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O documento narra a história de Seo Jiyeon e Ayame Haruna, duas estudantes que desenvolvem uma conexão única em meio ao ambiente escolar. Jiyeon, uma jovem introspectiva e silenciosa, encontra conforto na presença de Ayame, que é mais extrovertida e cheia de vida. A relação delas evolui através de momentos compartilhados, revelando como o silêncio e a observação podem criar laços significativos.

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O documento narra a história de Seo Jiyeon e Ayame Haruna, duas estudantes que desenvolvem uma conexão única em meio ao ambiente escolar. Jiyeon, uma jovem introspectiva e silenciosa, encontra conforto na presença de Ayame, que é mais extrovertida e cheia de vida. A relação delas evolui através de momentos compartilhados, revelando como o silêncio e a observação podem criar laços significativos.

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ἳ Capítulo 1 — Onde o Silêncio Aprende a Ouvir


(Ponto de vista principal: Seo Jiyeon, com inserções de Ayame)
O portão do colégio se abria todas as manhãs com o mesmo som metálico,
arranhado, quase cansado. Jiyeon conhecia aquele som tão bem quanto conhecia o
próprio passo. Era um aviso silencioso de que mais um dia começava — e ela
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atravessava aquele limiar como quem entra em um território já mapeado.


O pátio estava cheio.
Vozes, risadas, passos apressados. Tudo se misturava num ruído contínuo que,
para Jiyeon, não era exatamente incômodo. Era distante. Como chuva atrás de uma
janela fechada.
Alta, de ombros largos, presença firme, ela caminhava sem pressa. O uniforme
estava impecável, ajustado ao corpo grande e definido, o tecido escuro contrastando
com sua pele pálida demais para alguém que passava tanto tempo ao ar livre. O
cabelo curto, de corte masculino, deixava o rosto à mostra — traços marcados, olhar
atento, sempre calculando distâncias.
Ela não buscava ninguém com os olhos.
Nunca buscava.
A sala ainda cheirava a limpeza recente quando Jiyeon entrou. Escolheu, como
sempre, a carteira do fundo, próxima à janela. Gostava daquele lugar porque dali
conseguia ver o céu. Mesmo quando não olhava diretamente, saber que ele estava
ali a acalmava.
Sentou-se. Abriu o caderno. Organizou a caneta paralela à borda da mesa.
Tudo sob controle.
— Desculpa! Bom dia! Eu juro que não faço mais isso!
A voz veio como um corte no tecido do silêncio.
Jiyeon levantou os olhos devagar.
A garota que entrou parecia carregar o sol consigo. O cabelo claro estava preso de
qualquer jeito, alguns fios escapando e brilhando sob a luz da manhã. As bochechas
estavam levemente coradas, o sorriso largo demais para alguém que havia acabado
de se atrasar.
Ela se curvou diante do professor com exagero quase teatral, arrancando risadas
contidas da sala. O uniforme estava amarrotado, a gravata frouxa, a mochila
pendurada em um ombro só.
Tudo nela parecia… em movimento.
Os olhos claros varreram a sala à procura de um lugar vazio — e pararam em
Jiyeon.
Por um segundo, o sorriso diminuiu. Não sumiu. Apenas se transformou em algo
mais curioso, mais atento.
Ela caminhou até a carteira ao lado.
— Posso sentar aqui?
3

Jiyeon não respondeu de imediato.


Não por falta de educação. Apenas não estava acostumada a ser incluída em
escolhas alheias.
— …Pode.
A palavra saiu baixa, firme.
A garota sentou-se com um suspiro satisfeito.
— Valeu! Eu sou a Ayame.
Jiyeon assentiu.
— Seo Jiyeon.
O nome pareceu ficar no ar por mais tempo do que deveria.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame sentiu imediatamente que aquela garota não era comum.
Não no sentido “popular” ou “intimidante”, mas como algo que não se explicava fácil.
Jiyeon não parecia desconfortável com o próprio silêncio. Ela era o silêncio.
E, ainda assim, havia algo ali que puxava.
Ayame apoiou o cotovelo na mesa, tentando não encarar demais — falhando
miseravelmente.
— Você sempre senta aqui?
— Sempre.
— Gosta da janela?
Jiyeon olhou para fora por um instante.
— Gosto de saber onde o céu está.
Ayame piscou.
Aquilo foi estranho.
E bonito.
Ela sorriu sem perceber.
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ἳ Capítulo 2 — A Biblioteca e as Coisas que Não Precisam Ser Ditas


(Ponto de vista alternado: Ayame → Jiyeon)
Ayame
A biblioteca nunca tinha sido um lugar importante para Ayame Haruna.
Ela sabia onde ficava, claro. Era impossível não saber — aquele prédio antigo, com
janelas altas e corredores longos, sempre parecia observar os alunos como alguém
que já viu gerações passarem. Mas, para Ayame, a biblioteca era só mais um
espaço silencioso demais para alguém que vivia bem com barulho.
Até Jiyeon.
Ayame percebeu a ausência primeiro.
No intervalo, ela procurou Jiyeon no pátio, depois nos corredores, depois perto das
máquinas de bebida. Nada. Aquilo foi… estranho. Não porque sentisse falta de
alguém que mal conhecia — isso seria exagero — mas porque o espaço ao lado
dela parecia maior do que deveria ser.
Foi só quando passou em frente à biblioteca que a viu.
Jiyeon estava sentada perto da janela, como se aquele lugar tivesse sido feito sob
medida para ela. A luz da manhã atravessava o vidro em ângulo suave, tocando
parte de seu rosto pálido, desenhando sombras delicadas sob os olhos atentos. Um
livro grosso repousava aberto diante dela, as mãos grandes segurando as páginas
com cuidado quase cerimonial.
Ela parecia fora do tempo.
Ayame ficou parada por alguns segundos, observando.
Sentiu algo curioso — como se estivesse olhando para um quadro que não devia ser
interrompido.
Mas Ayame nunca foi boa em não interromper.
Empurrou a porta com cuidado, tentando não fazer barulho demais. O cheiro de
papel antigo e madeira encerada a envolveu imediatamente. O lugar parecia respirar
diferente.
— Você sempre vem aqui? — perguntou, em voz mais baixa do que o normal.
Jiyeon ergueu os olhos lentamente. O movimento foi calmo, sem surpresa, como se
já soubesse que Ayame apareceria em algum momento.
— Quase sempre.
— Não é… silencioso demais?
Jiyeon fechou o livro com cuidado, marcando a página com um dedo.
— É por isso que gosto.
5

Ayame riu baixinho, aproximando-se.


— Acho que eu enlouqueceria.
Ela puxou uma cadeira, mas não se sentou ainda.
— Posso ficar?
Jiyeon observou Ayame por alguns segundos.
O jeito inquieto, os pés que se mexiam mesmo parados, os olhos curiosos demais
para alguém que dizia não gostar de silêncio.
— Se quiser.
Ayame se sentou, apoiando os cotovelos na mesa, inclinando-se levemente para
frente.
— Você é bem quieta, né?
Jiyeon respondeu sem levantar a voz:
— E você fala bastante.
Ayame abriu um sorriso largo.
— Toquei no ponto fraco.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável — apenas diferente. Ayame
percebeu isso rápido. Não havia tensão, nem rejeição. Só um espaço que parecia
pedir calma.
E, pela primeira vez em muito tempo, Ayame ficou quieta sem esforço.
Jiyeon
Jiyeon não costumava dividir aquele espaço.
A biblioteca era seu refúgio. O lugar onde seus pensamentos podiam se organizar
sem interferência, onde o mundo parecia obedecer a um ritmo mais lento, mais
compreensível. Pessoas raramente se aproximavam — e isso sempre foi confortável.
Ayame era uma exceção barulhenta.
Ainda assim, Jiyeon não se sentiu incomodada.
Pelo contrário — sentiu algo próximo de curiosidade.
Ela observava Ayame pelo canto do olho. Como ela tentava se conter, como mordia
levemente o lábio para não falar, como seus dedos tamborilavam na mesa em
silêncio. Era quase… engraçado.
— Que livro é esse? — Ayame perguntou, incapaz de resistir.
Jiyeon virou a capa para que ela visse.
— Histórias antigas.
— Tipo lendas?
— Tipo pessoas que viveram antes de nós.
6

Ayame inclinou a cabeça.


— Você gosta de histórias tristes?
Jiyeon pensou por um momento.
— Gosto de histórias verdadeiras.
Ayame não respondeu de imediato. Apenas assentiu, como se aquilo fizesse mais
sentido do que ela esperava.
A luz mudou devagar, nuvens cobrindo parcialmente o sol. O ambiente escureceu
um pouco, e Jiyeon sentiu o ar esfriar. Sem pensar muito, tirou a jaqueta do uniforme
e colocou sobre os ombros de Ayame.
Ayame congelou.
— Ei…
— Está frio — Jiyeon disse, simples.
Ayame segurou o tecido com cuidado, como se fosse algo frágil.
— Obrigada.
Ela sorriu — não aquele sorriso exagerado de antes, mas um menor, mais contido.
Jiyeon desviou o olhar.
Mas algo dentro dela havia se deslocado levemente.
E, por alguma razão, o silêncio da biblioteca nunca pareceu tão confortável.
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ἳ Capítulo 3 — Intervalos que Criam Raízes


(Ponto de vista principal: Seo Jiyeon, com inserções de Ayame)
Os intervalos passaram a ter um peso diferente no dia de Jiyeon.
Antes, eram apenas pausas funcionais — tempo suficiente para comer, organizar
pensamentos, observar o céu mudar um pouco. Agora, havia uma expectativa
discreta, quase imperceptível, que surgia alguns minutos antes do sinal tocar.
Ela não nomeava aquilo.
Apenas sentia.
No primeiro intervalo depois da biblioteca, Jiyeon sentou-se no mesmo banco de
sempre, perto da árvore mais antiga do pátio. O tronco grosso projetava uma sombra
irregular no chão, e o vento fazia as folhas sussurrarem em um ritmo calmo.
Ela abriu sua marmita com movimentos precisos. Arroz, legumes, tudo separado,
tudo organizado. Comeu devagar, como se o tempo não fosse algo que a
pressionasse.
— Eu te procurei.
A voz veio de cima.
Jiyeon ergueu o olhar.
Ayame estava ali, o cabelo claro preso de um jeito diferente naquele dia, alguns fios
escapando perto das orelhas. Trazia um suco numa mão e um pão embrulhado em
papel na outra. O sorriso era leve, não invasivo.
— Onde?
— Em todo lugar — Ayame respondeu, sentando-se ao lado dela sem pedir
permissão dessa vez. — Até pensei que você tinha sumido.
— Não costumo fazer isso.
— Ainda bem.
Ayame apoiou os pés no chão, balançando levemente as pernas.
— Posso ficar?
Jiyeon assentiu.
O silêncio se instalou entre elas com naturalidade. Não era vazio — era cheio de
pequenas coisas. O som distante de risadas, o vento batendo nas folhas, o barulho
quase imperceptível de Ayame abrindo o suco.
Jiyeon percebeu, com certa surpresa, que não sentia necessidade de se afastar.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame observava Jiyeon com atenção silenciosa.
Ela nunca tinha sido boa em ler pessoas quietas. Sempre preferiu quem se explicava
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em gestos grandes, palavras fáceis. Jiyeon era diferente — parecia guardar o mundo
inteiro dentro de si, e Ayame sentia uma vontade quase instintiva de tocar essa
superfície calma, nem que fosse de leve.
— Você sempre come a mesma coisa? — perguntou, tentando soar casual.
— Quase sempre.
— Não enjoa?
Jiyeon pensou por um instante.
— A repetição é confortável.
Ayame sorriu.
— Eu acho que ficaria entediada.
— Eu acho que você se perderia.
Ayame riu, surpresa.
— Ok, isso foi meio… certeiro.
Ela mordeu o pão, pensativa.
— Mas acho que você também se perderia se ficasse quieta demais.
Jiyeon olhou para ela.
— Talvez.
A palavra saiu baixa, mas carregava algo novo: possibilidade.
(Ponto de vista: Jiyeon)
Os dias seguintes se moldaram em pequenas repetições.
Ayame sempre aparecia no intervalo. Às vezes falava demais, às vezes ficava quieta
por esforço próprio. Jiyeon passou a reconhecer o som dos passos dela antes
mesmo de vê-la. Era mais rápido, menos calculado.
E, estranhamente, isso a tranquilizava.
Caminhavam juntas pelos corredores sem combinar. Ayame falava sobre coisas
simples — uma música que ouviu no ônibus, um professor estranho, o céu que
parecia mais baixo naquele dia. Jiyeon escutava. Sempre escutava.
— Você nunca fala muito de você — Ayame comentou certa vez.
— Não vejo necessidade.
— Eu vejo.
Jiyeon não respondeu.
Mas aquela frase ficou com ela mais tempo do que deveria.
(Ponto de vista: Ayame)
Ayame percebeu a mudança antes de qualquer outra pessoa.
O jeito como Jiyeon diminuía o passo para caminhar ao lado dela.
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Como inclinava levemente o corpo quando Ayame falava baixo.


Como seus olhos escuros permaneciam atentos, mesmo quando parecia distante.
Era cuidado.
E cuidado, Ayame sabia, era uma forma silenciosa de carinho.
— Jiyeon?
— Hm?
— Você gosta de estar comigo?
A pergunta saiu antes que Ayame pudesse pensar melhor.
Jiyeon parou.
O corredor estava quase vazio. A luz da tarde atravessava as janelas altas,
projetando sombras longas no chão. Por um momento, tudo pareceu suspenso.
Jiyeon demorou a responder.
— …Gosto.
Era simples. Direto. Sem enfeites.
Mas Ayame sentiu o peito apertar.
— Então tá bom — disse, sorrindo, mais suave do que nunca.
Elas voltaram a andar.
E, sem perceber, aquele intervalo deixou de ser apenas uma pausa no dia.
Virou um começo.
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ἳ Capítulo 4 — Quando Chove, o Mundo Diminui


(Ponto de vista principal: Ayame Haruna, com inserções de Jiyeon)
A chuva começou sem aviso.
Ayame percebeu primeiro pelo som — um tamborilar irregular contra as janelas da
sala, crescendo rápido demais para ser ignorado. Em poucos minutos, o céu claro
da manhã tinha se transformado em um cinza espesso, pesado, como se o mundo
tivesse decidido falar mais baixo.
Ela gostava de chuva.
Sempre gostou.
Mas naquele dia, havia esquecido o guarda-chuva.
Quando o sinal tocou, os corredores se encheram de passos apressados e
reclamações previsíveis. Ayame ficou parada por um instante, observando a água
escorrer pelos vidros altos, formando caminhos tortos que nunca se repetiam.
— Você vai ficar aqui? — perguntou, virando-se para Jiyeon.
Jiyeon já tinha guardado o material. Observava o céu com atenção silenciosa.
— Um pouco.
— Ótimo — Ayame disse, sem pensar. — Eu também.
Elas caminharam juntas até o espaço coberto próximo ao pátio. A chuva caía forte
agora, fazendo o chão brilhar. O ar estava mais frio, carregado daquele cheiro
específico de terra molhada e concreto recém-lavado.
Ayame abraçou os próprios braços.
— Eu devia ter checado a previsão…
Jiyeon não respondeu de imediato.
Ela tirou a jaqueta do uniforme com um movimento calmo, quase automático, e a
estendeu para Ayame.
— Usa.
Ayame piscou, surpresa.
— De novo?
— Você treme quando sente frio.
Ayame riu, mas aceitou. O tecido ainda guardava um pouco do calor de Jiyeon — e
algo mais difícil de explicar. Um conforto silencioso.
— Você percebe muita coisa, né?
Jiyeon deu de ombros.
— Eu observo.
Ayame vestiu a jaqueta, puxando as mangas longas demais sobre as mãos.
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— Fica enorme em mim.


— Não fica mal.
Ayame sentiu o rosto esquentar, apesar do frio.
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
A chuva sempre fez Jiyeon lembrar de transições.
De momentos em que algo mudava sem pedir permissão. O mundo diminuía, as
pessoas se recolhiam, e o silêncio se tornava mais fácil de escutar.
Ayame estava mais quieta do que o normal.
Observava a chuva com atenção, os olhos seguindo o caminho das gotas como se
aquilo fosse importante.
— Você pensa demais — Ayame comentou de repente.
— E você sente demais.
Ayame sorriu.
— Talvez a gente se equilibre.
Jiyeon não respondeu.
Mas aquela ideia não soou errada.
Um trovão distante ecoou. Ayame deu um pequeno pulo, quase imperceptível —
mas Jiyeon percebeu. Sempre percebia.
Sem pensar muito, aproximou-se um pouco mais. Não chegou a tocar. Apenas
diminuiu a distância.
Ayame notou.
E não se afastou.
O espaço entre elas ficou carregado de algo novo. Não era urgência. Era presença.
— Jiyeon… — Ayame começou, hesitante. — Você já teve alguém assim… perto?
A pergunta não era direta, mas carregava peso.
Jiyeon levou alguns segundos para responder.
— Não desse jeito.
Ayame engoliu em seco.
— Eu também não.
O barulho da chuva parecia mais alto agora, preenchendo tudo o que elas não
diziam.
(Ponto de vista: Ayame)
Havia algo diferente naquele silêncio.
Não era vazio.
Era cheio demais.
12

Ayame sentiu uma vontade estranha de segurar a mão de Jiyeon — não por impulso,
mas por necessidade. Como se aquilo fosse natural, quase inevitável.
Ela não fez isso.
Ainda.
— Quando chove — Ayame disse, tentando aliviar o peso — eu sempre sinto que o
mundo fica menor.
— Fica — Jiyeon concordou. — E mais honesto.
Ayame virou o rosto para ela.
— Você fala umas coisas assim do nada, sabia?
— Não falo do nada.
Ayame riu baixinho.
— Então… obrigada pela jaqueta.
Jiyeon assentiu.
— Pode ficar com ela hoje.
Ayame segurou o tecido com mais força.
— Então eu vou cuidar bem.
Elas ficaram ali até a chuva diminuir.
Quando finalmente caminharam de volta, dividindo o mesmo espaço sob o telhado
estreito, os ombros quase se tocando, Ayame percebeu algo com clareza
inesperada:
Ela não queria mais imaginar seus dias sem aquela presença silenciosa ao lado.
E Jiyeon, mesmo sem dizer nada, sentia o mesmo.
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ἳ Capítulo 5 — As Diferenças que Encostam


(Ponto de vista principal: Seo Jiyeon, com inserções de Ayame)
Jiyeon sempre acreditou que as coisas funcionavam melhor quando permaneciam
estáveis.
Rotinas. Horários. Distâncias bem definidas.
Era assim que o mundo fazia sentido — quando cada coisa ocupava seu lugar exato,
sem transbordar.
Por isso, demorou um pouco para perceber quando algo começou a sair desse eixo.
Ayame estava diferente.
Não no jeito de falar — ainda falava demais — nem no jeito de sorrir — ainda sorria
fácil. A diferença estava nas pausas. Nos momentos em que o olhar dela buscava
Jiyeon com mais insistência. Na forma como se aproximava sem pedir, como se
aquele espaço já fosse compartilhado.
No começo, Jiyeon não se incomodou.
Depois, começou a se sentir… alerta.
Naquela tarde, o céu estava limpo demais. O sol batia forte no pátio, fazendo o
concreto refletir luz em excesso. Jiyeon sentou-se à sombra da árvore de sempre, o
livro aberto no colo, mas sem realmente ler.
Ayame chegou atrasada, correndo.
— Desculpa! Me enrosquei falando com o pessoal da outra turma.
Ela se jogou no banco ao lado, ofegante.
— Você devia vir com a gente às vezes — disse, ainda recuperando o fôlego. —
Eles são legais.
Jiyeon não respondeu de imediato.
— Não é meu tipo de coisa.
Ayame virou o rosto para ela.
— Ficar sozinha o tempo todo também não é saudável, sabia?
A frase não foi dita com dureza.
Mas acertou em cheio.
— Eu não fico sozinha — Jiyeon respondeu, a voz baixa, controlada.
— Fica, sim — Ayame insistiu, sem perceber o peso. — Quer dizer… ficava.
O silêncio que se seguiu não foi confortável.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame percebeu tarde demais que tinha falado demais.
Ela observou Jiyeon fechar o livro com cuidado excessivo, como se aquele gesto
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fosse uma forma de se recompor. O olhar escuro desviou para o chão, distante.
— Ei… — Ayame tentou. — Eu não quis—
— Eu sei — Jiyeon interrompeu, calma demais. — Só… não gosto quando tentam
me consertar.
Ayame engoliu em seco.
— Eu não acho que você esteja quebrada.
— Mas age como se estivesse.
Aquilo doeu mais do que Ayame esperava.
Ela nunca tinha pensado em Jiyeon como alguém solitária por pena. Para Ayame, o
silêncio dela sempre foi escolha. Força. Mas, naquele momento, percebeu que tinha
projetado seu próprio jeito no mundo da outra.
— Desculpa — disse, sincera. — Eu só… me preocupo.
Jiyeon levantou o olhar lentamente.
— Eu sei. É isso que me assusta.
(Ponto de vista: Jiyeon)
Jiyeon não gostava daquela sensação.
A de que alguém enxergava além do que ela estava pronta para mostrar. Ayame
fazia isso sem esforço, com perguntas simples e presença constante. E, ainda
assim, não parecia querer invadir — só ficar.
Isso tornava tudo mais difícil.
— Você vive cercada de pessoas — Jiyeon disse, depois de um tempo. — Eu não.
— Mas você não parece infeliz — Ayame respondeu. — Só… distante.
— Distância é segurança.
Ayame ficou em silêncio.
O vento passou entre elas, mexendo as folhas da árvore. O pátio estava mais vazio
agora, e o mundo parecia grande demais de novo.
— Eu não quero te empurrar — Ayame disse por fim. — Só não quero ser mantida
do lado de fora.
Jiyeon fechou os olhos por um breve instante.
Aquilo era o medo nomeado.
— Eu não sei fazer diferente — confessou.
A honestidade caiu pesada entre elas.
(Ponto de vista: Ayame)
Ayame sentiu algo apertar no peito.
Ela sempre se jogou nas coisas. Pessoas, sentimentos, momentos. Jiyeon era o
15

oposto — media, calculava, segurava. Nenhuma das duas estava errada. Mas o
encontro dessas diferenças criava tensão.
— A gente não precisa ser igual — Ayame disse, mais suave. — Só… sincera.
Jiyeon abriu os olhos.
— Eu estou tentando.
Ayame sorriu pequeno.
— Então tá bom. Eu espero.
A palavra ecoou forte.
Esperar.
Jiyeon assentiu.
E, naquele instante, entendeu algo novo:
o medo não vinha de Ayame querer entrar — vinha do fato de que Jiyeon queria
deixar.
Elas ficaram ali até o sinal tocar, sem se afastar, sem se tocar.
As diferenças ainda estavam ali. Visíveis. Reais.
Mas, pela primeira vez, não pareciam um obstáculo.
Pareciam uma ponte em construção.
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ἳ Capítulo 6 — O Toque que Não Foi Acidente


(Ponto de vista alternado: Jiyeon → Ayame)
Jiyeon
Depois daquela conversa sob a árvore, Jiyeon passou a perceber Ayame de um jeito
diferente.
Não era algo visível, não era mudança de comportamento. Era interno. Um estado
constante de atenção. Como se cada gesto de Ayame carregasse agora um peso
novo, uma possibilidade que Jiyeon ainda não tinha decidido se queria explorar —
mas já não conseguia ignorar.
Ela continuou indo à biblioteca.
Ayame continuou aparecendo.
Mas agora havia cuidado.
Ayame falava menos quando Jiyeon lia. Jiyeon fechava o livro mais cedo quando
Ayame chegava. Pequenos ajustes silenciosos, quase imperceptíveis, como se
estivessem aprendendo uma nova coreografia.
Naquela tarde, a biblioteca estava quase vazia. O céu do lado de fora tinha uma cor
indefinida, entre azul e cinza, e o vento fazia as janelas vibrarem levemente. Jiyeon
estava sentada na mesma mesa de sempre, mas não lia. Observava o reflexo do
vidro.
Ayame chegou sem fazer barulho.
— Você parece distante hoje — disse, em voz baixa.
— Estou pensando.
— Isso parece perigoso.
Jiyeon quase sorriu.
Ayame se sentou ao lado dela, não à frente. Aquilo foi novo. A proximidade era
diferente quando não havia uma mesa entre elas. Jiyeon sentiu o calor do corpo de
Ayame, leve, constante.
— Posso te perguntar uma coisa? — Ayame disse.
— Pode.
— Você fica desconfortável comigo perto assim?
Jiyeon não respondeu de imediato. O silêncio se alongou, mas não foi pesado.
Apenas honesto.
— Não — disse, por fim. — Só… alerta.
— Alerta como quem espera algo ruim?
— Alerta como quem não quer errar.
17

Ayame virou o rosto para ela.


— Você nunca parece errar.
Jiyeon desviou o olhar.
— Parece.
Um livro caiu da mesa ao lado. O barulho ecoou mais alto do que deveria. Ayame se
abaixou para pegar, e Jiyeon fez o mesmo.
As mãos se encontraram.
Não foi um toque rápido.
Não foi acidental.
Os dedos de Jiyeon eram grandes, quentes. Os de Ayame, mais finos, levemente
frios. O contato durou um segundo a mais do que o necessário — o suficiente para
que ambas percebessem.
Jiyeon foi a primeira a soltar.
Mas não se afastou.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame sentiu o toque subir pelo braço como um arrepio inesperado.
Ela ficou imóvel por um instante, segurando o livro contra o peito, tentando entender
o que estava sentindo. Não era nervosismo comum. Era atenção concentrada
demais em algo pequeno demais.
Ela voltou a se sentar, o coração batendo mais rápido do que deveria.
— Jiyeon…
— Sim?
— A gente tá fazendo isso devagar demais?
Jiyeon franziu levemente a testa.
— Isso o quê?
Ayame respirou fundo.
— Isso aqui.
Ela não apontou. Não precisava.
Jiyeon olhou para as próprias mãos, apoiadas sobre a mesa. Pensou em quantas
vezes elas tinham se fechado em punhos, quantas vezes tinham sido usadas como
defesa, como distância.
— Eu não sei ir rápido — respondeu.
Ayame sorriu pequeno.
— Eu posso aprender devagar.
Aquilo ficou suspenso no ar.
18

Jiyeon estendeu a mão. Não totalmente. Apenas o suficiente.


Ayame hesitou por meio segundo — depois entrelaçou os dedos nos dela.
O toque era firme. Quente. Real.
Jiyeon sentiu o corpo inteiro reagir, não de forma explosiva, mas profunda. Como
algo que se encaixa depois de muito tempo fora do lugar.
— Se quiser soltar — Jiyeon disse — é só—
— Eu não quero.
A resposta veio imediata.
Elas ficaram assim por longos minutos, mãos dadas sobre a mesa da biblioteca,
enquanto o mundo seguia indiferente ao redor. Nenhum beijo. Nenhuma palavra
grande.
Só presença.
(Ponto de vista: Jiyeon)
Jiyeon percebeu algo importante naquele momento.
O medo não tinha ido embora.
Mas estava quieto.
E, pela primeira vez, ela não sentiu vontade de fugir.
Quando o sinal tocou, Ayame apertou levemente sua mão antes de soltar.
— Obrigada por confiar — disse.
Jiyeon assentiu.
— Obrigada por esperar.
Elas saíram da biblioteca lado a lado, sem se tocar, mas com uma certeza nova
caminhando entre elas.
Aquilo não era mais apenas amizade.
E nenhuma das duas queria fingir que era.
19

ἳ Capítulo 7 — O Que Quase Se Diz


(Ponto de vista principal: Ayame Haruna, com inserções de Jiyeon)
Depois do dia na biblioteca, Ayame passou a sentir o tempo de forma diferente.
Não era ansiedade, nem euforia. Era como se cada momento tivesse ganhado
contorno. Como se os dias não fossem mais uma sequência contínua, mas
pequenos quadros que ela guardava sem perceber.
Jiyeon não tinha mudado.
E, ainda assim, tudo tinha mudado.
Elas continuaram caminhando juntas pelos corredores, dividindo intervalos, sentando
lado a lado na sala. O toque das mãos não se repetiu imediatamente — e isso,
estranhamente, tornou tudo mais intenso. Ayame sentia a presença de Jiyeon como
uma linha constante, silenciosa, firme.
Naquela tarde, ficaram na sala depois do horário. O céu lá fora começava a ganhar
tons alaranjados, e a escola, aos poucos, ia se esvaziando. O som distante de portas
se fechando e passos ecoava pelos corredores.
Ayame estava sentada na mesa, balançando as pernas, observando Jiyeon
organizar os próprios materiais com a mesma precisão de sempre.
— Você faz tudo com cuidado — comentou.
— É hábito.
— Ou medo?
Jiyeon parou por um segundo.
— Talvez os dois.
Ayame desceu da mesa, aproximando-se devagar. Não invadiu o espaço. Apenas
entrou nele com cautela, como quem aprende um território novo.
— Eu não quero te pressionar — disse. — Mas também não quero fingir que nada tá
acontecendo.
Jiyeon fechou a mochila.
— Nem eu.
A resposta foi baixa, mas clara.
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
Jiyeon sentia o corpo mais atento do que o normal. Cada movimento de Ayame era
registrado com precisão exagerada. O jeito como ela inclinava a cabeça quando
pensava. Como mordia o lábio sem perceber. Como diminuía o tom de voz quando
ficava séria.
Aquilo a deixava vulnerável.
20

— Quando você segura minha mão — Ayame disse, hesitante — eu sinto que…
você tá escolhendo ficar.
Jiyeon respirou fundo.
— Eu estou.
A confirmação caiu pesada entre elas.
Ayame sorriu, mas havia algo nos olhos dela — não euforia, mas cuidado. Como se
entendesse que aquilo não era simples para Jiyeon.
— Eu não preciso de tudo agora — disse. — Só de verdade.
Jiyeon assentiu.
— Eu só sei ser verdadeira assim.
Ela tocou levemente o pulso de Ayame, um gesto mínimo, quase invisível para quem
observasse de fora.
— Devagar.
Ayame fechou os olhos por um instante.
— Devagar tá bom.
(Ponto de vista: Ayame)
O sol já estava baixo quando elas saíram da sala. O corredor estava vazio, longo
demais, silencioso demais. O som dos passos ecoava, criando uma sensação
estranha de intimidade — como se aquele espaço tivesse sido feito apenas para elas
naquele momento.
Ayame caminhava ao lado de Jiyeon, próxima o suficiente para sentir o calor do
corpo dela, mas sem tocar. Aquela distância mínima era quase mais intensa do que
o toque.
— Jiyeon?
— Hm?
— Você tem medo de mim?
Jiyeon parou.
O mundo pareceu segurar o fôlego.
— Não — respondeu. — Tenho medo de mim com você.
Ayame sentiu o coração apertar.
— Eu não quero te machucar.
— Eu sei.
— Mesmo sem saber tudo?
— Mesmo assim.
O vento atravessou o corredor, levantando alguns papéis esquecidos no chão. O
21

som foi suave, quase melancólico.


Ayame deu um passo à frente, ficando bem próxima. Não tocou. Apenas esteve ali.
— Então… a gente pode continuar?
Jiyeon encontrou o olhar dela.
— Podemos.
Ayame sorriu. Não aquele sorriso aberto de sempre. Um menor, mais quieto, quase
tímido.
— Isso já é muito pra mim.
(Ponto de vista: Jiyeon)
Jiyeon observou Ayame se afastar alguns passos, caminhando em direção à saída
da escola. Por um impulso raro, chamou seu nome.
— Ayame.
Ela virou-se imediatamente.
Jiyeon hesitou. As palavras estavam ali, prontas, mas pesadas demais.
— Obrigada por não ir embora.
Ayame piscou, surpresa.
— Eu não iria.
— Mesmo se eu demorar?
Ayame pensou por um instante.
— Eu espero — disse, com firmeza. — Não porque eu tenho que esperar. Mas
porque eu quero.
Jiyeon assentiu.
E, naquele momento, entendeu algo fundamental:
não era mais sobre medo ou controle.
Era sobre escolha.
E ambas estavam escolhendo ficar.
22

ἳ Capítulo 8 — Quando o Cotidiano Aprende um Nome


(Ponto de vista principal: Seo Jiyeon, com inserções de Ayame)
Jiyeon percebeu que algo tinha se estabelecido quando parou de estranhar a
presença de Ayame.
Não foi um evento específico.
Não houve um dia exato.
Apenas aconteceu.
Ayame passou a fazer parte do ritmo das coisas, como o som do sinal, como a luz
da manhã entrando pela janela da sala, como o vento que atravessava o pátio no fim
da tarde. Não era mais novidade. Era constância.
E constância, para Jiyeon, sempre foi algo sério.
Elas caminhavam juntas até a escola sem combinar. Às vezes Ayame aparecia do
nada, surgindo do outro lado da rua com um aceno animado; às vezes Jiyeon já a
esperava no ponto, apoiada no poste, expressão neutra, mas olhos atentos.
— Você sabia que já virou parte do meu caminho? — Ayame comentou certa manhã,
ajustando a mochila.
— Eu caminho pelo mesmo trajeto há anos.
— Mesmo assim — Ayame insistiu. — Agora é diferente.
Jiyeon não respondeu.
Mas diminuiu o passo para acompanhar o dela.
Na sala, os colegas começaram a notar. Não de forma direta, não com comentários
explícitos — apenas olhares prolongados, cochichos baixos, aquela curiosidade
vaga que surge quando algo foge do padrão.
Jiyeon sentia isso.
Mas não se importava tanto quanto imaginava que se importaria.
Ayame sentava ao seu lado sem pedir. Emprestava canetas, apoiava o cotovelo na
mesa dela, inclinava-se para sussurrar comentários inúteis durante a aula. Jiyeon
não afastava. Às vezes, até inclinava o corpo em resposta.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame gostava daquele silêncio compartilhado.
Era diferente de qualquer outro que já tinha vivido. Não era constrangimento, nem
tédio. Era conforto. Ela conseguia sentir quando Jiyeon estava cansada, quando
estava pensativa, quando precisava apenas de companhia sem perguntas.
Naquela tarde, sentaram-se no banco do pátio, o sol filtrado pelas folhas da árvore
antiga. Ayame estava quieta demais — algo raro.
23

— Você tá estranha hoje — Jiyeon observou.


— Eu? Nunca.
— Agora está.
Ayame sorriu, mas havia algo contido ali.
— As pessoas estão reparando.
Jiyeon pensou por um instante.
— E isso te incomoda?
Ayame balançou a cabeça.
— Não. Só… me faz pensar.
— Em quê?
Ayame olhou para as próprias mãos.
— Em quanto eu gosto disso aqui. E em como não quero estragar.
Jiyeon sentiu o peito apertar de leve.
— Você não vai.
Ayame ergueu o olhar, surpresa.
— Como você sabe?
— Porque você se importa demais para estragar.
Ayame riu baixo.
— Você fala essas coisas do nada e finge que não é nada demais.
Jiyeon desviou o olhar.
— Não falo do nada.
(Ponto de vista: Jiyeon)
Jiyeon não estava acostumada a ser vista daquele jeito.
Não como alguém solitária, não como alguém distante — mas como alguém com
alguém. A ideia ainda era estranha. Às vezes assustadora. Mas, quando pensava
em Ayame, o medo diminuía.
Na biblioteca, dividiram a mesma mesa outra vez. Ayame não fingia mais que estava
ali por acaso. Tirava um livro qualquer da estante e se sentava ao lado dela,
encostando levemente o ombro.
Jiyeon permitia.
Em um desses dias, Ayame adormeceu sobre a mesa, a cabeça apoiada nos braços.
Jiyeon percebeu quando a respiração dela ficou mais lenta, mais profunda.
Sem pensar muito, tirou o próprio casaco e colocou sobre os ombros dela, com
cuidado extremo para não acordá-la.
Ficou ali, observando.
24

O rosto relaxado. As sobrancelhas levemente franzidas mesmo dormindo. Jiyeon


sentiu algo suave e forte ao mesmo tempo se instalar no peito.
Cuidado.
(Ponto de vista: Ayame)
Ayame acordou com a sensação de calor.
Demorou alguns segundos para entender onde estava. Quando percebeu o casaco
sobre si e Jiyeon sentada ao lado, lendo em silêncio, algo dentro dela se acalmou
imediatamente.
— Você podia ter me acordado — murmurou.
— Você parecia cansada.
Ayame sorriu, ainda sonolenta.
— Você cuida de mim o tempo todo, sabia?
Jiyeon fechou o livro.
— Você percebe.
— Percebo.
Ayame estendeu a mão, sem olhar diretamente. Jiyeon hesitou apenas um segundo
antes de entrelaçar os dedos nos dela, discreto, abaixo da mesa.
Ninguém viu.
Mas, para Ayame, o mundo inteiro tinha acabado de notar.
(Ponto de vista: Jiyeon)
Enquanto caminhavam para fora da escola naquele dia, Jiyeon sentiu algo novo.
Não urgência.
Não medo.
Responsabilidade.
Não no sentido pesado — mas no sentido de escolha contínua. Estar ali. Manter
aquilo. Cuidar.
Ayame caminhava ao seu lado, falando sobre coisas pequenas, e Jiyeon escutava
como sempre.
Só que agora, ela sabia:
Aquilo já não era apenas um encontro de rotinas.
Era um cotidiano com nome, com presença, com afeto silencioso.
E, pela primeira vez, Jiyeon não quis proteger isso se afastando.
Quis proteger ficando.
25

ἳ Capítulo 9 — Entre Silêncios e Risadas


(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
A biblioteca sempre foi um lugar confortável para Jiyeon.
Não por gostar exatamente de estudar — ela gostava, mas não era isso. Era o
silêncio. O tipo de silêncio que não cobra explicações, que não exige respostas
rápidas, que simplesmente existe. As estantes altas, o cheiro de papel antigo, o som
distante das páginas sendo viradas… tudo ali parecia aceitar quem ela era sem
tentar mudá-la.
Ela estava sentada perto da janela, como sempre. A luz da tarde atravessava o vidro
e caía sobre a mesa de madeira clara, iluminando metade de seu caderno. A outra
metade permanecia em sombra. Jiyeon nunca soube dizer se aquilo era coincidência
ou se ela mesma escolhia, inconscientemente, sentar sempre entre dois mundos.
Ela tentava se concentrar no texto à sua frente, mas as palavras não entravam.
Porque Ayame estava ali.
Não sentada com ela — ainda não — mas alguns metros adiante, inclinada sobre
outra mesa, rodeada por duas colegas que riam baixo, tentando conter o som para
não chamar a atenção da bibliotecária. Ayame falava em sussurros exagerados,
gesticulando como se estivesse contando uma história épica, e mesmo sem ouvir
nada, Jiyeon conseguia imaginar o tom.
Era estranho. Jiyeon nunca foi alguém que prestava atenção nas pessoas ao redor.
Normalmente, o mundo se dissolvia quando ela se sentava com um livro. Mas desde
que Ayame entrara na vida dela, o silêncio havia ganhado… interrupções.
E ela não odiava isso.
Ayame levantou os olhos de repente — como se sentisse o olhar — e encontrou
Jiyeon observando. Por um segundo, Jiyeon pensou em desviar. Seu corpo já
estava acostumado a esse reflexo.
Mas não desviou.
Ayame sorriu.
Não foi um sorriso grande, escandaloso como de costume. Foi menor. Quase tímido.
Um sorriso guardado só para ela. Ayame se despediu das colegas com um aceno
rápido e veio andando entre as mesas, passos leves, como se estivesse entrando
em território sagrado.
— Posso? — ela perguntou em voz baixa, apontando para a cadeira em frente.
Jiyeon assentiu.
Ayame se sentou com cuidado, apoiando os cotovelos na mesa e inclinando o rosto
26

para mais perto, como se aquele pequeno espaço entre elas fosse algo precioso
demais para desperdiçar.
— Você sempre senta aqui — murmurou. — Comecei a perceber isso.
Jiyeon piscou devagar.
— E você sempre fala demais — respondeu, no mesmo tom baixo.
Ayame mordeu o lábio para segurar o riso.
— Ei, eu tô me controlando! Isso aqui — ela fez um gesto vago ao redor — é
basicamente tortura pra mim.
Jiyeon sentiu algo suave se formar no peito. Não exatamente um sorriso, mas algo
próximo. Um afrouxamento. Como se, perto de Ayame, ela pudesse baixar a guarda
sem perceber.
O silêncio voltou a se instalar entre elas, mas era diferente do silêncio comum da
biblioteca. Era um silêncio compartilhado. Confortável. Vivo.
Jiyeon voltou os olhos para o caderno, mas agora as palavras pareciam menos
distantes. Ela escrevia devagar, concentrada, consciente do movimento de Ayame
do outro lado da mesa — o som da caneta, o jeito como ela balançava a perna, o
suspiro leve quando se distraía.
— Jiyeon — Ayame chamou de repente, quase num sussurro conspiratório.
— Hm?
— Você acredita que duas pessoas podem se entender sem falar quase nada?
A pergunta pegou Jiyeon desprevenida.
Ela ergueu os olhos lentamente e encontrou o olhar de Ayame, sério dessa vez.
Curioso. Vulnerável.
Jiyeon pensou por alguns segundos.
— Sim — respondeu. — Mas só se elas estiverem dispostas a escutar de verdade.
Ayame sorriu de novo. Dessa vez, foi aberto. Quente.
— Que bom — ela disse. — Porque eu sinto que… às vezes, você fala comigo
mesmo quando não diz nada.
O coração de Jiyeon bateu mais forte, rápido demais para alguém que se dizia
tranquila. Ela desviou o olhar, não por desconforto, mas por não saber o que fazer
com aquilo que surgia dentro dela — algo delicado, crescente, impossível de ignorar.
Do lado de fora, o sol começava a descer, tingindo o céu de laranja e rosa. A luz
atravessava a janela e agora iluminava o rosto de Ayame por completo.
Jiyeon pensou, pela primeira vez, que talvez o silêncio não fosse mais o único lugar
onde ela se sentia segura.
27

Talvez Ayame estivesse começando a ocupar esse espaço também.


28

ἳ Capítulo 10 — O Calor das Coisas Simples


(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame sempre achou que o fim da tarde tinha um gosto diferente.
Não era algo que ela soubesse explicar direito — talvez fosse o ar mais frio, o jeito
como o céu parecia suspirar antes de escurecer, ou aquela sensação estranha de
que o dia estava se despedindo devagar. Ela gostava disso. Gostava de sentir que
algo estava acabando para que outra coisa pudesse começar.
Naquele dia, porém, o fim da tarde parecia… mais vivo.
Ela caminhava ao lado de Jiyeon, saindo da biblioteca, os passos ecoando
suavemente pelo corredor quase vazio. A escola ficava estranhamente silenciosa
depois que a maioria dos alunos ia embora. Ayame falava menos nessas horas. Não
porque não quisesse falar — mas porque percebia que Jiyeon apreciava esse tipo de
quietude.
E, de algum modo, Ayame queria aprender a existir ali.
— O céu tá bonito hoje — comentou, quebrando o silêncio enquanto empurravam o
portão da escola.
Jiyeon ergueu os olhos, seguindo o olhar dela.
— Está — respondeu simplesmente.
Ayame sorriu. Era isso que ela gostava em Jiyeon. Não havia exagero. Não havia
tentativa de preencher o espaço com palavras vazias. Quando Jiyeon dizia algo, era
porque realmente sentia.
Elas começaram a caminhar pela rua estreita que levava ao bairro residencial.
Árvores alinhadas lançavam sombras longas no asfalto, e o vento balançava as
folhas com um som suave, quase como um sussurro.
Ayame colocou as mãos nos bolsos do casaco e pensou, não pela primeira vez, em
como era estranho se sentir tão confortável com alguém tão diferente dela.
Ela sempre foi barulho. Riso alto. Emoções transbordando antes mesmo de serem
entendidas. Jiyeon era o oposto — quieta, contida, como um lago profundo que não
revelava facilmente o que guardava no fundo.
E mesmo assim… ali estavam.
— Jiyeon — Ayame disse de repente, sem olhar diretamente para ela. — Você já se
sentiu… deslocada?
A pergunta escapou antes que ela pudesse pensar melhor. Ayame prendeu a
respiração por um segundo, com medo de ter ido longe demais.
Jiyeon diminuiu o passo.
29

— Muitas vezes — respondeu depois de um momento.


Ayame olhou para ela, surpresa pela resposta imediata.
— Eu também — confessou. — Mesmo cercada de gente. Às vezes parece que eu
tô sempre… atuando. Como se estivesse tentando ser quem esperam que eu seja.
Ela riu baixo, mas não havia humor naquele som.
— Mas com você… eu não sinto isso.
Jiyeon parou completamente dessa vez. Ayame também parou, virando-se para
encará-la. O céu atrás delas estava tingido de tons quentes, e a luz do entardecer
deixava os contornos de Jiyeon ainda mais suaves.
— Você não precisa ser nada além do que já é — Jiyeon disse. — Pelo menos…
não comigo.
Ayame sentiu algo apertar dentro do peito. Um calor repentino, inesperado, que
subiu até os olhos.
Ela piscou rápido, tentando afastar a emoção.
— Você fala coisas perigosas assim com todo mundo? — tentou brincar.
— Não — Jiyeon respondeu. — Só com você.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi denso. Carregado de algo que
nenhuma das duas ainda tinha coragem de nomear.
Ayame sentiu vontade de segurar a mão de Jiyeon. A ideia atravessou sua mente
com tanta clareza que chegou a assustá-la. Seus dedos se moveram levemente,
mas ela conteve o impulso. Ainda não.
Elas voltaram a caminhar, agora mais próximas, os ombros quase se tocando.
Quando chegaram à esquina onde seus caminhos se separavam, Ayame parou.
— Amanhã… — começou, hesitando pela primeira vez desde que conhecia Jiyeon.
— Você quer almoçar comigo?
Jiyeon a encarou por alguns segundos. Ayame sentiu o coração acelerar, como se
estivesse esperando um veredito.
— Quero — Jiyeon respondeu.
O sorriso que se abriu no rosto de Ayame foi inevitável. Luminoso. Real.
— Então… até amanhã — disse, dando um pequeno aceno antes de se afastar.
Ela caminhou alguns passos e então olhou para trás. Jiyeon ainda estava ali,
observando-a ir embora.
Por algum motivo, isso fez Ayame sentir que aquele simples “até amanhã” carregava
mais peso do que qualquer promessa grandiosa.
E, pela primeira vez em muito tempo, ela teve certeza de que estava exatamente
30

onde deveria estar.


31

ἳ Capítulo 11 — O Espaço Entre Dois Pratos


(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O refeitório da escola nunca foi um lugar especial para Jiyeon.
Era barulhento demais, cheio demais, vivo demais. Ela costumava sentar no canto
mais afastado, comer rápido e sair antes que alguém puxasse conversa. Não por
antipatia — apenas por necessidade. Estar sozinha era mais simples.
Mas naquele dia, algo estava diferente.
Ela entrou no refeitório e imediatamente avistou Ayame, sentada à mesa perto da
janela, acenando discretamente, como se não quisesse chamar atenção demais.
Ainda assim, o sorriso dela era impossível de ignorar.
Jiyeon sentiu aquele conhecido aperto suave no peito. Uma mistura estranha de
expectativa e cautela.
Ela caminhou até a mesa, sentando-se em frente a Ayame.
— Você chegou cedo — comentou.
— Eu tava… ansiosa — Ayame admitiu, mexendo nos hashis com nervosismo
contido. — Não queria perder você no meio da multidão.
Jiyeon assentiu em silêncio. Havia algo reconfortante naquela frase. Ser alguém que
não se queria perder.
O barulho ao redor continuava intenso — risadas altas, cadeiras arrastando,
conversas sobre provas e clubes — mas, à medida que Jiyeon se acomodava na
cadeira, tudo parecia se afastar um pouco. Como se aquele pequeno espaço entre
elas fosse um mundo separado.
Elas começaram a comer em silêncio.
Jiyeon não se sentia pressionada a falar, e isso era raro. Ayame parecia entender
intuitivamente quando deixar o silêncio existir e quando preenchê-lo. De vez em
quando, ela comentava algo simples — a comida, um professor estranho, o clima —
e Jiyeon respondia do jeito que conseguia: poucas palavras, mas sinceras.
Ayame observava tudo.
O jeito como Jiyeon segurava os hashis com precisão. A forma concentrada como
mastigava, como se cada detalhe merecesse atenção. Até o modo como desviava o
olhar quando percebia que estava sendo observada.
— Você é muito… presente — Ayame disse de repente.
Jiyeon ergueu os olhos.
— Presente?
— É — Ayame explicou, apoiando o queixo na mão. — Parece que quando você tá
32

em algum lugar, você tá de verdade. Não fica metade em outro pensamento, metade
no celular, metade em outra pessoa.
Jiyeon pensou antes de responder.
— Talvez porque eu não saiba estar em muitos lugares ao mesmo tempo.
— Eu sou o oposto — Ayame riu baixo. — Minha cabeça nunca para.
O comentário soou leve, mas Jiyeon percebeu algo por trás dele. Um cansaço
discreto. Um esforço constante para acompanhar o mundo.
— Sua cabeça não precisa parar comigo — Jiyeon disse. — Ela pode… descansar.
Ayame piscou, surpresa. Depois sorriu — um sorriso mais suave, menos barulhento.
— Você fala essas coisas como se não fossem nada.
— Pra mim, são.
O silêncio voltou, mas agora era diferente do da biblioteca. Era um silêncio cheio de
ruídos externos, mas internamente calmo.
De repente, uma voz conhecida interrompeu o momento.
— Ayame! — uma colega chamou de outra mesa. — Você vai treinar hoje?
Ayame virou-se.
— Ah… vou sim — respondeu, hesitando por um segundo antes de olhar para
Jiyeon. — Quer… assistir?
A pergunta não parecia casual. Havia cuidado nela. E uma ponta de medo.
Jiyeon não gostava de lugares cheios. Não gostava de ser espectadora de algo que
não entendia. Mas a ideia de ver Ayame em outro ambiente, sendo outra versão de
si mesma… despertou curiosidade.
— Quero — respondeu.
Os olhos de Ayame brilharam.
— Sério?
— Sério.
O sorriso que Ayame deu dessa vez foi quase contido demais para alguém como ela.
O sinal tocou pouco depois, e elas se levantaram juntas. Enquanto caminhavam para
fora do refeitório, Jiyeon percebeu algo novo: as pessoas olhavam. Não de forma
hostil, mas curiosa. Duas figuras tão diferentes andando lado a lado.
Normalmente, isso a faria se afastar.
Mas não agora.
Ao atravessar o corredor, Ayame deixou o braço encostar no dela. Não foi
exatamente um toque intencional — mais um teste. Jiyeon sentiu o contato, breve e
quente, e não se afastou.
33

Ayame percebeu.
E sorriu.
Talvez fosse cedo para dar nomes às coisas. Talvez fosse cedo para entender o que
estava acontecendo entre elas.
Mas Jiyeon tinha certeza de uma coisa: aquele espaço entre dois pratos, duas
cadeiras, dois silêncios… estava ficando cada vez menor.
34

ἳ Capítulo 12 — O Jeito Como Você Se Move


(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O ginásio da escola era tudo o que Jiyeon normalmente evitava.
Grande demais. Aberto demais. Cheio de ecos — de vozes, de passos, de
expectativas. O som da bola batendo no chão reverberava nas paredes altas,
misturado com risadas e gritos animados. Para Jiyeon, era como entrar em um
espaço onde ela não tinha controle sobre nada.
Ainda assim, ela entrou.
Sentou-se na arquibancada mais baixa, próxima à lateral da quadra, mantendo a
mochila apoiada entre os pés. Cruzou as mãos no colo e respirou fundo, observando
o ambiente com atenção silenciosa.
Então ela viu Ayame.
Não foi difícil encontrá-la.
Ayame se movia pela quadra como se aquele lugar fosse uma extensão natural do
corpo dela. O uniforme do clube, simples, parecia ganhar vida com cada passo
rápido, cada giro, cada risada jogada no ar sem medo. Ela falava alto, encorajava as
colegas, reclamava quando errava e comemorava exageradamente quando
acertava.
Era… diferente.
Jiyeon sentiu algo estranho ao observá-la daquele ângulo. Ayame não estava
voltada para ela. Não estava tentando impressionar ninguém em específico. Ela
apenas era — intensa, luminosa, inteira.
E isso a atingiu mais fundo do que Jiyeon esperava.
Enquanto o treino seguia, Jiyeon percebeu pequenos detalhes que normalmente
passariam despercebidos: o jeito como Ayame franzia a testa ao se concentrar,
como mordia o lábio inferior antes de tentar algo difícil, como seus olhos procuravam
rapidamente a arquibancada entre uma jogada e outra.
Até que encontraram os dela.
Por um segundo, o barulho ao redor pareceu desaparecer.
Ayame sorriu — um sorriso rápido, quase secreto — e voltou a se mover. Jiyeon
sentiu o peito apertar levemente. Não de ansiedade. De algo mais delicado. Uma
sensação de pertencimento silencioso.
Ela ficou ali durante todo o treino.
Observando. Pensando. Sentindo.
Percebeu como algumas pessoas se aproximavam naturalmente de Ayame, como
35

ela respondia com facilidade, como parecia caber em todos os espaços sem esforço.
Jiyeon, por outro lado, sentia que sempre ocupava os lugares com cuidado
excessivo, como se tivesse medo de incomodar.
A diferença entre elas nunca tinha sido tão clara.
Quando o treino acabou, Ayame veio correndo até a arquibancada, o rosto
levemente corado, o cabelo preso já começando a se soltar.
— Você ficou mesmo! — disse, ofegante, como se ainda estivesse surpresa.
— Eu disse que ficaria — Jiyeon respondeu.
Ayame apoiou as mãos nos joelhos por um momento, respirando fundo, depois se
endireitou.
— Foi estranho? Chato?
— Não — Jiyeon disse. — Foi… interessante.
Ayame riu.
— Interessante é uma palavra muito você.
Elas começaram a caminhar para fora do ginásio, Ayame falando sobre o treino,
reclamando de uma jogada errada, rindo de si mesma. Jiyeon escutava com
atenção, mesmo quando não entendia completamente os detalhes.
— Você não pareceu desconfortável — Ayame comentou de repente, olhando de
lado. — Eu achei que esse lugar ia te incomodar.
— Um pouco — Jiyeon admitiu. — Mas ver você ali… ajudou.
Ayame parou de andar.
— Ajudou como?
Jiyeon hesitou. Não gostava de se expor. Mas algo naquele olhar atento, sincero, a
fez continuar.
— Você parece… feliz quando se move. Como se estivesse exatamente onde
deveria estar.
Ayame ficou em silêncio por um instante. Depois sorriu, mas dessa vez havia algo
mais contido, quase emocionado.
— Eu me sinto assim — confessou. — Mas é estranho… porque quando você tá por
perto, eu sinto isso mesmo sem estar correndo, pulando, fazendo barulho.
Jiyeon sentiu o coração bater mais forte.
Elas retomaram a caminhada, agora mais próximas. Os corredores estavam vazios,
o céu do lado de fora já começando a escurecer.
Ao chegarem perto da saída, Ayame diminuiu o passo.
— Jiyeon… — começou, hesitando. — Você acha estranho… a gente passar tanto
36

tempo juntas?
Jiyeon olhou para ela.
— Não.
— As pessoas podem comentar — Ayame continuou, em tom mais baixo.
— Que comentem — Jiyeon respondeu, sem dureza, apenas com convicção. — Eu
não me importo.
Ayame parou de novo. Olhou para Jiyeon como se estivesse vendo algo que não
tinha notado antes.
— Eu me importo — disse com honestidade. — Mas… não o suficiente pra querer
me afastar.
O silêncio que se seguiu foi carregado. Não desconfortável — apenas cheio demais
para ser ignorado.
Por um instante, Jiyeon achou que Ayame diria algo mais. Ou que ela mesma diria.
Mas nenhuma das duas o fez.
E, estranhamente, isso foi suficiente.
Enquanto saíam da escola, caminhando lado a lado sob o céu escurecido, Jiyeon
percebeu algo com clareza inesperada:
Ela não tinha medo do barulho do mundo.
Tinha medo apenas de perder aquele silêncio compartilhado que começava a
significar tudo.
37

ἳ Capítulo 13 — O Que os Outros Veem


(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame começou a perceber os olhares antes mesmo de ouvir qualquer comentário.
Não eram olhares maldosos. Não exatamente. Eram curiosos. Demorados demais.
Como se as pessoas tentassem montar um quebra-cabeça silencioso enquanto
observavam algo simples demais para parecer importante: ela e Jiyeon andando
juntas pelos corredores.
No começo, Ayame achou engraçado.
— As pessoas encaram muito, né? — comentou certa manhã, enquanto
caminhavam para a sala.
Jiyeon deu de ombros.
— Sempre encaram.
— É — Ayame riu. — Mas agora parece… diferente.
Jiyeon não respondeu. Apenas caminhou um pouco mais perto, o suficiente para que
seus ombros quase se tocassem. Ayame sentiu o gesto como uma resposta
silenciosa.
Na sala de aula, Ayame se sentou atrás de Jiyeon, como vinha fazendo nos últimos
dias. Não era proposital no início — simplesmente acontecia. Ela gostava de
observar o jeito concentrado de Jiyeon, o movimento cuidadoso da caneta, a
expressão levemente fechada quando pensava demais.
Às vezes, Ayame se pegava sorrindo sozinha.
— Você tá feliz ultimamente — cochichou uma colega ao lado, durante um momento
em que o professor escrevia no quadro.
Ayame piscou.
— Eu?
— É — a garota respondeu. — Parece… mais calma.
Ayame quase riu. Aquilo era irônico, considerando o turbilhão que sentia por dentro.
Mas não negou.
Ela olhou para a frente, para Jiyeon, que não parecia notar nada ao redor. Ou talvez
notasse tudo e apenas escolhesse ignorar.
No intervalo, elas sentaram juntas como sempre. Dividiram um lanche. Trocaram
comentários pequenos, risadas contidas. Nada que justificasse tanto interesse
externo — e ainda assim, Ayame sentia como se estivesse sendo observada de um
palco invisível.
Foi quando ouviu.
38

— Vocês duas são bem próximas, né?


A voz veio de outra mesa, casual demais para ser inocente.
Ayame virou-se, surpresa, e sentiu o corpo enrijecer levemente. Jiyeon permaneceu
imóvel, os olhos baixos, mas claramente atenta.
— Somos amigas — Ayame respondeu, rápido demais.
A garota sorriu, aquele sorriso que dizia entendi, mas não totalmente.
— Parece mais do que isso.
O comentário ficou suspenso no ar por um segundo longo demais.
Ayame sentiu o coração bater forte. Olhou para Jiyeon, esperando… alguma reação.
Qualquer coisa.
Jiyeon ergueu o olhar lentamente.
— Isso é um problema? — perguntou, em tom calmo.
O silêncio que se seguiu foi quase desconfortável.
— Não — a garota respondeu, erguendo as mãos. — Só achei… bonito.
Ela se afastou logo depois, como se tivesse percebido que tinha ido longe demais.
Ayame soltou o ar que nem tinha percebido estar segurando.
— Você não precisava responder assim — murmurou.
— Precisava, sim — Jiyeon disse. — Não gosto quando tentam definir algo que
ainda está… acontecendo.
Ayame engoliu em seco.
— Ainda está acontecendo — repetiu, em voz baixa.
Jiyeon assentiu.
Elas ficaram em silêncio por alguns instantes, sentadas lado a lado. Ayame sentia o
corpo quente, a mente cheia de perguntas que não tinha coragem de fazer.
— Jiyeon… — começou. — Se as pessoas falarem mais… isso te incomoda?
Jiyeon pensou antes de responder.
— Me incomoda a ideia de perder você — disse. — Não o que os outros pensam.
Ayame sentiu o impacto da frase como uma onda lenta. Não foi algo explosivo. Foi
profundo.
Ela sorriu, mas os olhos arderam levemente.
— Então… tá tudo bem — disse, mais para si mesma do que para Jiyeon.
Quando o sinal tocou, elas se levantaram juntas. Ao caminharem para a próxima
aula, Ayame deixou a mão escorregar um pouco mais perto da de Jiyeon. Não
chegou a tocar — mas ficou ali, próxima o suficiente para que a possibilidade
existisse.
39

Jiyeon não se afastou.


E, naquele espaço mínimo entre dedos que ainda não se encontravam, Ayame
percebeu algo com clareza quase assustadora:
Talvez o que os outros viam não fosse exagero.
Talvez fosse apenas verdade chegando antes da coragem
40

ἳ Capítulo 14 — Quase
(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
Jiyeon sempre acreditou que conseguia controlar o que sentia.
Não no sentido de apagar emoções — ela sabia que isso era impossível — mas de
mantê-las organizadas, contidas, guardadas em lugares seguros. Ela observava,
analisava, aceitava. Nunca deixava transbordar.
Mas Ayame fazia tudo parecer… instável.
Naquela tarde, elas estavam na casa de Jiyeon. Não era algo comum. Jiyeon
raramente convidava alguém para entrar no espaço que considerava mais íntimo do
que qualquer palavra. Ainda assim, quando Ayame perguntou, de forma casual
demais, se poderia estudar ali, Jiyeon apenas assentiu.
Agora, sentavam-se no chão do quarto, cadernos espalhados, a janela aberta
deixando o vento suave mover as cortinas claras. O ambiente era silencioso,
confortável, quase suspenso no tempo.
Ayame observava tudo com curiosidade contida.
— Seu quarto é… muito você — comentou.
— Como assim? — Jiyeon perguntou, sem tirar os olhos do livro.
— Organizado, mas não frio. Calmo. — Ayame sorriu. — Dá pra sentir que você
passa tempo aqui.
Jiyeon não respondeu. Apenas virou a página.
Estudar juntas era mais difícil do que Jiyeon esperava.
Não porque Ayame fosse distraída — ela até se esforçava — mas porque a
presença dela parecia ocupar mais espaço do que deveria. O som da respiração
próxima, o movimento leve quando mudava de posição, o perfume discreto que se
misturava ao ar do quarto.
Em certo momento, Ayame se inclinou para ver melhor o caderno de Jiyeon.
Foi um gesto simples. Inofensivo.
Mas seus ombros se tocaram.
Jiyeon sentiu o contato como se tivesse sido algo muito maior do que realmente foi.
O corpo inteiro reagiu de uma vez, uma tensão súbita que subiu pelo peito e travou
sua respiração por um segundo.
Ayame também percebeu.
Ela não se afastou imediatamente. Ficou ali, próxima demais, o rosto a poucos
centímetros.
— Desculpa — murmurou, mas não se moveu.
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— Não… — Jiyeon começou, mas a palavra ficou suspensa.


O silêncio se espalhou entre elas.
Jiyeon ergueu os olhos lentamente e encontrou o olhar de Ayame. Não havia
brincadeira ali. Nem exagero. Apenas atenção pura. Expectativa contida.
O mundo pareceu diminuir.
Jiyeon teve consciência do próprio coração, acelerado demais para alguém que se
dizia calma. Teve consciência do espaço mínimo entre elas — pequeno demais para
ser ignorado, grande demais para ser atravessado sem intenção.
Ayame engoliu em seco.
— Jiyeon… — disse, quase num sussurro.
Jiyeon não respondeu. Não porque não quisesse, mas porque qualquer palavra
pareceria errada. Qualquer som quebraria algo delicado demais.
Ayame se afastou primeiro.
Foi um movimento lento, quase doloroso, como se estivesse resistindo a algo
invisível. Ela voltou a sentar direito, mexendo nervosamente no caderno.
— Acho que… — começou, rindo sem humor. — Acho que tô cansada demais pra
estudar hoje.
Jiyeon assentiu.
— Podemos continuar outro dia.
Ayame levantou-se, pegando a mochila. Caminhou até a porta, mas parou antes de
sair.
— Jiyeon — chamou, sem se virar. — Você também sente isso, né?
Jiyeon fechou os olhos por um segundo.
— Sinto.
Ayame sorriu — Jiyeon podia ouvir isso na voz.
— Então… tá tudo bem ir devagar.
A porta se fechou suavemente atrás dela.
Jiyeon ficou sozinha no quarto, sentada no chão, o coração ainda descompassado.
O silêncio agora era outro. Mais pesado. Mais consciente.
Ela levou a mão ao lugar onde o ombro de Ayame havia tocado o seu.
Nunca tinha acreditado muito em quase.
Mas agora entendia: às vezes, o que não acontece é exatamente o que mais marca.
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ἳ Capítulo 15 — A Distância Que Não Afasta


(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Depois daquele dia no quarto de Jiyeon, Ayame passou a sentir o tempo de um jeito
estranho.
Nada havia mudado de forma visível — elas ainda se viam na escola, ainda
almoçavam juntas, ainda caminhavam lado a lado pelos corredores. E, ainda assim,
tudo estava diferente.
Era como se algo tivesse sido reconhecido em silêncio.
Ayame tentava agir normalmente. Falava, ria, comentava sobre aulas e clubes. Mas,
por dentro, sentia-se mais cuidadosa. Cada gesto parecia carregado de intenção
agora. Cada palavra podia ir longe demais.
Ela observava Jiyeon com mais atenção do que nunca.
O jeito como ela parecia um pouco mais distante — não fria, apenas… concentrada
demais em manter tudo sob controle. Ayame entendia isso. Entendia melhor do que
gostaria.
Durante uma tarde chuvosa, elas ficaram presas na sala depois do clube, esperando
a chuva diminuir. O som das gotas batendo nas janelas criava um ritmo constante,
quase hipnótico.
Ayame estava sentada na carteira ao lado da de Jiyeon, girando a caneta entre os
dedos.
— A chuva não parece querer parar — comentou.
— Não — Jiyeon respondeu. — Mas não me incomoda.
— Você gosta de chuva, né?
— Gosto do silêncio que ela traz.
Ayame sorriu de leve. Claro que ela gostava.
O problema era que Ayame gostava do barulho. Do movimento. Do excesso. E,
mesmo assim, ali estava ela, aprendendo a apreciar pausas só porque Jiyeon existia
nelas.
— Jiyeon… — Ayame começou, hesitando. — Você acha que a gente tá estranha?
Jiyeon olhou para ela.
— Estranha como?
— Como se estivesse andando em volta de algo importante, mas sem tocar.
Jiyeon demorou a responder.
— Talvez — disse. — Mas nem tudo precisa ser tocado imediatamente.
Ayame suspirou.
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— Você sempre sabe dizer as coisas de um jeito que parece calmo… mesmo
quando dói um pouco.
Jiyeon abaixou o olhar.
— Eu não quero te machucar.
— Eu sei — Ayame respondeu rápido. — E eu não tô machucada. Só… com medo.
— Medo do quê?
Ayame pensou por alguns segundos, encarando a chuva.
— De perder isso — disse. — Mesmo sem saber exatamente o que isso é.
Jiyeon sentiu o peso daquelas palavras tanto quanto ela.
O silêncio voltou, mas agora era mais denso, mais consciente. Ayame sentia
vontade de estender a mão. De quebrar aquela distância invisível. Mas algo dentro
dela dizia para esperar.
Quando a chuva finalmente diminuiu, elas se levantaram juntas. No corredor vazio, o
som dos passos ecoava suavemente.
Antes de se separarem na saída, Ayame falou:
— Jiyeon… se um dia você quiser dar um passo a mais… eu vou estar aqui.
Jiyeon a encarou, surpresa.
— E se eu demorar?
Ayame sorriu, daquele jeito sincero e aberto que sempre fazia o mundo parecer
menos pesado.
— Então eu espero.
Elas se despediram ali mesmo, sem gestos exagerados, sem promessas explícitas.
Mas, enquanto Ayame caminhava para casa sob o céu ainda nublado, sentia algo
firme dentro do peito.
Às vezes, esperar não era fraqueza.
Às vezes, era só outra forma de amar.
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ἳ Capítulo 16 — Quando o Mundo Aperta


(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O festival escolar sempre foi apenas mais um dia para Jiyeon.
Barulho, cores demais, pessoas demais. Ela costumava evitar o pátio nesses dias,
passando o tempo na biblioteca ou ajudando discretamente algum professor. Nunca
sentiu falta da euforia coletiva.
Mas naquele ano, não conseguiu evitar.
Ayame estava envolvida demais.
Jiyeon observava à distância enquanto o pátio se transformava. Barracas sendo
montadas, cartazes coloridos pendurados, risadas altas atravessando o ar. Ayame
corria de um lado para o outro, ajudando, reclamando, rindo, completamente inserida
naquele caos organizado.
Ela parecia… distante.
Não emocionalmente — Jiyeon sabia que não — mas fisicamente. Sempre cercada
de gente. Sempre puxada para outra conversa. Outro riso. Outro lugar.
E Jiyeon percebeu algo incômodo dentro de si.
Ela não estava com ciúmes no sentido comum. Não era posse. Era medo. Medo de
não caber naquele mundo tão cheio.
Quando Ayame finalmente conseguiu encontrá-la, já era quase meio-dia.
— Você sumiu! — disse, ofegante. — Tô te procurando desde cedo.
— Eu estava por aqui — Jiyeon respondeu. — Só… observando.
Ayame sorriu, mas havia cansaço em seus olhos.
— Vem comigo — pediu, segurando o pulso de Jiyeon sem pensar muito.
O toque foi breve, mas suficiente para fazer Jiyeon congelar por um instante. Ayame
percebeu e soltou rapidamente, como se tivesse ultrapassado um limite invisível.
— Desculpa — murmurou.
— Tudo bem — Jiyeon respondeu, embora o coração ainda estivesse acelerado.
Elas caminharam entre as barracas. O cheiro de comida, o som de músicas tocando
ao fundo, as vozes se misturando em uma confusão constante. Ayame falava,
explicava cada coisa, apontava detalhes, tentando incluir Jiyeon naquele mundo que
ela dominava com tanta facilidade.
Jiyeon tentava acompanhar.
Mas, em certo momento, alguém chamou Ayame.
Depois outra pessoa.
Depois outra.
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Ayame se afastava e voltava, sempre pedindo desculpa, sempre sorrindo, sempre


prometendo “já volto”.
Até que Jiyeon ficou sozinha.
Não por muito tempo — apenas o suficiente para sentir o peso.
Ela se encostou em uma árvore no limite do pátio, observando de longe. Viu Ayame
rindo alto com um grupo. Viu alguém se inclinar perto demais. Viu a facilidade com
que Ayame se conectava com todos.
Jiyeon sentiu algo apertar no peito.
Talvez eu não seja parte disso, pensou.
Quando Ayame finalmente voltou, o sorriso caiu ao perceber a expressão de Jiyeon.
— O que foi? — perguntou, mais baixa.
Jiyeon hesitou.
— Nada.
Ayame conhecia aquela palavra. Sabia que era mentira.
— Jiyeon — insistiu. — O que aconteceu?
Jiyeon respirou fundo.
— Eu não sei se… — começou, depois parou. Franziu a testa, claramente lutando
consigo mesma. — Eu não sei se consigo estar em todos os lugares onde você está.
Ayame ficou em silêncio.
— Isso não é uma cobrança — Jiyeon continuou rápido. — É só… algo que eu
precisava dizer.
Ayame abaixou o olhar por um instante, depois deu um passo mais perto.
— Eu nunca quis que você se sentisse assim — disse. — Eu só… vivo rápido
demais às vezes.
— Eu sei — Jiyeon respondeu. — E eu vivo devagar demais.
O silêncio entre elas foi pesado, mas honesto.
Ayame então fez algo inesperado.
Pegou a mão de Jiyeon.
Não de forma dramática. Não como uma declaração. Apenas segurou, firme e
simples, ali no meio do festival.
— Então fica comigo aqui — disse. — Só aqui. Só agora.
Jiyeon olhou para as mãos unidas. O barulho ao redor parecia distante. Pela
primeira vez naquele dia, o mundo não apertava tanto.
— Tudo bem — respondeu.
Elas ficaram ali por alguns minutos, sem se importar com quem passava, com quem
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via. Apenas existindo naquele espaço pequeno que criaram juntas.


E Jiyeon entendeu algo importante:
Ela não precisava caber no mundo de Ayame inteiro.
Só precisava caber onde Ayame escolhia parar.
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ἳ Capítulo 17 — O Que Não Precisa Ser Dito Alto


(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
Depois do festival, algo se assentou entre elas.
Não foi um alívio completo, nem uma resolução definitiva. Foi mais como quando a
poeira baixa depois de um dia longo: tudo ainda está ali, mas agora pode ser visto
com mais nitidez.
Jiyeon percebeu isso nos detalhes.
No jeito como Ayame não a puxava mais de um lado para o outro, mas caminhava
ao seu ritmo. No modo como esperava antes de falar, como se quisesse ter certeza
de que Jiyeon estava presente de verdade. E, acima de tudo, na forma como o
silêncio entre elas deixou de ser tenso.
Numa tarde tranquila, elas estavam sentadas no terraço da escola — um lugar
pouco usado, quase esquecido. O céu estava limpo, azul demais para a época do
ano, e o vento carregava um frio leve.
Jiyeon gostava daquele lugar porque parecia fora do tempo.
Ayame estava sentada ao lado dela, as pernas dobradas, o queixo apoiado nos
joelhos.
— Posso te perguntar uma coisa? — Ayame disse, em voz baixa.
— Pode.
— Você sempre pensa tanto antes de falar… — Ayame sorriu de leve. — O que
você pensa quando fica quieta assim?
Jiyeon demorou a responder.
— Eu penso se o que eu sinto vai caber em palavras — disse por fim. — Quase
nunca cabe.
Ayame a encarou com atenção total.
— E agora? — perguntou. — Cabe?
Jiyeon fechou os olhos por um instante.
— Um pouco.
O vento passou entre elas, levantando alguns fios soltos do cabelo de Ayame.
Jiyeon resistiu ao impulso de ajeitá-los. Resistir ainda era mais fácil do que agir.
— Jiyeon… — Ayame começou, hesitante de um jeito que não combinava com ela.
— Eu sei que eu sou intensa demais. Barulhenta demais. Às vezes até… demais pra
você.
— Você não é demais — Jiyeon respondeu rápido demais. — Você só é diferente de
mim.
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Ayame sorriu, mas havia algo frágil ali.


— Mesmo assim, eu fico com medo — admitiu. — Medo de querer algo que você
não pode me dar.
O peito de Jiyeon apertou.
Ela se levantou devagar, caminhou até a grade do terraço e ficou ali por alguns
segundos, olhando o horizonte. Ayame não a seguiu. Esperou.
Quando Jiyeon voltou a se virar, seu olhar estava mais firme do que nunca.
— Eu não sei demonstrar do jeito que você demonstra — disse. — Não sei ser leve.
Nem rápida. Mas… quando eu fico, eu fico de verdade.
Ayame se levantou também, aproximando-se com cuidado.
— Isso inclui… ficar comigo? — perguntou, quase num sussurro.
Jiyeon assentiu.
Ayame soltou um ar trêmulo, como se estivesse segurando aquilo há muito tempo.
— Então eu posso esperar o seu tempo — disse. — Desde que você não vá embora.
Jiyeon deu um passo à frente.
— Eu não vou.
Não houve beijo. Não houve toque dramático. Apenas a certeza pairando entre elas,
sólida e silenciosa.
Ayame encostou a testa na de Jiyeon por um breve segundo — um gesto simples,
quase instintivo. Jiyeon fechou os olhos, aceitando o contato.
Ali, naquele terraço esquecido, elas entenderam algo importante:
Algumas conexões não precisam ser anunciadas.
Elas simplesmente existem — e isso basta.
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ἳ Capítulo 18 — Coisas Que Ficam


(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame percebeu que algo tinha mudado quando começou a não pensar nisso o
tempo todo.
Antes, cada encontro com Jiyeon vinha carregado de expectativa. Cada silêncio
parecia pedir uma tradução. Agora, havia uma calma nova, quase estranha, como se
o sentimento tivesse encontrado um lugar onde pudesse simplesmente repousar.
Naquela manhã, elas caminharam juntas até a escola como de costume. O céu
estava nublado, o ar frio o suficiente para justificar casacos mais grossos. Ayame
falava sobre coisas pequenas — uma prova surpresa, uma música que tinha ouvido
— e Jiyeon escutava, como sempre.
Mas, em determinado momento, Ayame sentiu algo diferente.
O frio apertou um pouco mais, e ela levou as mãos às mangas do casaco, tentando
se aquecer. Foi quando percebeu: Jiyeon tinha diminuído o passo.
Não disse nada. Apenas caminhou um pouco mais devagar, posicionando-se de
forma que o corpo ficasse entre Ayame e o vento mais forte que vinha da rua.
Ayame piscou, surpresa.
— Jiyeon… — chamou, sorrindo.
— O vento está forte — Jiyeon respondeu, como se aquilo explicasse tudo.
E talvez explicasse.
Na escola, sentaram juntas durante a aula vaga. Ayame apoiou a cabeça na mesa,
claramente cansada. Jiyeon tirou o próprio casaco com um movimento contido e o
colocou cuidadosamente sobre os ombros dela.
— Ei — Ayame murmurou. — E você?
— Eu fico bem — Jiyeon disse.
Ayame segurou a manga do casaco, sentindo o cheiro familiar, e algo apertou
gostosamente no peito.
Ela percebeu então: Jiyeon demonstrava afeto do jeito que sabia. Não com palavras
grandes. Mas com atenção. Com presença. Com constância.
Durante o almoço, dividiram a comida como sempre. Ayame falava, Jiyeon ouvia. Às
vezes, Jiyeon comentava algo curto, mas certeiro, que fazia Ayame rir mais alto do
que pretendia.
— Você anda mais… aberta — Ayame comentou.
Jiyeon inclinou levemente a cabeça.
— Aberta?
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— É — Ayame sorriu. — Como se não estivesse mais pronta pra ir embora o tempo
todo.
Jiyeon pensou por um instante.
— Talvez porque agora eu tenha ficado.
Ayame sentiu o impacto da frase de forma lenta, profunda. Não disse nada. Apenas
sorriu daquele jeito que os olhos quase fecham.
No fim do dia, enquanto esperavam o portão abrir, Ayame se aproximou um pouco
mais do que o normal. Seus dedos tocaram os de Jiyeon por acidente — ou talvez
não.
Dessa vez, Jiyeon não se afastou.
Entrelaçou os dedos aos dela, firme, simples, como se fosse a coisa mais natural do
mundo.
Ayame sentiu o coração disparar, mas não disse nada. Apertou a mão de volta,
respeitando o ritmo silencioso daquele gesto.
Elas caminharam assim por alguns minutos. Não falaram. Não precisaram.
Ayame pensou que, se alguém olhasse de fora, talvez não visse nada demais.
Mas ela sabia.
Algumas coisas não são feitas para chamar atenção.
São feitas para ficar.
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ἳ Capítulo 19 — Perto o Bastante


(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
Jiyeon nunca pensou muito sobre beijos.
Para ela, gestos sempre pareceram mais verdadeiros do que atos grandiosos. Um
toque no ombro. Um passo acompanhado. Uma espera respeitada. Era assim que
ela entendia proximidade.
Mas naquela noite, caminhando com Ayame pela rua quase vazia depois da escola,
Jiyeon percebeu que alguns gestos pedem continuação.
O céu estava escuro, mas não pesado. Havia poucas estrelas visíveis, e os postes
lançavam luzes suaves no asfalto. O frio era leve, suficiente para justificar a
proximidade sem precisar explicá-la.
Elas andavam devagar.
Ayame falava pouco — algo raro. Jiyeon sentia que havia palavras não ditas entre
elas, pairando no ar como eletricidade contida.
Quando chegaram à esquina de sempre, onde normalmente se despediam,
nenhuma das duas parou imediatamente.
— Jiyeon — Ayame disse, em voz baixa. — Posso te perguntar uma coisa… de
novo?
Jiyeon assentiu.
— Você ainda tá com medo?
A pergunta não veio como acusação. Veio como cuidado.
Jiyeon pensou por alguns segundos.
— Estou — respondeu. — Mas não de você.
Ayame sorriu de leve.
— Então de quê?
— De estragar algo que é importante.
Ayame deu um passo à frente. Não invadiu o espaço. Apenas diminuiu a distância
até que fosse impossível fingir que ela não existia.
— Algumas coisas não se quebram fácil — disse. — Principalmente quando são
feitas com calma.
Jiyeon sentiu o coração bater mais forte. Não rápido. Profundo.
Ela ergueu a mão, hesitante, e tocou o punho do casaco de Ayame, como se
pedisse permissão sem palavras. Ayame não se moveu. Apenas olhou para ela,
atenta.
Jiyeon então fez algo que nunca fazia.
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Avançou.
Foi um beijo curto. Suave. Quase tímido. Como se estivesse testando não apenas o
gesto, mas o mundo depois dele.
Ayame fechou os olhos imediatamente, retribuindo com a mesma delicadeza, sem
tentar aprofundar, sem pressa. Apenas ficando ali.
Quando se afastaram, o silêncio não foi constrangedor.
Foi cheio.
Ayame encostou a testa na de Jiyeon, sorrindo daquele jeito pequeno, verdadeiro.
— Foi do seu jeito — murmurou.
— Sempre vai ser — Jiyeon respondeu.
Elas ficaram ali por mais alguns segundos, respirando o mesmo ar, sentindo o peso
bom daquele momento se acomodar.
Quando finalmente se despediram, não houve promessas. Não houve declarações
exageradas.
Mas Jiyeon sabia:
Nada ali precisava ser maior do que era.
Porque já era suficiente.
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Capítulo Final — O que não precisa ser dito


(Ponto de vista: Seo Jiyeon)
O inverno estava quase indo embora.
Não era algo que se percebia de repente — não havia um dia específico em que o
frio simplesmente desistia — mas Jiyeon sentia isso nos detalhes: no sol que
demorava um pouco mais a se esconder atrás dos prédios da escola, no vento
menos cortante que atravessava o pátio, no jeito como os alunos começavam a abrir
os botões dos casacos sem perceber.
Ela observava tudo à distância, como sempre.
Estava sentada no mesmo banco de madeira de sempre, perto do jardim lateral,
onde as flores ainda lutavam para nascer. Tinha um livro aberto no colo, mas não lia.
Não precisava. Sua atenção estava voltada para um ponto específico do pátio.
Ayame Haruna.
Ela ria alto, cercada por colegas, gesticulando demais, como se o mundo fosse
pequeno demais para caber dentro dela. O cabelo balançava quando ela se movia, e
aquele sorriso — sempre aquele sorriso — parecia existir para iluminar exatamente
os lugares onde Jiyeon costumava se esconder.
Jiyeon nunca acreditou em opostos que se atraem.
Mas ali estava ela.
Esperando.
(Ponto de vista: Ayame Haruna)
Ayame sentia antes de pensar.
Sempre foi assim.
Enquanto conversava com as amigas, seus olhos traíram seu corpo mais uma vez,
escapando para o canto do pátio onde Jiyeon estava sentada. Sozinha. Silenciosa.
Presente de um jeito quase invisível.
Era estranho como Jiyeon não precisava fazer nada para ser notada — e, ainda
assim, Ayame só conseguia vê-la.
Ela se despediu rápido, quase tropeçando na própria pressa, e atravessou o pátio
com passos leves, como se estivesse indo para algo delicado demais para ser
anunciado em voz alta.
— Você sempre senta aqui — Ayame disse, parando à frente do banco.
Jiyeon fechou o livro devagar.
— É silencioso.
Ayame sorriu.
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— Com você, nunca é vazio.


Jiyeon desviou o olhar, mas não respondeu. Ainda assim, se moveu um pouco para
o lado, abrindo espaço. Era o jeito dela de dizer fica.
Ayame sentou.
(Ponto de vista alternado)
Elas ficaram assim por alguns minutos.
Sem conversa.
Sem explicações.
O vento passou entre elas, carregando o cheiro de grama úmida e algo novo, quase
imperceptível.
Ayame foi a primeira a falar:
— Quando eu estou com você… — ela hesitou, algo raro — …parece que eu posso
ficar quieta sem desaparecer.
Jiyeon sentiu o peito apertar.
Ela pensou em mil respostas. Nenhuma saiu.
Em vez disso, estendeu a mão. Não olhou. Apenas deixou ali, aberta, entre elas.
Ayame entendeu.
Os dedos se tocaram primeiro por acaso — ou pelo que as pessoas chamariam de
acaso. Depois, com intenção.
Não foi um gesto grande.
Não foi um beijo roubado.
Não foi uma promessa.
Foi só mão com mão.
E isso bastou.
Epílogo — Primavera
A primavera chegou oficialmente semanas depois.
As flores do jardim finalmente abriram, coloridas e desajeitadas, como se não
soubessem ainda exatamente como existir. Ayame disse que parecia com o começo
de tudo. Jiyeon não discordou.
Agora, elas dividiam o banco.
O caminho até a sala.
O silêncio confortável.
Às vezes, Ayame falava demais.
Às vezes, Jiyeon não falava nada.
Mas nenhuma das duas tentava mudar isso.
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Porque amor, elas aprenderam, não era sobre se parecer —


era sobre permanecer, mesmo sendo diferente.
E naquele colégio comum, em dias comuns, entre livros, risadas e mãos que se
encontravam sem precisar se esconder…
A história delas continuava.
Não como algo extraordinário.
Mas como algo real.

“Primavera Não Anunciada”

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