Teste Modelo de Português
Educação Literária
Apresenta as tuas respostas de forma bem estruturada, justificando-as e documentando-as.
PARTE A
Lê o excerto.
MADALENA, TELMO PAIS
MADALENA – E vamos ao que importa agora. – Maria tem uma compreensão… […]
TELMO – Não lhe digo nada que não possa, que não deva saber uma donzela honesta e digna de
melhor… de melhor.
MADALENA – Melhor quê?
5 TELMO – De nascer em melhor estado. – Quisestes ouvi-lo… está dito.
MADALENA – Oh, Telmo! Deus te perdoe o mal que me fazes. (Desata a chorar.)
TELMO (ajoelhando e beijando-lhe a mão) – Senhora… senhora D. Madalena, minha ama, minha
senhora… castigai-me… mandai-me já castigar, mandai-me cortar esta língua perra que não toma
ensino. – Oh senhora, senhora!... é vossa filha, é a filha do senhor Manuel de Sousa Coutinho, fidalgo
10 de tanto primor, e de tão boa linhagem como os que se têm por melhores neste reino, em toda a
Espanha... A senhora D. Maria… a minha querida D. Maria é sangue de Vilhenas e de Sousas; não
precisa mais nada, mais nada, minha senhora, para ser… para ser…
MADALENA – Calai-vos, calai-vos, pelas dores de Jesus Cristo, homem.
TELMO (soluçando) – Minha rica senhora!…
15 MADALENA (enxuga os olhos e toma uma atitude grave e firme) – Levantai-vos, Telmo, e ouvi-me.
(Telmo levanta-se.) Ouvi-me com atenção. É a primeira vez e será a última vez que vos falo deste
modo e em tal assunto. – Vós fostes o aio e o amigo de meu senhor… de meu primeiro marido, o
senhor D. João de Portugal; tínheis sido o companheiro de trabalhos e de glória de seu ilustre pai,
aquele nobre conde de Vimioso, que eu de tamanhinha me acostumei a reverenciar como pai. Entrei
20 depois nesta família de tanto respeito; achei-vos parte dela, e quase que vos tomei a mesma amizade
que aos outros… chegastes a alcançar um poder no meu espírito, quase maior… – decerto maior –
que nenhum deles. O que sabeis da vida e do mundo, o que tendes adquirido na conversação dos
homens e dos livros – porém, mais que tudo, o que de vosso coração fui vendo e admirando cada vez
mais – me fizeram ter-vos numa conta, deixar-vos tomar, entregar-vos eu mesma tal autoridade nesta
25 casa e sobre minha pessoa… que outros poderão estranhar…
TELMO – Emendai-o, senhora.
MADALENA – Não, Telmo, não preciso nem quero emendá-lo. Mas agora deixai-me falar. – Depois
que fiquei só, depois daquela funesta jornada de África que me deixou viúva, órfã e sem ninguém…
sem ninguém, e numa idade… com dezassete anos! – em vós, Telmo, em vós só achei o carinho e
30 proteção, o amparo que eu precisava. Ficastes-me em lugar de pai: e eu… salvo numa coisa! – tenho
sido para vós, tenho-vos obedecido como filha.
TELMO – Oh minha senhora, minha senhora! mas essa coisa em que vos apartastes dos meus
conselhos…
Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa (fixação de texto de Maria João Brilhante), ato I, cena II,
3.ª ed., Comunicação, 1994, pp. 85-88.
1. Explicita a evolução da atitude de Madalena face às palavras de Telmo.
2. Refere dois adjetivos que caracterizem o estado de espírito de Telmo neste segmento, comentando a sua
expressividade.
3. Seleciona a opção de resposta adequada para completar as afirmações abaixo apresentadas.
Ao longo do excerto, a linguagem utilizada pelas personagens reflete o seu estado emocional. Assim, o uso
do ponto de exclamação, associado às reticências na linha 25, sugere a ______ de Madalena, ao referir-se à sua
relação com Telmo Pais. Além disso, o discurso coloquial, caracterizado por frases inacabadas que traduzem o
ritmo do pensamento de Telmo, está presente ______.
A. incompreensão … nas linhas 7 a 9
B. angústia … nas linhas 7 a 9
C. incompreensão … na linha 30
D. angústia … na linha 30
PARTE B
Lê o excerto e as notas.
PARTE B
Leia o texto seguinte, constituído pelas estâncias 15 a 18 do Canto I de Os Lusíadas, e as notas.
Est. 15 E, enquanto eu estes canto – e a vós não posso,
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
5 Comecem a sentir o peso grosso
(Que polo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.
Est. 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio,
10 Em quem vê seu exício1 afigurado;
Só com vos ver, o bárbaro Gentio
Mostra o pescoço ao jugo2 já inclinado;
Tétis todo o cerúleo senhorio3
Tem pera vós por dote aparelhado4,
15 Que, afeiçoada ao gesto5 belo e tenro,
Deseja de comprar-vos pera genro.
Est. 17 Em vós se vêm6, da Olímpica morada,
Dos dous avós7 as almas cá famosas;
Ũa, na paz angélica dourada,
20 Outra, pelas batalhas sanguinosas.
Em vós esperam ver-se renovada
Sua memória e obras valerosas;
E lá vos têm lugar, no fim da idade,
No templo da suprema Eternidade.
Est. 18 25 Mas, enquanto este tempo passa lento
De regerdes os povos, que o desejam,
Dai vós favor ao novo atrevimento,
Pera que estes meus versos vossos sejam,
E vereis ir cortando o salso argento8
30 Os vossos Argonautas9, por que vejam
Que são vistos de vós no mar irado,
E costumai-vos já a ser invocado.
Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão,
5. ª ed., Lisboa, MNE/IC, 2003, pp. 4-5.
NOTAS
1 exício – destruição; ruína; mortandade.
2 jugo – peça de madeira que une os bois de uma junta; domínio; força repressiva; sujeição.
3 cerúleo senhorio – domínio do mar de cor azul-celeste.
4 aparelhado – preparado.
5 gesto – aspeto; aparência; rosto.
6 vêm – veem.
7 dous avós – D. João III, pai do príncipe D. João, e Carlos V, pai da princesa D. Joana.
8 salso argento – mar da cor da prata.
9 Os vossos Argonautas – referência aos navegadores portugueses.
11.º ano
4. Releia a estância 15.
Explicite o modo como se desenvolve a estratégia argumentativa usada pelo poeta nessa
estância para incitar o rei D. Sebastião à ação gloriosa.
5. Nas estâncias 16 e 17, o poeta confere ao rei D. Sebastião uma dimensão excecional.
Comprove esta afirmação, recorrendo a dois exemplos pertinentes mencionados nessas
estâncias.
6. Selecione a opção de resposta adequada para completar a afirmação.
A par do louvor aos feitos dos navegadores cantados n’Os Lusíadas, na estância 18, está
subjacente
(A) a crítica à ambição desmesurada que o rei manifesta.
(B) a alusão à demora na ação heroica que se espera do rei.
(C) o reconhecimento pelo rei da força guerreira dos povos que há de dominar.
(D) o elogio que o rei tece ao valor artístico dos versos escritos pelo poeta.
4
11.º ano
Leitura
Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.
Lê o texto e as notas.
A rotina como prisão
Num mundo hiperativo, o tédio persiste. Como será que a rotina, longe de libertar, pode aprisionar o
sentido da vida?
A modernidade caracteriza-se por um paradoxo essencial: ao mesmo tempo que promove a aceleração
da vida sem precedentes – através da tecnologia, do trabalho e da informação –, parece mergulhar os
5 indivíduos numa experiência, cada vez mais recorrente, de vazio, indiferença e apatia. Esta sensação, muitas
vezes ignorada ou mascarada por estímulos constantes, manifesta-se com particular intensidade nos
momentos de pausa: o tédio. Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX, oferece uma das leituras
mais incisivas desta condição humana, vendo no tédio um dos principais sintomas do sofrimento existencial.
Segundo Schopenhauer, a vida oscila entre dois polos: a dor e o tédio. A dor é consequência da falta
10 daquilo que ainda não foi alcançado; o tédio, por sua vez, emerge quando o desejo é satisfeito e a vontade,
núcleo da sua filosofia, fica momentaneamente suspensa. Esta vontade, definida por ele como uma força
irracional e incessante que nos move, mas nunca encontra repouso duradouro. Assim, a vida humana torna-
-se uma sucessão de impulsos e desilusões, onde o tédio representa o vazio entre o querer e o ter.
No contexto atual, este diagnóstico adquire nova relevância. Apesar da hiperatividade do quotidiano
15 contemporâneo, o tédio não foi superado – apenas transformado. As redes sociais, os conteúdos
instantâneos e os algoritmos personalizados prometem preencher todos os interstícios1 do tempo, mas,
paradoxalmente, aumentam a dificuldade em lidar com o silêncio interior. A rotina tornou-se o palco onde a
vontade é anestesiada, não por realização, mas por repetição.
A rotina moderna é caracterizada por uma estruturação excessiva do tempo: horários rígidos, metas de
20 produtividade, ciclos previsíveis de trabalho e lazer. Tal estrutura, embora funcional, elimina
progressivamente qualquer tempo para dedicar exclusivamente à espontaneidade e à reflexão crítica.
O quotidiano torna-se um automatismo, onde a consciência crítica é substituída pela repetição acrítica de
gestos. Neste cenário, o tédio deixa de ser apenas uma sensação ocasional e transforma-se numa condição
latente e constante – uma ausência de sentido que atravessa o tempo vivido.
25 Deste modo, a cristalização de rotinas sem questionamento pode conduzir a estados de alienação
profunda, tanto no plano individual como coletivo. O sujeito torna-se, nas palavras de Schopenhauer,
prisioneiro de uma existência onde o desejo nunca é plenamente satisfeito e a satisfação nunca é plenamente
vivida, um estado de limbo2 perpétuo onde ocorre um esvaziamento da experiência do tempo e, em última
instância, da própria identidade.
30 Esta análise crítica da vida contemporânea tem o âmbito de olhar para a rotina com uma visão
transformadora, apelando à quebra das barras da prisão em que esta se tem vindo a transformar.
Independentemente do passo encontrado para uma interrupção consciente da rotina, é necessária
uma resistência subtil, mas constante à banalização do tempo da vida.
Hugo Gomes, “A rotina como prisão”, in Público (edição online de 23/04/2025, consultado a 08/01/2026, adaptado).
1 interstícios: pequenos espaços vazios; hiatos.
2 limbo: situação de indefinição ou incerteza.
11.º ano
1. O texto apresentado evidencia características de
A. um texto narrativo. C. uma apreciação crítica.
B. uma síntese. D. um artigo de opinião.
2. A pergunta que se encontra no primeiro parágrafo serve para
A. apresentar o tema que será tratado ao longo do texto.
B. resolver a questão que o autor do texto aborda.
C. colocar uma dúvida a que o autor do texto não sabe responder.
D. expressar a indignação do autor sobre o tema do texto.
3. O “paradoxo essencial” (l. 3) que define os nossos dias potencia
A. o uso da tecnologia que aproxima virtualmente as pessoas.
B. a promoção do lazer, impedindo uma atitude de reflexão crítica.
C. uma crescente atitude de marasmo e de alheamento da realidade.
D. uma atitude rotineira baseada em vivências desprovidas de tédio.
4. De acordo com a filosofia de Schopenhauer, o tédio surge sempre que
A. as pessoas se envolvem em atividades repetitivas e mecânicas.
B. o ser humano vivencia, de forma temporária, a consecução dos anseios.
C. alguém sente uma falta de estímulos provenientes do mundo exterior.
D. o indivíduo tenta adaptar-se rapidamente àquilo que desejou.
5. O travessão presente na linha 24 serve para
A. iniciar uma nova ideia relativamente à afirmação anterior.
B. introduzir uma ideia que contrasta com a afirmação anterior.
C. apresentar a afirmação anterior por outras palavras.
D. acrescentar um esclarecimento sobre a afirmação anterior.
6. No contexto em que ocorre, a palavra “alienação” (l. 25) significa
A. indignação. C. aceitação.
B. alheamento. D. perturbação.
7. A “análise crítica da vida contemporânea” (l. 30) pressupõe que
A. seja imperativo aceitar passivamente as rotinas como algo inevitável.
B. devamos romper radicalmente com todas as obrigações diárias entediantes.
C. seja fundamental uma recusa consciente de vivências desprovidas de sentido.
D. tenhamos de nos submeter às regras da organização social para evitar o tédio.
8. No excerto “apelando à quebra das barras da prisão em que esta se tem vindo a transformar” (l. 31),
o autor recorre a uma
A. antítese. C. hipérbole.
B. comparação. D. metáfora.
11.º ano
Gramática
Os itens que se seguem têm por base o texto do domínio da Leitura.
1. Todos os constituintes abaixo apresentados são complementos do nome, exceto
A. “da vida” (l. 2). C. “entre dois polos” (l. 9).
B. “de vazio, indiferença e apatia” (l. 5). D. “do quotidiano contemporâneo” (ll. 14-15).
2. No excerto “definida por ele como uma força irracional e incessante que nos move” (ll. 11-12)
encontramos informação deítica
A. apenas pessoal. C. apenas pessoal e temporal.
B. apenas pessoal e espacial. D. pessoal, temporal e espacial.
3. Todos os vocábulos e expressões apresentados contribuem para a coesão interfrásica, exceto
A. “quando” (l. 10). B. “Apesar da” (l. 14). C. “mas” (l. 16). D. “esta” (l. 31).
4. Os vocábulos “que”, nas linhas 12 e 24, são
A. uma conjunção, no primeiro caso, e um pronome, no segundo caso.
B. pronomes, em ambos os casos.
C. conjunções, em ambos os casos.
D. um pronome, no primeiro caso, e uma conjunção, no segundo caso.
5. As expressões “um automatismo, onde a consciência crítica é substituída pela repetição acrítica de
gestos” (ll. 22-23) e “do tempo da vida” (l. 33) desempenham as funções sintáticas de
A. modificador do nome, no primeiro caso, e de complemento oblíquo, no segundo caso.
B. predicativo do sujeito, no primeiro caso, e de complemento do nome, no segundo caso.
C. predicativo do sujeito, no primeiro caso, e de complemento oblíquo, no segundo caso.
D. modificador do nome, no primeiro caso, e de complemento do nome, no segundo caso.
6. Do étimo latino do verbo SENTIRE derivam as palavras portuguesas sentir e “sentido” (l. 24), mas
também os vocábulos
A. sensato e sentinela. C. sentimento e sentença.
B. sentença e sensível. D. sentimento e sensível.
7. As orações iniciadas por “onde”, nas linhas 13 e 27, classificam-se como
A. oração subordinada adjetiva relativa explicativa, no primeiro caso, e oração subordinada
adjetiva relativa restritiva, no segundo caso.
B. oração subordinada adjetiva relativa restritiva, no primeiro caso, e oração subordinada
adjetiva relativa explicativa, no segundo caso.
C. orações subordinadas adjetivas relativas restritivas, em ambos os casos.
D. orações subordinadas adjetivas relativas explicativas, em ambos os casos.
8. O antecedente do pronome “esta” (l. 31) é
A. “Esta análise crítica da vida contemporânea” (l. 30). C. “uma visão” (l. 30).
B. “a rotina” (l. 30). D. “[a] prisão” (l. 31).
11.º ano
ESCRITA
Texto de apreciação crítica
Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta
palavras, faça a apreciação crítica da imagem apresentada ao lado. O seu texto deve incluir:
− a descrição da imagem, destacando elementos significativos da sua composição;
− um comentário crítico, fundamentando a sua apreciação em, pelo menos, três aspetos relevantes, sendo
um deles a relação com a obra “Frei Luís de Sousa”, e utilizando um discurso valorativo;
− uma conclusão adequada aos pontos de vista desenvolvidos.