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ἳ Primavera Não Anunciada II
Capítulo 1 — Quando a Casa Ainda É Estranha
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O apartamento ainda cheirava a novo.
Não exatamente novo — havia poeira, caixas abertas, móveis simples demais —
mas era um cheiro diferente do da casa antiga, diferente do da escola, diferente de
qualquer lugar onde Jiyeon já tivesse ficado por muito tempo.
Ela estava sentada no chão da sala, encostada na parede, observando o espaço
como quem tenta memorizar algo importante antes que mude.
Duas xícaras na pia.
Sapatos que não eram só dela perto da porta.
Uma mochila jogada no sofá.
Aquilo não era provisório.
Ela respirou fundo.
Morar junto parecia uma decisão lógica quando foi dita em voz alta. Faculdade na
mesma cidade, aluguel dividido, rotina compartilhada. Mas agora, ali dentro, Jiyeon
sentia o peso real da escolha.
Não era medo de Ayame.
Era medo de ficar.
— Jiyeon? — a voz veio do quarto. — Você viu onde eu coloquei a panela?
Jiyeon se levantou.
— Caixa da cozinha. A que tem uma fita azul.
— Ah! Claro. Faz sentido — Ayame respondeu, rindo sozinha.
Jiyeon caminhou devagar até o corredor. O som da voz de Ayame ecoando no
apartamento ainda soava estranho — não ruim, apenas novo demais.
Ela parou na porta do quarto.
Ayame estava sentada no chão, cercada por caixas abertas, o cabelo preso de
qualquer jeito, usando uma camiseta larga demais. Parecia completamente à
vontade, como se já tivesse vivido ali a vida inteira.
— Você tá quieta — Ayame comentou, sem olhar. — Cansada?
Jiyeon hesitou.
— Pensando.
Ayame levantou o rosto, atenta imediatamente.
— Pensando em coisa ruim?
Jiyeon pensou por um segundo.
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— Pensando em como tudo mudou rápido.
Ayame sorriu pequeno, sem brincadeira dessa vez.
— Mudou… mas a gente escolheu isso, né?
Jiyeon assentiu.
Ayame se levantou e caminhou até ela, com cuidado, como se não quisesse quebrar
aquele momento. Parou perto o suficiente para dividir o mesmo espaço, mas não
tocou.
— Se ficar pesado demais — disse — você me fala. Eu não quero que isso vire um
lugar onde você se sente presa.
Jiyeon sentiu o peito apertar.
Ela estendeu a mão, tocando o pulso de Ayame, firme.
— Eu não me sinto presa — disse. — Só… responsável.
Ayame riu baixinho.
— Bem-vinda à vida adulta.
Jiyeon quase sorriu.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
À noite, Ayame estava deitada no colchão ainda sem lençol, olhando para o teto
desconhecido.
O apartamento fazia barulhos estranhos. O tipo de som que só casas novas fazem.
Canos. Passos de vizinhos. Um mundo que continuava existindo mesmo quando
elas estavam quietas.
Ela virou o rosto.
Jiyeon estava deitada ao lado, de costas, respirando devagar.
Ayame pensou em tudo que tinham atravessado para chegar ali: a escola, os
silêncios, as mãos dadas tímidas, o beijo contido. Agora, dividiam um teto.
— Jiyeon — chamou, em voz baixa.
— Hm?
— Você tá com medo?
Houve uma pausa.
— Um pouco.
Ayame se virou de lado.
— Eu também.
Jiyeon virou o rosto para encará-la.
— Mesmo assim… — Ayame continuou — eu fico feliz. Tipo… muito feliz.
Jiyeon observou o rosto dela no escuro.
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— Eu também — respondeu. — Só não sei demonstrar do seu jeito.
Ayame sorriu.
— Tudo bem. Eu aprendi a entender o seu.
Ela estendeu a mão por baixo do cobertor improvisado. Jiyeon segurou de volta sem
hesitar.
Ali, no primeiro dia de uma vida nova, nenhuma das duas tinha certeza de nada.
Mas tinham uma à outra.
E, por enquanto, isso bastava.
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Capítulo 2 — A Primeira Manhã Que Não É Provisória
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame acordou antes do despertador.
Isso, por si só, já era estranho.
O quarto ainda estava meio escuro, a cortina fina deixando entrar apenas uma faixa
pálida de luz. O colchão no chão rangia um pouco quando ela se mexia, e o silêncio
do apartamento parecia maior do que o silêncio da casa dos pais dela jamais foi.
Ela ficou parada por alguns segundos, tentando entender onde estava.
Então lembrou.
O apartamento.
A faculdade.
Jiyeon.
Virou o rosto devagar.
Jiyeon dormia de lado, voltada para ela, o rosto relaxado de um jeito raro, o cabelo
espalhado no travesseiro improvisado. Sem a postura rígida de sempre, sem o olhar
atento. Apenas ali.
Ayame sentiu o peito aquecer.
— A gente mora junto… — murmurou, quase sem som, como se dizer em voz alta
pudesse quebrar algo.
Ela não tocou Jiyeon. Ainda não. Ficou observando, respeitando aquele espaço
silencioso que Jiyeon sempre precisou para existir.
Mas havia algo diferente agora: aquele silêncio não afastava. Ele acolhia.
Ayame se levantou com cuidado, vestiu um moletom e saiu do quarto, fechando a
porta sem barulho.
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
Jiyeon acordou com o som de algo queimando.
Não era exatamente fogo — era mais um cheiro forte, seco, invadindo o quarto
devagar. Ela abriu os olhos imediatamente, alerta, o corpo reagindo antes da mente.
Sentou-se rápido.
— Ayame?
Nenhuma resposta.
O cheiro vinha da cozinha.
Jiyeon caminhou até lá e encontrou Ayame parada diante do fogão, encarando uma
frigideira como se ela tivesse cometido um crime pessoal.
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— O que aconteceu? — Jiyeon perguntou.
Ayame se virou, um pouco culpada, um pouco divertida.
— Eu acho que… matei o pão.
Jiyeon olhou para a frigideira. O pão estava escuro demais para qualquer definição
otimista.
— Você virou ele? — Jiyeon perguntou.
— Eu me distraí — Ayame respondeu. — Fiquei pensando que essa é a nossa
primeira manhã oficial.
Jiyeon pegou a frigideira com calma, desligou o fogo e abriu a janela.
— A primeira manhã não precisa ser perfeita.
Ayame encostou no balcão, observando Jiyeon se mover pela cozinha como se
aquele espaço já tivesse sido dela antes. Cada gesto era preciso, silencioso, quase
cuidadoso demais.
— Você sempre fica calma assim? — Ayame perguntou.
— Não — Jiyeon respondeu. — Eu só fico funcional.
Ayame riu.
— Isso explica muita coisa.
Jiyeon colocou água para ferver, separou duas canecas diferentes — uma lascada,
outra simples demais — e preparou café sem dizer nada. Quando entregou a caneca
para Ayame, os dedos se tocaram de leve.
Ayame não afastou a mão.
Jiyeon também não.
(Ponto de vista alternado)
Elas tomaram café sentadas no chão da sala, encostadas no sofá ainda sem lugar
fixo. A luz da manhã entrava torta pela janela, iluminando partículas de poeira que
pareciam dançar no ar.
— Hoje a gente começa de verdade — Ayame disse.
— Aula às oito — Jiyeon respondeu.
— Você tá animada?
Jiyeon pensou.
— Eu estou… disposta.
Ayame inclinou a cabeça, analisando-a.
— Isso é o seu jeito de dizer “sim”, né?
— É.
Ayame sorriu satisfeita.
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Depois de um tempo em silêncio confortável, Ayame falou de novo:
— A gente devia estabelecer regras.
Jiyeon franziu a testa.
— Regras?
— Tipo… quem lava a louça. Quem acorda primeiro. Quem invade o espaço de
quem quando tá triste.
Jiyeon olhou para ela.
— Você invade.
— Óbvio.
— Então não precisamos decidir isso.
Ayame riu alto.
Jiyeon desviou o olhar, mas havia algo diferente ali — uma leveza discreta, quase
imperceptível, mas real.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Antes de saírem, Ayame parou na porta.
— Espera.
Jiyeon virou.
Ayame se aproximou e ajeitou o colar dela com cuidado, os dedos demorando um
segundo a mais do que o necessário.
— Agora sim — disse.
— O quê? — Jiyeon perguntou.
— Agora parece real.
Jiyeon não respondeu. Apenas segurou o pulso de Ayame por um instante, firme.
— É real — disse. — Só é silencioso.
Ayame sorriu.
— Eu gosto assim também.
Elas saíram juntas.
O corredor do prédio ainda era desconhecido. A rua ainda parecia grande demais. O
futuro ainda não tinha forma.
Mas, naquela manhã comum, com café queimado e horários anotados às pressas,
Jiyeon e Ayame deram seus primeiros passos na vida adulta lado a lado.
Sem anúncio.
Sem promessa exagerada.
Como a primavera.
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Capítulo 3 — Lugares Onde Ainda Não Sabemos Ficar
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O campus era grande demais.
Jiyeon percebeu isso assim que atravessou o portão principal. Havia pessoas em
todos os lugares — grupos sentados na grama, filas em frente às cafeterias, vozes
misturadas em risadas que pareciam não ter fim. Era um tipo de barulho diferente do
da escola: menos controlado, mais solto, como se ninguém estivesse exatamente
onde deveria estar.
Ela caminhava ao lado de Ayame, mantendo o mesmo ritmo, mesmo quando a
vontade era desacelerar.
Ayame parecia… à vontade demais.
— Olha aquilo! — Ayame apontou para um mural cheio de cartazes coloridos. —
Clubes, projetos, viagens… isso tudo existe de verdade?
Jiyeon observou em silêncio.
— Existe — respondeu. — Não significa que precisamos entrar em tudo.
Ayame riu.
— Você fala como se já estivesse cansada.
— Eu estou — Jiyeon disse, sem ironia.
Ayame lançou um olhar rápido para ela, não julgando, apenas anotando
mentalmente.
Elas seguiram até o prédio das aulas iniciais. O corredor era amplo, as paredes
claras demais, quase impessoais. Jiyeon sentiu uma familiar sensação de
deslocamento — como se estivesse entrando num lugar que exigia algo dela que ela
ainda não sabia oferecer.
Quando sentaram na sala, Jiyeon escolheu um lugar mais ao fundo. Ayame,
naturalmente, sentou ao lado dela, cruzando as pernas e apoiando o queixo na mão.
— Nervosa? — Ayame sussurrou.
— Atenta — Jiyeon corrigiu.
Ayame sorriu de canto.
— Você sempre encontra palavras melhores.
Jiyeon não respondeu, mas sentiu um pequeno calor no peito.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame gostava daquele lugar.
Gostava do movimento, das possibilidades, do fato de ninguém ali conhecer sua
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versão antiga. Ela podia ser quem quisesse — mais solta, mais barulhenta, mais
confiante. Ou pelo menos fingir bem.
Mas, mesmo cercada de novidades, seus olhos voltavam sempre para Jiyeon.
Jiyeon estava sentada com postura reta, mãos entrelaçadas no colo, olhar atento ao
professor. Parecia deslocada, mas não frágil. Era como se estivesse observando
tudo de fora, avaliando onde — e se — deveria se encaixar.
Durante o intervalo, uma garota do curso se aproximou.
— Vocês são do primeiro ano também? — perguntou, sorrindo.
— Somos! — Ayame respondeu antes de Jiyeon. — Eu sou a Ayame.
— Eu sou a Lina.
Jiyeon apenas assentiu.
— E você? — Lina perguntou, olhando para Jiyeon.
— Jiyeon.
Curto. Simples.
Lina sorriu educadamente, mas Ayame percebeu o leve estranhamento. Jiyeon não
fazia esforço para parecer acessível — e isso, às vezes, criava uma distância
involuntária.
— A gente tava pensando em almoçar junto — Lina disse. — Querem ir?
Ayame hesitou. Olhou para Jiyeon.
Jiyeon ficou em silêncio por um segundo longo demais.
— Talvez outro dia — respondeu. — Hoje não.
Ayame sentiu o ar mudar.
— Ah… claro — Lina respondeu, um pouco sem jeito. — Fica pra próxima então.
Quando a garota se afastou, Ayame virou-se para Jiyeon.
— Você tá bem?
— Estou — Jiyeon respondeu. — Só não quero começar me forçando.
Ayame assentiu devagar.
— Tá tudo bem. Eu só… — ela hesitou — …não quero que você se sinta sozinha
aqui.
Jiyeon a encarou.
— Eu não estou sozinha. Você está aqui.
Ayame sorriu, mas havia algo mais por trás daquele sorriso — uma preocupação
pequena, silenciosa, que ela guardou para depois.
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O resto do dia passou como uma sequência de informações demais. Nomes.
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Horários. Regras implícitas. Expectativas.
Quando finalmente saíram do campus, Jiyeon sentia o corpo pesado.
O caminho de volta ao apartamento foi feito em silêncio. Não um silêncio
desconfortável — um silêncio cansado.
Dentro de casa, Jiyeon largou a mochila perto da porta e foi direto para a cozinha.
Abriu a geladeira, observou o pouco que havia ali, e fechou de novo.
— Eu vou tomar banho — disse.
Ayame assentiu.
— Eu faço alguma coisa pra gente comer.
Jiyeon parou por um instante.
— Você não precisa.
Ayame sorriu.
— Eu quero.
No banho, Jiyeon deixou a água quente cair sobre os ombros, tentando organizar a
mente. A faculdade não era difícil — ainda não. O difícil era o entre. Entre pessoas,
expectativas, versões de si mesma.
Quando saiu do quarto, já de moletom, encontrou Ayame sentada no chão da sala,
com dois pratos simples apoiados numa caixa que servia de mesa.
— Não é nada incrível — Ayame disse. — Mas é comestível.
Jiyeon sentou ao lado dela.
— Obrigada.
Comeram devagar. Ayame falou sobre pessoas que conheceu, sobre possibilidades,
sobre coisas que queria tentar. Jiyeon ouviu, atenta, mesmo quando não comentava.
Em certo momento, Ayame parou de falar.
— Você tá distante.
Jiyeon respirou fundo.
— Eu só estou tentando entender onde eu fico agora.
Ayame encostou a cabeça no ombro dela.
— Você fica comigo — disse. — O resto a gente descobre.
Jiyeon fechou os olhos por um segundo.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Naquela noite, Ayame demorou a dormir.
Jiyeon já estava deitada, respirando fundo, exausta. Ayame observava o teto,
pensando no dia, na faculdade, nas versões de si mesma que começavam a surgir.
Morar juntas não significava pensar igual.
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Amar não significava sentir no mesmo ritmo.
Ela se virou para Jiyeon, com cuidado.
— A gente vai errar bastante, né? — murmurou.
Jiyeon abriu os olhos.
— Provavelmente.
— Mesmo assim… — Ayame sorriu no escuro — …eu quero continuar.
Jiyeon estendeu a mão, entrelaçando os dedos aos dela.
— Eu também.
Do lado de fora, a cidade seguia viva, barulhenta, exigente.
Mas ali, naquele apartamento pequeno, entre incertezas e escolhas que ainda não
tinham nome, Jiyeon e Ayame aprendiam, pouco a pouco, onde ficar.
Juntas.
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Capítulo 4 — Coisas Que Começam a Pesar
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
Jiyeon percebeu que algo estava errado pela forma como o silêncio se estendia.
Não era o silêncio confortável de antes. Não era aquele que repousava entre elas
como um cobertor leve. Era um silêncio que ficava grande demais dentro do
apartamento, ocupando espaços que antes pertenciam a gestos simples.
Ayame falava menos naquela manhã.
Não deixou de sorrir — isso ela quase nunca deixava —, mas o sorriso vinha
atrasado, como se precisasse ser lembrado. Jiyeon notou enquanto organizava os
livros na mochila, os movimentos mais rápidos do que o necessário.
— Você tem aula até mais tarde hoje — Jiyeon comentou.
— Tenho — Ayame respondeu. — Trabalho em grupo.
Jiyeon assentiu.
— Eu volto antes.
Era uma informação simples. Uma atualização de rotina. Mesmo assim, algo pareceu
incompleto quando foi dito.
Ayame ficou parada perto da porta, como se quisesse dizer mais alguma coisa.
Jiyeon percebeu — sempre percebia — mas não sabia como abrir espaço sem
forçar.
— Boa aula — Jiyeon disse.
— Boa aula — Ayame respondeu.
A porta se fechou com um som seco demais.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame caminhou até o campus com passos rápidos, tentando não pensar.
Não era algo grande. Não havia briga. Não havia palavras duras. Mas havia uma
sensação incômoda de desencontro — como duas músicas tocando no mesmo
ambiente, mas em tons diferentes.
Durante a aula, ela se pegou olhando o celular mais vezes do que o normal.
Nenhuma mensagem.
No trabalho em grupo, riu quando esperado, contribuiu, falou. As pessoas gostavam
dela. Sempre gostaram. Mas, pela primeira vez, aquilo não preenchia tudo.
— Você mora com alguém? — perguntou uma colega.
— Moro — Ayame respondeu. — Com minha namorada.
A palavra ainda soava nova. Namorada. Ela gostava disso. Gostava muito.
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— Deve ser legal — a garota comentou.
Ayame sorriu, mas sentiu um aperto estranho.
— É — respondeu. — Só… diferente.
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O apartamento estava silencioso quando Jiyeon voltou.
Ela deixou a mochila no chão, tirou o casaco e ficou parada por um instante, olhando
ao redor. Havia um copo esquecido na pia. Um bilhete rabiscado preso à geladeira
com um ímã torto.
Volto mais tarde. Não me espera acordada.
Jiyeon leu duas vezes.
Não havia nada de errado na frase. Mesmo assim, ela sentiu algo se mover dentro
do peito — uma insegurança discreta, quase ofensiva de tão sutil.
Ela fez o jantar sozinha, comeu pouco, lavou a louça com cuidado excessivo. Depois,
sentou no sofá, livro aberto, mente fechada.
Quando Ayame chegou, já era noite.
— Oi — Ayame disse, entrando.
— Oi — Jiyeon respondeu.
Houve um intervalo pequeno demais para ser natural.
— Seu dia foi bom? — Ayame perguntou.
— Foi — Jiyeon disse. — E o seu?
— Cansativo.
Ayame largou a bolsa no chão e se sentou no outro canto do sofá. Distância
pequena. Suficiente para ser notada.
Jiyeon fechou o livro.
— Você parece distante.
Ayame respirou fundo.
— Eu pensei que você não perceberia.
Jiyeon virou o corpo um pouco mais na direção dela.
— Eu sempre percebo.
(Ponto de vista alternado)
Ayame ficou em silêncio por alguns segundos, escolhendo as palavras.
— Eu sei que você precisa do seu espaço — começou. — Eu sei que você funciona
melhor assim. Mas… às vezes eu não sei onde eu fico.
Jiyeon franziu a testa, confusa.
— Você fica aqui.
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— Eu sei — Ayame respondeu rápido. — Mas eu não quero ser só… alguém que
ocupa o mesmo lugar físico.
A frase caiu entre elas com peso.
Jiyeon demorou a responder.
— Eu não sei demonstrar do jeito que você espera — disse por fim. — Não é falta de
sentimento.
Ayame assentiu.
— Eu sei. Mas às vezes eu preciso ouvir. Ou ver. Ou sentir que eu não estou te
atrapalhando.
Jiyeon sentiu o peito apertar.
— Você nunca atrapalha.
— Mas você nunca diz isso.
O silêncio voltou. Diferente. Necessário.
Jiyeon se aproximou, devagar, como se cada passo precisasse de permissão.
— Eu aprendi a gostar ficando — disse. — Ficando perto. Mesmo quieta. Isso… isso
é amor pra mim.
Ayame olhou para ela, olhos brilhando de algo contido.
— Pra mim também — disse. — Eu só tenho medo de falar demais e te afastar.
Jiyeon estendeu a mão, tocando o rosto dela com cuidado, gesto raro, quase solene.
— E eu tenho medo de falar de menos e te perder.
Ayame riu fraco, emocionada.
— Olha só — murmurou. — Duas pessoas morando juntas e ainda aprendendo a se
traduzir.
Jiyeon inclinou a testa até encostar na dela.
— A gente aprende — disse. — Se continuar tentando.
Ayame fechou os olhos por um instante.
— Então fica comigo. Mesmo quando não souber o que dizer.
— Eu fico — Jiyeon respondeu. — Sempre.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Naquela noite, elas dividiram o sofá pequeno, pernas entrelaçadas, nenhuma
televisão ligada.
Não precisavam de distração.
O conflito não desapareceu completamente — não era assim que as coisas
funcionavam — mas algo importante havia sido dito. Algo tinha peso agora.
Ayame pensou que crescer talvez fosse isso: aprender a nomear medos antes que
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eles criem raízes.
Ela apoiou a cabeça no ombro de Jiyeon, que envolveu seus ombros com o braço,
firme, presente.
O apartamento ainda era pequeno.
A vida ainda era grande demais.
Mas, pouco a pouco, elas estavam aprendendo a caber.
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Capítulo 5 — Lugares Onde a Luz É Diferente
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame nunca soube recusar convites.
Não porque sentisse obrigação — mas porque tinha curiosidade. Pessoas, lugares,
experiências novas sempre pareceram chamá-la pelo nome, como se o mundo
estivesse constantemente oferecendo algo que ela não queria perder.
A festa era numa casa perto do campus. Nada sofisticado. Luzes penduradas de
qualquer jeito, música alta demais, gente demais para um espaço pequeno.
Exatamente o tipo de ambiente onde Ayame conseguia respirar com facilidade.
— Você tem certeza? — perguntou, pela terceira vez, olhando para Jiyeon enquanto
calçava o tênis.
Jiyeon estava sentada na cama, mochila apoiada no chão, encarando o próprio
reflexo no espelho.
— Tenho — respondeu. — Você pode ir.
Ayame mordeu o lábio.
— Eu queria que você fosse comigo.
Jiyeon levantou o olhar.
— Eu sei. Mas… hoje não.
Ayame assentiu, tentando não parecer decepcionada.
— Eu volto cedo — prometeu. — Não vou sumir.
Jiyeon apenas acenou com a cabeça, mas o olhar ficou nela até a porta se fechar.
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O apartamento parecia maior quando Jiyeon estava sozinha.
Ela tentou estudar. Tentou ler. Tentou organizar coisas que não precisavam ser
organizadas. Nada funcionou direito. O silêncio daquela noite não era o mesmo que
costumava ser.
Era cheio de ruídos invisíveis.
Ela sabia que Ayame estava no lugar certo para ela. Sabia que não havia ameaça
real naquele convite. Mesmo assim, sentia algo desconfortável — não ciúme
exatamente, mas uma sensação de deslocamento, como se estivessem andando em
direções ligeiramente diferentes.
É só uma festa, disse a si mesma.
Mesmo assim, checou o celular.
Nada.
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Jiyeon respirou fundo e se sentou no sofá, encarando a janela. As luzes da rua
refletiam no vidro, distantes, indiferentes.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
A festa estava viva.
Música alta, risadas, corpos se movendo sem pensar muito. Ayame cumprimentou
pessoas, foi puxada para conversas, dançou sem perceber o tempo passar.
Mas, mesmo ali, algo estava faltando.
Em um canto mais silencioso, alguém comentou:
— Sua namorada não veio?
— Não — Ayame respondeu. — Ela prefere lugares mais… calmos.
— Entendo — a pessoa disse, mas o olhar era curioso demais.
Ayame sorriu educadamente, mas sentiu um leve incômodo.
Ela não queria que Jiyeon fosse apenas “a que não veio”.
Pegou o celular e digitou:
Tá tudo bem aí?
Demorou alguns minutos até a resposta aparecer.
Tá. Aproveita.
Curto. Típico.
Ayame suspirou e guardou o celular no bolso.
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
Quando a mensagem chegou, Jiyeon leu rápido demais.
Aproveita.
Era sincero. Ela queria que Ayame estivesse feliz. Mesmo assim, sentiu o peso da
palavra — como se estivesse empurrando alguém gentilmente para longe.
Ela se levantou do sofá e foi até a cozinha. Encheu um copo d’água, bebeu devagar.
Pensou em tudo que não dizia.
Pensou em como amar, para ela, sempre foi um exercício silencioso. Pensou se isso
seria suficiente quando o mundo começasse a exigir mais.
O barulho da chave na porta a fez se virar.
(Ponto de vista alternado)
Ayame entrou com cuidado, como se o apartamento estivesse dormindo.
— Oi — disse baixo.
— Oi — Jiyeon respondeu, do sofá.
Ayame largou os tênis perto da porta e se aproximou.
— Eu voltei cedo — disse. — Não estava tão divertido sem você.
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Jiyeon observou o rosto dela, levemente corado, os olhos ainda cheios de luz.
— Você não precisa voltar por minha causa.
Ayame sentou ao lado dela.
— Eu sei. Mas eu quis.
Houve um silêncio pequeno, cheio de coisas não ditas.
— Você ficou chateada? — Ayame perguntou.
Jiyeon demorou.
— Não — respondeu. — Só… pensei demais.
Ayame sorriu fraco.
— Eu também.
Ela encostou a cabeça no ombro de Jiyeon, cansada. Jiyeon passou o braço ao
redor dela, gesto firme, definitivo.
— A gente não precisa gostar das mesmas coisas — Ayame disse. — Só precisa
voltar pro mesmo lugar.
Jiyeon fechou os olhos.
— Esse lugar é aqui — disse.
Ayame sorriu.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Mais tarde, deitadas lado a lado, Ayame pensou que talvez amar na vida adulta
fosse isso: aprender a ir e voltar, sem perder o caminho.
Ela virou o rosto para Jiyeon.
— Mesmo quando eu for barulho… você fica?
Jiyeon abriu os olhos.
— Mesmo quando você for barulho — respondeu. — E mesmo quando eu for
silêncio.
Ayame riu baixinho.
— Combinado então.
Do lado de fora, a música da festa ainda ecoava distante.
Mas ali, naquele quarto simples, Jiyeon e Ayame aprendiam que crescer não era se
afastar — era escolher voltar.
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Capítulo 6 — Dias Que Pedem Pausa
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O corpo avisou antes da mente.
Jiyeon percebeu no terceiro dia seguido acordando com os ombros tensos, no quarto
café tomado sem sentir gosto, na dificuldade em manter o foco durante a aula. Não
era exatamente dor — era desgaste. Um cansaço que se acumulava como poeira
fina, invisível até começar a incomodar.
Ela voltou para casa mais cedo naquele dia.
O céu estava cinza, pesado, e o apartamento parecia acompanhar o clima. Jiyeon
largou a mochila perto da porta e ficou parada por alguns segundos, tentando decidir
o próximo passo.
Pensou em estudar.
Pensou em organizar algo.
Pensou em deitar.
Escolheu deitar.
No quarto, ainda simples demais, se encolheu sob o cobertor, olhando para o teto. O
silêncio ali não era reconfortante — era vazio. Jiyeon fechou os olhos, tentando
ignorar a sensação estranha no peito.
Quando acordou, já era fim de tarde.
O som da porta se abrindo a trouxe de volta devagar.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame percebeu imediatamente.
Jiyeon estava deitada, mas não dormia de verdade. Os olhos abertos demais, o
corpo rígido, como se até descansar exigisse esforço.
— Você chegou cedo — Ayame comentou, largando a bolsa.
— Não me senti bem — Jiyeon respondeu, sem entrar em detalhes.
Ayame se aproximou, sentando na beira da cama.
— Dor?
— Cansaço.
Ayame franziu a testa.
— Você anda assim há dias.
Jiyeon desviou o olhar.
— Eu dou conta.
Ayame respirou fundo. Não era uma repreensão — era preocupação.
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— Às vezes dar conta não é o objetivo — disse. — Às vezes é parar.
Jiyeon não respondeu.
Ayame se levantou.
— Vou fazer chá.
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O cheiro do chá se espalhou pelo apartamento antes mesmo de Ayame voltar ao
quarto. Era familiar. Ervas fortes, quentes. Algo que ancorava.
Ayame sentou ao lado dela na cama e estendeu a caneca.
— Bebe devagar.
Jiyeon obedeceu.
O calor desceu pelo corpo como algo que ela não sabia que precisava tanto. Os
ombros relaxaram um pouco. A respiração desacelerou.
— Você não precisa ser forte o tempo todo — Ayame disse, baixo.
Jiyeon fechou os olhos.
— Eu não sei ser de outro jeito.
Ayame tocou a mão dela.
— Aprende comigo então.
Jiyeon sentiu o aperto no peito ceder um pouco.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame ficou ali, sem pressa.
Não ligou a televisão. Não falou demais. Apenas ficou. Às vezes, isso era mais difícil
para ela do que para Jiyeon — ficar quieta, conter o impulso de preencher tudo com
palavras.
Mas aprendera.
— Quer que eu fique aqui? — perguntou.
— Quero.
A resposta veio rápida demais para ser pensada.
Ayame sorriu pequeno e se ajeitou ao lado dela, apoiando as costas na parede,
permitindo que Jiyeon encostasse a cabeça em seu ombro.
— A faculdade vai continuar amanhã — Ayame murmurou. — As contas também. O
mundo não acaba se você descansar.
Jiyeon respirou fundo.
— Eu tenho medo de parar e… não conseguir voltar.
Ayame virou o rosto, tocando a testa dela com a própria.
— Eu fico do seu lado até você conseguir.
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(Ponto de vista alternado)
A chuva começou no fim da tarde.
Gotas grossas batiam na janela, criando um som contínuo, quase hipnótico. O
apartamento escureceu aos poucos, e Ayame acendeu a luz do abajur, deixando o
quarto em um tom quente.
Jiyeon adormeceu encostada nela.
Ayame não se mexeu.
Pensou em como amar alguém como Jiyeon exigia atenção aos detalhes invisíveis.
Pensou em como crescer juntas significava, muitas vezes, aprender a parar ao invés
de avançar.
Quando Jiyeon acordou de novo, já era noite.
— Desculpa — murmurou, se ajeitando.
— Pelo quê?
— Por te preocupar.
Ayame sorriu.
— Isso faz parte do pacote.
Jiyeon olhou para ela por um momento longo demais.
— Obrigada por ficar.
Ayame tocou o rosto dela com cuidado.
— Sempre.
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
Mais tarde, jantaram algo simples. Não falaram muito. Não precisaram.
Quando foram dormir, Jiyeon sentiu algo diferente — não a ausência do peso, mas a
certeza de que ele podia ser dividido.
Ela se virou para Ayame.
— Quando você cansa… — começou. — Eu fico.
Ayame sorriu no escuro.
— Eu sei.
Jiyeon fechou os olhos.
Talvez a vida adulta fosse isso: aprender que amor não é só caminhar juntas quando
tudo está claro — é parar juntas quando o corpo pede.
Do lado de fora, a chuva continuava caindo.
Dentro, o silêncio voltou a ser abrigo.
21
ἳ Capítulo 7 — O Peso Leve das Coisas Que Ficam
A manhã entrou no apartamento sem pedir licença.
Não foi o sol em si, mas o barulho distante da cidade acordando: um ônibus freando,
alguém rindo na calçada, o vizinho de cima arrastando uma cadeira. A vida adulta
tinha esse hábito estranho de se anunciar por sons comuns, como se dissesse “bom
dia, você ainda está aqui, então vamos continuar”.
Ela acordou primeiro.
Ficou alguns minutos parada, encarando o teto, sentindo o corpo ainda pesado do
dia anterior. Dormir juntas já não era novidade, mas ainda havia algo de íntimo nisso
— não no sentido romântico exagerado, e sim na entrega silenciosa de dividir o
mesmo espaço sem defesas.
Ao virar o rosto, viu a outra dormindo de lado, os cabelos espalhados pelo
travesseiro, a respiração calma. Havia marcas que só o convívio diário revelava: o
jeito de franzir a testa quando sonhava, a mão fechada como se segurasse algo
invisível.
Ela pensou que amar alguém na vida adulta não era sobre grandes declarações.
Era sobre observar essas coisas pequenas e decidir ficar.
Levantou devagar para não acordá-la. O chão frio sob os pés lembrava que o
apartamento ainda era novo, que faltavam tapetes, quadros, histórias acumuladas.
Na cozinha, o café começou a passar enquanto ela se apoiava na bancada, ainda de
pijama, sentindo um cansaço que não era físico.
A faculdade tinha sido mais pesada do que imaginavam.
Não pelas aulas em si, mas pela sensação constante de estar sempre atrasada —
atrasada para entender, para decidir, para ser alguém. Antes, na escola, tudo
parecia ter um roteiro invisível. Agora, cada escolha parecia definitiva demais.
Quando a outra apareceu na porta da cozinha, ainda sonolenta, esfregando os olhos,
ela sorriu sem perceber.
— Você acorda cedo demais — a voz veio rouca, mas tranquila.
— E você sempre diz isso — ela respondeu, servindo o café em duas canecas
diferentes. Nunca combinaram um conjunto. Talvez por medo de admitir o quanto
aquilo já parecia uma casa.
Sentaram-se à mesa pequena, uma de frente para a outra. O silêncio não era
desconfortável. Era apenas… real. Um silêncio que carregava perguntas não ditas:
estamos indo bem?, isso vai dar certo?, quem vamos ser daqui a alguns anos?
— Você ficou estranha ontem — a outra comentou, mexendo o café distraidamente.
22
Ela pensou antes de responder.
— Não estranha. Só… cansada de pensar.
A outra assentiu, como se entendesse exatamente o que isso significava. Porque
entendia. Ambas estavam aprendendo que crescer não vinha com respostas
prontas, só com mais perguntas.
— Às vezes eu sinto falta da gente na escola — a outra disse, baixinho. — Não do
lugar. Da sensação.
Ela sorriu de lado.
— Eu também. Mas acho que, se ficássemos lá, sentiríamos falta disso aqui.
Houve um momento em que seus olhares se encontraram e ficaram ali, presos. Não
havia urgência, nem drama. Apenas a certeza silenciosa de que estavam tentando
— e que tentar juntas já era muita coisa.
Mais tarde, cada uma saiu para suas aulas, mochilas nas costas, passos
apressados. O dia passou em fragmentos: anotações incompletas, mensagens
trocadas no meio das aulas, pensamentos que insistiam em fugir do conteúdo da
prova para a lembrança da mesa do café da manhã.
À noite, voltaram quase ao mesmo tempo.
O apartamento as recebeu com luz fraca e cheiro de nada — ainda estavam
aprendendo a preenchê-lo. Jantaram algo simples, sentadas no chão da sala,
encostadas no sofá, falando sobre coisas pequenas: um professor estranho, uma
colega de classe, uma música que tocou no corredor da faculdade.
Em algum momento, o assunto morreu, e ficaram apenas ali, ombro com ombro.
— Você tem medo do futuro? — a pergunta saiu sem aviso.
Ela respirou fundo.
— Tenho. Mas tenho mais medo de imaginar ele sem você.
A outra não respondeu de imediato. Apenas apoiou a cabeça em seu ombro, como
quem aceita uma verdade sem precisar nomeá-la.
Do lado de fora, a cidade continuava. Dentro do apartamento, duas pessoas
aprendiam, lentamente, que crescer juntas não significava ter tudo resolvido —
significava escolher ficar, mesmo quando nada parecia claro.
E, por enquanto, isso era suficiente.
23
ἳ Capítulo 8 — O Que Não Cabe no Mesmo Silêncio
O problema não começou grande.
Começou com uma mensagem no celular, lida no meio de uma aula que já não fazia
sentido algum.
Ela sentiu o bolso vibrar, ignorou por alguns minutos, tentou manter os olhos no
quadro. Quando não aguentou mais, puxou o celular discretamente. O nome da mãe
apareceu na tela. Só isso já foi suficiente para o estômago apertar.
Precisamos conversar. É importante.
Nada mais. Nenhuma explicação. Nenhum emoji. Nenhuma tentativa de suavizar.
O resto da aula passou como um borrão. As palavras do professor se misturaram ao
barulho da sala, e tudo o que ela conseguia pensar era no tom daquela frase.
Sempre havia um tom, mesmo quando não havia voz.
Quando saiu da faculdade, o céu estava pesado, nublado daquele jeito que não
prometia chuva, mas também não prometia sol. Andou devagar até o ponto de
ônibus, sentindo o celular pesar no bolso, como se fosse um objeto físico demais
para algo tão simples.
Chegou em casa antes do habitual.
O apartamento estava silencioso. A outra ainda não tinha voltado. Ela largou a
mochila no chão, sentou-se no sofá e ficou ali, olhando para a parede vazia à frente.
Pensou em ligar. Pensou em responder a mensagem. Não fez nenhum dos dois.
Quando a porta se abriu mais tarde, ela se virou no mesmo instante.
— Você chegou cedo — a outra comentou, tirando o casaco.
— Cheguei.
Havia algo no jeito como ela respondeu. Curto demais. Controlado demais.
A outra percebeu, claro. Sempre percebia.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela hesitou. O silêncio que se formou não era confortável como o de outros dias. Era
cheio. Pesado.
— Minha mãe me mandou mensagem — disse, por fim. — Quer conversar.
A outra assentiu lentamente, como quem já entendia o que vinha depois, mesmo
sem saber os detalhes.
— E isso nunca é só “conversar”.
— Nunca.
Sentaram-se à mesa da cozinha, mas dessa vez o café ficou esquecido. A conversa
não veio de imediato. Havia um tipo de cuidado estranho ali — o cuidado de não
24
ferir, mesmo sem saber exatamente onde doía.
— Ela falou sobre o quê? — a outra perguntou.
— Não falou. Mas eu sei. Sempre sei.
Ela respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
— Ela acha que a gente está indo rápido demais. Que morar juntas foi uma decisão
impulsiva. Que eu devia… voltar pra casa. Ou pelo menos morar sozinha.
A outra não respondeu na hora. Olhou para a própria caneca, girando-a levemente
sobre a mesa.
— E você acha isso?
A pergunta não veio acusatória. Veio baixa. Vulnerável.
— Não — ela respondeu rápido demais. — Não acho.
Mas o silêncio que se seguiu traiu o resto do pensamento.
— Mas? — a outra insistiu, com cuidado.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Mas às vezes eu sinto que estou decepcionando todo mundo. Como se, não
importa o quanto eu tente, sempre estou escolhendo errado pra alguém.
A outra encostou-se na cadeira, cruzando os braços. Não por defesa, mas por
contenção. Havia sentimentos demais tentando sair ao mesmo tempo.
— E onde eu fico nisso?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Ela abriu os olhos, surpresa.
— Como assim?
— Eu sei que isso não é sobre mim — a outra disse. — Mas também é. Porque
quando falam de você voltar, de você morar sozinha… estão falando de um futuro
onde eu não estou do mesmo jeito.
A realidade daquilo bateu forte.
— Eu não quero isso — ela disse, quase num sussurro. — Eu quero você. Eu quero
a gente.
— Eu sei — a outra respondeu. — Mas querer não impede o medo.
Ficaram em silêncio outra vez, mas agora era um silêncio diferente. Não era
compartilhado. Era paralelo. Cada uma sozinha nos próprios pensamentos.
Mais tarde, deitadas lado a lado, nenhuma das duas dormia.
O teto parecia mais distante naquela noite. O quarto, maior. A proximidade física não
impedia a distância emocional que começava a se formar, fina e quase invisível.
— Você acha que um dia isso vai ficar mais fácil? — a outra perguntou no escuro.
25
Ela demorou a responder.
— Acho que vai ficar diferente — disse, por fim. — Não sei se mais fácil.
A outra virou-se de lado, encarando sua silhueta.
— Eu tenho medo de ser só uma fase bonita da sua vida.
Aquilo doeu mais do que qualquer discussão.
Ela se virou também, aproximando o rosto.
— Você não é uma fase. Você é a escolha que eu continuo fazendo. Mesmo quando
dá medo.
A outra respirou fundo, como se estivesse segurando algo há tempo demais.
— Então promete que, se um dia começar a duvidar… você fala comigo antes de
decidir qualquer coisa sozinha.
Ela assentiu.
— Prometo.
Não se beijaram. Não houve gesto dramático. Apenas ficaram ali, mãos
entrelaçadas, tentando acreditar que promessas ainda tinham peso na vida adulta.
Do lado de fora, a cidade seguia indiferente. Dentro do quarto, duas pessoas
aprendiam que amar também era encarar conversas difíceis — e escolher não fugir
delas.
E, mesmo com medo, nenhuma das duas soltou a mão da [Link]ítulo 8 — O Que
Não Cabe no Mesmo Silêncio
O problema não começou grande.
Começou com uma mensagem no celular, lida no meio de uma aula que já não fazia
sentido algum.
Ela sentiu o bolso vibrar, ignorou por alguns minutos, tentou manter os olhos no
quadro. Quando não aguentou mais, puxou o celular discretamente. O nome da mãe
apareceu na tela. Só isso já foi suficiente para o estômago apertar.
Precisamos conversar. É importante.
Nada mais. Nenhuma explicação. Nenhum emoji. Nenhuma tentativa de suavizar.
O resto da aula passou como um borrão. As palavras do professor se misturaram ao
barulho da sala, e tudo o que ela conseguia pensar era no tom daquela frase.
Sempre havia um tom, mesmo quando não havia voz.
Quando saiu da faculdade, o céu estava pesado, nublado daquele jeito que não
prometia chuva, mas também não prometia sol. Andou devagar até o ponto de
ônibus, sentindo o celular pesar no bolso, como se fosse um objeto físico demais
para algo tão simples.
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Chegou em casa antes do habitual.
O apartamento estava silencioso. A outra ainda não tinha voltado. Ela largou a
mochila no chão, sentou-se no sofá e ficou ali, olhando para a parede vazia à frente.
Pensou em ligar. Pensou em responder a mensagem. Não fez nenhum dos dois.
Quando a porta se abriu mais tarde, ela se virou no mesmo instante.
— Você chegou cedo — a outra comentou, tirando o casaco.
— Cheguei.
Havia algo no jeito como ela respondeu. Curto demais. Controlado demais.
A outra percebeu, claro. Sempre percebia.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela hesitou. O silêncio que se formou não era confortável como o de outros dias. Era
cheio. Pesado.
— Minha mãe me mandou mensagem — disse, por fim. — Quer conversar.
A outra assentiu lentamente, como quem já entendia o que vinha depois, mesmo
sem saber os detalhes.
— E isso nunca é só “conversar”.
— Nunca.
Sentaram-se à mesa da cozinha, mas dessa vez o café ficou esquecido. A conversa
não veio de imediato. Havia um tipo de cuidado estranho ali — o cuidado de não
ferir, mesmo sem saber exatamente onde doía.
— Ela falou sobre o quê? — a outra perguntou.
— Não falou. Mas eu sei. Sempre sei.
Ela respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
— Ela acha que a gente está indo rápido demais. Que morar juntas foi uma decisão
impulsiva. Que eu devia… voltar pra casa. Ou pelo menos morar sozinha.
A outra não respondeu na hora. Olhou para a própria caneca, girando-a levemente
sobre a mesa.
— E você acha isso?
A pergunta não veio acusatória. Veio baixa. Vulnerável.
— Não — ela respondeu rápido demais. — Não acho.
Mas o silêncio que se seguiu traiu o resto do pensamento.
— Mas? — a outra insistiu, com cuidado.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Mas às vezes eu sinto que estou decepcionando todo mundo. Como se, não
importa o quanto eu tente, sempre estou escolhendo errado pra alguém.
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A outra encostou-se na cadeira, cruzando os braços. Não por defesa, mas por
contenção. Havia sentimentos demais tentando sair ao mesmo tempo.
— E onde eu fico nisso?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Ela abriu os olhos, surpresa.
— Como assim?
— Eu sei que isso não é sobre mim — a outra disse. — Mas também é. Porque
quando falam de você voltar, de você morar sozinha… estão falando de um futuro
onde eu não estou do mesmo jeito.
A realidade daquilo bateu forte.
— Eu não quero isso — ela disse, quase num sussurro. — Eu quero você. Eu quero
a gente.
— Eu sei — a outra respondeu. — Mas querer não impede o medo.
Ficaram em silêncio outra vez, mas agora era um silêncio diferente. Não era
compartilhado. Era paralelo. Cada uma sozinha nos próprios pensamentos.
Mais tarde, deitadas lado a lado, nenhuma das duas dormia.
O teto parecia mais distante naquela noite. O quarto, maior. A proximidade física não
impedia a distância emocional que começava a se formar, fina e quase invisível.
— Você acha que um dia isso vai ficar mais fácil? — a outra perguntou no escuro.
Ela demorou a responder.
— Acho que vai ficar diferente — disse, por fim. — Não sei se mais fácil.
A outra virou-se de lado, encarando sua silhueta.
— Eu tenho medo de ser só uma fase bonita da sua vida.
Aquilo doeu mais do que qualquer discussão.
Ela se virou também, aproximando o rosto.
— Você não é uma fase. Você é a escolha que eu continuo fazendo. Mesmo quando
dá medo.
A outra respirou fundo, como se estivesse segurando algo há tempo demais.
— Então promete que, se um dia começar a duvidar… você fala comigo antes de
decidir qualquer coisa sozinha.
Ela assentiu.
— Prometo.
Não se beijaram. Não houve gesto dramático. Apenas ficaram ali, mãos
entrelaçadas, tentando acreditar que promessas ainda tinham peso na vida adulta.
Do lado de fora, a cidade seguia indiferente. Dentro do quarto, duas pessoas
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aprendiam que amar também era encarar conversas difíceis — e escolher não fugir
delas.
E, mesmo com medo, nenhuma das duas soltou a mão da outra.
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ἳ Capítulo 9 — Onde as Vozes Antigas Ainda Ecoam
Ela marcou de encontrar a mãe numa cafeteria perto da estação. Não era um lugar
especial, nem neutro o suficiente para apagar o peso da conversa, mas era público
— e isso, de alguma forma, ajudava a manter tudo sob controle.
Chegou cedo demais.
Sentou-se perto da janela, observando as pessoas passarem com pressa, mochilas
nas costas, fones nos ouvidos, vidas inteiras acontecendo sem saber que a dela
parecia estar suspensa naquele instante. Pediu um café que não queria beber.
Mexeu o açúcar até ele desaparecer por completo, mesmo sem ter colocado
nenhum.
Quando a mãe entrou, reconheceu-a de imediato. O mesmo corte de cabelo. O
mesmo jeito de olhar ao redor antes de escolher um lugar. O mesmo ar de quem
sempre parecia esperar algo errado acontecer.
— Você está magra — foi a primeira coisa que disse, sentando-se.
Ela respirou fundo.
— Eu estou bem.
A mãe assentiu, mas o olhar dizia outra coisa. Sempre dizia.
— Como está a faculdade?
— Bem. Difícil, mas bem.
— E… — a pausa foi calculada. — Morar juntas?
A pergunta caiu entre elas como um objeto pesado demais para aquela mesa
pequena.
— Está sendo bom — ela respondeu, com firmeza. — A gente se apoia muito.
A mãe juntou as mãos, apoiando os cotovelos na mesa.
— Eu fico preocupada.
— Eu sei.
— Você sempre foi intensa demais. Se joga de cabeça nas coisas. Eu tenho medo
de você se perder.
Ela sentiu a irritação crescer, misturada com algo mais antigo — aquela sensação de
nunca ser vista como alguém que sabia o que fazia.
— Eu não estou me perdendo — disse. — Estou construindo algo.
— Mas tão cedo? — a mãe rebateu. — Vocês acabaram de sair da escola. A vida
adulta não é brincadeira.
Ela riu, sem humor.
— Eu sei melhor do que você imagina.
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Houve um silêncio curto. A mãe a observou com mais atenção dessa vez, como se
estivesse tentando enxergar algo que não via há anos.
— E se der errado? — perguntou. — E se vocês terminarem?
A pergunta doeu mais do que ela esperava.
— Então vai doer — respondeu. — Mas isso não significa que não vale a pena.
A mãe suspirou, cansada.
— Eu só não quero que você dependa de alguém.
— Eu não dependo — ela disse, sentindo a própria voz tremer um pouco. — Eu
escolho. Todos os dias.
A mãe desviou o olhar para a rua.
— Escolher também tem consequências.
— Tudo tem.
Quando se despediram, o abraço foi curto, rígido. Não havia briga declarada, mas
também não havia paz. Apenas um acordo silencioso de que aquele assunto não
estava resolvido — apenas adiado.
Ela voltou para casa com o corpo pesado.
O apartamento estava vazio quando chegou. Largou a bolsa no sofá e foi direto para
o quarto, sentando-se na beira da cama. Ficou ali por um tempo longo demais,
olhando para o chão, sentindo as palavras da mãe ecoarem como vozes antigas que
insistiam em não se calar.
Quando a porta se abriu mais tarde, ela não levantou a cabeça de imediato.
— Ei… — a outra chamou, com cuidado. — Você chegou.
— Cheguei.
A outra percebeu o tom. Sempre percebia.
Sentou-se ao lado dela, sem tocá-la ainda.
— Como foi?
Ela demorou a responder. Depois, falou tudo de uma vez, como quem tira algo preso
no peito.
— Ela acha que a gente está indo rápido. Que eu posso me machucar. Que isso
pode acabar e eu vou ficar sem nada.
A outra engoliu em seco.
— E você?
Ela levantou o olhar.
— Eu acho que amar você não é o erro.
A outra soltou o ar devagar.
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— Mas?
— Mas eu fiquei com medo — ela admitiu. — Não de terminar. De não ser forte o
suficiente pra sustentar minhas escolhas quando todo mundo duvida delas.
A outra se aproximou mais, encostando o ombro no dela.
— Eu também tenho medo — confessou. — Às vezes eu sinto que estou roubando
você de uma vida mais fácil.
Ela virou o rosto, surpresa.
— Nunca diga isso.
— É difícil não pensar — a outra continuou. — Que talvez você estivesse melhor
sem esse peso.
Ela segurou o rosto da outra com cuidado.
— Você não é peso. Você é casa.
O silêncio que veio depois não foi vazio. Foi cheio de coisas não ditas, mas
compreendidas.
Mais tarde, deitadas juntas, o medo ainda estava ali — mas agora dividido.
— Se um dia ficar pesado demais — a outra murmurou — você me promete que não
vai me afastar pra me proteger?
Ela assentiu.
— Prometo. A gente enfrenta junto. Mesmo com medo.
A outra sorriu de leve, cansada, mas sincera.
— Então tá.
E naquela noite, apesar das dúvidas, apesar das vozes externas, elas dormiram
abraçadas — não porque tudo estava resolvido, mas porque escolheram não soltar.
Às vezes, amadurecer não era entender tudo.
Era ficar, mesmo sem garantia.
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ἳ Capítulo 10 — A Vida Que Acontece Entre as Contas
A primeira conta chegou numa terça-feira comum demais para o impacto que
causou.
Ela estava sentada à mesa, livros espalhados, tentando terminar um trabalho antes
do prazo, quando abriu o aplicativo do banco quase por reflexo. O valor ali não era
absurdo — mas era definitivo. Aluguel, luz, água, internet. Números frios que não se
importavam com sentimentos, promessas ou amor.
Fechou o celular devagar.
A vida adulta tinha esse hábito estranho de não anunciar quando começava a cobrar.
Quando a outra chegou, trazendo o cheiro do vento frio e da rua, encontrou-a ainda
sentada à mesa, olhando para o nada.
— Tá tudo bem? — perguntou, largando a mochila.
Ela respirou fundo antes de responder.
— A gente precisa conversar sobre dinheiro.
A outra congelou por meio segundo. Não porque não esperasse, mas porque sabia o
peso que essa frase carregava.
Sentaram-se frente a frente, agora sem livros, sem distrações.
— As contas chegaram — ela disse. — E… a bolsa não cobre tudo como eu achei
que cobriria.
A outra assentiu lentamente.
— Eu posso pegar mais horas no trabalho — disse, quase automático.
— Eu não quero que você se sobrecarregue.
— Eu já estou — respondeu, sem amargura. Apenas como um fato.
Isso doeu mais do que uma discussão teria doído.
— Eu também posso procurar algo — ela disse. — Um estágio, qualquer coisa.
— Mas isso vai te cansar — a outra rebateu. — Você já fica exausta com a
faculdade.
O silêncio que veio depois não era briga. Era cálculo. Era medo disfarçado de lógica.
— A gente não pode fingir que isso não existe — ela disse, por fim. — Amar não
paga conta.
— Mas também não sustenta tudo sozinha — a outra respondeu.
Foi a primeira vez que falaram aquilo em voz alta: que amor não resolvia tudo. Que
dividir a vida também significava dividir o peso.
Nos dias seguintes, a rotina mudou.
Ela passou a acordar mais cedo, pesquisando vagas entre um café e outro. A outra
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chegava mais tarde, cansada, mas tentando sorrir do mesmo jeito. Pequenas coisas
começaram a escapar: um prato esquecido na pia, uma resposta curta demais, um
suspiro fora de hora.
Nada grave. Tudo acumulado.
Numa noite especialmente longa, a discussão finalmente aconteceu — não
explosiva, mas cortante.
— Você não precisa carregar tudo sozinha — a outra disse, a voz cansada.
— E você não precisa se sacrificar por mim — ela rebateu.
— Não é sacrifício se eu escolho!
— Mas escolher não deveria doer assim!
As palavras ficaram no ar, mais duras do que pretendiam.
A outra se afastou, sentando-se no sofá, passando a mão pelos cabelos.
— Eu só tenho medo — confessou. — Medo de que um dia você acorde e perceba
que isso é pesado demais.
Ela sentiu o nó na garganta.
— Eu tenho medo de você achar que eu estou te prendendo.
O silêncio que se seguiu foi longo. Não confortável. Necessário.
Mais tarde, já no quarto, nenhuma das duas dormia. A cidade do lado de fora parecia
indiferente demais para quem estava aprendendo a ser adulta à força.
— A gente não prometeu que ia ser fácil — a outra murmurou. — Mas prometeu que
ia ser honesto.
Ela virou-se na cama.
— Então vamos ser.
No dia seguinte, sentaram juntas, abriram planilhas improvisadas, fizeram contas,
erraram, riram nervosamente. Descobriram que não tinham todas as respostas —
mas tinham disposição.
— Talvez a gente precise abrir mão de algumas coisas — ela disse.
— Mas não uma da outra — a outra respondeu, sem hesitar.
E naquele momento simples, sem beijo, sem drama, algo se firmou. Não uma
certeza absoluta, mas um chão.
A vida adulta não chegou como um grande evento.
Chegou assim: em contas, conversas difíceis, escolhas pequenas e na decisão
diária de continuar.
E, mesmo cansadas, mesmo assustadas, elas continuaram.
Juntas.
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ἳ Capítulo 11 — O Cansaço Que Não Pede Permissão
(Ponto de vista dela)
O estágio começou numa segunda-feira chuvosa, como se o mundo quisesse
combinar cenário com sentimento.
Ela saiu de casa antes do sol nascer, deixando a outra dormindo de lado, abraçada
ao travesseiro. Ficou alguns segundos a mais parada na porta do quarto,
observando. Sempre havia essa vontade de voltar, de se deitar outra vez, de fingir
que o dia podia esperar.
Mas o dia nunca espera.
No ônibus, sentiu o corpo reclamar. As olheiras no reflexo do vidro. A cabeça cheia
de prazos, nomes novos, responsabilidades que ainda não cabiam direito nela.
O estágio não era ruim. As pessoas eram educadas. O trabalho, interessante. Mas
tudo exigia atenção constante — e atenção era algo que já estava sendo dividido em
partes pequenas demais.
Quando voltou pra casa naquela noite, a chuva tinha parado, mas o cansaço não.
— Você chegou — a outra disse, da cozinha.
Ela respondeu com um sorriso automático.
— Cheguei.
Jantaram juntas, mas falaram pouco. Não por falta de assunto — por falta de
energia. Cada uma carregava o próprio peso, tentando não deixar cair no colo da
outra.
Mais tarde, no banho, ela encostou a testa na parede fria e fechou os olhos. Pensou
em como a vida adulta parecia sempre exigir mais do que ela tinha para oferecer
naquele dia específico.
E pensou, com culpa, que amar também exigia presença.
(Ponto de vista da outra)
Ela percebeu antes de virar problema.
Percebeu no jeito como os abraços ficaram mais curtos. No silêncio que vinha rápido
demais depois das perguntas. No “tô bem” que não convencia, mas também não
pedia insistência.
Ela também estava cansada. O trabalho puxado. A pressão constante. A sensação
de que precisava ser forte por duas.
Mas o que mais doía não era o cansaço.
Era a distância invisível.
Numa noite, enquanto dobrava roupas sozinha, parou com uma camiseta nas mãos.
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Era uma das favoritas dela. Pensou em como antes dobravam juntas, rindo de
qualquer coisa boba.
Agora, tudo parecia funcional demais.
Quando ela saiu do banho, a outra estava sentada na cama, mexendo no celular,
mas com o olhar longe.
— Você tá bem? — perguntou.
— Tô.
A resposta veio rápido demais. Igual às últimas.
Ela sentou ao lado dela.
— Você não precisa aguentar tudo sozinha.
O silêncio se estendeu. Depois, veio um suspiro longo.
— Eu não sei como explicar — ela disse. — Eu sinto que estou sempre devendo.
Atenção, energia, paciência… e eu não tenho nada sobrando.
A outra engoliu em seco.
— Eu não quero sobrar — disse, com cuidado. — Mas também não quero virar mais
uma coisa pra você dar conta.
Ela virou o rosto, os olhos marejados.
— Você não é uma coisa. Você é a parte que eu tenho medo de perder quando fico
assim.
A confissão caiu pesada, mas honesta.
A outra se aproximou mais.
— Então fica comigo nisso. Mesmo cansada. Mesmo imperfeita.
Ela assentiu, encostando a testa no ombro dela.
— Eu tô tentando aprender a não fugir quando tudo pesa.
Ficaram assim por um tempo, sem falar. Não era um momento bonito no sentido
cinematográfico. Era real. Meio torto. Mas verdadeiro.
Naquela noite, dormiram abraçadas de um jeito diferente — não apertado, mas
presente. Como quem diz “eu tô aqui”, mesmo sem forças pra mais nada.
E isso, às vezes, precisava bastar.
36
ἳ Capítulo 12 — O Dia Em Que Nada Precisava Ser Resolvido
O sábado começou sem despertador.
A luz entrou no quarto devagar, filtrada pela cortina fina, desenhando sombras
suaves nas paredes. O mundo lá fora parecia mais lento, como se tivesse
concordado em não exigir nada por algumas horas.
Ela acordou primeiro.
Ficou deitada, imóvel, observando a outra dormir. Havia algo de profundamente
calmo naquele rosto relaxado — uma versão que só existia quando o corpo
finalmente se permitia descansar. Estendeu a mão e afastou um fio de cabelo da
testa dela, com cuidado, como se pudesse quebrar o momento.
Não quebrou.
Levantou-se silenciosamente e foi até a cozinha. Preparou café, abriu a janela,
deixou o ar fresco entrar. O barulho distante da cidade parecia diferente aos fins de
semana — menos urgente, menos impaciente.
Quando a outra apareceu, ainda meio sonolenta, encostou no batente da porta.
— Você acordou cedo — murmurou.
— Nem tanto — ela respondeu. — O dia só pareceu… possível.
A outra sorriu, pequeno, mas sincero.
Sentaram-se à mesa sem pressa. Café quente. Pão simples. Conversa nenhuma. E,
estranhamente, aquilo era o suficiente.
Depois do café, resolveram sair sem plano. Caminharam pelo bairro, mãos próximas
o bastante para se tocarem sem perceber. Entraram numa livraria pequena,
daquelas com cheiro de papel antigo e silêncio respeitoso.
— Olha esse — a outra disse, puxando um livro da prateleira. — Parece a gente
tentando entender a vida adulta.
Ela riu.
— Dramático.
— Realista.
Folhearam livros, trocaram comentários baixos, dividiram risadas contidas. Por um
momento, não eram duas universitárias cansadas tentando sobreviver. Eram só
duas pessoas juntas, curiosas, presentes.
Na volta, compraram flores baratas de um vendedor na esquina. Não porque havia
motivo. Justamente porque não havia.
Em casa, colocaram as flores num copo improvisado. Ficaram olhando para elas por
alguns segundos, como se aquele gesto simples tivesse mais significado do que
37
parecia.
— A gente devia fazer isso mais vezes — a outra comentou. — Coisas sem função.
— A vida adulta odeia coisas sem função — ela respondeu.
— Então a gente precisa delas ainda mais.
À tarde, sentaram no chão da sala, encostadas no sofá. A outra deitou a cabeça no
colo dela. Ela começou a brincar com os cabelos dela, distraída.
— Você lembra como a gente achava que morar juntas ia ser? — a outra perguntou.
— Achei que ia ser tipo um filme — ela respondeu. — Tudo bonito, trilha sonora
certa, problemas resolvidos em uma conversa.
— E agora?
Ela pensou por um momento.
— Agora parece mais um livro longo. Com capítulos difíceis. Mas que eu não quero
parar de ler.
A outra fechou os olhos, sorrindo.
— Eu também não.
O silêncio que veio depois não foi pesado. Foi confortável. Um silêncio que não
pedia explicações.
Mais tarde, cozinharam juntas. Erraram a receita. Riram. Comeram mesmo assim.
Sentaram no chão da cozinha, encostadas nos armários, como se o cansaço não
tivesse vencido — apenas esperado.
À noite, no quarto, deitaram lado a lado, luz apagada, janela aberta.
— Você acha que a gente tá fazendo certo? — a outra perguntou, quase
cochichando.
Ela virou o rosto.
— Acho que a gente tá fazendo o melhor que consegue com o que tem.
— Isso basta?
Ela pensou por um segundo, depois segurou a mão dela.
— Hoje, basta.
E naquela noite, não houve medo do amanhã. Só o agora. Só a certeza tranquila de
que, mesmo com tudo difícil, ainda havia dias assim — em que nada precisava ser
resolvido, apenas vivido.
E talvez fosse isso que as mantinha de pé.
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ἳ Capítulo 13 — Quando o Futuro Bate à Porta Sem Avisar
A proposta chegou numa quarta-feira comum, dessas em que nada parece grande o
suficiente para mudar uma vida.
Ela leu o e-mail três vezes, não porque fosse confuso, mas porque parecia irreal
demais para ser verdade. Um estágio melhor. Mais horas. Melhor remuneração. Mais
responsabilidade.
Mais distância.
Fechou o notebook devagar, como se o gesto pudesse diminuir o impacto. O quarto
estava silencioso, a cama ainda desarrumada da manhã. Pela janela, o céu claro
contrastava demais com o aperto que crescia no peito.
Não contou na hora.
Passou o resto do dia com aquilo preso dentro de si, como um segredo que não
queria virar problema. Na aula, não prestou atenção. No caminho para casa, quase
perdeu o ponto. Quando abriu a porta do apartamento, encontrou a outra sentada no
chão da sala, cercada de papéis e anotações.
— Oi — a outra disse, sorrindo. — Chegou cedo.
— É.
O sorriso não se sustentou por muito tempo. A outra percebeu.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela largou a bolsa, sentou-se no sofá e respirou fundo.
— Eu recebi uma proposta de estágio.
Os olhos da outra se iluminaram por reflexo.
— Isso é ótimo!
— É… — ela concordou, mas a pausa disse o resto.
A outra se aproximou, sentando ao lado dela.
— Mas?
Ela abriu o notebook e mostrou o e-mail.
— É em outra parte da cidade. Horários mais longos. Provavelmente vou chegar em
casa tarde quase todos os dias.
O silêncio caiu entre elas. Não pesado de imediato, mas atento.
— Você quer aceitar? — a outra perguntou, com cuidado.
Ela demorou a responder. Não por não saber. Mas porque dizer em voz alta tornava
tudo real demais.
— Quero — disse. — Mas tenho medo do que isso muda.
A outra assentiu lentamente.
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— Eu tenho medo do que isso não mudar — respondeu. — De você abrir mão de
algo importante por causa de mim.
Ela virou o rosto, surpresa.
— Eu nunca faria isso.
— Às vezes a gente faz sem perceber — a outra disse. — E depois vira
ressentimento.
A palavra ficou no ar. Respeitada. Não acusatória.
— Eu não quero virar alguém cansada demais pra nós — ela confessou. — Mas
também não quero sentir que fiquei parada enquanto a vida andava.
A outra apoiou o queixo na mão, pensativa.
— A vida adulta parece sempre pedir escolha — disse. — E nunca deixa claro o
preço antes.
Mais tarde, cada uma ficou no próprio canto, tentando organizar pensamentos que
não se organizavam sozinhos. Ela voltou a ler o e-mail, agora com mais atenção.
Benefícios. Expectativas. Crescimento.
Mas também ausência.
No quarto, a outra dobrava roupas com movimentos automáticos demais. Pensava
em como o tempo juntas já parecia menor. Pensava no medo de virar plano B sem
nunca ter sido intenção de ninguém.
À noite, sentaram na cama, luz baixa, clima contido.
— Se você aceitar — a outra começou — eu vou sentir falta de você.
— Eu também vou — ela respondeu.
— Mas sentir falta não significa que é errado.
Ela respirou fundo.
— Promete que a gente não vai se perder nisso?
A outra se aproximou, encostando a testa na dela.
— Prometo tentar. Todos os dias.
Não decidiram naquela noite. Não precisavam. Algumas escolhas pedem mais
silêncio antes da resposta.
Deitaram-se juntas, como sempre, mas o futuro agora ocupava um espaço novo
entre elas — não como ameaça, mas como algo vivo, esperando ser tocado.
E, mesmo com medo, nenhuma das duas desejou voltar atrás.
Porque crescer também era isso: seguir mesmo quando não dava para levar tudo do
mesmo jeito.
E confiar que o amor saberia se adaptar.
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ἳ Capítulo 14 — Aprender a Caber no Novo Ritmo
Ela aceitou o estágio numa quinta-feira à tarde.
O e-mail de confirmação foi curto, educado, definitivo. Quando fechou o notebook,
sentiu uma mistura estranha de alívio e vertigem — como quem dá um passo à
frente sem saber exatamente onde vai pisar.
Contou naquela mesma noite.
— Eu aceitei — disse, sentando-se na beira da cama.
A outra levantou os olhos do livro.
— Parabéns.
O sorriso veio rápido, sincero, mas não inteiro. Ela percebeu.
— Você tá bem? — perguntou.
— Tô — a outra respondeu. — Só… processando.
Não falaram muito mais sobre isso naquela noite. Não por falta de vontade, mas
porque ainda não havia palavras suficientes para explicar sentimentos que estavam
se rearranjando.
O novo ritmo começou na semana seguinte.
Ela passou a sair antes do café esfriar. Voltava quando a noite já tinha engolido a
cidade. Às vezes trazia histórias rápidas do trabalho; às vezes, só silêncio e
cansaço.
A outra tentou acompanhar. Ajustou horários, antecipou jantares, deixou bilhetes
pela casa. Pequenos gestos para lembrar que ainda estavam ali, mesmo quando o
tempo parecia escorrer pelos dedos.
Mas a saudade começou a se infiltrar nas coisas simples.
Na caneca esquecida na pia. No travesseiro frio. No espaço vazio no sofá.
Numa noite, a outra ficou acordada até tarde, esperando. Quando a porta finalmente
se abriu, ela já estava entre o sono e a vigília.
— Desculpa — ela disse, largando a bolsa. — O ônibus atrasou.
— Tudo bem — a outra respondeu.
Mas não era só o ônibus.
Sentaram juntas na cozinha, comendo em silêncio. O relógio marcava quase
meia-noite.
— A gente precisa achar um jeito de não virar duas estranhas dividindo um teto — a
outra disse, por fim.
Ela pousou o garfo.
— Eu sei. Eu sinto isso também.
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— Não quero competir com o seu futuro.
— E eu não quero que você vire passado.
As palavras saíram sem acusação, mas carregadas de verdade.
Respiraram fundo juntas.
— Talvez a gente precise criar rituais novos — a outra sugeriu. — Coisas pequenas,
mas nossas.
Ela pensou por um momento.
— Café da manhã de domingo. Sem exceção.
— Mensagens no meio do dia. Nem que seja só um “tô pensando em você”.
— E uma noite da semana só pra gente. Mesmo cansadas.
A outra sorriu, dessa vez mais inteira.
— Parece um plano.
Nos dias seguintes, tentaram.
Nem sempre funcionava perfeitamente. Às vezes ela esquecia de responder. Às
vezes a outra dormia antes. Mas havia intenção — e isso fazia diferença.
Numa sexta-feira, chegaram em casa quase ao mesmo tempo. Raro. Especial.
— Vamos pedir comida — a outra sugeriu. — Fingir que o mundo não existe por
algumas horas.
Ela riu.
— Por favor.
Comeram sentadas no chão da sala, encostadas uma na outra. Conversaram sobre
coisas bobas. Riram alto demais. Por um momento, o peso pareceu menor.
— Eu tenho orgulho de você — a outra disse, do nada.
Ela virou o rosto, surpresa.
— Mesmo com tudo isso?
— Principalmente por causa disso.
O silêncio que veio depois foi confortável. Não porque tudo estava resolvido, mas
porque estavam tentando juntas.
Naquela noite, dormiram abraçadas com mais força — não por medo, mas por
escolha.
O futuro ainda era incerto. O cansaço ainda existia. Mas, aos poucos, aprendiam que
amar também era ajustar o passo, sem deixar ninguém para trás.
E isso, apesar de tudo, ainda parecia valer a pena.
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ἳ Capítulo 15 — O Medo de Ficar Para Trás
(Ponto de vista da outra)
Ela percebeu o medo numa tarde comum, enquanto esperava o ônibus voltar do
trabalho.
O celular vibrou com uma mensagem curta: chego tarde hoje. Nada de errado nisso.
Era rotina agora. Mesmo assim, sentiu algo afundar no peito — uma sensação
antiga, difícil de nomear, mas fácil de reconhecer.
A sensação de estar ficando para trás.
No caminho para casa, observou as pessoas ao redor: estudantes falando animados,
colegas comentando projetos, sonhos sendo lançados ao vento como se fossem
certezas. Pensou na própria rotina, repetitiva, necessária, mas pouco celebrada.
Quando chegou ao apartamento, a casa estava silenciosa demais. Ligou a luz,
largou a bolsa, sentou no sofá sem tirar o casaco. Ficou ali, olhando para a parede,
tentando entender quando exatamente começou a se comparar.
Nunca tinha sido assim.
Ela sempre teve orgulho de caminhar no próprio ritmo. Mas agora, com a outra
avançando rápido, conquistando espaço, crescendo… o orgulho vinha acompanhado
de um medo vergonhoso.
E se um dia eu não acompanhar mais?
Quando ela chegou, já era noite fechada. Entrou cansada, mas com os olhos
brilhando — aquele brilho de quem tinha aprendido algo novo, resolvido um
problema difícil.
— Você não vai acreditar no dia que eu tive — começou.
Ela sorriu, automático.
— Parece que foi bom.
— Foi — respondeu. — Cansativo, mas bom.
Sentaram-se juntas para comer. Ela escutou atentamente, fez perguntas, riu nos
momentos certos. Mas por dentro, a voz insistia: ela está indo tão longe.
— E você? — ela perguntou depois. — Como foi seu dia?
A pergunta veio genuína. E isso doeu ainda mais.
— Normal — respondeu. — Tudo igual.
A outra franziu a testa.
— Igual não é ruim.
— Mas também não é novo.
O silêncio que se seguiu foi delicado, instável.
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— Você se sente… parada? — a outra perguntou, escolhendo as palavras.
Ela respirou fundo.
— Às vezes. Não por sua causa. Mas… perto de você, parece mais evidente.
A outra largou o garfo.
— Eu nunca quis que você se sentisse menor.
— Eu sei — ela respondeu rápido. — E você nunca fez nada pra isso. Esse medo é
meu.
Ficaram em silêncio, respeitando aquilo.
Mais tarde, no quarto, deitaram lado a lado, mas sem se tocar de imediato. A
distância era pequena, mas significativa.
— Eu tenho medo de virar alguém que você supera — ela confessou no escuro. —
Não porque você queira, mas porque a vida acontece.
Ela virou-se na cama, encarando-a.
— Eu não estou correndo para longe de você — disse. — Eu estou tentando crescer.
E eu quero que você cresça também. Do seu jeito.
— E se meu jeito for mais lento?
— Então a gente ajusta o passo.
A resposta não foi grandiosa. Foi honesta.
Ela sentiu os olhos arderem.
— Promete que, se um dia eu ficar com medo demais… você vai me lembrar disso?
A outra se aproximou, segurando sua mão.
— Prometo. E você promete que vai me contar quando esse medo aparecer?
— Prometo.
Naquela noite, dormiram de mãos dadas. O medo não desapareceu — mas perdeu
um pouco da força por ter sido dito em voz alta.
E talvez amadurecer fosse isso: parar de fingir que não sente, e confiar que o outro
não vai ir embora só porque você teve coragem de mostrar fragilidade.
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ἳ Capítulo 16 — Um Espaço Que Também Pode Ser Seu
O convite veio de onde ela menos esperava.
Não foi um e-mail formal, nem uma proposta clara. Foi um comentário casual, jogado
no meio de uma conversa de corredor, desses que parecem pequenos demais para
carregar futuro.
— Você já pensou em tentar a monitoria no próximo semestre? — a professora
perguntou, enquanto guardava alguns papéis. — Você tem um olhar atento. Acho
que se daria bem.
Ela sorriu, educada, mas não respondeu na hora.
Sorriu como quem agradece, não como quem acredita.
Durante o caminho de volta para casa, a frase ficou martelando na cabeça. Você tem
um olhar atento. Ninguém costumava dizer coisas assim para ela. Sempre foi a
responsável, a constante, a que sustenta — raramente a que se destaca.
Em casa, encontrou o apartamento vazio. A outra ainda estava no estágio. O silêncio
era comum agora, mas naquela tarde ele não pesava do mesmo jeito. Ela largou a
bolsa, trocou de roupa e sentou-se à mesa com o notebook aberto.
Pesquisou.
Monitoria. Requisitos. Horas. Bolsa.
O coração acelerou de leve. Não era um salto gigante. Não mudaria tudo de uma
vez. Mas era… algo. Um espaço possível. Um reconhecimento.
Quando a outra chegou, já era noite. Encontrou-a sentada à mesa, cercada de
anotações.
— Oi — disse, surpresa. — Aconteceu alguma coisa?
Ela levantou o olhar, hesitante.
— Talvez.
Contou devagar. Sobre a professora. Sobre a sugestão. Sobre a ideia que ainda não
tinha forma, mas já ocupava espaço demais para ser ignorada.
A outra escutou em silêncio, com atenção verdadeira.
— Isso é incrível — disse, por fim. — Você percebe?
— Eu não sei se consigo — ela respondeu, quase automática. — E se eu não der
conta? E se eu tentar só pra provar algo e falhar?
A outra se aproximou, apoiando-se na mesa.
— Você não precisa provar nada pra ninguém.
— Eu sei — ela disse. — Mas… eu preciso provar pra mim.
O silêncio que veio depois foi diferente dos outros. Não era medo. Era expectativa.
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Nos dias seguintes, ela pensou naquilo mais do que gostaria de admitir. Lembrou
das próprias inseguranças, da sensação constante de estar apenas acompanhando,
nunca liderando. Lembrou do medo de ficar para trás.
E, pela primeira vez, percebeu algo novo: o medo não estava dizendo “não tente”.
Estava dizendo “isso importa”.
No dia da inscrição, sentou-se diante do computador com as mãos frias. Preencheu
os dados devagar. Leu tudo três vezes. Antes de clicar em “enviar”, fechou os olhos
por um segundo.
Pensou na vida que estava construindo. No apartamento. Nas contas. Nos domingos
de café. Nas noites cansadas, mas compartilhadas.
Clicou.
Não contou na hora. Esperou. Quis ter algo concreto antes de dividir. Não por
segredo — por cuidado.
Quando a resposta veio, dias depois, ela leu e releu até ter certeza de que não
estava interpretando errado.
Aprovada para a próxima etapa.
Sentou-se no chão da sala, encostada no sofá, sentindo uma emoção estranha subir
pelo peito. Não era euforia. Era algo mais silencioso. Um tipo novo de confiança.
Quando a outra chegou naquela noite, encontrou-a diferente. Mais presente. Mais
inteira.
— O que foi? — perguntou, desconfiada.
Ela sorriu, dessa vez sem esforço.
— Eu me inscrevi na monitoria. E… passei pra próxima fase.
A outra arregalou os olhos.
— Você tá falando sério?
— Tô.
O sorriso que recebeu em troca foi largo, orgulhoso, quase emocionado.
— Eu sabia — disse. — Sempre soube que você tinha mais espaço do que deixava
ocupar.
Ela sentiu o peito aquecer.
— Eu ainda tenho medo.
— Medo não invalida — a outra respondeu. — Medo só prova que é importante.
Mais tarde, deitadas juntas, ela ficou olhando o teto, sentindo algo se acomodar por
dentro.
— Eu não quero competir com você — disse. — Nem te alcançar. Eu só… quero
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existir do meu jeito.
A outra virou-se, encarando-a no escuro.
— E você existe. Sempre existiu. Só estava esperando se ver.
Ela se aproximou, encostando a testa na dela.
— Obrigada por não me deixar acreditar que eu era menos.
— Obrigada por não crescer sozinha.
Naquela noite, dormiram tranquilas. Não porque tudo estivesse resolvido, mas
porque algo tinha mudado de lugar.
Ela não estava ficando para trás.
Estava encontrando o próprio ritmo.
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ἳ Capítulo 17 — O Dia Em Que Ela Teve Que Falar em Voz Alta
O dia da entrevista começou antes do despertador tocar.
Ela acordou com o coração acelerado, como se tivesse corrido no sonho. Ficou
alguns minutos deitada, olhando o teto, tentando organizar pensamentos que se
atropelavam. Não era medo de errar respostas — era medo de ser vista. De ser
medida. De ocupar um espaço que, por muito tempo, ela mesma acreditou não ser
dela.
Levantou-se devagar, foi até o banheiro e lavou o rosto com água fria. No espelho, o
reflexo parecia o mesmo de sempre — mas havia algo diferente no olhar. Uma
atenção nova. Uma expectativa contida.
No quarto, a outra ainda dormia. Ela se aproximou, sentou-se na beira da cama e
ficou observando por alguns segundos. Pensou em acordá-la. Pensou em dizer que
estava nervosa. Pensou em pedir que dissesse que tudo ficaria bem.
Não fez nada disso.
Apenas tocou de leve a mão dela, como quem guarda força emprestada, e saiu.
O caminho até a faculdade pareceu mais longo naquele dia. Cada passo vinha
acompanhado de um pensamento: e se eu travar? e se eu não souber responder? e
se perceberem que eu não sou tão boa quanto esperam?
Sentou-se na sala de espera com outras pessoas. Algumas conversavam animadas.
Outras, em silêncio absoluto. Ela manteve as mãos entrelaçadas no colo, sentindo o
próprio pulso.
Quando chamaram seu nome, levantou-se quase em automático.
A sala era clara demais. A professora estava sentada atrás da mesa, acompanhada
de mais dois docentes. Todos sorriram, profissionais, atentos.
— Fique à vontade — disseram.
Ela sentou.
As primeiras perguntas foram simples: trajetória acadêmica, interesses,
disponibilidade. Ela respondeu com cuidado, sentindo a voz tremer só um pouco no
começo.
Então veio a pergunta que não estava preparada para ouvir:
— Por que você quer ser monitora?
Ela abriu a boca para responder algo técnico. Algo seguro. Mas as palavras não
vieram desse lugar.
Vieram de outro.
— Porque… — começou, hesitando — durante muito tempo eu achei que aprender
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era só acompanhar. Que meu papel era sustentar, organizar, ajudar nos bastidores.
Mas eu percebi que eu gosto de explicar. Gosto de entender profundamente e dividir
isso com alguém. E… acho que eu também preciso me ver ocupando esse espaço.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi atento.
Ela continuou, agora mais firme:
— Eu não quero ser monitora só pra complementar renda ou currículo. Eu quero
porque isso me desafia. Porque me obriga a falar em voz alta o que eu sei — e o
que ainda estou aprendendo.
Quando terminou, sentiu o coração bater forte demais. Não sabia se tinha ido longe
demais.
Mas os olhares à frente não eram de reprovação.
E isso já era algo.
Saiu da sala com as pernas levemente bambas. Só percebeu o quanto estava tensa
quando respirou fundo no corredor vazio.
Não ligou para a outra imediatamente. Quis guardar aquele momento só para si.
Como se, ao nomear, pudesse quebrar algo frágil.
Quando chegou em casa mais tarde, encontrou-a sentada à mesa, estudando.
— E aí? — a outra perguntou, tentando parecer casual demais para quem estava
claramente ansiosa.
Ela largou a bolsa e sentou-se em frente a ela.
— Eu falei — disse.
— Falou?
— Falei de verdade. Não o que eu achei que eles queriam ouvir. O que eu sentia.
A outra sorriu, com aquele orgulho silencioso que sempre aparecia antes das
palavras.
— Isso é enorme.
Ela assentiu, sentindo os olhos marejarem.
— Eu fiquei com medo. Mas… não me escondi.
A outra se levantou, contornou a mesa e a abraçou sem dizer nada. Um abraço
firme, demorado, do tipo que segura.
— Independente do resultado — disse perto do ouvido dela — você já deu um passo
que não tem volta.
— Um passo pra onde?
— Pra você.
Mais tarde, deitadas juntas, ela sentiu o corpo cansado de um jeito diferente. Não
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exausto — vivo.
— Eu sempre achei que crescer significava ir pra longe — ela disse no escuro. —
Mas hoje pareceu mais… ocupar espaço.
— Crescer não precisa afastar — a outra respondeu. — Às vezes só alarga o que já
existe.
Ela sorriu.
O resultado ainda não tinha chegado. O futuro ainda era incerto. Mas algo dentro
dela já tinha mudado — e isso ninguém podia tirar.
Ela tinha falado em voz alta.
E tinha sido ouvida.
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ἳ Capítulo 18 — Duas Vidas Acelerando ao Mesmo Tempo
O e-mail chegou numa manhã em que ela não estava esperando nada.
O celular vibrou enquanto ela caminhava pelo campus, desviando de grupos
apressados e conversas altas demais. Olhou a tela sem muita atenção — até
reconhecer o remetente. O coração deu um salto curto, seco.
Parou no meio do caminho.
Leu uma vez. Depois outra. E mais uma, como se as palavras pudessem mudar de
lugar.
Aprovada.
Nada além disso. Nenhum elogio exagerado. Nenhuma explicação longa. Só a
confirmação de que, dali em diante, ela ocuparia oficialmente um espaço que antes
só existia como possibilidade.
Sentiu as pernas ficarem fracas.
Sentou-se num banco qualquer, respirando fundo, tentando entender o que vinha
depois da alegria inicial. Porque havia alegria, sim — mas ela vinha acompanhada
de um peso novo. Responsabilidade. Expectativa. Mudança concreta.
A primeira pessoa em quem pensou foi nela.
Digitou a mensagem, apagou, digitou de novo.
Deu certo.
O celular demorou poucos segundos para vibrar.
Eu sabia.
Tenho muito orgulho de você.
Ela sorriu sozinha, sentindo algo aquecer por dentro.
Mas o dia não parou para celebrar.
Entre aulas, reuniões iniciais e explicações rápidas sobre horários e funções,
percebeu que a monitoria não entraria na vida dela como um detalhe — entraria
como uma presença constante. Mais horas no campus. Mais preparo. Mais gente
dependendo dela.
Quando chegou em casa à noite, encontrou a outra sentada no sofá, ainda com o
uniforme do trabalho, cabeça encostada no encosto, olhos fechados.
Ela hesitou antes de falar.
— Ei.
A outra abriu os olhos devagar, depois sorriu.
— Você chegou.
— Cheguei.
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Sentou-se ao lado dela. Não disseram nada por alguns segundos. O silêncio tinha
aprendido a ser parte da rotina.
— Então… — a outra começou — monitora oficial?
Ela assentiu.
— Oficial.
O sorriso que veio foi grande, mas logo cedeu espaço para algo mais cuidadoso.
— Como você tá se sentindo?
Ela pensou antes de responder.
— Feliz. Assustada. Um pouco culpada por estar feliz.
— Por quê?
— Porque parece que tudo está ficando mais… cheio. Pra nós duas.
A outra passou a mão pelo rosto, cansada.
— Eu também sinto isso — admitiu. — Às vezes parece que a gente tá correndo
lado a lado, mas sem tempo de se olhar.
Aquilo doeu, porque era verdade.
Nos dias seguintes, a rotina apertou de vez.
Ela passou a dividir o tempo entre estudar, preparar monitorias, responder
mensagens de alunos. A outra chegava cada vez mais tarde, exausta, mas tentando
manter presença. Às vezes se encontravam só para dormir. Às vezes nem isso.
Os domingos continuaram sagrados — mas até eles começaram a parecer breves
demais.
Numa noite específica, o cansaço venceu o cuidado.
— Você esqueceu de responder minha mensagem — a outra disse, sem acusar,
mas com voz baixa demais para ser só observação.
Ela fechou o notebook.
— Eu tava preparando a monitoria de amanhã.
— Eu sei.
— Então…
— Então eu só senti falta.
O silêncio caiu pesado.
Ela passou a mão pelos cabelos, frustrada.
— Eu não posso fazer tudo ao mesmo tempo.
— Eu não tô pedindo tudo — a outra respondeu. — Só você. Um pouco.
As palavras ficaram no ar, perigosas.
— Eu tô tentando construir algo — ela disse. — Não só por mim. Pela gente.
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— E eu tô tentando não me sentir deixada pra depois — a outra respondeu,
finalmente olhando nos olhos dela.
Aquilo partiu algo pequeno, mas essencial.
Sentaram-se à mesa, como tantas outras vezes, mas agora sem desviar do que
doía.
— Eu tenho medo — a outra confessou — de que a gente vire um “depois eu vejo”,
enquanto o resto da vida acontece agora.
Ela respirou fundo.
— Eu tenho medo de que, se eu desacelerar demais, eu volte a me esconder.
Ficaram ali, encarando a verdade nua.
— Então a gente precisa aprender a crescer sem se perder — a outra disse.
— Ou aprender a se perder juntas — ela respondeu, com um meio sorriso triste.
Mais tarde, deitadas lado a lado, ela percebeu que não era o cansaço físico que doía
mais. Era o esforço constante de equilibrar tudo sem deixar nada cair.
— Eu não quero que você se sinta sozinha — ela disse no escuro.
— Então não some — a outra respondeu, simples.
Ela segurou a mão dela com força.
— Eu tô aqui. Mesmo quando parece bagunçado.
A outra apertou de volta.
Duas vidas aceleravam ao mesmo tempo agora. Nenhuma delas queria parar.
Nenhuma queria soltar.
Talvez o próximo aprendizado não fosse sobre tempo.
Mas sobre presença.
Mesmo quando tudo pedia pressa.
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ἳCapítulo 19 — O Espaço Entre Duas Respirações
O problema não veio de uma discussão.
Veio de algo pior: a ausência delas.
Nos dias seguintes, a casa passou a funcionar como um ponto de passagem. Uma
chegava quando a outra já dormia. Saíam em horários diferentes. Bilhetes rápidos
substituíam conversas. Mensagens curtas, funcionais.
Chego tarde.
Já jantou?
Boa sorte hoje.
Nada estava errado o suficiente para explodir.
Mas nada estava certo o suficiente para acalmar.
Ela começou a perceber isso numa terça-feira comum, quando terminou a monitoria
e ficou sentada sozinha na sala vazia. Os alunos tinham ido embora, agradecendo,
elogiando, pedindo ajuda futura. Tudo aquilo que deveria trazer satisfação.
E trouxe.
Mas também trouxe um vazio estranho.
Pegou o celular. Nenhuma mensagem nova.
Pensou em ligar. Não ligou.
No caminho para casa, sentiu um incômodo crescente, como se algo estivesse
sendo empurrado para depois há tempo demais.
Quando abriu a porta, encontrou a outra na cozinha, sentada à mesa, mãos em volta
de uma caneca fria. Não parecia cansada — parecia distante.
— Oi — ela disse.
— Oi.
Silêncio.
Ela largou a bolsa devagar.
— Você chegou cedo.
— Pedi pra sair mais cedo hoje.
Isso fez o coração dela acelerar um pouco.
— Aconteceu alguma coisa?
A outra respirou fundo, como quem escolhe palavras que não machuquem mais do
que precisam.
— Aconteceu que eu senti saudade de você estando na mesma casa.
Aquilo atingiu em cheio.
Ela puxou a cadeira e sentou de frente, os cotovelos apoiados na mesa.
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— Eu não quero que isso vire normal.
— Nem eu — a outra respondeu. — Mas tá virando.
A cozinha parecia menor de repente.
— Eu sei que você tá vivendo uma fase importante — continuou. — E eu não quero
ser o peso que te atrasa.
— Você não é um peso — ela respondeu rápido demais.
— Mas às vezes parece que eu só existo nos intervalos da sua vida.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Eu não sei fazer isso diferente ainda — confessou. — Crescer sem me perder…
sem perder você.
A outra a observou com cuidado. Não havia raiva ali. Havia medo.
— Eu não quero ser deixada pra trás — disse. — Nem quero te pedir pra escolher.
— Então o que você quer?
A resposta veio depois de um silêncio longo.
— Quero saber se você ainda me vê no futuro que você tá construindo.
A pergunta não era dramática. Era direta. E por isso doeu mais.
Ela levantou, deu a volta na mesa e ajoelhou à frente da outra, segurando suas
mãos.
— Eu vejo — disse com firmeza. — Eu só tô com medo de não saber como te levar
comigo sem te machucar no processo.
Os olhos da outra brilharam.
— A gente vai se machucar um pouco — respondeu. — O que eu não quero é me
machucar sozinha.
Aquela frase ficou gravada.
Naquela noite, não dormiram juntas de imediato. Ficaram sentadas no chão da sala,
costas no sofá, falando como não falavam há semanas.
Sobre limites. Sobre expectativas. Sobre o que cada uma precisava para não se
sentir invisível.
Ela admitiu que tinha se escondido no excesso de tarefas.
A outra admitiu que tinha começado a se calar para não parecer exigente.
— Silêncio também afasta — ela disse.
— Eu sei — a outra respondeu. — Mas eu achei que falar ia te sobrecarregar.
Promessas não foram feitas. Só acordos pequenos, reais.
Jantar juntas duas vezes na semana.
Celular longe em um desses dias.
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Domingos ainda sagrados — mesmo que curtos.
Quando finalmente se deitaram, não houve pressa. Só presença.
Ela percebeu, ali, que amar naquela fase não era sobre intensidade constante. Era
sobre escolha repetida.
Escolher ficar.
Escolher falar.
Escolher ouvir.
Antes de dormir, a outra murmurou:
— A gente não precisa andar no mesmo ritmo. Só na mesma direção.
Ela apertou a mão dela.
— Então não solta.
— Não vou.
O futuro continuava incerto. A rotina continuaria pesada.
Mas, naquela noite, o espaço entre duas respirações finalmente diminuiu.
56
ἳCapítulo 20 — Primavera, Mesmo Assim
A primavera chegou sem pedir licença.
Não veio em flores exageradas nem em dias perfeitamente ensolarados. Veio em
detalhes: o cheiro de roupa secando na varanda, a luz mais clara entrando pela
janela da cozinha, o som distante de risadas no campus.
Ela percebeu isso numa manhã simples, enquanto preparava café e observava a
outra ainda sonolenta, sentada no balcão, mexendo distraidamente no celular.
— Você tá sorrindo — a outra comentou.
— Tô?
— Tá. Esse sorriso quieto. O que foi?
Ela pensou um pouco antes de responder.
— Acho que… eu tô em paz agora. Não completa, não resolvida. Só… em paz o
suficiente.
A outra assentiu, entendendo mais do que qualquer explicação conseguiria.
Os dias seguintes não foram fáceis — mas foram honestos.
Ela recusou um projeto extra que a afastaria demais de casa. Doeu dizer não, mas
doeu menos do que imaginava. Pela primeira vez, não sentiu que estava falhando
por escolher ficar.
A outra, por sua vez, aceitou um estágio que exigia coragem: um ambiente novo,
competitivo, onde ela teria que falar mais, se posicionar, existir sem pedir desculpas.
— Você vai ser incrível — ela disse, ajudando a outra a escolher a roupa no primeiro
dia.
— Tô morrendo de medo.
— Medo não invalida capacidade.
A outra sorriu, respirando fundo.
— Você sempre sabe dizer isso.
— Porque eu vejo você de fora — respondeu. — E de perto também.
Naquela noite, chegaram cansadas, mas felizes de um jeito diferente. Não a euforia
da juventude colegial. Algo mais sólido. Mais real.
Sentaram no chão da sala, dividindo uma pizza fria e histórias pequenas do dia.
— Uma colega me perguntou se você era minha irmã — a outra contou, rindo.
— E você respondeu o quê?
— Que você era minha casa.
Ela parou de mastigar.
— Você sabe que isso foi a coisa mais bonita que alguém já disse de mim, né?
57
A outra deu de ombros, meio tímida.
— Não pensei muito. Só saiu.
Houve um silêncio confortável depois disso.
Mais tarde, já deitadas, ela ficou olhando o teto, sentindo o peso do dia se dissipar
lentamente.
— Você lembra de como tudo começou? — perguntou.
— No colégio?
— Sim. A gente não sabia nada. Nem quem a gente era direito.
— A gente ainda não sabe tudo — a outra respondeu.
— Mas sabe o suficiente pra continuar.
Ela virou de lado, apoiando a testa na da outra.
— Se o futuro for difícil…
— A gente ajusta — completou.
— Se a gente mudar?
— A gente se reaprende.
— E se um dia não for tão leve?
A outra sorriu, passando o polegar com cuidado pela mão dela.
— Primavera não é só flor. Às vezes é chuva morna, céu nublado, vento que
bagunça tudo.
Ela fechou os olhos.
— Mesmo assim, é primavera.
Naquele momento, não havia promessa de para sempre. Não havia certezas
absolutas. Havia escolha.
E isso era mais forte do que qualquer juramento adolescente.
A casa estava longe de perfeita. A vida, também.
Mas ali, naquele espaço construído a duas mãos, existia algo raro: um amor que
cresceu sem perder a ternura.
Quando a luz foi apagada, a cidade continuou viva lá fora. Carros, vozes, sonhos
alheios.
Dentro do quarto, duas respirações se ajustaram ao mesmo ritmo.
A primavera não tinha sido anunciada.
Mas tinha chegado.
E ficaria.