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Saúde Coletiva No Ensino Superior de Farmácia: A Relevância Da Prática

O artigo analisa a importância da disciplina de Saúde Coletiva na formação de farmacêuticos, destacando a necessidade de uma formação que atenda às exigências do Sistema Único de Saúde. A pesquisa enfatiza a construção da identidade profissional do farmacêutico e a integração deste no contexto da saúde coletiva, promovendo uma atuação crítica e reflexiva. O estudo conclui que a formação deve ser multidisciplinar e humanista, preparando o farmacêutico para enfrentar os desafios do sistema de saúde brasileiro.

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Saúde Coletiva No Ensino Superior de Farmácia: A Relevância Da Prática

O artigo analisa a importância da disciplina de Saúde Coletiva na formação de farmacêuticos, destacando a necessidade de uma formação que atenda às exigências do Sistema Único de Saúde. A pesquisa enfatiza a construção da identidade profissional do farmacêutico e a integração deste no contexto da saúde coletiva, promovendo uma atuação crítica e reflexiva. O estudo conclui que a formação deve ser multidisciplinar e humanista, preparando o farmacêutico para enfrentar os desafios do sistema de saúde brasileiro.

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ARTIGO REDE – 2021; 5:134-145.

SAÚDE COLETIVA NO ENSINO SUPERIOR DE FARMÁCIA:


A RELEVÂNCIA DA PRÁTICA
COLLECTIVE HEALTH IN PHARMACY HIGHER EDUCATION:
THE RELEVANCE OF PRACTICE

FERRAZ, J. R.¹
¹ Faculdade Estácio de Carapicuíba – ESTÁCIO DE CARAPICUÍBA - SP
jrafaelferraz2@[Link]

Resumo

As Diretrizes Curriculares de 2002 estabeleceram um novo currículo para o ensino


farmacêutico na tentativa de aproximar a formação do profissional das exigências do novo
modelo de atenção instituído com o Sistema Único de Saúde, principalmente quanto a
prática do profissional no âmbito da saúde coletiva. Sendo assim, é de extrema importância
o conhecimento obtido na graduação na disciplina de saúde coletiva, já que o papel do
profissional farmacêutico dentro de suas inúmeras possibilidades denota a cada dia a sua
inclusão efetiva, participativa e essencial para o funcionamento adequado do Sistema Único
de Saúde. No presente trabalho objetivou-se analisar a contribuição da disciplina de Saúde
Coletiva na graduação do curso de Farmácia nas Instituições de Ensino Superior. O estudo
foi desenvolvido sob a perspectiva da contribuição do profissional farmacêutico no âmbito
da saúde coletiva com ênfase na sua formação acadêmica. Foi realizada uma revisão
bibliográfica sobre a construção da identidade profissional do farmacêutico na graduação e
sua inserção no Sistema Único de Saúde, devido principalmente às novas resoluções do
Conselho Regional de Farmácia. A realidade da profissão farmacêutica reflete a falta do
conhecimento do profissional e a fragmentação da atividade da assistência ainda
caracterizadas no cenário do Sistema. Neste sentido, o profissional farmacêutico passa por
uma fase de ruptura do paradigma tecnicista para a construção de sua identidade como
profissional da saúde e o presente demonstra que na disciplina de saúde coletiva o
graduando do curso de farmácia deve ser inserido na realidade do profissional
farmacêutico, levando a uma visão crítica da problemática de saúde no Brasil com aspectos
da ciência epidemiológica. Assim, é possível fornecer instrumentos para avaliar o uso de
medicamentos pela população e os mecanismos de consumo que determinam a frequência
das exposições, assim como estudar a lógica do ensaio clínico e da farmacovigilância
contrapondo-as com a da promoção comercial.
Palavras-Chave: farmacêutico; grade curricular; graduação em farmácia.

Abstract

The 2002 Curriculum Guidelines established a new curriculum for pharmaceutical education
in an attempt to bring professional training closer to the requirements of the new care model
established with the Brazilian Unified Health System, specifically considering the
professional practice in the context of public health. Therefore, the knowledge gathered in
the discipline of collective health of undergraduate courses is extremely important, since the
role of the pharmacist within its countless possibilities denotes, every day, its effective,
participatory, and essential inclusion for the Unified Health System proper functioning. This
study aimed to analyze the contribution of the discipline Collective Health in the graduation
of the Pharmacy course in Higher Education Institutions. The study was developed from the
perspective regarding the contribution of the pharmacist in the field of collective health with
an emphasis on their academic training. A bibliographical review was carried out on the

Saúde FERRAZ
REDE – 2021; 5: 134-145.

construction of the professional identity of the pharmacist at graduation and its insertion in
the Unified Health System, mainly due to the new resolutions of the Regional Council of
Pharmacy. The reality of the pharmaceutical profession is that the lack of professional
knowledge and the fragmentation of care activity still characterize the scenario of the
System. In this sense, the pharmacist is going through a phase of rupture of the technicist
paradigm for the construction of his identity as a health professional, and the present
demonstrates that in the collective health discipline, the pharmacy graduate student must
be inserted in the reality of the pharmacist professional, leading to a critical view of the
health problem in Brazil regarding the aspects of epidemiological science. Thus, it is possible
to provide instruments to assess the use of medicines by the population and the consumption
mechanisms that determine the frequency of exposures, as well as to study the logic of
clinical trials and pharmacovigilance, contrasting them with commercial promotion.
Keywords: pharmaceutical; curriculum; pharmacy course.

Introdução

Os primeiros cursos de farmácia que emergiu teve um importante papel para


brasileiros foram criados no final de 1832 e os profissionais da saúde e, em particular,
eram ministrados pelas duas Faculdades de para o profissional farmacêutico na medida
Medicina do país, localizadas nos Estados da em que se oficializou o Sistema Único de
Bahia e do Rio de Janeiro (ESTEFAN, 2006). Saúde (SUS) e, consequentemente, a
Ainda segundo esse autor, o curso tinha definição legal da Assistência Farmacêutica.
duração de três anos e o objetivo era formar A criação do SUS, pela própria constituição,
profissionais voltados para todos os fez com que novos desafios e perspectivas
aspectos do medicamento, com os fossem incorporados ao cotidiano dos
diplomados recebendo o título de gestores, profissionais da saúde e usuários
farmacêutico. Com a oficialização do Curso (BRASIL, 1988).
de Farmácia ficou estabelecido que Neste sentido, parece quase
ninguém poderia “curar, ter botica, ou impossível produzir a reorganização das
partejar” sem título conferido ou aprovado práticas de saúde sem interferir
pelas citadas faculdades. simultaneamente no mundo da formação e
Mais recentemente, a crise do trabalho. Portanto, para a consolidação
instaurada na saúde pública desde meados do Sistema Único de Saúde é preciso atuar
da década de 1970 esteve associada à crise na mudança da percepção dos profissionais
financeira da Previdência Social. Com a que já atuam no Sistema, seja com a
tentativa de reverter o modelo médico formação continuada ou com investimentos
hospitalocêntrico, no final da década de do próprio governo, devendo-se também
1980, o movimento da Reforma Sanitária talhar mudanças emergenciais na

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graduação dos profissionais da saúde Em relação aos aspectos


(FEUERWERKER, 2007). pedagógicos, entre os itens citados nas
Dessa forma, em fevereiro de 2002, diretrizes é importante chamar atenção
o Ministério da Educação (MEC) aprovou a para: a) deve haver um equilíbrio entre
Resolução nº 2 de Diretrizes Curriculares teoria e prática, permitindo na prática e no
Nacionais do Curso de Graduação em exercício das atividades o aprendizado da
Farmácia, que instituiu a nova mudança no arte de aprender; b) deve garantir uma
ensino farmacêutico aprovando o currículo sólida formação básica multidisciplinar e
único que passou a contemplar todas as explicitar a necessidade de dar um
áreas profissionais (BRASIL, 2002). Estas tratamento metodológico aos conheci-
diretrizes procuraram se adequar à nova mentos, no sentido de garantir o equilíbrio
realidade do Sistema Único de Saúde (SUS), entre a aquisição do conhecimento,
apontando para uma formação do habilidades, atitudes e valores (BRASIL,
farmacêutico generalista, humanista, crítica 2002). Assim, a formação do profissional
e reflexiva, que permitirá que esse atue em farmacêutico deve seguir um perfil
todos os níveis de atenção à saúde. Ainda multiprofissional e multidisciplinar, confor-
nesta Resolução foi instituído o me os preceitos do SUS a fim de fornecer
farmacêutico na saúde coletiva. Dessa uma formação generalista, humanista,
forma, ficou determinada: sua identidade, crítica e reflexiva, tendo como atribuições
demandas do serviço, além de principais a prevenção de doenças e a
estabelecidas as competências e promoção, proteção e recuperação da
habilidades específicas para que o saúde humana (CAMBUZZI, 2010).
farmacêutico possa, entre outras Segundo a Organização Mundial de
atividades: integrar-se em programas de Saúde (OMS, 1993), cabe ao profissional
promoção, manutenção, prevenção, farmacêutico atuar em defesa da saúde do
proteção e recuperação da saúde, paciente, promover o uso racional dos
sensibilizado e comprometido com o ser produtos farmacêuticos, bem como
humano, respeitando-o e valorizando-o, participar da promoção e educação
além de atuar na promoção e sanitária, o que envolve, entre outros
gerenciamento do uso correto e racional de aspectos, o processo educativo dos
medicamentos, em todos os níveis do pacientes. Não se trata mais de afirmar
sistema de saúde, tanto no âmbito do setor apenas a transversalidade da Saúde Coletiva
público como privado (BRASIL, 2002). nas demais profissões da saúde, conforme

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consta nas diretrizes que orientam as A metodologia utilizada baseou-se


mudanças na formação dos profissionais na busca e leitura de materiais
farmacêuticos. Trata-se da afirmação da bibliográficos. No primeiro momento foi
Saúde Coletiva como campo de exercício realizada uma busca a partir das seguintes
profissional, mas também na necessidade palavras-chaves: farmacêutico, grade
de inovações pedagógicas: para formar um curricular, curso farmácia, diretrizes, SUS,
novo profissional é preciso avançar no saúde coletiva. Para isso, foram utilizadas as
desenho curricular e nas práticas bases de dados SciELO e BIREME com o
pedagógicas. Não se faz o novo com o objetivo de, através dos resumos, selecionar
mesmo. E a reflexão cotidiana sobre esse os artigos relativos aos temas da pesquisa.
novo fazer atravessou a produção de Além disso, diante da dificuldade em
práticas com renovada potencialidade de encontrar materiais em quantidade
produzir aprendizagens necessárias ao suficiente que permitisse uma abordagem
conjunto de atores. Paulo Freire (2005) mais completa sobre a disciplina de saúde
registrava que a capacidade renovada de coletiva frente a formação dos
ensinar se esgota quando se alcança o limite farmacêuticos, também foram utilizados
da capacidade de aprender. outros materiais impressos ou em formato
eletrônico, voltados para a temática
Objetivos proposta, sendo, portanto, incluídos livros,
monografias, dissertações e teses, além de
O objetivo deste trabalho foi avaliar artigos.
os principais aspectos relacionados ao atual
ensino de Farmácia no Brasil, considerando Desenvolvimento
a formação desse profissional visando sua
atuação no Sistema Único de Saúde. Os A proposição de diretrizes
objetivos específicos visaram analisar a curriculares nacionais como estratégia de
relevância e contribuição da disciplina de orientação às mudanças no ensino está, em
Saúde Coletiva na graduação do curso de primeiro lugar, na mudança da noção de
Farmácia para a formação desse “currículo mínimo” ou “obrigatório” para a
farmacêutico, assim como sua inserção na noção de “diretrizes”. Esta mudança é
saúde coletiva. definida e argumentada no Parecer CNE/
CES n° 1.133 (BRASIL, 2001) da seguinte
Material e Métodos forma:

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As diretrizes curriculares constituem profissional, que não termina com a


orientações para a elaboração dos concessão do diploma de graduação.
currículos que devem ser necessa-
riamente adotadas por todas as As diretrizes nacionais a exemplo do
instituições de ensino superior. Dentro da
perspectiva de assegurar a flexibilidade, a que fazem os documentos básicos da área
diversidade e a qualidade da formação da saúde há alguns anos têm, claramente,
oferecida aos estudantes, as diretrizes
devem estimular o abandono das uma opção política que aponta para a
concepções antigas e herméticas das
grades (prisões) curriculares, de atuarem, superação da prescrição moderna às
muitas vezes, como meros instrumentos profissões, em particular das profissões da
de transmissão de conhecimento e
informações, e garantir uma sólida saúde, de constituírem identidades
formação básica, preparando o futuro
graduado para enfrentar os desafios das profissionais rígidas e, principalmente, em
rápidas transformações da sociedade, do oposição às demais (SANTANA et al., 2012).
mercado de trabalho e das condições de
exercício profissional. Desde a racionalidade científica
moderna, o ensino dos profissionais se
É necessário que a formação se
confunde com a produção de identidade das
utilize das melhores capacidades locais e da
profissões e essa transposição transforma a
plena interface com os sistemas de saúde,
educação em mera formatação de uma
mas há uma mudança conceitual
“matéria-prima” (aluno), cuja característica
importante também no que se define como
principal seria a inexistência ou incipiência
resultado da formação em graduação: não
de identidade profissional, em protótipos
mais um protótipo serializado, mas um
profissionais (“recurso humano especiali-
sujeito com capacidade de atuação criativa
zado”), certificados por instituição de
e protagônica nos cenários do sistema de
ensino e chancelados por órgãos de
saúde, inclusive com capacidade de
fiscalização do exercício profissional
aprender continuamente em contato com o
(SATURNINO & FERNANDEZ-LIMÓS, 2009).
chamado “mundo do trabalho”. Ainda de
Ainda segundo Saturnino, essa inversão traz
acordo com o referido Parecer (BRASIL,
fortes consequências para o ensino, entre
2001), é necessário que os cursos
elas a fragmentação ou o trabalho em
contemplem:
equipes multiprofissionais e interdisci-
Elementos de fundamentação essencial plinares. Esse movimento requer uma
em cada área do conhecimento, campo
do saber ou profissão, visando promover grande reflexão de cada instituição de
no estudante a competência do ensino, cada curso, cada plano de ensino,
desenvolvimento intelectual e
profissional autônomo e permanente. cada professor, cada unidade de produção
Esta competência permite a continuidade
do processo de formação acadêmica e/ou pedagógica professores-aluno, em termos

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de o quanto e como dilatar as fronteiras das no ano de 2002, de uma reorganização do


experiências de ensino, ampliando sua currículo do curso de farmácia no Brasil,
permeabilização e aceitando o permanente delineando um novo perfil para os
desmanchar e refazer dessas fronteiras profissionais farmacêuticos. A reformulação
(SATURNINO & FERNANDEZ-LIMÓS, 2009). na educação farmacêutica não é
A profissão farmacêutica sempre exclusividade do Brasil. Os países europeus
acompanhou a humanidade, pois o homem recentemente repensaram o ensino, sendo
em todo o tempo conviveu com doenças e que a Associação Europeia das Faculdades
por muito tempo, o ofício do farmacêutico de Farmácia recomendou uma reestru-
foi o de preparar medicamentos na sua turação nos cursos, voltada para a
farmácia, entretanto, com a ascensão da incorporação de conhecimentos clínicos
indústria farmacêutica, na primeira metade (CRF-SP, 2009). No Brasil, em 1996, a lei de
do século XX, surge uma crise de identidade Diretrizes e Bases da Educação (LDB) propôs
profissional, pois o farmacêutico se vê a substituição dos currículos mínimos pelas
deslocado do seu principal ofício até então, Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para
a manipulação de medicamentos (HADDAD os cursos superiores. Após ampla discussão,
et al., 2006). Para resgatar o papel social da o Conselho Nacional de Educação aprovou
Farmácia surgem algumas propostas como a as Diretrizes Curriculares Nacionais para os
Farmácia Clínica e a Atenção Farmacêutica. cursos de Farmácia pela Resolução CNE/CES
O conceito de Farmácia Clínica surgiu em 02/2002, tornando o ensino farmacêutico
1960 nos Estados Unidos, para garantir o generalista (HADDAD et al., 2006).
uso correto de medicamentos no ambiente O farmacêutico generalista surgiu
hospitalar (SATURNINO et al., 2012). da necessidade de o acadêmico ter uma
Esse cenário demonstra que a visão mais humanista e crítica da sociedade,
formação profissional na área da saúde sendo capaz de trabalhar com a
sofre uma influência direta dos aspectos comunidade no âmbito da saúde coletiva e
sócio-políticos, além das tendências de na forma de ações sociais, atuando em
mercados que norteiam as diferentes vários níveis da atenção à saúde e
profissões. Com as mudanças subsequentes participando da Política Nacional de
no cenário da saúde, como a criação do Assistência Farmacêutica (SANTANA et al.,
Sistema Único de Saúde em 1988 e as 2012). Desta forma, o currículo generalista
consequentes alterações políticas ocorridas possibilita ao acadêmico uma formação
ao longo deste tempo, houve a necessidade, mais humana e social, permitindo-lhe ainda

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o desenvolvimento de habilidades voltadas torna-se capacitado a atuar em atividades


para a assistência farmacêutica e atenção referentes a fármacos e medicamentos,
básica à saúde (DALPIZZOL & ALMEIDA, análises clínicas e toxicológicas, controle,
2011). produção e análise de alimentos, tendo
Devido à grande expansão dos como prioridade os princípios éticos e a
cursos de Farmácia no Brasil, observado compreensão da realidade social.
pelo aumento do número de cursos Segundo o Conselho Federal de
oferecidos, verificou-se uma grande Farmácia, a profissão farmacêutica abrange
diversidade de currículos gerando grandes mais de setenta áreas de atuação,
desafios ao Conselho Federal de Farmácia e distribuídas entre as áreas específicas de
sua Comissão de ensino. Com isso, a medicamentos, alimentos e análises clínicas
Resolução do Conselho Nacional de e toxicológicas, o que possibilita ao futuro
Educação/ Câmara de Educação Superior – profissional um leque muito extenso de
CNE/CES número 2 de 2002 estabeleceu as opções quanto ao mercado de trabalho. As
Diretrizes Curriculares Nacionais de novas diretrizes para os cursos de farmácia
Graduação em Farmácia e a Comissão de estipulam que os planos políticos
Ensino do CFF elaborou um manual com pedagógicos dos cursos devem prever ações
orientações para implantação dessas vinculadas ao Sistema Único de Saúde e que
diretrizes pelos cursos das instituições de este deve servir de base para a criação dos
ensino superior (FERNANDEZ et al., 2008). mesmos. Assim, os estágios curriculares
devem ter uma carga horária mínima de
Farmácia Parágrafo único. A formação do
Farmacêutico deverá contemplar as 20% do total de horas do curso de farmácia,
necessidades sociais da saúde, a atenção permitindo práticas que servirão de
integral da saúde no sistema
regionalizado e hierarquizado de experiência de trabalho para os acadêmicos,
referência e contra-referência e o
trabalho em equipe, com ênfase no articulando a teoria à prática e moldando o
Sistema Único de Saúde. pensamento com o objetivo de se obter
Segundo a Resolução CNE/CES uma formação de qualidade (SATURNINO &
número 2 de 2002, o profissional & FERNANDEZ-LIMÓS, 2009). No entanto,
farmacêutico egresso deverá ter uma visão uma ressalva deve ser feita. Essas mudanças
generalista, humanista, reflexiva e crítica, sinalizam somente o direcionamento geral
para atuar em todos os níveis de atenção à que os cursos devem apresentar, já que os
saúde, baseado no rigor científico e mesmos, considerando, evidentemente, a
intelectual. O farmacêutico, desta forma, qualidade de vida dos pacientes como

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atividade-fim de toda intervenção problemática de saúde no Brasil com


farmacêutica, devem respeitar os valores aspectos da ciência epidemiológica. Assim,
éticos e culturais da região onde estão é possível fornecer a esses instrumentos
inseridos (CARVALHO et al., 2006). para se avaliar o uso de medicamentos pela
Desde então, o Currículo de população e os mecanismos de consumo
Farmácia vem sendo motivo de que determinam a frequência das
questionamentos e análises pelos exposições, assim como estudar a lógica do
profissionais e educadores, bem como as ensaio clínico e da farmacovigilância
suas habilitações e a duração dos cursos. contrapondo-as com a lógica da promoção
Estes questionamentos buscavam a comercial.
uniformidade da formação mantendo, Por outro lado, segundo Rodrigues e
entretanto, possibilidades de inovação Reis (2006), ainda havia um grande
dentro de cada curso para atender as descompasso dos modelos de ensino
peculiaridades regionais. Algumas questões vigentes com as reais necessidades da
fundamentais que emergem em todas as população mostrando que o ensino superior
discussões merecem destaque como: as nestas áreas apresenta muitas falhas, como
exigências, os avanços e as necessidades de o defender que a quantidade de informação
formação de recursos humanos no campo e a excessiva carga horária teórica são
tecnológico e da saúde pública dos tempos parâmetros de qualidade, assim como o
atuais; o fosso existente entre as disciplinas escasso oferecimento de atividades
do ciclo básico e do profissional práticas. O ensino tradicional de Farmácia se
comprometendo o próprio perfil curricular; concentrou, por muito tempo, na retenção
e a inclusão da disciplina de Saúde Coletiva de informações e repetição de conteúdos
que não pode mais ser postergada básicos, sem contemplar a resolução de
(ESTEFAN, 2006). problemas, necessária para reforçar o
Na disciplina de Saúde Coletiva, pensamento crítico. Isso trouxe como
primeiramente o graduando do curso de consequência, alunos mal preparados para
farmácia deve estudar o processo histórico os problemas da vida real (BLOUIN et al.,
do desenvolvimento das práticas médico- 2008).
sanitário e das políticas públicas de saúde Porém, o novo currículo de
buscando inserir o aluno na realidade do Farmácia preocupa-se com a integração
profissional farmacêutico, levando ao entre o ciclo básico e o profissional através
desenvolvimento de uma visão crítica da da interdisciplinaridade e do envolvimento

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dos alunos com atividades inerentes à (GOMES et al., 2010)


profissão desde seu ingresso, através de Por outro lado, o Brasil destaca-se
práticas farmacêuticas integrativas, dentre dos demais países da América Latina porque
outras modificações como a reorientação apresenta um sistema que garante a
de algumas disciplinas, para a integração de universalização de acesso por meio de
conteúdos (DALPIZZOL & ALMEIDA 2011). financiamento público (CAMPOS et al.,
Dessa forma, se busca a ligação entre a 2012). Isso faz do Sistema Único de Saúde
teoria, a prática e a produção de (SUS) um dos maiores sistemas de saúde do
conhecimento dentro do contexto de mundo (CAMBRUZZI, 2010), o que exige das
aplicação, mesmo porque alguns instituições de ensino a aproximação da sua
conhecimentos utilizados pelos farmacêu- prática aos serviços e ações do SUS
ticos não podem ser codificados. Uma das (FEUERWERKER, 2007).
formas de integração entre teoria e prática, A atuação do farmacêutico nas
que vai ao encontro dessa necessidade, é o redes de atenção à saúde tem se mostrado
uso de metodologias ativas de ensino e interessante, sobretudo pelo envolvimento
aprendizagem (WATERFIELD, 2010). do farmacêutico na gestão técnica e
No Brasil há algumas experiências intervenção no componente clínico dos
nesse sentido, como a da Universidade de serviços (CFF, 2013).
Fortaleza, em que o Curso de Farmácia, A inclusão do farmacêutico no SUS
juntamente com outros quatro cursos da está prevista pela DCN de 2002. Entretanto,
área da saúde, utilizou a metodologia PBL a efetiva inserção apresenta desafios. Uma
para abordar a temática “doença de das barreiras para a inserção dos alunos no
Parkinson” (SANTANA et al., 2012). Já na SUS é o fato de que os professores
Universidade Federal do Sergipe, no campus costumam relegar a prestação de cuidados
de Lagarto, foi criado o primeiro curso de a um segundo plano, devido ao maior
Farmácia no Brasil concebido na perspectiva envolvimento em pesquisas (ALBUQUER-
da aprendizagem baseada em problemas. O QUE et al., 2008). A falta de incentivo por
uso de metodologias ativas ganha respaldo parte dos professores, associada à
até da OMS que, dentro das doze desvalorização profissional, desestimula os
intervenções para o uso racional de alunos a trabalhar no SUS (NICOLINE &
medicamentos, preconiza o uso de VIEIRA, 2011). Uma forma de contornar esse
diretrizes clínicas e o treinamento em problema é incluir profissionais que atuam
farmacoterapia baseado em problemas na rede pública de saúde no corpo docente

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dos diversos cursos (ALBUQUERQUE et al., entanto, independentemente do método


2008). empregado, torna-se evidente que o
componente mais importante de todo o
Conclusões processo formativo é o paciente (ou
usuário), destinatário final de todas as
Acredita-se que o curso de farmácia ações.
deve promover a competência do Existe a necessidade de uma grande
graduando, estabelecendo a necessária mudança na própria compreensão do que
relação teoria-prática e as condições para seja o cuidado, a gestão da clínica, a análise
que este tenha uma base de informação de situações de saúde, o desenvolvimento
coerente e atualizada para atender as de trabalhadores e a avaliação de
demandas da comunidade, incentivando a resultados e satisfação dos usuários. Tendo
capacidade de análise profissional, apoiada um conjunto tão ampliado de abordagens
em conhecimentos que permitam avaliar (muito além da oferta de procedimentos da
uma determinada situação vigente e “razão médica”), o cuidado em saúde não
trabalhar para a sua melhoria; percebendo pode mais ser embasado apenas em
a importância da sua inserção social, conhecimentos da biopolítica/biomedicina
atendendo às necessidades da população, e, como consequência não pode ter
inclusive de suas minorias, demonstrando o processos de decisão pautados somente
compromisso social. Assim, se contribui pela técnica e pelo próprio conhecimento
com a formação do acadêmico, para que em condutas, procedimentos e medica-
possa desenvolver ações de promoção da mentos. A gestão do cuidado passa a ser
saúde e prevenção de doenças. uma demanda importante de decisão do
Através da mensuração e análise profissional, em oposição à aplicação da
epidemiológica e senso crítico do aluno em própria técnica e das “melhores evidências
relação à realidade de saúde e dos serviços científicas”. O profissional precisa ampliar
de saúde, esse é estimulado a uma sua capacidade da simples aplicação da
participação mais efetiva na prestação de técnica para a de “tomar decisões” com
assistência farmacêutica, compatíveis com base num conjunto complexo de evidências,
as necessidades da população no contexto inclusive da técnica. Assim, a capacidade de
da saúde coletiva. Essa também deve gerir a clínica torna-se um problema teórico
acompanhar todas as mudanças, o que e prático tanto para o cotidiano dos serviços
exige novas abordagens pedagógicas. No como para o ensino das profissões.

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Diante das alterações curriculares, saúde. Rev. Bras. Educ. Med., v. 32, n.
3, p. 356-362, 2008.
favoráveis ao SUS, propostas desde 2002
BLOUIN, R. A.; JOYNER, P. U.; POLLACK, G.
pelas Diretrizes Curriculares, é necessário
M. Preparing for a Renaissance in
que os graduandos de farmácia tenham Pharmacy Education: The Need,
Opportunity, and Capacity for Change.
acesso em seu currículo de curso a estágios
Am. J. Pharm. Educ., v. 72, n. 2, p. 1-3,
em saúde coletiva com maior carga horária 2008.
e disciplinas que enfatizem também as BRASIL. Constituição da República
Federativa do Brasil. Diário Oficial da
Ciências Sociais. Além disso, o SUS é República. 1988, Brasília, DF.
apontado como promissor empregador Disponível em: Acesso em: 26 janeiro
de 2017.
para os futuros profissionais enfatizando,
BRASIL - MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO.
assim, a ruptura do paradigma tecnicista Conselho Nacional de Educação:
tanto na formação quanto na profissão Parecer n. CNE/CES 1.133/2001.
Diretrizes Curriculares Nacionais dos
farmacêutica, refletindo um “movimento” Cursos de Graduação em Enfermagem,
na busca da sua identidade como Medicina e Nutrição. Diário Oficial da
União, v. 1, 2001.
profissional da saúde.
BRASIL - MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO.
Apesar de muito insipiente no país, Resolução nº 2 de fevereiro de 2002,
esta reorganização de papéis tem alterado Diretrizes Curriculares Nacionais dos
Cursos de Graduação em Farmácia e
não só as políticas de saúde, como também Odontologia, Brasília, DF. 2002.
o próprio ensino de farmácia. Dessa Disponível em: Acesso em janeiro de
2017.
maneira, toda a iniciativa seja dos
CAMBRUZZI, D. H. Produção de
Ministérios da Saúde e Educação, ou de conhecimento como externalidade da
forma mais localizada, como foi o foco deste incorporação de tecnologia pelo
Sistema Único de Saúde. Tese de
trabalho, tem um importante papel para Doutorado. Universidade de São Paulo.
trazer elementos para a reflexão, 2010. 61 p.

contribuindo para a construção deste novo CAMPOS, G. W. S.; MINAYO, M. C. S.;


DRUMOND JÚNIOR. M.; CARVALHO, Y.
modelo de atenção integral à saúde. M. Tratado de Saúde Coletiva. São
Paulo: Hucitec; 2012.
Referências Bibliográficas CARVALHO, Y. M.; CECCIM, R. B. Formação
e educação em saúde: aprendizados
ALBUQUERQUE, V. S.; GOMES, A. P.; com a Saúde Coletiva. Em: CAMPOS, G.
REZENDE, C. H. A.; SAMPAIO, M. X.; W. S.; MINAYO, M. C. S.; AKERMAN, M.;
DIAS, O. V.; LUGARINHO, R. M. A DRUMOND, J. R. M.; CARVALHO, Y. M.
integração ensino-serviço no contexto (Orgs.). Tratado de Saúde Coletiva. São
dos processos de mudança na Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Ed.
formação superior dos profissionais da Fiocruz, 2006. p. 149-82.

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REDE – 2021; 5: 134-145.

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