Devastação — Nenhum
Detalhe é Obra do Acaso
Mayk Ferreira
Dedicatória
A todos que acreditaram nesta história antes mesmo dela existir. A
quem me incentivou nos momentos de dúvida, a quem ouviu minhas
ideias com entusiasmo e a quem, de alguma forma, tornou este livro
possível. Cada palavra aqui nasceu do apoio e da inspiração que
vocês me deram. Sem vocês, talvez esta história nunca tivesse sido
contada.
Para aqueles que questionam, resistem e não aceitam um destino
imposto. Que nunca sejamos apenas peças em um jogo invisível, que
nunca deixemos de buscar a verdade, por mais difícil que seja
enxergá-la. Esta história é para os que ousam lembrar, mesmo
quando todos dizem para esquecer.
Esta história agora pertence a você. Que ela te faça questionar,
sentir e, acima de tudo, lembrar.
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Epígrafe
O perigo não está apenas no que vemos, mas no que aceitamos sem
questionar. Às vezes, a prisão mais eficiente é aquela que nos
convence de que somos livres — do autor.
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Sumário
Dedicatória.................................................................................................................................................. 2
Epígrafe....................................................................................................................................................... 3
Capítulo 1 — Detroit sob a Neblina do Apocalipse....................................................................................5
Capítulo 2 — Nós Nunca Ficaremos Sozinhos......................................................................................... 13
Capítulo 3 — À meia-noite....................................................................................................................... 20
Capítulo 4 — Chuva, Neblina e Lágrimas................................................................................................ 28
Capítulo 5 — Saqueadores........................................................................................................................ 40
Capítulo 6 — O Apocalipse Não Deveria Parecer um Apocalipse?......................................................... 50
Capítulo 7 — Usa a Cabeça!..................................................................................................................... 61
Capítulo 8 — A Paz Irônica do Fim..........................................................................................................73
Capítulo 9 — Obviedade do Dia............................................................................................................... 84
Capítulo 10 — Curiosidade ou Interesse?.................................................................................................93
Capítulo 11 — Sacos na Cabeça............................................................................................................. 103
Capítulo 12 — Meias-verdades.............................................................................................................. 117
Capítulo 13 — Devaneios....................................................................................................................... 134
Capítulo 14 — Cobaia.............................................................................................................................142
Capítulo 15 — Caderninho de Notas...................................................................................................... 153
Capítulo 16 — CXZ................................................................................................................................ 163
Capítulo 17 — Velho Método................................................................................................................. 171
Capítulo 18 — Jantar Improvisado......................................................................................................... 178
Capítulo 19 — Waffles e… Pedras?........................................................................................................185
Capítulo 20 — Está Tudo Bem............................................................................................................... 194
Capítulo 21 — Você é Patético................................................................................................................203
Capítulo 22 — Seguir em Frente.............................................................................................................212
Capítulo 23 — O Gritante Silêncio do México.......................................................................................218
Capítulo 24 — Abrigo 07........................................................................................................................226
Capítulo 25 — Fora do meu Controle..................................................................................................... 234
Capítulo 26 — Lar Doce Lar...................................................................................................................246
Capítulo 27 — Módulo, Setor, Ala, bla bla bla.......................................................................................247
Capítulo 28 — Carga Especial................................................................................................................ 248
Capítulo 29 — Em Meio à Guerra, Faça Aliados................................................................................... 249
Capítulo 30 — Engrenagem.................................................................................................................... 250
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Capítulo 1 — Detroit sob a Neblina do
Apocalipse
O silêncio era ensurdecedor. Não era um silêncio normal, como o de
uma madrugada tranquila ou de um bairro pacato. Era absoluto,
esmagador. O tipo de silêncio que faz os pelos da nuca arrepiarem.
As ruas de Detroit estavam vazias. Nenhum carro passava, nem
sequer alguma loja estava aberta. O mundo parecia ter parado. Não
havia corpos, não havia sangue. Apenas... o nada.
Quase uma semana havia se passado, e lá estava eu novamente,
privado de sono. Atormentado, minha mente não conseguia organizar
os pensamentos, e isso me causava uma angústia profunda. Para onde
iríamos? O que faríamos? Eu ansiava desesperadamente por alguma
resposta. Assim, às 7 da manhã, decidi sair às ruas. O cenário
sombrio da manhã arrepiava minha pele. As ruas áridas e gélidas de
Corktown estavam desprovidas de vida. As casas eram meros casulos
vazios, os estabelecimentos comerciais e edifícios eram apenas
estruturas de concreto desoladas. Aquele lugar não oferecia nem paz
nem luminosidade! Decidi então ir ao Rio Detroit.
Apoiando-me nas barras de ferro gélidas e enferrujadas, observei
pela centésima vez a vista majestosa do rio. Enquanto a brisa suave
acariciava meu rosto, agitando meus cabelos, minha mente se
esvaziou e uma sensação de paz tomou conta de mim. Fechei os
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olhos e um sorriso se formou em meus lábios. Mas logo se dissipou.
Não conseguia parar de me perguntar o que teria acontecido para as
pessoas Simplesmente desaparecerem!
Comecei a me lembrar dos meus pais, quando me levaram ali pela
primeira vez. Eu tinha 10 anos, e fiquei maravilhado com a vista e
não queria sair daquele lugar nunca mais. Era meu lugar de paz.
— Mãe, por que a gente não vem aqui mais vezes? — Perguntei
enquanto apertava suas mãos com toda minha força.
— Tem muita gente aqui, filho, e eu não gosto muito disso... — ela
respondeu, enquanto passávamos apertados pela multidão de pessoas
ali.
Uma semana atrás eu era só mais um garoto vivendo em Detroit.
Com meus 16 anos, minha vida se resumia em ir à escola. Sabe, eu
não gostava da escola de jeito nenhum. Além de não gostar do
ambiente e das pessoas, eu não tirava boas notas, o que acarretava
broncas e mais broncas da minha mãe. Além do fato de que eu era
tímido e nunca dominei a arte da comunicação.
O calendário marcava 4 de abril de 2022, uma segunda-feira. Eu
odiava acordar cedo. Ainda sonolento, vesti minha tradicional calça
jeans preta e meus sapatos da mesma cor — minha favorita. Peguei a
camisa branca com o brasão da escola e, por cima, joguei minha
jaqueta college preta com detalhes brancos. Aquela jaqueta tinha um
valor especial para mim, e não era por causa do grande "D" de David
estampado no peito, muito menos pelo preço alto. Alguns meses
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antes, eu havia comentado com meu pai que achava o modelo bonito
e que um dia compraria um. Na época, estávamos passando por
dificuldades financeiras, já que quase todo o nosso dinheiro tinha
sido investido na busca pelo meu irmão desaparecido. Mesmo assim,
de alguma forma, meu pai conseguiu comprá-la para mim. Quando
me entregou, percebi o quanto aquilo tinha sido um esforço enorme
da parte dele. Desde então, quase nunca a tirava — fizesse frio, calor,
chuva, tanto fazia, ela sempre estava comigo.
Borrifei um pouco do meu perfume Cool Water, escovei os dentes e
desci as escadas. O trajeto até o ponto de ônibus era o mesmo de
sempre: dois quarteirões caminhando pelo asfalto gasto do bairro, o
sol da manhã ainda preguiçoso no céu. Assim que cheguei, encontrei
Nathan me esperando. Ele sempre chegava antes. Nate era meu
melhor amigo — crescemos juntos, dividindo segredos, frustrações e
sonhos. Morávamos perto um do outro, então passávamos boa parte
do tempo juntos. Para o mundo, éramos apenas dois garotos indo
para a escola. Para mim, ele era mais que isso: era a única pessoa que
realmente me entendia.
Após o fim das aulas, fui direto para casa. Já passava das cinco da
tarde quando empurrei a porta do meu quarto, querendo apenas um
pouco de silêncio. Mas minha mãe, como um míssil, veio atrás de
mim. Ela era uma boa mãe — esforçada, dedicada — mas era dura
demais às vezes. Desferia golpes em forma de palavras.
— David meu filho, eu estava conversando com o pessoal da sua
escola, e eles me disseram que suas notas e seu comportamento não
estão nada bons — Ela bufou — Você precisa se esforçar! Eu não
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quero ter um filho que não faça nada de útil na vida. Burro e
preguiçoso, não deixarei que digam isso de você! Não me obrigue a
te colocar de castigo.
Senti meu estômago revirar — Desculpa mãe, eu nem converso
direito nas aulas. Vou tentar estudar mais, prometo.
— Acho bom mesmo, rapaz, senão...
Ela não chegou a terminar a ameaça. Meu pai, que estava por perto,
pousou a mão no ombro dela e interveio:
— Maggie, pode deixar que eu falo com ele.
Minha mãe lançou a ele um olhar cortante, mas se afastou,
descendo as escadas com passos firmes. Meu pai então virou-se para
mim com suas grossas sobrancelhas grisalhas arqueadas em um
misto de cansaço e compreensão.
— Pete, não liga pra sua mãe. Ela só está estressada com o dia a
dia. Você não é burro, só precisa se esforçar um pouco mais. Você é
o cara, bate aqui!
Ele sempre soube o que dizer, mas, naquele dia, suas palavras não
foram suficientes para apagar as da minha mãe. Me joguei na cama e
encarei o teto, com o peito pesado suspirei:
— Burro... Preguiçoso...
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Eu só queria sumir pra bem longe. Com algumas lágrimas
escorrendo pelo rosto, finalmente adormeci.
Acordei renovado — ou pelo menos tentei me convencer disso. O
dia começou como qualquer outro: levantei, me vesti e saí. Minha
mente estava cheia, barulhenta, mas lá fora, tudo era o oposto. A rua
estava quieta, envolta em uma neblina espessa. Coloquei os fones no
volume máximo e esperei no ponto de ônibus.
Cinco minutos. Dez. Quinze. Vinte. Nada do ônibus. Nada do Nate.
Um incômodo começou a crescer em mim. Resolvi ir a pé. A
quietude das ruas, que deveria ser apenas uma peculiaridade do
tempo frio, agora parecia... errado. Eu não via ninguém. Poucos
carros, sem cachorros latindo, nenhuma alma viva. Ao me aproximar
da escola, tentei entrar, porém estava tudo trancado.
— Isso é uma pegadinha? Não tem aula e ninguém avisa? Será que
acordei cedo demais?
Olhei em meu celular e o relógio apontava 7:55 — cinco minutos
para a aula começar. Esperei até 8h20, andando de um lado para o
outro, mas ninguém apareceu. Sem sinal no telefone. A aflição
aumentou. Fui até a casa do Nate mas ninguém abriu a porta quando
bati. Meu peito se contorcia por dentro. Parecia um pesadelo.
Quando cheguei em casa, corri para o quarto, tentando mandar
mensagens para os colegas. Sem sucesso. O silêncio agora gritava.
Ninguém aparece. Nenhum som, movimento. Àquela hora, meu pai
já deveria estar no trabalho, mas seu carro continuava na garagem.
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Caminhei lentamente até o quarto dos meus pais, tomado pelo medo.
Cada som parecia amplificado, assombrando meus passos. Com o
coração acelerado, passei pela porta e andei pelo corredor cujo ranger
do piso de madeira era terrível. Passei pelas portas fechadas
esperando por algo que nem eu sabia o que era.
No corredor, um porta-retrato com uma foto nossa escrita "happy
family". Sorri ironicamente. Na foto, lá estávamos nós: eu, meu pai,
minha mãe e meu irmão mais velho, Charles. Ele havia desaparecido
oito anos antes, numa viagem escolar. Tinha 16 anos na época.
Minha lembrança de seu rosto era vaga, desbotada pelo tempo. Mas
eu nunca esqueci o quanto éramos próximos. Onde ele ia, eu ia atrás.
Quando sumiu, fizemos um enterro simbólico, pois as autoridades já
o davam como morto. Seu nome era um tabu dentro de casa. Seu
quarto permanecia intacto, trancado, como se ele fosse voltar a
qualquer momento. Suspirei.
Segui pelo corredor até o quarto dos meus pais. A porta estava
aberta. Meu coração disparou e minhas mãos começaram a tremer.
Entrei devagar. A cama estava desarrumada, mas eles não estavam lá.
Minha respiração acelerou e eu entrei em choque. A ficha caiu como
um soco no estômago. Não havia ninguém, nada. Tudo havia sumido.
O desespero explodiu. Corri para a rua, gritando feito um louco,
esperando que alguém — qualquer pessoa — me respondesse.
— NÃO, NÃO, NÃO! Isso não é possível... é um sonho! Só pode ser.
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Mas o vazio perdurou.
Voltei para casa e me deitei na minha cama. Repeti para mim
mesmo que, se eu dormisse iria acordar do sonho e tudo voltaria ao
normal. Fechei os olhos e o sono veio carregado de algo diferente,
ruim. Quando dormi, comecei a sonhar. No sonho, eu via Nate. Ele
sorria de leve, como se nada estivesse errado.
— Dave, vamos fazer um pacto? Sempre que a gente precisar um do
outro, a gente vem pra cá. Você me avisa ou eu te aviso e a gente se
encontra aqui.
— Tá, mas e se não tiver jeito de avisar? Tipo... o fim do mundo?
Ele riu — Olha, você vem pra cá e me espera.
Aquele lugar, no parque da cidade, era nosso esconderijo secreto.
Acordei de um salto. Aquilo não podia ser só um sonho, era um
sinal. Peguei minhas coisas e saí de casa.
O parque da cidade estava aberto, o que me fez suspeitar que talvez
houvesse alguém lá dentro. Segui pelo caminho de pedras em
ziguezague que cortava a vegetação, andando por quase meia hora.
Nenhum som de passos, nem sinal de vida além das árvores ao redor.
A cada metro, a vegetação parecia se fechar contra mim. Como se a
própria floresta quisesse me impedir de avançar. A luz do sol mal
atravessava as copas densas das árvores, mergulhando tudo numa
penumbra.
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Então, à beira do lago, vi do outro lado a caverna nosso refúgio. Dei
a volta, sentindo a adrenalina pulsar no sangue e entrei naquele
buraco escuro e úmido. Era minha última esperança.
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Capítulo 2 — Nós Nunca Ficaremos
Sozinhos
Minhas mãos estavam trêmulas e o silêncio me irritava. Eu ouvia
lentamente cada batida do meu coração e, parecia ouvir até mesmo o
som do meu sangue percorrendo as artérias. Analisei cada centímetro
daquela fria e cinzenta caverna tentando provar a mim mesmo o
contrário do que eu já sabia: Não havia ninguém ali. Era tolice achar
que teria alguém. Olhando ao redor do ambiente, meu coração se
estremeceu, olhei para baixo e senti minha pressão baixar. Me sentei
no chão molhado e asqueroso e fechei meus olhos.
— Burro! — pensei — Do que adianta vir pra cá? Em pleno fim do
mundo?
Eu não conseguia assimilar o que estava acontecendo. Olhei então
para o cão de pelúcia rasgado no chão. Na parede à minha frente uma
escrita feita por Nate há alguns anos com tinta verde: "Friends
forever. We'll never be alone". Nunca estaremos sozinhos... sorri
ironicamente. Olhei cada elemento presente ali, me lembrando de
como e quando eles haviam parado lá, surpreso por estar tudo em seu
lugar. Como passou rápido minha infância. Com tudo aquilo
acontecendo, minha cabeça estava a mil. Me deitei no chão e, com os
olhos já cheios de lágrimas adormeci.
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Acordei debaixo de uma forte ventania. Abri meus olhos e vi que já
estava escurecendo. Eu realmente precisava ir embora, afinal,
enfrentar animais (se é que eles também não haviam sumido) à noite
não era uma boa ideia. Antes mesmo de sair da caverna, vi algo se
mexendo nos arbustos em volta do lago. Observei atentamente para
ver se identificava o que era.
Ao chegar perto do lago ouvi um estalo de algum galho se
quebrando. Girei os calcanhares e vi de relance a figura de um
homem, apenas um vulto que logo desapareceu entre as árvores.
Poderia ser apenas minha imaginação me pregando peças. Sem
hesitar, disparei na direção das sombras, sem sequer saber o que
estava perseguindo. Os galhos cortavam minha pele, folhas úmidas
grudavam no meu rosto, e o chão irregular parecia conspirar contra
mim a cada passo. Minha visão começou a embaçar, e o mundo
girava ao meu redor, mas me recusei a parar de correr. Foi então que
algo — ou alguém — surgiu bem à minha frente. Não tive tempo de
reagir. Senti dedos se fechando em meu braço, firmes, reais. A
confirmação de que eu não estava sozinho veio no mesmo instante
em que meu corpo colidiu violentamente contra o tronco de uma
árvore. A dor explodiu em minha cabeça, e antes que eu pudesse
sequer entender o que acontecia, tudo escureceu.
— Você gosta mesmo de dormir, ein? — A luz fraca me cegou por
um instante e me impediu de abrir os olhos completamente.
Pisquei algumas vezes, tentando firmar a visão, até que o rosto à
minha frente tomou forma. Meu coração quase parou. Era mesmo o
Nathan. O choque me prendeu no lugar. Por um segundo, pensei
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estar sonhando, ou delirando. Era improvável demais. Mas também
era improvável que o mundo inteiro tivesse desaparecido.
Sem conseguir formular uma única palavra, simplesmente me
levantei e o abracei com força, sentindo as lágrimas queimarem meu
rosto. Ele retribuiu o abraço sem hesitar, e aquele gesto foi a
confirmação de que ele era real.
— Vou te levar pra casa — disse ele, dando um tapinha em minhas
costas — Você precisa descansar.
Eu assenti, ainda sem voz. A dor na cabeça pulsava a cada
movimento, mas o alívio de não estar ao ermo sobrepunha qualquer
desconforto. Seguimos calados até o estacionamento. O carro dos
pais de Nate estava lá, intacto, como se nada tivesse acontecido. O
motor roncou suavemente quando ele girou a chave na ignição, e
logo estávamos atravessando as ruas desertas da cidade. As luzes dos
postes piscavam em intervalos irregulares, como se também
estivessem confusas com o vazio ao redor. Não havia carros nas ruas,
nem um único sinal de vida. Apenas a cidade, parada no tempo.
A viagem durou poucos minutos, mas parecia uma eternidade.
Minha mente girava em torno das perguntas que eu ainda não
conseguia formular em voz alta. O que aconteceu? Por que só nós?
Quando finalmente chegamos, desci do carro sem realmente prestar
atenção no ambiente. O rangido da porta me trouxe de volta à
realidade. A casa de Nate estava como sempre: dois quartos, piso de
madeira escura, paredes brancas. Mas a quietude... A calmaria era
algo novo.
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Passamos pela sala e seguimos pelo corredor estreito até o quarto
dele. Um espaço simples, com duas camas — a dele e a do irmão
mais novo, Aaron. Quadros de carros e fotos de família decoravam as
paredes, lembranças de um mundo que a cada minuto parecia mais
distante. Nate sumiu por alguns minutos e voltou com um pacote de
biscoitos, jogando um punhado na minha direção. O relógio na
parede marcava oito da noite. Mesmo assim, a sensação de que o
tempo havia perdido o sentido era esmagadora.
Ele mordeu um biscoito, mastigando lentamente antes de perguntar:
— Como tá sua cabeça? Ainda doendo?
— Melhor — Respirei fundo.
O silêncio se prolongou. Então, sem conseguir segurar mais,
perguntei:
— Nate... Isso não pode ser real. Será que a gente enlouqueceu? O
que será que aconteceu?
Nate jogou o último biscoito na boca antes de responder —
Sinceramente? Eu não faço ideia. Só sei que isso tudo é muito
estranho. Todo mundo desapareceu, sem corpos, sem sinais de luta.
Andei pela cidade e não vi nada. Tudo tá quieto demais, vazio
demais... parece cena de filme.
— Isso que me assusta — um arrepio subiu pela espinha — E se isso
só tiver acontecido aqui?
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— Duvido. Acho que foi no mundo todo. Não tenho provas, mas faz
sentido, não acha?— Ele se sentou ao meu lado na cama e
perguntou.
Havia tantas possibilidades rodando na minha cabeça que era difícil
focar em uma só — Não sei se tiraram férias coletivas e resolveram
todos viajar sem a gente, se é um ataque alienígena, ou se estamos
em outra dimensão. Mas acho que ninguém morreu. Quem sabe não
fomos nós que morremos? Sei lá... só espero acordar e ver que tudo
voltou ao normal.
— Férias coletivas? — Nate soltou uma risada curta — Você
realmente consegue fazer piada até agora?
— O que mais eu posso fazer?
Ele balançou a cabeça, mas seu olhar era sério — Eu também quero
acreditar que as coisas vão voltar ao normal. Mas ficar sentado aqui
esperando um milagre não vai ajudar. Precisamos pensar no que
fazer pra sobreviver.
— Só espero que a comida não tenha desaparecido também. Você tá
certo. — A palavra me pegou de surpresa. Sobreviver. Não
estávamos apenas solitários, estávamos vulneráveis — Sabe, eu não
consigo parar de pensar nos meus pais. Se aconteceu algo com eles?
Senti um aperto no peito
— Eu também. Só de não ter corpos por aí já é um bom sinal.
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— Podemos ser heróis, que nem nos filmes de ficção. Vamos
investigar pra saber o que está acontecendo!
— Heróis? — Ele sorriu — Dave, somos adolescentes, não temos
armas, nem superpoderes, nem ideia do que está acontecendo. A
verdade é que estamos abandonados, e não há nada que possamos
fazer.
— Essas coisas nós podemos conseguir. Você não acha estranho? Se
estamos aqui e o resto do mundo sumiu, tem que ter uma explicação.
Talvez sejamos especiais.
— Não — ele me interrompeu abruptamente, se levantando —
David, entenda. Não estamos num filme. Estamos sozinhos, o que
você acha que poderíamos fazer? Eu não sou nenhum investigador e
nem você. Temos de assimilar o que aconteceu e nos preocuparmos
em ficar vivos! Eu sei que é difícil, que dói, mas quanto mais cedo
nos conformarmos, melhor. Se eles tiverem de voltar, voltarão. De
novo, não há nada que possamos fazer.
— Você fala de ficar vivo como se algo fosse nos caçar a qualquer
momento — cruzei os braços e disparei — Você sabe de alguma
coisa que eu não sei?
O rosto dele endureceu — Pelo amor de Deus, Dave! Sério que você
tá me perguntando isso? — Vi uma pitada de mágoa em seu olhar,
seus olhos se encheram d' água — Eu só não surtei ainda por que te
encontrei, antes eu estava desesperado! Você acha que eu tô feliz
com tudo o que está acontecendo? Eu pensei que ficaria sem
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companhia pra sempre, pensei que estava louco. Eu só não quero
ficar remoendo isso, porque dói demais.
— Desculpa...
— Esquece. Se realmente tiver mais pessoas além de nós, significa
que isso aqui virou terra sem lei. E pior, se forem malucos podem sim
nos caçar. Vamos dormir, quero descansar — ele apagou a luz e se
virou para o canto.
Ele estava certo. O que podíamos fazer? Mas de fato, era curioso: se
não tinha corpos, teoricamente eles não estavam mortos, mas não
havia como explicar um sumiço em massa. Haviam poucos carros
nas ruas. Nada funcionava, exceto a água das torneiras e chuveiros
— a energia da casa de Nate vinha de um gerador de emergência.
Nem sequer havia animais na rua. Tudo parecia fora do lugar, e eu
não sabia se aquilo se limitava a Detroit ou se ia além. Precisava
descobrir.
Nate se contorcia na cama o tempo inteiro, não conseguíamos
dormir. No meio da madrugada, surgiu uma ideia que poderia acabar
com boa parte das minhas dúvidas.
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Capítulo 3 — À meia-noite
Já havia se passado quase uma semana, e lá estava eu, sem sono.
Atormentado, minha mente não conseguia organizar os meus
pensamentos, e aquilo foi me causando muita aflição. Tudo parecia
me sufocar. Decidi então ir ao Rio Detroit. O céu carregado se
refletia na água escura, como se a própria cidade estivesse presa
dentro dele. Sentei-me no banco de frente para o rio, tentando
acalmar minha cabeça. Mas uma pergunta insistia em me atormentar:
"Eu deveria tentar descobrir o que aconteceu?". Nate diria que não.
Ele não gostava da ideia, mas também não era meu pai. Era a única
pessoa que eu tinha agora — e isso significava que eu não podia
simplesmente ignorar sua opinião. Mas e se eu enlouquecesse por
não saber?
A ideia que tive durante a noite fazia minhas pernas tremerem de
ansiedade. Eu queria agir. Lembrei-me das câmeras de segurança da
cidade. Elas poderiam revelar algo, certo? Convencido de que
encontraria algo, decidi ir à Central de Monitoramento da Polícia de
Detroit. Eu precisava ver.
Foi quando percebi algo estranho. Pequenas ondas começaram a se
formar no rio. A água se agitava como se algo estivesse prestes a
emergir. O vento ganhou força, sacudindo as árvores, e um estrondo
no céu indicava que uma tempestade se aproximava. Aquilo era
muito incomum, mas, o que naquela semana não era incomum?
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Aproximei-me novamente das barras de proteção e observei. As
águas se rebatendo com cada vez mais força dava ares de que o rio
chegaria até mim.
— Era só o que me faltava...— cerrei os punhos.
Voltei às pressas para casa, e me deitei no sofá. Os sons do lado de
fora eram assustadores. Cada estrondo parecia uma explosão e me
fazia pular do sofá de susto. Desde pequeno, sempre tive medo de
tempestades. Raios, estrondos, a possibilidade de ser atingido por
um... Era irracional, talvez, mas não conseguia evitar. O tempo
passou, e a tempestade foi se acalmando. O sol apareceu logo depois,
mas o dia continuava frio. Ainda eram 11 da manhã e eu me sentia
como se já tivesse vivido um dia inteiro. Nate se levantou e foi
diretamente procurar algo para comer. Ele se jogou ao meu lado no
sofá com um pacote de biscoitos, iguais aos da noite passada.
— Depois sou eu quem gosta muito de dormir, né? — brinquei.
Nate riu, dando de ombros — Bom, eu não tenho nenhum
compromisso.
Hesitei por um momento. Então, respirei fundo — Nate, preciso ver
uma coisa. Queria que viesse comigo.
Ele mastigou mais um biscoito antes de responder — Já sei que não
vou gostar. O que é?
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Expliquei sobre as câmeras da cidade. Como esperado, meu amigo
não gostou da ideia. Mas não me proibiu, afinal ele não poderia fazer
isso. Apenas alertou:
— Isso pode trazer respostas. Ou pode gerar mais dúvidas.
Pegamos o carro dos pais dele e seguimos pela cidade. Detroit
nunca pareceu tão melancólica. As ruas vazias, sem movimento, sem
barulho. Prédios, lojas, semáforos piscando no amarelo. Olhando
aquilo minha visão começou a se enturvecer. Fechei os olhos e em
alguns segundos cochilei. Acordei com meu amigo me cutucando:
— Dave. Chegamos.
Me estiquei, peguei minha garrafa de água e saí do carro. Encarei o
prédio por alguns segundos: pequeno, preto, brilhoso, com janelas
escuras que distorciam nossos reflexos, e 3 andares. Uma curta
escada dava acesso à maciça porta do prédio. Um belo jardim
recém-abandonado circundava o local. A cada centímetro uma frase
motivacional ao nível de "Só dará errado se você tentar". Revirei os
olhos. Cada passo dado era um suspiro. O sentimento de esperança se
misturava ao medo do que eu estava para ver. A porta estava
trancada, portanto precisamos derrubá-la. Quem se importaria? Não
havia ninguém ali...
Logo na entrada havia uma recepção, e um corredor cheio de
quadros com menções honrosas a figuras importantes que de certo
modo ajudaram na segurança da cidade; passamos pelos escuros
corredores enquanto procurávamos pelas gravações. O corredor não
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era extenso, dava acesso a umas 6 salas pequenas. No fim do
corredor, um elevador e uma escada. O silêncio daquele lugar era
amedrontador, nos fazia ouvir coisas que não pareciam reais. O ruído
de nossos passos se dispersava em meio ao barulho do vento batendo
as venezianas do prédio. A escuridão misturada a leve claridade do
sol ofuscava nossa visão. O cheiro forte de piso amadeirado e
empoeirado fazia parecer que eu ia sangrar pelas narinas. Minhas
mãos suavam. O elevador estava desligado, então tivemos que subir
pela escada. Cada um ficou responsável por um andar: eu, no
segundo; Nate, no terceiro. Vasculhamos sala por sala, porta por
porta.
— Encontrei — ele disse bufando — Uma sala enorme, um monte de
telas.
O segui. Realmente, era um espaço amplo, com diversas telas
posicionadas lado a lado. Mas todas estavam apagadas.
— E agora esperto? — Nate cruzou os braços — Sem energia, como
vamos ver as gravações?
Abaixei a cabeça e suspirei. Não havia pensado nisso.
— Geralmente tem um gerador de emergência. Vou procurar. Se eu
conseguir, você vai saber.
Lançou um sorriso convencido e desceu as escadas.
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O tempo passou devagar. Dez minutos. Vinte. Meia hora. Pensei em
descer para ver se ele precisava de ajuda, mas então, bum! As luzes
piscaram. O sistema voltou.
Pouco depois, Nate apareceu na porta, com as mãos na cintura —
Pronto. Só faltou você ligar os interruptores, né?
Nate girou um botão, e as telas se acenderam. O computador
principal exibia um logotipo azul:
B-Tech Security Systems
Obviamente havia uma senha de acesso. Aquele era meu momento
hacker! Testei várias combinações. Datas, nomes óbvios. Até que
tentei: AntoineCadillac1701. A tela piscou. Acesso concedido.
— Sério isso? — ele franziu o cenho — O nome do fundador de
Detroit?
— Nunca imaginei que minhas aulas de história me ajudariam
assim...
Abri então os arquivos de gravação das câmeras. Fui diretamente no
dia e na hora que interessavam: A noite de 4 de abril. Comecei ás 21
horas. Pessoas caminhavam pelas ruas, indo e vindo. Meu peito
apertou ao ver meus pais entre elas. Eles estavam lá. Vivos. Nate se
apoiou no meu ombro como se dissesse "eu sei, dói". Deixei o vídeo
rodar. 23h. O movimento diminuía. 23h59. As ruas estavam quase
vazias. Então, meia-noite em ponto. A imagem sumiu.
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Fiquei paralisado. O arquivo pulava direto para as 5 da manhã.
— Espera... o quê? — murmurei.
— Alguém apagou as gravações — Nate disse, sério.
Meus olhos grudaram na tela. Todas as imagens daquele horário
haviam sido cortadas, de toda a cidade.
— Isso foi... — minha mente girava — O governo? Alguma
empresa? Quem faria isso?
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Se alguém apagou... significa que havia algo ali. Algo que não
queriam que víssemos. Pode ser uma falha temporal, não dá pra ter
certeza de nada.
Engoli seco. Eu achava que estava prestes a encontrar respostas.
Mas tudo que encontrei foram mais perguntas, das quais eu não sei se
algum dia teria resposta. Talvez o melhor seria fazer o que Nate
disse: se conformar e seguir em frente. Mas eu conseguiria conviver
com isso?
Observei mais um pouco meus pais ali, e comecei a me lembrar...
— Filho, senta aqui — meu pai disse com uma expressão estranha, o
rosto tenso e os olhos um pouco marejados — Preciso falar com
você.
25
Era um sábado à noite, em outubro. Como de costume, eu estava no
meu quarto lendo quando ele entrou e disse essas palavras. Meu
coração deu um salto. Algo estava errado. Nós não estávamos em
uma boa fase, nem emocionalmente, nem financeiramente. Ainda
não havíamos superado a perda do meu irmão Charles. Mas, naquela
semana, a dor voltou com mais força quando encontramos uma carta
dele enterrada no quintal de casa, de quando ele era criança.
Meu pai sorriu, tentando esconder sua preocupação.
— Sei que os tempos não estão fáceis. Mas eu e sua mãe
conversamos e decidimos apertar o orçamento para te dar um
presente — Ele pegou um pacote e o colocou no meu colo. Eu
reconheci o formato antes mesmo de abrir. Meu coração acelerou —
Eu comprei pra você aquela jaqueta que você tanto queria.
Eu me lembro da alegria dele naquele momento. A felicidade nos
olhos do meu pai com uma coisa tão simples... me lembrar daquilo
agora era como ter uma faca enfiada no peito e girada sem piedade.
Meu corpo tremeu.
A tela do computador à minha frente piscava, trazendo-me de volta
ao presente.
— É por isso que eu não queria vir aqui. Só vai te machucar mais —
ele se aproximou devagar.
— Não é isso que eu preciso ouvir agora, Nate — murmurei, sem
tirar os olhos da tela.
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— Você tá a um tempão olhando essas filmagens. Desliga isso —
disse, colocando uma das mãos no meu ombro.
— Dói demais. Eu sinto falta deles — sussurrei, abaixando a cabeça
e tapando o rosto com uma das mãos.
Nate respirou fundo. Seu olhar encontrou o meu, e, por um momento,
vi a mesma dor refletida ali.
— Eu também, Dave — seus olhos se encheram de lágrimas, mas
piscou algumas vezes e endireitou a postura — Eu queria estar no
colo da minha mãe agora... ou ouvindo um sermão do meu pai.
Um bip soou no computador e uma tela de alerta surgiu. ACESSO
NÃO AUTORIZADO. CONFIRMAR IDENTIDADE.
Meu estômago se revirou — E agora?
Um alarme estridente soou pelo prédio, com luzes vermelhas
piscando e nos cegando por todos os lados.
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Capítulo 4 — Chuva, Neblina e Lágrimas
— Vamos sair daqui — Nathan me puxou pelo braço
Com o alarme tocando, disparamos pelos corredores vazios, com
nossos passos ecoando como marteladas no chão. Quando saímos
para o lado de fora, um vento frio bateu em meu rosto. Eu olhei para
trás, e, entre as árvores que cercavam o centro de segurança, havia
uma figura parada. Toda vestida de preto e com uma máscara
medonha. Um arrepio percorreu minha espinha.
— Nate, tem alguém ali! — Virei e apontei.
Ele forçou as vistas tentando ver algo — Não vi nada.
— Mas tinha alguém. Eu sei!
Ele passou a mão no rosto — Não quero que me entenda mal, mas
acho que você tá vendo coisa. Não tem ninguém além de nós. Deve
ser o susto por causa do alarme ou algum bicho.
Minha respiração estava acelerada. Eu tinha certeza do que vi.
Mas... e se estivesse errado? E se tudo isso estivesse só na minha
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cabeça? Entramos no carro, e Nate acelerou em silêncio. Continuei
observando pela janela, buscando qualquer sinal daquela figura
sombria.
— Afinal de contas, por que a gente correu? — indaguei — Até onde
sabemos, não tem ninguém aqui.
— Sei lá — ele deu de ombros — No susto a gente não pensa. E
convenhamos, essa cidade vazia dá um medo do cacete.
— Verdade... O que você acha de tudo isso? — perguntei, esperando
que dessa vez ele tivesse algo novo a dizer.
— Minha opinião ainda é a mesma. Temos que focar em sobreviver.
Só isso. Não podemos fazer nada. Vamos seguir em frente — trepidou
por um segundo — Eu não quero ficar relembrando essas coisas.
Você sabe como dói.
Odiava quando ele falava assim. Frio. Como se fosse fácil
simplesmente esquecer. Quando me deitei na cama naquela noite,
minha mente estava a mil. Alguém apagou as filmagens de
segurança. Isso significa que alguém quer esconder algo. Mas o que?
E por quê? Ou aquele momento nunca existiu... ou foi apagado da
existência.
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Meu coração se estremecia ao pensar nas pessoas que eu amava. Me
convencia de que eles não estavam mortos, só desaparecidos, mas o
terror de estar errado me sufocava. Eu não queria ficar parado ver o
tempo passando, sem fazer nada.
— Não consegue dormir? — Nate perguntou em meio a escuridão.
— É — respondi, abraçando o travesseiro e virando o rosto para a
parede. Não queria conversar.
— Vira pra cá — Nate pediu. Hesitei, mas virei — Me escuta cara.
Relaxa sua mente, vamos dar um jeito. Sei que você está com medo
do que aconteceu e do que pode acontecer, mas você não tá sozinho.
Somos uma dupla, lembra? Somos irmãos. Sempre vou estar com e
sei que você sempre fará o mesmo por mim. Eu sei que não podemos
nos esquecer das pessoas que amamos, mas concentrar DEMAIS
nisso pode nos deixar malucos. Uma hora ou outra a verdade vai
aparecer.
— Obrigado. Mas vamos ficar parados aqui? — perguntei,
impaciente.
Meu amigo sorriu, com uma expressão tranquila — Já temos uma
pista, agora é hora do próximo passo.
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— Que seria? — não estava muito esperançoso.
— Primeiro, temos que ter certeza de que o que aconteceu não foi só
aqui. Precisamos entrar em contato com outros estados, outros
países. Saber se estamos sozinhos ou não.
Me sentei — E como vamos fazer isso?
— Radiotransmissores. Algumas cidades têm prédios centrais com
comunicadores de emergência. Podemos usá-los para enviar uma
mensagem... ou receber.
Pela primeira vez, tínhamos um plano concreto. Eu não estava certo
daquilo. Pensar em sair da cidade me causava um desconforto
indescritível. Mas a vontade de obter respostas falou mais alto.
— Então vamos fazer isso. Pra onde temos que ir?
— Filadélfia. Se quiser partimos amanhã — vi seu sorriso, mesmo
no escuro.
— Claro que quero! Mas... e aquela história de deixar isso pra lá?
31
— Isso é diferente. Precisamos saber se tem mais alguém além de
nós. Agora dorme.
Fechei os olhos. Ele tinha razão, eu estava com medo. Muito medo.
Aquelas palavras de certa forma me ajudaram a dormir. Na manhã
seguinte, acordamos cedo. Pegamos comida, roupas e tudo que
precisaríamos e colocamos nas mochilas. O caminho seria longo,
cerca de oito horas de carro. Mas tínhamos gasolina, comida e água
suficientes.
A viagem estava tranquila, silenciosa como já havíamos nos
acostumado. Nem a densa neblina da manhã nos impediu de
seguirmos. Quando cruzamos a fronteira para a Pensilvânia, Nate
parou o carro para esticarmos as pernas e comermos algo. Sentamos
à beira da estrada, observando as pequenas casinhas vermelhas
espalhadas pelo campo. O silêncio era quase absoluto. O vento
agitava as árvores, criando uma gostosa sensação de calmaria.
Enquanto Nate mastigava uma barra de proteína, me afastei um
pouco, encostando-me a uma árvore. Foi quando as memórias me
pegaram desprevenido.
Olhando ao meu redor comecei a me lembrar de quando meu pai
me levava ao parque. Ele trabalhava muito e quase não tinha tempo,
32
mas sempre dava um jeito. A imagem se formou perfeitamente à
minha frente: ele corria atrás de mim em volta do lago.
"Fique longe da beirada do lago"
Quando finalmente me alcançou, me abraçou firme, "Agora você está
preso rapaz, vem comigo pra prisão!"
"Tem sorvete lá?" perguntei, rindo. Ele sorriu de volta.
Aquilo me golpeou com força. A falta que sentia dele era quase
insuportável. Meu coração estava acelerado. Minha respiração
falhou, e eu parecia em transe, preso naquela memória. Meus olhos
escorriam lágrimas que pareciam queimar meu rosto. Minha visão se
enturveceu e tudo que ouvia ao meu redor era a voz do meu pai
dizendo repetidas vezes "Estou voltando filho, estou voltando".
Era tão real... Eu queria que fosse real.
— Dave! — A voz de Nathan parecia distante.
Não consegui responder. Meus olhos estavam fixos em um ponto
qualquer, como se estivessem presos em algo. Ele segurou meus
ombros e me sacudiu. Pisquei, ofegante. A visão foi se dissolvendo,
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os sons da memória transformando-se nos gritos aflitos do meu
amigo. Quando minha visão clareou, me deparei com seu rosto
assustado a centímetros do meu.
— Você quase me matou de susto assim. Seus olhos estavam
azulados. Você não piscava e não esboçava reação nenhuma. Pensei
que estivesse morrendo.
— Foi horrível. Eu vi ele Nate. Bem na minha frente. Vi meu pai
falando comigo — Passei a mão no rosto, tentando me recompor.
— Você teve uma crise de ansiedade. Estamos passando por muita
coisa. Bebe um pouco de água.
Fiz o que ele disse. Mas aquilo... aquilo não tinha sido só ansiedade.
Assim que nos levantamos, percebemos que mais uma forte chuva se
aproximava. E ela veio pesada e violenta. O vento forte quase nos
arrastava pra longe da estrada. O céu fechado dava a impressão que
já era noite. Encontramos abrigo em uma das pequenas casas
vermelhas. O lugar era pequeno, mas seguro.
Ouvindo o estrondoso som da chuva que varria tudo por onde
passava, eu caminhava com a minha lanterna observando a casa
escura. Ouvi um grito vindo da cozinha: "Não fica fora da minha
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vista Dave, meu coração não aguenta tanto susto assim num dia
não". As paredes descascadas estavam cobertas por fotos de família.
Pai, mãe e filho. Felizes. O que se passava na cabeça deles naquela
foto na praia? "Vamos passar protetor para não torrarmos"? Sorri.
Segui pelo corredor. Havia dois quartos. Entrei no menor, o do filho.
O ambiente era típico: paredes azuis, pôsteres de bandas de rock.
Nate teria gostado dele. Uma mesa com um computador e uma mesa
de cabeceira ao lado da cama. A cama estava perfeitamente
arrumada, com o seu cobertor cinza macio. Na mesinha ao lado da
cama, apontei a lanterna e vi uma carta. Não resisti à curiosidade, e
abri.
— Coloquei algumas velas. Essa escuridão me deixa apavorado —
Nate apareceu na porta, respirando fundo. Parecia ter acabado de
correr uma maratona — O que é isso aí?
— Uma carta.
— Já leu? — Ele perguntou.
— Ainda não — Respirei fundo e comecei:
"Queridos pai e mãe,
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Já se faz alguns dias desde a última vez que os vi. Desde que vi
qualquer pessoa. Não tem sido fácil ficar aqui sem vocês. Tenho
tentado manter a calma, mas a solidão pesa cada vez mais. Tentei
manter minha mente ocupada, mas não consigo mais suportar isso.
Não sei o que fazer, pra onde ir, e tenho medo do que pode acontecer.
Pai, obrigado por sempre me apoiar em tudo o que fiz. Obrigado por
ser o meu herói. Sempre vou me lembrar do senhor me contando
histórias pra dormir. De quando o senhor me levava ao trabalho e eu
sempre dizia que iria trabalhar lá com você. Mãe, obrigado por
nunca desistir de mim, por cuidar de mim. Me lembro das noites em
que a senhora dormiu aos pés da minha cama, quando eu estava
doente. Obrigado por acreditarem em mim e darem o melhor de
vocês. Me perdoem, não fui forte o suficiente. Eu não consegui. Não
realizarei nossos sonhos. Por favor me perdoem por decepcioná-los.
Sinto que meus órgãos estão se retorcendo dentro de mim, e o meu
coração bate fraco, como se não quisesse mais viver. Se um dia
encontrarem esta carta, e espero que encontrem, saibam o quanto
amo vocês. Não fiquem bravos nem magoados comigo, só não
consegui viver sem vocês. Perdão.
Com amor, Devon"
Aquela carta deu o golpe de misericórdia em mim. Dobrei a carta e
me sentei. O Silêncio pesou no quarto.
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— Não somos só nós — Coloquei as mãos na cabeça.
— Isso deve ser recente. Ainda são 11 da manhã, ele pode estar por
aí — raciocinou.
— Precisamos achá-lo — saltei da cama.
— Quando a chuva passar — Me decepcionei. E se a chuva
demorasse a passar?
Mas a chuva não importava mais. Algo dentro de mim já sabia. Ele
não estava mais lá fora, não estava mais vivo. Fomos até o banheiro,
mas a porta estava trancada. Havia sangue por baixo dela. Aquilo foi
como levar um soco no estômago. Nos sentamos no chão, encostados
na porta. Olhamos um para o outro e balançamos a cabeça
negativamente. Parece que era impossível alguma coisa nos abalar
mais ainda.
— Não faço ideia. Nunca imaginei passar por uma coisa dessas —
Nate disse com os olhos cheios de água.
— Onde isso vai parar irmão? Se sobrou mais pessoas e elas
começarem a fazer o mesmo? Não quero me acostumar com esse tipo
de coisa — Entrei em pânico.
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Quando a chuva passou, Nate arrombou a porta. Eu não consegui
olhar. Vomitei antes mesmo de ver qualquer coisa. Mas meu amigo...
ele foi forte. Pensar que tinha alguém além de nós, mas que
chegamos tarde demais, me destroçava por dentro. Até tentamos
cavar uma cova, mas logo desistimos por não ter forças suficientes.
Enrolamos o corpo do rapaz num velho cobertor e, com as poucas
pedras e galhos que encontramos na casa, tentamos fechar a cova do
jeito que pudéssemos. Sabíamos que não era digno nem justo para
ele, mas era a única solução diante da nossa impotência.
Ficamos lá, sentados em frente ao túmulo improvisado do garoto. O
silêncio era absoluto e sufocante. Por dentro eu esgoelava de
desespero. Meu melhor amigo não havia dito uma palavra desde a
manhã.
— Quer conversar? — Perguntei.
— Obrigado, mas... — Ele parou, incapaz de terminar a frase.
— Tudo bem.
O que nos restava era seguir caminho, por mais difícil que pudesse
ser. O medo de ver cenas como essa ou até piores fazia minha cabeça
latejar. Depois de um tempo, voltamos para o carro. Antes que
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pudéssemos ligá-lo, Nate notou algo estranho em meio às árvores.
Então ouvimos apenas uma voz grave pedindo que esperássemos.
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Capítulo 5 — Saqueadores
De longe avistávamos um rapaz baixo, de cabelos médios e
castanho-claros. No peito um colar de ouro maciço e com a letra "B"
pendurada. Mais tarde, ele me contaria que havia ganhado de seu pai,
em homenagem à mãe falecida. Ele gritava incessantemente, mesmo
eu e Nate estando parados. Correu até nós, ofegante, apertando a
barriga.
— Vocês viram meus amigos? — perguntou entre arfadas — Me
desculpem, eu nunca fui muito atlético.
Até então, o único rosto vivo que tínhamos visto era o dele. Mas, se
ele estava procurando amigos, significava que havia mais pessoas.
Uma fagulha de esperança se acendeu dentro de mim
— Nos perdemos quando a chuva começou e eu não consigo
encontrá-los — ele tentou recuperar o fôlego e abriu um sorriso meio
sem jeito — A propósito, meu nome é David e o de vocês ?
Estendeu a mão, amigável. Antes que eu pudesse responder, Nate
me puxou de lado e sussurrou:
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— Eu não gosto de gente que chega simpática demais. Não dá pra
confiar em qualquer um.
— Fala sério, é isso que você vai pensar?
— Só tô dizendo que precisamos tomar cuidado. Encontrar alguém
não significa que podemos confiar totalmente. As pessoas são ruins,
Dave. Aposto que sobraram muitas delas por aí.
Suspirei — Você tá certo.
O rapaz realmente parecia preocupado. Pegamos o carro e
começamos a procurar pela cidade. Enquanto isso, David — ou
melhor, David Martin, como logo se apresentou — não parava de
falar.
— Quando todo mundo sumiu, achei que tava sonhando. Em poucas
horas, já tava enlouquecendo. Chorava sem parar. Aí vi um cara
correndo na minha direção. Era o Henrique... Ele ouviu meus gritos
e veio atrás. Pouco depois, encontramos a Milena desmaiada perto
de um rio. Ela nunca nos disse o que aconteceu. Desde então, não
nos separamos nem um minuto — Ele olhou para mim e sorriu — Sei
que pode ser difícil confiar em alguém que acabou de conhecer, mas
eu tenho certeza que logo seremos amigos. Agora, mais do que
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nunca, precisamos de companhia. Sobre o nome, podem me chamar
de Martin. Assim ninguém nos confunde.
— Pode me chamar de Dave — Respondi — Estamos indo para a
Filadélfia.
— O que tem de especial lá?
— Nada — Nate respondeu, seco — Só queremos saber até onde isso
tá acontecendo.
— Entendi. Tô tentando convencer meus amigos a irem pra um
abrigo seguro. Foi montado antes de tudo isso acontecer. Mas eles
acham muito longe. Talvez, se vocês gostarem da ideia, possam me
ajudar a convencê-los.
Nate deu de ombros.
Depois de várias voltas, encontramos Henrique e Milena em um
grande galpão, já na saída de Warren. Assim que descemos do carro e
nos aproximamos, Milena sorriu, animada.
— Finalmente! Já estávamos preocupados, David! — Milena disse
com um sorriso quase perfeito.
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— Quem são esses? — A voz grave e ríspida veio de Henrique. O
rapaz alto e forte nos analisou com olhos sombrios, passando a mão
sobre uma cicatriz no pescoço — Eu não falei pra tomar cuidado?
Martin sustentou seu olhar por um instante antes de responder —
Eles me ajudaram a achar vocês. Já são meus amigos.
— David Hall — Me apresentei — e esse é o Nate.
O rosto de Henrique suavizou um pouco, mas a cautela ainda era
evidente — Bom... Já está escurecendo, e pode ser perigoso ficar na
rua à noite. Vamos entrar. Acendemos uma fogueira e ficamos lá até
amanhecer. Tem comida e um lugar confortável para dormir. Já nos
certificamos de que não há cobras ou qualquer outra coisa.
— Não queremos incomodar — Nate murmurou.
Henrique apenas bufou, como se o comentário fosse irrelevante.
Pouco depois, chamei Nate para um canto. Ele parecia desligado,
olhando para o nada.
— Como você tá?
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Seu olhar estava perdido. Ele arrastou a mão no chão, limpando o
lugar onde iria deitar
— Nate... Encontramos outras pessoas. Não fica assim. Vai ficar
mais fácil agora.
— Eu tô de boa, Dave. Só quero ficar aqui.
— Por favor. Não custa nada ir até lá... Eles vão contar sobre suas
famílias, pode ser bom.
Ele me olhou com uma raiva contida.
— Dave, me deixa quieto, por favor. Eu acabei de enterrar um
garoto. Você ficou do lado de fora. Eu entrei. Eu limpei o corpo dele.
Eu peguei nos braços e levei pra fora. Você tem noção do que tá na
minha cabeça agora? Toda vez que eu fecho os olhos, lembro do
rosto dele. Do que teria acontecido se tivéssemos chegado antes.
Ele respirou fundo e continuou.
— E eu não consigo sequer pensar na possibilidade de um dia ter
que te... — desviou o olhar. — Eu não quero que aconteça nada com
você.
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Fiquei em silêncio. Ele estava certo. Cada um lidava com a dor de
um jeito. Talvez eu estivesse sendo egoísta.
O galpão, um espaço gigantesco que um dia pertenceu ao prefeito
da cidade, agora estava completamente vazio. Enquanto tentava me
ajeitar, percebi que o chão de terra manchava minha calça. O vento
soprava forte, fazendo as paredes de madeira velhas rangerem. De
vez em quando, pássaros se debatiam no teto — os primeiros animais
que víamos desde o início de tudo. Meu nariz não gostou nada do
lugar e emburrou, entupindo.
Já era noite e, sentados em volta de uma fogueira, aquecíamos até
nossos pensamentos.
— Então, vocês vão com a gente pra Filadélfia? — perguntei.
— Sim — Milena respondeu — Talvez a gente encontre alguma
resposta.
Henrique me analisou por um momento antes de disparar — Olha, eu
ainda não confio em vocês. Não tentem fazer nenhuma gracinha
— Para com isso, cara. Eu tenho certeza que eles são gente boa.
Garanto! — Martin rebateu
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— Olhando bem pra cara de tonto desse moleque, faz sentido — ele
suspirou e apontou um dedo no meu nariz — está avisado.
Me enrolei no cobertor dos meus pais e o aproximei do meu rosto.
O cheiro deles ainda estava impregnado no tecido. Dormi, e quando
acordei já eram quase 11 da manhã. Lá fora, o cheiro de comida me
guiou até a fogueira, onde todos assavam peixes no espeto. Eu ainda
estava meio grogue de sono.
— Acordaram cedo — bocejei.
— Boa noite Hall — Henrique zombou — você quem dormiu demais.
Me sentei ao lado de Milena e peguei um espeto.
— Sério que com tantos mercados e lojas abandonadas vocês foram
pescar? — me aconcheguei em volta da fogueira.
— Não somos saqueadores, somos? — Martin jogou um espeto no
fogo.
— Isso me deu uma ótima ideia — Nate disse, ao se levantar — Que
tal a gente dar uma volta na cidade pra pegar algumas coisas?
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— Roubar? — Martin perguntou.
— Roubar de quem? — Henrique riu e deu as costas — Tá tudo aí,
esperando a gente.
Henrique, Martin e Nate saíram com o carro para ver o que
encontravam. Milena saiu andando sozinha, e eu, como não a
conhecia bem, não fui atrás. Fiquei ali por um tempo, rodeando
aquela construção velha de madeira. Descobri que atrás havia um
pequeno cômodo menor que um banheiro trancado. Curioso, quis
saber o que tinha lá dentro, mesmo que não fosse nada.
As horas se passavam, e sentado na porta do galpão eu tentava
organizar o turbilhão de pensamentos que me rodeava. O que
aconteceu com as câmeras da cidade? Eu precisava conferir além de
Detroit, para ter certeza se acontecia o mesmo. As pessoas... meus
pais... ficar ali estava me fazendo surtar. Ainda mais com aquele sol
ardente batendo na minha cara. Aquela época do ano era pra estar
frio, mas eu não me espantava com nada de diferente mais! Senti a
grama seca nas mãos e decidi ir até a cidade: eu ia abrir o cômodo!
Precisava de uma distração urgente, senão ficaria maluco. Comecei a
caminhar de volta até Warren. Não demorei muito, vi uma bicicleta
nas primeiras casas da cidade. Era de alguém. Talvez ainda fosse. Eu
não posso simplesmente... pegar. Mas, talvez aquilo não voltasse a
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pertencer a alguém nunca mais. Era estranho, como se eu estivesse
profanando algo que já não importava. Fechei os olhos, respirei
fundo e subi nela.
Pela cidade, eu olhava os edifícios sem vida enquanto o vento
empurrava meu corpo para trás. Decidi pegar algumas velas e
fósforos, visto que tínhamos acabado com tudo na noite passada.
Peguei também um machado em uma pequena loja de ferramentas
por ali. Reafirmei para mim mesmo "Está tudo abandonado. Não tem
ninguém, não é roubo".
Ao chegar novamente ao galpão, ninguém tinha voltado, para o meu
desespero. Era por volta de 18 horas e já estava começando a
escurecer. Com a mochila nas costas, caminhei até o cômodo. Acendi
uma vela e a deixei ao lado, mas o vento, cada vez mais forte,
ameaçava apagar a chama. Peguei o machado e acertei forte a
fechadura, quebrando-a. Empurrei a porta devagar, e um cheiro de
poeira e algo levemente apodrecido veio até mim. Peguei a vela e
entrei. Deixei ali mesmo, no chão e comecei a vasculhar. Vi uma
mochila e alguns pertences abandonados. Antes que eu pudesse abrir,
ouvi o som de galhos se quebrando. Me virei rapidamente, assustado.
Meu coração já estava disparado e as minhas mãos suando. Forcei as
vistas e vi, de relance, o mesmo homem mascarado de antes. Ele
estava montado num cavalo. Por um momento eu congelei. O ar
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ficou pesado nos meus pulmões. Meu corpo reagiu antes da minha
mente processar: agarrei a bicicleta e pedalei, ignorando qualquer
tipo de medo ou receio.
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Capítulo 6 — O Apocalipse Não Deveria
Parecer um Apocalipse?
O cavalo bufou, inquieto. O mascarado virou a cabeça ligeiramente
para o lado, como se analisasse meus movimentos. Por um instante,
hesitou. Então, sem pressa, puxou as rédeas e fez o animal dar
meia-volta. A sombra dele se alongou à medida que se afastava,
desaparecendo entre as árvores, como antes. Ainda que eu tentasse o
alcançar, não dava mais tempo. Me aproximei lentamente da borda
da floresta, como se algo em mim ainda precisasse ter certeza de que
ele realmente não estava lá. Mas não havia mais nada ali além do
vento soprando entre os galhos retorcidos. Desapareceu como um
fantasma.
— Droga... — murmurei para mim mesmo, tentando regular minha
respiração.
Se eu falasse daquilo para alguém, quem acreditaria? Nate?
Henrique? Talvez Martin fosse o único que não me chamaria de
maluco. Mas e se eu estivesse mesmo enlouquecendo? Tendo
alucinações? Cansaço... O cérebro pregando peças. Mas não, eu vi.
Eu sei que vi.
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Comecei a voltar para o galpão, mas, antes de chegar, senti o cheiro
acre de fumaça. O cômodo que eu havia arrombado estava pegando
fogo. Henrique e Nate já tentavam apagar as chamas, batendo panos
contra o fogo e jogando terra para sufocar as labaredas.
— Não me diga que foi você — Henrique me olhou com fúria.
— Eu deixei uma vela aí, o vento deve ter derrubado.
— Você tem ideia do que poderia ter acontecido? Se pega no galpão
inteiro, a gente perdia tudo!
— Não exagera, Henrique.
Seu rosto endureceu, e ele se aproximou, fixando os olhos nos meus.
— Presta mais atenção. Vai acabar matando um de nós.
Engoli a resposta que veio à mente e me afastei, procurando Nate.
— Eu vi ele de novo. O homem da máscara. Dessa vez, montado num
cavalo.
Nate suspirou, passando a mão pelo rosto. Cansaço ou impaciência?
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— Olha cara, não é que eu duvide de você. Mas talvez você só
precise dormir um pouco. Descansar a cabeça.
— Eu sei o que eu vi.
Ele hesitou antes de responder.
— Mas só você vê. Não acha estranho? — Fez uma pausa, depois
continuou, mais sério — Se for alguém de verdade, não corre atrás
dele feito um louco. Toma cuidado.
A fumaça do incêndio já havia se dissipado, mas o clima entre nós
não. Henrique não disfarçava sua irritação, lançando olhares de
esguelha enquanto revirava os restos chamuscados do cômodo
queimado.
— Você tem que começar a pensar antes de agir — ele disse sem me
encarar diretamente.
— Já pedi desculpa. Aconteceu, acabou.
— Sim, até a próxima vez que você fizer merda — sua voz era
carregada de desprezo.
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Nate, que estava ao lado, suspirou.
— Pelo amor de Deus, não vamos começar com isso agora...
Henrique lançou um olhar a ele e depois voltou para mim.
— Só estou dizendo que a gente precisa de mais cuidado. Todo
mundo precisa colaborar, senão não vai rolar.
Eu segurei a resposta atravessada na garganta. Não entendi o
motivo de fazer aquela tempestade num copo d'água. E Nate? Não
disse nada. Nem me defendeu, nem reforçou o que Henrique disse.
Só ficou ali, como se não quisesse se meter.
Na manhã seguinte, os dois estavam conversando do lado de fora,
rindo de alguma coisa que eu não fazia ideia do que era. Nem tentei
me aproximar. Fiquei olhando para a cidade ao longe, com a mente
girando.
— Ei — A voz de Milena me tirou dos pensamentos. Ela se encostou
ao meu lado, observando a paisagem junto comigo.
— Quer dar uma volta? — perguntei do nada.
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Ela virou o rosto para mim, parecendo surpresa por um instante, mas
logo sorriu — Sim. Eu topo.
Pedalamos até a cidade. Eu ainda estava usando a mesma bicicleta
de antes, e Milena encontrou outra encostada num quintal
abandonado. O vento cortava a pele, mas o sol ainda era forte,
tremulando o horizonte.
— Estranho, né? — ela murmurou.
— O quê?
— O silêncio.
Eu assenti. Antes, o mundo era barulhento. O trânsito, as pessoas,
os cachorros latindo nos quintais. Agora, era como se estivéssemos
andando dentro de um cenário vazio, uma casca oca do que um dia
foi uma cidade viva. Seguimos até uma loja de conveniência e
pegamos algumas coisas básicas — fósforos, enlatados, água. Peguei
também um canivete enferrujado que estava jogado no balcão. Nunca
se sabia.
— O que você acha que aconteceu com todo mundo, Milena? —
perguntei.
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— Pode me chamar de Milla — ela riu de leve — eu acho que as
pessoas foram abduzidas por ETs que querem fazer experimentos ou
só, sei lá, zoar com a nossa cara. Parece loucura?
— O que hoje não é loucura? Acho válido sua teoria — devolvi o
sorriso, de canto.
— Verdade. Mas, sério, você já reparou que não há carros batidos
nas ruas? Nenhum sinal de destruição, nenhuma explosão? Se as
pessoas sumiram, era pra ter acidentes, incêndios... alguma coisa.
Parece que todo mundo deixou tudo organizado pra sumir — Ela
olhou ao redor, como se esperasse ver algo que explicasse tudo —
Indústrias, usinas... já deveriam ter causado um grande estrago. Mas
nada aconteceu.
Isso me fez pensar. Sem humanos operando usinas nucleares, logo
elas entrariam em colapso. Estações de tratamento de água poderiam
transbordar e inundar cidades. Mas até agora... nada. O mundo estava
suspenso em um silêncio irreal.
— Parece coordenado demais. Como se alguém tivesse feito isso de
propósito — murmurei.
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Milla me olhou com interesse — Você acha que alguém está por trás
disso?
— Não acho que foi um acidente.
Ela não disse nada, mas pude ver que estava considerando aquilo.
Seguimos até o "Sam's Market", um grande supermercado no centro
da cidade. As portas de vidro estavam intactas, apenas a entrada
lateral escancarada, com algumas sacolas plásticas espalhadas pelo
chão. O ar ali dentro estava parado, e o cheiro de poeira e produtos
químicos enchia o ambiente. A escuridão e o silêncio eram
medonhos. A sensação era de que algo surgiria das sombras a
qualquer momento.
— Acho que a claridade do dia não vai ser suficiente, vamos ver se
tem alguma lanterna nas prateleiras — sugeri.
Caminhamos com cuidado pelos corredores até acharmos algumas
pilhas e lanternas em uma prateleira bagunçada. Ligamos uma e
seguimos para pegar o que precisávamos: água, enlatados, remédios
básicos.
— Tanto tempo na cidade e aqueles bobos não se lembraram de
pegar remédios — ela disse enquanto colocava os suprimentos na
56
mochila — algum dia essas coisas vão faltar... Eu não sei se isso
aconteceu só na nossa região, no país ou no mundo inteiro. Só sei
que agora é terra sem lei. Não somos só nós. E as pessoas, por
natureza, são ruins. É a receita para o caos. Temos que estar prepa...
Ela parou de falar de repente.
— Dave, corre aqui!
Apressei o passo até onde ela estava — O que foi?
— Não tem energia elétrica, eu tentei ligar as luzes... Mas os
freezers estão funcionando. Todos eles.
Franzi a testa — Como assim?
— Olha isso — Ela abriu um dos refrigeradores e tirou uma garrafa
de água gelada.
Aquela era a coisa mais estranha que havíamos encontrado até
agora. Sem eletricidade, os freezers deviam estar desligados há dias.
Mas estavam intactos.
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— Tem algum gerador funcionando? Alguma fonte de energia
alternativa? — perguntei.
Milla balançou a cabeça — Se tem, não sabemos onde. E está
alimentando só os freezers
Meu olhar vagou pelo supermercado até avistar algo.
— Vamos ver as câmeras de segurança. Se conseguirmos fazer
funcionar, podemos ver o que aconteceu aqui.
Boa ideia! — Milla arregalou os olhos.
Saímos do corredor e fomos para a área administrativa, onde
normalmente ficava a sala de segurança. Encontramos uma porta
trancada, mas depois de algumas tentativas, conseguimos arrombá-la
com um pé de cabra. Lá dentro, o cheiro de papel velho e suor
impregnava o ar. Uma mesa bagunçada, arquivos espalhados e uma
cadeira virada no chão mostravam que alguém esteve ali antes de
nós. No canto da sala, havia um painel de monitores. A maioria
estava apagada, mas um único ainda brilhava fracamente. A câmera
piscava em vermelho, gravando. Milla se abaixou ao lado do
equipamento, mexendo nos botões:
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— Parece que a energia manteve isso ligado. Deve ser suficiente pra
ver as imagens antigas.
— Acho que sim... só precisamos de uma data específica. 4 de abril
— eu disse.
Milla digitou alguns comandos e os monitores começaram a exibir
imagens estáticas. A qualidade era péssima, mas dava para ver os
corredores do mercado cheios de pessoas. Avançamos o tempo e o
mesmo das filmagens de Detroit aconteceu: De um segundo para o
outro, o relógio da câmera saltou de 23:59 para 05:00. O mercado,
antes cheio, agora estava completamente vazio. Nenhuma transição,
nenhum alarme, nenhum movimento. Como se alguém tivesse
simplesmente apagado a existência de tudo que aconteceu entre esses
horários.
— Eu sabia! Em Detroit foi a mesma coisa.
— Talvez não seja um corte, e sim uma queda geral de energia que
impediu que as câmeras funcionassem — Milla franziu o cenho.
— Mas e os geradores?
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Seus ombros caíram, as mãos se ergueram em um gesto de
rendição, como se dissessem 'eu não faço ideia'. Não era normal.
Isso não podia ser normal. Ou havia um apagão global seletivo ou
alguém estava escondendo alguma coisa.
Fiquei mexendo nas gravações, avançando mais no tempo.
Precisávamos saber se alguém esteve aqui antes de nós. E então, no
reflexo escuro de uma das telas, uma figura surgiu. Congelei. Milla
prendeu a respiração. Um homem.
— O que diabos foi isso?
— É o homem mascarado que eu vi no galpão. Eu sabia que não
tava louco!
Senti um arrepio subindo pela espinha. A cidade estava vazia... mas
nós definitivamente não estávamos sozinhos.
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Capítulo 7 — Usa a Cabeça!
Após a descoberta das imagens nas câmeras, um silêncio pesado
caiu sobre nós. Fomos invadidos por uma sensação de impotência e,
ao mesmo tempo, um sentimento crescente de que algo muito maior
estava acontecendo. Poderia haver alguém observando, alguém por
trás de tudo isso, e não sabíamos o que esperar. A cidade estava
vazia, mas não tínhamos dúvidas de que as coisas podiam piorar
rapidamente.
Quando saímos da sala de segurança, o clima estava mais pesado do
que nunca.
— Vamos fazer alguma coisa para distrair a mente. Temos que
aproveitar enquanto ainda tem muita comida por aí — sugeri,
tentando soar mais natural do que me sentia — Uma música quem
sabe.
Milla, com o olhar mais leve, concordou rapidamente, sem hesitar.
Corremos até o estacionamento, precisaríamos de um carro para
levar tudo e Milla sabia dirigir. A maioria estava trancada, mas ela
parecia acostumada a abrir esses carros. Em minutos, ela tinha o
carro aberto e, com um olhar confiante, começou a fazer uma ligação
61
direta nos fios. O motor rugiu a partir de um curto-circuito, e logo ela
estava atrás do volante, jogando a marcha para frente. Eu a olhei,
ainda um pouco impressionado com o que ela era capaz de fazer.
Pegamos tudo que podíamos e voltamos ao galpão.
Henrique nos olhou de longe, confuso. Assim que soube o que
havíamos visto nas câmeras, seu rosto ficou tenso e logo rechaçou a
ideia que tive mais cedo.
— Vocês estão falando sério? — ele disse com a voz baixa, mas
cortante. — Acham mesmo que essa é a hora de "distrair"? Não
temos nenhum motivo pra festejar.
— Eu só pensei que...
Henrique não hesitou — Só pode ser brincadeira. Você não parece
ter noção da realidade — ele disse com uma raiva crescente.
— Se vocês viram alguém, a mesma pessoa que tá te seguindo Dave,
talvez seja melhor tomar cuidado mesmo — Nate concordou com
Henrique — Precisamos ser mais inteligentes.
Quando ele falou aquilo, minhas pernas fraquejaram por um
segundo. Fiquei parado e boquiaberto, como se minhas palavras
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tivessem sido engolidas pela surpresa. Meu olhar fixou nele, com os
olhos estreitando de incredulidade. Além de discordar de mim, o que
estava se tornando frequente, ele estava me chamando de burro? Foi
um soco no estômago. Aquela situação estava me deixando isolado,
mesmo quando a última coisa que eu queria era me sentir assim. Eu
sentia o afastamento de Nate, o que me incomodava ainda mais, pois
sempre tive a sensação de que tínhamos uma conexão forte. Milla
percebeu o desconforto crescente e me deu um sorriso breve,
tentando me tranquilizar, mas até ela parecia apreensiva. Respirei
fundo e aceitei. Sem música, sem distração.
Martin estava em silêncio. Ele parecia não se importar muito com a
ideia de uma festa ou qualquer coisa do tipo, mas sua postura
indicava que ele também não concordava com nada disso.
No fim, pegamos tudo e partimos em silêncio para Filadélfia. O
clima, que contrastava com o da manhã, estava frio. O vento gelado
batia nas janelas e parecia ainda mais intenso à medida que nos
afastávamos.
Eu ainda refletia bastante sobre tudo que tinha acontecido. E se uma
usina colapsasse? Havia mil possibilidades, e em 999 delas nós
morríamos. Tremi de medo e sabia que Milla também estava aflita. A
estrada parecia infinita, e a quietude no carro pesava mais a cada
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quilômetro que percorríamos. Quando finalmente chegamos, a cidade
nos recebeu da mesma maneira que todas as outras: vazia, desolada,
com um ar de abandono que gelava os ossos. As ruas estavam
desertas, as lojas e prédios estavam fechados, e tudo ao redor parecia
parado no tempo. Não havia carros nas ruas, não havia sons —
apenas o som dos nossos passos e o vento cortante que soprava pelas
esquinas.
Andamos por algumas ruas, tentando encontrar um lugar onde
pudéssemos descansar. Qualquer casa que nos desse uma sensação de
segurança, mesmo que temporária. Foi então que avistamos o
supermercado à distância. A fachada parecia ter sido arrancada de
um pesadelo. A porta de vidro estava completamente arrombada, e os
pedaços espalhados pelo chão brilhavam ao sol, como se o vidro
tivesse sido pulverizado com uma violência extrema. As prateleiras
estavam todas derrubadas, alguns itens jogados por toda parte, e o
cenário tinha a impressão de que algo muito mais forte que uma
tempestade tinha passado por ali. Mas não era um furacão. Era algo...
mais humano. Milla me cutucou suavemente como se dissesse "te
avisei".
Não demorou muito para percebermos que não éramos os únicos
por ali. O ar estava carregado de uma tensão que não era só nossa. O
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supermercado destruído era só um reflexo do caos, e a sensação era
de que algo iria acontecer a qualquer momento.
Decidimos seguir em frente. Algumas ruas depois, encontramos
uma casa que chamava nossa atenção. Ela fora construída no lugar
onde ficava o antigo Instituto Franklin. A área ao redor havia
mudado, os parques haviam se fundido em um só, formando o
Soldier Park, e a casa que ficava ali parecia ter sido projetada para
resistir ao tempo. Seu estilo neocolonial americano tinha um charme
sombrio, com tijolos avermelhados, quase cor de sangue. A porta
grande e dupla de madeira estava aberta, o que parecia uma sorte.
Passamos pelo jardim inglês, com seus caminhos de pedras
meticulosamente dispostas, e subimos os degraus de mármore. A
casa, apesar da aparente boa estrutura, estava quieta demais. As
janelas brancas de guilhotina estavam abertas, e as cortinas por
dentro balançavam conforme o fraco e gelado vento batia. Era como
se alguém estivesse ali, esperando. Esperando por nós, ou esperando
para atacar. Não era difícil imaginar que não estávamos sozinhos,
mas, ainda assim, entramos.
O piso de madeira laminada não fazia um som sequer enquanto
andávamos. Era estranho, como se aquele lugar estivesse esperando
ser ocupado, mas ao mesmo tempo, como se já tivesse sido
esquecido. Não havia fotos nas prateleiras, nenhuma lembrança de
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quem morava ali. Era como se a casa tivesse sido despojada de tudo
que pudesse conectar alguém a ela.
Nate, como sempre, foi direto aos fundos da casa. Ele estava
decidido a encontrar o gerador e ligar a eletricidade, algo que seria
essencial se decidíssemos passar a noite ali. Henrique estava mais
preocupado com a comida, começando a ajeitar algo improvisado
para todos comerem. Mas eu... eu não conseguia ficar parado. Tinha
algo em mim que me impulsionava a ir embora, a explorar mais, a
tentar entender o que estava acontecendo.
Eu não sabia dirigir, mas isso nunca foi um impeditivo para mim.
Entrei no carro, ignorei o fato de não saber o que estava fazendo e
pus o veículo em movimento. Era uma sensação estranha,
controlando algo sem saber realmente como, mas de alguma forma
consegui. O carro me levou até a Academia de Ciências Naturais. O
local estava estranho, muito quieto. Imaginava que, ali, no meio
daquele grande prédio, deveria haver algo importante, mas o que eu
vi foi uma vasta área de prédios, alguns ainda intactos, outros em
ruínas. Depois, segui até o Love Park. O parque, normalmente
vibrante, estava deserto. As fontes estavam paradas, as árvores ainda
verdes e o vento fazia as poucas estruturas metálicas se moverem
com um som agudo e esquisito. Olhei para tudo ao meu redor e me
senti pequeno, insignificante.
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Já estava quase anoitecendo quando percebi que deveria voltar. De
repente, minha vista se fechou. As ruas se deformavam, as casas
pareciam invadir a rua. Minhas mãos começaram a tremer e eu
comecei a suar. Tudo parecia vir em minha direção numa velocidade
alarmante. Tentei respirar fundo e me acalmar, não era real. Em vão.
Meus pés, incontroláveis, aceleravam o carro. Não conseguia sequer
ver os freios. Eu olhava e tentava não me importar com aquela visão
perturbadora. Minha respiração falhava e meu coração estava muito
acelerado. Eu até tentava falar, mas a voz não saia e meu corpo
tremia mais do que tudo. De repente, vi o chão se abrir. No
desespero, puxei o freio de mão com toda força possível. O carro se
virou e bateu forte em uma das casas, o suficiente para amassar todo
o lado direito do carro. Minha cabeça quicou no volante e no vidro
da porta, deixando alguns cortes no rosto.
Depois de um tempo sentado, o susto foi passando e a adrenalina
baixando. Meus olhos se encheram de água, mas me recusei a chorar.
Abri a porta do carro e caminhei. Um pedaço de vidro havia atingido
meu braço, fazendo escorrer um pouco de sangue. Cabisbaixo, meus
olhos passavam por cada centímetro da rua. Eu não pensava em nada,
só em chegar, deitar e dormir.
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Ao entrar, todos me olharam. Aquele silêncio profundo tornava
qualquer som amplificado, como se até mesmo a poeira que caía do
teto pudesse ser ouvida.
— Você sabe o que foi aquele barulho? — Henrique perguntou, com
os olhos semicerrados.
— Sei — Passei reto.
— Por que você tá machucado? Você não fez o que eu tô pensando,
fez? — Nate entrou na conversa, preocupado — Você nem sabe
dirigir! O que achou que tava fazendo? E por que saiu sem avisar
ninguém? — Seu olhar desceu para o meu braço sujo de sangue.
— Eu tô bem, Nate. Isso aqui não é nada. — A mentira saiu
automática, e a julgar pelo olhar que ele me lançou, não convenceu.
Minha maior ferida era interna, imperceptível aos olhos deles.
Segui para um dos quartos sem olhar para trás. O peso do olhar
deles queimava minhas costas, estavam todos tensos e sem saber o
que dizer. Me joguei no colchão e fechei os olhos. O corpo latejava, e
o meu rosto ardia por causa dos cortes, mas nada doía tanto quanto o
que se passava dentro de mim. O silêncio da casa era apenas uma
extensão do vazio que eu sentia.
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Não se passaram muitos minutos antes da porta se abrir. Henrique.
— Nem pra você trazer um carro de volta pra gente, hein? — Ele
soltou uma risada debochada, encostando-se no batente da porta.
Mantive-me em silêncio.
— Você precisa parar de dar uma de maluco, Dave. Uma hora
dessas, vai acabar se matando. Ou pior, matando um de nós. Normal
estar instável por causa do que tá acontecendo, mas você precisa
usar mais a cabeça.
Minha mandíbula travou.
— Me deixa descansar. Não tô afim de ouvir sermão agora.
— Claro, claro... — Henrique se afastou.
O barulho da porta se fechando foi a última coisa que ouvi antes de
me virar na cama, encarando o teto. Ele tinha razão? Talvez. Mas
Henrique falava isso porque se importava? Provavelmente não. Por
algum motivo ele não gostava de mim, e aquilo era só mais uma
forma de me diminuir. Ele sempre fazia isso. Jogava palavras como
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quem atira facas, esperando que alguma acertasse o alvo. E o pior era
que sempre acertava. Eu não entendia.
E Nate...
Eu esperava que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. Mas ele
simplesmente deixou passar. Talvez estivesse cansado, talvez só
estivesse concordando com Henrique. E isso doía mais do que
qualquer provocação. A verdade é que eu me sentia sozinho. A
companhia, primeiro de Nate, e depois dos outros três, parecia um
alívio no início. Mas agora? Era como se eu estivesse de fora, vendo
tudo acontecer sem poder interagir. Como um espectador da minha
própria história.
Milla era a única que parecia me entender e se importar de verdade.
Mas mesmo com ela, eu não sentia que havia um laço forte o
suficiente para segurá-la ao meu lado. Então, para quê continuar ali?
A resposta parecia óbvia. Tranquei a porta, arrumei minhas coisas e
esperei a madrugada.
O frio cortava como lâminas quando me esgueirei pela janela. O
bilhete que deixei para trás era curto e direto: "Agora vocês estão
mais seguros."
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Bufei de raiva enquanto caminhava sem rumo pelas ruas vazias.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior mas, ao mesmo
tempo, a ideia de ficar naquele lugar pesava ainda mais. Eu precisava
de um lugar que não fosse óbvio. Um lugar onde ninguém pensaria
em me procurar de imediato.
O supermercado.
Os fundos do prédio estavam ainda mais bagunçados do que a
entrada. O cheiro de mofo e poeira misturava-se ao resquício de
comida apodrecida. Aquele mercado parecia estar abandonado há
anos, e não há dias...
Me encolhi em um canto escuro. Podia estar errado, mas não achava
que me procurariam ali. E, se procurassem, quando percebessem, eu
já estaria longe. Deitei-me no chão frio e, pela primeira vez desde
que tudo começou, estava realmente sozinho. Não sozinho, como
antes de encontrar Nate. Mas sozinho.
E por mais que tentasse me convencer de que era melhor assim...
Não adiantava. O medo estava ali. A dúvida também. E, no fundo,
talvez até o arrependimento. Mas não importava mais. Eu já tinha
tomado minha decisão, a partir de agora, era eu e eu. Eu encontraria
71
meus pais sem ninguém para me encher o saco. Ou pelo menos, era
nisso que eu tentava acreditar.
Antes que conseguisse dormir, comecei a ouvir passos. Pensei: "não
é possível que eles já me acharam". Me encolhi, mas já era tarde. Em
meio ao escuro, senti apenas uma pancada forte acertando minha
cabeça. Desmaiei na hora.
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Capítulo 8 — A Paz Irônica do Fim
Já era manhã, e todos estavam acordando. Bateram na porta do meu
quarto, e eu não respondi. Eu havia deixado a porta destrancada. Era
Milla, que, ao não obter uma resposta, logo abriu a porta. A cama
estava perfeitamente arrumada. A janela, aberta. Nenhuma mala,
nenhuma roupa, nenhum sinal de que eu ainda estivesse ali... Seu
coração gelou. Ela presumiu que eu tinha me levantado e saído para
algum lugar próximo. Milla caminhou pelo corredor até a sala, onde
estavam Nate, Henrique e Martin conversando.
— Dave passou por vocês? — perguntou, tentando esconder a
preocupação na voz.
Nate, ainda meio sonolento, franziu a testa — Ele não tá dormindo?
Eu conheço ele, e é quase impossível ele ter acordado antes de nós
— ele riu, mas logo percebeu que Milla não estava brincando.
— Não. A cama tá arrumada e não tem nada lá. Será que ele saiu?
— ela respondeu.
73
— Não é possível que ele saiu de novo sem avisar — O sorriso no
rosto de Nate sumiu instantaneamente. Ele se levantou de uma vez e
seguiu direto para o quarto.
Milla o acompanhou, observando enquanto ele abria as gavetas,
checava o armário e o banheiro. Então, algo chamou sua atenção: um
pedaço de papel sobre a mesa de cabeceira. Nate pegou o bilhete, leu
rapidamente e sentiu o estômago revirar.
"Agora vocês estão mais seguros"
Ele ficou parado por um instante, apenas encarando aquelas
palavras, como se elas pudessem mudar se ele as olhasse por tempo
suficiente. Então, sem dizer nada, voltou para a sala, com os passos
agora mais pesados.
— Ele foi embora.
Os outros se viraram para ele imediatamente.
— Como assim "foi embora"? — Martin perguntou, erguendo uma
sobrancelha.
— Não sei, ele só deixou esse bilhete.
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— Você tem certeza de que é dele? — Martin observou bem o pedaço
de papel.
— Claro que tenho. É a letra dele.
O clima ficou pesado. Uma tensão não dita pairava entre todos ali.
Nate virou para Henrique, estreitando os olhos.
— Você foi o único que falou com ele ontem. O que disse pra ele?
— Ah, pelo amor de Deus. Eu não disse nada demais. Só falei que
essa impulsividade dele podia acabar nos matando. E eu disse
brincando, tá? — Ele levantou as mãos, como se isso o isentasse de
qualquer responsabilidade — Não foi sério.
Nate apertou o bilhete com mais força — Você acha que ele levou na
brincadeira?
Henrique deu de ombros.
— Sei lá. O que eu sei é que, se ele surtou a esse ponto, talvez ele já
tivesse pensando em ir antes mesmo disso — Ele olhou para Nate
com um sorriso irônico — E, sinceramente, é engraçado que eu
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tenha sido o único a falar com ele depois de ele ter sofrido um
acidente de carro. Pensei que você fosse o melhor amigo dele.
Nate fechou as mãos em punhos, mas Milla o interrompeu antes que
ele falasse qualquer coisa.
— Discutir agora não vai resolver. Eu senti que ele estava meio
distante, mas não achei que ele faria isso. Temos que achar ele logo
antes que seja tarde.
Eu estava me sentindo sozinho, mesmo junto de outras pessoas.
Minha cabeça estava prestes a explodir! Tudo tão rápido. Eu não fui
embora porque achava que estava colocando a vida de alguém em
perigo, mas sim porque sentia que não fazia parte dali.
— O que vocês estão pensando em fazer, colocar panfletos nos
postes escrito "desaparecido, se encontrar, favor ligar".
Nate olhou para ele com raiva.
— Já que vamos procurar por ele, então vamos logo — Henrique se
levantou e pegou a jaqueta — Quanto mais tempo perdemos aqui,
menor a chance de encontrar alguma pista.
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Eles procuraram em toda a cidade durante dias. Chamavam meu
nome, olhavam em cada canto, mas não havia sequer um vestígio que
indicasse onde eu estava. No início, era uma missão coletiva. Todos
saíam juntos, cobriam territórios diferentes, cruzavam caminhos de
novo e de novo, como se, na próxima vez, algo fosse diferente. Com
o passar dos dias o desânimo foi tomando conta. Martin e Nate, no
entanto, se recusaram a desistir. Todos os dias, eles saíam. Todos os
dias, Nate torturava a própria mente, repetindo para si mesmo que
não ia parar até me encontrar. A culpa o consumia. No fim do
mundo, ele havia prometido cuidar e estar sempre ao lado do seu
melhor amigo e irmão. Onde ele estava agora? Em que momento ele
havia se esquecido disso? A cena de Devon em seus braços se repetia
em sua mente, agora com meu rosto. O desespero estava tomando
conta dele. Era tarde, eu podia estar vivo ou morto, ele nunca saberia.
O tempo passou sem qualquer sinal de mim. No começo, meu nome
ainda era dito com frequência. "Talvez ele esteja em algum lugar por
aí, escondido." "E se ele tiver saído da cidade?" "E se estiver morto?"
Mas conforme os dias se arrastavam e a rotina se impunha, minha
ausência se tornou apenas um buraco silencioso no grupo. Eles
estavam vivendo. Com energia, comida e água quente, estavam, de
certa forma, estabelecidos. A pergunta que pairava no ar era: e
agora? Ficar ou ir?
77
Não havia sinal de vida ali, apenas as que já conhecíamos. Era 5 de
maio e já se fazia um mês desde que toda aquela loucura havia
começado. Na virada daquela noite, uma ventania bateu forte,
invadindo cada fresta das casas. As janelas abertas bateram contra as
paredes, jogando poeira, folhas e destroços para dentro. O jardim foi
destruído em minutos. O vento era tão forte que pedaços de madeira
eram arrancados das casas ao redor e arremessados pela rua como
projéteis. Se era um cenário de apocalipse que queríamos, era o que
tínhamos. Ruas sujas com carros batidos, terra para todo lado. Às
cinco da manhã, o vento parou tão abruptamente quanto começou.
Quando saíram, o ar ainda carregava a poeira da destruição. O céu,
tingido de vermelho pelo sol nascente, fazia as ruas devastadas
parecerem ainda mais irreais.
Então veio o barulho. Não era o vento. Era um som ensurdecedor,
crescente, vindo do céu. Eram pássaros, e eles rasgavam o céu em
direção ao sul. Uma massa negra em movimento frenético.
Diferentes espécies, tamanhos variados, todos voando juntos em
desespero absoluto. Debatiam-se uns contra os outros, caindo do céu
como se estivessem sendo esmagados por algo invisível. A cena era
caótica. Henrique então mandou todos entrarem, mas estavam
paralisados. As aves se aproximavam voando em alturas diferentes.
Era como se o céu estivesse gritando. Quando as primeiras aves
começaram a despencar ao redor deles, Henrique não esperou mais.
78
Agarrou Milla e empurrou Martin para dentro, antes que a histeria
tomasse conta. Ele bateu a porta e trancou as janelas que ainda
estavam inteiras. Os pássaros atingiam as paredes com força,
guinchando, se debatendo, se arremessando contra os vidros como se
o próprio céu estivesse tentando derrubar a casa. Cada impacto era
um baque seco, seguido pelo som molhado do sangue manchando as
janelas.
O silêncio voltou. O grupo ainda sentia os batimentos acelerados
tentando se acalmar. O cheiro metálico do sangue das aves
impregnava o ar, misturado com o mofo e a poeira que o vento
levantou. Sentado no sofá, Henrique encarava um ponto fixo na
parede, mas seus olhos estavam longe dali. Perdido em memórias
que se infiltravam como veneno, sentiu o peito apertar. Seus olhos
escureceram, e então, o azul começou a surgir. A voz de seu pai
ecoou em sua mente, distorcida pela distância do tempo:
— Eu já falei pra você não mexer nas minhas coisas moleque!
A cena se formava aos poucos, como se estivesse emergindo debaixo
d'água.
— Ele é só uma criança Phillip, ele não sabia que era sua mochila
— Sua mãe tentou intervir.
79
Pequeno e encolhido no canto do quarto, Henrique observava seus
pais discutirem. O medo queimava em seu estômago, uma faca
invisível que se cravava mais fundo a cada palavra trocada. Ele
queria gritar. Queria implorar para que parassem. Mas não conseguia.
Então, seu pai se virou para ele.
— Escuta aqui moleque — Os dedos ásperos apertaram seu rosto
com força, forçando-o a encarar aqueles olhos frios e severos — Eu
não quero ver você no meu quarto nunca mais. Me ouviu?
Henrique sentia a respiração pesada do pai contra seu rosto. O
cheiro de cigarro, suor e raiva se misturava no ar sufocante. A raiva
tomou conta dele e ele começou a se debater. E então, tudo começou
a se dissolver. Ele abriu os olhos. Seu peito subia e descia
rapidamente, como se tivesse corrido quilômetros. O suor escorria
por sua testa, e seus punhos estavam cerrados com tanta força que as
unhas cravavam na pele.
— Henrique, para! — Milla tentou segurá-lo.
Ele respirou fundo, ruidoso, forçando o nariz, deixando a raiva vibrar
em seu peito.
— O que aconteceu, cara? — Nate perguntou.
80
Henrique não respondeu. Se afastou, esfregando as mãos pelo
cabelo ondulado e desgrenhado. Sua mente fervia. Então viu o
porta-retratos. Sem pensar, agarrou o objeto e o arremessou contra a
televisão. O impacto fez o vidro explodir em estilhaços. Ele urrou.
Um som gutural, cru, vindo do fundo de sua garganta. E então, sem
dar tempo para qualquer reação, atropelou tudo em seu caminho,
empurrando a porta com violência. Os três o seguiram para fora.
— Mas não é possível uma merda dessa... — pensou, enquanto os
músculos se enrijeciam automaticamente.
Ele freou logo após as escadas e paralisou, parando também com os
braços os três que vinham atrás dele. Seu dedo indicador foi direto
para os lábios, pedindo silêncio absoluto. Todos congelaram. Milla,
Martin e Henrique trocaram olhares tensos, sem saber se deveriam
recuar devagar ou correr. O instinto gritava que qualquer movimento
brusco poderia ser um erro fatal. A poucos metros dali, na rua
empoeirada e coberta de destroços, um guepardo de pelo dourado e
manchado estava abaixado sobre a carcaça retorcida de um pássaro
de grande porte. O som de ossos sendo triturados e carne sendo
rasgada ecoava no ar. Martin engoliu seco.
— Se tem um, logo podem ter mais — murmurou, mantendo o tom
baixo — E esse lugar vai ficar com um cheiro insuportável.
81
Milla estreitou os olhos ao perceber algo brilhando no pescoço do
felino — Ele veio do Zoológico Municipal da Filadélfia.
— Como pode ter tanta certeza? — Nate sussurrou.
— Tem uma etiqueta de identificação presa à coleira — ela apontou
sutilmente. — O vento deve ter derrubado cercas, portões...
— O Parque de Detroit, onde me encontrei com o Dave, tinha uma
área pequena de zoológico. Todas as jaulas estavam abertas.
Henrique, que ainda estava respirando forte por causa do surto
anterior, voltou seu olhar para Nate — Tá dizendo que alguém soltou
esses bichos de propósito?
Nate hesitou por um instante — Não sei. Mas jaulas trancadas, sem
alimento, significam morte. É melhor que estejam soltos do que
apodrecendo dentro das gaiolas.
Milla mordeu o lábio, refletindo por um momento antes de soltar —
Não tem guepardos no Zoológico da Filadélfia.
— Como não? A etiqueta tá bem ali — Martin arqueou uma
sobrancelha.
82
— Eu sei do que estou falando — ela rebateu, ainda com os olhos
fixos no felino. — Meu tio trabalhava lá. Eu estive no zoológico
pouco antes de tudo isso começar. A área dos felinos estava
completamente destruída e eles disseram que levaria anos até que
conseguissem repovoá-la.
Mais uma peça que não encaixava. Henrique cerrou os dentes,
empurrando vagarosamente os outros para trás.
— Mas agora não dá tempo de pensar nisso. O que importa é que
temos um predador bem na nossa frente.
O felino ergueu a cabeça, farejando o ar. Henrique gesticulou com a
cabeça, sinalizando para recuarem lentamente. Cada passo era
calculado. Cada respiração, silenciosa. Martin foi o último a entrar e,
antes de fechar a porta, deu uma última olhada para fora.
83
Capítulo 9 — Obviedade do Dia
Depois do caos da tempestade, do vento uivante e da chuva de
pássaros ensanguentados se espatifando contra a casa, a quietude
parecia errada, como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
Ninguém falava. Ninguém sabia o que dizer. O vento assobiava
através das frestas da madeira, carregando o cheiro forte de terra
molhada, sangue e carne em decomposição. Henrique passou as
mãos no rosto, tentando acalmar a própria respiração.
Lá fora, a cidade parecia diferente. O céu ainda carregava um tom
acinzentado. A ventania espalhara destroços por toda parte. Árvores
haviam sido arrancadas pela raiz. Os carros estavam cobertos por
uma fina camada de poeira e lama, como se tivessem passado meses
abandonados ali, e não apenas algumas semanas. O jardim, que antes
era um pequeno refúgio no meio do caos, estava destruído. Folhas,
galhos, pedaços de madeira e destroços cobriam o chão, espalhados
como se uma bomba tivesse explodido no centro da cidade. Mas
nada disso era o que importava.
— Não podemos ficar aqui. Olha a situação dessa casa! — Henrique
exclamou, atirando um pedaço de madeira quebrada contra a parede.
84
— Isso não faz sentido — Milla, ainda absorvendo tudo, balançou a
cabeça lentamente.
Martin sentou-se na beira do sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— O que exatamente? O fato de ter um maldito guepardo solto na
rua?
Ela negou com a cabeça — O guepardo, sim. Mas não só ele. A
tempestade, os pássaros, tudo isso... Tem algo errado.
Henrique observou de longe a janela e cruzou os braços — Se você
quer dizer que isso tá indo além do que a gente esperava, parabéns.
Você acabou de ganhar o prêmio de obviedade do dia.
Milla não respondeu.
— E agora, o que a gente faz? Se isso se tornar mais frequente? —
Nate também se sentou. A poeira começava a irritar sua rinite.
— Não acho que vai, e também não acho que tem uma explicação
lógica pra isso — Martin ponderou.
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— É, é. Vamos fazer silêncio e esperar nosso novo vizinho ir embora.
Precisamos juntar nossas coisas e voltar ao nosso objetivo: a torre
de transmissão. Viemos aqui pra isso — Henrique disse, impaciente.
— Mas e o Dave?
— Se ele quisesse, já teria voltado, Nathan. O David já deve estar
bem longe... ou morto — Henrique lançou um olhar sem empatia.
— Não é verdade — Nate retrucou. Pensou por um segundo e disse
— Com essa tempestade e esses animais ele não tá seguro. E agora?
— E agora nada. Ele tomou a decisão dele.
— Henrique, se acalma. Eu sei que você tá assim por causa de tudo
tá acontecendo, mas você precisa esfriar a cabeça, cara! — Martin
tentou se aproximar, mas Henrique deu-lhe um tapa na mão — Temos
que ficar todos unidos.
Henrique deu de ombros, se direcionando novamente a uma das
janelas.
— O que você viu que te deixou assim? — Nate indagou.
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Henrique demorou um instante para responder. Seu olhar parecia
preso em algo além da cidade destruída — Nada que seja do
interesse de vocês. Só me deixem quieto!
— Não acho que a gente pode ignorar o que tá acontecendo e
continuar como se estivesse tudo bem — Milla se aproximou da
janela, ignorando o tom dele.
— Não está ao nosso alcance fazer nada. Então temos que continuar
sobrevivendo — Martin disse, firme.
— Disse algo de útil finalmente Martin! Parabéns — Henrique
soltou um riso seco. Ele se afastou, como se a conversa já não tivesse
mais importância.
Depois de um tempo em silêncio, uma batida lenta e arrastada na
porta quebrou o torpor da sala. Quem seria? Um grupo de
adolescentes armados até os dentes em busca de sabe-se lá o quê? O
governo com a solução de todos nossos problemas? Nossos pais? Só
havia uma forma de saber:
— Abre logo essa porta! — Henrique rosnou, impaciente.
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Martin lançou-lhe um olhar de advertência, mas obedeceu. Foi até a
porta, hesitou por um segundo e a abriu. E ali estava eu. Minha
mochila rasgada pendia de um ombro, minhas roupas estavam limpas
demais para alguém que havia sumido por dias, e minha expressão
era a de um cão arrependido. O alívio nos rostos deles era evidente,
mas também a raiva. Eu sabia.
— Talvez o mundo não esteja tão perigoso assim — Henrique
zombou, cruzando os braços.
Apenas ignorei. Eles tinham muitas perguntas. Onde eu estive? O
que fiz? Por que fui embora?
Não dei resposta a nenhuma delas. Apenas entrei, recusando
abraços, desviando de olhares ansiosos. Peguei algo para comer na
mochila e segui direto para um dos quartos. Não que eu esperasse
que me deixassem em paz. E, claro, Nate foi o primeiro a me seguir.
Ele ficou parado na porta por um momento, como se organizasse as
palavras na cabeça.
— Ei... me escuta. Me desculpa. Eu não devia ter te deixado de lado.
Devia ter sido um amigo melhor.
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Permaneci em silêncio, concentrado em desembrulhar a barra de
cereal na minha mão.
— Eu te procurei todos os dias. Estava difícil olhar aqui e não ver
você dormindo parecendo um cadáver, não ter a sua companhia…
Minha garganta apertou um pouco. Quis responder. Quis dizer que
também senti falta, que as noites foram longas demais e que, por um
momento, cheguei a acreditar que nunca mais voltaria. Mas tudo isso
ficou preso em algum lugar entre o orgulho e o medo. Então
continuei calado.
— Entendo se ainda estiver com raiva de mim — ele suspirou —
Mas eu tô feliz que você voltou.
Antes que eu precisasse reagir, outro par de passos soou na porta.
Era Milla. Ela sorriu, um sorriso contido, quase tímido. Seu olhar
dizia mais do que qualquer palavra. "Que bom te ver." Ela se
aproximou, sentou-se ao meu lado e começou a falar. Contou tudo o
que havia acontecido enquanto eu estive fora. Apenas deixei que sua
voz fluísse pelo quarto, preenchendo os espaços vazios da minha
mente como uma melodia suave.
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Não sei quanto tempo passou antes de eu finalmente me levantar e
voltar à sala.
— Já perdemos muito tempo — anunciei — Vamos achar logo essa
torre.
Eles concordaram sem hesitação. Mas antes que eu pudesse sequer
pegar minha mochila, Henrique me seguiu até o quarto e fechou a
porta atrás de si, trancando-a. Ele ficou ali por um segundo,
respirando fundo, como se estivesse tentando decidir por onde
começar.
— Eu não vim aqui bancar o bom amigo nem nada do tipo — disse,
direto ao ponto. — Quero saber de uma coisa. O que aconteceu
quando você teve aquele surto e viu seus pais?
— Não me encosta. Por que eu deveria te falar sobre isso? Qual o
seu interesse? — Revirei os olhos e me virei de costas — Não é da
sua conta.
Ele se aproximou e, antes que eu pudesse reagir, tocou meu ombro.
Assim que o fez, um gemido de dor escapou dos meus lábios.
Henrique arregalou os olhos.
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— O que é isso? Você ta machucado? — A voz dele mudou
sutilmente.
— Destranca essa porta e vamos embora!
— Eu te fiz uma pergunta.
— E eu tô mandando abrir essa merda de porta antes que…
— Antes que o quê? Vai me bater? — Ele riu com descrença — Olha
o seu tamanho, Dave.
Fechei os punhos, respirando fundo para conter minha irritação. Ele
se aproximou, quase que me encurralando.
— David, eu vou pedir só uma vez. Levanta sua camisa, agora. Ou
eu faço um escândalo.
Ótimo. Como se eu precisasse de mais um problema. Lentamente,
levantei a camisa. O silêncio que se seguiu foi pesado. Henrique
estreitou os olhos, mas seu rosto permaneceu impassível. Seus olhos
percorreram cada marca, cada arranhão, cada ferida que ainda
queimava na minha pele. Ele fez menção de tocar, mas parou no
meio do gesto, fechando a mão em um punho antes de cruzar os
91
braços. O que quer que ele estivesse pensando, manteve para si.
Depois virou meu corpo para examinar meu peito e observou uma
marca que descia até o abdômen.
— Satisfeito? — Soltei, entredentes.
Ele não respondeu de imediato. Quando o fez, sua voz não carregava
mais aquele tom provocativo de sempre — O que aconteceu? Quem
fez isso?
— Não importa.
Ele respirou fundo, analisando as marcas como se tentasse decifrar
um código — Você não devia ter saído.
Continuei em silêncio, desviando o olhar. Com dificuldade,
coloquei de volta minha camisa. Quando percebeu que não teria
resposta, simplesmente assentiu. Por um segundo, achei que ele fosse
dizer mais alguma coisa, mas apenas destrancou a porta e saiu.
92
Capítulo 10 — Curiosidade ou Interesse?
Depois de algumas horas, já estávamos na cidade. Procurávamos a
torre de transmissão e Nate encontrou um mapa num dos quartos da
casa em que estávamos hospedados.
— O prédio central fica bem na saída da cidade, em frente ao
Spectrum Center — ele apontou no mapa.
Martin franziu a testa — O Spectrum Center não fica na Carolina do
Norte? Também é nome de um bairro na Califórnia. Tem certeza de
que está olhando certo?
— Tenho. Esse aqui é um shopping. É bem grande, impossível errar.
Seguir de carro ou moto estava fora de questão — as ruas estavam
entupidas de destroços, carcaças de veículos e restos de animais.
Então, caminhamos. Por quase meia hora, cruzamos um cenário de
destruição: árvores arrancadas, postes tombados, concreto partido e
lixo espalhado. O cheiro de chuva misturado com carne apodrecida
pairava no ar, tornando a caminhada ainda mais sufocante. Quando
enfim encontramos uma rua livre, procuramos um carro em
condições de uso. Achamos um que ainda funcionava, colocamos
nossas coisas e seguimos viagem. Eu estava em absoluto silêncio.
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Meus pensamentos iam e vinham, criando um ruído de fundo que
abafava a conversa dos outros. O mundo parecia distante.
Ao chegarmos ao prédio, ele se ergueu diante de nós como um
monólito sombrio. Alto, com centenas de janelas maxim-ar fechadas,
parecia ter sido congelado no tempo. Nosso objetivo não era verificar
câmeras de segurança ou revirar arquivos antigos. Precisávamos
encontrar o radiotransmissor, que provavelmente estava nos andares
superiores. Descemos do carro e avaliamos o prédio, calculando os
próximos passos.
— Alguém precisa ficar para vigiar nossas coisas — sugeriu Martin
— Dave, acho que você não merece subir dezenas de escadas. Fica
aí, nós subimos lá.
Meu peito apertou na mesma hora. Ficar ali sozinho? A ideia me fez
prender a respiração por um segundo. Não era só desconforto, era
algo mais profundo, uma reação quase automática. A última vez que
estive sozinho... bom, eu ainda sentia as marcas disso na pele. O
silêncio absoluto, a sensação de estar sendo observado, a certeza de
que algo estava à espreita... Antes que eu pudesse protestar, Henrique
riu de canto.
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— Que? Quem você acha que vai aparecer? Se alguém tentar levar
o carro, o magricelo não vai conseguir impedir — ele cruzou os
braços — Eu fico também.
Meu alívio foi imediato, mas tentei disfarçar. Henrique não era
exatamente a melhor companhia, e a última coisa que eu queria era
me sentir vulnerável perto dele.
Nate lançou-lhe um olhar desconfiado — Não acho uma boa ideia.
Vai mandar ele embora?
Os três abriram a porta do prédio — que, para nossa surpresa, não
estava trancada — e subiram.
E assim, restamos apenas eu e Henrique, sentados na calçada ao lado
do carro.
— Obrigado por ter ficado — murmurei, quebrando a quietude.
Ele deu de ombros — Não há de quê. Imaginei que não ia querer
ficar sozinho. Mas... quero que me fale uma coisa.
— O quê? — Estreitei os olhos, desconfiado.
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Henrique se ajeitou na calçada e me encarou diretamente, sério
demais para o meu gosto.
— O Nathan me contou e... — por um momento, titubeou —
Quando você teve aquele surto... o que viu? Eu sei que já perguntei
antes, mas preciso saber.
Senti meu corpo enrijecer. Eu já esperava essa pergunta, mas isso
não tornava mais fácil respondê-la.
— Uma memória — soltei, tentando soar indiferente — Eu e meu
pai, brincando na beira do lago. E você? Ouvi dizer que você
quebrou a casa inteira.
Forcei um sorriso, esperando que isso aliviasse a tensão. Não
funcionou. Henrique desviou o olhar e passou os dedos pela cicatriz
no pescoço.
— Uma memória ruim — disse apenas, seco — Parece que ficamos
presos nela, como se nosso cérebro nos jogasse lá sem chance de
sair.
Assenti devagar — Sim... foi exatamente assim.
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Henrique respirou fundo, como se tentasse afastar um pensamento
incômodo. Depois, mudou de assunto — Nate me disse que vocês
foram ao prédio de Detroit e viram um corte estranho nas câmeras.
E que a porta principal estava trancada.
Eu pisquei, surpreso com a mudança repentina.
— Sim. A filmagem pulava da meia-noite para as cinco da manhã.
Isso não foi um acidente. E entrar lá foi difícil... como se alguém não
quisesse que chegássemos. Já aqui foi fácil demais.
Henrique arqueou uma sobrancelha — alguém quem?
— Deixa pra lá. Acho que tô pirando.
— Ou talvez só esteja ligando os pontos errados. Pode ser
coincidência, ou alguém já entrou antes de nós. E o homem
mascarado?
Minha respiração travou por um segundo.
— Deve ter ficado pelo caminho — desconversei rápido demais —
Vai continuar o interrogatório?
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Henrique me olhou de canto.
— Tá bom... só perguntei. Se preferir podemos pode ficar aqui sem
falar nada até eles voltarem.
Havia deboche na voz dele, mas também um leve desafio. Eu
apenas assenti e voltei a encarar o nada. O silêncio durou alguns
minutos. Não muitos, porque Henrique era irritante demais para ficar
calado por muito tempo.
— Você passou alguma coisa nesses machucados? — perguntou,
cutucando meu ombro.
Me afastei — Sim. Vai melhorar.
— Me conta o que aconteceu, David — Henrique suspirou e cruzou
os braços.
— Não tem nada pra contar — Meu maxilar travou.
— Eu sei que nós...
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— Exatamente — O cortei antes que terminasse a frase — Você sabe
que nós não somos amigos. Então não tem motivo pra eu me abrir
com você.
Henrique me encarou, mas eu continuei.
— Só porque você percebeu que eu me machuquei, não significa que
eu tenho que te dar satisfação.
Minha voz saiu mais afiada do que eu esperava, mas não me
importei. Levantei de uma vez e entrei no carro, batendo a porta com
força. Antes que eu pudesse me isolar, Henrique soltou:
— Tudo bem. Você não me deve satisfação. E apesar de não parecer,
eu me importo. Vocês todos são minha família agora.
Eu ri sem humor — conta outra.
— E se você não quiser falar, eu conto pra todo mundo sobre isso. Aí
você vai ter que explicar pra todos nós.
Meus punhos se fecharam e respirei fundo.
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— Você só sabe fazer as coisas desse jeito? Por ameaça? — minha
voz saiu tensa — Não adianta, não vai funcionar.
— Vamos ver — Ele deu um meio sorriso, nada amigável.
Ele se levantou e tirou a poeira das mãos, sem dizer mais nada. Mas
a mensagem estava clara. Se ele realmente fizesse aquilo, eu nunca o
perdoaria. O silêncio pesado entre nós foi interrompido quando
Martin surgiu correndo da entrada do prédio, os olhos brilhando de
empolgação.
Milla e Nate vieram logo atrás dele, com expressões carregadas de
expectativa. Milla foi direta:
— Há uma transmissão se repetindo em vários idiomas. Ela diz o
seguinte:
"Olá. Eu me chamo Oliver e tenho uma importante mensagem, ouça
com atenção. Se você está sozinho ou em grupo, temos um abrigo
para todos. Venha imediatamente! Antes que as coisas piorem... e
elas vão piorar. Estamos na Cidade do México, no Castelo de
Chapultepec. Em volta do castelo, temos muros altos e resistentes,
preparados antecipadamente. Será visível quando chegar.
100
Explicamos tudo assim que você ou vocês chegarem. Por favor,
corram!"
— Se isso for uma armadilha? — Questionei. Algo não parecia certo.
— Isso não é um filme, David. Vamos, não podemos demorar!
Nossas perguntas serão respondidas — Martin bufou.
Henrique se virou para mim com um olhar de reprovação,
balançando a cabeça negativamente. Ele não iria falar nada, pelo
menos por hora. Senti um alívio, porém fiquei chateado comigo
mesmo. Parte de mim sabia que ele ainda não tinha desistido de
arrancar minhas respostas.
Quando terminamos de juntar os suprimentos já escurecia.
Havíamos encontrado uma F-150 em uma concessionária e a
abastecemos o suficiente para seguir viagem. O plano era simples:
dirigir o máximo possível e parar apenas quando necessário. A
estrada estava escura e silenciosa, até que ao passarmos por um
bairro aparentemente abandonado, notamos algo incomum: uma luz
acesa no segundo andar de uma casa grande e de dois andares.
— Isso não é um bom sinal — murmurei.
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— Mas pode ser alguém precisando de ajuda — Milla argumentou.
— Ou pode ser um problema — Henrique retrucou, sem rodeios.
Ainda assim, paramos. Havia algo de errado ali, mas a curiosidade e
a cautela nos obrigaram a conferir. Nos aproximamos devagar,
batemos na porta. Antes mesmo que o som da batida ecoasse, a porta
se abriu num estalo. Fomos recebidos pelo cano frio de uma arma
apontada diretamente para nossas cabeças. Engoli seco. Atrás do
homem armado, dois outros surgiram das sombras. Em um instante,
sacos escuros foram enfiados em nossas cabeças e tudo virou um
turbilhão. Meus pulmões começaram a queimar. O tecido abafado
tornava difícil respirar. Fomos separados, levados aos trancos e
empurrões. O som de portas pesadas se fechando ecoou pelo ar.
Eu estava trancado. De novo.
102
Capítulo 11 — Sacos na Cabeça
O cheiro de mofo e ferrugem enchia o ar. Meus pulsos estavam
doloridos por causa das amarras, e minha cabeça ainda girava da
confusão. O saco preto que cobria meu rosto havia sido arrancado há
alguns minutos, mas a escuridão da sala onde me colocaram não era
muito diferente. As únicas fontes de luz vinham de uma janela
minúscula no alto da parede e do vão sob a porta de ferro. Eu estava
sozinho.
Nenhum som de passos, nenhuma voz. Apenas minha respiração,
curta e controlada. Fechei os olhos por um instante, tentando manter
a calma. Meu corpo ainda sentia a adrenalina da captura, mas o medo
real veio depois — quando percebi que havia sido separado dos
outros. Fomos levados cada um para um quarto. As vozes do lado de
fora quebraram a quietude.
— ...não faz sentido separar a gente assim! Ele precisa de cuidados
médicos — A voz de Henrique era firme, irritada — Além do mais,
acham mesmo que vamos conseguir alguma coisa jogando um grupo
inteiro em celas diferentes? Se quiserem informações, precisam
manter a gente minimamente lúcido.
A resposta foi abafada, mas Henrique continuou.
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— Ele tá machucado. Não sou médico, mas sei como cuidar disso. E,
convenhamos, dois prisioneiros numa sala trancada ainda são
prisioneiros, não?
Houve um momento de hesitação. Depois, um suspiro pesado,
seguido pelo som do trinco girando. A porta rangeu ao abrir.
Henrique entrou primeiro, atirado para dentro como um saco de
batatas. Ele tropeçou levemente, mas se recuperou rápido. Antes que
eu pudesse dizer qualquer coisa, a porta foi fechada e trancada
novamente.
Henrique soltou um suspiro satisfeito e bateu duas vezes na porta.
— Valeu pela consideração.
— Como e por quê? — Meus olhos se estreitaram.
Ele deu de ombros, caminhando até a parede oposta e se encostando
nela.
— Eles acham que sou um cara razoável.
— Henrique...
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— Tá bom — ele ergueu as mãos, se rendendo — Disse que você
tava ferido, que eu sabia como cuidar e que não fazia sentido nos
separarem. Foi meio que uma troca: eu não enchi o saco deles, e
eles me deixaram ficar aqui.
Bufei — Então agora você virou enfermeiro. Ótimo.
— Melhor do que ser sua babá.
Eu rolei os olhos e o silêncio se instalou entre nós. Henrique
quebrou a tensão primeiro.
— Então... você vai me contar agora ou ainda prefere me odiar em
silêncio?
— Ah, então foi por isso... Tá aqui pra continuar tentando descobrir
o que aconteceu. É claro que você só tá preocupado em satisfazer
sua própria curiosidade — disparei.
Ele se virou de costas para mim e cruzou os braços.
— Não preciso — sua voz era desinteressada, quase fria — Talvez eu
só queira saber por que me dá na telha. Talvez eu só queira usar isso
contra você depois. Vai saber. São possibilidades.
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Ele fez uma pausa, e quando falou de novo, sua voz estava mais
baixa.
— Mas, no fim das contas, tanto faz. O que você acha ou não sobre
mim não muda nada.
Revirei os olhos mais uma vez e me sentei no chão frio. O piso
vinílico estava úmido, como se tivesse sido lavado recentemente. O
cheiro forte de produto de limpeza misturado com o mofo do
ambiente me causava uma leve náusea. As paredes de concreto cinza
subiam à minha volta, nuas e sem vida, aumentando a sensação de
confinamento. O leve som distante de passos ecoava junto ao
murmúrio indistinto de vozes, que pareciam se fundir numa
cacofonia insuportável. Encostei-me na parede, sentindo a textura
áspera contra minhas costas e me silenciei, mergulhando em meus
pensamentos. Uma falha tentativa de ignorar o ambiente ao meu
redor. O silêncio foi interrompido quando Henrique se sentou ao meu
lado.
— Eu quero saber o que aconteceu com você.
Fiz uma careta.
106
— O que será que vão fazer com a gente? Será que vai demorar? Se
eles quiserem me matar agora só pra eu não precisar dividir espaço
com você, aceito sorrindo — murmurei, exalando um suspiro
cansado.
Henrique riu pelo nariz, mas o som saiu mais amargo do que
divertido.
— Queria entender qual é o seu problema. Olha como você age.
— Se enxerga, cara. Você que sempre age feito um babaca. Só me
deixa!
Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, mas não recuei.
Henrique me olhou de canto e respirou fundo, uma, duas, três vezes.
Ele parecia processar algo antes de finalmente responder.
— Eu sei que aconteceu alguma coisa com você, David. Algo sério.
Alguém te machucou. Para de agir feito uma criança.
Meus dentes se contraíram por reflexo, mas não disse nada.
— Você, Nathan, Milla, Martin... são minha família agora. —
continuou ele, sem me encarar — Eu sei que você acha que não me
107
importo, mas... no fundo, me importo sim — passou a mão pelo rosto
e soltou uma risada curta, sem humor — Eu fui atrás de você por
noites. E, no fundo, sinto que o que aconteceu é culpa minha. Não
queria que você se sentisse mal a ponto de ir embora.
— Que bom que você reconhece — minha voz saiu baixa, mas
cortante.
Henrique soltou um suspiro, como se já esperasse aquela resposta.
Depois, ficou em silêncio por um tempo, mexendo nos próprios
dedos como se quisesse manter as mãos ocupadas. Quando voltou a
falar, sua voz tinha um peso diferente.
— Eu vi meu pai.
Franzi as sobrancelhas, confuso — No... transe?
Ele assentiu lentamente, levando a mão ao pescoço e passando os
dedos pela cicatriz ali.
— Tá vendo essa marca? Foi ele.
Minha respiração ficou presa na garganta.
108
— Ele batia na minha mãe e, um dia, tentei defender ela. Ele pegou
uma placa de ferro e jogou na minha direção. Sorte que não foi
pior...
Henrique respirou fundo, como se estivesse tentando controlar algo
dentro dele.
— Minha vida em casa era um inferno. Até que um dia eu fiz o que
precisava ser feito.
Havia algo mais ali. Algo que ele não estava dizendo.
— Reviver isso foi horrível. Ele tava ali na minha frente. Eu senti as
mãos dele no meu rosto, David. Foi como se tivesse sido jogado de
volta pra aquele dia.
Engoli seco.
— Sei como é — hesitei. Mas, no fim, soltei um suspiro e falei — Se
te contar, promete não dizer nada pra ninguém?
— Eu prometo — Ele estendeu o mindinho, sem pestanejar.
Algumas semanas antes:
109
Eu apertava os joelhos, enquanto tentava me convencer de que era
tudo coisa da minha cabeça. Era tudo imaginação. Não tinha
ninguém, era só meu medo me assustando. Uma pena eu estar
enganado. Estava escuro e frio, o ar pesado e úmido enchia meus
pulmões com cada respiração. Senti o calor humano se aproximar, e
antes que pudesse falar algo, já estava desacordado. Meus ouvidos
zumbiam, e vendado, não enxergava nada.
De repente, tiraram a venda de mim. Assustado, tentava assimilar o
que estava acontecendo, sem sucesso. À minha frente, um homem de
terno preto brilhante com um B dourado pregado no bolso direito, me
olhava no fundo dos olhos. Atrás dele, outros dois homens armados
até os dentes olhavam vagamente, apenas esperando alguma ordem.
Ouvi um breve assovio, no ritmo de uma música qualquer — David
Peterson Hall — O estranho disse pausadamente enquanto sorria,
seus olhos brilhavam tal como os olhos de um leão ao ver um pedaço
saboroso de carne — Você não sabe o prazer que é te conhecer
pessoalmente. Me chamo Richard e, olha, ouvi falar muito de você
garoto.
— Eu diria o mesmo, se não estivesse amarrado! — Minha voz
trêmula ecoava naquela sala vazia. Só havia uma cadeira na qual eu
estava amarrado.
110
— Senhor Peterson, acreditamos que você tenha informações úteis.
Úteis ou até mesmo perigosas. Preciso ter certeza de que você não é
uma ameaça para nós — Richard respondeu, se incomodando
rapidamente com a leve luz que passava por uma pequena fresta na
janela.
— "Nós" quem? Ameaça? Eu nem sei do que você tá falando — A
cada palavra, tudo ficava mais confuso. Aquele homem estava
maluco?
— Se fazer de bobo não funciona, meu caro. Algumas semanas atrás,
vi você na Central de Monitoramento de Detroit. As câmeras
captaram uma invasão. Temo que você saiba mais do que deve —
Ele continuou enquanto me debatia, tentando me soltar.
— Fui por instinto, e não sei de mais nada! Só tava desesperado pra
achar alguém. Me solta pelo amor de Deus! — argumentei. Minha
voz já quase não saía. A poeira daquele lugar começava a me
sufocar.
— Nós sabemos quem você é, David. Sabemos quem é o seu irmão,
seus pais. Sua família não tem um bom histórico. Quero acreditar em
você, mas não consigo, sabe? — Richard saiu, deixando apenas os
111
outros dois homens que passaram a me encarar fixa e
silenciosamente. Não ouvia sequer suas respirações.
O que eu deveria saber? O que meus pais e meu irmão tinham a ver
com aquilo? Meu Deus, o que estava acontecendo! Pouco depois,
Richard voltou:
— Seu pai era um bom homem. E foi justamente isso que o
corrompeu, o tornou fraco e um banana. Já seu irmão, sempre foi um
marginal de merda! É difícil acreditar que venha algo bom de você.
— Meu irmão está morto — Apertei os dentes, enquanto olhava
fixamente para aquele maldito.
— Sabemos que não está. Ou você não sabe que o seu papai
escondeu ele todos esses anos? Acredito que você saiba sim, até
porque o vimos na Central também.
— O que? Como? — Sentia meus dedos crispados em punhos
apertados, uma tentativa desesperada de conter a avalanche de
emoções que ameaçava me engolir por completo. Minha respiração
tornou-se rápida e superficial, como se meu peito estivesse sendo
esmagado por um peso invisível, cada arfar um suspiro sufocado de
ansiedade. Meu estômago parecia uma massa compacta de nós
112
apertados, cada um mais doloroso que o anterior. Senti uma sensação
de vertigem me envolver, como se estivesse à beira de um abismo
sem fundo, prestes a mergulhar em um vazio desconhecido. Cada
batida do relógio no punho de Richard parecia fazer um som
estrondoso, cada segundo arrastava-se como uma tortura
insuportável.
— Você parece assustado. Tudo bem... mas acho impossível que o
seu pai não tenha lhe falado nada sobre nós. Principalmente por
você ser a principal cobaia dele.
Eu já não ouvia mais nada. Eram só sons, que ecoavam vagamente
até meus ouvidos e rebatiam. Pensar que meu irmão poderia estar
vivo me deixou mais desnorteado do que feliz. Eu deveria estar feliz?
Mas tudo que sentia era um peso esmagador no peito, como se a
realidade estivesse se retorcendo ao meu redor. Se ele estava vivo
esse tempo todo... por que esconderam isso de mim? Por que me
fizeram acreditar no pior?
— Eu acredito em você, Dave. De verdade, vejo no seu olhar — ele
se aproximou bastante de mim, a ponto de sentir o calor do seu rosto
próximo ao meu. Recobrei os sentidos e o olhei fixamente,
boquiaberto — Mas eu também vejo o olhar do seu irmão, e não
gosto disso. Mesmo que você não saiba de nada, é ótimo ter controle
113
sobre você. Você vai pagar por tudo que seu pai fez. Uma hora ou
outra seu irmãozinho vai aparecer e vamos pegá-lo.
Me botaram de joelhos, com as mãos e pernas amarradas. Os dois
homens então começaram a me questionar sobre várias questões nas
quais eu não fazia ideia. Era como se falássemos outro idioma. Me
perguntaram sobre cada pessoa que eu conhecia, sobre meu
relacionamento com meu pai, se já tinha visitado o lugar onde ele
trabalhava e insistiam em perguntar onde meu irmão estava.
Trouxeram até mim um tanque de água, e a cada resposta negativa,
eles mergulhavam minha cabeça até quase perder a consciência.
Queriam saber também com quem eu estava e como havia os
conhecido. Obviamente, não disse nada. Não sabia quem aqueles
caras eram e o que queriam, mas tinha certeza de que morreria ali.
Meu fôlego já havia se esgotado, não tinha forças para falar mais
nada. Me botaram de pé ainda com as mãos amarradas e um dos
brucutus me segurou, visto que não tinha firmeza nas pernas.
Rasgaram minha camisa e a tiraram de mim, e pegaram então um
chicote. Olhei no fundo dos olhos de um deles, que mostrava um
desespero que eu nunca havia visto. Era como se estivesse preso em
sua mente e não controlasse seus próprios atos. Richard reapareceu e
gritou:
114
— Tão esperando o que? — Ele sorria — Você não tem noção do
quanto é prazeroso ver isso.
Atordoado, já não sentia mais nada. Apenas o sangue escorrendo
pelas minhas costas. Richard dizia algo, mas eu não conseguia captar
o que era. Um me chicoteava pelas costas, e o outro me esmurrava
pela frente. Não entendia o porquê de aquilo estar acontecendo.
Minha mente começou a vagar entre pensamentos aleatórios e
lembranças até que desmaiei. O ciclo se repetiu por três dias e foi só
piorando. Sentia cada vez mais minha vida se esgotando, e o sorriso
sarcástico de Richard era a única visão que ressoava sobre minha
mente.
Me colocaram num quartinho velho e sujo, com uma cama e uma
garrafa d'água, e lá eu pensava. Não era hora de remoer o passado, eu
tinha que seguir em frente, mas como? Eu não era forte o suficiente,
ou não me sentia assim. Às vezes eu sentia e pensava que ia morrer,
apenas, e chorava por isso. O que podia fazer para mudar a minha
situação? Aquele seria o meu fim? E por quê? Estava boiando sobre
tudo que me perguntavam, se meu pai, mãe ou irmão estavam
envolvidos em algo, a culpa era minha? Começava a sentir que sim.
De forma indireta, parecia que eu tinha alguma coisa a ver com tudo
que estava acontecendo, sem nem saber o que estava acontecendo.
Meu Deus!
115
No dia seguinte, um pouco mais recuperado, me tiraram do quarto.
E o ciclo se iniciou novamente, e novamente. Aquele assovio
desgraçado, com o mesmo som de sempre, me fazia arrepiar.
Rasgavam aos poucos meu abdômen com uma faca pequena.
Furavam meus dedos com pequenas agulhas. Por que não me
matavam logo de uma vez?
— Você é fraco, se soubesse de algo já teria falado. É claro que seu
pai iria esconder o que ele fez e faz — Richard exclamou.
— Então por que ainda tá me prendendo aqui? — Quase sem
conseguir falar, perguntei.
— Estou esperando seu irmão vir te buscar. Você é minha isca, tô só
me divertindo enquanto isso.
Eu não estava comendo, não conseguia dormir e quando dormia
tinha pesadelos. Amarrado no meio de uma sala vazia, sem fazer
ideia de onde estava, com dois homens parados como robôs à minha
frente, e Richard falando sem parar, como de costume. De repente,
um barulho ensurdecedor tomou conta do ambiente. Um ruído que
pareciam gritos e arranhões em vidros. Então, a sala se encheu de
fumaça, e fiquei novamente desacordado.
116
Capítulo 12 — Meias-verdades
A primeira coisa que senti foi a dor. Não era uma dor comum,
passageira. Era um peso sufocante, um lembrete de tudo o que
aconteceu antes de eu apagar. Meu corpo parecia quebrado em mil
pedaços. Cada músculo ardia, cada articulação doía, cada respiração
era um esforço. Abri os olhos devagar, piscando contra a escuridão
ao meu redor. Eu estava em uma cama confortável debaixo de um
teto desconhecido. O cheiro de poeira e madeira envelhecida irritava
minhas narinas. Meu peito apertou com a sensação de déjà vu. Ouvi
passos vindo em minha direção, e meu coração disparou. Meus dedos
se fecharam ao redor dos lençóis. Tentei respirar fundo, mas foi
inútil. Senti o toque no meu ombro, e então apertei os olhos. A luz
atravessou minhas pálpebras e, num esforço, eu as abri.
— Me perdoa — a voz quebrou no final — Eu devia ter chegado
antes. Mas eu não... eu não consegui.
A princípio, só consegui ouvir os sons. A voz carregada de culpa,
de algo profundo. Pisquei algumas vezes e uma silhueta tomou forma
diante de mim. Meus olhos lutavam para focar, meu cérebro relutava
em aceitar o que eu via.
117
— Tá tudo bem... tô vivo — minha voz saiu fraca, rouca, como se
tivesse sido lixada por dentro — Como você...
— Descansa — ele me interrompeu, pousando uma mão firme no
meu ombro — Eu te explico tudo depois.
E eu não precisei de mais nada. Ainda estava muito fraco, então
fechei os olhos e me rendi à inconsciência. Algum tempo depois,
acordei com um sobressalto.
— Como você tá se sentindo?
Minha mente ainda estava enevoada, mas meu corpo reagiu antes de
mim. Me levantei devagar, ignorando a pontada de dor que percorreu
minhas costas. Meus olhos buscaram o dono da voz. Então eu o vi, e
por um momento eu paralisei. O mundo ao nosso redor sumiu,
deixando apenas aquele rosto que eu nunca pensei que veria de novo.
Meus olhos percorreram cada detalhe. Ele estava diferente. Mais
velho, cansado, mas era ele.
— A qual é — ele sorriu de leve — Eu não tô tão diferente de sete
anos atrás, tô?
118
— Claro que tá! — minha voz explodiu, carregada de algo que eu
não conseguia nomear. Raiva? Dor? Alívio? — Eu achei que você
tivesse morrido, Charles.
Avancei nele, socando seu ombro, mas era fraco demais para ser um
golpe de verdade. Antes que eu percebesse, meus braços o
envolveram num abraço apertado. Dolorido, mas apertado.
— Eu tô vivo. E agora tô aqui, perto de você. Eu ansiei tanto esse
abraço… — sua voz tremeu, e seus olhos brilharam com lágrimas
contidas.
Apertei os olhos, sentindo os meus também queimarem — Me conta
o que aconteceu!
— Não. Primeiro, eu quero saber o que aconteceu com você.
— O quê?
— Dave, olha pra você. Tá machucado, cortado, roxo. O que eles
fizeram com você?
119
A pergunta dele foi como uma lâmina cortando a névoa na minha
mente. Tudo voltou de uma vez. A sala escura. O cheiro de sangue. A
dor. Minha garganta se apertou.
— Eles... — minha voz falhou — Eles queriam que eu dissesse algo
que eu não sabia. E, como eu não disse, porque obviamente eu não
sabia, eles me torturaram. Queriam saber onde você tava e o papai.
Mas eu não sabia.
Charles fechou os olhos por um instante, respirando fundo — Eu não
devia ter deixado isso acontecer... eu te perdi de vista por um
momento.
Senti um toque suave na minha mão. Olhei para baixo e vi Charles
segurando um pequeno frasco de álcool e alguns pedaços de gaze.
— Deixa eu cuidar disso.
Minha respiração tremeu quando ele começou a limpar um dos
cortes no meu braço. O ardor foi imediato, mas não reclamei. Ele
fazia tudo com delicadeza, como se estivesse tentando compensar os
anos perdidos.
120
— Você sabe o que eles queriam de mim? Pelo que ele disse, conhece
bem você e o nosso pai.
Charles parou por um segundo — É mais seguro pra você não saber.
Minha cabeça girou e tive a mesma sensação de impotência. De ser
jogado num tabuleiro sem saber as regras.
— Fala sério! — minha voz subiu — Não saber de nada vai me
ajudar em quê? Eu quase morri e nem vou saber o motivo? Você vai
me contar sim!
Ele suspirou, apertando o curativo que fazia.
— Eu tô tentando te proteger.
— Assim como me protegeu quando me pegaram?
O silêncio foi a única resposta. O tempo passou. Ele terminou de
limpar os cortes e me enfaixou todo.
— Vão ficar algumas marcas por um tempo. As dos braços vão
sumir rapidamente, não foram tão profundas. Já nas costas, peito e
121
barriga vão ficar por um bom tempo. Isso se sumirem — ele suspirou
mais uma vez.
— Não faz mal. Mas acho que não vou tirar a camisa tão cedo —
respirei fundo e perguntei — Onde estão nossos pais? O que tá
acontecendo?
Charles ficou em silêncio por alguns segundos antes de finalmente
responder.
— A mamãe não sabe que eu tô vivo.
— Por quê? — Minha garganta fechou.
Ele passou um braço ao redor dos meus ombros, puxando-me para
perto. Por um instante, fechei os olhos e apenas senti o calor familiar,
o afeto, o cheiro de casa. Eu queria ficar ali para sempre. Eu
precisava daquilo.
— Porque eu precisei fingir minha morte — ele finalmente disse.
Ouvir isso foi como um soco no estômago. Se meu irmão precisou
forjar a própria morte, é porque algo grave aconteceu, e nem eu nem
minha mãe sabíamos.
122
— Eu trabalhava com o papai, acabei fazendo besteira e, com medo
de que eu revelasse informações confidenciais, eles me ameaçavam
constantemente.
— Mas o papai trabalhava numa revista de carros!?
— Dave... o papai nunca trabalhou na AZ Magazine. Ele trabalhava
na Ben-Corp.
Ben-Corp era uma famosa empresa de tecnologia, que só se tornou
famosa devido ao alto investimento feito pela Tesla em 2003. Essa
empresa tinha ligação com a Intel desde meados de 1980 (pelo
menos é o que dizem). Com a falência da Intel em 2018, a Ben-Corp
tomou conta das operações. Daí surgiu a B-Tech, que fabricava 90%
dos equipamentos eletrônicos do país.
— O que isso significa exatamente?
Charles continuou — Nem eu sei muito bem o que ele fazia. Ele
trabalhava nos projetos secretos da empresa. Eu tinha certo acesso,
e quando saí, tive que fingir minha morte porque me tornei um risco.
O Richard foi demitido pelo nosso pai, por isso ele tem tanto ódio de
nós. Aquele trabalho era tudo que ele tinha.
123
Minha mente voltou a girar. Eu estava mais perdido do que no
começo. Meu pai não era quem eu achava que era, ele sempre
escondeu algo de mim e eu nunca desconfiei.
— Essa empresa tem alguma coisa a ver com o desaparecimento? O
papai pode estar escondido ou com eles?
— Sim e sim. E eu preciso encontrá-lo.
Me endireitei.
— Então eu vou com você.
— Não. É perigoso demais — Charles se afastou, balançando a
cabeça.
Minha respiração se acelerou — Você vai me abandonar de novo?!
— Não é abandonar. É proteger.
— Charles...
— Dave, eu prometo. Nós vamos ficar juntos de novo. Mas agora,
preciso saber que você está seguro — A voz do meu irmão era firme,
124
mas havia algo quebrado nela. Uma culpa silenciosa que pesava em
cada palavra — Eu tô de olho em você desde que tudo começou, eu te
ouvi, eu te segui. Na Central de Monitoramento de Detroit, no
Galpão, Warren era eu. Eu só dormi um pouco, e eles te pegaram —
Charles se inclinou para mim com os olhos sombrios e cheios de uma
promessa silenciosa — Eu juro que não vai acontecer de novo.
Ele desviou o olhar por um instante, como se precisasse se preparar
para o que vinha a seguir.
— Você tem que voltar para o seu grupo. Vou pedir a um amigo que
fique com você, ele vai se tornar seu amigo também e vai me ajudar
a te proteger. Quando for seguro, eu te busco e não vamos nos
separar nunca mais.
— Eu não acredito que depois de tantos anos você vai me deixar de
novo — minha voz vacilou, e o calor da indignação se misturou ao
desespero. As palavras ficaram presas na minha garganta. Eu respirei
fundo, tentando engolir aquela sensação de abandono — Você fala
como se eu tivesse escolha! Como se pudesse simplesmente ir
embora e ignorar tudo isso — me perdi. Era como se estivesse num
abismo, sem saída. Engoli a indignação e raiva e terminei — Tá
certo. Mas se acontecer algo comigo, não vai adiantar lamentar.
Talvez você não chegue a tempo da próxima vez.
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Ele me olhou com firmeza — O Richard não vai te encontrar. Eu não
vou deixar. Ele é só um psicopata vingativo com dois capangas. Eu
vou cuidar de esconder os seus rastros.
Eu queria dizer que confiava nele. Queria dizer que me sentia
seguro. Mas a verdade era que nada parecia seguro agora. Nem ele.
Nem eu.
Passei mais alguns dias me recuperando sob os cuidados dele.
Charles cuidou de todos os meus ferimentos e me alimentou até que
eu me recuperasse. Ele me observava como se cada hematoma no
meu corpo fosse uma falha pessoal dele. Na última noite, antes de eu
partir, ele me encarou com uma seriedade que fez meu estômago
afundar.
— Dave, me escuta. Não confie em ninguém. Absolutamente
ninguém. Desconfie de todo mundo. Nada é o que parece ser.
Quando finalmente saí dali, me sentia mais perdido do que nunca.
Minha mente ecoava com tudo que Charles dissera, mas o ambiente
lá fora não me deu tempo para processar. Eu tinha certeza de que o
mundo já não era um lugar seguro.
126
A caminho do esconderijo do grupo, presenciei aquela cena
aterrorizante: os pássaros, em um frenesi antinatural, como se algo os
tivesse enlouquecido. Meu coração disparou. Me escondi, tremendo,
sentindo o pânico escorrer pelo meu corpo como um veneno. Cada
som me fazia saltar. Quando tudo terminou, observei a certa distância
meu irmão. Ele montava seu cavalo, imóvel como uma estátua. A
máscara cobrindo seu rosto o tornava uma figura quase irreal, um
fantasma que prometera me proteger a todo custo.
Mas ele poderia?
———————————————————————————
Naquele instante, ali com Henrique no quarto escuro, na incerteza
do que viria pela frente, eu senti tudo acontecer novamente. As
dores, os cheiros, tudo.
— O cara de máscara era seu irmão. Que loucura — ele riu.
Meus músculos estavam tensos, como se estivessem à beira do
colapso, enquanto eu me encolhia contra a parede, tentando me
esconder do terror que se aproximava. Cada som, cada sombra que se
movia, era uma ameaça em potencial, uma lembrança viva da tortura
que experimentara recentemente. A incerteza do que iria acontecer e
127
só de pensar em passar por tudo aquilo de novo me apavorava. Eu
gritava por dentro, sem fazer nenhum som, ao mesmo tempo que
lutava contra minha própria respiração ofegante.
— Respira fundo cara. Nada disso vai acontecer de novo —
Henrique se aproximou — Conta até dez comigo.
Assim o fiz, até que a imagem dele foi se desfazendo aos poucos,
numa visão turva. Eu não conseguia focar as vistas e então comecei a
enxergar tudo branco. Olhei ao meu redor e tudo que eu ouvia eram
zumbidos finos. Aos poucos, linhas vermelhas semelhantes a artérias
subiam à minha volta, e pulsava à medida que se aproximavam de
mim. Não conseguia me mexer, tentava falar, mas minha voz não
saía. Um homem completamente vestido de preto vinha em minha
direção, e a cada passo dele eu sentia meus órgãos se contorcerem.
Meus dentes se apertavam cada vez mais e o sentimento de morte era
iminente.
O barulho estridente do facão em sua mão me ensurdecia. Minhas
vistas se escureceram e meu globo ocular ardia fervorosamente. Senti
então um forte impacto em meu rosto, que rapidamente me fez
recuperar a vista e os sentidos.
— O que foi isso? — perguntei, assustado.
128
— Desculpa, eu me desesperei e acabei achando que... — Henrique
respondeu.
— Precisava mesmo? Eu vou te devolver esse tapa quando você
menos tiver esperando.
— Funcionou, não é? Me diz, o que aconteceu?
— Então sempre que isso acontecer vamos resolver assim? — sorri
— Não vi nada que fosse real, só ilusão dessa vez.
— Não devia ter feito você relembrar isso, foi mal cara.
Que sensação horrível. Isso não era normal. Uma crise no carro...
ver meu pai e agora isso? Tudo bem que, pelas circunstâncias, o
psicológico falharia. Mas parecia ser algo além disso.
Assim que paramos de conversar, alguém veio ao nosso encontro.
— Prazer, me chamo John. Peço perdão pela recepção... pouco
acolhedora — sua voz era grave e carregada de preocupação. Ele era
uma figura imponente, robusta e tinha um olhar intimidador.
Segurava uma pistola, mas a mantinha apontada para o chão — Não
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costumamos lidar bem com visitantes inesperados. Tivemos
problemas recentemente.
— David — disse, medindo minhas palavras — Estamos só
procurando um lugar para ficar. Nos encontramos em Warren. Eu
conheço Nate, e o Henrique estava com Milla e Martin. Não somos
uma ameaça. Nossa casa foi destruída pela ventania e pelos
pássaros.
John nos observou com atenção, como se tentasse detectar uma
mentira.
— Até agora, não vimos nada que indique que vocês são perigosos.
Pelo contrário, parecem estar com medo — ele admitiu, guardando a
arma no coldre — Vamos devolver suas coisas, e vocês podem tomar
um banho quente antes do jantar. Conversaremos melhor depois.
Henrique se aproximou e abaixou a voz — Por que não disse a ele
sobre a transmissão? Ou sobre Chapultepec?
— Dizer quem somos já foi informação demais — respondi,
mantendo os olhos em John, que já se dirigia à porta.
130
— Você tá certo — Henrique apertou os lábios e assentiu— Vamos
ficar de olhos abertos. Eu vou falar com os outros.
Antes que eu pudesse responder, Milla surgiu, olhando-me com
preocupação.
— Você tá bem? Por que ele foi trancado com você? Ele te disse
alguma coisa?
— Conversamos — respondi — Acho que podemos chamar isso de
uma trégua.
Nate estava mais atrás, observando-me de canto, carregando a
mesma expressão de culpa que eu me recusava a aliviar.
John e mais dois rapazes nos conduziram pelos corredores estreitos
da casa. Era um lugar grande, mas mal iluminado — a maioria dos
cômodos estava mergulhada na penumbra, iluminada apenas por
velas. Mais adiante, uma luz fraca saía de um quarto, onde dezenas
de fotos familiares estavam presas à parede. Quando chegamos à
cozinha, o cheiro de comida quente nos atingiu. Sentamos à mesa, e
John tomou a palavra.
131
— Antes de comer, vamos nos apresentar. Sei que é difícil confiar
nos outros agora, mas essa é a única forma de sobrevivermos.
Um a um, dissemos nossos nomes, sem revelar mais do que o
necessário. John então apontou para os outros membros do grupo.
— Esse é Michael. Veio do Canadá. Nos encontramos pouco depois
do desaparecimento. Simplesmente esbarramos um no outro na rua.
Michael, um rapaz de cabelo crespo e barba curta, apenas assentiu.
— Chris chegou recentemente, pedindo abrigo — continuou John,
indicando um jovem de olhar inquieto. Ele me encarava com
intensidade, como se quisesse me dizer algo, mas não ousava falar.
— E essas são Claire e Olivia.
As duas moças assentiram, mantendo uma postura reservada.
Enquanto John falava, uma coisa martelava em minha mente. Se
não nos consideravam uma ameaça, por que nos prenderam? Por que
nos libertaram tão facilmente? Será que estávamos realmente livres?
Charles havia me dito para não confiar em ninguém. E, olhando para
132
aqueles rostos à minha frente, eu estava mais do que disposto a
seguir esse conselho.
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Capítulo 13 — Devaneios
Após o jantar, fui conduzido a um quarto para descansar, envolto
em um clima sufocante de desconfiança. Cada pessoa ali parecia
vigiar não apenas seus próprios passos, mas também os dos outros.
Sentei-me na cama de casal, sentindo o peso dos grossos cobertores e
o toque macio do travesseiro de penas. A noite lá fora estava gelada,
e o vento cortante assobiava pelas frestas da janela. Enquanto me
trocava para dormir, a porta se abriu sem aviso.
— Licença? Eu tô me arrumando pra dormir — murmurei, erguendo
o olhar sob aquele rosto conhecido que me prendera mais cedo —
Posso ajudar?
— Pete? — Ele lançou um olhar ao redor, como se tentasse ser
discreto, e avançou alguns passos com cautela — Eu sou Chris.
— David. Não me chame de Pete. E eu sei quem você é.
Chris respirou fundo, hesitante — eu conheço seu irmão, Charles.
Estava te procurando.
Um riso seco escapou dos meus lábios.
134
— Pois achou. Agora pode dizer pra ele que, se não quer cuidar do
próprio irmão, também não precisa mandar ninguém fazer isso no
lugar dele. Eu preciso dormir.
Deitei-me e virei de costas, esperando que ele entendesse o recado.
Mas Chris não se deu por vencido. Ele se sentou na beirada da cama.
— Seu irmão falava de você todos os dias. Dizia como queria ter
sido mais presente, como queria ter aproveitado a sua infância. Ele
só quer te proteger, David. Ele sabe o que é melhor pra você. E
também disse que você sempre foi cabeça dura — Havia um sorriso
hesitante em seu rosto, uma tentativa fraca de amenizar a tensão. Mas
eu permaneci em silêncio.
— E quem é você, de onde conhece ele? — Minha voz soou abafada
pelo travesseiro — Se ele quer me proteger, por que não está
comigo?
Chris demorou a responder.
— Minha família escondia seu irmão, a pedido do seu pai. Meu pai
trabalhou com o seu. E o que estamos vivenciando é muito mais
perigoso do que parece. Ele não quer te envolver nisso.
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— Eu já estou envolvido, Chris. Não tem para onde correr. Mas não
quero falar sobre isso agora. Conversamos amanhã. — Minha
cabeça latejava, uma dor que persistia desde o início do dia.
Tentava fugir dos meus pensamentos, me esforçando para pegar no
sono. A última vez que eu dormi bem e descansei, foi na última noite
que estive com meu irmão. A última e rara vez que senti um pingo de
felicidade, em muito tempo.
Era manhã e eu não conseguia pregar o olho. Estava com medo e
preocupado a todo tempo, e não havia me convencido de que aquelas
eram boas pessoas. Minha mente explodia de dor, imaginando mil
coisas que poderiam estar por vir. Por volta de 8 horas, alguém bateu
na porta.
— Tô acordado.
— Acordou cedo, que estranho — Nate entrou e sorriu, e ao não se
deparar com o meu sorriso de volta, murchou — acho que
precisamos conversar.
— É — Assenti, cansado.
— O que tá acontecendo Dave?
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— Seja mais específico, Nate — suspirei. Minha cabeça ainda ardia
insuportavelmente.
— Vamos por partes então — Nate se sentou, unindo as mãos.
Pareciam úmidas — Por que você fugiu? Por que você tá tão
chateado comigo? E por que você voltou tão... diferente? Eu sei que
errei com você, mas você não tem o direito de me excluir da sua vida
como tá fazendo.
— Eu não tô fazendo isso — suspirei.
— Está — com um tom firme, Nate fincou seus olhos em mim, e eu
senti o que ele queria dizer — Você nem olha na minha cara, Dave.
Não me conta nada. Nem parece que tá aqui de verdade.
— Você quer que eu me desculpe? Se for isso, desculpa — relutei.
Nate respirou fundo, esfregou as mãos, balançou a cabeça — Não.
Eu só quero entender. Você é minha única família, sua atitude tá me
matando!
— Você tá certo — segurei as lágrimas — talvez eu esteja
exagerando.
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— Desembucha.
— Eu fui embora porque me senti deslocado, como se fosse um peso
pra vocês. Minha cabeça não tá funcionando direito. Fiz merda,
achei que podia colocar a vida de vocês em risco. Nate... eu tô
confuso desde o começo. Pode parecer besteira, mas eu tô em crise
desde o primeiro dia.
— Por que você não falou comigo? Se você quiser, vamos embora
nós dois juntos e pronto! — Nate franziu as sobrancelhas, tentando
decifrar meu silêncio.
— Você estava "bem" com nossos novos amigos.
— Não, David, talvez eu tenha me empolgado, mas meu amigo é
você. Eles são desconhecidos — interrompeu-me.
— Tá... e... eu fiquei chateado porque você agiu e age como se eu
fosse uma criança. Como se eu fosse incapaz de me defender e
precisasse ser corrigido a todo momento.
— Eu só quero te proteger.
138
— De quê? Eu sinto muito, Nate, mas você não tem esse poder. Eu
espero de você amizade, companhia e compreensão, e não que você
aponte os meus erros, ou tente ficar me impedindo de fazer alguma
coisa — ele engoliu seco, incapaz de formular uma resposta — E não
aconteceu nada demais enquanto eu estive fora, só pensei bastante
e...
-E?
— Nada — por um momento, pensei em contar a ele tudo que
aconteceu, mas desisti — Foi mal.
Aquela conversa trouxe certo alívio. Nate sempre foi meu melhor
amigo, e eu odiava a tensão entre nós. Após o desabafo, fomos tomar
café. Um banquete nos esperava, e era evidente que aquelas pessoas
sabiam se virar bem, mesmo em meio ao caos. Comi rapidamente e
voltei para a cama, tonto de cansaço.
Já era noite e eu ainda estava deitado, não conseguia abrir o olho de
tanta dor. Tinha algo de errado com a minha cabeça e remédio
nenhum resolvia. Comecei a suar frio, tremer, e a falta de ar me
apavorou. Chris pediu para ficar sozinho comigo, e os outros
concordaram.
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— Você claramente precisa descansar David. O que eu vou fazer é
um pouco invasivo, mas pode te ajudar a adormecer por um tempo
até seu corpo se recuperar. Mas eu preciso que você permita —
Assenti com a cabeça, incapaz de falar — Tudo bem. Pode doer um
pouco.
Chris colocou então tampões no ouvido e retirou de seu bolso algo
parecido com um telefone, com uma antena e um pequeno botão ao
centro. Ele apertou e imediatamente o aparelho começou a disparar
sons insuportáveis. Aqueles sons pareciam entrar diretamente nos
meus tímpanos e furar meu cérebro. Eu apertava as têmporas
enquanto sentia meu corpo desfalecer. O rapaz me segurou e me
deitou delicadamente. Tonteei, e em um segundo tudo desapareceu.
Eu estava dormindo? Desmaiado? Eu estava num sonho? Não sabia.
Mas a dor havia sumido, e eu me encontrava paralisado no meio de
uma vasta escuridão. Percebi lentamente um sonho se formando à
minha volta, ao mesmo tempo que algo parecia tentar desfazê-lo.
Mexi-me e percebi que se tratava da minha escola. Todos os alunos,
com seus rostos estranhamente desfigurados, mas ainda
reconhecíveis. Andei pelos corredores procurando algo que eu não
fazia ideia do quê, ao passo que tudo que saía da minha vista se
desfazia. Sentia leves pontadas na cabeça e uma tensão, como se algo
tentasse puxar meu corpo para baixo.
140
Depois de um tempo vagando pelo caos da minha própria mente,
finalmente o sonho se estabilizou. Havia uma casa diante de mim, e
uma voz desesperada me chamava. "Abra a porta, David, rápido.
Você precisa abrir." Era tudo coisa da minha cabeça, o que podia dar
errado? Segui em frente. Aquela casa minúscula, de parede
amarelada com tinta descascada, parecia ter um único cômodo, sem
nenhuma janela. Uma casa velha no meio do nada. Senti o gelado do
metal ao tocar a ponta dos dedos na maçaneta arredondada. O cheiro
de madeira molhada, misturado ao vento úmido, fazia parecer aquilo
tudo tão real, a ponto de doer o pulmão. Respirei fundo e abri a porta.
E então, uma risada ecoou no vazio.
Uma risada ecoou no vazio. Um arrepio subiu pela minha espinha.
— Você acha que está sonhando, David? — A voz era familiar, mas
distorcida, quase debochada. — Me diz... você realmente achou que
ia se livrar de mim?
141
Capítulo 14 — Cobaia
O sol da manhã penetrava pelas frestas da janela, banhando a sala
de estar com uma luz suave. O cheiro familiar de café fresco
misturado ao aroma de pão recém-assado preenchia o ar, trazendo
uma sensação de conforto que parecia contradizer a tensão invisível
no ambiente. Minha mãe, sempre tão perceptiva, me observava com
um sorriso orgulhoso enquanto eu resolvia os problemas de
matemática que ela havia me ensinado na noite anterior.
— Eu fico impressionada com a facilidade com que você aprende
matemática, filho. Te expliquei uma vez e você já está me ensinando
— minha mãe sorriu, orgulhosa.
— Pena que eu só aprendo matemática e mais nada — suspirei. Mal
sabia que, dali, minhas notas piorariam cada vez mais.
— Você consegue tudo, Dave, mas te falta força de vontade. Você é
inteligente! Só precisa "dar partida" nesse seu cérebro teimoso — ela
franziu o cenho, com tom encorajador.
Antes que pudesse responder, meu pai entrou na sala com aquele
sorriso tranquilo, e disse:
— Filho, hoje é dia de vacina. E lembra o que você ganha sempre
depois? — Ele me pegou pelos braços e me levantou. Pelo meu
tamanho, a sensação era de que eu estava a metros do chão, mas era
só eu que era pequeno mesmo.
142
— Sorvete!!! — gritei, animado, enquanto ele me descia rapidamente
até o nível do peito, envolvendo-me num abraço forte e protetor.
— Isso mesmo! De flocos com calda de chocolate, que você ama! —
Então ele me desceu e me entregou uma cápsula — Como você tem
medo de agulhas, você toma essa cápsula pra você não sentir nada.
Assim que eu ingeria, só acordava já no carro, indo à sorveteria. Por
algum motivo, as vacinas eram frequentes dos meus 8 aos 14 anos,
mas nem sempre eu tomava aquelas cápsulas. Aos poucos, aquela
memória se desfazia e, paralisado, eu voltava a atenção àquela
pequena e fria casa. No chão, misteriosamente eu via algumas dessas
cápsulas à medida que a claridade entrava vagarosamente pela casa.
— Surpresa! — O sujeito desprezível disparou, com um tom
malicioso — Não achou que ia se livrar tão fácil assim de mim.
Meu corpo congelou. O ar ficou pesado, difícil de respirar —
Richard? Como? Onde eu tô? — Tentava andar para trás sem
sucesso.
— Olha, eu preciso admitir. Pensei que você fosse fraco, mas seu pai
fez de você uma máquina! Eu tive trabalho para entrar na sua
cabeça, Dave... — Sua risada reverberava pelo ambiente.
— O que? Como assim? Do que você tá falando? — Minha mente
girou tentando entender o que estava acontecendo.
— Eu entrei na sua cabeça, David. Você está numa área do seu
cérebro pra qual eu te puxei. Seu pai mudou muita coisa por aqui,
143
mas ele não tem 1% da minha inteligência. Olha ao seu redor, tudo
que acontece aqui é você quem projeta, menos eu. Você escolhe o
que vê, exceto o seu grande amigo aqui. Não é sonho, eu sou real e
tenho uma mensagem para você.
— Diz — consegui balbuciar, sentindo o suor escorrer pelas minhas
mãos, enquanto olhava ao redor, tentando desesperadamente
encontrar alguma forma de acordar.
Richard se aproximou e, com os olhos fincados nos meus, disse —
Você escapou de mim uma vez, com a ajuda do seu irmão. E você
sabe que eu procuro por ele. Mas sabe o que eu mais odeio, David?
— Ele se inclinou para perto, e sua voz se tornou um sussurro
cortante. — Quando alguém me subestima.
Meu sangue gelou.
— Você não faz ideia do que eu sei sobre você. Seus medos. Suas
fraquezas. Lembra quando você se escondeu no porão, com seis
anos, porque achou que tinham invadido a casa? Sua mãe levou
horas pra te encontrar. Você tremia tanto que nem conseguia falar —
Ele riu baixinho — Mas não era um invasor, era só o vento batendo
à porta, não era?
Meu estômago revirou. Como ele sabia disso?!
— Infelizmente, não consigo te rastrear, mas eu vou te achar, e por
consequência vou achar seu irmão. E eu vou matar cada um dos seus
amigos um a um na sua frente, e te deixar com a cena na sua
144
memória para você reviver todos os dias. Você vai achar que o que
fiz com você foi pouco!
Um estrondo ecoou na minha mente, como se algo tivesse quebrado
dentro de mim. O chão sob meus pés sumiu, e senti como se
estivesse sendo puxado para trás, caindo em um vazio infinito. Então,
a luz, ofuscante, se acendeu. Quando abri os olhos, estava cercado
pelos rostos preocupados dos meus amigos. Seus olhos arregalados
me encaravam com uma mistura de alívio e medo. Eu não falava, era
como se minha língua tivesse sido arrancada. Meu corpo ainda
tremia, como se a sombra de Richard estivesse me segurando ali. Eu
estava com medo, se não fosse só um sonho? Estaria eu realmente
colocando a vida de cada um ali em perigo? Um mero rapaz franzino
não teria chance nenhuma contra um psicopata. Precisava contar
aquilo para alguém, mas quem?
— Tá tudo bem, foi só um pesadelo — tranquilizei todos — Chris,
posso falar com você um instante?
— Claro — ele se aproximou.
— Eu preciso falar com o meu irmão — cochichei. — É urgente.
— Tudo bem, eu vou ver se consigo encontrá-lo. O que aconteceu?
— O rapaz franziu a testa.
— Não importa — respondi rispidamente, com um medo cada vez
mais crescente em mim.
145
— Tudo bem, vou tentar achar ele — Botou os braços sob meu
ombro numa falha tentativa de me acalmar.
— Seja rápido, por favor — meus olhos se enchiam de lágrimas.
Pouco depois, Chris avisou que iríamos de carro até ele. Avisei
então a todos que estava saindo, até que Milla segurou meu braço e,
doce como sempre, disse:
— Cuidado com esse garoto. Quando você voltar, precisamos
colocar o papo em dia. Que tal se a gente sair por aí e procurar
algumas coisas para a nossa mochila? — Ela sorriu.
— Combinado — Embora relutante, não consegui dizer não. Ela
então me abraçou e meu coração disparou, meu medo de perder meus
amigos tomava cada vez mais conta de mim.
Meu grupo não entendia por que eu estava saindo com um
desconhecido, mas apenas disse que precisava fazer algo e ele era o
único que podia ajudar. Contei com a confiança de Henrique e com a
compreensão de Nate, que não se opuseram. Entramos num carro
qualquer roubado por Chris.
— Quer pilotar? — me olhou com um leve sorriso, tentando
descontrair.
— Eu não sei dirigir — respondi, surpreso com o convite.
— Sério? É fácil, senta aqui, eu te ensino — disse ele, trocando de
lugar comigo. Ele começou a me ensinar os controles básicos do
146
carro automático. Acelerar e frear, controlar o volante, freio de mão...
Era muito mais fácil do que eu imaginava, muito mais fácil do que
aquele carro manual que eu havia batido tempos atrás. Apesar de
atropelar algumas lixeiras, logo peguei o jeito e senti uma pequena
alegria por ter conquistado algo novo — Você tá indo bem.
Aos poucos, me senti um pouco mais à vontade com a presença do
rapaz. Ele não tinha culpa das decisões do meu irmão, não era justo
tratá-lo daquela forma.
Rapidamente chegamos até um túnel escuro, com uma porta de
pedra que era quase imperceptível. Entramos e descemos algumas
escadas, na completa escuridão. Quando chegamos ao piso, lá estava
ele, sob baixas luzes. Corri e o abracei, e logo comecei a chorar.
— O que tá acontecendo? — Charles perguntou, preocupado.
— É o Richard — esfreguei os olhos e puxei o ar — ele entrou na
minha cabeça de alguma forma. Ele disse umas baboseiras, que meu
pai fez de mim uma máquina, que ele mexeu bastante na minha
cabeça, isso é loucura, não é?
Ele permaneceu em absoluto silêncio, e sua expressão se tornou
cada vez mais séria.
— Ele jurou que vai me achar e matar meus amigos na minha frente.
Como ele chegou até mim desse jeito?
— Uma hora ele vai precisar saber a verdade. Não é justo esconder
isso dele — Chris trocou um olhar com Charles, e então Charles
147
suspirou profundamente, me olhando nos olhos com um peso que eu
nunca tinha visto antes.
— Conta. Eu preciso saber — implorei. Charles me indicou para
sentar em uma das cadeiras de metal espalhadas pelo lugar, e eu
obedeci, sentindo um frio na barriga que não tinha nada a ver com a
temperatura do ambiente.
— Olha, Dave, é complicado te dizer isso. Só não quero que você
pense mal do papai, ele fez tudo pelo seu bem — meu irmão hesitou.
— Fala logo! — insisti, com o medo e a impaciência misturando-se
em minha voz.
— David, todos nós temos um chip implantado no cérebro. Em nós
foi implantado assim que nascemos, obrigatoriamente. Pessoas mais
velhas que nós fizeram o implante depois, mas foi algo imposto. E,
para a maioria, é um segredo. Quase ninguém sabe que tem isso na
cabeça. Nós que não desaparecemos, é porque temos um "defeito"
nesse chip. Não você, você é diferente. O papai trabalhava com isso
e acabou modificando e fazendo atualizações no seu.
— O que? — Meu peito apertou, e um frio intenso percorreu minha
espinha. A sala ao meu redor pareceu se fechar. Meu coração
martelava tão forte que eu sentia como se estivesse na garganta.
Tentei engolir seco, mas minha garganta parecia feita de areia.
Meus olhos se fixaram em Charles, esperando que ele desmentisse
aquilo, que dissesse que era só uma piada de mau gosto. Mas ele
148
permaneceu sério. O silêncio dele doía mais do que qualquer
resposta.
— Isso... isso não faz sentido — minha voz saiu fraca, quase um
sussurro.
— Esse chip foi desenvolvido para monitorar e controlar as pessoas.
Ele pode verificar tudo relacionado ao seu corpo: pressão arterial,
batimentos cardíacos e até mesmo suas emoções. Eles não veem o
que você vê, nem o que você pensa, mas conseguem saber o que você
está sentindo. É uma forma de controle, Dave. Mas o papai, ele... ele
mexeu no seu.
— Como assim mexeu? — Minha voz saiu trêmula.
Charles respirou fundo, parecendo escolher bem as palavras. Ele
desviou o olhar por um instante, mas então voltou a me encarar.
— Sabe as "vacinas" que você tomava? — perguntou, com um peso
na voz que me fez querer responder que não, que eu não queria saber.
Mas assenti — Ele usava esses momentos para... "atualizar" o seu
chip.
Meus pulmões pareciam não conseguir puxar ar — Atualizar? Como
assim? O que ele fez comigo?! — A última palavra escapou num tom
de desespero que eu não conseguia mais conter. Eu estava me
sentindo uma máquina de laboratório — E como Richard entrou na
minha cabeça então?
149
— Deve haver alguma falha no seu chip, ou talvez algo que Richard
descobriu. Os lapsos de memória que você tem, onde vê o papai...
podem ser um efeito colateral quando o chip sobrecarrega e não
consegue processar todas as informações e sentimentos. É um defeito
que está presente em todos.
Chris, que até então havia ficado em silêncio, finalmente falou: — É
incrível o que esse chip poderia fazer se pudéssemos controlá-lo. Ele
consegue manipular suas memórias, influenciar seus sonhos... Mas o
verdadeiro poder dele é na capacidade de monitorar e controlar a
mente humana.
— E por que fizeram isso? — perguntei, ainda tentando absorver
tudo.
— Quem implantou isso queria poder absoluto. Os chips sem defeito
podem ser rastreados e, em alguns casos, podem até desligar ou
controlar os movimentos das pessoas. Talvez seja assim que todos
desapareceram, Dave. Mas você... você é diferente. O papai fez o
suficiente para te proteger. Mas o Richard... ele é perigoso, e está
tentando usar essa falha no chip para te alcançar. Eu não sei muito
mais do que isso Dave, nem sei se está 100% correto. Meu
conhecimento sobre isso é mínimo, só sei o que o papai me ensinou.
— Charles colocou a mão no meu ombro, com os olhos cheios de
determinação. — Eu vou fazer o que for preciso para te proteger,
Dave. Mas você precisa aprender a controlar seus sentimentos.
Quando o chip falha, ele abre uma brecha para Richard te alcançar.
Ele não vai te encontrar se você mantiver o controle.
150
Olhei para Charles, ainda em choque, mas também sentindo uma
centelha de esperança. — E você, o que vai fazer?
— Tenho algumas coisas a resolver, mas não posso te envolver nisso.
Confie no Chris, ele pode te ajudar. E não fale sobre isso com
ninguém. Eu te amo, irmãozinho. Não se preocupe com o Richard.
Vamos dar um jeito nisso, juntos.
Eu assenti, sentindo o peso das palavras de Charles. Sabia que nada
seria como antes, mas também sabia que não estava sozinho. Antes
de ir, fiz uma última pergunta a Charles. Aquela transmissão não me
havia convencido totalmente.
— Charles, sobre o abrigo de Chapultepec, você acha que pode ser
uma armadilha?
— Não consigo te dizer com certeza. Acho que sair do país seria
uma boa ideia e mais seguro pra vocês, mas o que vão encontrar lá,
eu não faço ideia.
Ainda desconfiado, afirmei a mim mesmo que viajar para lá era a
melhor opção. Saímos dali, e enquanto caminhávamos de volta para
o carro, Chris me parou e disse:
— Você percebe que é agora que você vira a chave da sua vida? —
Ele sorriu como de costume.
— Como assim? — Ainda não entendia o que ele queria dizer.
151
— Agora é a hora em que você deixa de ser um adolescente e se
torna um adulto, David! Transforma seu medo em motivação.
Coloque na sua cabeça que você é forte o suficiente e que não vai
deixar aquele maluco fazer nada com quem você ama. Blinda seu
coração, vai te deixar menos frágil.
Aquelas palavras, aquelas informações todas... eu mal conseguia
raciocinar direito. Mas, decidi seguir o conselho de Chris e tentar
transformar meu medo em motivação.
152
Capítulo 15 — Caderninho de Notas
— Então você está dizendo que eu tenho um chip no meu cérebro? —
Henrique questionou, cético.
— Eu não sei explicar direito, eu mesmo não entendi 100% — me
sentei, desanimado — Não sei nem se deveria estar falando sobre
isso com vocês, mas eu precisava desabafar.
Milla parou de andar e olhou para mim. O galpão abandonado em
que estávamos parecia ainda mais frio diante daquilo que eu havia
acabado de compartilhar. O vento assobiava pelas frestas das janelas
e as placas de madeira pareciam ranger cada vez mais — Tudo bem,
Dave, mas é muito difícil de entender como isso funciona e
funcionou até agora. Quem faria algo assim? E como? Parece
impossível.
Era manhã, e eu tinha pedido que os dois me acompanhassem até
um local qualquer, isolado dos outros do grupo, com o objetivo de
conversar. Eu não queria e sentia que não podia falar desse assunto,
mas me vi em desespero sem saber o que fazer.
— Precisamos organizar as ideias e as informações. Talvez até
buscar por respostas mais concretas — ela completou, franzindo a
testa.
153
Henrique riu baixinho — Claro. Ei, David, pega um bloquinho de
notas e começa a escrever nossa lista de 'mistérios'. Vai ser útil.
— Não sei. Acho perigoso mexer com essa história. Mas eu quero
saber o que aconteceu, onde estão meus pais — suspirei, sentando
em uma caixa enferrujada próxima — A única coisa que me
preocupa de verdade agora são eles.
— Ok. Que loucura... Acho que realmente precisamos anotar. Vamos
por partes, pelo que já sabemos, e pelas perguntas que surgem.
Dave, você é o dono das informações — Ele aplaudiu e sorriu,
ficando sério repentinamente em seguida — Comece.
— Bom, sabemos que as pessoas desapareceram...
— Grande observação, Sherlock — Henrique interrompeu com um
meio sorriso — E o que mais?
Eu o fitei com um olhar de advertência — Eu te desafio a ficar
calado por 10 minutos, Henrique. Prosseguindo, quando fui à
Central de Monitoramento, em Detroit, vi que a filmagem da
madrugada tinha um corte de várias horas. Como se alguém
tivesse... editado pra esconder o que realmente aconteceu durante
esse tempo.
— Lembro de você comentar. Isso significa que não só as pessoas
sumiram, como há um esforço ativo para esconder o como e o
porquê. Outro sinal é que os sistemas continuam funcionando
perfeitamente. Lembra que falamos que, sem pessoas, uma usina
154
nuclear, por exemplo, entraria em colapso, junto com o sistema
hidráulico, entre outros? — Milla observou.
— Ou seja, alguém claramente tá mantendo o equilíbrio em meio a
esse caos. E esse alguém tem recursos e controle suficientes para
garantir que tudo continue rodando. Mas por quê? E pra quê? —
Henrique pontuou.
Milla finalmente se sentou e, então, disse — É. Mas muitas coisas
não fazem sentido. Aquela bagunça com os animais surtando, o
porquê de nós não termos desaparecido também.
— O chip teoricamente "controla" partes do nosso cérebro. Essas
"visões" que nós tivemos, Henrique, são falhas onde o chip
sobrecarrega e acaba nos lançando nesse estado. Talvez isso libere
alguma substância que deixe os olhos azuis. E, sobre não termos
desaparecido, é justamente por ele ser defeituoso. É tudo que sei.
— Isso é... assustador — disse Milla, a voz baixa — Se esse chip
está no controle, quem garante que não pode simplesmente... nos
desligar? Que não podem nos encontrar a qualquer momento?
— Não — Interrompi, assustando-a — Tem um cara atrás de mim,
acredito que, se pudessem nos ver ou ouvir assim, ele já teria me
encontrado. Isso me faz pensar que talvez haja limites no que eles
podem fazer com o chip. Mas isso não é algo para nos preocuparmos
agora.
155
— Como não, David? Olha... — Henrique tentou dizer, mas o
interrompi.
— Eu não quero falar disso, ele não vai me achar, e se achar, eu
tenho minhas cartas na manga. Vamos esquecer isso por enquanto.
Eu tenho um nome: "Ben-corp". Acho que precisamos começar a
investigar por aí, poderemos ter alguma resposta.
Henrique se animou — Ben-corp... espera. Eu conheço esse nome.
Lembro de uma excursão da escola pra uma empresa de tecnologia.
Eles forneciam os computadores das escolas... acho que era a
B-Tech.
— Henrique, você consegue se lembrar pra onde era essa excursão?
— Meus olhos se estreitaram.
— Seattle — respondeu ele, sem pestanejar.
— Fala sério? É literalmente do outro lado do país! — Minha boca
se abriu em descrença.
— Estou zoando. Fica em Washington — Henrique sorriu de forma
travessa — Estamos perto, podemos procurar.
Milla concordou — Precisamos ir até lá o mais rápido possível.
Talvez encontremos respostas... ou pelo menos, mais pistas.
Pedi então que não contassem nada a Nate, para não preocupá-lo e
porque eu sabia que ele nunca concordaria com isso. Voltamos e
ajeitamos nossas coisas. John e seu grupo não se opuseram à nossa
156
partida, tampouco tentaram nos impedir. Agradecemos pela
hospitalidade e seguimos rumo a Chapultepec. Consequentemente,
passaríamos em Washington.
Com tudo pronto, comida estocada, gasolina e água, partimos. Chris
veio conosco, claro, a pedido de Charles. Muitos não entenderam, e
ele sequer se preocupou em dar satisfação. Só disse que queria nos
acompanhar e eu pedi que todos concordassem.
Depois disso tudo, havia pensado em dar uma volta e aproveitar um
pouco mais a companhia de Nate, afinal, havíamos nos afastado
bastante desde o começo daquilo tudo. Combinamos de dar uma
volta quando parássemos e procurar por coisas interessantes.
Lembrei que tinha combinado o mesmo com Milla. Agora era hora
de organizar as ações e estreitar confianças. Eu estava mais aflito do
que nunca.
Eu não havia contado sobre as ameaças recentes de Richard, mas
aquilo me amedrontava. Ele ainda estava lá fora. Me observando?
Me caçando? Eu não sabia, mas a incerteza me corroía. O que me
impedia de acordar um dia e vê-lo à minha frente, sorrindo daquele
jeito perturbador? O que aconteceria quando ele decidisse que eu já
estava pronto para... seja lá o que ele planejava?
A única coisa que me mantinha de pé era a promessa de Charles.
Mas uma promessa poderia segurar um monstro?
157
Após algumas horas de viagem, chegamos a Washington, e então,
Henrique se pronunciou — Estou cansado. Vamos parar aqui um
pouco e depois seguimos.
— O que? Tá louco? Andamos o que, 3 horas? Nosso caminho é
longo, não podemos perder tempo nem ficar dando sopa numa
cidade como essa! — Martin proferiu, mostrando sua indignação.
— Não é negociável. Estamos na capital, pode ter muita coisa útil
aqui e eu quero pegar tudo que for possível. Se quiser, pode
continuar sozinho — Henrique respondeu, deixando Martin em
silêncio. — Dave, preciso da sua ajuda com umas coisas, vem
comigo?
— Claro — Eu já sabia o que ele precisava. Milla ficou com eles,
para chamar menos atenção ou disfarçar que estávamos aprontando
algo.
— Ei — Nate me segurou pelo braço e apertou os lábios, em sinal de
preocupação — Fico feliz que você se acertou com ele, mas toma
cuidado.
Assenti com a cabeça e segui o caminho. Eles também foram
procurar coisas úteis para usarmos e comida.
— Beleza, esperto, vamos procurar essa joça — Henrique me deu
um leve empurrão, sorrindo — vamos procurar algum mapa da
cidade, sei lá. Algo que possa nos informar.
158
Vasculhamos as ruas desertas de Washington, atentos a qualquer
sinal que pudesse nos guiar até a filial da Ben-corp, ou B-tech. A
cidade era mais um fantasma do que havia sido: carros abandonados,
lojas saqueadas e janelas quebradas nos prédios altos. A sensação de
vazio era sufocante como sempre, e o silêncio era cortado apenas
pelos nossos passos e o ocasional farfalhar de papéis levados pelo
vento.
Henrique apontou então para uma banca de jornal velha, com vários
panfletos amassados ainda presos por ganchos de metal enferrujados.
Nos aproximamos e, em meio a revistas rasgadas e jornais
desbotados, encontramos um guia turístico da cidade, um daqueles
folhetos de bolso que mostravam os principais pontos de
Washington. Abri rapidamente, folheando até a seção de tecnologia,
onde uma página destacava as principais empresas de TI.
— Aqui, B-tech — apontei, mostrando a Henrique.
— E aqui está o endereço — ele sorriu, satisfeito — Não estamos
longe.
— Não sei se estou aliviado ou mais aflito.
— É, pode ter qualquer coisa lá. Desde nada, até respostas às
nossas perguntas. Mas relaxa, vai dar tudo certo — tentou me
tranquilizar.
Guiados pelo mapa, seguimos em direção ao prédio da B-tech. O
caminho era estranho, passando pelas ruas vazias e abandonadas.
159
Claro, não era novidade, mas aquela cidade parecia ter um tom bem
mais sombrio que as outras. Eventualmente, nos encontramos diante
do edifício.
O prédio era bem conservado, em contraste com o resto da cidade.
A fachada de vidro refletia o sol, com uma estrutura moderna e
imponente que parecia intocada pelo caos ao redor. Linhas limpas,
painéis metálicos, e uma leve luz azul pulsava ao redor das portas de
entrada, que permaneciam fechadas, como se guardassem algo
precioso. O contraste entre o cenário abandonado da cidade e o
brilho tecnológico do prédio era quase surreal.
Henrique olhou para a torre de vidro que se erguia diante de nós —
Como vamos entrar?
Nos aproximamos das portas automáticas, mas elas não se
moveram. O prédio parecia completamente fechado, embora ainda
estivesse operacional de alguma forma. Tentamos forçar a entrada,
mas o sistema de segurança não permitia. Henrique tocou no vidro e
franziu a testa. Algo estava errado. Se não havia mais ninguém por
ali, por que manter as portas fechadas e os sistemas ligados?
Antes que eu pudesse falar, um ruído mecânico ecoou pelo corredor
lateral. Um painel piscou por um segundo e depois se apagou.
Trocamos um olhar rápido. Estávamos sozinhos aqui... certo?
— Parece que eles não querem visitas — comentei, frustrado —
Óbvio que não ia ser tão fácil...
160
Henrique se abaixou, mexendo nos fios expostos de um painel ao
lado da porta.
— Os sistemas daqui são avançados demais... Tem algo estranho
aqui — ele disse, desistindo após alguns minutos — Não é um
simples bloqueio. Tem proteção digital pesada. Vai ser impossível
entrar pela porta principal.
Olhei em volta, tentando pensar em algo. Então, ao lado da entrada,
vi uma pequena placa com uma seta discreta apontando para uma
porta lateral.
— Talvez haja uma entrada alternativa por ali — sugeri.
Caminhamos até a lateral do prédio e encontramos uma porta de
serviço discreta, como se estivesse ali para passar despercebida. O
estranho era que, ao contrário da entrada principal, essa não parecia
tão protegida. Henrique tentou girar a maçaneta e franziu a testa.
— Trancada. Mas... olha isso.
Ele apontou para um painel de acesso ao lado da porta. Pequenos
fios estavam expostos, como se alguém já tivesse tentado
manipulá-los.
— Você acha que... alguém entrou aqui antes? — Meu estômago
revirou.
— Ou querem que a gente entre — ele respondeu, antes de chutar a
porta com força — Bingo.
161
Entramos em um corredor estreito, iluminado por luzes
fluorescentes fracas. O silêncio dentro do prédio era ainda mais
opressivo do que lá fora. Henrique e eu trocamos um olhar antes de
seguir em frente. O que quer que estivéssemos prestes a descobrir ali
dentro, certamente não seria algo simples.
O ar era tenso, e andávamos a passos lentos e silenciosos. Não
parecia ter alguém ali, apesar das luzes fracas que iluminavam
vagamente o local. Meu coração pulsava e eu tentava me acalmar e
respirar fundo. "Não, dessa vez não", eu pensava, tentando não entrar
em crise novamente. Não sabíamos exatamente o que estávamos
procurando, muito menos onde procurar. Mas não sairíamos dali sem
respostas.
162
Capítulo 16 — CXZ
O silêncio dentro do prédio da Ben-corp era quase palpável.
Henrique e eu avançávamos com cautela pelos corredores pouco
iluminados. Cada sala que abríamos estava vazia, com equipamentos
desconectados e computadores desligados. Ao mesmo tempo que o
prédio parecia estar abandonado, ele parecia estar sendo utilizado por
alguém.
Em uma sala de controle, encontramos uma fileira de
computadores. Quase todos estavam desconectados, mas um deles
estava ligado, a tela exibindo uma caixa de login pedindo um usuário
e senha.
— Isso vai ser praticamente impossível — Henrique murmurou,
frustrado — Se tiver alguma senha, provavelmente é bem complexa.
Precisamos achar alguma pasta de documentos, algo assim.
Olhei ao redor, tentando encontrar alguma pista. Então, notei uma
pequena luz piscando em um dos computadores do canto. O
equipamento estava ligado e também pedia usuário e senha. Porém,
um papel com uma escrita a caneta estava solto perto do teclado.
"Gavin
170398"
163
Testei e, bingo! A tela inicial foi aberta. Henrique se aproximou e
deu uma olhada. Vasculhamos pasta por pasta buscando algo sobre o
chip, até encontrar uma com o nome de "Projeto CXZ". Ao abrir a
pasta, uma longa lista de documentos criptografados, com senha para
abrir. Dentro daquela pasta, havia outra, chamada de "Diário".
Henrique clicou duas vezes e uma série de vídeos apareceu. Com um
gesto rápido, Henrique clicou no ícone e o primeiro vídeo começou a
rodar. A imagem tremulou antes de estabilizar, a qualidade era
razoável, e a figura de um homem bem vestido e sorridente apareceu
na tela.
"Olá e bem-vindo ao Projeto Córtex Z," o homem começou, com
um tom amigável e claro. "Eu me chamo Gavin, e estou aqui para
apresentar um dos projetos mais importantes que a humanidade já
viu. O Projeto Córtex Z, ou CXZ, foi desenvolvido para melhorar a
qualidade de vida através da tecnologia de chips avançados. O chip
CXZ é um dispositivo inovador que visa controlar e monitorar os
sinais vitais dos indivíduos. Com ele, é possível identificar doenças
antes mesmo que os sintomas apareçam, permitindo tratamentos
mais rápidos e eficazes. A implantação do chip é minimamente
invasiva. É inserido sob a pele, conectando-se ao sistema nervoso
central e à rede de dados do corpo. Ele se aloja no cérebro e logo se
ativa."
Um vídeo mostrava uma animação detalhada de como o chip seria
implantado.
"Nosso objetivo é garantir que todos vivam uma vida longa e
saudável" concluiu, com um sorriso. "O Projeto CXZ não é apenas
164
uma inovação tecnológica; é uma revolução na forma como
entendemos a saúde e o bem-estar."
Quando o vídeo terminou, Henrique e eu permanecemos em
silêncio, absorvendo a informação. As palavras do homem pareciam
prometer um futuro melhor, mas também levantavam muitas
questões. Se o chip era realmente tão benéfico, por que havia um
esforço para esconder a verdade sobre ele? E o que aconteceu com os
outros? Esse vídeo foi divulgado? Se não, por quê?
— Então... — Henrique começou, com sua voz carregada de dúvida.
— Parece que o chip é algo mais complexo do que pensávamos. E
parece ser algo positivo. Não faz sentido.
Abri então o próximo vídeo.
"Olá, eu sou Gavin e agora vou explicar um pouco mais sobre o
funcionamento do CXZ.
Por estar diretamente conectado ao córtex cerebral, o chip tem a
capacidade de monitorar atividades cerebrais, além dos sinais vitais.
Isso pode ser um avanço revolucionário para o tratamento de
doenças neurológicas, como Alzheimer, epilepsia ou transtornos
mentais, já que podem ser detectadas anormalidades antes que os
sintomas se manifestem. O chip pode interferir nas áreas do cérebro
responsáveis pela memória e aprendizado. Ele tem a capacidade de
ajudar a melhorar o desempenho cognitivo, aumentando a retenção
de informações ou até mesmo permitindo o armazenamento de dados
externos, como uma espécie de "backup" de memórias.
165
Claro, nós, criadores, certamente não temos acesso a essas
informações, pois a privacidade também é importante para nós!
Cada chip consta com uma criptografia que não permite que nada
além de sinais vitais e atividades cerebrais sejam detectadas, o que
significa que não podemos ver seus pensamentos, sonhos,
localização, entre outras coisas."
— Hum, claro. Privacidade — Henrique riu, sem humor.
"O processo de implantação é extremamente seguro e pouco
invasivo. Planejamos que todas as pessoas do mundo possam ter
acesso a esse avanço tecnológico incrível!"
— Certo, tudo muito lindo até aqui, vamos ver se conseguimos mais
alguma informação. Restam três vídeos — Henrique pontuou.
"Olá mais uma vez! Eu sou Gavin", ele iniciava, dessa vez com um
semblante mais baixo. Sua roupa já era mais casual. "O projeto foi
aprovado por todos os governos ao redor do mundo e já tem plano
de implantação. Por hora, decidiram não divulgar e, por algum
motivo, implantar nas pessoas sem aviso. Acho que pode haver uma
alta rejeição, visto que não é possível retirá-lo e isso pode prejudicar
o projeto."
— Fizeram isso sem ninguém saber. Rejeição, aham — Henrique se
mostrou indignado.
"Oi, eu sou Gavin. A implantação foi concluída com sucesso.
Agora, todos que nascerem terão o chip inserido nos primeiros
166
meses de vida. Até agora, funcionando como esperado. Logo
algumas atualizações."
E, por fim:
"Meu nome é Gavin e esse é o resumo geral do Projeto CXZ. O
projeto contou com atualizações significativas, agora pode-se
conectar com a mente dos usuários de uma forma mais... ampla.
Como se pudéssemos ligar para alguém enquanto ela sonha. Alguns
chips apresentaram falhas durante essas atualizações e não
conseguiram concluir a otimização. Uma nova tentativa não será
feita. Curioso que um dos chips apresentou não uma falha, mas sim
uma espécie de Firewall, que permitiu a atualização, ao mesmo
tempo que restringiu grande parte das informações que são
transmitidas a nós. É como se alguém tivesse o modificado de
alguma forma, o que é incrível e preocupante." O homem, sentado,
respirou fundo enquanto olhava vagamente. "Eu não sei qual o futuro
disso, mas me preocupo com o que pode acontecer. Estão tentando
inserir um sistema de segurança, como um interruptor que pode
'desligar' os usuários. Pode ser muito perigoso. Não sei o que essa
última atualização vai ocasionar, mas tenho medo."
— É muita coisa, mas não é o suficiente. Henrique, essas pessoas
podem ter controle total das pessoas, fizeram isso sem elas saberem.
Sem nós sabermos — suspirei.
— Acho que essa falha nos salvou — ele refletiu.
167
— Falha... relatório de falhas! — Voltei minha atenção ao
computador — Aqui está, um arquivo com um relatório pequeno de
falhas operacionais. Algumas anotações... vamos ver.
"A finalidade do projeto foi concluída. Algumas falhas em
determinados chips não permitiram que o processo fosse 100% um
sucesso, mas não impedirão a conclusão do objetivo final.
Falhas comuns que estão sendo apresentadas nos citados chips:
sobrecarga nos dados resultante de falha de processamento e
transferência de informações. O chip não consegue transmitir à
central todas as informações coletadas, podendo causar confusão
visual e mental; erros nos ajustes emocionais não identificados
podem causar aumento ou diminuição de certas emoções, causando
um certo exagero ou uma certa deficiência; inacessibilidade de
conexão, alguns chips não estão disponíveis para a conexão com a
central, impossibilitando uma comunicação direta.
Estão sendo providenciadas tentativas de atualizações, até aqui
sem sucesso. É necessária uma atualização manual, visto que
remotamente a conexão com os dispositivos CXZ está sendo
perdida."
Respirei fundo — Será que conseguimos achar mais alguma coisa?
— Olha o histórico de pesquisa do navegador — sugeriu Henrique.
— Tudo limpo. Claro que quem trabalha com tecnologia não iria
deixar muitas pistas, uma senha na mesa já é um vacilo grande.
168
Vasculhamos em busca de mais informações, sem sucesso. Eu
queria encontrar Gavin, ele não parecia estar de acordo com o que
estava acontecendo, mas poderia muito bem responder muitas
questões. Ali, pelo menos, nos certificamos de que não era obra do
acaso, e sabíamos quem eram os culpados. Era um início. Ainda não
tínhamos uma solução, pois aquele chip poderia desligar cada um ali
a qualquer momento, e não sabíamos o que isso mudava no clima ou
nos animais. Mas para uma empresa que deseja por algum motivo
controlar as pessoas, controlar o clima e animais seria simples.
Muitas perguntas ainda nos rondavam.
Saímos dali e voltamos para onde o restante do grupo estava.
— Onde vocês estavam? Demoraram muito! — Nate nos
recepcionou.
— Estávamos procurando uma coisa, mas não achamos. E vocês, o
que encontraram? — Respondi.
— Eu peguei máquinas de corte a pilha, pra não ficarmos parecendo
mendigos — Martin falou animado, nos mostrando os equipamentos
de barbearia — Além de mais roupas, comida e uma bateria extra
para o carro. O caminho é longo e precisamos partir.
Enquanto ele ainda falava, caminhamos em direção ao carro.
Precisávamos de mais espaço, então pegamos uma SW4 mais antiga
que vimos pelo caminho. Comportava nós 6, e sobrava espaço para
nossas coisas, ainda que precisássemos colocar alguns itens num
"bagageiro de teto" improvisado. Todos estavam ajeitando suas
169
coisas, exceto Martin, que havia ficado para trás para usar o
banheiro.
Ouvimos passos apressados e uma voz estridente disparou — Mãos
pra cima, todo mundo, se vocês não quiserem levar bala nas costas.
Virem-se e fiquem quietos.
Ao ouvir aquela voz, imediatamente a imagem de Richard veio à
minha mente. Se ele tivesse me visto na B-tech e me seguido? Se ele
tivesse nos encontrado de outra forma? E pior, se ele realmente
quisesse cumprir com o que prometeu? Ainda, se alguém da B-Tech
nos viu invadir e nos seguiu? Engoli seco enquanto me virava
lentamente em direção àqueles que nos rendiam.
170
Capítulo 17 — Velho Método
— Tudo bem, galera, vou ser simples e direto — ele disse, passeando
o olhar sobre nós — Eu e meus amigos vamos pegar tudo de valor
que vocês tiverem, e eu espero sinceramente que ninguém tente
bancar o herói. Porque, se reagirem... ah, se reagirem — riu baixo,
girando a arma no dedo antes de firmá-la novamente — Eu não vou
hesitar em estourar a cara de cada um de vocês. Então, escolham:
suas tralhas ou suas vidas.
Topamos com o líder de um grupo, um jovem encapuzado vestindo
preto da cabeça aos pés. Acompanhado de outros 4 "capangas" que
abriram sorrisos de escárnio, já se preparando para saquear nossas
coisas.
Nate cruzou os braços, balançando a cabeça — Tanta coisa dando
sopa por aí e vocês roubando?
O encapuzado se moveu rápido, ficando cara a cara com ele. Nate
não recuou, mas eu vi sua mandíbula travar.
— Quer um conselho? — O estranho sorriu, puxando o cano da
arma para perto do rosto de Nate — Não desafie o cara com a arma.
Da próxima vez, o cano dela pode parar em um lugar que você não
vai gostar.
171
— Anda logo! — gritou um deles, agarrando Chris pelo colarinho e o
jogando contra a lateral do carro. Chris tentou se soltar, mas outro
veio por trás e o acertou na barriga com um soco seco.
Os ladrões começaram a vasculhar nossas coisas, enfiando tudo o
que parecia valioso em sacolas. Eu sentia a raiva e a impotência
crescendo dentro de mim, mas sabia que não podíamos fazer nada
sem que alguém se machucasse. Eu estava com o coração acelerado,
porém aliviado por não ser o Richard. Martin, que até então estava
dentro de casa, avançou.
— Minhas coisas! Devolvam agora!
— Ou o quê? Vai me bater com esses bracinhos, magrelo? Tá
querendo virar peneira? — Ele riu, erguendo a sobrancelha.
Antes que obtivesse resposta, Martin sacou um pequeno dispositivo
com uma antena e um botão central, quase idêntico ao que Chris
usou comigo.
— Martin... — murmurei, já sabendo o que estava por vir.
Igualmente, um som insuportável se estendeu. Não demorou muito
para que todos nós caíssemos de dor até desmaiar. Nossos tímpanos
pulsavam e não conseguíamos sequer pensar numa reação diferente
de nos jogarmos no chão. Era como se aquele som nos desligasse.
Quando minha mente despertou, vi imagens. Flashes distantes,
como se eu estivesse dentro de uma sala de cinema assistindo à
172
minha própria vida. Vi meu eu mais jovem, franzino, olhando para
um carrinho de brinquedo com um semblante triste.
Eu queria um carrinho destes — eu me olhava, admirando. A voz
infantil ecoava pelo ambiente.
— Toma, pode ficar, eu tenho outro parecido — Nate respondeu, com
a despreocupação de uma criança que ainda não entende o peso de
um gesto.
Eu não lembrava disso. Mas vi meu rosto se iluminar de alegria, e
imediatamente me lembrei daquele sentimento. Uma pontada de
saudade apertou meu peito. A infância parecia tão distante, tão...
intocável. Não demorou muito e o cenário ao meu redor mudou.
Agora eu estava em um lugar vazio e frio, um breu infinito. O ar era
úmido, carregado com o cheiro de chuva e mofo. Sons de passos
ecoavam de tempos em tempos, mas não havia ninguém ali. O chão
estava coberto por um líquido viscoso que parecia se estender para
sempre. Então, tudo desmoronou. Minha cabeça latejou, e senti uma
luz entrar nos meus olhos. Quando finalmente consegui firmar as
vistas, percebi que tinha acordado. Todos estavam caídos ao meu
redor, olhos arregalados, grogues, como se tivessem sido drogados.
— O que... o que aconteceu? — Minha voz saiu fraca.
— Relaxa. Eu já dei um jeito neles? — Martin respondeu, ajeitando
sua mochila.
— Que jeito? — questionei.
173
— Só amarrei eles. Vamos ter tempo suficiente pra sair daqui.
— Minha cabeça dói — Nate gemeu, e Milla, Henrique e Chris
assentiram, igualmente afetados.
— Logo passa — Martin comentou com indiferença.
Chris estreitou os olhos — Isso que você usou não era meu?
— O que? Eu tinha pegado esse seu equipamento emprestado —
Martin sorriu, sem um pingo de arrependimento — Como sei que
você fez o David apagar com isso, aí eu imaginei que ia funcionar.
Qual é, galera, de nada né? — Martin abriu os braços, esperando
aplausos.
— Não toque nas minhas coisas de novo — Chris cerrou os punhos.
— Obrigado Martin — Milla colocou sua mão sob o ombro de
David, se virando rapidamente — Algum de vocês teve algum sonho
estranho?
Todos assentiram, descrevendo o mesmo lugar vazio e escuro.
Úmido e com cheiro de chuva, onde se ouviam passos a cada certo
tempo. Algumas imagens tentavam se formar, como um sonho, mas
logo se desintegravam. Era como uma prisão, um mundo infinito
onde podia-se andar eternamente para frente sem encontrar
absolutamente nada além de um líquido viscoso no chão.
— Estranho. Eu vi algumas memórias. Vi Nate, meus pais — minha
voz falhou.
174
— Tem algo de diferente em você, Dave — Martin olhou fundo em
meus olhos.
— Como assim? — Meu estômago se revirou.
— Eu não sei. Mas parece que você tem mais controle sobre isso do
que qualquer um de nós.
Martin ainda me olhava como se enxergasse algo que ninguém mais
via, como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça invisível.
Mas eu não queria continuar aquela conversa.
— Esquece isso, Martin. O que importa é que estamos vivos.
Ele franziu a testa, mas não insistiu.
— Precisamos sair daqui — Henrique cortou o silêncio, ainda
massageando as têmporas — Essa cidade parece cenário de filme de
terror.
Martin tinha recuperado todas as nossas coisas, então juntamos tudo
e seguimos viagem. O motor do carro roncou, quebrando o silêncio.
Eu me sentei no banco de trás e observei a estrada. Por um tempo,
ninguém falou nada, todos ainda sentindo muitas dores. A paisagem
ali passava como um borrão, e eu não conseguia parar de pensar em
como tudo havia se tornado abstrato e sem vida.
— Cara, que dor insuportável — Nate resmungou — Dave, o que
você viu sobre mim?
175
Pisquei algumas vezes, saindo dos meus pensamentos — Lembra
quando você me deu isso aqui? — Puxei da mochila o brinquedo já
desgastado pelo tempo e coloquei na palma da minha mão.
— Lembro! Nossos pais jantaram juntos, foi a primeira vez que nos
vimos. Não acredito que você guarda isso até hoje — Ele sorriu com
os olhos — Você não é o único que guarda coisas.
Ele me olhou por um longo momento, depois tirou algo da carteira.
Um pedaço de papel dobrado, amarelado pelo tempo. Peguei o papel
e abri.
— Sério? Tanta coisa pra você guardar — gargalhei — Me
arrependo até hoje de ter escrito isso.
— Você pode achar bobo, mas, cara... eu fiquei muito feliz. Você me
agradeceu por ser seu amigo, e disse que queria ser meu irmão pra
sempre. Sua letra mal dava pra entender, não que isso tenha mudado
até hoje — Ele deu de ombros, caçoando.
Henrique, que dirigia, estava inquieto.
— Se quisermos sobreviver, precisamos nos planejar — ele soltou,
olhando atento à estrada.
— Planejar o quê exatamente? — Milla questionou — Porque, pra
mim, a melhor coisa que podemos fazer é nos mantermos
escondidos.
176
— Isso não vai funcionar. Parece que até nossa respiração sai num
alto falante com esse silêncio todo — Henrique retrucou —
Precisamos de armas. Se não nos prepararmos, mais cedo ou mais
tarde vamos acabar mortos.
A discussão se seguiu por um longo tempo durante a viagem.
Suspirei e encostei a cabeça no vidro da janela, observando o mundo
desmoronado passando diante de nós. Seja lá o que estivesse por vir,
algo me dizia que ainda não havíamos visto o pior.
177
Capítulo 18 — Jantar Improvisado.
Era 20 de julho, já haviam se passado pouco mais de 3 meses desde
que tudo começou. O tempo parecia passar tão rápido quanto o
vento. Uma viagem que não duraria nem uma semana, já completava
três. Parávamos em todos os lugares possíveis para "saquear" e
conhecer. Claro, sempre com cautela máxima e sem chamar atenção
do que sequer poderia aparecer. Havia sinais de vandalismo,
abandono, tudo isso em tão pouco tempo. Uma prova da podridão da
sociedade em que vivíamos, onde aparentemente as pessoas só
estavam esperando uma oportunidade para mostrar o seu pior lado.
Estávamos hospedados em Atlanta. Já fazia quase um mês que
havíamos saído de Washington, e imprevistos como estradas
fechadas, mudanças abruptas de tempo e falta de planejamento (nos
perdemos algumas vezes) atrasavam cada vez mais nossa viagem.
Martin já estava agoniado, parecia mais aflito que todos para chegar
à cidade mexicana. Talvez ele sentisse falta da velha sociedade. Só
sei que a ansiedade e o nervosismo em seus olhos eram claros.
Esse tempo todo pelo menos foi ótimo para nos aproximarmos cada
vez mais. Nate e Henrique pareciam se tornar bons amigos,
confiando mais um no outro. Chris e eu nos aproximamos e comecei
a passar bastante tempo com ele, mais até do que com Nate. Martin
ainda era muito isolado, apesar de ser sempre simpático e alegre.
Sobre eu e Milla? Bom... passamos bastante tempo juntos também,
178
até que comecei cada vez mais a reparar cada um de seus perfeitos
traços.
— Milla, aqui em Atlanta tem um restaurante perfeito. O que acha
de, essa noite, eu cozinhar e jantarmos lá? — Sorri de canto.
— Uma ótima ideia, mas vamos levar uns salgadinhos caso não dê
certo — Ela sorriu de volta — Me desculpe, mas cozinhar é, por
muito, o seu ponto fraco.
Concordei — Não custa tentar, né? Vou te dizer onde é, me encontre
lá às 19:00.
— Combinado.
Depois que ela concordou em se encontrar comigo naquela noite,
meu coração palpitou. Eu sabia que não seria apenas um jantar
comum. Talvez fosse o momento certo para contar o que eu estava
começando a sentir. Tudo parecia tão caótico lá fora, mas cada
momento que passávamos juntos me trazia paz. Havia algo no seu
sorriso, algo na maneira como ela me olhava, que fazia todo o resto
desaparecer, nem que fosse por alguns instantes.
Passei a tarde planejando cada detalhe. O restaurante abandonado
que mencionei estava quase intacto, exceto pela poeira acumulada.
Era pequeno, mas charmoso. A luz suave do entardecer que entrava
pelas janelas refletia em velhas garrafas de vinho, dando ao lugar
uma aura nostálgica. As mesas estavam organizadas, ainda com
guardanapos dobrados em porta-guardanapos prateados, e as
179
cadeiras, todas no lugar, davam a impressão de que, a qualquer
momento, um grupo de amigos poderia entrar pela porta para
desfrutar de um jantar agradável. O chão de mármore, levemente
empoeirado, refletia a luz suave das velas que eu havia espalhado
pelo ambiente, criando sombras dançantes nas paredes revestidas de
madeira escura. Quadros antigos, com fotos de pratos gourmet e
sorrisos de clientes felizes, ainda pendiam das paredes como
testemunhas silenciosas de um tempo mais simples.
Quanto ao jantar, eu sabia que precisaria me esforçar, mesmo com
os poucos recursos disponíveis. Procurei por ali perto, um pequeno
supermercado e havia conseguido alguns itens essenciais. De início,
improvisei uma entrada simples: pão levemente tostado na frigideira
com azeite, acompanhado de uma conserva de azeitonas e alguns
tomates desidratados. O prato principal era mais ousado. Com
algumas latas de carne em conserva e com o que tínhamos, criei algo
parecido com um estrogonofe — molho cremoso com creme de leite,
temperos básicos e pedaços de carne desfiada. Para acompanhar, fiz
um arroz simples. Consegui gelar um suco de laranja e botei tudo na
mesa.
O tempo passava rápido, e com cada segundo, eu estava ainda mais
ansioso. Passei a mão pelo cabelo, tentando arrumar a bagunça que
era minha aparência ultimamente. Olhei-me no espelho do
restaurante, dando um último suspiro antes de voltar para a mesa. O
ambiente parecia acolhedor à sua maneira. As sombras das velas
criavam um brilho suave nas paredes, e o lugar, apesar de
abandonado, parecia respirar um ar de tranquilidade naquela noite.
180
Finalmente, quando faltava pouco para as 19:00, comecei a pensar
em como eu deveria começar a falar com ela. Como nos filmes,
comecei a ensaiar o que ia dizer, e minha mente estava a milhão,
pensando: E se ela não sentir o mesmo? E se tudo isso não passasse
de uma boa amizade na cabeça dela? "Não, Dave, você precisa ser
honesto com elas. Já passou muito tempo para ficar escondendo",
pensei, convencendo-me a ter coragem.
Quando o relógio em meu pulso marcou 19:00 em ponto, ouvi
passos vindo da rua. Meus nervos dispararam, e me virei para a
entrada. Lá estava ela, caminhando em minha direção, com o sorriso
mais lindo que eu já tinha visto. A luz das velas refletia em seus
olhos, e por um momento, tudo o que estava ao redor desapareceu.
Ela estava ali, só para mim.
— Uau... você realmente caprichou, hein? — Milla comentou,
surpresa, enquanto observava a mesa posta. Os pratos estavam
arrumados, e eu consegui até um par de taças de vidro.
— Não está perfeito, mas espero que seja pelo menos comestível —
brinquei, observando-a enquanto cortava um pedaço do pão e
experimentava a entrada.
Ela fechou os olhos por um momento, saboreando. — Ok, retiro o
que disse antes. Você se superou, Dave! Está ótimo! — disse,
sorrindo com aprovação, enquanto pegava mais um pedaço.
— Pra ser justo e sincero, eu confesso que dei uma lida num livro de
receitas daqui mesmo, ainda bem que ficou bom porque eu não tive
181
como testar ou experimentar — relaxei, enquanto sorria de orelha a
orelha.
O jantar seguiu com a leveza que nossas conversas sempre tiveram.
Entre uma garfada e outra, Milla e eu conversávamos sobre as
pequenas coisas que faziam aquela viagem parecer menos
desesperadora. Falamos sobre os lugares que ainda gostaríamos de
ver, caso tivéssemos a chance, e sobre memórias de uma vida que
parecia cada vez mais distante. Evitamos sempre falar de assuntos
que poderiam deixar o clima pesado.
Quando o estrogonofe foi servido, ela olhou para o prato com uma
mistura de curiosidade e expectativa — Ok, agora estou curiosa de
verdade. Isso parece muito bom! — disse, pegando o garfo e
mergulhando na primeira garfada.
O sorriso de aprovação que se seguiu foi tudo o que eu precisava —
Dave, isso tá delicioso! Como você conseguiu fazer isso com tão
poucos ingredientes?
— Um pouco de sorte, acho — respondi, meio envergonhado — Ou
talvez só a vontade de fazer algo especial pra você.
Ela riu, balançando a cabeça enquanto olhava para mim com ternura
nos olhos — Você conseguiu. Está divino!
Conforme a noite avançava, o jantar não era apenas uma refeição;
era um momento de conexão. O ambiente perfeito do restaurante
182
intocado, as luzes suaves e a simplicidade da comida transformaram
aquilo em algo quase mágico.
Depois do jantar, ficamos ali, ainda à mesa, com as velas
iluminando nossos rostos enquanto continuávamos conversando. E,
em algum ponto da noite, senti que não havia mais volta. O silêncio
entre as palavras não era desconfortável; pelo contrário, era como se
tudo o que precisava ser dito já estivesse ali, em meio aos olhares.
Com a lua alta no céu, refletindo nas janelas do restaurante, e as
velas quase no fim, eu sabia que aquela noite ficaria marcada na
minha memória. Não era apenas um jantar ou um encontro
improvisado. Era talvez o começo de uma belíssima nova história.
— Milla, eu... — comecei, mas travei, meu coração batendo
acelerado.
Ela levantou os olhos para mim, curiosa, como se soubesse o que eu
estava prestes a dizer. Seus olhos, sempre gentis e cheios de
compreensão, me deram a coragem que precisava para continuar.
— Eu só queria te dizer... — respirei fundo, sentindo minhas mãos
suarem — Desde que tudo isso começou, você tem sido mais do que
uma simples companheira de viagem pra mim. Não sei como colocar
em palavras, mas acho que... o que eu sinto por você não é somente
amizade.
As palavras saíram, e a quietude que se seguiu foi ao mesmo tempo
aterrorizante e libertador. Esperei, observando cada pequena reação
em seu rosto, com medo de estar colocando tudo a perder. Ela não
183
respondeu de imediato. Apenas sorriu de forma suave e se inclinou
levemente em minha direção.
— Dave, eu... — Milla começou, parecendo procurar as palavras
certas — Eu sinto o mesmo.
Aquelas palavras simples fizeram meu coração pular, e, por um
momento, todo o medo e insegurança desapareceram. Ela segurou
minha mão por cima da mesa, e naquele instante, parecia que o
mundo tinha desacelerado. Eu queria correr e gritar, rolar pelo chão
de alegria.
Terminamos a noite em silêncio, mas era um silêncio confortável.
Sob o brilho da lua e o calor suave das velas, percebi que, apesar de
tudo o que havíamos passado, aquele momento entre nós era real.
184
Capítulo 19 — Waffles e… Pedras?
O cheiro de bacon invadiu o ar antes mesmo que eu abrisse os olhos,
e por um momento quase esqueci onde estávamos. Pisquei tentando
afastar o sono e me levantei. O quarto era pequeno, as paredes de
madeira escura exibiam marcas e o teto baixo dava uma sensação de
aconchego. Ao meu lado, no beliche inferior, Nate ainda dormia. Seu
corpo estava coberto por um cobertor puído, que ele mantinha
apertado contra o peito como se fosse uma armadura protetora. Sorri
levemente enquanto o observava.
Rapidamente e com cuidado, levantei-me e segui até a cozinha. A
casa onde estávamos hospedados não era grande, mas era
confortável. As paredes, também de madeira escura, levemente
desgastadas pelo tempo, passavam uma sensação acolhedora e
familiar. O chão de tábuas rangia suavemente a cada passo,
lembrando-me que, apesar das condições, ainda havia algo de vida
naquele lugar. Era uma casa de um andar, simples, mas com tudo o
que precisávamos.
Graças a Martin, tínhamos energia e água quente, o que parecia um
luxo raro nesse mundo destroçado. Ele havia trazido consigo um
pequeno gerador portátil e instalado um sistema improvisado que
mantinha as luzes funcionando e os aquecedores ativos. O som
distante do gerador se misturava ao leve zumbido dos aparelhos que
ainda sobreviviam.
185
A cozinha era o coração da casa. Pequena, mas bem equipada, com
armários brancos de madeira, alguns com as portas soltas. Uma mesa
redonda de madeira no centro do cômodo ainda exibia marcas de
refeições passadas, desgastada pelo uso, mas resistente. O fogão, de
aparência antiga, mas ainda funcional, estava perto de uma janela
que deixava a luz cinzenta da manhã invadir o ambiente, iluminando
o espaço com uma claridade suave e fria.
Ao redor, objetos que alguém deixou para trás: um relógio parado
na parede, potes de condimentos já vencidos e alguns utensílios
jogados em uma prateleira. Mesmo assim, o ambiente carregava uma
estranha sensação de lar, como se o tempo tivesse parado ali,
esperando por nós.
— Hoje é um dia especial para mim — Martin disparou, enquanto eu
observava uma real mesa de café da manhã, com waffles, ovos fritos,
bacon, sucos variados e cereal — Saí enquanto vocês dormiam e
olha o que eu consegui.
— Como... — Comecei a falar, mas as palavras morreram na minha
boca. Só a ideia de ter bacon e waffles de novo me deixava perplexo
— Se me permitem, eu vou devorar isso aqui.
Martin riu baixinho, ainda focado na frigideira. Peguei um prato e
comecei a comer, sentindo o sabor familiar tomar conta de mim.
Estava tudo delicioso. Por alguns minutos, ninguém disse nada.
Henrique entrou na cozinha e, passando a mão sob sua cabeça
recém-raspada, disse — Pessoal, precisamos ir. Ainda temos mais
186
umas 30 horas de viagem, o que significa bastante tempo para
chegarmos ao nosso destino. Isso se não nos perdermos novamente
— ele se aproximou e arrancou um pedaço de bacon do meu prato —
Todo mundo se arrumando assim que comer.
— Meu Deus — Eu observei bem o rosto e o cabelo de Henrique,
estava diferente — O que você fez? Seu cabelo era bonito, seu
topete, e você raspou?
— Achava bonito? — Ele olhou fundo nos meus olhos, ergueu a
sobrancelha e riu. — Depois te passo o contato do meu barbeiro,
mas ele anda meio sumido. — Ele se aproximou mais ainda. — Só
quis mudar um pouco, na verdade esse é mais meu estilo.
Então, antes que eu pudesse reagir, ele pegou tudo o que havia no
meu prato e mandou pra dentro, enquanto gargalhava. Nate passou e
deu um tapa em sua nuca, dizendo "é, o corte tá aprovado". Martin
havia cortado o cabelo dele de manhãzinha, um corte militar no estilo
buzz cut. Todos nós ali precisávamos cortar o cabelo, na verdade,
estávamos parecendo mendigos. Martin se ofereceu para cortar o
cabelo de quem quisesse, e, de repente, a cozinha se transformou em
uma barbearia improvisada.
Eu mantive meu degradê num estilo undercut médio: sempre fui
contra mudanças, seja qualquer tipo. E não era o momento de mudar
radicalmente. Estávamos vivendo um dia de excessos, então manter
algo familiar me trazia uma sensação de segurança. Chris refez seu
corte Shang Hair, que valorizava bastante seus cabelos ondulados.
Nate resolveu seguir o exemplo de Henrique e cortou o cabelo no
187
estilo militar. Aquilo para mim era um desperdício, os dois tinham
cabelos com topetes quase perfeitos. Quando ficassem carecas ou
calvos no futuro, iriam lembrar dessa cagada.
Com visual finalmente renovado, de banho tomado, barriga cheia e
com os ânimos mais leves, começamos a arrumar nossas coisas para
partir. Martin desligou o gerador e ficou em silêncio por um instante,
olhando para as paredes, para o teto e para o chão, onde algumas
manchas de café e pegadas deixavam marcas de nossa breve
passagem. O plano era seguir sem interrupções até Houston. Saímos
por volta de 14 horas, chegaríamos de madrugada para descansar
antes de seguir caminho.
Henrique dirigia em silêncio, com os olhos fixos na estrada. Nate,
sentado no banco da frente, folheava um velho mapa, tentando traçar
uma rota mais curta. Milla e eu estávamos no banco de trás. O
zumbido constante do motor e o balanço suave do carro tinham um
efeito quase hipnótico. Deixei então minha cabeça cair contra a
janela enquanto observava a paisagem passar.
— Estamos perto do mar — Nate quebrou o silêncio — e se
pegássemos um barco? Acho que chegaríamos mais rápido.
— Nenhum de nós sabe "pilotar" um barco. Provavelmente
naufragaríamos antes mesmo da metade do caminho — Milla
respondeu sem hesitar.
— Concordo. É imprevisível, nem sabemos como estão as condições
por lá — Henrique recordou alguns momentos tensos de chuva e
188
ventania repentina que já havia nos ocorrido — melhor continuarmos
por terra.
— É... — Nate pensou melhor — não seria uma tarefa tão fácil
quanto imaginei. É que minha bunda já tá doendo e ainda falta
muito chão.
— Já estamos chegando em Houston, vamos descansar por lá, e
depois definiremos outro ponto de parada.
A chegada à cidade foi silenciosa, visto que estávamos bem
cansados. A cidade era fria e silenciosa como todas as outras, mas
essa tinha um ar específico de estranheza que me causava arrepios.
Havia árvores caídas e algumas até mesmo queimadas, as ruas
estavam sujas, como se houvesse passado ali um furacão.
Atravessamos algumas ruas até encontrar uma casa que parecia
segura para repousarmos. Analisamos cada cômodo cuidadosamente
até finalmente relaxarmos. Todos com muita fome, arrumamos um
lanche breve, só para não dormir de estômago vazio.
— Que estranho, era pra estar um calor dos infernos aqui, mas tá
congelando — Chris ponderou.
— É... realmente era pra estar quente. Aparentemente aqui tem
aquecedores a gás. Sorte a nossa — me joguei num sofá velho e
empoeirado no centro da sala. Rapidamente tive uma crise alérgica.
— Ótimo, porque eu preciso de um banho quente! — Henrique
vasculhava sua mochila, olhando suas roupas. — Acho que vou
189
aproveitar para lavar nossas roupas amanhã. À moda antiga, claro!
— Ele flexionou os braços e contraiu os músculos, com um sorriso de
autossatisfação.
Estávamos todos na sala conversando, até que o sono foi nos
vencendo um a um, cada um deitado num canto, todos ali, perto uns
dos outros. Fechei os olhos e, por um breve momento, imaginei
como seria quando finalmente chegássemos ao nosso destino. Nossa
noite de sono foi relativamente boa, decidimos dormir até mais tarde
e assim fizemos.
Acordei com a luz fraca da manhã batendo em meu rosto. Os outros
ainda dormiam espalhados pela sala; Milla encolhida num canto,
usando sua mochila como travesseiro, e Nate no sofá ao lado de
Chris, que roncava suavemente. Henrique estava esticado no chão,
sem nem mesmo um cobertor, o corpo jogado de qualquer forma.
Mexi-me devagar, tentando não fazer barulho.
Com cuidado, caminhei até a cozinha. Minhas costas ainda estavam
doloridas por ter dormido numa posição desconfortável. Ajeitei o
cabelo e respirei fundo, tentando me livrar do sono. Em cima da
bancada, um saco fechado de salgadinhos e um biscoito de chocolate
se destacavam em meio ao restante do que havíamos espalhado na
noite anterior. Peguei, hesitante. Até quando acharíamos esses
alimentos e outros? Pode ser que, um dia ou em algum lugar, só
encontrássemos péssimos enlatados ou quem sabe nem isso.
190
Já tá acordado? — a voz de Milla ecoou pela cozinha. Ela se
aproximou lentamente, com os olhos inchados de sono, e a jaqueta
pendurada no braço — Conseguiu dormir direito?
Balancei a cabeça em negação — só um pouco ansioso. Mas, e você?
Ela deu um sorriso fraco e se apoiou na bancada ao meu lado,
pegando educadamente uma bolacha das minhas mãos — Na
verdade, eu não consegui pregar os olhos. Mas eu não queria te
acordar. Essa cidade me dá arrepios. Tem algo de muito estranho
aqui.
— Eu também percebi isso — murmurei, olhando pela janela da
cozinha. O cenário lá fora era ainda mais desolador sob a luz fria da
manhã — Vamos sair daqui assim que os outros estiverem prontos.
Não quero ficar muito mais tempo nessa cidade.
Milla assentiu em silêncio, apertando levemente a minha mão. De
repente, um barulho abafado de vidro quebrando vindo da sala nos
fez congelar. Olhei para ela e vi o reflexo do mesmo medo contido
nos olhos dela.
Corremos até a sala, e a visão que encontramos não era o que eu
esperava. Henrique estava de pé com um caco de vidro nos pés, com
os olhos arregalados, respirando ofegante. Nate e Chris já estavam
acordados também, ainda meio confusos e desorientados.
— O que aconteceu? — perguntei, tentando me acalmar do susto.
191
Henrique apontou para a janela — Eu vi alguém lá fora. Uma
sombra, um vulto, sei lá, passou correndo. Vim dar uma olhada e
acabei derrubando o vaso.
Troquei um olhar preocupado com Milla. Se havia alguém lá fora,
significava que não estávamos sozinhos. E isso definitivamente não
era algo bom.
— Tem certeza? — Nate perguntou, esfregando os olhos e se
aproximando da janela. Ele olhou para fora, estreitando os olhos
enquanto tentava enxergar além do jardim coberto de mato — Pode
ter sido só um animal, Henrique. Ou o vento.
— Não era um animal — Henrique insistiu — Eu sei o que vi.
— Tudo bem — Milla interveio, levantando as mãos — Não vamos
discutir. Mas é melhor sairmos daqui o quanto antes. Já íamos partir
mesmo, certo?
Concordei, pegando minha mochila e começando a recolher nossas
coisas. Os outros fizeram o mesmo, ainda trocando olhares
cautelosos enquanto se preparavam para sair. Henrique continuava
inquieto e com os ombros tensos. Seus olhos varriam a sala como se
esperasse que algo saltasse de trás das paredes a qualquer momento.
Em menos de vinte minutos, já estávamos prontos para partir. O dia
ainda amanhecia lá fora, e a cidade, com suas ruas vazias e prédios
sem vida, parecia nos observar. Atravessamos o jardim da casa,
192
pisando no mato seco e quebradiço. O ar estava gélido, e cada passo
parecia reverberar pelo espaço vazio ao redor.
Ao nos aproximarmos do carro, notei algo que me fez parar
bruscamente. No capô coberto de poeira, havia marcas frescas de
mãos. E no chão, pegadas molhadas, o que indicava que era recente.
Olhei para Henrique, e ele me olhou de volta com um olhar
incrédulo, como se perguntasse: "Você está vendo isso também?"
Chris passou a mão pela testa — Não estamos sozinhos, então.
— Precisamos sair daqui. E rápido — eu disse, tentando manter a
voz firme — Não importa quem ou o que deixou essas marcas, mas
não vamos ficar para descobrir.
Subimos no carro em silêncio. Milla olhou pela janela mais uma
vez, varrendo ao redor em busca de algum movimento. Eu ouvia sua
respiração ofegante. Henrique ligou o motor, e o som pareceu
explodir no ar parado, dissipando o silêncio ao nosso redor. Olhei
para trás e um grupo de quatro jovens surgia, com os rostos pintados
e pedaços de pau na mão. "Não aceitamos intrusos em Houston, a
cidade é nossa", eles gritavam, enquanto atiravam paus e pedras no
nosso carro. "O que aconteceu com essa cidade?", pensei. Martin se
apertava ao banco numa clara tentativa de se acalmar. Henrique
acelerou o quanto pode e, sem sequer saber para onde estávamos
indo, seguimos caminho.
Talvez isso explicasse a sensação ruim e a estranheza com aquela
cidade. Não parecia haver lugar seguro!
193
Capítulo 20 — Está Tudo Bem
— Riviera, Texas — Nate apontou para o mapa, olhando a placa de
"Welcome to Riviera", tombada pelo vento — Estamos quase no
México!
— Não sei até quando vamos encontrar gasolina. O tanque já está
quase vazio e, da última vez, foi um custo achar combustível —
Henrique suspirou, enquanto estacionava em um posto à entrada da
cidade.
— Achamos outro carro, bicicletas, damos um jeito — Milla
observava a cidade pela janela — A Costa fica aqui perto. Que tal
darmos um mergulho? Precisamos relaxar pra seguir a viagem até o
fim e, sinceramente, faz tempo que não entro no mar!
— Não vai ser fácil encontrar outro carro que caiba todos nós e
nossas coisas. De bicicleta levaria de três a cinco dias até
chegarmos ao México, sem contar o cansaço! — Henrique rebateu,
franzindo a testa — Mas acho que vamos conseguir gasolina
suficiente para continuar. Sobre o mergulho, é uma boa, mas temos
que chegar logo.
Suspirei, distraído, enquanto observava os arredores — Não acho
que tempo seja um grande problema. Não custa nada.
194
O letreiro ainda brilhava com luzes piscantes; as prateleiras da loja
de conveniência estavam intactas; os restaurantes, com cadeiras
organizadas e mesas postas, pareciam esperar por clientes que nunca
chegariam. Examinei aos poucos cada detalhe ao meu alcance,
parecia como se o tempo tivesse congelado ali. Nada da desordem ou
do abandono que vimos em outras cidades pelo caminho. Aquilo
era... perturbador. Era mais uma cidade que parávamos, e mais uma
que causava estranheza.
Me aproximando da loja de conveniências do posto, ouvi passos
leves em minha direção. Milla se aproximou e pousou a mão em meu
ombro, com um sorriso no rosto.
— O que está fazendo?
— Observando. Olha — apontei para a loja — tudo intocado, as
prateleiras todas cheias. Parece que ninguém nunca passou por
aqui, tudo em ordem... Nada perto da bagunça que vimos em todos
os locais que passamos — forcei a vista para ver tudo que havia ali
dentro.
Milla franziu o cenho e inclinou a cabeça, intrigada — Bom, estamos
com sorte então. Que tal aproveitarmos que está tudo aí e pegarmos
o máximo de suprimentos possível? — disse ela, abrindo a porta.
Segurei seu braço suavemente, fazendo-a parar. Nossos olhos se
encontraram, e eu sorri, dizendo — Ótima ideia. Que tal um jantar
especial? Só nós dois?
195
Ela sorriu de volta, sem desviar o olhar — seria perfeito. Mas não sei
se os meninos iriam querer ficar até a noite aqui. Estão com pressa...
— Eu dou meu jeito! Fica tranquila — garanti, batendo de leve no
peito.
Milla suspirou, rindo, e balançou a cabeça — Tudo bem, tudo bem.
Mas dessa vez, eu vou preparar tudo.
Pegamos o que achávamos que seria necessário, apesar de não ter
muito ali além de salgadinhos e guloseimas. Adentramos a cidade
para procurar então um supermercado e, como suspeitávamos, tudo
estava intocado. Fizemos uma ronda geral e reabastecemos nossas
mochilas: roupas novas, sabonetes, cremes, perfumes (não é porque o
mundo acabou que temos que andar fedendo), snacks e bastante
água. Quando menos vimos, já estava começando a escurecer.
— Eu estou morto, minhas pernas vão cair — resmunguei, me
escorando em uma parede qualquer — não sei, mas acho que preciso
descansar antes de voltar e ficar mais horas sentado viajando.
— Se você quiser, eu faço você dormir rapidinho — Henrique
mostrou os punhos.
Revirei os olhos — se todos concordarem, podemos achar algum
lugar para descansar e tomar um banho.
— Putz! O banho... nem fomos para a costa. Que merda. Eu não vou
agora nem que me paguem, tá maluco? — Nate esfregou os cabelos.
— Desculpa, Milla, nós esquecemos.
196
Ela deu de ombros. Encontramos uma casa mais afastada, numa rua
tranquila, onde as luzes de postes quase apagadas criavam sombras
longas. A iluminação da cidade parecia ser alimentada quase toda por
energia solar, e havia um constante barulho de motor que parecia vir
de debaixo da terra. A casa em questão era uma construção antiga, de
madeira desgastada, mas aconchegante. Lá dentro, os móveis
estavam todos limpos. Nada de poeira.
— Parece seguro — Henrique se jogou no sofá, com os olhos já
fechados.
O cheiro de madeira velha e mar invadia o ambiente, e as paredes
tinham quadros de paisagens litorâneas. Depois de arrumar nossos
pertences, todos apagaram, então eu e Milla saímos. Caminhamos até
a praia sob a luz da lua, com a brisa do oceano batendo em nosso
rosto. Ela havia preparado um jantar simples, mas muito saboroso.
Passamos horas conversando e trocando confidências, e sentir seu
corpo junto ao meu me fazia esquecer tudo que estávamos passando.
Deitada sob meu peito, Milla respirou fundo e começou a dizer sobre
antes do desaparecimento:
— Sabe, Dave, eu nunca tinha me sentido parte de uma família de
verdade. As coisas em casa sempre foram difíceis. Meus pais sempre
se preocupavam mais com eles mesmos do que comigo. Parece que
eu era uma intrusa em casa. No dia que todo mundo desapareceu, eu
estava na rua desde o dia anterior, eles nem perceberam que eu tinha
saído, nem foram atrás. Eu estava de frente para um rio e então
desmaiei. Acordei com o Henrique me chamando, ele e Martin. Fato
é que eu não sinto falta de nada do passado. Eu me sinto feliz do
197
jeito que estou agora, me sinto amada e protegida. Me sinto
importante e respeitada — ela olhava firmemente nos meus olhos.
— Eu fico feliz por você. Eu sinto falta de tudo, menos da escola —
sorrimos — e eu não sei muito bem o que eu sinto. Medo, talvez.
Confusão... só sei que a minha cabeça não para desde o primeiro dia
e eu tenho tentado me controlar e ser forte.
— Você é forte, mas precisa descobrir isso cada vez mais. E agora
você tem a mim pra ajudar a colocar suas ideias em ordem nessa
caxola — Milla bagunçou meu cabelo, me abraçando logo depois.
Caminhamos para casa e eu sorria à toa. Chegamos e todos ainda
estavam dormindo, exaustos. Deitei-me e apaguei. Nem sonhar eu
sonhei. Acordei com o barulho de panelas batendo: era Henrique,
acordando todo mundo para seguirmos viagem. Vasculhei minhas
coisas e juntei tudo. Na minha mochila, eu guardava um segredo a
sete chaves. No dia anterior, eu havia encontrado um anel e estava
convencido em dá-lo a Milla, como um "noivado" improvisado. Eu
nunca havia sentido por alguém o que sentia por ela e não poderia
perder a oportunidade. Me convenci de que aquele era o dia.
— Vamos, não podemos demorar — Martin alertava.
— Gente, vocês não se preocupam que esse abrigo "seguro" pode ser
uma armadilha ou algo do tipo? — Milla refletiu enquanto se
esforçava para fechar sua mala abarrotada de coisas.
198
— Foi o que eu disse. Mas o Martin falou que não estamos em um
filme. Eu acharia melhor investigarmos isso primeiro — argumentei.
Chris e Henrique assentiram.
— Claro, David. Vamos investigar e talvez perder a chance de viver
em algum lugar minimamente seguro e normal. Ou até mesmo achar
ajuda para entender o que está acontecendo. Eu não vou perder essa
oportunidade por causa de vocês. E não vou deixar vocês serem
estúpidos a ponto de desistirem agora — Martin se exaltava pela
primeira vez na nossa presença. O garoto gentil e animado que
conhecíamos até ali parecia não existir.
— Martin, é uma transmissão de rádio, que ecoou pelo menos os
Estados Unidos inteiro. Você acha mesmo que é seguro?
— Eu tenho fé que sim, Chris. Por favor, não me deixem ir sozinho.
Vamos até lá e vocês não precisam entrar comigo. Só me
acompanhem — Ele suspirou cabisbaixo.
Naquele momento, Nate cambaleou com uma séria expressão de
pânico. Ele se sentou no chão abruptamente, com o corpo rígido, e
começou a se debater. Seus olhos se azularam num tom suave, como
se uma fraca e fria luz emanasse de dentro dele. Paralisado, ele
olhava fixamente para frente como se visse algo assustador. Sua
boca, branca, se abria numa falha tentativa de se expressar. Era como
se Nate falasse, mas o som não saísse.
— Nate! — gritei, me ajoelhando ao seu lado, tentando segurá-lo.
199
Não sabíamos o que fazer, até que Chris, numa reação instintiva,
pegou uma lanterna de luz forte e apontou diretamente para o olho de
Nate, piscando o feixe como um flash. Nate piscou algumas vezes,
protegendo os olhos da claridade, antes de soltar um gemido abafado.
O brilho azulado desapareceu, e ele se jogou contra mim.
Apertando os olhos, ele disse — de novo não... de novo não.
— Como assim, de novo? — indaguei, surpreso. — Isso já aconteceu
antes?
Ele assentiu — É. Quando você estava fora, Dave, eu fiquei muito
mal e preocupado com você, então eu acabei tendo um surto, sei lá o
que é isso. Nele, eu te procurava dentro de uma casa fria e escura, e
encontrava você todo machucado e cortado. Foi a pior coisa que já
senti.
Fiquei em silêncio, sem palavras.
— E agora eu vi meus pais morrendo na minha frente — Nate
suspirou, enquanto ainda tentava recuperar o fôlego — foi tão real...
como isso é possível?
Senti um arrepio na espinha — eu revivi uma memória e você
presenciou seus medos — observei, pensando um milhão de coisas.
— Acho que todos nós passamos por isso — Milla se aproximou,
num tom tranquilizador. — Dave, Nate, o Henrique teve também,
que eu sei, e eu também. Voltei à casa dos meus pais numa péssima
memória.
200
Todos olharam para Martin e Chris, esperando que eles falassem
algo.
Martin deu de ombros — Nunca aconteceu comigo não. Vocês estão
ficando loucos — ele sorriu em seguida, tentando descontrair.
— Talvez nosso controle emocional seja maior — Chris completou.
Enquanto todos discutiam, Milla me puxou para um canto, longe dos
outros. Seu tom era firme, mas baixo o suficiente para que só eu
ouvisse. — Dave, por que você não conta para o Nate sobre o que
está acontecendo?
Suspirei, esfregando o rosto com as mãos — Tenho medo de como ele
reagiria. Ele não acha que investigar esse assunto é uma boa ideia.
— Mais cedo ou mais tarde ele vai precisar saber dessa história. E é
melhor que seja por você, meu amor. Não é justo com ele que
saibamos um pouco do que está acontecendo e ele e o Martin não!
— Eu sei... eu sei — admiti, relutante — eu tenho medo de que ele
tente me impedir. E eu não confio no Martin o suficiente pra contar
pra ele.
— Por favor, pensa bem nisso. Pensa em como ele se sente com você
escondendo isso. Sobre o Martin, eu mesma converso com ele — ela
me abraçou forte — estamos todos juntos. Em tudo.
201
Nos dirigimos para fora de casa e, para nossa surpresa, nosso carro
não estava lá. O mundo pareceu parar por um segundo. Engoli seco e
meu coração disparou. Era como levar um soco no estômago. Todos
sabíamos que aquilo não era um bom sinal, e eu já imaginava que
aquela cidade estava "perfeita" demais para ser verdade.
Caminhamos então lentamente até a rua, cada um olhando para uma
direção. Ninguém sabia o que estava por vir. Poderia não ser nada, só
ladrões. Mas e se não fosse?
202
Capítulo 21 — Você é Patético
O ar parecia mais denso, pesado como se cada inspiração fosse um
esforço para manter a minha consciência. Meu coração martelava no
peito, ecoando nos meus ouvidos, e uma sensação incômoda se
arrastava pela minha pele, como um aviso vindo de algum lugar
profundo da mente. Algo estava errado. Não sabia o quê, mas sentia
como se a realidade ao meu redor estivesse prestes a desmoronar.
Minhas pernas começaram a enfraquecer, os joelhos cedendo
levemente enquanto meu campo de visão se estreitava. Tudo parecia
borrado e os sons distorcidos, como se o mundo estivesse debaixo
d'água. Era assim que eu me sentia, completamente submerso. O
calor subiu até minha cabeça, trazendo consigo uma tontura
sufocante.
— Dave! — Henrique segurou meu braço, tentando me firmar. —
Calma, cara. Respira!
Eu mal conseguia ouvir direito, mas sua voz era uma âncora que me
impedia de cair completamente. Fechei os olhos, concentrando-me
em sua mão firme no meu ombro.
— Não tinha nada importante no carro, a gente tirou tudo. Relaxa!
Rapidinho a gente encontra outro. Só... respira.
203
— Isso não é bom — as palavras saíram da minha boca com um
suspiro profundo.
Fiz o que ele disse, inspirando profundamente. O ar fresco parecia
aliviar um pouco a pressão em minha cabeça. Abri os olhos devagar,
e o mundo começou a fazer sentido novamente, mas ainda com um
desconforto latente no fundo da mente.
Foi então que ouvi.
Um assobio.
Fraco no início, vindo de algum lugar distante. Eu... eu conhecia
aquele som, e meu corpo reagiu antes mesmo que minha mente
pudesse processar. Um arrepio percorreu a minha espinha, e meus
olhos se encheram de lágrimas, mas elas não caíram.
Porque eu sabia o que significava. E a culpa era minha.
O som ficou mais alto, mais próximo. A vibração dele parecia se
misturar com o bater acelerado do meu coração, cada nota parecendo
rasgar a tênue calma que eu tentava manter.
Os outros começaram a notar também. Henrique me olhou com uma
mistura de preocupação e curiosidade, enquanto Milla e Chris
franziram o cenho, olhando em volta, buscando a origem do som.
Nate deu um passo para trás: "De onde vem isso?", ele questionou.
204
Já Martin me encarava com a certeza de que aquilo não era bom.
Seus lábios se contraíram levemente, como se já soubesse que
estávamos em apuros.
O medo me consumiu completamente. Permaneci imóvel, como se
qualquer movimento pudesse chamar atenção. Quando Henrique
olhou para mim novamente, eu mexi os lábios, sem emitir som
algum.
"É ele."
Ele me entendeu imediatamente. Seus olhos se arregalaram, e vi o
reconhecimento no instante em que tudo se encaixou. Ele sabia de
quem eu estava falando. Sabia que era o homem que havia me
torturado, o rosto que havia assombrado meus pesadelos, me deixado
marcas profundas.
O assobio ficou mais alto, mais insistente, cortando o silêncio da
rua como uma lâmina.
— Eu amo essa música. Sempre me traz ótimas lembranças. Pumped
Up Kicks, vocês devem conhecer. Corram mais rápido que a minha
bala... Aliás, o que esses jovens fazem perdidos por aqui? — Ele
cessou o assobio, com sua voz estridente e um sorriso irônico —
ainda mais tão longe de casa, né, David? Pode ser perigoso.
Meu coração afundou no peito. Não importava quantas vezes eu
relembrasse sua voz, sua presença... nada me preparava para a
realidade de estar diante dele de novo.
205
— Por favor, poupe nossos ouvidos dessa sua conversa fiada,
Richard — respondi, tentando recuperar o ar.
Milla recuou um passo, segurando o braço de Chris, que parecia
prestes a avançar. Nate ainda olhava para os lados, talvez procurando
uma saída. E Martin... ele ainda não tirava os olhos de Richard. A
tensão só aumentava a cada instante.
— Tá bom, Pete. Você quem sabe. Aliás, não parece saber — ele se
aproximou de mim, com um tom carregado de desdém — Você achou
que eu não cumpriria a minha promessa? Você é um covarde, e sabe
disso, né? Mesmo sabendo do perigo que traria aos seus amigos,
você continuou com eles. Facilitou minha vida!
— Do que ele tá falando, Dave? — Henrique me olhou, externando a
dúvida de todos.
Richard riu, em um tom áspero — Eu pensei que talvez eles tivessem
te convencido a ficar... mas você nem contou a eles. Acho que temos
muito o que conversar — ele se virou, alargando o sorriso — É um
prazer imenso conhecer todos vocês. Principalmente você, Nate.
Vocês não devem saber, mas o amigo de vocês está envolvido no que
está acontecendo, sobre o sumiço das pessoas. E ele não quer
cooperar comigo.
— É mentira, eu não tenho nada a ver com isso — retruquei, com a
voz quase quebrando.
206
— Você sabe que tem. E sabe qual é a negociação aqui. Me diz onde
o seu irmão está — ele parou e respirou fundo, com toda sua raiva
visível em seu rosto — ou eu cumpro o que prometi.
— Mas cumprir o quê, seu idiota? — Henrique deu um passo à
frente, mas um dos "capangas" o parou no peito com um revólver.
Richard se aproximou de Nate e Henrique e revelou — eu disse que
ia matar todos vocês, um a um, na frente dele.
O sangue ferveu nas minhas veias.
— Eu não tenho problemas de sujar as minhas mãos de sangue, na
verdade, eu acho até divertido. Esse olhar de medo de vocês. Mas se
eu souber onde o Charles está, todos vocês ficam livres, menos o
David. Dessa vez eu não vou te deixar ir embora.
— Você acha que isso vai resolver alguma coisa? — soltei. Minha
voz tremia de raiva e medo, mas eu continuei — Você quer que eu
diga onde Charles está? Eu não sei! Você quer vingança? Você acha
que isso vai te fazer menos patético?
— Cala a boca... — Richard piscou, surpreso pela explosão. Seu
maxilar trincou.
— Não, você vai ouvir — O interrompi — eu não duvido da sua
coragem porque você já quase me matou, mas pra quê? Por que não
consegue aceitar o próprio fracasso? Não consegue aceitar que meu
pai é muito mais inteligente e competente que você? Você é patético.
Isso tudo é sobre você. Não sobre mim, não sobre Charles. Está
207
querendo fazer tudo isso pra se mostrar útil, quem sabe assim você
mostra ter algum valor. Eu sei, Richard. Eu sei que você foi mandado
embora e deve tá querendo recuperar o seu lugar, mas deixa eu te
contar uma coisa. Não adianta ficar andando por aí fingindo ainda
ser um funcionário, agindo como se fosse um enviado por eles. Sabe
o que vai acontecer? Você vai levar nós dois, nos entregar, eles vão
nos pegar e te dizer: Obrigado! E te prender. Por que nós somos
úteis pra eles, ao contrário de você.
Richard pensou bem e respirou fundo. Aquelas palavras feriram seu
orgulho e, por um tempo, ele não teve resposta.
— Bravo! Palavras bonitas — Ele aplaudiu — Você acha que está
num filme, David? Que eu vou ouvir isso, me emocionar e sair
correndo, e vocês vão se salvar, mas adivinha? Você só piorou tudo.
Naquele momento, enquanto ele bufava de ódio, Henrique deu um
sinal com a cabeça e, antes que eu pudesse entender, ele avançou
contra um dos capangas, derrubando-o no chão. Nate hesitou por um
instante, olhando para mim como se pedisse permissão, antes de
seguir. Já Chris não perdeu tempo: com um grito, ele agarrou o braço
do outro homem, lutando para arrancar a arma de sua mão. Enquanto
isso, olhei para Martin e ele retirava uma arma para apontar na
direção de Richard. Tudo à minha volta começou a acontecer em
câmera lenta, ou pelo menos essa foi a sensação. Desarmados, os
homens lutavam contra meus amigos, e eu não sabia o que fazer.
— Você fez a sua escolha, David.
208
Fechei meus olhos e então ouvi dois disparos. O som criou um
zumbido que me deixou levemente surdo por um tempo. Espremi os
olhos e voltei à realidade, ainda sem ouvir direito. Olhei para Richard
e ele estava de joelhos com um buraco no peito. Mas era um buraco,
um tiro, e tinham sido dois disparos. Olhei para o lado e vi Henrique,
Nate, Chris e Martin correrem em minha direção. Meu peito apertou
e eu me apalpei, procurando um ferimento em mim. Não era. Olhei
para a direita e vi a pior coisa que poderia ter acontecido. Era Milla,
ela estava no chão, sangrando.
Eu me joguei ao lado dela, com as mãos tremendo enquanto via o
sangue escorrer sem parar. Era como se o mundo ao meu redor se
apagasse mais uma vez, com as vozes dos outros se transformando
em ecos distantes. Tudo o que eu conseguia ver era Milla. A sua pele
já começava a perder o calor, e seus olhos, que antes brilhavam com
vida e determinação, agora oscilavam entre o foco e o vazio.
— Não, não, não... você não vai fazer isso comigo, Milla. Por favor,
aguenta só mais um pouco, tá? Só mais um pouquinho — minha voz
saiu quebrada, implorando, como se o som das minhas palavras fosse
o suficiente para mantê-la ali comigo.
Chris pressionava o ferimento com força, suas mãos cobertas de
sangue, mas a expressão no rosto dele era de puro desespero. Ele
sabia, assim como eu, que estávamos perdendo-a.
— Dave... — Milla sussurrou. Me inclinei mais perto, desesperado
para ouvir cada palavra — Não é sua culpa... nunca foi.
209
Aquilo quebrou algo dentro de mim. Minhas lágrimas finalmente
vieram, escorrendo pelo meu rosto enquanto eu segurava sua mão
fria. Tudo o que eu conseguia pensar era em todas as coisas que não
dissemos, nos momentos que ainda poderíamos ter tido. No anel que
eu a entregaria...
— Você vai ficar bem. Vamos tirar você daqui. Vamos sair dessa
juntos. Eu prometo — minha voz tremia com a mentira que eu
tentava desesperadamente acreditar.
Nate estava ao meu lado, em silêncio, com os olhos arregalados,
como se não conseguisse processar o que estava acontecendo.
Henrique tinha o rosto pálido e os punhos cerrados, claramente
lutando contra a impotência que sentia.
— Dave... — Milla chamou meu nome de novo, com mais esforço
desta vez. Seus dedos apertaram fracamente os meus, e eu me
inclinei mais perto — Você é a melhor coisa que me aconteceu.
— Não faz isso... não se despede de mim. Você vai ficar bem. Nós
vamos sair daqui. Por favor, Milla! — eu praticamente gritei, as
palavras saindo entre soluços. Tirei então o anel que eu havia
guardado e a mostrei. Coloquei em seu dedo e segurei firme sua mão.
Ela sorriu. Um sorriso fraco, mas ainda assim... dela. Ela piscou
lentamente, como se tentasse gravar meu rosto em sua mente, e
murmurou algo que o vento levou antes que eu pudesse entender
completamente. E então seus olhos pararam de se mover, fixos em
algo além de mim.
210
Um silêncio absoluto tomou conta de tudo. A única coisa que eu
sentia era o peso da sua mão inerte na minha. Meu mundo
desmoronou ali, naquela rua vazia, com o som do vento passando por
nós. A culpa e o vazio me esmagaram ao mesmo tempo, e pela
primeira vez desde que tudo isso começou, eu me senti
verdadeiramente derrotado.
Eu sabia que o sangue dela estava ali por minha causa. Que, se eu
tivesse me afastado de todos, eles estariam seguros e ela ainda estaria
viva. Ela não estava mais ali...
Ainda sem conseguir reagir, Martin e Henrique rapidamente
amarraram os outros dois homens, que estavam desacordados, para
não corrermos nenhum risco a partir dali. E então, com a mente vazia
e o coração destroçado, eu me permiti apenas ficar ali, ao lado dela,
enquanto o mundo continuava girando, indiferente à dor que
consumia cada pedaço de mim.
211
Capítulo 22 — Seguir em Frente
Eu ainda estava lá, quando alguém me chamou.
— Dave...
Meus ombros enrijeceram. O choro ainda sufocava minha garganta,
e meu peito queimava como se algo estivesse preso ali, impossível de
sair. Fechei os olhos por um segundo, tentando controlar a
respiração. Aquela voz... era meu irmão. Me virei lentamente, passei
a mão pelo rosto, tentando limpar as lágrimas, mas elas insistiam em
voltar. Engoli o choro e encarei seus olhos.
— Desculpa — ele disse, com a voz carregada pelo cansaço — eu
tava muito longe e... não consegui chegar antes.
As palavras dele se desfizeram no ar. Elas não importavam. Nada
mais importava.
— Não faz mais diferença. — Minha própria voz soou vazia.
Charles deu um passo à frente, hesitante — Você está bem? O que
aconteceu?
Soltei um riso seco, sem humor.
212
— Fisicamente? Estou ótimo — Virei de costas para ele e segurei o
corpo de Milla com Martin. Meu coração se apertou ao sentir o peso
dela nos meus braços — mas não por sua causa.
Ele se manteve em silêncio por um momento. — Eu sinto muito.
— Não, não sente — retruquei rispidamente. Meus olhos mais uma
vez se encheram de lágrimas, dessa vez, de raiva — Você disse que
não ia deixar ele chegar perto de mim. Prometeu que ia me proteger.
Mas e aí? O que aconteceu? Se ele quisesse... se ele só quisesse...
tinha matado todos nós. É assim que você me protege?
Henrique tocou meu ombro de leve, como se dissesse "deixa isso
pra lá", e pegou Milla dos meus braços. Respirei fundo, tentando
conter as lágrimas e as palavras que ainda martelavam na minha
mente.
Mas eu precisava falar.
— Você não quis ficar perto de mim porque achou que ia me colocar
em risco, né? Que ia me transformar num alvo. Mas quer saber? —
Dei um passo na direção dele — O alvo sempre esteve aqui, Charles.
Desde o começo. Você só teve medo do que fariam com você por
minha causa. Ficou com medo de que te usassem pra chegar até o
papai.
— David... — Charles suspirou, passando a mão pelo rosto — Você
tá magoado, não tá pensando no que tá dizendo.
Soltei mais um riso, amargo dessa vez.
213
— Errado. Eu tô pensando sim. Eu tô vendo tudo mais claro do que
nunca. E sabe o que eu preferia? — Minha voz vacilou, mas
continuei — Preferia ter continuado achando que você tava morto.
O olhar dele vacilou.
— Não é bem assim. Tem coisas que você não sabe! É perigoso...
— E que você não pode me explicar — minha garganta apertou. O
vazio dentro de mim parecia crescer a cada segundo — Mas sabe de
uma coisa? Eu não quero mais saber. Eu só quero chegar onde eu
tenho que chegar e esquecer de tudo isso. Não ligo mais pra nada.
Virei de costas mais uma vez.
— Vai embora, Charles.
Ele não disse nada. Não tentou se justificar. Ficou ali, parado, como
se carregasse o peso de todas as decisões erradas que tomou. Hesitou
em tocar meu ombro, mas se virou. Charles sabia que tinha errado
comigo. Era dever dele cuidar de mim, e ele falhou. Eu sabia que ele
nunca se perdoaria. Não estava machucado fisicamente, mas por
dentro, eu estava morto.
Havia se passado alguns dias e eu ainda não tinha forças para falar.
Minha mente não conseguia processar nada, e o que restava do nosso
grupo não trocara uma palavra sequer desde o que aconteceu. Cada
um estava dando o espaço necessário, sem forçar uma conversa.
Charles se recusou a ir embora mesmo depois de tudo e disse que
ficaria com a gente até chegarmos ao nosso destino. Não adiantaria,
214
minha mágoa não se apagaria por isso. Talvez tenha sido mais fácil
culpá-lo do que admitir que o responsável fui eu.
O silêncio começava a pesar. A culpa e a confusão martelavam na
minha cabeça, e eu não aguentava mais aquele vazio entre nós.
Resolvi quebrar o silêncio. Ainda estava indeciso se conversava com
cada um individualmente ou se reunia todos de uma vez. Decidi pela
última opção. Com todos na sala, comecei a falar.
— Bom... — esfreguei as mãos, tentando organizar os pensamentos
— acho que vocês merecem uma explicação.
— Tá de boa, Dave, isso não precisa acontecer agora — Henrique
tocou meu ombro.
— Discordo. Entendo que todos estamos mal com o que aconteceu,
mas eu sinto que sou o único que tá perdido por aqui. Parece que
todos vocês sabem algo que eu não sei — Nate confessou, e eu
assenti.
Comecei explicando a ele tudo que sabia sobre o chip e sobre o que
estava acontecendo, sem mencionar que eu era uma "cobaia" do meu
pai. Contei sobre Charles, meu pai, sobre ter sido torturado. Sobre a
aparição de Richard no meu sonho, tudo. Henrique não sabia de boa
parte da história, já Martin ficou boquiaberto, surpreso. Meu irmão,
com Chris ao seu lado, me observava a certa distância.
— Me perdoa, Nate, por ter escondido isso de você. Eu achei que
estava te protegendo dessas informações ou que você iria brigar
215
comigo por ir atrás da verdade. Henrique, por não ter te contado
sobre a ameaça.
— David, eu já te disse — Nate falou com firmeza, olhando em meus
olhos — Você é meu melhor amigo e a única família que eu tenho
agora. Mas você tem se afastado de mim, não tem conversado. Só
não vamos deixar essa falta de diálogo nos afastar mais. Estamos
juntos, cara.
— Tenho uma pergunta que não sai da minha cabeça — Henrique se
levantou de repente, cortando o clima amistoso, e se aproximou de
Martin — Desde quando você carrega uma arma e não nos contou?
— O que? — O rosto triste de Martin rapidamente desapareceu. Seu
olhar endureceu — Sempre que eu tento ajudar, ao invés de um
agradecimento, eu sou questionado? Henrique, você acha que vamos
andar por aí neste mundo, sem encontrar nada perigoso? Que vamos
resolver tudo no poder da amizade? Você mesmo sugeriu que
carregássemos armas. Eu evitei algo muito pior. Infelizmente, não
consegui acertá-lo antes de ele dar o primeiro tiro.
— Você andava armado esse tempo todo e não disse nada?! Como eu
deveria confiar em você assim? — Henrique se afastou, esfregando
as têmporas — Podia ter avisado.
Martin suspirou — Olha, em Washington mesmo eu arranjei isso
aqui. Pensei que poderia ser útil. E foi. Nada vai nos impedir de
chegar ao México. Inclusive, poderíamos continuar nossa viagem
hoje mesmo.
216
Aos poucos, as coisas se resolviam entre nós. Cada conversa, cada
decisão, nos tornava mais unidos e determinados a alcançar nosso
objetivo. No México, tudo ficaria em paz. Um lugar onde aqueles
que se mantiveram acordados se reuniriam. Menos perigo, uma vida
mais próxima do que costumava ser "real". E era disso que eu sentia
falta: da rotina, da normalidade. Talvez um pouco dessa estabilidade
acalmasse minha mente e me ajudasse a planejar os próximos passos.
Mas uma coisa era certa: eu não ia parar até descobrir toda a
verdade. No abrigo, eu encontraria aliados. Pessoas que poderiam me
ajudar a investigar, a juntar as peças que ainda faltavam. Nada nem
ninguém ia me impedir.
Com isso em mente, Henrique encontrou um carro qualquer.
Juntamos nossas coisas — guardei as de Milla como lembrança — e
Charles subiu em sua moto. Arrumamos tudo e seguimos viagem. O
silêncio dominava o carro, mas não era desconfortável. Era um
silêncio de entendimento. De luto. De aceitação. Apesar das
diferenças e das feridas, sabíamos que precisávamos seguir em
frente.
217
Capítulo 23 — O Gritante Silêncio do
México.
O horizonte de Monterrey apareceu diante de nós como um gigante
caído. O sol da tarde refletia nas janelas estilhaçadas dos prédios
altos, enquanto as ruas pareciam sufocadas por destroços e carros
abandonados. Mas, diferente de outros lugares abandonados por onde
passamos, essa cidade não estava apenas vazia — parecia saqueada,
revirada como se algo grande tivesse passado por ali, arrancando
qualquer vestígio de normalidade. Pareciam cicatrizes de uma guerra.
Atravessamos os primeiros quarteirões em silêncio enquanto o
ronco do motor do carro ecoava pelas avenidas desertas. O asfalto
estava coberto por lixo espalhado — restos de móveis quebrados,
sacolas plásticas presas em postes e tapumes de madeira jogados
sobre as calçadas. Havia colchões velhos encostados em paredes
pichadas e vitrines de lojas arrombadas, como se tivessem sido
saqueadas há muito tempo. Alguns estabelecimentos tinham suas
portas completamente arrancadas, expondo interiores revirados,
prateleiras vazias e vidros quebrados cobrindo o chão.
Mais à frente, um mercado enorme tinha suas gôndolas tombadas e
produtos espalhados pelo chão, como se alguém tivesse passado às
pressas, pegando o que podia. O cheiro de podridão impregnava o ar,
218
vindo de frutas e carnes que há muito tempo haviam apodrecido
dentro de geladeiras sem energia.
Ninguém. Nenhum som, além do vento que passava entre as ruas,
carregando papéis velhos e poeira. Nenhuma movimentação, exceto
um pedaço de plástico tremulando na lateral de um prédio.
Olhei para os arranha-céus ao longe. Muitos ainda estavam de pé,
mas com janelas destruídas. Algumas antenas de rádio e TV haviam
caído sobre os telhados de edifícios menores, deixando marcas no
concreto rachado. Um shopping, que parecia ter sido um dos pontos
centrais da cidade, estava completamente escuro por dentro. As
escadas rolantes estavam paradas, e as entradas principais foram
arrancadas, deixando um vão escuro que mais parecia uma boca
aberta.
Um parque, que um dia deve ter sido um espaço vibrante de
crianças correndo e famílias passeando, agora era um campo de mato
alto e brinquedos quebrados. Os bancos estavam tombados, alguns
queimados. Uma bicicleta infantil, enferrujada e caída sobre a grama,
parecia ser o único vestígio de que um dia houve vida ali.
Aquilo sim era um cenário apocalíptico. Algo tinha acontecido ali,
mas era impossível imaginar o que. Tudo parecia tão errado.
Milla deveria estar aqui.
219
Ela devia estar aqui. Provavelmente estaria andando ao meu lado,
curiosa para saber o que aconteceu. Faria piadas para aliviar a tensão.
Mas ela não estava. Nunca mais estaria.
Engoli seco e apertei os punhos.
Seguimos sem pressa por Monterrey, atentos ao redor. O medo
daquele ambiente nos impedia de falar muito, como se nossas vozes
pudessem acordar algo que ainda espreitava nas sombras dos prédios
em ruínas. Mas não havia nada ali. Apenas os rastros do que um dia
foi uma cidade cheia de vida. Cruzamos as ruas vazias e pegamos a
estrada novamente, saindo daquela cidade fantasma sem olhar para
trás.
A viagem seguinte foi exaustiva. Doze horas dentro de um carro.
Doze horas de silêncio interrompido apenas por trocas de turno no
volante, engolidas de água e algumas palavras soltas que logo se
dissipavam. Meus olhos pesavam e a linha do horizonte começava a
se embaralhar. Henrique esfregava o rosto, tentando espantar o
cansaço, enquanto Martin ajeitava a postura no banco, claramente
desconfortável. A água na garrafa já estava quente, e o gosto
metálico deixava uma sensação ruim na boca.
A estrada parecia interminável, uma linha cinza cortando as
planícies vazias e as colinas áridas do norte do México. Pequenas
cidades surgiam ocasionalmente à beira da estrada — todas
igualmente abandonadas, com placas enferrujadas e vegetação
crescendo entre as rachaduras do asfalto. Algumas tinham igrejas
com portas escancaradas, bancos de madeira tombados e estátuas
220
cobertas de poeira. Outras possuíam bares e mercearias com letreiros
caídos, letras faltando e garrafas quebradas espalhadas pelo chão.
A cada quilômetro, o mundo parecia mais esquecido. Em tão pouco
tempo...
Henrique dirigia com expressão fechada, as mãos firmes no volante.
Martin estava no banco do passageiro, quieto, apenas observando a
paisagem. Eu estava no banco de trás, ao lado de Chris, perdido nos
próprios pensamentos.
Estávamos saindo de Jilotepec, quando de repente, notamos
algumas placas pelo caminho. A primeira surgiu repentinamente na
beira da estrada, um pedaço grande de madeira pintado à mão.
"VOCÊ ESTÁ CHEGANDO AO ABRIGO, SOBREVIVENTE!"
O carro ficou em silêncio. Ninguém disse nada, mas era impossível
ignorar como nossos olhares se encontraram rapidamente, como se
estivéssemos esperando por alguma confirmação.
A segunda apareceu logo depois.
"TEMOS ÁGUA E COMIDA PARA TODOS."
Nate soltou um assobio baixo, cruzando os braços:
— Isso é um bom sinal, né?
221
Segui olhando pela janela. Mais alguns quilômetros e outra placa
surgiu, pregada a um poste de luz enferrujado.
"ESTAMOS EM SEGURANÇA. SEM ATAQUES DE
REBELDES!"
— "Rebeldes" — Henrique franziu o cenho — O que isso quer
dizer?
— Pode ser qualquer coisa — Chris respondeu, pensativo — Gente
de dentro que desobedeceu às regras, gente de fora tentando
invadir... Talvez tenha a ver até com o que vimos em Monterrey.
— Faz sentido. Mas "sem ataques" deve significar que, se eles não
tinham proteção, agora têm. Talvez até armas... — completei.
Seguimos mais um pouco e, finalmente, a última placa apareceu.
"NÃO PERMITIREMOS AUTOMÓVEIS NA CIDADE. POR
QUESTÕES DE SEGURANÇA, CHEGUE ATÉ NÓS A PÉ, OU
NOS PROTEGEREMOS."
O carro desacelerou lentamente.
Henrique bufou:
— Que merda é essa?
— Um tom diferente das outras. Parece um aviso — Martin disse,
cruzando os braços.
222
— Parece uma ameaça — corrigi.
— Olha, com o que deve ter acontecido por aqui, não deve ser
seguro pra eles mesmo. É compreensível — ele rebateu.
O silêncio se instalou. Nenhum de nós sabia exatamente o que
pensar. Era um abrigo. Supostamente, havia comida, água e
segurança. Mas, ao mesmo tempo, havia regras. E a maior de todas
era simples: se quiséssemos entrar, precisaríamos confiar. A questão
era: estávamos prontos para confiar?
Olhei pela janela, vendo o sol começar a descer no horizonte,
tingindo o céu com tons alaranjados. Estávamos perto. Tão perto
quanto jamais havíamos estado de um lugar que talvez fosse seguro.
Andando lentamente, ainda no carro, avistamos a entrada da cidade.
Uma grande placa informava:
"Seja bem-vindo! A partir daqui, prossiga a pé com seus
pertences. CARROS, MOTOS E OUTROS SÃO
TERMINANTEMENTE PROIBIDOS. Para sua e para nossa
segurança."
A mensagem era clara e direta.
— Parece que não temos escolha — Henrique quebrou o silêncio.
— Não tô gostando disso — Charles desceu de sua moto, ajeitando a
mochila nas costas.
223
Deixar o carro para trás nos fez sentir ainda mais vulneráveis. Cada
um carregava o que podia, e o silêncio entre nós era um misto de
exaustão e tensão.
As placas ao longo do trajeto continuavam guiando nosso caminho:
"Faltam 5 km para o abrigo."
"Siga pela Autopista Urbana Norte, você verá o hospital militar e
o Lomas Plaza."
"Quando ver um monumento, Petroleum Fountain, acesse a
Paseo de La Reforma, pela esquerda."
Ao contrário do que encontramos antes, a Cidade do México se
encontrava em perfeito estado. Só estava vazia, mas totalmente
preservada, sem sinais de saques ou algo do tipo. Senti um leve frio
na barriga e a sensação estranha de estar sendo observado.
Charles estava quieto, Henrique mantinha os olhos atentos, e Nate
parecia tentar se distrair observando o entorno. Martin caminhava um
pouco à frente, guiando-nos pelo caminho.
O Bosque de Chapultepec se estendeu à nossa frente, lindo, sombrio
e silencioso. Andando pelo bosque, observávamos tudo nos detalhes.
As árvores centenárias se erguiam ao nosso redor com seus galhos
retorcidos, projetando sombras sob a luz fraca daquela manhã. O
vento soprava leve em nossos rostos e fazia as folhas secas no chão
sussurrarem conforme avançávamos pela trilha principal. Por entre as
copas das árvores, conseguíamos vislumbrar pedaços do céu
224
nublado, um cinza melancólico que combinava com a atmosfera do
lugar. Passamos pelo Lago, onde uma pequena ponte de pedra que o
atravessava estava parcialmente desmoronada, e a água parada
refletia nossa imagem de maneira distorcida, como se o próprio
bosque tentasse nos avisar que algo estava errado.
O silêncio era inquietante. Era como se o próprio bosque segurasse
a respiração. Só o barulho do vento e das folhas, nada de pássaros ou
sons de animais. Apenas o som dos nossos passos se perdendo em
meio à nossa própria mente.
A trilha sinuosa começou a se inclinar levemente para cima, e foi
então que nossos olhos captaram o destino final: o Castelo de
Chapultepec. No topo da colina, imponente e isolado, ele dominava a
paisagem. Suas muralhas imponentes e a estrutura reforçada
mostravam que o abrigo não era apenas um refúgio, mas uma
fortaleza. Seguimos, com a esperança de finalmente chegar a um
lugar totalmente seguro.
225
Capítulo 24 — Abrigo 07
Sabe a sensação de se dividir entre alívio e desconfiança? Depois de
tanto tempo na estrada, com as pernas e as costas doendo,
conseguíamos ver melhor os detalhes: arame farpado ao longo do
topo, barricadas bloqueando possíveis acessos alternativos e, por fim,
o grande portão de ferro escuro que marcava a entrada principal.
Perto da entrada, postes com refletores estavam posicionados
estrategicamente, como se a qualquer momento pudessem iluminar
toda a área ao redor. Não havia ninguém visível do lado de fora, mas
o lugar estava longe de parecer abandonado. Tudo era organizado
demais. Contido demais.
A poucos metros da porta, vimos o símbolo. Cravado bem no centro
da estrutura metálica, brilhando sob a luz difusa da manhã, um "B"
prateado, inconfundível. Ben-Corp. O nome ecoou na minha mente
como um lembrete sombrio de tudo que aquela corporação escondia.
Um frio percorreu minha espinha. Uma coisa era certa: dar
meia-volta e sumir dali o quanto antes. Foi então que o medo e a
curiosidade se misturaram dentro de mim... o que poderia haver ali
dentro? Respostas. Eu sabia que era perigoso. Muito perigoso. Mas e
se essa fosse a única chance de entender o que aconteceu? Eles
provavelmente sabiam quem eu era. Quem meu pai era. Mas não
fariam o mesmo que o Richard fez. Será que fariam?
226
— Nate... — murmurei, apontando para o símbolo.
Ele franziu o cenho, demorando alguns segundos para perceber o
que eu estava vendo. Seus olhos se arregalaram em choque. Henrique
deu um passo para trás, xingando baixinho. Charles fechou os
punhos e puxou a faca da cintura, como se já estivesse se preparando
para o pior. Mas era tarde demais.
De repente, um holofote se acendeu no alto do muro. Em seguida,
outro. E mais outro. A luz branca cortou o bosque ao redor e ofuscou
nossos olhos, transformando sombras em figuras distorcidas. O som
dos portões destravando rugiu pelo pátio, seguido pelo barulho
ritmado de botas pesadas no chão lamacento do lado de fora.
Foi quando percebemos: já estávamos cercados. Armas foram
erguidas. Pelo menos uma dúzia de guardas, todos usando o mesmo
uniforme preto e blindado, com capacetes cobrindo os rostos. No
peito, o mesmo maldito símbolo da Ben-Corp. O que era aquilo?
Uma armadilha?
Engoli seco e olhei ao redor, observando cada um de nós, até que
percebi a ausência de alguém.
— Henrique, cadê o Martin?
— Não sei... ele tava bem atrás de mim — ele respirou fundo,
tentando se conter. Perder mais um de nós naquela altura era duro
demais para ele.
227
E, no meio deles, como um espectro emergindo das sombras, ele
saiu. Deu alguns passos à frente com as mãos relaxadas nas laterais
do corpo. Seu olhar encontrou o meu, e ali não havia surpresa.
Nenhuma hesitação. Nenhuma vergonha. Ele sempre esteve com
eles, por algum motivo.
O sangue fervia dentro de mim. Eu queria avançar, queria
esmurrá-lo até entender o porquê. Mas não havia tempo.
— Ajoelhem-se. Larguem as armas — a voz firme de um dos guardas
cortou o silêncio.
Henrique praguejou entre dentes, hesitou, mas seguiu a ordem,
abaixando-se lentamente. Chris fez o mesmo. Nate jogou uma faca
no chão. Eu vi Charles olhar ao redor, varrendo o ambiente em busca
de opções, qualquer brecha. Mas não havia saída fácil.
Antes que pudéssemos reagir, fomos agarrados e forçados ao chão.
Algemas de plástico foram apertadas em nossos pulsos. Um dos
soldados avançou contra Charles primeiro, tentando agarrar seu
braço. Charles girou o corpo no último segundo, fazendo o guarda
tropeçar, e o golpeou no nariz com o cotovelo. O homem cambaleou
para trás com um grunhido, fazendo-o sangrar.
— Não atirem! — Martin ordenou.
Outro soldado veio em seguida, e Charles, ágil, desviou, enfiando o
ombro no peito do atacante e derrubando-o no chão. Ele sacou a faca
da cintura e cortou uma das tiras da mochila, jogando-a no rosto de
228
um terceiro soldado para distrair. Não deu tempo para pensar, então
ele correu. Charles disparou na direção oposta, descendo a trilha
íngreme pelo lado do castelo, onde uma das antigas áreas de serviço
parecia ter desabado. Era uma descida perigosa, cheia de escombros,
pedras soltas e vegetação densa. Um tiro passou de raspão pelo seu
braço, rasgando sua jaqueta. Ele segurou um grito e jogou-se para o
lado, rolando pelo barranco, deixando-se cair entre galhos secos e
terra solta.
— Eu mandei não atirar! Vão atrás dele! — Mais uma vez, Martin
ordenou.
Os soldados olharam para baixo. Nenhum sinal de movimento.
Apenas a escuridão do barranco e a trilha aberta pela queda.
Um dos guardas pegou Martin pelo pescoço do casaco e disse — Por
que não deixou atirarmos? Ele escapou por negligência sua.
— Ele morto não tem nenhuma utilidade — Ele respondeu com
frieza, ajeitando sua gola — E não chame a incompetência dos seus
homens de negligência minha. Mais de dez contra um, e ainda assim
deixaram-no escapar. Mas fique tranquilo, é impossível ele andar
pela cidade sem o encontrarmos. Agora cuide dos outros.
Fomos arrastados para dentro. A travessia pelos portões do castelo
não foi o que esperávamos. Do lado de fora, tudo parecia frio e
hostil, mas assim que passamos pelos portões, a atmosfera mudou
completamente. O castelo havia sido transformado num abrigo — e
não em uma prisão. Pelo menos, não para quem vivia ali.
229
As ruas dentro do castelo estavam cheias de gente. Pessoas
caminhavam tranquilamente, algumas carregando sacolas, outras
conversando em grupos. Havia barracas organizadas ao longo de um
pátio, vendendo frutas, roupas e até pequenos aparelhos eletrônicos.
Crianças corriam entre os adultos, rindo, brincando, como se aquele
lugar fosse apenas mais uma cidade comum. Havia escola. Trabalho.
Rotina. A normalidade da cena era desconcertante. Estavam ou não
mentindo? Essas pessoas não sabem de nada, pensei. Elas pareciam
contentes e livres.
Mas para nós, não havia essa liberdade.
Fomos guiados por corredores amplos, com os guardas nos
forçando a seguir adiante. Pessoas olhavam conforme passávamos,
algumas com curiosidade, outras desviando o olhar rapidamente,
como se soubessem o que acontecia ali. "Novos moradores indo para
a triagem!" Ouvi um comemorar.
O caminho nos levou até um grande prédio ao fundo do castelo,
onde uma estrutura reforçada se destacava. Uma entrada discreta,
mas bem protegida, dava acesso a um andar subterrâneo. Descemos.
O ar se tornava mais pesado conforme avançávamos para baixo. As
paredes de pedra foram dando lugar a corredores metálicos,
iluminados por luzes brancas e frias. O som das nossas botas ecoava
pelo piso de concreto. Lá embaixo, a energia era diferente. O silêncio
era denso, quebrado apenas pelo som distante de teclados sendo
pressionados e o zumbido das máquinas. Eu senti que as paredes iam
me esmagar a qualquer momento, e o ar parecia rarefeito.
230
Atravessamos uma sala onde diversas pessoas trabalhavam diante
de monitores enormes, analisando dados, mapas e gráficos. A
tecnologia ali era avançada demais para um simples "abrigo". Isso
não era só um lugar de refúgio. Isso era algo muito maior. E eu não
estava triste com aquilo, pelo contrário.
Fomos levados para uma ala onde salas de interrogatório estavam
alinhadas, cada uma separada por portas de aço reforçadas. Eu não
resisti. Não havia motivo. O plano deles já estava em andamento e,
de qualquer forma, eu queria respostas.
"Categorização e Triagem", dizia a placa onde entramos. Meu
coração batia forte no peito numa mescla de ansiedade e curiosidade,
e eu sentia faíscas nos meus olhos.
Quando a porta da sala se abriu, fomos empurrados para dentro. O
ambiente era ainda mais frio que os corredores, iluminado apenas por
um painel digital na parede. Havia cadeiras de metal enfileiradas, e
uma mesa no centro. E atrás dessa mesa, sentado, estava Martin. Ele
nos observava com calma, como se estivéssemos apenas em uma
reunião comum. Mas eu via no olhar dele algo diferente. Uma frieza
calculada.
Ele sorriu.
— Bem-vindos ao abrigo 7.
A mulher ao seu lado nos entregou um cálice com um líquido
incolor e inodoro.
231
— Bebam. Só um relaxante para acalmar a ansiedade de vocês.
Espero que se sintam em casa. Agora, iniciaremos o processo de
categorização para entendermos melhor cada um de vocês e suas
habilidades. Como podem nos ajudar como comunidade, ou se
representam um risco para nós. Precisaremos separá-los e fazermos
perguntas comuns, como nome, idade, local de nascimento, entre
outras coisas.
Hesitei por um instante, analisando o líquido incolor que refletia a
luz fria da sala. Mas, no fim, engoli tudo de uma vez, assim como os
outros. Não havia escolha. Logo depois, fomos separados, levados
um a um para diferentes salas. E o primeiro a ser "categorizado" fui
eu.
Sozinhos, Martin se sentou à minha frente e cruzou as mãos sobre a
mesa. Seus olhos analisavam cada detalhe do meu rosto com uma
calma quase irritante. Eu não sabia o que sentir. Ódio? Frustração?
Decepção? Uma mistura de tudo isso fervia dentro de mim, mas eu
não podia deixar transparecer. Fato era que eu confiara nele. Mesmo
sem conhecê-lo profundamente, mesmo sem ter todas as razões para
isso, em algum momento daquela jornada eu o considerei um aliado.
E agora, ali estava ele, do outro lado da mesa, como se nada tivesse
acontecido. Como se tudo isso fosse normal. A traição doía, mas
mais do que isso, me confundia. Por quê? Desde quando ele estava
com eles? Isso sempre fez parte do plano dele? E, acima de tudo, o
que ele queria agora?
Respirei fundo, tentando acalmar a tempestade dentro de mim.
Apesar da pouca proximidade, em algum momento eu soube que o
232
protegeria se fosse necessário. Mas protegê-lo de quê? De quem? Ele
realmente precisava ser protegido ou eu tinha sido apenas um tolo
que não enxergou a verdade desde o começo?
Ele ia me contar. Ou, se não quisesse, eu ia descobrir. De um jeito
ou de outro.
233
Capítulo 25 — Fora do meu Controle.
O silêncio na sala era sufocante. Eu parecia ouvir o som do meu
próprio sangue correndo pelas veias.
Sentado do outro lado da mesa, Martin parecia confortável demais,
como se aquele encontro não fosse nada além de um protocolo
rotineiro. Sua postura era impecável, sua expressão neutra, seus
olhos analisavam cada detalhe meu com um olhar irritante.
Eu, por outro lado, sentia cada músculo do corpo tenso. As algemas
de plástico apertavam meus pulsos, mas isso era o menor dos
incômodos. O que realmente me corroía era a presença dele.
Martin pigarreou e ajustou os papéis à sua frente.
— Nome.
Permaneci em silêncio. Ele ergueu as sobrancelhas, mas não
demonstrou surpresa. Apenas marcou algo na folha e continuou.
— Idade.
— Não lembro — Minhas mãos se fecharam em punhos.
— Local de nascimento.
— Não sei, eu era muito novo pra lembrar. Num hospital, talvez?
234
Martin soltou um suspiro leve e finalmente me olhou nos olhos —
David... Facilite as coisas para você mesmo.
Minha mandíbula travou. Facilitar? Depois de tudo, era isso que ele
tinha a dizer? Me inclinei um pouco para frente com os olhos fixos
nele, estudando cada reação sua.
— Tudo bem, eu vou te soltar. Eu sei que não vai ser necessário —
ele retirou a chave do bolso e a girou, libertando meus pulsos —
Você precisa falar. É um registro. Mesmo que eu já saiba.
— Dane-se o registro. Eu quero respostas! O que você fez? — Minha
voz saiu baixa, mas carregada de algo que nem eu conseguia nomear
direito. Raiva. Traição. Desgosto.
Martin não piscou. Não desviou o olhar. Ele apenas sorriu de lado,
daquela forma enigmática que surgira assim que chegamos no
castelo. O rapaz que conhecíamos parecia ter sido engolido por esse
monstro.
— Estou apenas fazendo o meu trabalho.
Soltei uma risada seca e balancei a cabeça.
— Seu trabalho? — cuspi a palavra como se fosse veneno. — Desde
quando isso aqui faz parte do seu "trabalho"?
Ele girou a caneta entre os dedos, pensativo — Desde antes de você
perceber que estava sendo observado.
235
Meu coração bateu forte. Aquela frase tinha peso. Significava algo
maior, mas eu certamente estava preparado para lidar. A raiva dentro
de mim crescia a cada segundo, mas eu sabia que não podia me
deixar levar. Não ali. Não agora. Então respirei fundo e mantive o
olhar firme no dele.
— Você não acha que eu mereço uma resposta?
Martin soltou um suspiro, longo e calculado, antes de apoiar os
cotovelos na mesa. Seus dedos se entrelaçaram, como se estivesse
prestes a me conceder um favor — Tudo bem, David. Mas depois, eu
preciso que você e seus amigos colaborem. Não vamos fazer nada de
mal a vocês.
— Não quero pagar pra ver.
— Você não precisa — me cortou sem hesitar, com um tom firme,
quase impaciente.
— Então fala. Estou esperando — cruzei as pernas e os braços.
— Você sabe que emoções muito fortes deixam o CXZ vulnerável.
Foi assim que eu te achei. Vocês estavam desesperados com aquele
menino que encontraram e sem rumo com tudo que tava
acontecendo. Daí, eu já tinha encontrado a Milla e o Henrique, e fui
até perto de vocês, pedindo ajuda pra achá-los.
— Então, desde o começo...
Martin sorriu de lado, sem desviar o olhar.
236
— Desde antes do começo, David.
Um silêncio denso se instalou entre nós. Meu coração batia forte, e
por um momento, só conseguia ouvir isso.
— Eu te vi entrar na Central de Monitoramento de Detroit. Sei quem
é seu pai, seu irmão. Eu precisava trazer você pra cá, esse era meu
único objetivo. É tudo que eu posso te dizer.
Engoli seco — E agora?
Ele não respondeu de imediato. Apenas me observou, como se
estivesse esperando que eu mesmo chegasse à resposta.
— Agora — ele disse por fim, recostando-se na cadeira — é a parte
em que você decide se quer entender tudo... ou continuar lutando
contra algo que já está fora do seu controle.
A tensão se dissipou aos poucos, não porque eu estivesse mais
calmo, mas porque já não fazia diferença resistir naquele momento.
No fim, acabei respondendo às perguntas de Martin, uma a uma.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Quando ele terminou de anotar, empurrou um crachá na minha
direção. Meu nome estava impresso ali, como se eu já pertencesse
àquele lugar.
— Seu relatório será enviado para Yolanda. Ela vai cuidar do resto.
237
Já estava me virando para sair quando ele acrescentou, num tom
casual.
— Sabe, David... Eu me surpreendi muito com você. Você era um
menino instável e apavorado e agora claramente amadureceu — Ele
inclinou a cabeça de leve — Você vai ser muito útil aqui, desde que
não nos dê dor de cabeça.
Parei por um segundo, mas não me dei ao trabalho de responder.
Ele realmente achava que eu ficaria quieto? Bom, era bom que
pensasse isso mesmo. Fui escoltado até o andar superior, onde
encontrei a mesma mulher que nos entregou o cálice antes. Ela
segurava minha mochila e o resto das minhas coisas.
— Essa é sua casa agora — Ela me entregou uma chave e abriu a
porta do quarto — Suas coisas estão todas aí. Não mexemos em
nada. Mas, se houver algo que possa colocar a segurança do abrigo
em risco, peço que nos entregue.
O quarto não era luxuoso, mas também não era o que eu esperava
de uma prisão. Era aconchegante... talvez até confortável demais.
— Vou analisar seu relatório e volto mais tarde para designar suas
atividades diárias. Em breve, Pedro, seu guia, te mostrará o local.
— Cadê meus amigos? — perguntei, antes que ela pudesse sair.
Ela hesitou por um instante — Martin determinou que vocês não
podem ficar juntos. Cada um será acomodado separadamente.
238
— Eu vou poder vê-los? — Minha garganta secou. — E o Nathan?
Eu o conheço desde criança. Nem ele pode ficar aqui comigo? Tem
duas camas, podemos dividir o quarto.
— Receio que não poderá vê-los por enquanto. Quanto ao Nathan,
vou ver o que posso fazer por você, Sr. Hall.
— É só isso que eu peço. Ele é minha única família.
Ela assentiu, e por um breve momento, vi compreensão em seu
olhar.
— Descanse. Você precisa descansar.
Assim que a porta se fechou, eu fiz exatamente o que ela sugeriu.
Mas o descanso durou menos do que eu esperava. Algumas horas
depois, alguém bateu na porta com energia.
— Ei, dorminhoco! Hora de conhecer seu novo lar!
A voz era animada, leve demais para combinar com o clima daquele
lugar. Me levantei com um suspiro e abri a porta. Do outro lado, um
jovem alto e esguio me esperava com um sorriso largo. Ele tinha a
pele morena, olhos castanho-esverdeados brilhando com entusiasmo
e cabelos ondulados num corte bagunçado, como se estivesse sempre
em movimento. Vestia uma jaqueta de couro envelhecida por cima de
uma blusa cinza, calças cargo gastas e botas pesadas. Diferente da
seriedade dos outros, ele parecia confortável ali, como se fosse dono
do castelo.
239
— Sou Pedro. E você é David Hall, certo?
— Pelo visto, todo mundo já sabe quem eu sou.
Pedro riu.
— É o que acontece quando alguém novo chega. Mas relaxa, depois
da primeira semana ninguém mais liga. — Ele deu um passo para
trás e fez um gesto teatral com os braços. — Agora, vem comigo. Vou
te mostrar onde você caiu.
Saímos pelo corredor e, pela primeira vez, tive a chance de observar
melhor o castelo por dentro. Pedro me guiou pelo castelo, descendo
uma escadaria larga de pedra. O calor do México no fim de julho
tornava o ar seco, mas o interior da fortaleza era surpreendentemente
fresco, graças às paredes grossas e às sombras projetadas pelas
torres. O corredor principal se abria em um vasto salão, com longas
mesas de madeira onde algumas pessoas almoçavam. O cheiro de
comida caseira pairava no ar — feijão, tortilhas, carne cozida e
pimentas. O movimento era intenso, mas organizado. Homens e
mulheres de todas as idades iam e vinham, carregando caixas,
distribuindo suprimentos e conversando em tons baixos. Crianças
brincavam em um canto sob o olhar atento de algumas mulheres que
pareciam responsáveis por elas. Nada ali lembrava uma organização
militar. Era mais parecido com uma vila improvisada dentro das
muralhas de um castelo.
— Ali é o refeitório — disse, com um sorriso largo. — A comida vem
direto da cozinha nos fundos, onde um grupo revezado prepara as
240
refeições diárias. Quase tudo é feito aqui, menos o que conseguimos
em expedições.
Observei uma mulher cortando legumes em uma bancada
improvisada. O cheiro de temperos no ar dava uma sensação estranha
de normalidade, como se aquilo fosse um refúgio seguro. Mas eu não
me deixaria enganar tão fácil.
— E os suprimentos? Vocês pegam de onde?
— As expedições trazem o que precisam. Quem cuida das expedições
são os soldados. É a única função que nenhum de nós pode alcançar,
só quem vem lá de fora, da corporação. Eles protegem os muros,
saem em expedições e cuidam de conflitos.
Eles passaram por uma ala onde havia um pequeno hospital
improvisado. Algumas macas estavam ocupadas, e um homem idoso,
vestindo roupas leves, examinava um paciente com um corte no
braço. Frascos com remédios e instrumentos médicos estavam
organizados em prateleiras improvisadas.
— Nosso médico se chama Julio — Pedro comentou. — Ele sabe de
tudo um pouco. E quando alguém precisa de algo mais sério,
tentamos conseguir.
Apenas assenti, analisando ao redor. Não parecia um esconderijo de
uma corporação sinistra. Parecia... comunitário. Mas eu sabia que a
verdade nunca era tão óbvia.
241
Seguimos para um pátio interno, onde um grupo lavava roupas em
baldes de água trazidos de um poço. Outros organizavam caixas de
suprimentos. Algumas pessoas estavam sentadas à sombra,
costurando roupas ou consertando objetos.
— Cada um aqui tem uma função. Tem quem cozinhe, quem cuide da
segurança, quem faça as expedições. Todo mundo contribui. Vocês
vão fazer parte disso.
— E você? O que faz aqui?
Ele deu de ombros.
— Um pouco de tudo. Mas, principalmente, sou guia. Mostro o lugar
para os novatos, ajudo quem precisar... e dou umas escapadas
quando dá pra dar um respiro.
Passei os olhos pelas torres do castelo, pelas janelas estreitas e pela
muralha que cercava a fortaleza.
— Podemos sair daqui?
Pedro parou de andar por um instante e coçou a nuca.
— Bom... por que alguém ia querer sair? Lá fora tá cada vez mais
perigoso. Ninguém nunca quis sair. Escapadas que eu digo são aqui
dentro mesmo.
Minha expressão se fechou.
242
— Mas, se eu quiser, vou ser impedido?
Dessa vez, ele não respondeu. O sorriso havia sumido do rosto. Pela
primeira vez, Pedro parecia sem graça. Ele não sabia a resposta. Ou
talvez soubesse, mas não queria dizer.
— Ei, cara, relaxa. Vamos continuar. Ainda tem muita coisa pra te
mostrar.
Continuamos o tour, mas algo já estava claro: aquele castelo podia
parecer um abrigo, mas não significava que era um lugar livre.
Depois de um tempo, Pedro me levou até um corredor mais
reservado, onde Yolanda já me esperava do lado de fora de uma sala.
Ela segurava uma prancheta com alguns papéis e, ao me ver, fez um
gesto para que eu entrasse.
— Sentado, David.
Me acomodei em uma cadeira simples de metal, enquanto ela
folheava o relatório. Finalmente, levantou os olhos para mim.
— Agora que você foi registrado oficialmente, temos suas
informações no sistema — Ela colocou um dos papéis sobre a mesa,
virado para mim — Revise se quiser.
Me inclinei para olhar.
Nome completo: David Peterson Hall.
Data de nascimento: 20/09/2006.
243
Idade: 16 anos.
Altura: 1,80m
Peso: 65kg
Tipo Corporal: Magro, com alguns músculos. Pouca definição.
Cor dos olhos: pretos.
Cor dos cabelos: Castanho Claro.
Cor da pele: branco.
— Inteligência e destreza — Yolanda leu em voz alta — Você
aprende rápido, tem raciocínio lógico e é observador. Com base
nisso, será designado para duas funções: três meses de escola para
aprimorar conhecimentos técnicos e um trabalho na oficina do
abrigo.
Levantei os olhos para Yolanda.
— Escola? Oficina? Eu mal sei dirigir. E se eu me recusar?
— Não se preocupe. Não é exatamente o que você está pensando.
Mas temos regras aqui. Todos os novos passam por um período de
adaptação, onde precisam aprender o que for necessário para se
encaixar no sistema.
Ela fechou a prancheta com um clique seco. Eu não sabia o que ali
era uma escolha minha ou não, mas por hora, só me restava aceitar.
244
Capítulo 26 — Lar Doce Lar
— Que merda! — Minha mão bateu contra a mesa de canto com um
estrondo seco.
Eu estava ansioso. Rangia os dentes, andava de um lado para o
outro, roía as unhas e arrancava os cabelos. Havia se passado um dia
inteiro e eu não tinha notícia nenhuma dos meus amigos, tampouco
do meu irmão. Mais uma vez, eu não sabia se ele estava vivo. Eu
acreditava em suas habilidades, mas essa cidade parecia
completamente controlada pela corporação. Parecia impossível ele
sair sem ser pego. Charles poderia ser bom, mas ninguém era
invencível.
O fato é que eu precisava me preparar para meu primeiro
treinamento na oficina do abrigo, e eu não estava nenhum pouco
afim. Apertei os olhos, esfreguei as têmporas e cocei o cabelo uma
última vez. Estendi a mão para a maçaneta, decidido a sair, mas antes
que eu pudesse tocá-la, a porta se abriu.
— Bom dia, Sr. Hall. Como dormiu essa noite? — Yolanda me olhou
com um pequeno sorriso enquanto ajeitava os cabelos úmidos, ainda
com vestígios de creme de pentear.
— Eu não dormi. Estou longe dos meus amigos, preso num lugar
estranho, cercado de gente estranha — Passei a mão pelo rosto,
245
irritado — Eu tenho fobia social, sabia? Se eu ficar longe deles, eu
vou morrer na primeira semana.
— Não seja tão dramático, David, eu sei que você não vai morrer —
ela estendeu o braço em direção à porta, indicando que eu deveria
sair — Vamos?
— Tenho escolha? — soltei, derrotado.
— Claro. Você pode limpar as fezes dos animais — Yolanda tampou
a boca, tentando esconder um sorriso divertido.
Me mantive sério
— A propósito, estamos organizando a papelada, e o Sr. Baker se
juntará a você, como pediu. Martin emitiu a permissão.
— O que? Sério? — Dei um salto, empolgado — Eu preciso arrumar
as coisas aqui então!
— Pode ficar tranquilo, já pedi que alguém cuidasse disso.
— E...
— E... nada. Não vamos recolher nenhum pertence, vai estar tudo aí,
só que de forma organizada. Vamos, por favor? Iglesias está te
esperando.
Yolanda me conduziu pelos corredores de pedra do castelo,
iluminados por luzes amareladas e algumas lanternas de emergência
246
presas nas paredes. O piso frio ecoava a cada passo, e o ar carregava
um cheiro de ferrugem e óleo queimado conforme nos
aproximávamos do que parecia ser a oficina.
— Esse é o Módulo 2, certo? — perguntei, tentando pescar alguma
informação sem parecer muito perdido.
— Exato — ela confirmou, desviando de um carrinho cheio de
ferramentas — O abrigo é dividido em cinco módulos, além do
pavilhão militar. Cada módulo tem sua função, mas você só precisa
se preocupar com o seu por enquanto.
— Certo... e as alas? Como isso funciona?
Ela parou em frente a uma porta de metal e virou para mim com um
sorrisinho — Por que tanto interesse na estrutura do abrigo?
Pensando em fugir?
— Só quero entender onde estou. Entender como tudo funciona.
Ela ergueu uma sobrancelha, como se avaliasse minha intenção,
mas então deu de ombros.
— O Módulo 2 é dividido em três alas principais. Tem a ala "Alfa",
onde ficam as oficinas e os laboratórios. É aqui que você vai
trabalhar. A ala "Beta", que é onde você e os outros moradores
ficam. E a ala de distribuição, que chamamos de ala "Gama", onde
chegam suprimentos e tudo é armazenado antes de ser distribuído
pro resto do abrigo.
247
— E os outros módulos? Posso visitar?
— Cada um cuida de uma parte essencial do funcionamento do
abrigo, mas não temos acesso aos outros. Cada módulo é isolado,
então ninguém fica circulando entre eles sem permissão.
A oficina ficava em um dos andares inferiores do módulo, e o
cheiro de graxa e óleo queimado aumentava conforme descíamos
uma escadaria de pedra reforçada com placas metálicas. O calor ali
era mais intenso, e o ar vibrava com o som de motores sendo testados
e soldas crepitando. Quando Yolanda abriu a porta de metal, me
deparei com um espaço amplo, lotado de equipamentos e veículos
em diferentes estados de montagem e conserto.
O ambiente era barulhento, cheio de faíscas voando de soldadores,
martelos ecoando contra metal e vozes roucas trocando instruções. O
teto alto era sustentado por vigas de ferro, de onde pendiam
luminárias industriais que lançavam uma luz alaranjada sobre o
espaço. O chão estava manchado de óleo e coberto de ferramentas
espalhadas entre motores desmontados, peças de reposição e
circuitos. O que mais chamava atenção eram os veículos: havia jipes
blindados, caminhões de transporte, motocicletas reforçadas e até um
carro de expedição com um enorme aríete preso ao para-choque.
Alguns estavam sem rodas, outros sem capô, e outros eram apenas
esqueletos metálicos esperando para serem reconstruídos.
No meio disso tudo, estava Iglesias, um homem corpulento, ombros
largos, braços grossos cobertos de cicatrizes e um macacão preto
manchado de graxa. A barba cerrada estava salpicada de fuligem, e
248
seus olhos avaliavam cada detalhe da oficina com um olhar duro e
experiente.
— Iglesias! Bom dia! — Yolanda chamou acima do barulho —
Trouxe o novato!
Ele se virou lentamente, limpando as mãos em um pano sujo, e me
encarou de cima a baixo.
— Esse é o Hall?
— Sim, senhor — Yolanda respondeu, antes de se despedir com um
aceno e me deixar sozinho.
Fiquei ali parado, sem saber se deveria falar primeiro. Iglesias
soltou um suspiro pesado e cruzou os braços.
— Você já trabalhou com mecânica antes?
— Já troquei uma lâmpada.
Ele ergueu uma sobrancelha, depois balançou a cabeça.
— Então vamos começar do básico.
Ele me guiou pela oficina, explicando de forma seca e objetiva
enquanto apontava para diferentes setores.
— Aqui é a ala técnica do Módulo 2. É onde consertamos e
preparamos os veículos de expedição para buscar suprimentos e
patrulhar os arredores. Também lidamos com o reparo de qualquer
249
equipamento essencial do abrigo: geradores, purificadores de água,
sistemas elétricos, tudo.
Passamos por uma bancada onde dois mecânicos desmontavam o
motor de um caminhão. Iglesias apontou com o queixo.
— Esse aí que tá sendo refeito era de um veículo que foi metralhado
na última expedição. Os jipes são blindados, mas nada aguenta fogo
pesado por muito tempo.
Continuei observando enquanto ele me conduzia até uma seção
onde engrenagens e circuitos estavam sendo organizados por
categorias.
— Esse é o depósito de peças, e é aqui que você vai começar. Quero
tudo identificado, separado e pronto pra uso quando precisarmos.
— Você quer que eu seja estoquista? — perguntei, sem esconder a
frustração.
— Quero que você aprenda como cada peça funciona antes de sair
mexendo nos carros — ele retrucou. — Agora, vamos ao resto.
Caminhamos até uma área onde uma fileira de bancadas de trabalho
ficava lotada de ferramentas organizadas em painéis nas paredes.
Vários mecânicos trabalhavam desmontando e reconstruindo peças,
testando motores e ajustando componentes elétricos.
— Cada mecânico aqui tem uma especialização. Alguns só lidam
com motores, outros com armaduras dos veículos, outros com
250
circuitos eletrônicos e até sistemas de comunicação. Não adianta
saber só apertar parafuso, tem que entender o que tá consertando.
Ele pegou uma chave de boca e jogou na minha direção. Peguei no
reflexo, quase deixando cair.
— Vou te dar uma chance. Troque o filtro de óleo daquele jipe ali. Se
conseguir, depois te passo algo mais complicado. E você se livra do
estoque.
Depois de mais de uma hora sujando as mãos de óleo e me ferrando
para entender como funcionava a mecânica básica de um jipe,
Iglesias voltou para conferir o que eu tinha feito.
— É... Não está completamente errado, mas também não está certo
— disse, examinando o motor — Pra um novato, não foi tão mal.
Me afastei, limpando a testa suada com o antebraço.
— Você mencionou que esse é o Módulo 2. Como os outros são
divididos?
Ele me lançou um olhar avaliativo, como se decidisse o que poderia
ou não me contar.
— O abrigo tem cinco módulos. O Módulo 1 abriga a
administração, onde ficam aqueles que comandam o abrigo e tomam
as decisões importantes. O Módulo 2, onde estamos, é o técnico. É
aqui que lidamos com engenharia, manutenção e qualquer coisa
mecânica ou estrutural que mantenha esse lugar funcionando.
251
— Então, essa é a única ala mecânica do abrigo inteiro?
— Sim. O Módulo 3 é o científico, onde os pesquisadores e médicos
trabalham com estudos, tratamentos e qualquer coisa que envolva
tecnologia avançada ou biologia. O hospital fica na divisa entre o
nosso módulo e o módulo 3. O módulo 4 cuida da produção de
alimentos e recursos, desde a purificação da água até o
processamento de suprimentos essenciais. O módulo 5... — ele
hesitou — ... não é da sua conta.
Franzi a testa.
— E o pavilhão militar? Yolanda mencionou ele.
Iglesias resmungou, voltando a apertar os parafusos do motor como
se o assunto não fosse relevante.
— Só os soldados têm acesso ao pavilhão.
— E como alguém entra para a segurança do abrigo?
Ele riu, um som curto e sem humor.
— Ninguém entra.
— Como assim?
Ele largou a ferramenta e me encarou.
— O abrigo não treina seguranças. Só os soldados carregam armas,
e ninguém daqui pode se tornar um deles.
252
— Mas então... de onde eles vêm?
Ele pegou outro pano sujo e limpou as mãos com calma antes de
responder:
— Eles vêm de fora.
— De onde exatamente?
— Ninguém sabe. Por que tantas perguntas? Volte ao trabalho. Isso
tudo que eu te contei você vai aprender na escola.
Iglesias voltou a trabalhar como se o assunto estivesse encerrado.
Depois de um longo dia separando e identificando peças, meus
braços estavam pesados, meu pescoço doía, e tudo que eu queria era
sair dali. Iglesias finalmente me dispensou no fim da tarde.
— Pode ir, Hall.
Suspirei e comecei a me afastar, mas ouvi alguns risos abafados
atrás de mim. Me virei de leve e vi alguns dos mecânicos trocando
olhares cúmplices.
— Parem com essa besteira — Iglesias os repreendeu, sem nem
precisar erguer a voz — Todos vocês já foram novatos um dia. Ah,
quase esqueci, Hall. Amanhã é sua folga da oficina.
Olhei para ele, confuso.
— Como assim?
253
— Sua aula começa amanhã.
— Ah, ótimo, tinha até me esquecido dessa merda. Alguma chance de
eu dizer que prefiro ficar aqui?
Iglesias riu baixo.
— Nenhuma. Agora sai daqui antes que eu mude de ideia e te faça
trabalhar até a noite.
Voltei acompanhado por um homem de meia-idade que me levou de
volta até meu quarto sem dizer sequer uma palavra. Agradeci, afinal
ainda não sabia andar naquele labirinto. Meu quarto parecia outro
lugar quando voltei. Antes, era uma bagunça de lençóis embolados,
chão empoeirado e móveis desalinhados, como se um furacão tivesse
passado por lá. Como eu baguncei tanto em um só dia? Agora, tudo
estava limpo, organizado. As camas estavam arrumadas com lençóis
esticados e cobertores dobrados na ponta. Havia um armário de metal
discreto no canto e uma pequena escrivaninha com uma cadeira
encostada. A luz alaranjada do entardecer passava pela janela
estreita, refletindo no chão de azulejo gasto.
Ajeitei os ombros, ainda sentindo a roupa grudenta de suor e graxa.
O cheiro de metal e óleo impregnava minha pele. Minhas mãos
estavam manchadas de preto, as unhas cheias de sujeira, e eu sentia o
corpo inteiro dolorido. Passei as mãos pela barra da camisa e a puxei
para cima lentamente, sentindo o tecido áspero roçar contra a pele
antes de jogá-la de lado. O ar frio do quarto contrastou com o calor
do meu corpo, arrepiando minha nuca. Deslizei os dedos pelo
254
abdômen marcado, analisando meu reflexo no espelho, seguindo as
linhas das cicatrizes que cortavam minha pele como lembranças
gravadas à força. Desabotoei a calça com um único movimento,
deixando que deslizasse pelas minhas pernas enquanto tirava as
botas. Meus músculos estavam tensos do trabalho pesado, as veias
sobressaindo nos braços e antebraços cobertos por um fino rastro de
sujeira e suor. Com um último suspiro cansado, passei os dedos pelo
cabelo úmido de suor, peguei uma toalha e segui para o chuveiro.
Entrei debaixo do jato, sentindo a tensão sair dos músculos aos
poucos. Apoiei a testa contra a parede fria e fechei os olhos. A água
escorria pelas cicatrizes, algumas ainda sensíveis ao toque, enquanto
eu esfregava a graxa da pele. O vapor tomava conta do ambiente,
abafando os ruídos do lado de fora. Por um momento, eu quase
esqueci onde estava.
Fiquei ali por um tempo, apenas sentindo a água quente deslizar
pelo meu corpo cansado, até que finalmente desliguei o chuveiro.
Peguei uma toalha e a enrolei na cintura, saindo do banheiro. E foi aí
que quase me enfartei.
— Mas que merda! — Dei um pulo para trás ao ver Nathan no
quarto, largado na minha cama como se estivesse ali o dia inteiro.
Nate arqueou a sobrancelha, segurando o riso.
— Você não bate antes de entrar, não?
Ele deu de ombros e apontou — Me deram a chave.
255
Passei direto por ele e peguei minhas roupas o mais rápido possível.
Eu ainda estava pingando, e Nate assistia à cena como se fosse um
programa de TV.
— Relaxa, Dave. Se soubesse que ia ganhar um show, teria trazido
pipoca.
— Vai à merda — resmunguei, tentando vestir a roupa o mais rápido
possível.
— Tá malhando o bumbum ultimamente?
Olhei para ele, exausto, e soltei:
— Não, mas pelo visto tá chamando sua atenção, né?
Nate caiu na gargalhada, batendo no armário.
— Ah, cara... é bom estar com você de novo. Pelo que disseram,
achei que nunca mais ia te ver. Me diz aí, qual o plano?
— Plano de quê?
— Ué? Não sei, sair daqui? Investigar algo aqui dentro? Ou vai me
dizer que essa fachada de abrigo te enganou?
256
Capítulo 27 — Módulo, Setor, bla, bla
bla bla.
Nate ajustou todas as suas coisas em silêncio, enquanto eu levava
minhas roupas de trabalho até a lavanderia. Quando voltei, ele ainda
estava sentado na beira da cama, olhando fixamente para um ponto
qualquer, como se estivesse preso em um pensamento distante.
— Me conta, eu quero saber o que aconteceu com você. — Quebrei
o silêncio, puxando minha cadeira e me sentando de frente para ele.
Ele balançou a cabeça devagar — Depois do interrogatório e do tour
pelo abrigo, me designaram para um trabalho. Ia trabalhar em
algum setor de pesquisa do Módulo 3, mas não cheguei a fazer o
treinamento porque... — Ele me olhou com um ar divertido —
Porque alguém não consegue ficar longe de mim.
— Foi mal, espero que te designem o pior emprego possível aqui. —
Revirei os olhos.
Ele riu baixinho e se jogou para trás, apoiando a cabeça nos braços
— De qualquer forma, é tudo temporário — seu tom de voz mudou
levemente, ficando mais sério — Temos aula amanhã, né? Que
droga.
257
— Eles deviam ter avisado isso na transmissão, eu nunca teria vindo
pra cá — Soltei um suspiro longo antes de continuar — Nate,
precisamos achar o Henrique e o Chris. Temos que dar um jeito de
sair daqui.
Ele ficou em silêncio por um instante, encarando o teto. — É. Mas
acho que precisamos saber o que acontece aqui primeiro. Eu tenho
certeza de que isso não é só um abrigo.
Me inclinei para frente e perguntei:
— O que você viu no Módulo 3?
Ele ficou pensativo por um momento antes de responder.
— O módulo lá é dividido em duas partes: a ala hospitalar e a ala de
pesquisa. Fiquei mais na parte do hospital, onde eles analisam os
recém-chegados. É bem equipado, tem laboratório, salas de
isolamento e muita gente de jaleco andando de um lado para o
outro. Não vi pacientes em estado grave, mas vi algumas pessoas em
recuperação... ou em observação, sei lá. Pareciam normais, mas
estavam presas lá.
Ele respirou fundo antes de continuar.
— A parte da pesquisa eu só vi de passagem. Tem equipamentos
avançados, vi até algumas máquinas desmontadas, como se
estivessem estudando tecnologia de fora. Acho que eles estão
tentando entender alguma coisa, talvez até desenvolver algo próprio.
258
Mas o que mais me incomodou foi que ninguém falava nada, tudo
muito silencioso. Até o alojamento! Muito diferente daqui.
Olhei para ele, tentando entender o que aquilo significava. — Você
acha que eles estão escondendo alguma coisa?
— Eu tenho certeza. Se eu tivesse entrado e trabalhado no setor de
pesquisa, poderia ter descoberto alguma coisa. Mas eu prefiro estar
aqui mesmo.
— E agora? O que vamos fazer?
Nate soltou um riso curto.
— Vamos sobreviver, por enquanto. Fazer perguntas demais pode
nos colocar em risco. Mas... — Ele se virou para mim com um olhar
calculista — Trabalhar na mecânica pode ser útil pra fazer novas
descobertas. É uma área movimentada, cheia de equipamentos. Se
quisermos entender o que esse lugar realmente é, começar por lá
pode ser uma boa.
Eu assenti, apesar do desconforto.
— Você tem razão. Mas não podemos demorar muito.
Ele deu de ombros e fechou os olhos.
— Tudo bem. Amanhã vemos o que fazer.
259
Conversamos por mais alguns minutos, ajustando os detalhes do
que sabíamos até agora, antes de finalmente apagarmos.
Já no outro dia, o barulho da porta sendo destrancada me fez
despertar de imediato. A luz fraca do corredor iluminou o quarto
quando Yolanda entrou, batendo palmas uma vez.
— Hora de levantar. Vamos, sem enrolação.
— Que horas são? — Nate resmungou e puxou o travesseiro sobre a
cabeça, mas eu já estava sentado.
— Eu já disse. Hora de levantar — Yolanda puxou nossas cobertas,
nos fazendo sentir o ar frio da manhã.
— Pra que chave se todo mundo consegue abrir a porta? Você chega
abrindo, puxando a coberta. Se estivéssemos sem roupas? —
questionei, indignado.
Ela deu de ombros e olhou diretamente para Nathan — Sr. Baker,
você foi transferido para o setor de distribuição do Módulo 2. Vai
ajudar na logística. Preparar os carros para saída das expedições,
carregar mantimentos, organizar suprimentos que chegam do
Módulo 4. Também vai separar o que recebemos e garantir que tudo
seja entregue nos setores certos.
— Parece divertido — murmurou ele, sem nenhuma empolgação.
— Será. Agora, vocês têm aula. Dirijam-se à ala técnica, as placas
indicarão por onde seguir. Não se atrasem.
260
O espaço destinado às aulas não era grande: uma sala retangular,
com paredes cinzentas e algumas janelas estreitas no alto. Algumas
mesas estavam alinhadas no centro, cercadas por cadeiras de metal.
No fundo, um quadro branco digital exibia informações sobre o
cronograma. Pelo menos uma dúzia de outros jovens estavam ali,
sentados ou em pé, conversando em voz baixa. O ambiente era
carregado de um silêncio tenso, como se ninguém soubesse
exatamente o que esperar.
O professor chegou sem cerimônias. Era um homem alto, de
aparência rígida, com olhos escuros e expressão impassível.
— Meu nome é Júlio — Sua voz ecoou pelo espaço — Serei o
instrutor de vocês durante todo o processo de aprendizado aqui. É
um prazer iniciar uma nova turma.
Ele apontou para o quadro, onde um cronograma foi projetado.
— O ensino será dividido em três partes. Primeiro, vocês aprenderão
sobre o funcionamento do abrigo. Depois, serão treinados para
desempenhar funções essenciais. Todos precisam saber um pouco de
tudo. Por fim, haverá testes práticos para avaliar suas habilidades.
Murmúrios se espalharam pela sala. Júlio ignorou e continuou.
— Hoje, vamos começar com o mais básico: entender como o abrigo
funciona.
Ele acionou um comando no quadro, e um diagrama apareceu,
mostrando o mapa do local.
261
— O abrigo é dividido em cinco módulos principais:
Módulo 1 — Área administrativa. Módulo 2 — Técnico, onde
estamos. Módulo 3 — Pesquisa e desenvolvimento. Módulo 4 —
Exploração. É daqui que as expedições saem para buscar recursos
externos. Módulo 5 — É um módulo restrito, provavelmente
ninguém mora lá ainda.
Ele olhou para a turma como se estivesse avaliando nossas
expressões.
— Suas funções aqui vão além do trabalho. Se quiserem sobreviver,
precisam aprender a se tornar úteis.
Julio, o professor, caminhou até o quadro no fundo da sala e
desenhou um esquema simples, mas detalhado, do Módulo 2. Ele
tinha uma postura rígida e falava sem rodeios, como se já estivesse
acostumado a lidar com alunos desinteressados.
— Prestem atenção — disse, passando o giz entre os dedos — O
Módulo Técnico é um dos setores mais importantes do abrigo. Sem
ele, nada funcionaria. Ele é responsável pela produção, manutenção
e distribuição de recursos essenciais para os outros módulos. E eu
espero que vocês entendam isso. O módulo é dividido em três
grandes alas, que são subdivididas em setores. Temos a ala Alfa,
Beta e Gama:
Ala Alfa: Setor "Mecânica e Manutenção"; Setor "Reciclagem e
Produção"; Setor "Escola e Treinamento". Aqui, são feitas as
262
manutenções e reparos nos equipamentos do abrigo, incluindo
veículos, sistemas elétricos e qualquer outra tecnologia essencial.
Essa área também desenvolve pequenas inovações e reciclagens
para otimizar nosso consumo de energia e recursos. Vocês que forem
designados para a mecânica vão trabalhar diretamente com
ferramentas e engenheiros, consertando desde lâmpadas até
transportes de expedição.
Ala Beta: Setor Residencial; Refeitório; Lavanderia; Área de Lazer;
Acesso à ala Médica; É onde vocês dormem e cuidam das suas
necessidades.
Ala Gama: Setor de Carga e Descarga; Setor de Separação; Setor
de Distribuição Interna; Cozinha. Essa ala é responsável por
gerenciar o que entra e sai do módulo. É aqui que os mantimentos e
suprimentos recebidos de outros módulos, especialmente do Módulo
4, são triados e distribuídos para os locais corretos. Também é onde
os veículos que saem para expedições são preparados e abastecidos.
E, para aqueles que forem destinados para cá, já aviso: o trabalho
pode parecer simples, mas exige atenção máxima. Um erro na
distribuição pode comprometer a sobrevivência de todos.
Essas áreas não funcionam separadas. Um erro na mecânica atrasa
a distribuição. Um problema na produção compromete o
abastecimento. Se não há controle na distribuição, faltam recursos
em outros módulos. Vocês entenderam?
O silêncio da turma foi a resposta. A aula seguiu com algumas
atividades teóricas e anotações sobre a estrutura técnica do abrigo.
263
Nada foi muito aprofundado nesse primeiro dia, mas já deu para
entender que, sem a mecânica, a logística e a eletricidade, tudo aqui
colapsaria. Após algumas horas de estudo, Júlio nos conduziu para
um pequeno tour pelos setores principais.
O primeiro local foi a mecânica, onde vimos algumas equipes
trabalhando no conserto de veículos danificados e na manutenção de
equipamentos essenciais. O barulho das ferramentas era constante, e
o cheiro de graxa impregnava o ar. Dei um tchauzinho para Iglesias e
ele respondeu, dizendo:
— Amanhã eu vou dobrar seu trabalho!
Seguimos adiante e passamos pelo Setor de Reciclagem e Produção.
Havia esteiras transportando peças desmontadas e materiais
reaproveitados. Algumas máquinas trituravam sucata, separando o
que podia ser reutilizado.
— Nada aqui é desperdiçado. Desde circuitos elétricos até restos de
plástico e metal. Isso mantém nosso consumo controlado.
Saindo da Ala Alfa, passamos para a Ala Beta. O lugar onde
dormíamos. Corredores extensos, portas numeradas e um cheiro
levemente metálico no ar. Aqui, tudo era funcional e sem luxo, mas
pelo menos não precisávamos dormir ao relento. Passamos
rapidamente pelo refeitório, um espaço grande com mesas de metal
enfileiradas e uma cozinha no fundo. O cheiro de comida se
misturava ao som de vozes e talheres batendo. Na lavanderia,
algumas máquinas antigas trabalhavam sem parar, e havia roupas
264
penduradas em varais improvisados. A Área de Lazer não passava de
um pequeno espaço com cadeiras, livros velhos e alguns jogos
quebrados. Parecia mais um depósito de coisas esquecidas do que um
lugar realmente voltado para descanso. Por fim, de longe, Julio
apontou a portaria da ala médica, que ligava ao Módulo 3.
Na última parte da aula, fomos até a Ala Gama.
O Setor de Carga e Descarga era um caos organizado. Caixas
empilhadas, carrinhos de transporte e grupos de trabalhadores
registrando tudo o que entrava e saía do abrigo. Alguns veículos
descarregavam suprimentos, enquanto outros eram abastecidos para a
próxima expedição. Já no Setor de Separação, os mantimentos eram
categorizados. Havia prateleiras marcadas com etiquetas e uma linha
de montagem onde alimentos, peças e materiais médicos eram
separados antes de serem distribuídos. Passamos também pela
cozinha, onde uma equipe preparava as refeições diárias com os
ingredientes disponíveis. Nada era desperdiçado, e a organização
lembrava um sistema militar. Depois, fomos liberados.
Eu e Nate fomos direto para o refeitório, mortos de fome. Estava
movimentado, como sempre. Pegamos nossas bandejas e sentamos
em uma mesa vazia. A comida não era deliciosa, mas estava longe de
ser ruim. Era algo básico, para agradar a todos.
— Se eu soubesse que ia ter que ver tudo de novo sobre o abrigo,
não teria ficado perguntando para a Yolanda e o Iglesias sobre o
abrigo — bufei — Módulo, ala, setor, barulho de máquina. Eu vou
ficar louco aqui, não aguento mais!
265
— Como as pessoas vivem aqui como se fosse a melhor coisa do
mundo? Olha essa rotina de merda.
Enquanto Nate falava sobre a rotina cansativa, puxei o caderno que
tinha recebido na aula e comecei a rabiscar. Aos poucos, montei um
pequeno fluxo:
OFICINA → DISTRIBUIÇÃO → MÓDULO 4
Fiquei encarando aquilo por um momento, tentando organizar os
pensamentos.
— O que você tá escrevendo? — Nate perguntou, tentando espiar por
cima do meu ombro.
Fechei o caderno rapidamente — só organizando umas ideias.
— Que tipo de ideia? — Ele estreitou os olhos.
— Ainda não sei. Mas em algum momento, vou precisar que você me
acoberte.
Ele soltou um suspiro e cruzou os braços.
— Isso já tá me cheirando a problema. Lembra que a gente
combinou de não esconder nada um pro outro?
— Não tô escondendo. Eu só não sei ainda direito o que eu vou fazer,
nem como.
266
Ele ficou em silêncio por um momento, depois voltou a comer,
como se estivesse absorvendo a informação. Eu, por outro lado,
continuei olhando para o caderno fechado, sentindo que, pela
primeira vez desde que chegamos aqui, tinha algo concreto em
mente.
267
Capítulo 28 — Carga Especial
5 de Setembro de 2022, cerca de um mês depois.
— Anda, veste esse macacão logo. Você sabe que o Iglesias não
tolera atrasos. E você já não é o favorito dele...
— Ele me adora. Aquele é o jeitão dele — me levantei e olhei no
fundo dos olhos de Nate — Eu tô doente hoje, caso alguém pergunte.
Só um mal-estar, não preciso de médico. Ainda não me acostumei
com essa rotina.
— Quê? O que você tá sentindo? Vai faltar no trabalho? Dave...
— Eu tô bem, e não, eu vou trabalhar. Preciso ir pra lá. Você dá um
jeito de ficar na carga e descarga pra preparar os carros pra
expedição.
— Perai que eu tô perdido. O que você acha que vai fazer? — Nate
franziu a testa, cruzando os braços.
Eu respirei fundo, sabia que ele não ia gostar — só confia em mim.
Eu preciso muito que você esteja na carga e descarga.
— E o que é pra eu fazer lá?
268
— O que você sempre faz, ué. Prepara os carros pra expedição. Vou
levar um pra lá, certifica que tá pronto pra sair, libera a aprovação
pra expedição.
— Tá, mas... por quê?
Eu desviei o olhar, puxando o macacão e vestindo sem pressa.
— Vou pegar uma carona.
— Você só pode tá ficando maluco. E se te pegarem? E pra onde
você acha que vai? — Nate lançou um olhar de reprovação.
— Confia em mim, eu já planejei tudo. Não dá pra ficar parado aqui
olhando o tempo passar, tem algo de errado aqui e eu vou descobrir
o que é!
— Até agora não vimos nada de suspeito, você acha mesmo que vale
a pena se arriscar assim? — Ele puxou meu ombro, tentando uma
última vez me convencer.
— Acho — respondi sem titubear.
Ele soltou um suspiro carregado de frustração, mas não discutiu
mais. Fui para a mecânica tentando parecer o mais normal possível.
Meu plano parecia simples na minha cabeça, mas agora, com o peso
da realidade, eu percebia quantas coisas podiam dar errado.
Iglesias estava inclinado sobre o capô de um veículo, falando algo
para um dos mecânicos, e nem me notou chegando. Peguei minhas
269
ferramentas e comecei o trabalho. Passei as primeiras horas
ajustando válvulas e trocando peças de alguns transportes de
expedição. Meu corpo já estava se acostumando com a rotina, mas a
exaustão ainda pesava nos músculos. Fiquei atento aos movimentos
ao redor, observando quem entrava e saía, como os carros eram
preparados e quais estavam destinados para a próxima saída.
Quando vi que ele estava distraído, engoli seco e me aproximei,
segurando um protocolo de manutenção com dedos sujos de graxa.
— Chefe, o caminhão da última expedição tava com problema na
ignição. Resolvi isso. Vou levar lá pra distribuição. Essa rotina
maluca tá me matando, queria ir pra casa descansar um pouco.
Ele nem me olhou.
— Aham. E eu sou o Papa.
— O quê? — Pisquei.
Agora sim, ele levantou os olhos pra mim, avaliando cada detalhe
da minha cara. Meu pescoço esquentou.
— Desde quando você acha que pode sair mais cedo?
— Eu tô morto, Iglesias. A gente tem aula e depois vem pra cá, isso
tá me quebrando. Você vive me chamando de fracote, sabe que isso
aqui é pesado pra mim. Me libera hoje.
Ele largou a ferramenta na bancada com um baque metálico.
270
— Você acha que só você tá cansado?
— Não, eu só... — Engoli seco.
— Sabe o que me cansa, David? Moleque querendo dar migué pra
fugir do serviço.
Minha boca secou completamente. Meu plano estava desmoronando
na minha frente. Eu precisava insistir sem parecer desesperado.
— Eu não tô fugindo.
Ele me analisou por um tempo que pareceu uma eternidade.
— Tudo bem, aqui não é uma ditadura. Mas não ache que isso vai
acontecer sempre — ele pensou por mais um momento — Eu sei
como as coisas foram difíceis pra você antes de chegar aqui, e
depois se separar dos seus amigos também... se cuida. E, por favor,
não quebre a minha confiança.
— Valeu, Iglesias, você é demais — abri os braços num tom irônico,
como se pedisse um abraço.
— Tira isso da minha frente antes que eu me arrependa — ele deu as
costas e continuou o que estava fazendo.
Quase não acreditei. Peguei o protocolo de manutenção e saí antes
que ele mudasse de ideia. Meu coração ainda estava batendo forte
quando entrei na cabine do caminhão. Liguei o motor e saí da
mecânica, sentindo minhas mãos suarem no volante. Mesmo com o
271
ar circulando dentro da cabine, minha camisa grudava nas costas. O
calor parecia ter dobrado, ou talvez fosse só o nervosismo.
Quando cheguei à Distribuição, reduzi a velocidade e estacionei no
local indicado. O pátio era movimentado, mas não caótico.
Caminhões menores iam e vinham, carregando suprimentos entre os
módulos. Algumas pessoas conversavam próximas a uma das tendas
de controle. Nate já estava ali quando cheguei. Ele organizava uns
equipamentos perto dos veículos da expedição.
A parte dele no plano era mais fácil — mas nem por isso segura.
Desci da cabine e entreguei o protocolo de manutenção pro
encarregado. O cara era um civil, aparentava estar ali fazia tempo.
Camiseta suja, barba por fazer e um olhar de tédio que me deu um
pouco de esperança. Coloquei o protocolo de manutenção na mesa
dele.
— Caminhão da expedição. Problema na ignição resolvido.
Ele nem levantou a cabeça. Pegou o papel, leu por cima e rabiscou
uma assinatura. Depois, estendeu o protocolo para Nate, que estava
logo atrás.
— Aprova isso e deixa lá na frente.
Foi mais fácil do que eu esperava. Nate verificou o caminhão e
assinou a aprovação. Logo, ele já começou a arrumar tudo para a
próxima expedição. Ele sabia que essa expedição não levava muita
coisa — o objetivo era buscar suprimentos, não distribuí-los — então
272
o espaço de carga ficava relativamente vazio. O que importava era
garantir que o caminhão estivesse pronto pra sair sem levantar
suspeita. Ajeitou algumas caixas, verificou travas e checou a lona
que cobria a parte traseira. Tudo rápido, eficiente.
Eu fingi que observava qualquer outra coisa enquanto esperava. As
vozes das pessoas ao redor pareciam ruído branco no fundo. Cada
minuto que passava parecia mais longo que o normal. Quando
finalmente vi Nate terminar de ajeitar a carga, me movi. Fui até a
traseira do caminhão, passando os olhos pelo pátio. Nenhum olhar
fixo em mim. Nate já tinha deixado o compartimento destravado.
— Última chance de desistir — ele murmurou.
— Tarde demais.
Subi rápido, tentando não fazer barulho, e me enfiei entre as caixas
e sacos de suprimentos. O espaço era ainda mais apertado do que eu
esperava. Meu corpo ficou torto entre os pacotes, a lateral de uma
caixa pressionando minhas costelas. O cheiro de combustível e lona
impregnava o ar. Eu tentava não pensar no tempo, mas meu corpo
não ajudava — o desconforto, o calor sufocante, a posição ruim, tudo
contribuía para uma sensação de claustrofobia crescente. Eu mal
conseguia mexer os braços sem encostar em alguma coisa. Pelo
menos duas horas se passaram. Meu peito subia e descia de maneira
irregular, e minha boca estava seca. O ar ali dentro parecia rarefeito.
Comecei a sentir a cabeça leve, como se estivesse prestes a desmaiar.
De repente, senti o motor ligar. O caminhão vibrou com o
movimento, e senti meu corpo sendo empurrado levemente contra as
273
caixas enquanto ele começava a se mover. Minha respiração saiu
trêmula. Agora era só torcer para que o resto desse certo. Ou pelo
menos... não desse muito errado.
Eu não sabia exatamente quanto tempo passou depois que o veículo
saiu. O balanço do caminho irregular fez meu corpo chacoalhar
algumas vezes contra a carga, e eu me segurava no que podia para
não deslizar de um lado para o outro. Meus músculos doíam por estar
naquela posição forçada. Foi quando o caminhão parou. O barulho
dos motores ainda vibrava no fundo, mas os freios chiaram e o
veículo tremeu antes de estabilizar.
— Essa carga foi conferida? — perguntou um homem, com a voz
firme.
Meu estômago se revirou.
Outro respondeu:
— É claro que foi seu idiota. Tá na lista, foi revisado na distribuição.
— Então por que tem coisa fora do lugar aqui?
Meu sangue gelou.
— Sei lá, cara. Que diferença faz? A gente só vai lá buscar essa
merda e levar pro Módulo 4.
Ouvi o rangido da lona sendo puxada, travei minha respiração. Se
eles abrissem completamente, eu estaria morto.
274
— Espera, cês tão atrasando a gente pra isso? — disse outra voz,
impaciente — Vamos resolver essa porra logo e voltar pro pavilhão.
Tô louco pra beber.
A lona foi solta de novo. Ouvi um resmungo e os passos se
afastaram. O caminhão voltou a se mover. Minhas mãos tremiam
sem parar, mas o pior já parecia ter passado. Era só seguir o plano e
confiar que tudo ia dar certo.
Meus ombros estavam tensos de tanto ficar encolhido. Tentei me
mexer, buscando uma posição melhor, mas assim que empurrei uma
das caixas para abrir espaço, algo de ferro deslizou e bateu contra
minhas costelas. Mordi o lábio para não soltar um grunhido de dor.
Respirei fundo e senti o gosto do sangue saindo do meu lábio. A dor
pulsou por alguns segundos antes de começar a diminuir. Eu não
tinha escolha, precisava me ajeitar. Me contorci devagar, puxando as
pernas para cima e tentando distribuir melhor o peso. O calor ali
dentro fazia tudo piorar, como se o próprio ar estivesse se tornando
uma barreira contra mim.
Eu precisava de uma visão melhor do que estava acontecendo.
Tateei a lona até encontrar uma das bordas inferiores e pressionei
com cuidado. A costura era resistente, mas o pano não estava
totalmente preso à estrutura de metal do caminhão — havia uma
pequena folga entre as amarras e a parte de baixo. Se eu forçasse
muito, podia acabar chamando atenção. Com dedos trêmulos, puxei
só o suficiente para abrir um espaço mínimo. O ar fresco bateu no
meu rosto, me dando uma leve sensação de alívio.
275
Me esforcei para enxergar. O caminhão estava em movimento,
seguindo por ruas desertas da Cidade do México. Havia marcas
recentes de veículos no asfalto e postes de luz que pareciam intactos,
mesmo que desligados. O caminhão virou uma esquina e entrou em
um galpão. Fechei rapidamente a borda da lona e prendi a respiração.
Os freios chiaram, e o veículo deu um solavanco quando parou.
Dei um jeito de me posicionar de novo e abri uma fresta menor na
lona, espiando o lado de fora. O lugar era limpo, organizado. Outros
soldados estavam ali, caminhando entre caixas e barris,
transportando suprimentos de dentro do galpão para os veículos.
Algumas caminhonetes já estavam carregadas, prontas para partir.
Mas o que chamou minha atenção foi outra coisa. Os suprimentos já
estavam separados. Não havia bagunça, nem sinal de que eles
estavam recolhendo qualquer coisa aleatória de ruínas. Era como se...
aquilo já estivesse pronto para ser retirado e distribuído.
Antes que pudesse refletir mais, notei um dos soldados conversando
com um grupo de homens de terno. Eles estavam do outro lado do
galpão, longe, mas dava para ver que estavam discutindo algo
importante. Um deles segurava uma prancheta e a girava nos dedos
impacientemente, enquanto outro indicava algo em um papel. O
soldado que dirigia o caminhão assinou alguns documentos e
murmurou algo.
Apenas algumas palavras chegaram até mim:
"...já está tudo sob controle."
276
"...nenhuma mudança inesperada."
"...disfarçados como pedidos extras."
Não tive tempo para pensar. O soldado fez um sinal para os outros,
e em poucos minutos, o caminhão começou a se mover de novo. A
lona balançou com o movimento, e eu me afastei, fechando bem a
fresta por onde olhava. Meu corpo inteiro estava tenso.
O caminho até o Módulo 4 foi rápido. Eu sentia cada curva, cada
freada, cada solavanco, como se meu corpo já estivesse se
preparando para o pior. Quando o caminhão parou de vez, ouvi
passos ao redor. Vozes dando ordens. Alguém subiu na parte traseira
do veículo e logo começaram a puxar os suprimentos para fora. Meu
coração disparou. A cada caixa removida, meu esconderijo ficava
mais exposto. Minha única esperança era que eles apenas retirassem
o que precisavam e saíssem, sem mexer muito na carga.
Mas então... A lona foi puxada com força. A luz invadiu o espaço,
ofuscando meus olhos, e alguém me encarou.
277
Capítulo 29 — Em Meio à Guerra, Faça
Aliados.
A lona se abriu de repente, e a luz forte me atingiu em cheio. Meu
coração deu um salto no peito e os olhos arderam com a claridade.
Por um momento, tudo que eu conseguia ver era uma silhueta parada
ali, me encarando. Quando minha visão se ajustou, reconheci o rosto
de Henrique. O tempo pareceu congelar. Meu peito subia e descia
rápido, e um frio gelado percorreu minha espinha. Eu sabia que, se
fosse qualquer outra pessoa, eu estaria ferrado. Levantei a mão
devagar e fiz um sinal de silêncio.
Henrique soltou um suspiro longo, desviando o olhar como se já
sentisse o peso do problema nas costas. Ele então virou-se para os
soldados que estavam do lado de fora.
— Tá tudo certo aqui — Sua voz saiu firme. Ele pegou o protocolo
de controle de carga das mãos de um dos soldados e assinou
rapidamente — Vou levar o caminhão pro setor de rechecagem.
Disseram que tava com um barulho estranho na suspensão. Se der
problema no inventário por causa disso, vão querer encher o saco.
O soldado bufou — De novo essa merda? Esse caminhão acabou de
sair da mecânica. Isso não é trabalho seu, Díaz.
— Eu não quero voltar aqui amanhã pra corrigir erro dos outros —
Henrique rebateu, impaciente — Me dá dez minutos que eu já
resolvo essa merda.
278
— Ah, tanto faz. Só seja rápido.
O motor roncou, e o caminhão começou a se mover. Segurei firme
na lateral da carroceria para não cair enquanto Henrique dirigia.
Depois de alguns minutos, ele parou o veículo, desceu e tirou a lona.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele me puxou pelo colarinho e
me arrastou para fora.
— Tá de brincadeira comigo? — Ele rosnou entre os dentes.
Me soltei e ajeitei a roupa — Eu precisava saber o que estavam
fazendo.
— E precisava se enfiar num caminhão de carga pra isso? —
Henrique passou as mãos no rosto, exasperado. O jeito que me
olhava era uma mistura de frustração e incredulidade.
— Foi a única coisa que consegui pensar.
Ele soltou uma risada seca e sem humor.
— Você não pode ser tão burro assim, David. E se eles te pegam? Se
alguém resolve checar a carga antes de eu abrir? Se não fosse eu
aqui? O que ia acontecer? — Ele balançou a cabeça, irritado — Eu
não posso ser prejudicado, entendeu? Eu não posso perder esse
emprego.
Cruzei os braços, encarando-o — Por que esse emprego é tão
importante pra você? Vai me dizer que caiu no conto do "abrigo
perfeito"?
279
— Acha que eu sou idiota? Eu sei muito bem que isso aqui não é o
que parece.
— Relaxa, cara — coloquei a mão no ombro dele — Eu sei que eu
me arrisquei, mas não é culpa sua.
Ele soltou o ar devagar pelo nariz, ainda tenso.
— Eu tô muito feliz em te ver — continuei — A gente vai dar um
jeito de vazar daqui.
Henrique desviou o olhar, olhando para cima, depois para os lados,
como se quisesse se convencer de alguma coisa. Quando voltou a me
encarar, seu semblante se suavizou um pouco.
— Tô sentindo muita falta de vocês. Todo mundo aqui parece um
robô programado pra sorrir sempre — ele me puxou para um abraço
forte e rápido, dando um tapinha nas minhas costas — Chega de
sentimentalismo, você precisa sair daqui.
Ele se afastou e respirou fundo antes de voltar a encarar o
caminhão. Então, ajeitou a postura, puxou o tablet do bolso e digitou
algumas coisas na tela.
— Tá tudo certo com o caminhão — disse para um dos soldados de
prontidão — Vou encerrar por hoje. Meu expediente acabou.
O soldado assentiu sem demonstrar interesse, e Henrique deu
meia-volta em direção ao alojamento. Eu esperei alguns segundos
antes de segui-lo, me movendo de forma cautelosa para não chamar
280
atenção. As luzes artificiais do complexo lançavam sombras duras no
chão, e cada passo parecia mais alto do que deveria. Henrique não
olhou para trás nem uma vez, mas eu sabia que ele estava ciente da
minha presença.
Assim que entramos no quarto dele, ele trancou a porta atrás de nós
e soltou um suspiro pesado.
— Certo, agora me diz... — Cruzei os braços — Por quê? Por que
esse emprego é tão importante pra você?
Henrique me lançou um olhar rápido antes de sentar na beirada da
cama, esfregando as mãos no rosto.
— Eu tô tentando sair daqui — A voz dele soou mais cansada do que
irritada — Consegui uma transferência depois de um mês me
ferrando. Acho que é o único jeito de cair fora.
— E ia deixar todo mundo pra trás?
— Eu não sou um herói, Dave. Mas também não sou um desgraçado
— ele bufou, frustrado — Estou aqui ainda por isso. Eu odeio esse
lugar, todo mundo parece... artificial.
— Meu módulo parece ser o único com pessoas normais. Nate disse
que o 3 ninguém fala nada nem esboça reações.
Henrique soltou uma risada sarcástica, balançando a cabeça.
281
— Aqui todo mundo ama o abrigo, ama o trabalho! Que felicidade!!!
— Sua voz transbordava ironia — Não tem problema nenhum em
passar o dia inteiro cumprindo ordens sem questionar!
Ele jogou o corpo para trás na cama, encarando o teto, enquanto eu
tentava absorver tudo. Eu já sabia que tinha algo errado com esse
lugar, mas ouvir isso de Henrique... Tornava tudo mais real. A porta
do quarto se abriu de repente, e meu coração quase saiu pela boca.
— Você nunca bate na porta? — perguntei, tentando esconder o
susto.
Yolanda estava parada ali, de braços cruzados, me observando com
aquele olhar frio que parecia atravessar qualquer disfarce.
— Venha comigo, Sr. Hall.
Henrique se afastou, mantendo a expressão fechada, mas seus olhos
me diziam para não discutir. Bufei, passando a mão pelo rosto antes
de segui-la. O silêncio entre nós era denso enquanto atravessávamos
os corredores do alojamento. Eu tentava entender para onde ela
estava me levando, até notar um incômodo estranho na lateral do
meu tronco. Franzi a testa e olhei para baixo. Meu uniforme estava
rasgado e uma linha fina de sangue se misturava à poeira escura da
roupa.
— Eu tô machucado? — soltei, mais para mim mesmo do que para
ela.
282
— Você deve ter se cortado no caminhão — Yolanda respondeu, sem
alterar o tom de voz — Vamos à Ala Médica.
Saímos do Módulo 4 e entramos no Módulo 3. Yolanda mostrava
seu cartão de acesso e imediatamente os seguranças nos deixavam
passar. Finalmente passamos pela entrada e o cheiro esterilizado
invadiu minhas narinas. O lugar era quieto, como se os corredores
abafassem qualquer som externo. Yolanda me guiou até uma sala
pequena e limpa, onde apontou para a maca.
— Sente-se.
Obedeci, observando-a pegar alguns materiais no armário. O
silêncio dela estava me incomodando, então resolvi quebrá-lo.
— E então? Vai me dizer que tipo de punição eu vou levar?
Ela soltou um suspiro e virou para mim, cruzando os braços.
— O que você estava fazendo no caminhão, David? Está ficando
louco?
— Só queria ver meus amigos. Não é crime, certo? E como você
sabe?
Ela estreitou os olhos, como se medisse minhas palavras.
— Você realmente achou que ninguém descobriria? — O tom dela
não era de acusação, mas de incredulidade. — Achou que poderia
andar por aí sem ser notado? Eu sei de tudo que acontece aqui.
283
O jeito que ela disse aquilo me deu arrepios.
— Se sabe de tudo, então por que me deixar sair do módulo em
primeiro lugar?
— Eu não disse que sei antes de acontecer. O que você fez foi muito
perigoso.
Ela voltou a atenção para meu ferimento, limpando o corte com um
algodão embebido em antisséptico. O ardor me fez ranger os dentes.
— Você sabe mesmo fazer isso? — Meus olhos lacrimejaram.
— Sim, eu sei. Quanto ao que você fez, vou deixar passar
despercebido. Martin está em outro continente e não precisa saber.
— E as outras pessoas que me viram?
— Ninguém fora do seu módulo te conhece, nem notaram sua
presença. Agora, por favor, não faça isso de novo.
— Está me protegendo?
Ela ligou a impressora e me entregou um papel, assinado — Estou te
dando uma semana de descanso. Você precisa.
Peguei o papel e então olhei para ela, hesitante.
— Você sabe que tem algo errado aqui.
284
Ela congelou por um segundo. Pequeno, quase imperceptível. Mas
estava lá.
— Não vale a pena falar sobre isso, David — disse, finalmente, e
voltou a organizar os materiais.
Eu a observava e, pela primeira vez, sentia que podia confiar nela.
Não por suas palavras, mas pelo que ela não estava dizendo.
— Se eu precisar de ajuda para sair daqui com meus amigos... você
nos ajudaria?
Yolanda permaneceu em silêncio, mas sua expressão mudou
sutilmente. Ela não confirmou. Mas também não negou. E, por ora,
aquilo era o suficiente.
Fui escoltado de volta ao meu módulo sem qualquer cerimônia.
Caminhei pelos corredores frios e impessoais do complexo, sentindo
o peso da noite se instalar sobre meus ombros. Cada passo ecoava no
piso metálico até que, finalmente, a porta do alojamento se abriu.
E lá estava ele, Nate. Seus olhos se arregalaram no mesmo instante
em que me viu, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me
puxou pelo braço.
— Dave! Cara, o que aconteceu?! — Sua voz carregava um alívio
genuíno, mas também um quê de frustração — Eu tava maluco aqui
sem saber se você estava bem. Deu tudo certo?
— Eu tô bem — resmunguei, exausto.
285
Suspirei e passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço se acumular
em cada músculo do meu corpo. A dor no corte ainda latejava sob o
curativo recém-feito.
— Vamos pro quarto — pedi — Preciso de um banho antes de
qualquer coisa.
Nate me olhou por um momento, avaliando minha expressão, antes
de concordar com um aceno. Caminhamos em silêncio até nosso
alojamento, onde ele trancou a porta assim que entramos, como se
adiantasse algo.
— Agora desembucha — disse, cruzando os braços.
Comecei a abrir a camisa para tirar o uniforme sujo, e foi aí que ele
viu.
— Que merda é essa? — apontou para o curativo ao meu lado.
— Ah, é só um corte. Eu nem tinha visto antes...
Expliquei tudo. O caminhão, o galpão, como eu quase fui pego e
como Henrique me ajudou a sair de lá. Contei sobre Yolanda, como
ela me levou para o setor médico, tratou meu ferimento e, mais do
que isso, como ela me deu um atestado para que ninguém
questionasse nada.
— Você acha que podemos confiar nela? — Nate perguntou,
estreitando os olhos.
286
— Não sei se confiar é a palavra certa. Mas ela poderia ter me
ferrado e não fez isso.
Ele balançou a cabeça, incrédulo.
— Dave... ela trabalha para a corporação.
— Eu sei. Mas e se ela não concordar com tudo o que acontece
aqui?
O silêncio caiu entre nós. Nate mordeu o lábio, inquieto, e então
soltou um longo suspiro.
— Isso é perigoso. Mas... podemos testar. Ver até onde ela vai.
Assenti, sentindo um nó de tensão em meu peito se desfazer um
pouco. Joguei o uniforme sobre a cama e fui para o banheiro.
Enquanto a água quente escorria pelo meu corpo, uma única ideia
martelava em minha mente: O Módulo 5. Talvez... a resposta
estivesse lá. E eu já sabia o que fazer para descobrir.
287
Capítulo 30 — Engrenagem.
O abrigo parecia mais sufocante a cada dia. Eu me sentia cada vez
mais controlado, paranoico. Sentia que estava sendo observado a
todo tempo. Tudo ali operava com uma precisão assustadora, como
se cada engrenagem — cada pessoa — tivesse um papel exato a
cumprir.
Eu não pertencia àquele lugar. Era aterrorizante, desesperador. Eu
queria sair a todo custo, mas sabia que não era simples assim.
Estava procurando Pedro, precisava falar com ele. Depois da
conversa com Yolanda e da sensação inquietante de que ninguém ali
era totalmente... real, eu precisava recolher mais informações.
Encontrei-o na sala de manutenção, sentado em um dos bancos,
brincando com um pequeno parafuso entre os dedos. Ele parecia
distante, perdido em pensamento, e quase não notou minha chegada.
— Ei, sumido — murmurou sem erguer a cabeça — Achei que tinha
evaporado.
Encostei na porta, cruzando os braços.
— Só ocupado com a rotina.
Pedro ergueu uma sobrancelha e, finalmente, me encarou.
288
— Sei.
— Vamos jogar uma partida? — sugeri.
Ele soltou um suspiro, jogou o parafuso sobre a bancada e se
levantou.
— Você nunca aprende, né? Vai perder de novo.
— Dessa vez vai ser diferente.
— Claro. E eu vou acordar amanhã com cabelos loiros e olhos azuis.
Sorri de canto e o segui até a área de lazer. O lugar não estava
cheio, mas algumas pessoas ocupavam as mesas, lendo ou
conversando em tons baixos. Nos sentamos em uma mesa próxima à
parede, onde um tabuleiro de xadrez já estava montado. Ele começou
a organizar as peças com a naturalidade de quem já fazia aquilo sem
pensar.
— E então — começou, movendo um peão — O que você tem feito
além de desaparecer?
Peguei um peão e fiz meu primeiro movimento.
— Observando.
— Observando o quê? — Pedro franziu a testa, como se não tivesse
entendido.
Hesitei por um instante. Precisava medir minhas palavras.
289
— O abrigo. As pessoas. O jeito como tudo funciona. Quero estar
por dentro de tudo o mais rápido possível.
— Você tem essa mania de pensar demais. Não se encaixou ainda,
né?
Apoiei o cotovelo na mesa, observando-o. Cortando o assunto,
perguntei de cara:
— O que você sabe sobre o Módulo 5?
Hesitou por um segundo antes de mexer a próxima peça. Não foi
nada óbvio, mas eu percebi.
— O quê?
— Módulo 5. O que tem lá?
Ele soltou o ar pelo nariz, pensativo.
— Não sei. Nunca fui lá.
— Nunca? Nem como guia?
Ele balançou a cabeça — Meu acesso é limitado. Eu posso circular
entre os outros módulos, mas não em todas as alas. O módulo 5
não...
— Por quê?
290
Pedro franziu o cenho, me olhando como se eu estivesse perguntando
algo óbvio — É assim que as coisas são, Dave. Cada módulo tem
sua função, sua estrutura. O Módulo 5 tem a sua função, não
podemos entrar lá por algum motivo. É tudo um equilíbrio!
— Equilíbrio?
Ele assentiu.
— Você já percebeu que as pessoas são diferentes em cada módulo?
— perguntei.
— Sim, eu percebi. Aqui, as pessoas são diferentes e se expressam
mais. No Módulo 3, ninguém fala nada. Parecem autômatos. Já no 4,
são todos felizes e animados.
Estreitei os olhos.
— Por que cada módulo tem um tipo específico de pessoa?
Me olhou por um momento, avaliando minha pergunta.
— Bom, é uma separação por personalidade. Cada ala e local aqui
precisa de um tipo de pessoa específico. Focada, animada, e assim
por diante. É só uma separação feita.
Me inclinei um pouco para frente — Isso não faz o menor sentido. E
você sabe.
Ele piscou, surpreso com a resposta direta.
291
— Você não gosta daqui, né Dave?
Ri, balançando a cabeça — Não.
— É um lugar seguro — ele argumentou, como se isso fosse
suficiente para encerrar o assunto — não precisa ficar tão paranoico.
— Seguro contra o quê?
O rapaz me encarou como se eu fosse um louco.
— Contra o que está lá fora. As pessoas sumiram e ninguém sabe o
porquê, lá fora tá um colapso, cheio de guerras. Já ouviu falar do
confronto de Monterrey?
Eu fiquei em silêncio. Algo no jeito que ele disse aquilo me
incomodou. Parecia uma resposta automática. E Monterrey...
comecei a desconfiar que poderia ser tudo encenação.
— Que guerras?
— As guerras — repetiu, franzindo a testa, como se fosse óbvio.
O incômodo cresceu no meu peito.
— Você lembra o que aconteceu antes de entrar aqui? Que guerras
você viu?
Ele abriu a boca para responder... mas não conseguiu. Seu rosto
ficou tenso. Ele piscou algumas vezes, como se tentasse puxar uma
memória que simplesmente não existia.
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— Claro que... — Ele parou de novo. Franziu ainda mais o cenho —
Eu...
Eu vi a confusão passar pelo rosto dele. Antes que eu pudesse
pressionar mais, uma voz soou atrás de nós.
— Dave, você deixou de trabalhar pra jogar xadrez?
Me virei, encontrando Iglesias de pé ao nosso lado, um sorriso
brincalhão no rosto. Ele apoiou as mãos no meu ombro, olhando para
o tabuleiro.
— Espero que pelo menos esteja ganhando.
Deu um riso sem graça e voltou a mexer as peças. Meus olhos
percorreram o tabuleiro, buscando uma saída, qualquer saída... mas
não havia.
— Xeque-mate.
Suspirei, recostando-me na cadeira enquanto ele sorria, satisfeito.
— Um dia eu ainda vou te vencer.
— Claro. E no mesmo dia eu me torno um gênio da matemática.
Antes que eu pudesse retrucar, Iglesias puxou uma cadeira e se
sentou, apontando para o tabuleiro.
— Minha vez. Vamos ver se sou melhor que você nisso.
293
Seu tom era despreocupado, mas havia algo por trás do sorriso.
— Achei que não gostasse de xadrez — comentei, enquanto ele
começava a posicionar as peças.
— Não gosto — admitiu — mas queria trocar uma ideia com você.
Pedro se despediu, avisando que retornaria aos seus afazeres.
Iglesias começou a partida, jogando um peão para frente. Eu
acompanhei o movimento, sem tirar os olhos dele.
— Você anda sumido — ele disse, mantendo um tom casual. — Tá
tudo bem?
— Tá. Só ocupado.
Inclinou a cabeça — Com o quê?
— Com as mesmas coisas de sempre.
Ele não pareceu convencido, mas não insistiu.
— Você faz falta na manutenção — disse após um momento — Nem
todo mundo lá é tão esperto quanto você.
— Então você admite que sou esperto?
— Comparado com a maioria aqui, sim. Você não tem tanta força
física, mas compensa com a cabeça — Ele riu.
Movi minha torre, derrubando um peão dele.
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— Com o que você trabalhava antes daqui?
A pergunta escapou antes que eu pudesse evitar. Meu chefe parou
por um segundo, franzindo a testa.
— Por que o interesse na minha vida pessoal agora?
Dei de ombros, tentando soar despreocupado — Eu não conheço
muita gente aqui. No trabalho, você é praticamente o único com
quem converso. Só queria saber mais sobre você.
— Não vale a pena ficar lembrando do passado — Me analisou por
um instante, como se tentasse ler nas entrelinhas.
Ele apertou os lábios, desviando o olhar por um segundo.
— Eu trabalhava em uma oficina. Consertava motores, fazia solda...
— Por isso é bom com as mãos.
Riu, balançando a cabeça — Eu era dono do lugar. Pequeno, mas
honesto. Trabalhava com meu irmão.
A menção a um irmão me chamou a atenção.
— E ele?
— Não sei — Iglesias jogou, sem me encarar.
O silêncio pesou por alguns segundos.
295
— Você sente falta?
— Eu preferia não pensar nisso — Ele respirou fundo.
A partida continuou. Eu já sabia que ia perder, mas, a essa altura,
minha atenção estava em outra coisa.
— E o que você acha do abrigo?
Ele parou por um instante antes de responder, olhando para o
tabuleiro. Então soltou um suspiro cansado.
— Eu só trabalho o tempo todo, então não consigo dizer que amo.
— Mas também não odeia.
— Digamos que... já vi lugares piores. — Fez sua jogada final. —
Xeque-mate.
Recostei-me na cadeira, pensativo. Iglesias se lembrava do passado,
mas evitava pensar nele. Acho que precisavam dele totalmente lúcido
para comandar uma ala inteira, mas não acreditava que ele trabalhava
diretamente para a Ben-corp.
Talvez ele pudesse ser um aliado.
— Você joga mal — comentou, rindo.
— Eu me distraí.
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— Sei... — Ele se levantou, colocando a cadeira no lugar — Só
queria saber como você estava. Eu cuido dos meus acima de tudo,
David. Tudo.
Ele piscou e se afastou, misturando-se aos outros moradores. Assim
que fiquei sozinho, respirei fundo. Pelo resto do dia, caminhei pelo
abrigo, observando.
Eu já sabia que havia câmeras nos corredores principais, mas
algumas áreas pareciam ter menos vigilância. As pessoas seguiam
seus caminhos, cumprindo suas funções, como engrenagens
perfeitamente ajustadas em uma máquina. Ninguém falava sobre a
vida antes do abrigo. Como se o passado tivesse sido apagado ou —
o que era pior — como se nunca tivesse existido.
Fuga não era impossível. Mas seria difícil.
Além da vigilância, os protocolos de trânsito entre os módulos eram
rígidos. A maioria das movimentações acontecia em horários
pré-determinados, sempre sob supervisão. Nenhum morador
transitava entre os módulos sem um propósito claro. Continuei
caminhando, tentando memorizar os padrões de patrulha e identificar
pontos cegos, até que virei um corredor e notei algo diferente. A
iluminação era mais fraca, o piso mais liso, as paredes mais limpas.
Não percebi o erro até ouvir a voz atrás de mim.
— Parado.
Meu corpo enrijeceu. Me virei devagar.
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O homem usava a farda preta dos soldados do abrigo. Máscara,
capacete, arma na cintura. Não dava para ver sua expressão, mas o
tom de voz já deixava claro que eu estava encrencado.
— Aqui não é uma área de acesso livre.
— Então deveria ter uma placa avisando — retruquei, sem pensar.
— Ele está comigo — Iglesias apareceu no corredor, andando com
calma.
O soldado virou-se para ele, esperando uma explicação. Iglesias não
hesitou.
— Pedi pra ele buscar uma coisa pra mim. Ele ainda não conhece
bem os setores e se perdeu.
O soldado me olhou por um segundo a mais do que o necessário. Eu
tentei parecer inocente, mas duvidava que estivesse convencendo
alguém. A tensão se alongou no ar até que o soldado resmungou algo
e deu um passo para trás.
— Preste atenção por onde anda — disse, antes de me acertar um
golpe seco no estômago.
Eu me dobrei de leve, segurando a dor, mas não dei o gosto de reagir.
— Pode ir.
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Engoli a raiva e forcei meu corpo a se endireitar. O mecânico me
puxou pelo ombro e seguimos juntos até sairmos daquele setor. Só
quando viramos outro corredor, ele soltou um suspiro e me encarou.
— Você tem talento pra arrumar problema.
— Eu não percebi que era uma área restrita.
Ele ergueu uma sobrancelha — Claro que não.
— Valeu por isso. Mas o que você tava fazendo ali? Tá me
seguindo?
Iglesias deu de ombros, começando a andar novamente.
— Não se acostume. Vem comigo.
Ele me puxou, dessa vez pelo braço, até que abriu uma porta lateral
da mecânica e me empurrou para dentro. O ambiente era abafado,
cheirando a graxa como toda aquela ala. Algumas ferramentas
estavam jogadas sobre uma bancada, mas o lugar parecia pouco
frequentado. O mais importante? Nenhuma câmera. Encostou a porta
e cruzou os braços, me encarando com um olhar pesado.
— Você vai me dizer o que tá acontecendo ou eu vou ter que
adivinhar? — Ele falou baixo, mas a rigidez na voz deixou claro que
aquilo não era um pedido.
Massageei o ponto onde tinha levado o golpe e soltei uma risada
seca — Acontecendo? Eu diria que acabei de ser socado à toa.
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— Para de bancar o engraçadinho, David. Eu venho te observando
há um tempo. Você age diferente, se movimenta diferente. Você acha
que ninguém nota, mas eu noto.
Apertei os lábios. Ele tinha razão. Iglesias não era burro. Talvez ele
fosse a única pessoa ali que realmente via além do que diziam para
ele ver.
— O que você quer saber? — perguntei.
Ele me analisou por um instante, como se estivesse decidindo se
valia a pena continuar com aquela conversa.
— Quero saber o que você tá planejando. O que tá tentando
descobrir? E por que tá arriscando o pescoço desse jeito?
Por um momento, pensei em mentir. Mas, a essa altura, manter
segredos não adiantaria. Respirei fundo, sentindo o peso do que
estava prestes a dizer.
— Eu quero sair daqui.
A expressão dele não mudou, mas vi seus dedos apertarem levemente
os braços.
— Você acha que tem como sair?
— Eu sei que tem. E se não tiver, eu vou dar um jeito.
300
Ele passou uma mão pelo rosto, como se estivesse se arrependendo
de ter me chamado para aquela conversa.
— Dave, você não pode falar esse tipo de coisa por aí. Não tem
saída. Esse lugar... é o que temos.
— E se não for? — desafiei, dando um passo à frente. — E se isso
tudo for uma mentira? Você já parou pra pensar nisso?
Ele suspirou, desviando o olhar por um segundo.
— Deixa isso quieto. Você só vai arrumar problemas.
Dei uma risada sem humor.
— Então é isso? Você prefere fechar os olhos e aceitar, mesmo
sabendo que tem algo errado?
Ele não respondeu.
— Se você quer se tornar mais um corpo sem memória como os
outros, tudo bem. Mas pelo menos não me atrapalha.
Ele me encarou por longos segundos, avaliando cada detalhe da
minha expressão. Então, sem dizer mais nada, abriu a porta e saiu.
Eu não sabia se ele ia me ajudar. Mas, pelo menos por enquanto, ele
também não ia me entregar.
Voltei para os alojamentos sentindo o peso do dia se acumulando
nos ombros. Meu estômago ainda doía do soco, e a conversa com
301
Iglesias martelava na minha cabeça. Ele sabia que eu estava
tramando algo. Mas o mais importante: ele não me entregou. Isso
significava que, no mínimo, ele não estava completamente
convencido de que esse lugar era o paraíso que diziam ser.
Quando entrei no quarto, Nate estava sentado na cama, mexendo
em alguma peça mecânica que eu tinha trazido da manutenção. Ele
ergueu os olhos assim que me viu, a testa franzida ao notar minha
expressão.
— O que foi agora? — Ele perguntou, largando a peça.
Joguei-me na cadeira, soltando um suspiro pesado.
— Iglesias me encurralou hoje. Disse que tem me observado e quer
saber o que estou tramando.
Nate se ajeitou na cama, ficando mais atento.
— E o que você disse?
— A verdade. Disse que quero sair daqui.
— Você tá brincando — Ele arregalou os olhos.
— Eu não tinha escolha. Ele já suspeitava. Mas... — Me inclinei
para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos — Ele não me
entregou. Pelo contrário. Ele me levou para um lugar sem câmeras
pra conversar.
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Nate processou a informação por alguns segundos.
— E então você já acha que ele pode ajudar? Dave, você precisa ser
menos ingênuo. Primeiro a Yolanda e agora o seu chefe? E se tudo
não passar de uma armadilha?
— Talvez seja. Ainda não confio nele completamente, mas ele está
hesitante. Ele sabe que tem algo errado.
Nate assentiu lentamente, pensativo.
— E o Pedro? Conseguiu alguma coisa com ele?
Passei a mão no rosto, relembrando a conversa.
— Ele não se lembra do que aconteceu antes do abrigo. Comecei a
pressioná-lo, e ele simplesmente... travou. Parecia que estava
tentando puxar uma memória que não existia. As pessoas do abrigo
não falam sobre o passado.
O olhar de Nate ficou mais sombrio.
— Isso confirma sua suspeita. Eles mexem com a cabeça das pessoas
aqui dentro.
— E ele realmente acredita que havia guerras lá fora. Falou até do
"confronto de Monterrey". Mas quando eu perguntei o que ele viu
antes de entrar aqui... nada. Nenhuma lembrança concreta.
Nate passou a língua pelos dentes, nervoso.
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— É um padrão. Todo mundo aqui parece... programado.
Um silêncio pesado pairou entre nós. Aquilo não era uma simples
coincidência. Finalmente eu tive certeza, aquilo não era um abrigo.
Eu estava prestes a sugerir um plano para tentar extrair mais
informações quando ouvimos uma batida firme na porta. Trocamos
um olhar, e meu corpo ficou tenso no mesmo instante. Levantei-me
devagar e abri a porta. Um soldado me encarava do outro lado, a
expressão neutra, mas firme.
— David Peterson Hall. Você está preso por subversão da ordem,
espionagem e comportamento dissidente.
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Epílogo
Quando me jogaram no Módulo 4, eu ainda sentia o gosto amargo
do medo na boca. O corredor era longo, iluminado por luzes que
piscavam vez ou outra, como se a própria eletricidade estivesse
indecisa entre permanecer ali ou simplesmente desistir. Eu estava ali.
Mas quem mais estava? Meus passos ecoavam enquanto eu
atravessava o setor, procurando algo familiar. Qualquer coisa que me
lembrasse que eu ainda pertencia àquele mundo.
Foi quando vi Henrique.
Ele estava sentado em uma das camas, curvado para frente,
mexendo nos cadarços do tênis. O mesmo Henrique de antes, mas...
ao mesmo tempo, diferente.
— Henrique?
Ele levantou os olhos e me encarou por um instante. Nada.
Nenhuma reação, nenhum reconhecimento.
— Você... — tentei de novo, me aproximando. — Você não se lembra
de mim?
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Ele franziu a testa, como se buscasse algo na mente, mas logo
balançou a cabeça.
— A gente se conhece?
Eu fiquei ali, parado, tentando absorver o impacto daquelas
palavras. Henrique não se lembrava de mim. A memória das
provocações e do tom sarcástico de Henrique ecoou de leve, distante.
Eram apenas resquícios, que eu mesmo duvidava ser real. A certeza
que eu tinha era que ele era meu amigo. Agora me olhava como se eu
fosse um estranho qualquer.
— Sou eu, David — insisti, mesmo sabendo que não adiantaria.
Ele sorriu de lado, sem jeito, e deu de ombros.
— Foi mal, cara. Não faço ideia.
Eu já sabia que seria assim. Tinha me preparado para caso
acontecesse, mas ainda assim doía muito. Enquanto eu lutava para
segurar minhas memórias, Henrique já as havia perdido
completamente.
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— A gente era amigo — falei, tentando me agarrar a qualquer fio de
esperança. — Você sempre fez questão de me irritar, mas me ajudou
a me manter firme até hoje.
Henrique apenas riu, sem graça, como se eu estivesse inventando
uma história absurda. Aquilo foi um soco no estômago. Se ele não se
lembrava de mim, os outros também não se lembravam?
A ficha caiu como uma pedra nas minhas costas. Eu estava sozinho.
Olhei para os lados, para as outras pessoas no módulo. Elas pareciam
normais, rindo, conversando, vivendo suas vidas como se nada
estivesse errado. Como se aquele lugar fosse apenas um abrigo, um
lar seguro. Mas eu sabia que não era. Todos ali estavam à beira do
esquecimento.
E eu me perguntava: quem somos nós quando nossas memórias são
roubadas? Quando olhamos para alguém que um dia significou tanto
e não sentimos nada?
Henrique não era mais Henrique.
E, se eu não fizesse algo, logo eu também não seria mais David.
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