Nomenclatura
zoológica e descrição
de novas espécies
Introdução às principais normas e
ferramentas utilizadas na sistemática e
nomenclatura de animais
Sumário
INTRODUÇÃO 5
A diversidade no planeta e o processo evolutivo 6
O conceito de espécie 7
A sistemática biológica 8
A cultura de nomear 11
O início de tudo 11
O século XIX – O princípio da codificação 13
O século XX – Códigos como conhecemos hoje 13
A adaptação às novas tecnologias 14
A nomenclatura ainda é necessária? 15
O CÓDIGO DE NOMENCLATURA ZOOLÓGICA 17
Introdução 18
O que é e quais são seus objetivos? 18
Princípios básicos 18
Os nomes dos táxons 19
Disponibilidade de nomes e solução de impasses 20
Critérios para a publicação de um nome 22
Princípio da tipificação 23
Criando um nome 24
DESCRIÇÃO DE NOVAS ESPÉCIES 26
Trabalhos de campo e princípios éticos/legais 27
Como saber se você está lidando com uma espécie nova? 28
A nomeação da nova espécie 29
Produção de registros gráficos 30
Descrição da nova espécie e produção científica 31
Escolher um periódico científico 32
A escolha do tipo e o depósito em uma coleção zoológica 33
O ADVENTO DA BIOLOGIA MOLECULAR 35
Uso do DNA na descrição de novas espécies 36
A genômica e seus desmembramentos 37
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 38
Sobre a autoria desta apostila
João Victor Couto é bacharel em Ciências Biológicas pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (polo Zona Oeste) e mestre
em Parasitologia pela Universidade Federal de Minas Gerais.
Atualmente é doutorando em Parasitologia pelo mesmo programa,
trabalhando no Laboratório de Taxonomia e Ecologia de Helmintos
(LTEH/ICB/UFMG) com taxonomia integrativa, sistemática, ecologia e
evolução de parasitos da vida silvestre.
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distribuição ou qualquer outra forma de reprodução deste material sem
a devida autorização por escrito do Realizzare Cursos. A violação dos
direitos autorais é punível conforme a legislação vigente.
INTRODUÇÃO
A diversidade no planeta e o
processo evolutivo
Contemplar as belezas do mundo natural deveria ser costume de
todo profissional da área de biológicas, principalmente aqueles naturais
de um país tão rico e diverso como o nosso. É incrível poder reparar na
quantidade de espécies de animais e vegetais que podemos encontrar
em um simples fragmento de floresta no centro da cidade, delimitado
em um parque ecológico, por exemplo. Se pararmos para contar
quantos insetos diferentes podemos observar ali durante uma
caminhada, ficaremos horas e ainda assim não haverá fim. Se em uma
perspectiva macro já perdemos a conta de tamanha variedade,
imaginem incluindo os seres microscópicos? Pensar desta maneira
pode ajudar a nos colocar em pé de igualdade com o meio ambiente,
uma vez que fazemos parte dessa magnífica biodiversidade e
dependemos dela para o sucesso da nossa permanência.
Estão enganados aqueles que pensam que a diversidade se refere
apenas à quantidade de espécies de um certo local. Este representa
apenas uma das incontáveis facetas que ela pode assumir dentro do
ambiente natural. Tão importante quanto a diversidade de espécies, há
a diversidade de características corporais e genéticas que estas podem
conter. Assim como a variedade de comportamentos biológicos, habitats
e interações que podem assumir. O mais belo em todo este assunto é
que as diferentes diversidades biológicas interagem constantemente
umas com as outras. Os diferentes genes presentes em uma célula são
copiados, interpretados e expressos em proteínas que se tornarão
características do indivíduo (enzimas, anticorpos, tecidos, estruturas
etc.), assim como cada conjunto de características formará indivíduos
diferentes, e a maneira como estas interagem com o ambiente moldam
comportamentos das mais variadas maneiras.
Entretanto, esta estonteante variabilidade não surgiu no planeta de
maneira espontânea, nem muito menos da maneira como a enxergamos
atualmente. Ela é resultado de um fenômeno natural, extremamente
longo e estocástico (um processo aleatório dentro de um número
limitado de probabilidades) denominado Teoria Sintética da Evolução ou
Neodarwinismo. Tendo sido elaborada a partir da proposição original de
Charles Darwin em “A origem das Espécies”, de 1859, tal teoria é a
maneira mais crível de explicar o surgimento da biodiversidade
atualmente.
Ao tentar simplificar um processo tão complexo em apenas um
parágrafo, claramente o escritor padecerá de erros e equívocos, mas,
ainda assim (pelo bem do sucesso deste material!), tentarei fazê-lo aqui.
O ambiente natural constantemente impõe adversidades à vida no
planeta desde a sua primeira fagulha de existência, seja pela busca por
alimentos e refúgio, reprodução, competição ou até catástrofes naturais.
Estas, chamamos de pressões seletivas, pois, através delas, são
selecionadas características já existentes naqueles organismos, que
permitam um maior sucesso em superar tais imposições. Ao superar as
adversidades com sucesso, o indivíduo pode se reproduzir e transmitir
tais características para as próximas gerações, garantindo, assim, (após
milhões de anos deste mesmo processo) sua fixação dentre a espécie.
Aqueles que não possuírem tal característica ou possuírem alguma não
tão vantajosa terão uma menor chance de sucesso e,
consequentemente, uma menor chance de se reproduzir e transmiti-la
adiante. Este fenômeno denomina-se seleção natural e representa
apenas um dos inúmeros meios com que a diversidade atual vem sendo
modificada ao longo de bilhões de anos.
O conceito de espécie
Foi apenas a partir destas imposições e superações que cada
organismo vivo tomou sua forma desde o início da vida, a partir de um
único grupo de seres coacervados. Desta maneira, podemos afirmar
que todos partem de um mesmo ancestral evolutivo, e este foi gerando
sucessivamente outros organismos, e então estes mais alguns, até que
chegamos (novamente, após bilhões de anos) às espécies como
conhecemos no mundo atual. Mas então, se todos somos produto de
um ancestral único, o que nos torna diferentes como espécies?
Esta é uma pergunta difícil de se responder, uma vez que não há
consenso sobre o conceito de espécie. Atualmente, cada espécie é
delimitada através de critérios “arbitrários” produzidos por
pesquisadores de cada área, ou seja, o conceito de espécies para um
grupo de organismos vivos é diferente do que para outro. Abaixo,
explico resumidamente alguns destes conceitos:
Conceito biológico: grupo de indivíduos naturais que se
reproduzem de maneira isolada de outros indivíduos.
Conceito ecológico: uma linhagem que ocupa um nicho ecológico
diferente de todas as demais que habitam aquele espaço, evoluindo de
maneira independente destas.
Conceito evolutivo: uma linhagem única de indivíduos
descendentes de um mesmo ancestral recente, que apresentam
tendências e trajetória evolutiva únicas.
Estes podem nos ajudar a entender os diferentes tipos de
delimitações, além da simples semelhança corporal, muito utilizada nos
primórdios dos estudos biológicos. Além de entender a grande gama de
diferenças entre as diferentes espécies, e o que as delimita, é
fundamental entender que uma enorme variabilidade existe ainda dentro
da própria espécie. Para clarear esta afirmação, basta imaginar a
quantidade de diferentes formas que gatos domésticos podem assumir,
sendo todos eles pertencentes à mesma espécie. Este assunto é
verdadeiramente muito subjetivo, e pode até soar confuso e incoerente
para muitas pessoas. Justamente pensando em superar esta dificuldade
que este material foi escrito.
Para permitir que estudemos o ambiente natural de maneira mais
objetiva e clara, diversos pesquisadores, ao longo dos anos, pensaram
em maneiras de poder organizá-lo e sistematizá-lo. É com este objetivo
que surge a sistemática biológica. Portanto, ao longo deste capítulo
introdutório, e do restante do material, estudaremos maneiras de tentar
facilitar o estudo da biodiversidade e as ferramentas pelas quais hoje
conseguimos observá-la de maneira científica.
A sistemática biológica
A sistemática biológica é a área que se dedica a descrever a
diversidade de seres vivos, encontrar algum tipo de ordem ou padrão
nela, assim como desvendar os processos que a originaram. Para
alcançar tais finalidades, este estudo divide-se em três atividades
fundamentais que podem (ou não) trabalhar em conjunto: taxonomia,
classificação e nomenclatura. Estes conceitos nem sempre são bem
estabelecidos em sala de aula, e são frequentemente agrupados sobre
o termo “taxonomia”. Entretanto, entender de que maneira podemos
delimitá-los é fundamental para este material, uma vez que nem sempre
estarão interligados. Por exemplo, um pesquisador pode utilizar dados
genéticos para reconstruir as relações evolutivas de um certo grupo de
animais sem, de fato, aplicar estes resultados à sua nomenclatura. Da
mesma maneira, impasses relacionados à nomenclatura de um grupo
podem ser resolvidos sem necessariamente utilizar um estudo
filogenético.
Começaremos pelo mais nebuloso dos conceitos: a taxonomia,
estudo pelo qual os seres vivos são analisados, descritos e
quantificados através de seus caracteres morfológicos (aqueles
correspondentes ao seu padrão corporal) e genéticos. O estudo
taxonômico depende que o pesquisador possua amplo conhecimento do
estado da arte relacionado aos indivíduos-alvo, assim como uma boa
capacidade de extrair informações significativas sobre seus caracteres.
Para isso, é necessário o uso de ferramentas de microscopia, histologia
e biologia molecular, sempre que possível, de maneira integrada.
Entretanto, muitos trabalhos taxonômicos baseiam-se em uma baixa
diversidade de informações, fato que pode ser associado tanto às
limitações estruturais e tecnológicas (principalmente em trabalhos mais
antigos), ou ao pouco conhecimento relacionado ao grupo trabalhado
por parte dos autores.
Classificação é outro termo que comumente extrapola os limites
da sistemática biológica, sendo muito utilizado no dia a dia para a
organização de objetos inanimados, pessoas, funções etc. No sentido
literal, “classificar” significa organizar em classes ou grupos de acordo
com certo método ou sistema predefinido. Partindo deste princípio,
podemos inferir que a classificação biológica organiza seres vivos que
compartilham caracteres únicos em grupos organizados de maneira
hierárquica, ou seja, de grupos mais amplos até outros mais
específicos. Estes grupos são denominados táxons, e tal hierarquia
permite o estabelecimento de afinidades e relações crescentes entre
grupos de seres vivos.
A classificação acrescenta um outro objetivo à sistemática:
fornecer um sistema de referência para que pesquisadores possam
estudar a diversidade biológica. Entretanto, não há um consenso sobre
o melhor método ou sistema organizacional que possa permitir o
cumprimento deste objetivo. Adeptos da escola fenética de classificação
defendem que este sistema deve refletir não mais do que as
semelhanças e diferenças entre os organismos, sem necessariamente
interagir com sua trajetória evolutiva. Deste modo, a classificação seria
apenas um exercício de organização desempenhado por pesquisadores
para facilitar os alvos do estudo da diversidade. Por outro lado,
filogenetistas e cladistas defendem que a organização da diversidade
deve, por obrigação, respeitar os parentescos e descendências
evolutivas dos indivíduos, ainda que também discordam entre como
fazer isso. Para eles, organizar a diversidade só faz sentido pela ótica
evolutiva, uma vez que permitiria ao pesquisador ter pistas e interpretar
os parentescos evolutivos de um organismo apenas observando a taxa
a qual ele está contido. Atualmente, esta perspectiva tem se mostrado
muito funcional e dominado o consenso entre sistemistas, havendo
raros trabalhos que ainda resgatem a filosofia fenética de classificação.
Por fim, a Nomenclatura, dentro da sistemática biológica,
representa o ato de fixar um nome formal aos grupos da classificação
hierárquica. Sobre a regulamentação de códigos internacionais
específicos, os nomes associados aos mais diversos táxons podem
permanecer únicos, estáveis e padronizados, assim como inúmeros
impasses são evitados (ou resolvidos, no caso de problemas anteriores
à fixação das regras de nomenclatura).
Nomear estes grupos de maneira regular facilita a interpretação e
trabalho de pesquisadores não-sistemistas, como na produção de listas
de espécies ameaçadas, espécies invasoras e introduzidas, ou até
mesmo em trabalhos compilando a fauna e flora de certo bioma. Seu
enorme valor para a conservação da biodiversidade é um dos
consensos mais bem estabelecidos dentro da sistemática biológica, fato
que cada vez mais tem estimulado profissionais de ciências biológicas a
aperfeiçoarem seu conhecimento na presente área.
A cultura de nomear
Quem nunca fez uma viagem a outro estado e estranhou a maneira
como os locais chamam um animal ou vegetal? “Soim” ou “mico”?
“Piaba” ou “manjuba”? “Mandioca”, “aipim” ou “macaxeira”? Estas
diferenças ocorrem, pois a nomenclatura está diretamente relacionada à
cultura popular, que atribui e fixa nomes às espécies de acordo com
suas influências e necessidades. O ato de nomear precede qualquer
código já inventado pela humanidade, sendo amplamente documentado
ao redor do mundo até os dias de hoje. A nomenclatura popular
geralmente utiliza nomes únicos para agrupar organismos baseado em
suas semelhanças físicas, ou utilizando informações culturais para tal.
Entretanto, por ser desprovida de normatividade e padronização, a
nomenclatura popular varia, muitas vezes, dentro de uma mesma
cultura ou país. Por exemplo, no Brasil, pescadores da costa do Oceano
Atlântico costumam atribuir nomes únicos para espécies de peixes. Em
contrapartida, populações originárias da região Norte do Brasil tendem
mais ao uso de binômios para identificar espécies de peixes,
principalmente para distinguir entre indivíduos de espécies aparentadas.
A aplicação deste “sistema” comumente ultrapassa apenas a
identificação, sendo útil tanto para a distinção entre espécies de plantas
e animais comestíveis, com propriedades medicinais quanto para a
atribuição de valor religioso. Tão importante quanto conhecer as regras
modernas de nomenclatura é saber conectá-las com a cultura popular,
uma vez que é muito frequente ao pesquisador o trabalho em conjunto
com trabalhadores locais, povos originários e outros grupos que as
desconhecem.
O início de tudo
Na China, por volta de 300 a.C., o imperador Shennong, conhecido
na mitologia por ser o pioneiro da agricultura e estudo de plantas
medicinais, teria publicado uma espécie de catálogo contendo mais de
300 diferentes espécies com propriedades terapêuticas. Ainda no
continente asiático, Chakara (600 a.C.) já classificava animais, sistema
modificado e aperfeiçoado posteriormente por Susrusthra (100 d.C.) e
Umasvathi (40 d.C.). Na Grécia antiga, Aristóteles e seu pupilo
Theophrastus faziam o mesmo para animais e plantas, respectivamente.
Apenas após o advento da impressão que se inicia a produção de
literaturas oficiais compilando espécies regionais. Entretanto, as
primeiras enciclopédias, embora usasse o Latim como língua oficial (até
hoje utilizada), utilizavam padrões inconsistentes. Baseavam-se em
uninômios derivados do grego ou romano, que variam conforme o autor
do livro, a região e, conforme novas espécies foram sendo descritas, os
nomes passaram a ser longos, refletindo a identificação e descrição do
espécime.
Apesar de inúmeras tentativas anteriores, é apenas com a obra do
sueco Carl Von Linnaeus, motivado pela exorbitante demanda de
descrições de espécies decorrente do aumento das grandes
navegações por outros continentes, que a nomenclatura toma seu
primeiro padrão. Linnaeus propôs um padrão de nomes compostos por
duas palavras, que embora já proposto anteriormente, só foi
completamente aceito após a publicação de suas duas principais obras:
Species Plantarum de 1753, trabalho que compilava espécies vegetais e
suas descrições, e na décima edição de Systema Naturae de 1758, que
fazia o mesmo para animais. Ambas as datas são tratadas até hoje com
o início da nomenclatura científica.
O século XIX – O princípio da
codificação
Engana-se aquele que acha que após a padronização de Linnaeus
os problemas relacionados à nomenclatura foram completamente
solucionados. Pesquisadores de diferentes países atribuíam diferentes
nomes para o mesmo táxon; ora alguns trabalhos corrigiam o Latim de
um nome, tornando-o diferente do original. Portanto, estava clara a
necessidade de se codificar e unificar a tratativa sobre nomes
científicos. Neste momento (meados do século XIX), a Zoologia e a
Botânica tomavam rumos diferentes em suas linhas de pesquisa, fato
que levaria à produção de diferentes códigos de nomenclatura em um
futuro não tão distante.
A normatização da nomenclatura zoológica desenvolveu-se,
primeiro, com o código de Strickland produzido na Inglaterra, e embora
não tenha sido proposto como um código internacional, foi adotado por
outros países. Esta talvez tenha sido a centelha que iniciou um
movimento para a organização do primeiro Congresso Internacional de
Zoologia em Paris (1889), no qual foi acordada a responsabilidade pelo
desenvolvimento de um código internacional. O resultado deste trabalho
foi o primeiro Règles Internacionales de la Nomenclature Zoologique,
publicado em francês, inglês e alemão, em 1905.
O século XX – Códigos como
conhecemos hoje
Durante o século XX, os primeiros códigos de nomenclatura
zoológica foram repetidamente reformados, ganhando novas versões e
regras. A versão mais atual, o Código Internacional de Nomenclatura
Zoológica (CINZ) – Quarta edição (1999), compila todas estas regras,
adaptações e ponderações. Entretanto, situações inusitadas, diferentes
aplicações e debates continuam ocorrendo dentre a sistemática, todas
estas julgadas por uma espécie de “suprema corte” formada por
pesquisadores voluntários, denominada Comissão Internacional de
Nomenclatura Zoológica. O processo se inicia quando a corte é
provocada por algum pesquisador, então o caso é publicado em boletins
periódicos para ponderação pela comunidade científica. Após
considerar tais comentários, a corte vota e publica sua decisão.
O secretariado do código, por muito tempo hospedado no Museu
de História Natural de Londres, desde 2013 reside na Universidade
Nacional de Singapura. A motivação para tal mudança foi a exaustão
financeira em que a Comissão se encontrava e outros debates
administrativos. Atualmente, este órgão planeja a produção da quinta
edição do CINZ.
A adaptação às novas tecnologias
O mundo mudou muito no último século, nos trazendo inúmeras
tecnologias que influenciaram diretamente na maneira como nomeamos
e avaliamos as espécies. O advento da internet, dos computadores
modernos e do formato PDF permitiram um aumento exponencial da
quantidade de trabalhos e descrições, assim como a maior propagação
destes trabalhos no meio digital. Assim, o Código inevitavelmente
precisou ser adaptado para comportar estes novos avanços.
Uma destas novas ferramentas foi o ZooBank ([Link]),
banco de dados de nomenclatura zoológica onde os autores registram
seus atos de nomenclatura, assim como as informações relacionadas a
ele (local de coleta, publicação, autoria etc). Na edição de 1999, o CINZ
já estipulava a obrigatoriedade do registro do nome no ZooBank como
critério para validação da espécie. Cláusula que permanece vigente até
os dias de hoje.
Um outro interessante projeto que conta com o envolvimento direto
de membros da Comissão é o Catalogue of Life (CoL)
([Link]). Este, com objetivo mais abrangente, pretende
criar uma base de dados compartilhada sobre toda a diversidade do
planeta. Como o próprio nome diz, o “Catálogo da Vida” compila nomes,
registros e outras informações sobre qualquer ser vivo já reportado no
planeta. Entretanto, considerando os inúmeros registros novos que
ocorrem a cada segundo, assim como aqueles retroativos que precisam
ser incluídos, a base de dados ainda depende da constante atualização
de seus desenvolvedores. Por isso, é provável que certos nomes de
espécies ainda não constem no CoL, apesar do constante esforço e
investimento empregados nesta iniciativa.
Embora estas duas sejam as mais relevantes para o nosso caso,
existem centenas de outras bases de dados mais direcionadas para
cada grupo de ser vivo. É fundamental entender como estes compilados
de informações são fundamentais para a produção científica, assim
como para o registro da diversidade global. Afinal, é apenas através do
conhecimento da dimensão da diversidade que podemos tomar
iniciativas mais direcionadas para sua conservação.
A nomenclatura ainda é necessária?
A maior parte dos grandes avanços da era digital do último século
mudou significativamente a maneira como a Biologia é estudada. Da
mesma maneira, novas ferramentas, experimentos e técnicas
provocaram mudanças em como enxergamos e classificamos as
espécies. Um exemplo clássico desta mudança de paradigmas é a
inclusão de estudos moleculares e filogenéticos para a classificação
taxonômica. Tradicionalmente, os organismos eram agrupados por suas
semelhanças morfológicas e/ou biológicas. Entretanto, não
necessariamente estas similaridades fenotípicas de fato apresentavam
relação evolutiva direta, ou seja, talvez dois ou mais grupos de
organismos tenham atingido características semelhantes através de
processos evolutivamente independentes. Portanto, a determinação da
ancestralidade passou a ser melhor evidenciada através da análise
comparativa genética. Assim, inúmeros grupos de animais precisaram
ser reformulados para refletir, de fato, as similaridades evolutivas e não
mais apenas as semelhanças corporais.
Um bom exemplo para este caso são as espécies de Cocorocas
(peixes do gênero Haemulon Cuvier, 1829) dos oceanos Pacífico e
Atlântico. Antigamente, acreditava-se que existia apenas uma espécie
que teria colonizado ambos os oceanos: Haemulon steindachnerii
(Jordan & Gilbert, 1882). Embora a enorme semelhança morfológica,
pesquisadores passaram a questionar este fato devido ao enorme
isolamento geográfico entre as populações do Pacífico e do Atlântico.
Trabalhos filogenéticos passaram a demonstrar que de fato havia
diferenças genéticas, entretanto, essas ainda não eram suficientes, na
visão dos autores naquele tempo, para justificar a distinção em duas
diferentes espécies. Apenas em 2020, através de um trabalho
integrativo, pesquisadores encontraram diferenças significativas que
corroboram a hipótese das duas espécies. Portanto, atualmente as
populações do Atlântico foram completamente descritas e classificadas
como uma nova espécie, atualmente nomeada como Haemulon
atlanticus Carvalho, Marceniuk, Oliveira & Wosiacki, 2020. Percebem a
importância da fixação do nome para este caso?
Um caso semelhante ocorreu em 2015 com os famosos Jabutis
Gigantes de Galápagos. Estes são naturais das Ilhas de Santa Cruz, no
oceano Pacífico e, até então, eram descritos como uma única espécie:
Chelonoidis porteri (Rothschild, 1903). Em 2015, estudos moleculares
identificaram que na porção leste da ilha, uma população pequena
(aproximadamente 250 animais) apresentava uma linhagem genética
diferente e isolada do restante da ilha (populações de milhares de
indivíduos). Assim, esta foi descrita como a nova espécie Chelonoidis
donfaustoi Poulakakis, Edwards & Caccone in Poulakakis et al., 2015.
Após a identificação deste novo táxon e a fixação do nome, o baixo
número de representantes se tornou um alerta para sua extinção. Caso
não tivesse sido identificada a tempo, muito provavelmente a espécie
teria sido extinta antes mesmo de sabermos de sua existência.
Mais de 18.000 espécies novas são descritas todos os anos. O fato
de todas estas estarem nomeadas e padronizadas conforme um mesmo
código de regras permite que tenhamos uma melhor noção da
diversidade, sua organização e permite que possamos estudá-las
independente do país de origem, língua materna ou cultura. Assim, fica
evidente a necessidade do CINZ até a atualidade, assim como a
necessidade de entendermos seus princípios básicos, mesmo que não
sejamos taxonomistas.
O CÓDIGO DE
NOMENCLATURA
ZOOLÓGICA
Introdução
Após conhecermos um pouco sobre como a nomenclatura
zoológica estruturou-se ao longo dos anos, e quem foram as figuras e
ferramentas importantes para moldar as regras que iremos aprender,
podemos de fato mergulhar no código e suas determinações. Este
capítulo dedica-se a resumir e discutir os principais aspectos que
formam os nomes científicos, suas regras e apresentar alguns exemplos
práticos de como estas foram utilizadas, com o intuito de introduzir você,
leitor, a este conhecimento. Caso haja o interesse em conhecer esta
literatura de maneira completa, é possível acessar a versão online do
código em inglês pelo link: [Link]/the-code/the-code-online.
O que é e quais são seus objetivos?
O Código Internacional de Nomenclatura Zoológica é um conjunto
de regras e recomendações, cujo objetivo é fornecer a maior
universalidade e estabilidade aos nomes fixados a espécies de animais
vivos, extintos, fósseis etc. Ele permite que zoólogos associam nomes a
táxons animais seguindo regras taxonômicas específicas para cada
grupo, as quais a distinção e aplicação são critérios do próprio
pesquisador. O código “legisla” sobre nomes de espécies, gêneros e
famílias propostos a partir de 1758 (data da publicação da décima
edição de Systema Naturae de Linnaeus, arbitrariamente escolhida pela
comissão), dispensando de sua alçada os nomes de táxons superiores
(reinos, filos, ordens, classes etc), inferiores a subespécies (cepas e
linhagens), nomes hipotéticos, temporários e não formais.
É fundamental esclarecer que o CINZ é independente daqueles
voltados a outros grupos de organismos vivos. Códigos botânicos ou
direcionados para microrganismos podem apresentar regras diferentes
deste.
Princípios básicos
A maneira como o código é organizado toma como norte alguns
importantes pilares, enumerados a seguir:
(1) O código não interfere no julgamento taxonômico, esta é
responsabilidade da comunidade acadêmica.
(2) A nomenclatura por si só não inclui nem exclui nenhum táxon,
nem muito menos interfere na classificação. Ela apenas fixa um nome
independentemente do critério que será utilizado para determinação da
sua validade.
(3) Para cada nome é necessária a existência de um espécime
representativo ao qual será fixado o nome, o tipo. Para o nível de
espécie e subespécie, o tipo portador do nome será um indivíduo
singular; para nível de gênero, o tipo será uma espécie; e para nível de
família, o tipo será um gênero.
(4) O princípio da prioridade (discutiremos este princípio mais a
frente) é determinado pelo código para a resolução de impasses
nomenclaturais.
(5) Para evitar a ambiguidade, o uso de diferentes nomes para um
mesmo táxon é proibido. Este é o princípio da homonímia (do mesmo
modo, será discutido mais à frente). Quando tais casos ocorrerem, é
validado o nome mais antigo, conforme o princípio da prioridade.
(6) O código orienta pesquisadores sobre como propor novos
nomes, assim como determina regras para determinar a disponibilidade
e prioridade de nomes propostos anteriormente e a necessidade de
correção destes, caso necessário.
(7) Da mesma maneira, o código possui sua própria interpretação e
administração pela Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica,
podendo ser por ela alterado.
(8) Problemas são resolvidos pela aplicação direta do código, sem
jurisprudência. Caso a comissão seja invocada para a decisão sobre um
caso específico, tal decisão refere-se apenas àquele caso.
Os nomes dos táxons
A nomenclatura taxonômica adota o Latim como língua oficial, uma
vez que esta não sofre mais alterações como as demais, o que,
considerando a necessidade de estabilidade e universalidade, torna seu
uso altamente viável.
Embora o código ignore rankings taxonômicos superiores a Família,
por convenção, estes são nomeados com apenas uma palavra, escrita
com a primeira letra maiúscula. Nomes de famílias e gêneros também
são uninominais com a primeira letra maiúscula, enquanto espécies
apresentam nomes com duas palavras, e subespécies, três.
Para gêneros, subgêneros, espécies e subespécies recomenda-se
o destaque com o uso do itálico ou grifo, em materiais digitais, e
sublinhado, em materiais manuscritos. Vale lembrar que o primeiro
nome de uma espécie ou subespécie é, obrigatoriamente, o nome do
gênero a qual ela pertence. Esta deve ser escrita com a primeira letra
em maiúsculo. A segunda e terceira palavras, quando for o caso, serão
escritas obrigatoriamente em letras minúsculas.
Em casos de subgêneros, estes entrarão entre parênteses, ainda
em itálico, com a primeira letra maiúscula, logo após o gênero. Nestes
casos, o código determina que o subgênero não faz parte do nome da
espécie, embora possa ser citado.
Ainda, o uso de abreviações entre e/ou após os nomes de gêneros
e espécies não configuram parte do nome científico, como “aff.” (para
indicar que a espécie possui afinidade com o táxon, porém não é de fato
parte dele), “cf.” (significa que aquela identidade precisa de confirmação
adicional) etc.
Disponibilidade de nomes e solução
de impasses
Para determinar se um nome está ou não disponível, ou, em casos
da necessidade da resolução de problemas, o Código parte de alguns
princípios.
Primeiro, o princípio da homonímia. Homonímia é o fato de um
mesmo nome ser fixado a dois ou mais táxons dentro de um mesmo
grupo, o que, embora proibido, seja tratado com certa flexibilidade. A
fixação de nomes iguais para gêneros ou espécies de grupos diferentes
é permitido, como observado no nome genérico Ensifera, utilizado tanto
para um grupo de aves quanto para um grupo de insetos. Neste caso,
como a taxa é muito distinta entre si, os homônimos podem ocorrer,
embora desencorajados. O mesmo vale quando nomes de táxons
animais são homônimos a táxons vegetais, ou de outros organismos.
Isto ocorre devido ao princípio da independência do código.
Logo após, o princípio da sinonímia. As sinonímias ocorrem
quando um mesmo táxon recebe dois ou mais nomes distintos, seja
pelo desconhecimento dos pesquisadores, erros de interpretação, ou
outros. Este sim é estritamente proibido e deve ser corrigido assim que
identificado.
Por fim, o princípio da prioridade, o mais fundamental dentre os
demais, determina que, entre sinônimos e homônimos, vale aquele mais
antigo. Em homonímias, para ser mais claro, a prioridade do nome
permanece sobre o homônimo sênior (o mais antigo), enquanto o
homônimo júnior (o mais recente) recebe um nome novo. O mesmo
ocorre para os sinônimos, onde o sinônimo sênior é mantido e o
sinônimo júnior, descartado.
Recapitulando o exemplo das cocorocas, onde ambas as espécies,
do Pacífico e do Atlântico, recebiam o mesmo nome, Haemulon
steindachnerii, podemos reparar um caso de homonímia. Quando
descoberta a existência de uma nova espécie no Atlântico, ainda fixada
sobre este nome, esta recebeu imediatamente um novo, Haemulon
atlanticus. Isto ocorreu uma vez que o nome mais antigo (H.
steindachnerii) recebia prioridade.
Por fim, reflitamos sobre um outro exemplo, agora relacionado a
uma sinonímia. Caligus Müller, 1785 é um gênero de crustáceos
parasitos de peixes ósseos e cartilaginosos, comumente conhecidos
como “piolhos de peixes”. Na década de 50, Shen descreveu um novo
táxon, Caligus biseriodentatus Shen, 1957 parasitando a Cavala
Scomberomorus commerson (Lacepède, 1800) no mar da China, a
partir de um trabalho completo e com ilustrações de boa qualidade. Este
parasito foi alvo de inúmeros outros trabalhos taxonômicos, inclusive
sendo redescrito em 1980, a partir de uma metodologia mais moderna e
detalhada. Entretanto, em 2024, durante uma revisão do gênero,
autores descobriram que esta espécie apresentava as mesmas
características morfológicas de uma descrita um ano antes, Caligus
pauliani Nuñes-Ruivo & Fourmanoir, 1956, que, infelizmente, foi descrita
a partir de uma metodologia pobre e inadequada, assim como possuía
poucas ilustrações. Entretanto, não cabe ao Código regular a
metodologia utilizada na descrição das espécies, e sim apenas a
maneira como são nomeadas. Neste caso, a espécie mais antiga, C.
pauliani recebe a prioridade da nomenclatura, sendo considerada um
sinônimo sênior de C. biseriodentatus, seu sinônimo júnior.
Critérios para a publicação de um
nome
Para que um nome de uma espécie ou qualquer ato de
nomenclatura possa ser validado, ele precisa ser publicado em algum
tipo de veículo científico com credibilidade, acessível e de alta
reprodução. Tanto trabalhos veiculados em meios físicos quanto digitais
são aceitos, entretanto, para aqueles em meios digitais, torna-se
obrigatório o registro do nome no ZooBank, assim como comprovação
(no trabalho a ser publicado) de que tal registro foi efetuado. Isto ocorre
para que o nome seja oficialmente publicado em um meio permanente,
e que possa ser amplamente acessado sempre que necessário.
Todo nome publicado possui um autor, uma data e um trabalho.
Estas informações costumam acompanhar o nome quando citado em
trabalhos acadêmicos, sendo o nome do(s) autor(es) fornecido logo
após o nome do táxon, seguido do ano de publicação separado por
vírgula, como no cão doméstico, Canis lupus Linnaeus, 1758. Repare
que o nome do autor e o ano não acompanham o destaque, itálico ou
sublinhado do nome da espécie. Quando citamos uma espécie em um
trabalho, é recomendado (em inúmeros periódicos científicos é
obrigatório) expressar a autoria e o ano do nome sempre que este for
citado pela primeira vez no texto principal. Em alguns casos,
dispensa-se o ano.
Pode ocorrer ainda de encontrarmos citações com o nome do autor
e o ano entre parênteses, como no caso do caramujo africano
Lissachatina fulica (Bowdich, 1822). Isto ocorre quando a espécie ou
subespécie é transferida de um gênero para outro (também chamamos
isso de nova combinação), devido a mudança nos critérios
taxonômicos, pela presença de novos dados, entre outros. Neste caso,
o caramujo foi originalmente descrito como membro do gênero Achatina
Lamarck, 1799, e transferido para Lissachatina Bequaert, 1950 devido a
análises genéticas posteriores à descrição.
Princípio da tipificação
Este representa a obrigatoriedade da designação de um tipo para
cada novo nome proposto. O tipo deve ser um espécime pertencente
àquele táxon, ou um táxon inferior pertencente àquele superior que está
sendo proposto, que atuará como objeto fixador. Isso significa que,
aquele espécime ou táxon será o exemplar ao qual o nome está sendo
fixado ou, em outras palavras, será o principal representante daquele
nome.
Quando o nome proposto é uma espécie ou subespécie,
designa-se um indivíduo pertencente ao táxon como tipo. Em alguns
casos, pode ser possível executar a tipificação a partir de um fragmento
do animal, uma colônia (para corais e esponjas, por exemplo), um
registro (para fósseis) etc. Este é devidamente fixado e preservado
conforme metodologia determinada pelo autor, e depositado em uma
coleção zoológica, tendo seu número de tombo (um tipo de código de
identificação) disponibilizado no trabalho descritivo. No caso da
proposição de um gênero ou família, o tipo será então um táxon. Uma
espécie-tipo é o fixador para um novo nome genérico, assim como um
gênero-tipo é para um novo nome de família.
Dentre os tipos utilizados na descrição de espécies e subespécies,
existem algumas diferentes categorias as quais precisamos conhecer:
(1) Holótipo e parátipos: ao propor um novo nome, um autor
escolhe, dentre um conjunto de exemplares, um para ser o
fixador do nome, este é o holótipo. Os demais exemplares
daquele conjunto são considerados os parátipos
(2) Alótipo: exemplar do sexo oposto ao holótipo, em caso de
organismos dioicos.
(3) Síntipos: ocorre quando o autor de um nome estuda um
conjunto de organismos, mas não determina um holótipo, seja
pela inexperiência ou pelos critérios acadêmicos da época.
(4) Lectótipo e paralectótipos: ao estudar uma série de síntipos,
um autor subsequente ao original pode escolher um exemplar
fixador para fazer o papel de holótipo. Este será o lectótipo, e
os demais exemplares da série serão os paralectótipos.
(5) Neótipo: exemplar designado para substituir holótipos ou
lectótipos em caso de perda ou danos ao material original.
Também pode ocorrer a designação de um neótipo para
substituir outro neótipo.
Tipos desempenham muito mais que apenas a função de fixador,
sendo constantemente acessados por pesquisadores, tanto para a
confirmação da validade da espécie, a produção de análises que
forneçam ainda mais dados sobre aquele táxon, a comparação com
outros táxons próximos, resolução de sinonímias etc.
Como comentado anteriormente, a fixação de um nome de gênero
ou subgênero é feita a partir de uma espécie-tipo. Portanto, é lógico
afirmar que, para ocorrer a criação de um novo gênero, pelo menos uma
espécie precisa ser incluída nele. Quando, dentre as espécies que
serão incluídas naquele gênero, o próprio autor determina uma para ser
o tipo, dizemos que ocorreu uma designação original. Em outro caso,
onde um outro autor, diferente do original, designou uma espécie-tipo
para aquele gênero, chamamos de designação subsequente. Há
ainda dois outros possíveis casos: designação por monotipia, quando
o gênero foi descrito incluindo apenas uma espécie, e por tautonímia,
quando o nome da espécie-tipo é uma repetição do nome genérico,
como em Brama brama (Bonnaterre, 1788).
Ao dividir um gênero em subgêneros, estes, obrigatoriamente,
também terão uma espécie-tipo como fixador, e um destes subgêneros
será nomeado com o mesmo nome genérico.
Criando um nome
O CINZ confere ao autor do novo táxon certo grau de liberdade ao
escolher a temática ou motivação do nome. Entretanto, algumas
recomendações precisam ser estabelecidas para a garantia da
manutenção da universalidade e estabilidade do sistema como um todo.
Por exemplo, nomes de táxons do grupo de família geralmente são
formados pelo nome de um gênero incluído nela, substituindo seu sufixo
por “-idae”. Em subfamília e superfamília a regra é a mesma, entretanto,
utilizando os sufixos “-inae” e “-oidea”, respectivamente. Utilizemos uma
espécie de inseto barbeiro como exemplo:
Os nomes de gênero geralmente são substantivos nominativos no
singular, constituídos por palavras de mais de uma letra. Podem ser
masculinos, femininos ou neutros, de acordo com a língua latina. Esta é
uma informação importante a se observar, uma vez que, em alguns
casos, o nome das espécies precisará concordar com o gênero do
nome genérico.
Em geral, o nome das espécies e subespécies sujeitam-se às
mesmas recomendações que os demais. São binomiais e trinomiais,
respectivamente, sendo sempre o primeiro nome, o gênero. Apesar de
existirem regras mais específicas sobre a formulação dos nomes de
espécies, este material vai se ater apenas àquelas mais gerais,
mencionadas anteriormente, uma vez que as demais dependem de um
conhecimento mais avançado sobre a língua latina. Recomenda-se
fortemente o uso de dicionários de Latim.
DESCRIÇÃO DE
NOVAS ESPÉCIES
Trabalhos de campo e princípios
éticos/legais
A descoberta de qualquer nova espécie começa na mesma tarefa:
coletar os espécimes no campo. Para isso, segundo a legislação
brasileira, o pesquisador precisa estar devidamente autorizado para
remover aquele animal (e qualquer outro) do ambiente, assim como
deve seguir protocolos específicos e manipulação e eutanásia, que
visem minimizar o stress e sofrimento dele.
No Brasil, o uso de animais em trabalhos acadêmicos é regulado
pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal
(CONCEA), vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia. É a partir
dele que surgem as resoluções e regulamentações as quais os institutos
de pesquisa serão subordinados. Todo projeto de pesquisa ou plano de
ensino que utilizará animais, precisará ter seus protocolos submetidos
aos Comitês de Ética no Uso de Animais (CEUAs). Estes, geralmente
encontram-se vinculados a cada instituição de pesquisa. Portanto, como
a descrição de novas espécies depende da aquisição de espécimes
mortos, toda a metodologia de coleta e eutanásia precisa ser submetida
ao CEUA da instituição e ser devidamente aprovada. Quando a
pesquisa envolve apenas animais invertebrados, a submissão dos
protocolos aos CEUAs está dispensada.
Do mesmo modo, além dos protocolos éticos, a pesquisa precisa
estar de acordo com a legislação ambiental e devidamente autorizada, o
que minimiza os impactos no ecossistema. No Brasil, a regulamentação
para estes casos é feita pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio), órgão do Ministério do Meio Ambiente. Todo
processo é realizado pelo Sistema de Autorização e Informação em
Biodiversidade (Sisbio), um site cujo sistema permite ao pesquisador
submeter propostas de projetos para análise e autorização. O sistema é
prático e intuitivo, o que facilita o acesso por profissionais menos
experientes e em formação.
Com todos os protocolos éticos e legais estruturados, com o projeto
autorizado pelas entidades competentes, cabe ao pesquisador
empenhar-se em conduzir o processo de forma honesta e funcional.
Para isso, é imprescindível se realizar uma revisão de literatura para
adequar o projeto às técnicas mais modernas de coleta, fixação e
preservação do material, principalmente considerando que estas
costumam ser específicas para cada grupo animal. Um bom
planejamento e delineamento da pesquisa permitem ao pesquisador
trabalhar de maneira mais inteligente e eficaz.
Como saber se você está lidando
com uma espécie nova?
Agora, com os espécimes coletados, inicia-se o trabalho de
identificação. Aqui, mais uma vez, o pesquisador precisa estar integrado
à literatura, para que possa realizar a preparação do animal, dissecção,
montagem em lâminas, ou alguma outra metodologia que permita
acessar as características com maior valor taxonômico. Esta primeira
etapa de processamento é crítica para o restante das análises, uma vez
que, uma boa preparação do material permite a visualização de uma
maior gama de caracteres. Materiais mal fixados e mal preparados
podem impedir o acesso a estas características e enviesar a avaliação
do profissional de pesquisa. Por fim, a revisão de literatura realizada
aqui será essencial para todo o processo, portanto, não deve ser
subestimada.
Com o animal devidamente processado, a próxima etapa é produzir
o maior número de evidências possíveis, microscópicas, fotográficas,
moleculares etc. Assim, o pesquisador irá dispor de um material mais
completo e diverso para embasar sua análise. Então, inicia-se o
processo de identificação, buscando caracteres no presente espécime
que o agrupam em alguma família, gênero ou, até mesmo, que
permitam a sua identificação específica. Uma boa estratégia para esta
etapa é responder algumas perguntas através da literatura: quais
características definem cada uma destas famílias? E destes gêneros?
Assim, respondendo-as, o profissional consegue analisar quais destas
estão presentes no seu material. Vale a pena buscar por livros-texto ou
artigos de descrição/redescrição, emendas de diagnóstico, que já
respondam a estas perguntas facilmente. Além disso, este processo
também pode ser feito com o auxílio de chaves dicotômicas, quando
disponíveis. Estas são ferramentas textuais que, através de etapas
dicotômicas que utilizam características do animal, direcionam o
pesquisador para um certo grupo ou espécie. Alguns grupos animais
dispõem inclusive de chaves dicotômicas em aplicativos de computador
e celular.
Toda nova espécie é uma hipótese, e, portanto, conta com o senso
crítico do profissional. Descobrir algo novo é obviamente uma ânsia de
todo pesquisador, portanto, precisa-se haver honestidade e parcimônia
no momento da análise para evitar ao máximo os vieses. Algumas
reflexões podem ajudar neste processo: o espécime apresenta
características suficientes para ser distinguido de seus companheiros de
gênero mais próximos? Estas características não poderiam ser
variações intraespecíficas? Quais metodologias podem ser utilizadas
para confirmar se estas diferenças são significativas? Para
respondê-las, novamente, este material reforça a necessidade de uma
boa revisão de literatura. Neste processo, também pode-se refletir:
quais características outros pesquisadores da área usam para distinguir
entre as espécies? Este grupo costuma apresentar muitas variações
intraespecíficas? Quais metodologias são utilizadas neste, e em outros
grupos, para dar suporte às suas novas espécies? Por fim, após ter
certeza de que aquele indivíduo representa um novo táxon, por não se
“encaixar” em nenhum outro, o pesquisador pode iniciar o processo
seguinte.
A nomeação da nova espécie
Esta etapa já foi parcialmente explicada no capítulo anterior,
portanto, aqui veremos apenas algumas breves sugestões. A primeira, é
estar integrado ao CINZ, assim como consultar um dicionário de Latim
para garantir a formação correta do nome.
Nomes de espécies podem fazer referência à localidade onde o
animal foi coletado, à alguma estrutura única que ele possua, ao seu
hospedeiro (em caso de parasitos), assim como homenagear uma
pessoa (um importante pesquisador, um familiar ou até mesmo algum
personagem da cultura pop). Neste quesito, o pesquisador tem total
liberdade de escolha, entretanto, aqui é feito um apelo para que esta
seja tratada com muita seriedade. Embora livre, o pesquisador precisa
ter consciência da importância daquela descoberta para a ciência e,
portanto, utilizá-la conforme sua grandeza. Por que não utilizar aquele
momento para homenagear uma importante figura científica da área ou
do país? Ou então, para enaltecer a diversidade do local onde foi
encontrada? Talvez ser formado por alguma pista sobre a morfologia e
biologia do espécime? Estas são ideias particulares, mas que talvez
sirvam como reflexão sobre como tornar aquele nome algo maior que
simplesmente um conjunto de palavras que identificam o táxon.
Produção de registros gráficos
Considerando o dito anteriormente, que toda espécie é uma
hipótese, o autor precisa produzir registros visuais que a embasam e
convença os pares. Para alguns grupos, apenas uma série de
fotografias pode ser suficiente para ilustrar a nova combinação de
caracteres, enquanto para outros, há a necessidade de se produzir
ilustrações e outros registros (microscopia de varredura, confocal,
análises moleculares etc). Ilustrações são a forma mais primordial de se
representar visualmente uma espécie, sendo produzidas, antigamente,
por desenhos manuais com nanquim. Com o avanço da tecnologia,
inúmeros trabalhos têm apresentado ilustrações com desenhos
produzidos sem softwares dedicados, como Adobe Illustrator e
CorelDraw. Estas ilustrações digitais são produzidas a partir de
desenhos manuais obtidos através da metodologia de câmera clara, que
permite o pesquisador traçar um desenho por cima do que está sendo
visualizado nas suas oculares, ou por cima de fotos comuns e
micrografias (obtidas através de um microscópio). Estas apresentam a
vantagem de compilar inúmeras informações morfológicas que, se
fossem registradas em fotografias, dependeriam de um número maior
de imagens para transmitir a mesma informação.
Os registros gráficos fornecem ao trabalho uma visualização do que
o novo táxon é, além do que representa a explicitação das evidências
que o autor utilizou para embasar suas conclusões (este é um princípio
fundamental do método científico).
Descrição da nova espécie e
produção científica
A etapa de produção das evidências precisa, obrigatoriamente,
preceder esta. Entretanto, a produção de registros gráficos, não
necessariamente. A escolha da ordem entre a descrição e a produção
de registros gráficos é do pesquisador, conforme melhor se adequa à
sua rotina de laboratório, disponibilidade de tempo e recursos, etc.
Todo novo táxon precisa ter uma descrição completa de suas
principais características, medidas morfométricas, ornamentações,
coloração, entre outras informações relevantes. Este será o registro
textual do que está sendo representado nas imagens ou ilustrações do
trabalho. No caso de animais dioicos, é necessário produzir descrições
diferentes para machos e fêmeas, mesmo que o dimorfismo entre eles
seja pouco evidente. É indispensável recorrer à literatura para se
entender quais características devem ser descritas assim como a
nomenclatura técnica mais utilizada, evitando um texto prolixo,
desatualizado ou com quaisquer outros tipos de erros. Além disso, é
sugerido o uso do estilo telegráfico de escrita, poupando o uso de
conjunções, preposições, artigos etc. Assim, com um texto mais
objetivo, reduz-se a chance de confusões e diferentes interpretações ou
subjetividades.
É muito comum nestes tipos de trabalho a inserção de alguns
breves parágrafos após a descrição para discutir as características que
tornam aquela nova espécie única no gênero. Em casos em que há um
grande número de congêneres (imaginem um gênero com 100 ou 200
espécies), uma dica é primeiramente agrupar a nova espécie com
alguns congêneres mais próximos (que compartilhem algum caractere,
ou grupo de caracteres com ela), e então distinguir ela destes. Assim, o
pesquisador é poupado de ter que comparar sua nova espécie com
cada uma, otimizando o processo de produção do artigo.
Em geral, a produção de um artigo científico contendo uma ou mais
espécies novas, funciona da mesma maneira que outros. Inicialmente,
na introdução, é costumeiro incluir informações importantes para o
contexto do táxon: histórico do gênero ou família, aspectos da sua
diversidade e distribuição, diversidade do local onde a espécie foi
encontrada, de seus hospedeiros (no caso de parasitos), relevância
econômica ou para produção etc. Segue-se então para a metodologia,
onde o autor explicita como, quando e onde o espécime foi coletado, os
protocolos utilizados, a maneira como foi fixado, preservado e
processado para as análises, assim como outros métodos relevantes
para o trabalho. Então, na seção de resultados, o autor inclui a
descrição do novo táxon, uma resenha taxonômica contendo a
localidade tipo (onde o tipo foi coletado) e outras localidades, número de
tombo (o código de identificação dos tipos na coleção zoológica),
hospedeiro tipo (para parasitos) (hospedeiro do qual o tipo foi coletado)
e outros hospedeiros, assim como outras informações específicas para
cada grupo. O parágrafo de distinção da nova espécie com os demais
congêneres pode ser incluído tanto na seção de resultados quanto na
discussão do trabalho. E, por fim, a discussão, onde são abordados
aspectos com o intuito de resolver questões ou até levantar novas
perguntas relevantes para o grupo.
O parágrafo anterior é uma generalização das seções de um artigo
científico, apenas para ilustrar as informações que podem estar contidas
na proposição de um novo táxon. Entretanto, vale lembrar que os
trabalhos variam naturalmente devido às particularidades de cada grupo
animal, aos critérios científicos do momento, da maneira com que cada
autor escreve, as normas dos periódicos científicos etc. Portanto, é
muito importante ter consciência de que nem toda espécie será descrita
da mesma maneira, e que pode ser necessário adaptar as etapas para
cada novo táxon que será proposto.
Escolher um periódico científico
Como vimos, toda nova espécie precisa ser proposta em um artigo
científico publicado em algum periódico de ampla distribuição e com
fácil acesso por outros pesquisadores. Portanto, é fundamental prestar
atenção (até por uma questão de credibilidade) no periódico para qual o
trabalho será submetido.
Primeiramente, o processo de revisão de literatura deve auxiliar
nesta etapa. Uma breve pesquisa sobre as espécies mais recentemente
publicadas no gênero ou família do novo táxon pode informar quais são
as revistas científicas mais utilizadas. Ainda, caso seja um grupo pouco
estudado, ou com um grande intervalo de anos entre a última espécie
publicada, vale recorrer a periódicos de taxonomia e sistemática mais
gerais, como: Zootaxa, Taxonomy, Journal of Systematics & Evolution,
Zookeys, Zoologica Scripta. Entretanto, não é obrigatório publicar em
uma revista específica de taxonomia e sistemática. Diversos outros
veículos aceitam proposições de novas espécies, basta confirmar se o
trabalho se encaixa no escopo da revista. Em alguns casos, esta
informação pode não ser tão clara, portanto, pode-se analisar os mais
recentes volumes e observar quais tipos de trabalhos vêm sendo
publicados.
No mundo atual, é fundamental considerar o fator de impacto e/ou
QUALIS do periódico, uma vez que são fundamentais para a avaliação
do impacto do pesquisador ou grupo de pesquisa. Além do mais, apesar
de um pouco controversos, estes índices costumam indicar a
credibilidade e acessibilidade do veículo.
A escolha do tipo e o depósito em
uma coleção zoológica
Esta é mais uma etapa do processo cuja ordem é variável. Alguns
periódicos científicos solicitam o depósito de espécimes representativos
antes da submissão do manuscrito, outros apenas após o aceite do
trabalho. Portanto, pode ocorrer entre qualquer etapa do processo após
as análises dos espécimes.
Inicialmente, precisamos abordar a escolha do espécime-tipo. Aqui,
o pesquisador precisa ponderar quais características são as mais
importantes para a identificação da nova espécie, e então escolher o
indivíduo da série que melhor representa essas características. Este
será seu holótipo. O mesmo ocorrerá para o indivíduo-tipo do sexo
oposto, o alótipo. E o restante da série poderá ser incluída como
parátipos, havendo ainda a possibilidade de se reter alguns espécimes
na coleção pessoal do autor. Embora possível, é indicado o depósito do
maior número possível de indivíduos na série tipo, tanto para que haja
disponibilidade de acesso, como pelo cuidado especializado na
preservação do material empregado pelos membros das coleções
zoológicas. Cada grupo da série tipo deve ser individualizado (holótipo,
alótipo e parátipos) e identificado antes do depósito.
Com a série tipo escolhida, cabe aos autores escolherem uma
coleção zoológica pública e de grande credibilidade para depositá-la.
Esta seleção pode considerar as coleções específicas para aquele
grupo mais utilizadas pela literatura, que já possuam um bom acervo,
vinculadas a uma grande instituição de pesquisa etc. Os critérios aqui
ficam por conta do autor do trabalho.
Após devidamente depositada, a série tipo receberá da coleção os
números de tombo relativos à cada indivíduo, sendo estes incluídos no
trabalho. Assim, qualquer pessoa pode solicitar o acesso ao material
utilizando estes códigos.
O ADVENTO DA
BIOLOGIA
MOLECULAR
Uso do DNA na descrição de novas
espécies
A produção científica do último século foi marcada pelo grande
avanço de técnicas moleculares e grandes descobertas relacionadas à
genética. Estas possibilitaram olhar para o processo evolutivo através
do DNA, revelando parentescos e relações que, sem ele, dificilmente
teriam sido revelados. Da mesma maneira, o uso destas técnicas para
trabalhos de novos táxons tem se tornado cada vez mais comum.
Para suportar a nova espécie, um ou mais genes podem ser
amplificados e sequenciados, sendo estas sequências confrontadas
com outras pertencentes ao gênero. O uso de filogenias com tais dados
também contribui grandemente para este propósito, além de ajudar na
identificação de congêneres próximos, de padrões evolutivos no grupo e
outras informações.
Outra relevante função destas ferramentas é a produção de um
banco de dados genéticos robusto, contendo uma parte fundamental da
diversidade global. Portanto, mesmo se realizar análises complexas na
proposição da espécie, apenas o sequenciamento e depósito destes
dados já é de grande contribuição para o estudo da biodiversidade, por
permitir que futuros trabalhos abordem o grupo com uma maior
complexidade de informações. E, logicamente, quanto mais informações
disponíveis houver, mais robustas serão as análises e trabalhos que os
utilizarem.
Este tema ganhou tanta importância nos últimos anos que, em
2015, o Governo Federal instituiu o Conselho de Gestão do
Patrimônio Genético (GCEN) vinculado ao Ministério do Meio
Ambiente, para regular atividades de pesquisa, transporte, coleção etc.
que utilizassem dados genéticos de organismos do território nacional.
Desta maneira, tornou-se obrigatório o registro de quaisquer atividades
que se enquadrem no dito anteriormente, no Sistema Nacional de
Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional
Associado (SISGEN), instituído em 2017.
Apesar de muito útil para a resolução de impasses taxonômicos e
descrição de novas espécies, diversos grupos zoológicos ainda
carecem de dados genéticos, o que muitas vezes inviabiliza grandes
análises e até seu uso em trabalhos de sistemática. Para que este
cenário mude, é necessário que cada vez mais informações sejam
publicadas e estejam disponíveis em bancos de dados públicos. Apesar
de escasso, o cenário atual tem mudado, e pode, num futuro não tão
distante, ser muito representativo e revelar informações extremamente
valiosas para o estudo da diversidade de animais no mundo.
A genômica e seus
desmembramentos
Dando um passo além da genética, uma outra perspectiva tem
gradativamente tomado espaço no meio acadêmico: a genômica. Esta,
pretende estudar o arcabouço genético completo de uma espécie,
utilizando técnicas complexas e detalhadas de sequenciamento.
Embora um pouco distante dos trabalhos taxonômicos, o estudo do
genoma tem sido um importante alvo de análises evolutivas. Ao invés
de observar a variabilidade de apenas um gene, acerca da história de
um grupo, passa-se a analisar de que maneira muito mais abrangente,
permitindo resultados mais verossímeis e informativos. Da mesma
maneira, o sequenciamento e análise dos transcritos, aminoácidos e
proteínas expressadas também têm ganhado espaço nos grupos de
estudo de evolução.
A genômica já demonstrou ser uma ferramenta de potencial
inigualável dentre a sistemática, mas, ainda mais que a genética,
padece de uma metodologia complexa e cara, de uma intensa escassez
de dados disponíveis, assim como de poucos grupos de estudo
dedicados ao redor do mundo. Para tentar mudar este cenário, algumas
iniciativas foram criadas com o intuito de incentivar e cativar
profissionais, como o The Global Genome Initiative, abrangendo os
organismos vivos do planeta.
A proposta já conta com mais de 100 instituições vinculadas ao
redor do mundo, com o esforço conjunto de criar um enorme
biorrepositório genômico que possa ser usado por qualquer grupo de
pesquisas. A expectativa é que esta iniciativa, como outras, motivem o
financiamento de estudos e desenvolvimento de trabalhos que
aumentem a robustez dos dados sobre a diversidade global, assim
como contribuir para a sua conservação.
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