
ensinar o modo de identificá-lo, como ocorre, por exemplo, com os que procuram caracterizá-lo
pela circunstância de ter regulamentação complexa. É certo que o contrato de adesão é praticável
quando os interesses em jogo permitem, e até impõem, a pluralidade de situações uniformes, de
modo que, sob esse aspecto, é, com efeito, oferta feita a uma colectividade. A necessidade de
uniformizar as cláusulas do negócio jurídico elimina a possibilidade de qualquer discussão da
proposta, criando para o oblato o dilema de aceitá-lo em bloco ou rejeitá-lo. Nada disso o
distingue por enquanto as características são comuns a outras figuras jurídicas.
O traço característico do contrato de adesão reside verdadeiramente na possibilidade de
predeterminação do conteúdo da relação negocial pelo sujeito de direito que faz a oferta ao
público. Os outros traços, apontados ajudam, entretanto, a reconhecê-lo. A oferta é assim o
contrato potencial. Não pode ser modificada, já que a situação jurídica em que se vai colocar será
igual à de todos que a aceitarem, nem admite discussão. O que não sucede nos contratos normais.
No fundo, o contrato é, no seu conteúdo, obra exclusiva de uma das partes.
Segundo ORLANDO Gomes cita que distingue-se por três traços característicos:
 A uniformização: é uma exigência da racionalização da actividade económica que por
seu intermédio se desenvolve. Tomar-se-ia impraticável se, para exercê-la, se houvesse
de estipular os contratos pelo método clássico;
 A predeterminação: A predeterminação das cláusulas caracteriza, com maior vigor, o
contrato de adesão, por ser o modo objectivamente idóneo para atingir sua finalidade. A
uniformidade é um traço que só o caracteriza quando há predeterminação unilateral das
cláusulas. Se o conteúdo de vários contratos for uniforme, pela simples razão de haver as
partes adoptado um formulário, não serão, por esse motivo, contratos de adesão;
 A rigidez: A rigidez das condições gerais caracteriza ainda o contrato de adesão mas é,
antes, um desdobramento dos outros traços distintivos. As cláusulas são rígidas porque
devem ser uniformes e não seria possível flexibilidade, porque desfiguraria a espécie.

29
Segundo NICOL’S Mouzinho, na conclusão do negócio, o contrato de adesão apresenta outras
características importantes a citar37:
a) Adesão em bloco, sendo feita a todo um conjunto de condições predispostas;
b) Vontade sem discussão, pois a adesão constitui a declaração de vontade sem discussão,
restringindo a liberdade de contratar à aceitação ou não;
c) Confiança do aderente, principalmente no aspecto do contrato de adesão como contrato
de consumo, onde o contratante ele uma marca, muitas vezes influenciando a
publicidade, pela tradição da marca no mercado, etc;
d) Liberdade viciada, já que a liberdade de contratar é substituída pelas necessidades
comerciais de agilização, com a sua consequente padronização e predeterminação das
condições.
2.8 Natureza jurídica
O contrato de adesão não trouxe ao mundo jurídico uma nova espécie de contrato autónomo.
Trata-se, no entanto, de uma nova modalidade de contratação em massa, na qual, apenas uma das
partes – a proponente –, exclusivamente estipula as condições contratuaisʺ. Portanto, a diferença
do contrato de adesão para os contratos consensuais tradicionais, encontra-se em sua formação e
modalidade de contratação. Isso porque, o contrato unilateralmente redigido pelo proponente é
direccionado ao público em massa, a toda e qualquer pessoa ou a determinado grupo de pessoas,
física e jurídica, para que, se concordarem, aderir integralmente com os termos do contrato. 38
A mesma refuta que, embora haja a formulação de cláusulas por um dos contratantes, é
necessário que o outro concorde e passe a aderi-lo para que o negócio jurídico se aperfeiçoe. Em
geral, quem estabelece as cláusulas é o fornecedor de produtos ou serviços, o que acarreta a
preocupação do direito em estabelecer normas no intuito de amenizar as diferenças entre as
partes. Assim, havendo dúvidas quanto às cláusulas contratuais, tais deverão ser interpretadas em
favor do consumidor, bem como se houver discrepância entre a cláusula pré-formulada e a
cláusula acrescentada posteriormente, esta última prevalece.
A formação desse negócio jurídico se dá pela adesão alternativa de um dos contratantes ao
esquema contratual já traçado pelo outro, caracterizando um concurso de vontades restrito. Deve,
todavia, ser ressaltada a existência de divergência no que se reporta à bilateralidade, posto que

37
NICOL’S, Mouzinho, Protecao do consumidor na ordem jurídica Mocambicana, Publifix,Maputo, 2010
38
GOMES, Nilcéia, Moreira, Cláusulas abusivas nos Contratos de adesão, (Licenciatura em Direito)- Faculdade
Vale do Cricaré, São Mateus, 2016

30
alguns doutrinadores afirmam não haver a livre manifestação de vontade do aderente, haja vista
que a vontade deste fica restrita à vontade do predisponente.39
Conclui-se que a natureza jurídica dos contratos de adesão é contratual, pois há um acordo de
vontades, ainda que a vontade de uma das partes se restrinja ao aceitante.

CAPITULO IV:
3 Protecção do Direito de consumidor no contrato de Adesão
3.2 Protecção
A palavra protecção vem do latim, protectiõne, alude a ideia de: acto de proteger; amparo;
auxílio; abrigo; cuidado; atenção especial; pessoa que protege; privilégio, etc.
3.3 Direito do consumidor na ordem jurídica Moçambicana
3.3.1 Constituição da república como eixo dos direitos fundamentais
Segundo, GOUVEIA, Jorge40 ʺA constituição da república serve como a lei nuclear, mesmo que
o seu conteúdo - não já a sua estrutura legal ou sua força suprema – assume o mais alto-relevo
que é possível conceber na tarefa que um ato legislativo vai desempenhar: ser o núcleo do
Ordenamento Jurídicoʺ. Uma vez que a Constituição é o fundamento da ordem jurídica, então, as
normas constitucionais prevalecem sobre todas as restantes normas do ordenamento jurídico (n.º
4, art.º. 2, Constituição Moçambicana).
Segundo RIZZATO, citado por Abreu Vessula 41, escreveu-nos ʺ todo conjunto harmónico de
regras positivas é apenas o resumo, a síntese, o ʻsubstratumʼ de um complexo de altos ditames, o
índice materializado de um sistema orgânico, a concretização de uma doutrina, série de
postulados que enfeixam princípios superioresʺ. Logo, a sua a obediência deve ser estrita, sob
pena de todo o ordenamento jurídico sofrer corrosão.
O Estado Moçambicano, tendo em vista, a necessidade de ampliar o âmbito de defesa dos
direitos fundamentais dos seus cidadãos, introduziu, na Constituição de 2004, no Capítulo V,
artigo 92, com a epígrafe, Direitos dos Consumidores, um novo direito fundamental, que
também, deriva dos novos direitos. A constituição é o primeiro guardião no que concerne à
protecção do direito dos consumidores no ordenamento jurídico Moçambicano.

39
Idem
40
GOUVEIA, Jorge Bacelar, Direito Constitucional de Moçambique, IDiLP, 2015
41
Ob,cit, p28

31
É nela onde se inscrevem em sínteses, todos os direitos inerentes ao consumidor, conforme o
estatuído no artigo 92.º (CRM). Contudo, desconfiamos que tal não vá além de uma mera
consagração formalizada.

3.3.2 Código Civil


Visto que analisámos o direito do consumidor a luz da constituição, vamos estender análise do
tema ao Código Civil, uma vez que contém as regras e princípios gerais que constituem uma
teoria geral da lei, aplicável a todos os ramos Direito.
No C.C, iremos extrair alguns princípios aplicáveis no âmbito das relações de consumo, que
podem acautelar situações que provocam danos ou prejuízos ao consumidor, como por exemplo
a compra e venda42, uma vez que contrato é por excelência o núcleo da sociedade de consumo e
fonte de eleição das obrigações. Uma vez que o consumidor apareça no C.C divido em conceitos
e terminologias generalizada, não existindo assim uma especificação da sua posição. 43
No C.C. é possível encontrar os seguintes princípios: o princípio da boa-fé (artg. 227.º e 762.º n.º
2); o princípio da proibição do abuso do direito (334.º); o princípio da proibição do pacto leonino
(art. 994.º) e o princípio da proibição do pacta comissório (art. 694.º).
Estão também previstas no C.C, as disposições que podem acautelar uma coisa vendida quando
sofre de vício que desvaloriza ou impede a realização do fim a que é destinada, ou não tem
qualidade asseguradas pelo vendedor, ou seja, venda de coisa defeituosas (art. 913.º e ss). No que
concerne aos infractores, o consumidor tem direito a protecção legal de um direito subjectivo que
se traduz necessariamente na possibilidade de recurso a uma acção de responsabilidade civil nos
termos do (art483.º e ss do C.C). Ao abrigo desta lei, fica o autor causador do factos ilícitos
obrigado a indemnizar o lesado pelos danos resultantes da violação.
A lei dispõe que aquele que colocar produtos defeituoso no mercado e causar danos a quem os
consume, fica obrigado a indemnizar se tiver procedido com dolo ou mera culpa. Logo, o
consumidor lesado poderá responsabilizar o produtor que intencionalmente ou negligentemente
lhe ofereça produtos perigosos ou defeituosos. E o artigo 483.º, nº1, como primeira regra geral de
protecção do consumidor em caso de dano. Mas a lei em análise, dispõe que serão hipóteses de
responsabilidade sem culpa as que a mesma regula (art.483. º nº2 e ss).

42
Cfr. Art. 879 e ss do CC (No contrato de compra e venda, um dos contraente se obriga a transferir o domínio de
certa coisa, e o outro a pagar-lhe preco por dinheiro).
43
Aqui o consumidor surge sob forma de capa do contraente, seja ele o comprador, o locatário ou mutuário.

32
Relativamente as garantia, a lei em causa no seu (art 921.º), estabelece que o vendedor que
estiver obrigado garantir o bom funcionalmente da coisa vendida deve repara-la,
independentemente de culpa ou erro do comprador. A obrigação de indemnização esta prevista
no (art.º 562.º e ss).
Verificamos que com todos os elementos extraídos da lei, os direitos dos consumidores
continuam diluídos e difícil reparação quando são violados.

3.4 O Sistema Moçambicano de Defesa do Consumidor


A protecção do consumidor procura, na sua génese, corrigir as disparidades intrínsecas da
relação consumidor-fornecedor, especialmente no que concerne ao desequilíbrio quanto à
informação, ao poder negocial, à segurança e ao acesso à justiça. No entanto, embora haja
orientações sobre as principais características de uma legislação eficaz de protecção do
consumidor, a matéria é muitas vezes uma das últimas áreas nas quais as economias em
desenvolvimento se concentram.
No ordenamento jurídico moçambicano, os direitos do consumidor surgem sistematicamente
enquadrados na Constituição da República, mais concretamente, no Capítulo relativo aos
ʺDireitos e deveres económicos, sociais e culturaisʺ. O n.º 2 do artigo 92.º determina que ʺo s
consumidores têm direito à qualidade dos bens e serviços consumidos, à formação e à
informação, à protecção da saúde, da segurança dos seus interesses económicos, bem como à
reparação de danosʺ.
Havendo necessidade de instituir um sistema que efectivasse aqueles direitos plasmados na
Constituição, em 2009 foi aprovada a Lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro (Lei de Defesa do
Consumidor), que viria mais tarde a ser regulamentada através do Decreto n.º 27/2016, de 18 de
44
Julho (Regulamento da Lei de Defesa do Consumidor). Cujo objecto nos termos do artigo 2, é,
regular matérias respeitantes à defesa do Consumidor. Quanto ao âmbito de sua aplicação, o n.º
1, art.º 3, estabelece: aplica-se a todas as pessoas singulares e colectivas, púbicas e privadas que
habitualmente desenvolvem actividades de produção, fabrico, importação, construção,
distribuição ou comercialização de bens ou serviços a consumidores, mediante a cobrança de um
preço. O artigo 4, desse dispositivo legal, cuja, epigrafe, Responsabilidade, vem nos dizer que o
Estado deve definir e executar politicas adequadas a defesa dos legítimos interesses do
44
VESSULA, Abreu, A protecção e garantia dos consumidores no ordenamento jurídico Moçambicano,
faculdade de Direito, UEM, Maputo e 2024.

33
consumidor, promovendo a justiça nas relações de consumo (n.º 1); ao Estado e as autarquias
locais, incumbe-se-lhes tomar as medidas indispensáveis a concretização dos direitos do
consumidor (n.º 2). No que se refere aos Direitos do consumidor, os mesmos, vêm previstos no,
Capítulo II, artigo 5, n.º 1, alíneas, respectivamente: ali a) qualidade dos bens e serviços e
serviços; ali b) protecção da vida, saúde e da segurança física; ali c) formação e a educação para
o consumo; ali d) Informação para o consumo; al. e) protecção dos interesses económicos; ali f)
prevenção e a reparação dos danos patrimoniais ou não patrimoniais que resultem da ofensa de
interesses ou direitos individuais homogéneos, colectivos ou difusos; al. g) protecção jurídica e a
uma justiça acessível e pronta; al. h) participação, por via representativa, na definição legal ou
administrativa dos seus direitos e interesses; e, al. i) protecção contra a publicidade enganosa e
abusiva.
Contudo ao abrigo deste regime geral, o consumidor tem direito à:

3.4.1 Direito à qualidade dos bens e serviços


A lei outorga a garantia contra bens e serviços que não sejam aptos a satisfazer os fins a que se
destinam e produzir os efeitos que se lhes atribuem segundo as normas legalmente estabelecidas
(No Capítulo II, art. 5, al. a) e n.º 1, art. 6). É neste segmento, onde o Estado e às autarquias
locais, incumbe, aprovar normas e regulamentos adequados, nos termos da lei de defesa do
consumidor, alínea a), art. 2.À título exemplificativo, vejam-se, a Lei n.º 17/218, de 28 de
Dezembro (Lei do Sistema Nacional de Qualidade, abreviadamente, SINAQ), e, o seu respectivo
regulamento, aprovado pelo Decreto n.º 19/2021, de 9 de Abril, e, ainda, o Decreto n.º 81/2020,
de 9 de Setembro (que aprova o Estatuto Orgânico do Instituto Nacional de Normalização e
Qualidade - INNOQ, IP. Na lei portuguesa de defesa do consumidor 75 este direito está previsto
no Capítulo II, art. 3, al. a), e o art. 4; a lei angolana de defesa do consumidor 76 , fixa-o,
igualmente, no Capítulo II, art. 4, n.º 1, al. a), e o art. 5; No código de defesa do consumidor
brasileiro 77, está disposto no Capítulo IV, Seção I, art. 8. No que tange ao conteúdo constata-se
haver semelhanças em todos os ordenamentos jurídicos acima referidos45.

45
Idem, p30

34
3.4.2 Direito à protecção da vida, saúde e da segurança física
A LDC, contém normas que garantam a protecção a vida, saúde e segurança física dos
consumidores. Desta forma, proibindo o fornecimento de bens ou a prestação de serviços que,
em condições de uso normal ou previsível, incluindo a duração, impliquem riscos incompatíveis
com a sua utilização, não aceitáveis de acordo com um nível elevado de protecção da saúde e da
segurança física das pessoas (Capítulo II, art. 5, al. b) e art. 7). Se os consumidores têm direito o
direito de consumir produtos seguros em condições de uso normal e previsível, há a
responsabilidade de o Estado outorgar a garantia desses direitos. E, sempre que os serviços da
Administração Pública, que, no exercício das suas funções, tenham conhecimento da existência
de bens ou serviços proibidos, devem notificar o facto às entidades competentes para a
fiscalização do mercado (n.º 2, art. 7). As medidas a serem levadas a cabo pelas entidades
competente que fiscalizam os mercados são, mandar apreender e retirar do mercado os bens
interditar e as prestações de serviços que impliquem perigo para a saúde ou segurança física dos
consumidores, quando utilizados em condições normais ou razoavelmente previsíveis (n.º 3, art.
7). Em Moçambique, a entidade competente, por excelência, para fiscalizar o mercado é a,
INAE. Mas, esta por força da lei (princípio da legalidade), limita-se a intervir no comércio
formal deixando de fora o comércio informal. A lei portuguesa dispõe este direito no Capítulo II,
art. 3, al. b) e art. 5, respectivamente; no direito angolano, Capítulo II, art. 4, n.º 1, al. b) e o art.
6; no direito brasileiro, este direito está previsto nos mesmos termos em que fizemos a referência
no número anterior. Constata-se que também há semelhanças entre os ordenamentos jurídicos de
Portugal, Angola e Brasil, com o moçambicano. Todos são unânimes quanto ao direito à
protecção da vida, saúde e da segurança física 46.

3.4.3 Direito à formação e à educação para o consumo


Primeiro, devemos referir que nos termos do n.º 1, art. 88, da Constituição da República de
Moçambique (CRM), a educação constitui direito e dever de cada cidadão. Interpretando a Lei
de Defesa do Consumidor (LDC), significa dizer com isto que o consumidor deve ser formado
tendo-se em vista a educação para o consumo a fim de que este aumente o seu nível de
consciência e com isso possa encarar sabiamente as imposições do mercado do consumo. A LDC
(Capitulo II, art. 5, al. c) e n.º 1, art. 8), ao se referir à promoção de uma política educativa para

46
Idem, p31

35
os consumidores, através da inserção nos programas e nas actividades escolares, faz alusão a
uma educação formal. Já, as alíneas a), b), e d), do n.º 2, art. 8, da LDC, vão todas alinhadas na
mens legislatórias, do n.º 2, art. 4, LDC, e o n.º 2, art. 88, CRM. O n.º 3, art. 8, LDC, refere-se a
educação informal, aquela que deriva de meios de comunicação social, o serviço publico de
rádio, televisão, que devem difundir programas de carácter educativo que integram espaços
destinados a educação e à formação do consumidor. Outrossim, o n.º 4, art.8, enfatiza a
utilização dos meios telemáticos. No direito português, confira-se, o Capitulo II, art. 3, al. c) e o
art. 6; a lei Angola, cuida deste direito no Capítulo II, art. 4, n.º 1, al. c) e o art. 7; em Brasil, o
código de defesa do consumidor, consagra este direito no, Capítulo III, art. 6, Inciso II. Não e
difícil perceber que tanto o ordenamento jurídico moçambicano, assim como, o português,
angolano e o brasileiro o direito à formação e à educação para o consumo é também dado
extrema proeminência, pois, a economia do mercado exige que os cidadãos e as cidadãs se
tornem parte activa, mais esclarecidos e mais conscientes dos exercícios dos seus direitos. 47

3.4.4 Direito a informação do consumo


Este direito é corolário do n.º 1, art. 48, CRM, in fine. Uma breve leitura à Lei n.º 34/2014, de 31
de Dezembro 78, art. 4, n.º 2, dentre vários princípios, que o exercício do direito à informação
rege-se, um se nos chama atenção, desde logo, o princípio que tem que ver com o respeito à
dignidade da pessoa humana. Afinal, todo o vocabulário dos direitos fundamentais, orbita,
fundamentalmente sobre a pessoa humana e a dignidade do mesmo 79 . Este, direito, tem uma
estreita legislação com o direito a segurança. Porquanto, se o consumidor tem o direito de
consumir bens ou a prestação de serviços em condições de uso normal ou previsível, está
subjacente, que deve ser informado adequadamente sobre os bens e serviços. A LDC, apresenta
as seguintes classificações do direito à informação: por um lado, direito à informação em geral
(art. 9), que em suma vem encarregar o Estado e as autarquias locais a desenvolver acções e
adoptar medidas tendentes à informação em geral do consumidor; por outro lado, direito à
informação em particular (art. 10), nesta, direccionada, ao fornecedor (n.º 1), fabricante,
produtor, importador, distribuidor, embalador e armazenistas (n.º 2) a obrigação de informar de
forma clara, objectiva e adequada ao consumidor tendo por base o princípio da boa-fé nos termos
do n.º 1, art. 9 da LDC, e do art. 227, do Código Civil. Em Portugal, este direito está previsto no

47
Idem, pp 31-32

36
Capítulo II, art. 3, al. d), e os arts. 7 e 8; na lei angolana, Capítulo II, art. 4, n.º 1, al. c), e os arts.
8 e 9; no direito brasileiro, Capítulo III, art. 6, Inciso III. Repare-se que tanto o direito português
e o angolano, os mesmos não diferem do moçambicano, pois, igualmente, o direito a informação
é classificado em geral e particular, o que não acontece no direito brasileiro que simplesmente
aborda a questão de um modo geral.48

3.4.5 Direito à protecção dos interesses económicos


O consumidor tem direito à protecção económica dos seus interesses económicos, impondo-se,
nas relações de consumo, a igualdade material dos intervenientes, a lealdade, a boa-fé nos
preliminares, na formação e na vigência do contrato (Capítulo II, art. 5, al. e) e o n.º 1, art. 11).
Em síntese, este direito visa acautelar as situações de abuso que podem emergir das relações do
consumo. Visto que, o consumidor é a parte vulnerável, daquela relação. O direito à protecção
dos interesses económicos, está intrinsecamente ligado à protecção contratual nos termos do art.
21, da LDC. É também, assegurado ao consumidor, nos termos da Lei de Defesa do consumidor,
a protecção às cláusulas abusivas (art. 22), às práticas abusivas (art. 29). Em Portugal, a lei de
defesa do consumidor daquele país, cuida da questão no Capítulo II, art. 3, al. e), art. 9; em
Angola, no Capítulo, al. d), n.º 1, art. 4 e o art. 15; no Brasil, Capítulo III, art. 6, Inciso V.

3.4.6 Direito à prevenção e ação inibitória


Este direito está previsto no art. 12, da LDC. Nos termos dos quais, é assegurado ao consumidor
o direito de acção que se destine a prevenir, corrigir ou fazer cessar práticas lesivas dos direitos
do consumidor (n.º 1). Quando tais práticas lesivas atentem contra a saúde e segurança física (al.
a), n.º 1); se traduzam no uso de cláusulas gerais proibidas (al. b), n.º 1); ou consistam em
práticas comerciais expressamente proibidas por lei (al. c), n.º 1). Uma nota curiosa, à situação
prevista no n.º 2 do artigo supracitado, é a que remete a resolução nos termos do n.º 2 80 ,
artigo829, do Código Civil. No direito português, Capitulo II, al. f), art.3 e os arts. 10, 11;
Angola, Capítulo II, al. f), n.º 1, art. 4; Brasil, Capítulo III, art. 6, Inciso VII, e o Capítulo VII,
Título III, Capítulo I, art.81.49

48
Idem, p 32
49
Idem, p33

37
3.4.7 Direito à reparação de danos
Ao consumidor é assegurado o direito à reparação da coisa ou à sua substituição, redução do
preço e a resolução do contrato (n.º 1, art. 14, LDC). Focando-se, este trabalho na protecção do
consumidor no âmbito da relação da venda e fornecimento de géneros alimentício, logicamente,
não cabe aqui a situação da reparação da coisa, previstas no número anterior. Mas todas as outras
situações, cabem aqui. Um dado importante nesta norma da LDC, é o facto de o legislador ter
estabelecido o critério da responsabilidade objectiva, havendo ou não culpa do fornecedor. No
que refere-se ao prazo da denúncia a lei81 impõe, 30 dias (para os bens moveis), após o seu
conhecimento (n.º 2). O direito a reparação da coisa ou a sua substituição, redução do preço e a
resolução do contrato, caduca findo qualquer dos prazos sem o que o consumidor tenha feito
denúncia (n.º 3). O n.º 4, debruça-se sobre o direito do consumidor aos danos patrimoniais e não
patrimoniais que resultem da relação de consumo do fornecimento de bens ou prestação de
serviços defeituosos. O produtor é responsável, tendo ou não culpa, pelos danos causados por
defeitos de produtos que coloque ao mercado (n.º 5). Outrossim, a lei cuida da responsabilidade
por vício do produto (art. 15, LDC); e, Responsabilidade por vício do serviço (art. 16, LDC). No
direito português, sobre o direito à reparação de danos, confira-se o Capitulo II, art. 3, al. f), e o
art.12; no angolano, o Capítulo II, al. e), n.º 1, art. 4, e o Capítulo III, art. 10; no brasileiro, o
código de defesa do consumidor versa a matéria no Capítulo IV, Seção II, art. 12.50

3.4.8 Direito à protecção jurídica e direito à uma justiça acessível e pronta


Este direito, estabelecido no artigo 18, da LDC, surge como corolário do substrato constitucional
consagrado no artigo 62 82 da Constituição da República de Moçambique. Veja-se, que o n.º 1,
do art. 18, LDC, prevê a situação em que ao mesmo tempo incumbe aos órgãos e departamento
da administração pública possam dirimir os conflitos de consumo por via extra judicial, para tal,
deverão promover e criar os centros de arbitragem. Nos processos em que o consumidor pretenda
a protecção dos seus interesses ou direito, este, tem direito a isenção dos preparos (n.º 2);
contudo, tal isenção, só tem lugar se o valor da acção não exceder a alçada do Tribunal Judicial
de Distrito de 1ª Classe (n.º 2, in fine). Os autores, ficam isentos do pagamento de custas em caso
de procedência parcial da respectiva acção (n.º 3). Contudo, o autor ou autores intervenientes são
condenados, no montante que o julgador fixar, entre um décimo e a totalidade das custas que

50
Idem, pp33-34

38
normalmente seriam, devidas, tendo em conta a sua situação económica e a razão formal da
substantiva da improcedência (n.º 4). Na lei portuguesa, este direito está previsto no Capítulo II,
art. 3, al. g) e o art. 14; na angolana, Capítulo II, al. f), n.º 1, art. 4, e o Capítulo VII, art. 27, 28 e
29; no direito brasileiro, conferir, Capítulo VII, Título III, art.81.51

3.4.9 Direito de participação por via representativa


O artigo 19, n.º 1, da LDC, se refere a uma situação em que associações de consumidores
participam das audições e consultas onde são tomadas medidas com impacto na esfera jurídica
dos consumidores. Quando se trate das entidades que regulam as relações de consumo, a
participação e feita pelos respectivos órgãos consultivos (n.º 2). Em Moçambique,
concretamente, a nível da Cidade de Maputo, os consumidores são representados pela
Procconsumers Moçambique e a DECOM (esta actualmente não se faz sentir muito). No direito
de Portugal, este direito encontra-se previsto no Capítulo II, al. h), art. 3 e o art. 15; a lei
angolana de defesa do consumidor é omissa quanto ao direito de participação por via
representativa; no Brasil, também, o código de defesa do consumidor parece não cuidar deste
direito de forma clara e expressa. Da pesquisa e tendo em conta os países da CPLP escolhidos
parece que só o ordenamento jurídico moçambicano e o português têm consagrado nas suas leis
de defesa do consumidor o direito de participação por via representativa.52

3.4.10 Direito à Protecção contra a publicidade enganosa e abusiva


Nos termos do Decreto n.º 36/2016, de 31 de Agosto, alínea. l), do Glossário, anexo ao Código,
se conceptualiza, a publicidade, nos seguintes termos: “comunicação feita por entidade de
natureza pública ou privada, no âmbito de uma actividade comercial, industrial, artesanal ou
liberal, com objectivo directo ou indirecto de promover quaisquer bens ou serviços com vista a
sua comercialização ou alienação, bem como promoção de ideais, princípios, iniciativas ou
instituições, exceptuando-se, deste conceito, a propaganda política.” Deste conceito resulta claro
que no âmbito das práticas comerciais a publicidade é o veículo pelo qual se faz a oferta de
produtos e serviços, artigo 28, n.º 1, LDC. O que se pretende aqui, é proibir que o fornecedor no
seio das relações de consumo para lograr os seus intentos o faça recorrendo à publicidade
enganosa e abusiva. Sobre a publicidade enganosa e abusiva veja-se os artigos 20, LDC, e o
51
Idem, pp33-34
52
Idem, p35

39
artigo 14 da CP 83. Sobre o que a lei considera como publicidade enganosa e abusiva, confira os
nºs 2 e 3, do artigo 20, LDC. Repare-se que a lei faz alguma distinção referindo que há
publicidade enganosa por omissão (quando deixar de informar sobre dado essencial do produto
ou serviço), ou por acção (quando indicar qualidades que o produto não possui), n.º 4, art.º. 20,
LDC. A publicidade rege-se pelos princípios seguintes: licitude, identificabilidade, veracidade e
respeito pelos direitos do destinatário, usuário ou consumidor (Cfr. artigo 5 do CP). É ainda
proibido nos termos da CP, a publicidade que encoraja comportamentos ou promove produtos
prejudicais à saúde e segurança do destinatário, usuário ou consumidor, artigo 15, n.º 1. A
publicidade comercial, da oferta de produtos expostos, deve ser mencionada, o respectivo preço
com a inclusão do IVA84, n.º 1, artigo 34, CP, e o n.º 1, artigo 24, LDC. No que concerne à
publicidade dos produtos alimentícios, a primeira regra é a de se observar as normas de
licenciamento e demais legislações específicas (n.º 1, art. 36); a segunda, é não associar o
produto alimentício a produtos fármaco-medicinais ou dietéticos (n.º 2, art. 36). A lei portuguesa,
sobre este direito nada refere; a angolana, prevê o direito a protecção contra a publicidade
enganosa e abusiva nos termos do disposto no Capítulo V, art. 21, n.º 3; no direito brasileiro, este
direito está previsto no Capítulo V, Seção III, art. 37.53

3.4.11 Tutela Administrativa, civil e penal


No sistema moçambicano de protecção do consumidor, incumbe ao Estado e à Administração
Publica, dentre várias, emitir normas relativas a produção, industrialização, distribuição e
consumo de bens e serviços, etc., (art. 32, n.º 1, LDC). O Estado, materializa o que se dissemos
atrás, dentre outras, instituições tuteladas pelo Ministro da Indústria e Comércio, por via do
Instituto Nacional de Normalização de Qualidade (INNOQ). Cujas atribuições e competências
são indicadas nos artigos 4 e 5 pelo Decreto n.º 81/2020, de 9 de Setembro. O INNOQ, à luz do
seu Estatuto Orgânico, artigo 14, possui, dentre outras, as seguintes estruturas orgânicas: al. a)
Divisão de Normalização; al. b) Divisão de Certificação; al. C) Divisão de Metrologia; al. d)
Divisão de Ensaios e Inspecção; al. e) Gabinete Jurídico e Cooperação. Desta feita, o INNOQ,
também intervém na protecção dos direitos do consumidor, na medida em que estabelece padrões
de referência aos produtos colocados no mercado. Quanto a fiscalizar e controlar a produção,
industrialização, distribuição, a publicidade de bens ede serviços e o mercado de consumo, no

53
Idem,p36

40
interesse da preservação da vida, da saúde, da segurança, da informação e do bem-estar do
consumidor (n.º 1, art. 32, LDC), o Estado, fá-lo por via da INAE. Cujas a atribuição e
competências, são indicados nos artigos 4 e 5 do Decreto n.º 43/2017, de 11 de Agosto. As
infracções de normas de defesas dos consumidores são passíveis de sanções civis, penais e
administrativas. Antes referimos que no seio das relações de consumo, o critério de
responsabilidade é objectivo. No que se refere às sanções administrativas, a LDC, art. 33,
especifica quais os tipos de sanções incorrem os infractores. No concernente à tutela civil,
confira-se, os dispostos no n.º 2, art. 483, e art. 913, ambos do CC. Quanto à tutela penal, os
infractores são punidos nos termos do art. 224, do Código Penal, em conjugação com o n.º 3, art.
29, da Lei n.º 3/2022, de 10 de Fevereiro. Na lei portuguesa de defesa do consumidor, o
legislador nada diz ao respeito tanto da sanção administrativa, civil e penal; no direito angolano,
sobre as sanções administrativas, veja-se, o Capítulo VI, arts. 25 e 26; no direito brasileiro, no
que tange às sanções administrativas, confira-se, o Capítulo VII, artigos 55 à 60, no que concerne
às infracções penais, o Capítulo VI, Título II, artigos 61 à 80. Contudo, sublinha-se que na lei
angolana de defesa do consumidor no que se refere às sanções civis e penais o legislador daquele
país nada diz ao respeito; ao passo que no direito brasileiro o código de defesa do consumidor
daquele país, limita-se a prescrever as sanções administrativas e penais, quanto às civis nada
diz.54

4 Contrato de adesão em Moçambique


Uma vez que o Código Comercial, define as condições nos contratos de adesão, no seu artigo
28º, o nosso direito não consigna normas directamente dirigidas há matérias, assim como, ao que
sabemos, o problema ainda não mereceu demasiada atenção. Mesmo assim, estes contratos são
permitidos. Esta permissão enquadra-se no princípio da autonomia da vontade. Embora a sua
permissão seja ilícita, tem havido, incluindo em Moçambique, um movimente de reacções contra
os abusos de poder económico dos poderosos operadores e económicos de menos dimensão e
menos possibilidades55.
A reacção surge na medida em que o contrato de adesão coloca o consumidor numa situação de
precariedade, pois vem mitigando a sua liberdade contratual, previstas no art 405ºdo C.C
Moçambicano, na medida em que ele não participa na elaboração do contrato mas na
54
Idem, p37
55
NICOL´S, Mouzinho, Protecção do Consumidor na Ordem Jurídica Moçambique, PbliFix, Maputo,2010,

41
celebração. Quer dizer, o consumidor vê o seu direito de estipulação reduzido ao direito de
celebração. O consumidor apenas adere ao contrato e aparece como parte fraca na relação. Esta
posição desfavorável do consumidor, está espelhada nas características do contrato de adesão.
Do Código Civil, podemos tirar alguns princípios como o princípio da boa-fé, de Proibição do
abuso do Direito e o da Proibição do Pacto Leonino56. Que podem ser chamados para regular
situações de cláusulas contratuais gerais abusivas integradas em contratos de adesão, mas não
são princípios privativos.
Trata-se de princípios aplicáveis a generalidade dos negócios e a generalidade dos contratos.
Como é natural, a aplicação prática de princípios gerais sempre susceptíveis de nuaces, o que se4
ode tornar, no caso concreto, prejudicial para a defesa dos direitos do consumidor, já que se
ficara sempre em posições relativas, discutíveis e menos seguras57.
Esta situação torna-se grave num cenário como o de Moçambique onde grande parte de serviços
ainda é fornecida empresas em regime monopólio ou quse-monipolio e onde o consumidor quse
sempre não tem alternativas, sujeitando-se ao regime contratual exclusivamente estipulado pelo
fornecedor de bens e serviços. O problema do contrato de adesão, esta no facto de que algumas
cláusulas serem injustas para o consumidor.58

4.2 Regime geral dos contratos de adesão


O regime geral dos contratos de Adesão está estabelecido nos artigos 17º e ss do Código
Comercial (Decreto-Lei nº3/2022, de 25 de Maio).
Conforme foi abordado anteriormente, que nos contratos de adesão a impossibilidade que uma
das partes tem de influenciar o conteúdo do contrato, potencia a susceptibilidade de consagração
de cláusulas iníquas ou abusivas e não desejadas por uma das partes. A qual, muitas das vezes, só
apercebe-se do conteúdo quando confrontada com um litígio.
O legislador apelando à técnica da remissão para o regime geral dos contratos comerciais,
regulou a matéria dos contratos de adesão em dois planos diferentes, mas complementares a
nomear:59
a) O plano da formação do contrato;
56
Artigos 227º; 334º e 994º do CC
57
NICOL´S, Mouzinho, Protecção do Consumidor na Ordem Jurídica Moçambique, PbliFix, Maputo,2010,
58
Idem
59
FRAGOSO, Américo, Contratos de Adesão no novo Código Comercial de Moçambique,
[Link]

42
b) O plano do conteúdo do contrato.
No que diz respeito ao primeiro plano, que visa essencialmente assegurar que a vontade do
aderente é livre e esclarecida, ele é concretizado através da referência prevista no artigo 17º do
CCom aplicável por remissão do artigo 28º, nº1 CCom in fine, de que as cláusulas constantes das
propostas dos contratos se incluem nos contratos definitivos através da aceitação. Assente a
necessidade de aceitação, ficam, naturalmente, excluídas as condições gerais não aceites
especificamente, ainda que sejam habitualmente utilizadas pelo predisponente relativamente a
todos os outros contraentes.
A exigência de aceitação determina consequentemente a aplicação às condições gerais das regras
sobre a perfeição da declaração negocial, designadamente as regras sobre a falta de consciência
da declaração, erro ou incapacidade.60
A lei vai mais longe, e sem prejuízo da aceitação, exige sempre o cumprimento de determinados
requisitos para a inclusão das condições gerais nos contratos. As exigências específicas estão
previstas nos artigos 18º e 19º do CCom, e são aplicáveis aos contratos de adesão por remissão
do artigo 28º, nº1 CCom in fine. As exigências específicas concretizam-se ao nível da
comunicação das cláusulas (art. 18º do CCom) e prestação prévia de informações (artigo 19º do
CCom).
Ao nível da comunicação, a lei prevê que a comunicação das condições gerais deverá ser feita
pelo predisponente de modo adequado, na íntegra e com antecedência necessária para o
conhecimento efectivo. Naturalmente que a antecedência e adequação necessárias na
comunicação estarão relacionadas com a extensão, importância e complexidade do contrato de
modo a permitir o conhecimento efectivo por quem use de comum diligência num juízo que,
casuístico, deverá ser feito de acordo com as circunstâncias balizadas pela boa-fé.61
Daí que, por exemplo, a remissão para tabuletas inexistentes ou afixadas em local invisível pelo
predisponente ou a mera exibição de várias páginas num formulário em letras pequenas seguidas
da exigência de assinatura, não integram formas de comunicação adequada ou atempada.
Nos termos do artigo 18º n.º 3 do CCom, o ónus da prova da realização de uma comunicação
adequada, na íntegra e atempada cabe ao proponente, o que para efeitos de contratos de adesão
equivale a dizer, que o ónus cabe ao predisponente.

60
Menezes Cordeiro, Tratado de Direito Civil Português I, Coimbra, 1999, pp.370
61
FRAGOSO, Américo, Contratos de Adesão no novo Código Comercial de Moçambique,
[Link]

43
As condições gerais sobre as quais não tenham sido cumpridas as exigências de comunicação
consideram-se não escritas, conforme previsto na alínea a) do artigo 20º do CCom aplicável por
remissão do artigo 28º,nº1 CCom in fine.
Do mesmo modo, e nos termos das alíneas c) e d) do artigo 20º do CCom, consideram-se
excluídas as condições gerais que, pelo contexto em que surjam, pela epígrafe que as precede ou
pela sua apresentação gráfica, passem despercebidas a um contratante normal, colocado na
posição do contratante real e as cláusulas inseridas em formulários depois da assinatura de algum
dos contratantes (as designadas cláusulas surpresa).
Para além das referidas especificidades na comunicação das condições gerais, a lei impõe ainda
ao proponente – predisponente nos contratos de adesão – a obrigação de prestar informações
sobre todos os aspectos relevantes presentes no contrato, bem como sobre todos os
esclarecimentos que lhes tenham sido solicitados (artigo 19º nº.1 do CCom).
A lei refere, contudo, que a exigência de prestar informações sobre aspectos relevantes do
contrato bem como a exigência de prestar as informações solicitadas devem ter em conta a
natureza do contrato. O que significa, por um lado que o ónus de prestar informações é tanto
mais relevante quanto a importância, os montantes e a complexidade do contrato em causa. Por
outro lado, o nexo de relação estabelecido com a natureza do contrato exige que haja
razoabilidade na exigência das informações relevantes que devem ser prestadas ou solicitadas. 62
O número 2 do artigo 469º do CCom determina “que as declarações de vontade constantes de
escritos particulares, recibos, correspondências, pré-contratos, publicidade feita por quaisquer
meios de divulgação, vinculam o declarante subscritor, podendo dar lugar conforme definido em
lei, a responsabilidade pré-contratual”.
63
A indemnização a título de responsabilidade pré-contratual pode cumular-se com os efeitos do
artigo 470º do CCom, conquanto que se verifiquem os seus pressupostos, mormente, a existência
de danos causados culposamente causados pelo predisponente quer nas informações ou omissões
que previamente tenha prestado e que sejam atentatórias dos deveres de boa-fé.
Faz-se notar que através das regras comuns, as soluções poderiam passar pela indemnização,
havendo culpa, a título de responsabilidade pré-contratual (art.227º do Código Civil), até à
anulabilidade por erro (art. 247 e 251º do Código Civil) ou até mesmo à falta de consciência
(art.246º do Código Civil). No entanto, o legislador optou pela solução mais simples e eficaz, a
62
Idem, p15-16
63
Idem

44
pura e simples exclusão das cláusulas ou condições gerais que atentem contra os artigos 468º e
469º do Código Comercial.
Verificando-se a exclusão de condições gerais, nos termos do 470º do Código Comercial, pode
questionar-se a subsistência do próprio contrato, pois se, se excluem sem alternativas,
determinadas matérias do contrato, por violação dos artigos 468º e 469º do CCom, é possível que
o mesmo deixe de fazer sentido, sendo certo que a lei é omissa nesta matéria.
Relativamente ao segundo plano, respeitante ao conteúdo do contrato, o mesmo caracteriza-se
pela enunciação de um determinado número de cláusulas que são classificadas como sendo
abusivas e por conseguinte proibidas. A qualificação de determinadas cláusulas contratuais como
sendo abusivas, pela sua amplitude, corresponde a uma das principiais novidades introduzidas
pelo Novo Código Comercial e porventura aquela que, certamente, mais repercussões irá trazer
ao nível da contratação comercial.64
O leque de cláusulas abusivas encontra-se enunciado no artigo 471º do CCom. A enunciação não
é taxativa, mas sim exemplificativa. Esta constatação retira-se da utilização da expressão “dentre
outras” constante do corpo do artigo e o qual indicia que o legislador, ainda que exaustivo, quis
deixar margem para a qualificação de outras cláusulas como sendo abusivas.

4.3 Cláusulas Abusivas do contrato de adesão


Em primeiro lugar, a que ter em conta que os contratos de adesão adequam ao surgimento de
cláusulas que podem ser qualificadas como abusivas, colocando assim, a serem formuladas por
uma das partes somente, o que promove o aparecimento de cláusulas que geram onerosidade
excessiva para o aderente. Assim, as cláusulas trouxeram uma grande inconveniência social,
sobretudo, para a parte menos desfavorecida. Pois, deve haver estabilidade entre os contratantes.
Diante disso e fruto da evolução da jurisprudência e do desenvolvimento da doutrina, a LDC
veio instituir uma secção única para o assunto em causa (no capitulo III). Consagrando assim o
direito a protecção contratual.
Segundo GALDINO (2001, p.12) citado por Alzira Bocardo ʺcláusulas abusivas são aquelas que
constituem obrigações injustas, colocando o consumidor em desvantagem excessiva, causando
uma desarmonia contratual entre as partes, ferindo a boa-fé e a equidadeʺ.

64
Idem p,18

45
As cláusulas abusivas não se restringem aos contratos de adesão, mas cabem a todo e qualquer
contrato de consumo, escrito ou verbal, pois o desequilíbrio contratual, com a supremacia do
fornecedor sobre o consumidor, pode ocorrer em qualquer contrato, concluído mediante qualquer
técnica contratual
O abuso referido nas cláusulas, encontra-se no desrespeito aos direitos do aderente, bem como
pela ausência dos princípios contratuais e não pelo facto de um dos contratantes já ter formulado
previamente o contrato, justamente porque a cláusula abusiva representa o exercício abusivo da
faculdade que tem um dos contratantes de predispor o conteúdo contratual.

4.4 Efeito das cláusulas abusivas a Luz do Código Comercial


Constatada a existência no contrato de adesão de uma das cláusulas constantes do artigo 21º do
CCom, suscita-se a questão de saber quais são os efeitos que daí decorrem. O Código Comercial
sentiu a particular necessidade de consagrar a nulidade dos contratos conforme previsto no artigo
23º. Faz-se notar que o regime da nulidade previsto no artigo 23º é focalizado não nas cláusulas
eventualmente abusivas, mas sim no próprio contrato. A nulidade, a verificar-se, será total.65
No entanto, este regime tem algumas particularidades que cumpre referir. Assim, o acesso à
nulidade total do contrato carece do cotejo com os mecanismos do artigo 22º do CCom. Mais
precisamente, e antes de se declarar nulo um contrato, dever-se-á, obrigatoriamente, apelar aos
mecanismos de preservação contratual previstos no mesmo artigo.
O mecanismo legal do número 1 do artigo 22º CCom de preservação contratual determina que na
contingência de constatação de existência de uma cláusula abusiva no contrato, o mesmo poderá
subsistir, quando, mediante a aplicação sucessiva de normas supletivas aplicáveis ou dos
princípios e regras de integração de lacunas se consiga restabelecer o equilíbrio das partes.
Nos termos do número 2 do artigo 22º CCom, são indicados critérios norteadores na tentativa de
preservação do contrato: alínea a) - Os valores fundamentais direito aplicados ao caso concreto;
alínea b) a confiança suscitada pelas partes no processo de formação do contrato e na sua
execução; alínea c) e os objectivos pretendidos pelas partes.
Contudo, pude perceber que o CCom, esclarece que não é necessária a solicitação do contratante
prejudicado para a realização do processo de preservação do contrato.66
65
FRAGOSO, Américo, Contratos de Adesão no novo Código Comercial de Moçambique,
[Link]
66
No entanto, se o contratante prejudicado já não quiser a manutenção do contrato terá o ónus de demonstrar que o
equilíbrio das partes já não pode ser restabelecido, tendo nos indícios do 23º critérios orientadores de tal

46
Esgotado o processo prévio de tentativa de preservação da relação contratual, no todo ou em
parte, os contratos serão declarados nulos, nos termos do artigo 23º do CCom.
A lei apresenta indícios, não taxativos, das situações em que a declaração de nulidade dos
contratos é exigível após uma infrutífera tentativa de preservação contratual, e que são os
seguintes: i) Indeterminação dos aspectos essenciais; ii) Desequilíbrio das prestações; iii)
Contrariedade com a boa-fé e equidade; iv) Gravosidade das prestações para uma das partes.
Na ausência de previsão especifica nesta matéria, reputa-se que a declaração de nulidade prevista
no artigo 23º do CCom. Seja invocável nos termos gerais, ainda que temperada pela necessidade
de recurso prévio aos mecanismos de preservação contratual previstos no artigo 22º do CCom.

demonstração No entanto, desde já se adianta que tal pretensão pode ser infrutífera dada a especial tutela que a lei dá
aos mecanismos de preservação da relação contratual.

47
CONCLUSÃO

Após uma análise profunda dos argumentos apresentados, chegamos a conclusão de que com
chegada da Constituição de 2004, introduziu-se ao contexto constitucional um novo direito
fundamental que é o direito do consumidor e, em 2009 com a instituição de um sistema
moçambicano de defesa do consumidor, que tinha o objectivo de assegurar os direitos dos
consumidores, através da Lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro, tornou-se possível implementar o
regime da tutela especial de defesa dos consumidores e entre várias outras leis.
Concluímos que a protecção do consumidor no ordenamento jurídico moçambicano deixa a
desejar, visto que não há eficácia do sistema de defesa do consumidor em Moçambique.
Contudo, o problema não termina. Podemos observar o disposto estabelecido pelo artigo 8
número 1, que incumbe ao Estado e outros órgãos a promover política educativa para os
consumidores e, isso passa necessariamente pela introdução de programas em matérias do
consumidor nas curricula do Sistema Nacional de Educação.
A consequência efectiva do sistema de defesa dos consumidores em Moçambique, impacta
negativamente no grosso dos cidadãos moçambicanos, ao ponto de tornar-lhes desconhecedores
da lei de defesa dos consumidores. Porquanto, não são educados, informados ao ponto de
estarem devidamente cientes de que existe em Moçambique leis que os defendam dos danos
patrimoniais e não patrimoniais resultantes das relações de consumo da compra e venda.

48
RECOMENDAÇÕES E SUGESTÕES
Após uma análise profunda do tema em questão, apresentamos as recomendações/sugestões.
Fruto de discussões enriquecedoras e embasadas em sólido estudo teórico e prático, nossas
propostas visam contribuir para o aprimoramento do campo jurídico.
Reconhecemos que as recomendações representam apenas o início de uma jornada contínua de
pesquisa e desenvolvimento na área, encorajando uma abordagem mais dinâmica e inovadora
para explorar novas direcções e promover avanços significativos na área jurídica. Neste contexto,
sugerimos:
a) Mitigar a falta de aplicação na economia informal, visto que este apresenta alterações
significativas na estrutura da relação “consumidor - fornecedor”: por um lado, estas
economias assentam em relações sociais pré-estabelecidas, pouco ou nada
profissionalizadas, com regras não normalizadas;
b) Resolver a situação da falta de tutela efectiva, que segundo as associações de defesa do
consumidor nacionais, tais como: a Pro-Consumers e a Associação de Defesa do
Consumidor de Moçambique (Adecom), os direitos do consumidor têm sido
sistematicamente violados e ignorados, sem a tutela necessária para assegurar a sua
protecção. Não obstante a existência de instrumentos legais que os consagrem, não se
verifica um esforço efectivo das instituições competentes no sentido de garantir a
protecção e segurança dos direitos do consumidor;
c) Que o Estado crie meios para mitigar a Falta de educação para o consumidor nos termos
da Lei de Defesa do Consumidor. Cabe ao Estado a promoção de uma política educativa
para os consumidores de matérias relacionadas com o consumo e os direitos dos
consumidores.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
a) Legislação:
 Decreto-Lei n.º 3/2022, de 25 de Maio, Regime Jurídico dos Contratos Comerciais.
 Decreto n.º 27/2016, de 18 de Julho, Regulamento da Lei de Defesa do consumidor.
 Decreto-Lei n.º 47 344, de 25 de Novembro de 1966, aprova o Código Civil.
 Lei n.º 1/2018, de 12 de Junho, Constituição da República de Moçambique.
 Lei n.º 22/2009, de 28 Setembro, Lei de Defesa do Consumidor.

b) Doutrina:
 BENJAMI, António. H.V; MARQUES, Cláudia. L; BESSA, Leonard. R. Manual De
Direito Do Consumidor, 15 edição, Rev., actual. E ampl.
 ALVES, Carlos Teixeira, Satisfação do Consumidor (2003), Escolar Editora, Lisboa
 FILOMENO, Geraldo Brito, 2018, Manual de Direitos do Consumidor, 15ª Edição,
Atlas, São Paulo
 MIRAGEM, Bruno, 2016, Curso de Direito do Consumidor
 MIRANDA, Jorge, Manual de Direito Constitucional, Tomo IV, Direitos
Fundamentais, 3ª Edição, Coimbra
 CARVALHO, Jorge Morais, Manual de Direito do Consumo, Almedina, 2021
 NICOL´S, Mouzinho, Protecção do Consumidor na Ordem Jurídica Moçambique,
PbliFix, Maputo,2010
 CORDEIRO, António Menezes, Tratado de Direito Civil, Vol. I, 4.ª Ed. (Reformulada e
actualizada), Almedina, Coimbra, 2012.
 ALMEIDA, André. F.M. Direito do Consumidor, Coimbra, Janeiro de 2018.
 COSTA, Júlio de Almeida. Direito das Obrigações. 12ª Ed. Lisboa: Almedina, 2009.
 AZEVEDO, António; MARIANO, Paulo, Contratos, 26ªedição, Rev., RJ,2009.
 FIGUEREIRO, Thiago. Pedrosa, Aplicação ao distrato das regras de Protecção do
aderente nos contratos de adesão, Brasília, 2008.

50
 CORDEIRO, António Menezes, Direito das Obrigações, 1º Volume reimpresso,
Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 1988.
 GOUVEIA, Jorge Bacelar, Direito Constitucional de Moçambique, IDiLP, 2015
 CARVALHO, Jorge Morais, 2021, Manual de Direito do Consumo, Almedina.
 MIRANDA, Jorge, Manual de Direito Constitucional, Tomo IV, Direitos
Fundamentais, 3ª Edição, Coimbra
 NUNES, Rizzato, 2009, Curso de Direito do Consumidor, 4ª Edição, Editora Saraiva.
 GERHARDT, Tatiana Engel, SILVEIRA, Denise, Métodos de Pesquisa, Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Editora UFRGS, 2009, pág 32.
 MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria; Metodologia de Trabalho
Cientifico: Procedimentos básicos, Pesquisa bibliográfica, projecto e relatório,
Publicações e trabalhos científicos; 7.ª ed, rev. e ampl. Atlas; São Paulo, 2015.

c) Artigos Electrónico
 FRAGOSO, Américo, Contratos de Adesão no novo Código Comercial de
Moçambique, [Link] a cessado aos 02.02.2025.
 VESSULA, Abreu, A protecção e garantia dos consumidores no ordenamento jurídico
Moçambicano, faculdade de Direito, UEM, Maputo e 2024. [Link]
acesso em 14.01.2025
 DIQUE, Rosa Alberto, O contrato de adesão e a alteração das circunstâncias: uma
contribuição jurídica para a compreensão dos contratos de mútuo bancário, Maputo,
Setembro de 2018, [Link] acesso em 14.01.2025
 BOCARDO, Alzira Teresinha, Cláusulas Abusivas: Uma armadilha para os
Consumidores nos Contratos de Adesão. Da possibilidade de Anulação das Cláusulas
Abusivas em face ao Código de Defesa do Consumidor, FEMA, Assis, 2014.
[Link] acesso em 10.02.2025

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