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Pequena Introdução A QFT: Ronaldo Thibes

O artigo oferece uma introdução didática à Teoria Quântica de Campos (TQC), abordando conceitos fundamentais de mecânica quântica e relatividade especial. O autor discute como a TQC resolve a incompatibilidade entre essas duas teorias, apresentando a ideia de campos e a segunda quantização de forma acessível a estudantes de graduação e pós-graduação. O texto também menciona a importância da TQC na física moderna e sugere referências para aprofundamento no tema.

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Marcos Gençler
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Pequena Introdução A QFT: Ronaldo Thibes

O artigo oferece uma introdução didática à Teoria Quântica de Campos (TQC), abordando conceitos fundamentais de mecânica quântica e relatividade especial. O autor discute como a TQC resolve a incompatibilidade entre essas duas teorias, apresentando a ideia de campos e a segunda quantização de forma acessível a estudantes de graduação e pós-graduação. O texto também menciona a importância da TQC na física moderna e sugere referências para aprofundamento no tema.

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Revista Brasileira de Ensino de Física, vol.

44, e20220029 (2022) Artigos Gerais


[Link]/rbef cb
DOI: [Link] Licença Creative Commons

Pequena introdução a QFT


Short introduction to QFT

Ronaldo Thibes*1
1
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Departamento de Ciências Exatas e Naturais, Itapetinga, BA, Brasil.

Recebido em 22 de janeiro de 2022. Revisado em 27 de março de 2022. Aceito em 26 de abril de 2022.


Efetuamos uma discussão introdutória à teoria quântica de campos direcionada a estudantes curiosos e
interessados nessa importante e abrangente área da física contemporânea. Supondo bem conhecidos os conceitos
de mecânica quântica e relatividade especial, discorremos rapidamente sobre seus métodos e preceitos principais,
objetivando a generalização para teoria de campos. Mostramos como a aparente incompatibilidade entre
relatividade e mecânica quântica, presente em alguns livros-texto iniciais sobre o assunto, pode ser resolvida
através do conceito de campo, permitindo uma descrição consistente das interações entre partículas elementares
na interseção entre os domínios de validade daquelas duas primeiras teorias. Explicamos de forma clara e simples
o que veio a ser conhecido na literatura como segunda quantização. O texto, eminentemente didático e motivador,
é acessível a alunos de final de curso de graduação ou início de pós-graduação com bons conhecimentos de
relatividade especial e mecânica quântica.
Palavras-chave: qft; teoria quântica de campos; equação de Klein-Gordon; relatividade; tqc.

We deliver a motivational introduction to quantum field theory, aimed at curious students interested in that
important and broad realm of contemporary physics. Assuming knowledge of the well-known quantum mechanics
and special relativity fundamentals, we briefly review and discourse about its main ideas, methods and precepts,
looking forward a generalization to quantum field theory. We show how the apparent incompatibility between
relativity and quantum mechanics, present in some initial textbooks on the subject, may be elucidated and
cleared out through the field concept, allowing for a consistent description of elementary particles interactions in
the domains of validity intersection for those two theories. We explain in a clear and simple way what came to
be known in the literature as second quantization. The text, eminently didactic and motivational, is accessible to
final year undergraduate or starting post graduate students with a good prior knowledge of special relativity and
quantum mechanics.
Keywords: qft; quantum field theory; quantization; Klein-Gordon equation; relativity.

Preâmbulo Durante a leitura do presente texto, incitamos o leitor


a refletir sobre cada uma das quatro afirmações acima,
Ao longo dos anos de sua formação básica, nos corredores decidindo com convincente argumentação sobre sua ve-
ou no cafezinho, é comum o estudante de física se deparar racidade ou não.
com afirmações do tipo: Aproveitando, antes de prosseguir, convidamos tam-
bém o leitor a escrever neste momento a equação de
• A teoria da relatividade torna tempo e espaço
Schrödinger (ES) em sua folha de papel ou caderno de
completamente equivalentes, tratando-os, mereci-
anotações. Alertamos que trata-se de uma solicitação (ou
damente, de forma igual.
desafio) capciosa, atente bem aos detalhes de notação e
• Considerando que a melhor descrição atual das
convenções ao escrever a ES. Inclusive, se não lembrar,
interações fundamentais da natureza se baseia no
vale consultar.
conceito de campo, conceituamos que em física,
um campo é simplesmente uma função definida no
espaço-tempo.
• A segunda quantização complementa a primeira, 1. Introdução
promovendo a própria função de onda também ao
patamar de operador. QFT é a abreviatura, em inglês, de quantum field
• Toda teoria quântica de campos é, necessariamente, theory que em português traduzimos por teoria quântica
relativística. (Corolário da famosa máxima de que a de campos. A maior parte da literatura científica de
teoria de campos é o casamento entre relatividade ponta atual, tanto artigos com resultados experimentais
e mecânica quântica). ou teóricos inéditos e propostas de teorias inovadoras
quanto livros-texto avançados, encontra-se em inglês,
* Endereço de correspondência: thibes@[Link] sendo essa praticamente uma língua franca em ciência.

Copyright by Sociedade Brasileira de Física. Printed in Brazil.


e20220029-2 Pequena introdução a QFT

Qualquer postulante a pesquisador em física deve procu- de integrais funcionais de Feynman [1, 2]. O funcional
rar dominar o quanto antes as quatro habilidades básicas gerador das funções de Green também é definido a
de comunicação nesse importante idioma. Optamos por partir de uma integral de Feynman da exponencial da
escrever o presente texto em português objetivando ação [3, 4]. Duas das vantagens principais da quantiza-
alcançar o maior número de estudantes brasileiros que ção funcional consistem no fato de termos uma teoria
desejem se iniciar em QFT ou, abreviemos também em explicitamente covariante desde o início e dispensarmos
nossa língua, TQC. Reconhecidamente, a teoria quântica o uso de operadores. Por razões didáticas no entanto,
de campos (TQC) é atualmente a principal e mais bem para uma primeira visão rápida da TQC, abordaremos
sucedida linguagem matemática na qual formulamos os aqui somente a quantização canônica. Nesta, seguiremos
modelos físicos para a descrição da natureza. Podemos a receita básica da MQ tradicional obtendo um espaço de
mencionar suas duas maiores aplicações em física de estados físicos, o operador hamiltoniano e prosseguindo
partículas elementares e matéria condensada, ambas ine- no cálculo de seu espectro. A compatibilização com a
gavelmente muito bem sucedidas. As ideias e conceitos TRE contudo conduzirá naturalmente ao conceito de
de TQC permeiam contudo toda a física moderna, sendo campo, inicialmente clássico e logo em seguida quântico.
seu conhecimento essencial mesmo para os que não Como bônus, a possibilidade de criação e destruição
venham a ser propriamente praticantes de TQC em seu de partículas segue como consequência imediata do
dia a dia profissional. formalismo. Infelizmente também não abordaremos aqui
É bem sabido que, no início do século passado, ocorreu os aspectos históricos da construção da TQC. Desde
uma grande revolução na forma de compreendermos e seus primórdios na primeira metade do século passado,
fazermos física. Mesmo após o advento das duas teorias através de muitas tentativas com erros e acertos, até
da relatividade e da mecânica quântica (MQ), fenô- chegar à sua forma conceitual como entendemos hoje,
menos novos, tais como os associados à fenomenologia a TQC foi elaborada através de um esforço coletivo de
de partículas elementares ou observações cosmológicas, vários físicos ao longo dos anos.1
continuaram (e continuam) desafiando os físicos de Quanto à literatura especializada de caráter didá-
plantão. A teoria da relatividade especial (TRE) foi tico, citamos alguns dos principais livros-texto e arti-
complementada, visando a acomodação de referenciais gos introdutórios em TQC a seguir. Considerando a
não-inerciais, para a teoria da relatividade geral. Uma vasta disponibilidade de textos sobre esse assunto a
adequada compatibilização entre essas teorias na in- pequena amostra que segue, longe de ser completa,
tersecção de seus escopos de validade obviamente se reflete apenas um certo gosto pessoal. Como livro-
faz necessária. Para a compreensão da dinâmica de texto padrão moderno e atualizado, procurando dar
nosso universo por exemplo, acredita-se que um modelo uma visão geral e completa da TQC, mencionamos as
cosmológico fundamental deva ser consistente tanto com obras [4, 6–12] todas escritas ou revisadas e reeditadas
a relatividade geral quanto com a MQ. Esse seria um já em nosso século XXI. Um pouco mais antigos, os
dos principais problemas em aberto da física atual, importantes livros [13–19] influenciaram toda uma ge-
conhecido como “quantização da gravitação” – talvez ração de físicos atualmente em atividade em pesquisa
a teoria de cordas venha dizer algo a respeito. Neste e produção de conhecimento. Com características bas-
presente artigo nos limitaremos à TRE mostrando como tante motivacionais e boas doses de humor e injeção
compatibilizá-la com a MQ resultando na bem estabele- de ânimo indicamos o bem conhecido livro de Anthony
cida TQC tradicional. Zee [20]. Outro bom lugar para começar a estudar
A TQC fascina nossos estudantes desde o curso de TQC seria o texto introdutório e bastante acessível [21],
graduação, tendo fama de ser um assunto difícil e por enfatizando aplicações em matéria condensada desde o
demais complicado. De fato, devido à sua complexidade início. De passagem, concernente à aplicação de TQC
e pré-requisitos, não se aprende TQC da noite para o dia. em matéria condensada, além das referências [21, 22],
Mas para sua devida compreensão não há nada impos- não podemos deixar de mencionar o livro um pouco
sível que não ceda a um estudo metódico e persistente mais avançado recentemente lançado do eminente físico
com afinco. Hoje em dia as bases da TQC encontram-se brasileiro Eduardo Marino [23]. Para aqueles ainda não
muito bem estabelecidas e um dos nossos objetivos aqui suficientemente confortáveis com o idioma internacional
é justamente conceituar suas ideias essenciais. Contudo, repetimos e destacamos a importante contribuição de
devido às limitações de espaço para um artigo como Marcelo Gomes [12], acima citada, escrita originalmente
este, alertamos que ficaremos mais na motivação inicial em português bem como o belo livro de mecânica
e teremos que parar no melhor da festa e recomendar analítica do Nivaldo Lemos [24] que aliás também já tem
ao leitor continuar em outros textos mais completos e sua versão em língua inglesa [25]. Esse último, apesar
avançados. de não ser um livro de TQC propriamente dito, contém
Mencionamos que existem diferentes formas de abor- bastante material introdutório e preparatório para teoria
dar TQC sendo as duas principais as quantizações
canônica e funcional. Nesta última, que não será tratada 1 Ao leitor interessado na história da TQC, recomendamos a
aqui, as amplitudes de transição são calculadas através leitura do livro de Schweber [5].

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Thibes e20220029-3

de campos em nível de graduação [24, 25]. Artigos curtos mesmo fenômeno através de diferentes referenciais iner-
de divulgação, motivacionais e introdutórios à TQC com ciais. Podemos então colocar como característica princi-
objetivos semelhantes ao nosso, mas de formato e ênfase pal da TRE a exigência de invariância (ou covariância)
bem distintos, podem ser vistos em [3, 26–32]. frente a transformações de Lorentz (TL). Na Figura 1
Nossa apresentação e fluxo de ideias encontram-se abaixo ilustramos uma particular TL, denominada boost
organizados da seguinte forma. Na seção 2 a seguir na direção X, relacionando dois referenciais inerciais
destacamos aspectos cruciais da TRE e MQ, com vista a S e S 0 . Se permitirmos boosts arbitrários em qualquer
chegarmos à TQC. Relembramos a definição de transfor- direção e adicionarmos também rotações, temos o grupo
mação de Lorentz e descrevemos dois contra-exemplos de transformações de Lorentz. Mais especificamente,
simples e interessantes relacionados à distinção entre utilizando a tradicional notação relativística, uma TL
tempo e espaço vistos por referenciais diferentes. Pelo de um sistema de referência de coordenadas inercial xµ
lado da MQ enfatizamos os aspectos fundamentais da para outro x0µ é uma transformação linear
equação de Schrödinger. Na seção 3 abordamos a conhe-
cida aparente incompatibilidade inicial entre TRE e MQ. x0µ = Λµν xν , µ, ν = 0, . . . , 3, (1)
Relembramos de passagem os tradicionais argumentos
de livros-texto tais como o da presença de energias onde Λµν indica uma matriz 4 × 4 de entradas reais
negativas no espectro da teoria e mencionamos mais dois satisfazendo
argumentos que vão diretamente ao cerne da questão
Λρµ Λσν ηρσ = ηµν . (2)
para, logo em seguida, mostrar como a TQC apresenta
uma solução natural unindo TRE e MQ. Na seção 4, Com o símbolo ηµν representamos a métrica do espaço-
a principal do artigo, definimos o conceito de campo tempo flat de Minkowski que, por convenção, escolhemos
e apresentamos exemplos explícitos de modelos simples aqui como
de TQC, sempre do ponto de vista da quantização  
canônica. No caso de TQC livres mostramos como passar 1 0 0 0
de forma natural de uma teoria não-relativística para a 0 −1 0 0
ηµν =  . (3)
correspondente relativística. A aplicação de TQC à física 0 0 −1 0
de partículas elementares é abordada de passagem na 0 0 0 −1
seção 5 cujo objetivo é justamente aguçar a curiosidade
do leitor para se aventurar na literatura mais avançada Matricialmente a equação (2) pode ser também escrita
de teoria de campos e física de partículas. A última seção de forma prática como
é reservada à conclusão onde encerramos com alguns
comentários finais e retomada das questões colocadas ΛT ηΛ = η. (4)
no preâmbulo. Ao final do artigo incluímos um breve
Portanto, qualquer matriz real quadrada de ordem
apêndice sobre as equações de Klein-Gordon-Fock e
quatro Λ que satisfaça a condição (4) acima caracteriza
Dirac.
uma específica transformação de Lorentz. Por exemplo, o
leitor pode facilmente obter a matriz Λµν para o caso do
2. Os Dois Pilares da Física Moderna boost representado na Figura 1 e verificar explicitamente
a concordância com (4).
Antes de entrarmos efetivamente em teoria de campos, Tratando-se de uma transformação linear, uma TL
utilizaremos essa seção para revisar ideias básicas que mistura as quatro coordenadas xµ (as novas coordenadas
supomos bem conhecidas do leitor. Nossa física contem- x0µ constituem uma combinação linear das antigas xµ ).
porânea segue dois preceitos fundamentais estabelecidos Em particular mistura espaço e tempo. Logo, surge o
na primeira metade do século XX, nomeadamente, teoria
da relatividade e mecânica quântica. Novas teorias e
modelos para descrição de nosso universo ou fenômenos
específicos são propostos na comunidade científica a
todo momento, a exigência de compatibilidade com
esses dois pilares, no entanto, é um crivo praticamente
sine qua non. Vamos discutir as ideias principais desses
dois paradigmas a seguir, buscando em cada qual sua
essência.

primeiro paradigma
Qual a essência da teoria da relatividade especial
(TRE)? É bem sabido que a TRE surgiu a partir de Figura 1: Exemplo básico de TL: boost na direção X com
questionamentos de Einstein sobre a observação de um velocidade relativa β = vc .

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e20220029-4 Pequena introdução a QFT

questionamento natural: Então quer dizer que espaço grupo de Poincaré relacionando dois sistemas inerciais
e tempo são a mesma coisa? A assinatura da métrica agora por
(3) mostra que não é bem assim, vejamos a seguir
dois contra-exemplos interessantes de transformação de x0µ = Λµν xν + bµ , (9)
Lorentz.
sendo bµ o parâmetro de translação. O grupo de Poincaré
também constitui um grupo de Lie, desta feita de
um contra-exemplo dimensão dez, cujos geradores Lµν e P µ satisfazem a
Procuremos o caso mais radical possível de uma trans- álgebra
formação de coordenadas que leve tempo integralmente
[Lµν , Lρσ ] = η νρ Lµσ + η µσ Lνρ − η µρ Lνσ − η νσ Lµρ ,
em espaço e vice-versa. Digamos ct → x e x → ct, que
(10)
escrevemos matricialmente num subespaço de dimensão
dois como [Lµν , Pρ ] = P µ δρν − P ν δρµ , (11)
 0    
ct ct 0 1 e
=Λ com Λ = . (5)
x0 x 1 0
[Pµ , Pν ] = 0. (12)
Claramente não temos aqui uma TL pois
      Qualquer teoria consistente com a TRE deve propiciar
0 1 1 0 0 1 1 0 representações em espaços vetoriais do grupo de Poin-
6= (6)
1 0 0 −1 1 0 0 −1 caré.

e a equação (4) não é satisfeita. segundo paradigma

outro contra-exemplo Passando agora para a mecânica quântica, semelhante-


mente indagamos: Qual a essência da mecânica quân-
Como segundo contra-exemplo analisemos a famosa tica? Dependendo de estilo e gosto, várias respostas
transformação de coordenadas para a frente de luz seriam possíveis. Mas, para evitar controvérsias, e pro-
dada por curando objetividade, modifiquemos a pergunta para:
 + √ Qual a equação principal da mecânica quântica? Uma
x = (x0 + x1 )/√2, delas com certeza é a equação de Schrödinger (ES). Todo
(7)
x− = (x0 − x1 )/ 2. amante da física sabe a ES de coração, certo? Abaixo
apresentamos três possibilidades:
Trata-se de uma transformação de coordenadas muito
útil e prática frequentemente utilizada para resolver Hψ = Eψ, (13)
problemas de pesquisa em física de altas energias.2 Em
particular a transformação (7) proporciona a conhecida ~2 d2 ψ(x)
− + V (x)ψ(x) = Eψ(x), (14)
solução geral de d’Alembert para a equação de onda em 2m dx2
duas dimensões. Trata-se de uma TL? Reescrevendo (7) ~2 2
 

como i~ ψ(x, t) = − ∇ + V (x) ψ(x, t). (15)
∂t 2m
 + √    0
x 2 1 1 x Possivelmente o leitor escreveu uma quarta no preâm-
= (8)
x− 2 1 −1 x1 bulo. Parece que cada livro-texto tem uma ES diferente!
Ocorre que as equações (13), (14) e (15) são todas
e substituindo a correspondente matriz de transformação “casos particulares”. Temos em mãos, digamos, uma
em (4) o leitor pode facilmente constatar que (7) não equação de autovalor (13) onde falta caracterizar o es-
é uma TL, indicando que as coordenadas x+ e x− não paço vetorial e o operador hamiltoniano H. Este último
podem ser interpretadas como tempo ou espaço. poderia ser obtido, talvez, pelo termo do lado esquerdo
Ou seja TL são transformações lineares entre as coor- da equação (14) agindo sobre ψ, mas aqui somente temos
denadas xµ de referenciais inerciais mas não quaisquer uma variável espacial x (situação bem particular). E
transformações lineares, e sim somente aquelas que onde está a dinâmica? Já a terceira, equação (15), por
satisfazem (4) ou, equivalentemente, (2). Do ponto de envolver a variável temporal, parece um pouco mais
vista matemático uma análise minuciosa mostra que geral oferecendo uma dinâmica de evolução ao longo do
as TL constituem um grupo de Lie de dimensão seis, tempo. Mas e se a partícula tiver spin ou outros graus
formado por boosts e rotações espaciais. Incluindo tam- de liberdade internos? E se o sistema for constituído por
bém translações espaciais e temporais obtemos o mais de uma partícula?
De fato essas e outras particulares equações de
2Veja mais detalhes sobre essa transformação nos recentes artigos Schrödinger decorrem do postulado geral de evolução
de ensino de física [33–35]. dinâmica de estado em um sistema quântico, que aqui

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Thibes e20220029-5

denominaremos a ES por excelência, com artigo definido, com a função de onda ψ(x, t) definida por
escrita em toda sua generalidade como
ψ(x, t) ≡ hx|ψ, ti . (21)

i~ |ψ, ti = H |ψ, ti . (16)
∂t Note que a equação diferencial (20) nada mais é do que
a antiga (15) restrita a uma dimensão espacial. Fica
No presente texto, quando mencionarmos a ES, por vezes
claro então que a ES (20) é obtida como caso particular
adjetivando de geral ou fundamental, estaremos nos
para o presente problema como consequência da ES
referindo à equação (16) acima.3 O paradigma quântico
fundamental geral (16).
na pintura de Schrödinger afirma então que:
(i) Dado um sistema físico, a partir de seus graus outro exemplo: um grau de liberdade discreto
de liberdade, definimos um espaço de Hilbert V
contendo seus possíveis estados |ψi ∈ V. Denota- Analisemos em seguida um férmion de spin 1/2, diga-
mos por T (V) o conjunto de todos os operadores mos um elétron, na presença de um campo magnético
lineares de V em V. uniforme B, fixo na direção Z. O elétron se encon-
(ii) Em seguida construimos o operador hamiltoniano tra em movimento no espaço tridimensional, contudo,
H ∈ T (V) responsável pela dinâmica do sistema. suponha que o aparato experimental não permita, ou
(iii) Parametrizando os estados em V pela variável real não tenhamos interesse em, medidas de posição ou
tempo, a evolução temporal de um dado estado momento. Estamos interessados e podemos efetivamente
físico |ψ, ti é regida pela ES fundamental (16). medir as componentes de spin ao longo de qualquer
(iv) Operadores autoadjuntos em T (V) caracterizam os direção espacial. Para construirmos o espaço de Hilbert,
observáveis quânticos. Dado um estado físico, cal- selecionamos a direção fixa Z, associamos o operador
culamos probabilidades de medida de autovalores autoadjunto Sz ao observável projeção de spin na direção
associados a observáveis. Z e definimos os dois autovetores |+i e |−i relativos
aos dois possíveis resultados da medida ±~/2. Definimos
Vejamos dois exemplos práticos: então o espaço de Hilbert V como sendo o espaço gerado
pela base ortonormal
um exemplo: um grau de liberdade contínuo
B = {|+i , |−i}. (22)
Suponha o sistema físico de interesse constituído por
uma única partícula de massa m, cuja posição x pode ou seja,
ser medida ao longo de um eixo real X, submetida ao
potencial V (x). Construimos um espaço de Hilbert de V = [B] = {α |+i + β |−i ; α, β ∈ C}. (23)
dimensão infinita V gerado pela base B de autovetores
de posição |xi, isto é, Veja que, contrariamente ao exemplo anterior de dimen-
são infinita, agora o espaço vetorial V possui dimensão
B = {|xi ; x ∈ R}, V = [B]. (17) dois. O campo magnético B privilegia a direção espacial
Z através do operador hamiltoniano que aqui definimos
A evolução dinâmica do sistema é ditada pelo hamilto- por
niano
e
P2 H= B · S, (24)
H= + V (X), (18) mc
2m
sendo e e m respectivamente a carga e a massa do
sendo P, X ∈ T (V) os operadores momento e posição elétron, c a velocidade da luz e S o operador spin. De
respectivamente. Projetando então a ES fundamental forma mais compacta podemos reescrever (24) como
(16) na base |xi obtemos
H = ωSz (25)

i~ hx| |ψ, ti = hx| H |ψ, ti . (19)
∂t onde definimos
Substituindo o hamiltoniano (18) e considerando que o eB
operador momento P atua na base de posição proporci- ω≡ (26)
mc
onal à derivada espacial, reescrevemos (19) como
e o operador Sz componente de spin na direção Z é dado
∂ψ(x, t) ~2 ∂ 2 ψ(x, t) por
i~ =− + V (x)ψ(x, t), (20)
∂t 2m ∂x2
~n o
Sz = |+i h+| − |−i h−| . (27)
3 Aqui estamos mais preocupados com os conceitos e uma 2
fundamentação da visão moderna da MQ. Em termos históricos a
equação (16) é bem diferente daquela que o próprio Schrödinger Naturalmente H age no espaço bidimensional (23) atra-
escreveu originalmente em [36]. vés de Sz . O análogo à função de onda agora, dado pela

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e20220029-6 Pequena introdução a QFT

projeção dos vetores de base sobre os estados, são os tradicional e a relatividade especial parecem em princí-
coeficientes pio incompatíveis entre si. Essa problemática é abordada
em vários livros-texto introdutórios de teoria de campos
α(t) = h+|ψ, ti e β(t) = h−|ψ, ti . (28) ou física de partículas nos quais usualmente se mostra
em detalhes que:
Partindo da ES fundamental (16), utilizando o hamilto-
niano (25) e projetando na base (22) obtemos • A equação de Schrödinger para uma partícula
na forma (15) contém uma derivada primeira em
∂ relação ao tempo e derivadas espaciais de segunda
i~ h±|ψ, ti = h±|ωSz |ψ, ti , (29)
∂t ordem, não sendo portanto compatível com a rela-
ção relativística de energia. No caso livre em que
ou seja, denotando derivadas temporais em relação ao
V (x) = 0, por exemplo, a ES não relativística para
tempo por um ponto sobre a função,
uma partícula pode ser pensada como proveniente
ωα ωβ da relação clássica de energia cinética
iα̇ = e iβ̇ = , (30)
2 2
p2
E= (32)
levando à solução geral para a evolução dinâmica de 2m
estado
  que deveria ser generalizada para a correspondente
−iωt relativística
|ψ, ti = α(0) exp |+i
2
  E 2 = c2 p2 + m2 c4 . (33)
+iωt
+ β(0) exp |−i , (31)
2 No entanto, tentativas de generalizar a equação de
Schrödinger usual (15) para a de Klein-Gordon4
que interpretamos como precessão de spin em torno do ou Dirac4 conduzem a autovalores de energia
campo magnético colinear à direção Z. negativos.
A investigação desses dois exemplos simples nos mos- • Se interpretarmos as equações relativísticas de
tra como a mesma ES geral (16) descreve diferentes Klein-Gordon ou Dirac como generalizações da
sistemas de acordo com as peculiares e particularidades ES, a densidade de probabilidade proveniente da
do espaço de Hilbert dos estados V e do hamiltoniano função de onda deixa de ser positiva definida.
H. Observe que as equações (30), provenientes de (29), A metodologia de trabalho usual da MQ fica então
podem ser interpretadas como uma ES particular para seriamente comprometida.
o exemplo 2. Elas possuem derivadas temporais de • No caso específico da equação de Dirac, uma
primeira ordem herdadas da ES fundamental (16) mas interpretação engenhosa foi proposta por seu autor
não têm derivadas espaciais pois o grau de liberdade em que se consideram todos os possíveis níveis
associado ao espaço de Hilbert (23) é discreto. de energia negativa ocupados – o famoso “mar de
Bem relembrados e entendidos esses conceitos funda- Dirac”. Tal ideia possui a virtude de prever a exis-
mentais de TRE e MQ, na próxima seção começaremos, tência do pósitron como uma lacuna no espectro
enfim, a falar sobre teoria de campos. de energias. No entanto, nesse caso, passamos de
uma teoria de uma partícula para outra de infinitas
3. Uma Aparente Incompatibilidade partículas, além de não resolvermos o problema dos
bosons que não seguem o princípio da exclusão de
Na seção anterior efetuamos uma discussão sobre os dois Pauli.
principais paradigmas da física contemporânea. Quanto
Além das bem conhecidas colocações acima que parecem
a seu escopo de validade, lembramos que a relatividade
sugerir serem relatividade especial e mecânica quântica
especial descreve corpos em movimento com velocidade
incompatíveis entre si, no presente texto, gostaríamos de
elevada em comparação à velocidade da luz no vácuo,
ressaltar os seguintes três pontos essenciais:
enquanto a mecânica quântica descreve sistemas de di-
mensões moleculares ou menores. Estamos agora interes- (i) A equação de Schrödinger na forma (15) não é
sados em estudar sistemas que simultaneamente tenham invariante frente a uma TL.
dimensões subatômicas e altas velocidades. Ou seja, (ii) Propostas de equações diferenciais para ES que
precisamos de uma teoria que una os dois paradigmas não sejam de primeira ordem no tempo são
anteriores em um só.
4 As importantes e fundamentais equações de Klein-Gordon e Di-
o problema rac podem ser pensadas em um certo sentido como generalizações
relativísticas da equação de Schrödinger para uma partícula livre.
Ocorre que, considerando uma primeira análise rápida Para o leitor menos familiarizado, incluímos um breve apêndice
e superficial, por variadas razões, a mecânica quântica sobre tais equações ao final do artigo.

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naturalmente inconsistentes com a ES fundamen- (iii) Não tratamos mais a posição como um operador
tal (16). Por exemplo a equação de Klein-Gordon4 com autovalores a serem medidos e sim, seme-
que pode ser escrita como lhantemente ao tempo, as coordenadas espaciais
agora indicam parâmetros reais. Cada ponto do
(∂µ ∂ µ + m2 )φ(x) = 0 (34) espaço-tempo, num dado referencial, é indexado
por quatro parâmetros xµ = (ct, x).
com x = (ct, x), é compatível com a TRE, sendo
invariante frente a uma TL da forma (1), mas é Essa construção é completamente análoga à abor-
incompatível com a MQ, no sentido de não poder dagem quântica tradicional do campo eletromagnético
representar um caso particular da equação (16), presente nas equações de Maxwell. Como as equações
por ser de segunda ordem no tempo. de Maxwell já são covariantes frente a TL podemos
(iii) A relatividade permite mudanças de referencial passar direto à quantização e obter naturalmente uma
que misturam e intercambiam tempo e espaço, teoria quântica de campos relativística. Outra analogia
digamos o boost importante ocorre se lembrarmos do antigo e singelo
sistema físico constituído por uma única partícula num
x01 = γ(x1 − βx0 ), campo de forças externo. A equação de movimento
(35)
x00 = γ(x0 − βx1 ) . clássica é a segunda lei de Newton que envolve a variável
dinâmica posição da partícula. Veja que a equação
representado na Figura 1. Contudo, a mecânica diferencial da segunda lei de Newton é de segunda
quântica tradicional trata espaço e tempo de forma ordem no tempo, mas isso não causa problemas quando
conceitual bem diferenciada: efetuamos a quantização desse sistema e obtemos uma
ES para a função de onda com derivada temporal de
espaço −→ posição −→ operador, primeira ordem. Para a equação de Klein-Gordon (34),
semelhantemente, entendemos φ(x) como um conjunto
tempo −→ único −→ parâmetro.
de variáveis dinâmicas (funções do tempo t) indexa-
das pela posição espacial x. A incompatibilidade entre
Associamos um operador à posição enquanto o tempo é
(34) e a MQ desaparece completamente no momento
um parâmetro real de evolução. Dependendo do referen-
em que entendemos que a equação de Klein-Gordon
cial portanto, uma TL mesclaria operador e parâmetro
é uma equação clássica não precisando portanto ser
real. Para o caso de um sistema com mais de uma
de primeira ordem no tempo como (16). Naturalmente
partícula usualmente escrevemos a função de onda como
precisaremos então identificar qual equação de fato fará
ψ = ψ(x1 , . . . , xn ; t), (36) o papel da ES (16) após a devida quantização do
sistema (34). Isso será feito mais adiante na próxima
com n indicando o número total de partículas. Veja a seção.
flagrante assimetria, várias posições e somente um valor Por razões históricas, o processo em que as fun-
único para o tempo. ções incógnitas que figuram nas equações diferenciais
de Klein-Gordon ou Dirac são, como campos, efeti-
vamente quantizadas, ficou conhecido como segunda
a solução
quantização com a seguinte (não muito correta) in-
Existe mais de uma forma de abordar e resolver o terpretação: Digamos que na “primeira quantização”
dilema acima, aqui utilizaremos o mais simples que objetos físicos clássicos tais como posição, momento
vem a ser justamento o paradigma de teoria quântica e energia são levados em operadores a agirem sobre
de campos. O formalismo a ser desenvolvido adiante uma “função de onda”. Na “segunda quantização” a
se pauta basicamente nos seguintes três preceitos em própria “função de onda” é por sua vez conduzida
contraposição aos pontos anteriores para obtermos uma também ao papel de operador. Contudo essa interpre-
descrição quântica compatível com a relatividade: tação é equivocada devendo ser evitada. Conforme o
caso acima mencionado das equações de Maxwell e
(i) Apesar da ES na forma (15) não ser invariante conforme veremos em detalhes na seção seguinte, em
frente a uma TL, a ES fundamental (16) pode teoria de campos, temos uma única etapa de quantização
de fato satisfazer esta exigência dependendo do onde os campos clássicos são levados diretamente em
hamiltoniano H ∈ T (V) para determinado espaço operadores. Por fim, finalizamos esta seção com uma
vetorial V. afirmação óbvia mas muitas vezes esquecida: Opera-
(ii) Podemos sim aproveitar as equações diferenciais dor opera. Ou seja, em física, sempre que lidarmos
relativísticas de Klein-Gordon e de Dirac, mas as com o conceito de operador, é essencial saber preci-
funções incógnita φ ou ψ não são mais funções samente sobre que espaço operar. Nesse sentido, ao
de onda (portanto não caracterizam o estado de construirmos uma teoria quântica, quer seja de forma
um sistema quântico) mas sim campos a serem direta, indireta ou através de um processo de quan-
quantizados. tização de uma teoria clássica, tem que ficar muito

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e20220029-8 Pequena introdução a QFT

claro qual é o correspondente espaço de Hilbert dos com evolução dinâmica regida pelo operador hamiltoni-
estados. ano
n  n Xi−1
~2 2
X  X
4. Teoria de Campos H= − ∇i + U (xi ) + V (xi − xj ),
i=1
2m i=1 j=1
Para entendermos o que é teoria de campos, obviamente (39)
precisamos primeiro de uma importante definição. O que
é exatamente um campo? Por definição, um campo C é onde V (x) denota um potencial de interação interno
uma função ou aplicação a partir de um subconjunto M entre os pares de partículas. Note que H age sobre o
do espaço-tempo como domínio, tomando valores em um espaço das funções (38) através dos operadores diferen-
contradomínio E que caracteriza a natureza do campo ciais presentes em (39). A partir da ES fundamental (16)
podemos escrever imediatamente a ES particular para o
C : M ⊂ R4 −→ E. (37) presente problema como

Tomemos por primeiro exemplo o campo eletromagné- ∂


i~ ψ = Hψ (40)
tico clássico em que o contradomínio é R6 , devido a ∂t
termos três componentes espaciais reais para o campo com ψ e H definidos, respectivamente, por (38) e (39).
elétrico e três para o magnético. Nesse caso a cada Note que até aqui ainda não tem nada de teoria de
ponto do espaço-tempo associamos dois vetores E e B. campos, estamos falando apenas de mecânica quântica
Modificando a natureza do contradomínio E podemos usual para um sistema de n partículas. Em seguida, por
ter, digamos, um campo de temperaturas, campos reais motivos em princípio puramente didáticos, gostaríamos
ou complexos, campos matriciais, campos de funções, de, alternativamente, descrever esse mesmo sistema atra-
campos de spinores, operadores etc. O mesmo campo vés de uma teoria quântica de campos de fato. Com esse
eletromagnético clássico acima citado poderia, alterna- intuito introduzimos os operadores
tivamente, ser descrito por um campo tensorial antissi-
métrico F µν de seis componentes independentes,5 com a(x) e a† (x) (41)
a vantagem de se comportar como um tensor frente a
transformações de Lorentz da forma (1). satisfazendo as relações de comutação
E o que viria a ser um campo quântico? Na abordagem
canônica os campos quânticos são campos de operadores, [a(x), a(x0 )] = [a† (x), a† (x0 )] = 0, (42)
ou seja, o contradomínio E representa um conjunto de
operadores atuando em determinado espaço de Hilbert V e
onde são representados os estados físicos. Nesse caso E =
[a(x), a† (x0 )] = δ 3 (x − x0 ). (43)
T (V) e os operadores são funções do espaço-tempo, nesse
sentido estamos de fato lidando com uma teoria quântica Mais precisamente a(x) e a† (x) constituem campos
de campos. O correspondente espaço de Hilbert V deve quânticos estáticos, isto é, a cada ponto x ∈ R3 do espaço
ter suas características ditadas pelos graus de liberdade físico associamos operadores a(x) e a† (x). Note também
do sistema físico, conforme vimos no paradigma da MQ. que, para cada ponto espacial x ∈ R3 , devido às relações
de comutação (42) e (43), os operadores a(x) e a† (x) se
exemplo não-relativístico comportam como operadores de criação e aniquilação
de um quantum de energia de um oscilador harmônico
Para fixarmos as ideias, vamos construir uma primeira quântico usual.
teoria quântica de campos não-relativística.6 Considere Precisamos agora determinar onde exatamente (em
um sistema quântico constituído por n partículas de que espaço matemático) os operadores (41) atuam.
massa m na presença de um potencial externo U (x). Sabendo que, na descrição de MQ usual, os estados
Definimos um espaço de Hilbert inicial como o espaço físicos para o sistema quântico em tela são caracterizados
vetorial formado por funções de onda complexas da pelas funções de onda (38), construimos a seguir um
forma segundo espaço de Hilbert para a correspondente teoria
quântica de campos através dos estados
ψ = ψ(x1 , . . . , xn ; t) (38)
Z
|ψ, ti = d3 x1 . . . d3 xn ψ(x1 , . . . , xn ; t)
5 Veja por exemplo em [32] uma relação direta entre a descrições
vetorial E e B e tensorial F µν do eletromagnetismo bem como a† (x1 ) . . . a† (xn ) |0i (44)
conexões com invariância de calibre.
6 Os dois exemplos seguintes são baseados nos capítulos 2 e 3 do

livro-texto [9]. Veja também o capítulo 3 de [37]. Uma discussão exigindo que
mais aprofundada desse modelo foi recentemente publicada no
artigo de pesquisa [38]. a(x) |0i = 0. (45)

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Thibes e20220029-9

O estado |0i é denominado vácuo da teoria. Ou seja, o partículas. Para esse sistema especificamente, N é uma
novo espaço de Hilbert tem a capacidade de descrever constante de movimento pois, conforme pode ser checado
inclusive estados com número de partículas variável. a partir de (47), temos
Interpretamos o vácuo |0i como o estado contendo
nenhuma partícula, a partir do qual podemos construir [N, H] = 0. (50)
estados contendo partículas localizadas aplicando o ope- Modificando H contudo (outra dinâmica para este
rador de criação a† (x). Dessa forma, por exemplo, mesmo espaço de Hilbert), abrimos a possibilidade para
descrevermos outros sistemas com número de partículas
|αi = a† (x) |0i (46)
variável.
denota o estado quântico contendo uma partícula loca-
lizada no ponto espacial x ∈ R3 e assim por diante. o caso livre
Naturalmente, a partir desses estados básicos podemos
Para o caso sem interação, substituindo U (x) = V (x) =
efetuar combinações lineares e o ket (44) denota o estado
0 no hamiltoniano anterior (47), obtemos uma teoria de
físico de n partículas descrito pela função de onda (38) no
campos livre não relatística com hamiltoniano
qual as partículas não estão necessariamente localizadas.
~2 2
 
Note que em (44), a função de onda entra fazendo o papel
Z
dos coeficientes da combinação linear que é dada nesse HNR = d3 x a† (x) − ∇ a(x). (51)
2m
caso por uma “soma contínua”, ou seja, uma integral
múltipla. Com o intuito de ganharmos em entendimento e in-
Tendo pronto o espaço de Hilbert dos estados físicos terpretação vamos analisar essa mesma teoria livre por
de nossa teoria de campos, definimos agora o operador outro ponto de vista. Tomando ~ = 1 por simplicidade
hamiltoniano como e trocando a variável muda de integração de x para p
através da transformada de Fourier
~2 2
Z  
3 †
H = d x a (x) − ∇ + U (x) a(x) d3 x
Z
2m ã(p) = e−ip·x a(x), (52)
Z (2π)3/2
1
+ d3 xd3 y V (x − y)a† (x)a† (y)a(y)a(x). podemos reescrever (51) como
2
(47) Z
1 2 †
Temos em mão duas descrições alternativas para o HNR = d3 p p ã (p)ã(p). (53)
2m
mesmo sistema quântico. O leitor pode agora mostrar a
partir das relações de comutação (42) e (43) que o estado Substituindo (52) em (42) e (43) verificamos que os ope-
físico (44) satisfaz à equação fundamental (16) com H radores tilda no espaço de momentos agora satisfazem
dado por (47) se e somente se a função de onda (38) com às relações de comutação
hamiltoniano (39) satisfaz (40). Portanto, na descrição
de TQC, na equação de Schrödinger fundamental (16) [ã(p), ã(p0 )] = [ㆠ(p), ㆠ(p0 )] = 0, (54)
consideramos o operador hamiltoniano dado por (47) e o e
espaço de Hilbert contendo estados físicos da forma (38).
A partir dos operadores (41) atuando no espaço de [ã(p), ㆠ(p0 )] = δ 3 (p − p0 ) (55)
estados da teoria quântica de campos podemos construir
observáveis tais como, por exemplo, o operador número com
de partículas
ã(p) |0i = 0. (56)
Z
N = d3 x a† (x)a(x). (48) O estado de uma partícula livre de momento linear bem
definido p pode ser escrito como
Aplicando (48) sobre o váculo |0i, (46) e (38) obtemos
|pi = a† (p) |0i . (57)
respectivamente7
Note que (57) é um autoestado do hamiltoniano (53)
N |0i = 0, N |αi = |αi e N |ψ, ti = n |ψ, ti , (49) p2
com autovalor de energia 2m , explicitamente temos
indicando serem autoestados do operador número con- p2
tendo respectivamente zero, uma e n partículas. Dessa HNR |pi = |pi . (58)
2m
forma, na descrição via formalismo de TQC, obtivemos
um ganho em generalidade em relação ao número de Esse autovalor de energia não-relatístico claramente nos
instiga a procurar compatibilizar (53) com a TRE.
7 Como modificar a equação (53) nesse sentido? Como
Estamos supondo as funções de onda (38) simétricas em relação
a troca de posição de partículas, ou seja, estamos descrevendo generalizar para o caso relativístico? Pense um pouco
partículas tipo bóson. antes de prosseguir a leitura.

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e20220029-10 Pequena introdução a QFT

incluindo a relatividade no espaço de estados fornece a versão da ES (16)


para a teoria quântica do campo de Klein-Gordon. A
Claro, a generalização para uma teoria relativística é
simplicidade neste exemplo decorre do fato de termos
agora simples e imediata. Considerando a relação de
uma teoria livre. O hamiltoniano (59) pode ser pronta-
energia relativística (33), basta a partir de (53) redefinir
mente diagonalizado e seus autovetores (60) constituem
Z
1/2 † uma base para o espaço de Hilbert. Infelizmente tal
HR = d3 p p2 c2 + m2 c4 ã (p)ã(p) (59) simplicidade não se estende ao caso com interações.

e – abracadabra! – obtemos uma teoria quântica de cam- 5. Uma Aplicação Importante: Física de
pos relativística! Na realidade, observando atentamente
Partículas Elementares
(59), o leitor mais experiente talvez reconheça aqui
um sistema físico simples bastante familiar no contexto
Conforme vimos na introdução, um dos maiores su-
introdutório de teoria quântica de campos. Continuando
cessos da teoria quântica de campos reside em sua
a análise, o vetor de estado
aplicação na descrição da fenomenologia de partículas
ㆠ(p1 ) . . . ㆠ(pn ) |0i (60) elementares através do conhecido modelo padrão. Nesta
seção discutiremos os rudimentos de um modelo simples
representa um estado físico constituído por n partículas de eletrodinâmica quântica apenas para dar um gosto
de momentos bem definidos p1 , . . . , pn com autovalor de inicial ao leitor que certamente continuará seus estudos
energia total com parcimônia em textos mais avançados.
O exemplo de teoria quântica de campos relativístico
E(p1 ) + · · · + E(pn ) (61) apresentado na seção anterior descreve um campo de
Klein-Gordon livre. Para obtermos um modelo mais
onde interessante e útil precisamos introduzir interações entre
os campos. Digamos que estejamos interessados em
E(p) ≡ (p2 c2 + m2 c4 )1/2 . (62) descrever a interação entre um píon carregado (spin
O hamiltoniano HR aqui obtido de forma natural gene- zero) e um elétron (spin meio) através do campo ele-
ralizando uma teoria de campos não-relativística nada tromagnético (spin um). Construimos então um sistema
mais é do que o hamiltoniano quântico associada ao composto por campos de Klein-Gordon, Dirac e Maxwell
famoso campo de Klein-Gordon. De fato, conforme o com densidades lagrangianas dadas respectivamente por
leitor pode conferir nas páginais iniciais de livros-texto LKG = ∂µ φ∗ ∂ µ φ − M |φ|2 , (65)
tradicionais de TQC [6, 7, 9, 10, 17, 20], partindo da
densidade lagrangiana clássica de Klein-Gordon 
LD = ψ̄ i∂/ − m ψ, (66)
1 1
LKG = ∂µ φ∂ µ φ − m2 φ2 , (63)
2 2 e
calculando a densidade hamiltoniana 1 1
LM = − Fµν F µν − (∂µ Aµ )2 . (67)
1 1 1 4 2
2
HKG = φ̇2 + (∇φ) + m2 φ2 , (64)
2 2 2 As quantidades M e m acima representam as massas do
píon e elétron respectivamente. O segundo termo em (67)
expandindo o campo clássico de Klein-Gordon φ(x) em é responsável pela fixação da liberdade de calibre9 associ-
modos de Fourier e procedendo a quantização canônica ada ao campo eletromagnético. A densidade lagrangiana
obtem-se precisamente o operador hamiltoniano (59) total, definindo o modelo, é dada por
com espectro de autovetores e autovalores dado respec-
tivamente por (60) e (61). L = LKG + LD + LM + LI (68)
Dessa forma fica claro como o conceito de TQC com-
patibiliza a MQ com a TRE. Exemplificamos com um onde o último termo descreve a interação entre os
dos principais modelos de TQC relativística, qual seja, campos sendo dado por
o campo de Klein-Gordon. Reiteramos que a equação
de Klein-Gordon (34) é uma equação de movimento / + ieAµ (φ∂µ φ∗ − φ∗ ∂µ φ) + e2 A2 |φ|2 . (69)
LI = eψ̄ Aψ
clássica8 e, respondendo à pergunta posta no final da
Partindo da lagrangiana (68) é necessário efetuar todo
seção anterior, o operador hamiltoniano (59) agindo
o procedimento de quantização do modelo. Seguindo a
prescrição canônica, calculamos a densidade hamiltoni-
8 Clássica aqui no sentido de contraposição a quântica. Apesar ana e parênteses de Poisson, introduzimos operadores
de relativística, a equação de Klein-Gordon é uma equação de
movimento para um campo clássico no mesmo sentido que as
equações de Maxwell para o campo eletromagnético. Veja mais 9 Uma introdução elementar ao conceito de liberdade de calibre
detalhes sobre a equação de Klein-Gordon no apêndice final. pode ser vista em [32].

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Thibes e20220029-11

pode prosseguir mais seriamente sua caminhada. Sendo


a jornada longa, árdua e com muitos cálculos pela frente,
esperamos ter elencado argumentos suficientes para uma
motivação inicial mostrando os fundamentos e objetivos
da TQC.
Analisando agora as afirmações postas no preâmbulo
vemos que somente uma pode ser considerada inteira-
mente correta.
• A teoria da relatividade torna tempo e espaço
completamente equivalentes, tratando-os, mereci-
Figura 2: Diagrama de Feynmann para processo de colisão damente, de forma igual. Incorreto. Através da mé-
elétron píon. trica (3) percebemos que a diferença entre espaço
e tempo reside de certa forma num sinal algébrico.
Conforme vimos no primeiro contra-exemplo da
de criação e aniquilação, definimos o espaço de estados seção 2, levar tempo em espaço e vice-versa não
etc. No entanto trata-se de um processo altamente não é uma TL aceitável.
trivial – as complicações provenientes dos termos de • Considerando que a melhor descrição atual das
interação não permitem uma diagonalização tão simples interações fundamentais da natureza se baseia no
como no caso livre e precisamos de formas engenhosas conceito de campo, conceituamos que em física,
de utilização de teoria de perturbação – ao longo do um campo é simplesmente uma função definida no
caminho surgem vários percalços técnicos tais como exis- espaço-tempo. Correto, de acordo com a definição
tência de vínculos, invariância de gauge, regularização, apresentada no início da seção 4. Não existe mis-
renormalização e outros. tério no conceito de campo desde que atentemos
Andando a passos largos, no final da história preci- para o fato de que podemos ter diferentes tipos de
samos extrair algo da teoria que possa ser diretamente campo dependendo da escolha do contradomínio.
confrontado com a experiência. Uma grandeza chave • A segunda quantização complementa a primeira,
no presente caso seria a seção de espalhamento para promovendo a própria função de onda também ao
colisão píon elétron, que pode ser calculada a partir da patamar de operador. Pelo menos parcialmente in-
amplitude de probabilidade correto. Uma vez que não efetuamos duas quantiza-
ções em sequência, uma não pode “complementar”
M = he− π + |e− π + i . (70) a outra. Veja o último parágrafo da seção 3.
• Toda teoria quântica de campos é, necessaria-
A partir da teoria quântica de campos correspondente mente, relativística. Incorreto. Vimos um exem-
a (68) a amplitude M pode ser calculada perturbativa- plo explícito de teoria quântica de campos não-
mente. relativística na seção 4. A matéria condensada está
Os termos da série perturbativa podem ser represen- repleta de aplicações interessantes de teorias de
tados por diagramas de Feynman. A Figura 2 abaixo campo não-relativístas. É fato contudo, que para
indica o termo não-trivial de ordem mais baixa para a descrevermos os fundamentos da física, tais como
amplitude M. O cálculo desse diagrama é feito a partir por exemplo em física de partículas elementares,
do termo de interação (69) usando as características precisamos de teorias de campo relativísticas.
da teoria que podem ser traduzidas nas famosas regras
de Feynman. Para uma primeira visão geral de TQC Bons estudos!
podemos parar por aqui. Instigamos o leitor a continuar
e persistir a partir de textos padrão tais como os Apêndice – Equações de
citados nas referências bem como cursando as disciplinas Klein-Gordon-Fock e Dirac
tradicionais de TQC a nível de pós-graduação em física.
Estendemos o convite para que o leitor não só venha Apesar de supormos que o leitor já teve contato anterior
a compreender os detalhes e métodos da TQC como com as equações de Klein-Gordon e Dirac,10 com o
venha também a dar sua contribuição científica nesta intuito de tornarmos este artigo um pouco mais auto-
vasta área do conhecimento de tamanha beleza e ainda completo, faremos a seguir uma breve discussão dessas
muito fértil em problemas em aberto. importantes equações relativísticas. Mencionamos de
passagem que a equação de Klein-Gordon para uma par-
6. Conclusão tícula na presença de um campo magnético externo em

10 Por exemplo em disciplinas de final de graduação ou início


Fornecemos uma breve introdução elementar didática de pós-graduação tais como introdução à física de partículas
e motivadora à TQC sem entrar muito a fundo em elementares, mecânica quântica relativística ou mesmo em textos
detalhes técnicos. A partir daqui o estudante interessado introdutórios de teoria quântica de campos.

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e20220029-12 Pequena introdução a QFT

coordenadas de frente de luz foi recentemente abordada bom livro-texto de física de partículas [44–46] ou teoria
de maneira bastante didática em [35]. Possíveis gene- quântica de campos [4, 6–12].
ralizações desta equação contendo derivadas de ordem Com o avançar das ideias na física, hoje em dia
superior a dois são discutidas no recente artigo [39]. entendemos as equações de Klein-Gordon-Fock, Dirac
Naturalmente as equações fundamentais que regem e Maxwell (quem diria?) como equações clássicas11
o comportamento da natureza não podem ser com- associadas a representações do grupo de simetrias da
pletamente “deduzidas” ou “demonstradas” matemati- relatividade especial, no caso Klein-Gordon-Fock para
camente uma vez que possuem caráter essencialmente partículas de spin zero, Dirac para partículas de spin
empírico. Contudo, uma forma bem conhecida de “jus- meio e equações de Maxwell para partículas de spin um
tificar” ou interpretar a equação de Schrödinger para e massa nula [8, 47]. Por fim ressaltamos que, conforme
uma partícula livre surge a partir da relação clássica de vimos no artigo principal, do ponto de vista da teoria
energia (32), na qual efetuamos as substituições quântica de campos, as funções incógnita presentes quer
nas equações de Klein-Gordon-Fock, Dirac ou Maxwell
∂ não representam os estados físicos do sistema na teoria
E −→ i~ , (71)
∂t quântica, mas sim campos clássicos a serem quantizados.
p −→ −i~∇ (72) Estes campos clássicos por sua vez, após a quantização,
se tornam campos quânticos (operadores) e agem sobre
e consideramos os operadores diferenciais agindo sobre o espaço de Hilbert da teoria contendo os estados físicos
uma função de onda ψ(x, t). Dessa forma, temos propriamente ditos constituídos por combinações linea-
res das correspondentes partículas – os quanta associados
p2 ∂ ~ 2 aos campos. Isso no caso mais simples de uma teoria
Eψ(x, t) = ψ(x, t) −→ i ψ(x, t) = − ∇ ψ(x, t) livre, ainda sem interações.
2m ∂t 2m
(73)
que nada mais é do que a (15) com V (x) = 0. Buscando
uma generalização relativística, ao invés de (32), utili-
Referências
zando agora a relação relativística (33) e denominando
[1] R.P. Feynman,The Principle of Least Action in Quan-
a função de onda por φ(x, t), obtemos tum Mechanics. Tese de Doutorado, Princeton Univer-
sity, Princeton (1942).
1 ∂2φ 2 m2 c2 [2] R.P. Feynman e A.R. Gibbs, Quantum Mechanics and
− ∇ φ + φ=0 (74)
c2 ∂t2 ~2 Path Integrals (Dover, New York, 2010).
[3] R. Koberle, Rev. Bras. Ens. Fis. 43, e20210170 (2021).
que é justamente a conhecida equação de Klein-
[4] A.K. Das, World Sci. Lect. Notes Phys. 52, 1 (2006).
Gordon ou, mais precisamente, equação de Klein-
[5] S.S. Schweber, QED and the men who made it: Dyson,
Gordon-Fock [40–42]. Utilizando o sistema de unidades
Feynman, Schwinger, and Tomonaga (Princeton Univer-
naturais no qual c = ~ = 1 e a notação indicial relati- sity Press, Princeton, 1994).
vística, a equação (74) acima corresponde exatamente à [6] M.E. Peskin e D.V. Schroeder, An Introduction to Quan-
(34) que foi utilizada na seção 3 e que pode ser também tum Field Theory (Addison-Wesley, Reading, 2005).
obtida a partir do princípio variacional da mínima ação [7] S. Weinberg, The Quantum Theory of Fields. Vol. 1:
aplicado à densidade lagrangiana (63) apresentada na Foundations (Cambridge University Press, Cambridge,
seção 4. 2005), v. 1.
Inicialmente, de um ponto de vista histórico, a equa- [8] M. Maggiore, A Modern Introduction to Quantum Field
ção de Klein-Gordon-Fock foi proposta para descrever Theory (Oxford University Press, Oxford, 2005).
elétrons relativísticos. Contudo ocorre que, devido a seu [9] M. Srednicki, Quantum Field Theory (Cambridge Uni-
spin não-nulo, elétrons possuem um grau de liberdade versity Press, Cambridge, 2007).
interno e são regidos de fato pela equação de Dirac [43]. [10] A. Das, Lectures on Quantum Field Theory (World
A ideia inicial de Dirac era obter uma equação diferencial Scientific, Hackensack, 2008).
parcial de primeira ordem tanto no tempo quanto no [11] F. Mandl e G. Shaw, Quantum Field Theory (Wiley,
espaço, consistente com a relação relativística de energia Chichester, 2010).
(33) e as associações operatoriais (71) e (72). Para isso [12] M.O.C. Gomes, Teoria Quântica dos Campos (Edusp,
havia a complicação extra de se extrair uma espécie de São Paulo, 2015), 2 ed.
raíz quadrada operatorial em (33). A solução encontrada
por Dirac foi justamente considerar coeficientes matrici- 11 Por ser uma equação clássica, a rigor a equação de Klein-
ais, de forma que a equação de Dirac contem não apenas Gordon-Fock (74) não contém ~ de forma imperiosa podendo
uma função de onda como incógnita, mas uma matriz ser escrita digamos como c−2 ∂t2 − ∇2 φ + µ2 φ = 0 onde µ
coluna conhecida como spinor, o que apresenta ainda a denota um parâmetro com dimensão de inverso de comprimento.
A interpretação µ = mc/~ surge então após o processo de
vantagem de dar conta do mencionado grau de liberdade quantização. Já a presença explícita da constante universal c é de
interno de spin. Para ver e entender essa questão com fato necessária uma vez que (74) é relativística por ser invariante
propriedade e mais detalhes, recomendamos ao leitor um frente a TL.

Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 44, e20220029, 2022 DOI: [Link]
Thibes e20220029-13

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