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O documento discute a crise do pensamento humanista e a ascensão de regimes extremistas, especialmente no Brasil sob a presidência de Jair Bolsonaro, destacando a marginalização de grupos considerados 'desviantes'. A análise de Agamben sobre biopolítica e a naturalização da exclusão revela como a violência estatal se torna normativa, exemplificada por casos de brutalidade policial no Rio de Janeiro. A narrativa midiática contribui para a despolitização das questões sociais, dificultando um debate crítico sobre a violência e a condição humana na sociedade contemporânea.
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O documento discute a crise do pensamento humanista e a ascensão de regimes extremistas, especialmente no Brasil sob a presidência de Jair Bolsonaro, destacando a marginalização de grupos considerados 'desviantes'. A análise de Agamben sobre biopolítica e a naturalização da exclusão revela como a violência estatal se torna normativa, exemplificada por casos de brutalidade policial no Rio de Janeiro. A narrativa midiática contribui para a despolitização das questões sociais, dificultando um debate crítico sobre a violência e a condição humana na sociedade contemporânea.
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humanitário, à crise do pensamento humanista, haja vista não apenas as ascensões de regimes extremistas, como

também o grande apoio a líderes democraticamente eleitos e seus projetos que colocam em xeque a razão humana
pelo embotamento do pensamento crítico. No Brasil, por exemplo, principalmente desde a eleição de Jair Messias
Bolsonaro, assiste-se a esse panorama da destruição ético-política de modo bastante claro; todavia, há uma certa
opacidade social que paira em forma de pesado silenciamento de oposição política e ideológica. A sujeição do homem
aos rarefeitos controles dos sujeitos, amplamente estudada por Foucault, mostra que tais artimanhas políticas não
apenas instrumentalizam o ser humano como os animaliza a ponto de, em síntese, o poder estatal “proteger a vida e
autorizar o Holocausto”.122 O aspecto atordoante nessa dicotomia é que ela surge como uma perspectiva dialética de
inclusão/exclusão social e não como contradição, mas como oposição organizadora da vida social e política. Aí se posta
a naturalização/ validação da vida matável. Dispositivos disciplinares politizam todas as vidas, mas há sujeitos e grupos
de sujeitos que são vistos, por excelência (numa visão estatal), sob uma tatuagem biopolítica. São esses corpos dotados
de “desvios” que sustentam fortemente, ainda que à revelia, a ideia de um poder soberano, deliberador de quem se
situa ou não à margem de um ordenamento jurídico. Daí não causar estranhamento que democracia e liberdade
possam ser valores dentro de simulacros ideológicos que disputam sentido no espaço público e que se exponenciam
pela espetacularização e pela “matabilidade” a despeito da “sacralidade” (num aspecto positivo) da vida. Essas questões
são lançadas a uma zona de absoluta indistinção e essa área ilocalizável de indiferença é o que permite um
deslocamento dos sujeitos “portadores de desvio” para uma marginalização social levada ao infinito. Dessa forma, estar
no ordenamento jurídico, na norma, torna-se quase uma impossibilidade, uma impotência de resistência política. 122
FOUCAULT, Michel. 1994:719 apud AGAMBEM, 2010:11). 117 Sob essa óptica, Agamben salienta que “a biopolítica do
totalitarismo moderno de um lado, a sociedade do consumo e do hedonismo de massa de outro constituem
certamente, cada uma a seu modo” 123. Para Agamben, as respostas para as perguntas: “Como é possível politizar a
doçura natural da ‘zoé’ [vida]? Há, de fato tal necessidade? Em nome de que isso se dá?”, “caso uma nova política não
se apresente, estarão condicionadas: (...) toda teoria e toda praxe permanecerão aprisionadas em um beco sem saídas,
e o ‘belo dia’ da vida só obterá cidadania política através do sangue ou da perfeita insensatez a que a condena a
sociedade do espetáculo”.124 Ora, em que campo, senão o do espetáculo, o poder encontra sua eficácia máxima?
Some-se a isso os significados e sentidos atribuídos (frequentemente pelo viés midiático) aos sujeitos naturalizados
como os desviantes da normalidade vigente; é essa naturalização da desigualdade que permite a passagem do poder do
Estado para um poder disciplinador, sem que se perceba o grau de anomia instalada como regra. A zona imprecisa a que
se refere Agamben fica mais clara quando, entre o poder soberano – legitimado por ordenamentos jurídicos – e
inutilidade dos sujeitos “fora da lei” edifica-se o biopoder: A tarefa que o nosso tempo propõe ao pensamento não pode
consistir simplesmente no reconhecimento da forma extrema e insuportável da lei como vigência sem significado. Todo
pensamento que se limite a isso não faz mais que repetir a estrutura ontológica que definimos como paradoxo da
soberania (...). A soberania é, de fato, precisamente esta lei à qual somos abandonados. (...) Uma pura forma da lei é
apenas a forma vazia de relação, mas a forma vazia da relação não é mais a lei, e sim uma zona de indiscernibilidade
entre lei e vida, ou seja, um estado de exceção.125 123 AGAMBEN, Giorgio. Op. Cit., p. 18. 124 Idem, ibidem. 125 Idem,
p. 64. 118 Enfatizamos que essa dialética inclusão/exclusão assegura a naturalização do Homo Sacer na modernidade e
em regimes democráticos. Assim, como aduz Duarte, ele é uma “figura por meio da qual a vida humana se inclui na
ordem jurídica unicamente sob a forma de exclusão, pois constitui a figura jurídica daquele que pode ser morto por
qualquer um, desde que tal morte não seja o resultado de um ritual ou processo jurídico”.126 Nesse sentido, a exclusão
é configurada por violações de direitos e pela dificultação sistemática da autonomia e resistência dos sujeitos à coerção.
Porém, as artimanhas enredadas na lógica e nas práticas de um poder soberano faz parece que a condição humana não
se configura dessa forma. Zizek, novamente, ilustra essa condição: imaginar um avião de guerra voando sobre o
Afeganistão: “nunca se sabe se ele vai jogar bombas ou pacotes de alimentos”.127 Agamben toma a biopolítica como
núcleo de uma sociedade regulada pela exceção política e, consequentemente, cada vez mais excludente.
Estrategicamente excludente. Afinal, enuncia o filósofo italiano que uma sociedade contornada pela força de lei (sem
lei), em que a suspensão da norma é a própria norma, permite a aporia de “estar fora e pertencer”: eis a estrutura
topológica do Estado de exceção. É exatamente nessa brecha jurídica que surge a anomia entre direito e democracia, o
rompimento entre direitos inalienáveis dos cidadãos e a decisão do soberano. Esse espaço vazio de direito parece ser,
sob alguns aspectos, tão essencial à ordem jurídica que esta deve buscar, por todos os meios, assegurar uma relação
com ele, como se para se fundar, ela devesse manter necessariamente uma relação com uma anomia. (...) O problema
crucial ligado à suspensão do direito é o dos atos cometidos durante o “institium”, cuja natureza parece escapar a
qualquer definição jurídica. À medida que não são nem transgressivos, nem 126 DUARTE, André. Modernidade,
biopolítica e violência: a crítica arendhtiana ao presente. In DUARTE, A.; LOPREDO, Cristina; MAGALHÃES, Marion (Org.).
A banalização da violência: a atualidade do pensamento de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Relume Damará, 2004, p. 50.
127 ZIZEK, Slavoj. Op. Cit., p. 114. 119 executivos, nem legislativos, parecem situar-se, no que se refere ao direito, em
um não-lugar absoluto.128 Tensão entre o “soberano” e o Sacer: casos no Rio de Janeiro Há vários fatos recentíssimos
que exemplificam e reúnem os conceitos discutidos até aqui. Escolhemos alguns, que aconteceram no Rio de Janeiro. A
escolha diz respeito à repetida estrutura violenta do Estado, à lógica paradoxal da soberania e à naturalização da vida
“que não merece ser vivida”, da separação de direitos objetivos e subjetivos, do que o Estado (e grande parte da
população) considera sujeito de direitos, diante das representações sociais postas em circulação para o debate público.
Rio de Janeiro, março de 2018. A socióloga, deputada federal e ativista pelos Direitos Humanos, Marielle Franco, que
denunciava o abuso de autoridade da Policia Militar (notadamente o 41º Batalhão) nos morros, é assassinada com
quatro tiros na cabeça quando voltava de um evento na periferia. Embora a suspeição do crime tenha recaído sobre
milicianos, o Estado mostra-se passivo em relação à brutalidade. Há pessoas suspeitas presas, mas o relatório acerca da
morte de Marielle Franco permanece inclusivo. Rio de Janeiro, abril de 2019. Militares do Exército atiram mais de 80
vezes contra o carro do músico Evaldo Rosa dos Santos. Homem negro, morador da periferia, estava com a família
quando seu automóvel foi alvejado com tiros de fuzil. O Estado, na persona do Comando Militar do Leste, alegou que foi
um engano. Após prisão preventiva, em menos de um mês os autores dos disparos foram soltos. O engano a que se
referiu o Exército foi porque horas antes do fuzilamento teria havido um assalto 128 AGAMBEN, Giorgio. Op. Cit., 2003,
p. 79. 120 na área em que estava a vítima. O Ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva classificou a brutalidade
como “acidente lamentável”. Rio de Janeiro, maio de 2019. A bordo de um helicóptero da polícia civil, o governador do
Rio de Janeiro Wilson Witzel sobrevoa, com policiais, a região onde fica a comunidade do Areal, dominada pelo tráfico.
Dezenas de tiros de fuzil são disparados contra uma tenda de orações, numa área de peregrinação evangélica. Para o
governador foi um engano ter alvejado a região; o objetivo era “dar fim à bandidagem”.129 Situações como as citadas
são cotidianamente publicizadas a partir de uma narrativa (principalmente midiática) meramente sobre o dano. Trata-se
de um exame monolítico das questões sociais reduzidas a casos de polícia, o que dificulta o engendramento de
discussão crítica na arena do debate público. A opinião pública, por meio da compra de representações sociais ora
sensacionalistas, ora mercadológicas no sentido mesmo proposto por Debórd130, não considera (nem sente) o vetor de
uma ordem biopolítica por meio desses discursos narrativos que entrega a violência especialmente contra alguns
sujeitos como signo da violência como normativa estatal.131 Na retomada dos casos acima elencados, importa destacar
alguns fatos. O deputado federal Flavio Bolsonaro, filho do presidente da República, homenageou 129 Sobre os eventos:
O GLOBO. Vereadora do PSOL, Marielle Franco é morta a tiros na Região Central do Rio. 14/3/2018. Disponível em: <
[Link]
[Link]>. Acesso em: 30 jul 2019.; FOLHA DE S. PAULO. Exército dispara 80 tiros em carro de família no Rio e mata
músico. 8/4/2019. Disponível em: < [Link]
[Link]>. Acesso em: 30 jul 2019; O GLOBO. Helicóptero com Witzel
a bordo metralhou tenda de orações em Angra dos Reis. 8/5/2019. Disponível em: <
[Link]
23648907>. Acesso em 30 jul 2019. 130 DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.
131 Recomendamos, nesse sentido, a leitura de MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1

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