BackStory
De
Edrik Halven
Vhal Eryndor
Player:
Emanuel Flávio
Mesa:
Ecos da Chama Ancestral
Mestre:
Yunno
Sistema:
D&D 5.5e (Dungeons & Dragons 5.5e)
O Homem que Aprendeu a Amar a Cinza
A aldeia se chamava Ribeiro das Amendoeiras, escondida entre colinas baixas e trilhas
de mercadores que raramente paravam por mais de uma noite. Ali, o mundo era simples:
pão duro, mãos calejadas, rezas pequenas. E foi nesse lugar que nasceu Edrik Halven.
Edrik veio ao mundo num inverno de vento cruel, filho de Maera Halven (lavadeira) e
Tomas Halven (lenhador), gente que sorria mesmo quando a fome fazia barulho dentro
do estômago. Desde cedo, ele aprendeu que o destino, para os pobres, costuma vir em
duas formas: resignação… ou teimosia.
Figura 2 Maera Halven Ele escolheu a teimosia.
Edrik não era forte como os rapazes que carregavam
troncos, nem rápido como os que corriam nos campos.
Mas tinha olhos que não descansavam e uma curiosidade
que roía a mente como rato em celeiro. Qualquer pedaço de
metal estranho, qualquer moeda antiga, qualquer história de
ruínas além do rio, fazia o coração dele bater com uma
alegria secreta.
Figura 1 Tomas Halven
Estrofe I
“Na lama das trilhas, ele achava sinais,
migalhas de eras, promessas mortais.
Enquanto o povo pedia por pão,
Edrik pedia… por revelação.”
Os Primeiros Sonhos e a Fome por “Mais”
Na adolescência, Edrik juntou amizade com dois rostos que marcaram sua
vida: Joren Varr (um rapaz de riso fácil, que sonhava ser guarda da estrada)
e Selma Lior (filha de um herbalista, afiada como
faca e gentil quando queria). Eles eram o trio que se
metia em problemas “pequenos” e voltava para casa
rindo, cheios de poeira e história.
Edrik começou a fazer pequenos “serviços” para
viajantes: traduzia inscrições simples, desenhava
Figura 4 Joren Varr mapas de trilhas, identificava bugigangas que outros
chamavam de lixo. O pagamento era pouco, mas era um portal:
cada moeda era uma prova de que o mundo não terminava nos Figura 3 Selma Lior
limites da aldeia.
Quando fez 19 anos, conheceu Lysa Renn, uma costureira de mãos rápidas e olhos
firmes. Lysa não se apaixonou pela ambição dele, mas pela honestidade brutal quando
ele dizia: “Eu quero mais do que nascer, trabalhar e morrer aqui”. Ela não o puxou de
volta para o chão. Ela o ajudou a mirar mais alto.
A vida então fez o que a vida adora fazer: deu um pouco de paz, como se isso fosse
eterno.
Aos 22, Edrik e Lysa se casaram. Aos 24, nasceu o
filho deles, Cael Halven, com um choro forte demais
para um bebê tão pequeno, como se reclamasse do
mundo desde o primeiro fôlego.
Figura 5 Cael Halven
Figura 6 Lysa Renn
Edrik jurou que Cael nunca teria a vida apertada que ele teve.
E esse juramento… foi o primeiro tijolo do abismo.
Estrofe II
“Promessas viram grilhões quando o medo as segura:
‘Meu filho não passará fome’, diz a alma pura.
Mas quando a fome muda de nome e vira desejo,
até a virtude se ajoelha… sem perceber o ensejo.”
O Tomo Antigo e o Nome que Não Deveria Ser
Lido
Foi no ano em que completou 25 que Edrik
encontrou aquilo que mudaria tudo.
Um velho mercador, Hadrun Cavil, chegou à aldeia
carregando caixas e superstição. Dizia ter comprado
objetos “de uma fortaleza afundada no pântano” e queria
vender rápido, como quem quer esquecer o caminho de volta.
Edrik viu, entre panos e ferrugem, um volume de couro
ressequido, com fechos de metal escurecido.
O mercador tentou parecer indiferente.
Mas seus dedos tremiam Figura 7 Hadrun Cavil quando tocavam o livro.
Edrik comprou o tomo com quase tudo que tinha e ainda
prometeu um favor futuro. Lysa brigou. Joren riu e disse que era só “mais uma mania”.
Selma, ao ver o couro do livro, apenas falou:
“Isso não tem cheiro de coisa velha. Tem cheiro de coisa… viva.”
Naquela noite, com a casa em silêncio e o filho dormindo, Edrik abriu o volume. E as
palavras pareciam antigas, mas não frágeis. Elas eram pesadas. Como se o papel
lembrasse de cada pessoa que o leu.
Ali, ele leu:
Crônicas do Olho Carmesim.
E as frases bateram no peito dele com a força de um presságio.
“Quando o céu foi tingido de rubro e os ventos cessaram seu canto…”
Edrik não apenas leu.
Ele sentiu o texto ler ele de volta.
Nas margens, havia símbolos queimados, como se alguém tivesse escrito com calor, e
não com tinta. E em certas páginas, pequenas manchas escuras lembravam cinza, não
mofo.
Conforme avançava, um nome aparecia em fragmentos, como se estivesse escondido
por medo do que causaria quando inteiro:
Vael… thar… ion.
Edrik repetiu em voz baixa, como uma criança testando uma palavra proibida.
Vaeltharion.
A vela tremulou. O ar ficou mais seco. E, por um segundo, ele jurou que viu, refletido
na janela, um olho carmesim observando por trás dele.
Estrofe III
“Há nomes que são portas.
Há nomes que são garras.
Quem lê um nome desses
nunca mais fecha as asas.”
A Maneira de Chamar Atenção de Algo que
Não Dorme
O tomo não tinha só história. Ele tinha instruções disfarçadas de mito.
Edrik percebeu um padrão: sempre que as crônicas falavam de “equilíbrio”, apareciam
três elementos em sequência:
1. Cinza de lar (algo que já foi casa)
2. Sangue de promessa (algo querido, não só derramado)
3. Fogo sem chama (calor sem luz, como brasa enterrada)
Ele começou… pequeno. Roubava cinza da forja do ferreiro. Cortou o próprio dedo e
pingou sangue sobre símbolos. Enterrou carvão em círculos sob a terra, esperando
“calor sem chama”.
Nada.
Então ele fez o que todo ambicioso faz quando o universo não responde: aumentou a
aposta.
Foi até as ruínas de um antigo santuário fora da aldeia, conhecido como Capela de
Sereluz, um lugar onde velho jurava ouvir sino tocar em noite sem vento. E lá, sob
pedras com inscrições gastas, Edrik achou uma bacia de metal negro, marcada por
ranhuras que lembravam unhas.
No fundo, uma frase quase apagada:
“O coração da chama não quer louvor. Quer prova.”
Edrik entendeu.
Não era um ritual para “invocar”.
Era um ritual para ser notado.
De volta para casa, ele não contou a ninguém. Guardou segredos como quem guarda
veneno em frasco de perfume. Passou a sonhar com uma fogueira gigantesca no meio
do mar, e dentro dela um trono de carvão ardendo sem luz.
E toda vez que acordava, seu coração batia num ritmo que não era dele.
Até que, numa madrugada, o filho chorou e Edrik, exausto, abriu o tomo de novo. E
uma página que antes estava em branco agora tinha uma única linha nova, escrita como
queimadura:
“Traga-me uma verdade irreparável.”
Estrofe IV
“Nem todo pacto começa com sangue.
Alguns começam com silêncio.
E o silêncio, quando cresce,
vira sentença sem remédio.”
O Primeiro Contato: Vaeltharion, o Coração da
Primeira Chama
Na noite seguinte, ele fez o ritual completo, no lugar mais “seguro” que conhecia: o
velho celeiro abandonado fora da aldeia, onde ninguém ia. Espalhou cinzas do próprio
lar, misturadas com pedaços de brinquedo quebrado do filho (um gesto que parece
pequeno, mas tem um gosto de traição). Pingou sangue na bacia negra. E enterrou brasa
viva sob o círculo, abafando a luz, deixando só o calor.
O ar ficou pesado.
E então veio a voz.
Não como som.
Como pensamento que se impõe.
“Você quer mais do que a sua vida pode comprar.”
Edrik, tremendo, respondeu mentalmente:
“Sim.”
“Então pague.”
Ele viu o Olho Carmesim. Imenso. Não no céu. Não no chão. Em tudo. Como se o
mundo tivesse virado pupila e ele estivesse dentro.
E foi nesse instante que Edrik sentiu a coisa mais perigosa do universo:
Ser escolhido.
Vaeltharion não se apresentou como deus bondoso nem demônio berrante. Ele era…
antigo. Calmo. E terrível de tão certo.
“Eu fui a Primeira Chama. Antes do primeiro medo, antes do primeiro orgulho. E
eu quero voltar ao mundo inteiro. Não em brasas pequenas. Mas em julgamento.”
Edrik queria perguntar se isso era “bem” ou “mal”.
Mas Vaeltharion respondeu antes da pergunta existir:
“Equilíbrio.”
O pacto se formou como ferro em forja: quente, inevitável, marcando a carne mesmo
sem tocar nela.
Quando Edrik abriu os olhos, percebeu que suas mãos estavam sujas de fuligem… e
que, por baixo das unhas, havia um vermelho carmesim, como brasa viva.
A partir daquela noite, ele não era só um homem curioso.
Ele era um bruxo.
A Aldeia Queimada e o Nascimento de um
Nome Novo
Vaeltharion não pediu logo a tragédia. Ele preparou o terreno.
Dias depois, Edrik começou a receber “sinais”: uma vela apagando no momento exato
em que Lysa sorria, o leite azedando quando Cael gargalhava, um pássaro morto na
soleira da porta. O patrono estava ensinando a lição mais cruel:
tudo que ele amava era frágil.
E então veio a exigência, clara como lâmina:
“Você quer saber mais? Faça do seu mundo um altar.”
Edrik hesitou. Uma vez. Uma única vez.
E nessa hesitação, ele sentiu o ciúme nascer como veneno: a ideia de que Vaeltharion
podia escolher outro. Que o Olho Carmesim poderia olhar por cima do ombro dele e
achar alguém “mais digno”.
Aquele pensamento apodreceu suas virtudes.
Na noite do incêndio, ele foi de casa em casa, “ajudando” a acender lamparinas.
Sorrindo. Conversando. O tipo de normalidade que só existe antes do fim.
Quando o fogo começou, ele não gritou.
Ele observou.
As chamas subiram e o céu se pintou do rubro descrito nas crônicas, como se o tomo
estivesse escrevendo o mundo em tempo real.
Joren correu para salvar gente e morreu soterrado quando um telhado caiu. Selma tentou
entender “qual feitiço” era aquele e encontrou Edrik com olhos carmesim, parado
demais para ser inocente. Ela não teve tempo de acusar. Só de compreender.
Lysa, com Cael nos braços, encontrou o marido na rua principal, cercado por calor
distorcido, como miragem.
Ela não pediu explicação.
Ela só perguntou, com voz que cortava:
“Por quê?”
Edrik respondeu algo que ele mesmo não reconheceu como frase humana:
“Porque isso é necessário.”
O fogo levou tudo.
E quando amanheceu, só restavam pedras fumegantes e gente chorando em silêncio,
como se o som tivesse vergonha de existir.
Edrik caminhou até a ponte do rio e deixou cair o anel de casamento na água. Não como
arrependimento.
Como oferenda.
Ali, ele matou o próprio nome.
Edrik Halven morreu sem funeral.
No lugar dele, nasceu Vhal Eryndor.
Um nome que ele escolheu por soar como cinza e vento, e por não pertencer a ninguém
além do patrono.
Estrofe V
“A aldeia virou memória,
memória virou carvão.
E o homem virou promessa
sem perdão, sem coração.”
O Bruxo Ciumento: O Amor Como Corrente
Depois do incêndio, Vaeltharion falou pouco. E isso foi a pior parte.
Porque Vhal Eryndor (o antigo Edrik) passou a viver para preencher o silêncio do
patrono. Ele buscava sinais em toda parte: na forma da fumaça, no estalo de uma
fogueira, no vermelho de um pôr do sol.
E toda vez que via um culto, um sacerdote, um mago, alguém com “fé”, ele sentia a
mesma coisa:
ciúme.
Não era inveja do poder deles.
Era raiva de ver alguém oferecendo devoção a qualquer coisa que não fosse
Vaeltharion.
Vhal passou a colecionar relíquias e segredos como quem coleciona provas de amor.
Cada artefato era uma carta que ele tentava escrever ao patrono:
“Olha o que eu fiz por você. Olha como eu sou seu.”
E no fundo, ele temia que Vaeltharion o considerasse substituível.
Vhal não queria ser apenas um servo.
Ele queria ser o escolhido.
O único.
O favorito.
Estrofe VI
“O ciúme não pede permissão.
Ele se ajoelha e chama de oração.
E quem ama um deus antigo demais
vira sombra… de coisas infernais.”
A Missão: Libertar o Coração da Primeira
Chama
Com o tempo, Vhal descobriu a verdade por trás do mito: Vaeltharion não estava
“morto” nem “adormecido”.
Ele estava contido.
Vhal entendeu o que precisava fazer. Viajar. Mentir. Matar se necessário. Roubar
relíquias. Enganar heróis. Se infiltrar em templos. Revirar catacumbas. Encontrar as
chaves. E em cada ato, ele sentiria Vaeltharion mais perto. Mais quente. Mais dono.
E quando o patrono finalmente andasse livre, o mundo conheceria o julgamento.
E Vhal? Vhal seria recompensado.
Ou consumido. E ele aceitaria qualquer um dos dois finais, contanto que fosse
Vaeltharion quem decidisse.
Linha Cronológica
0 anos: Nascimento de Edrik Halven em Ribeiro das Amendoeiras.
12 anos: Mostra talento raro para símbolos antigos e curiosidade por ruínas.
16 anos: Amizade forte com Joren Varr e Selma Lior. Começa a “caçar
relíquias” pequenas.
19 anos: Conhece Lysa Renn.
22 anos: Casa-se com Lysa.
24 anos: Nasce o filho Cael Halven.
25 anos (início): Compra o tomo Crônicas do Olho Carmesim do mercador
Hadrun Cavil.
25 anos (meio): Descobre o padrão do ritual e encontra a bacia negra na Capela
de Sereluz.
25 anos (fim): Realiza o ritual, é notado por Vaeltharion, O Coração da
Primeira Chama, e firma o pacto.
25 anos (logo após): Incêndio de Ribeiro das Amendoeiras. Morte de amigos e
família.
25 anos (dias depois): Abandona o nome, torna-se Vhal Eryndor.
Agora (nível 1): Vhal inicia a jornada para encontrar as três chaves do Cadeado
Primordial e libertar Vaeltharion.