Estava escuro e a única fonte de luz em meu quarto emanava de uma
vela em cima da mesa. Estava sentada fazendo anotações a respeito
dos efeitos colaterais causados pela ingestão de uma flor, chamada
beladona, seus efeitos são realmente notáveis quem diria que uma
flor tão linda e delicada seria capaz de acabar com a vida de alguém
em poucas horas. A cada minuto era possível ouvir o ranger de
tábuas da madeira do piso, sendo um dos vários motivos que tiraram
meu sono em noites como esta, as notícias vindas dos jornais e
fofocas entre a vizinhança me davam arrepios, e medo de que em um
futuro próximo eu seja a próxima pessoa a desaparecer sem deixar
vestígios. Em uma noite qualquer quem imaginaria que você poderia
ser arrancado de sua casa e levado sabe-se lá para onde talvez seja
torturado é morto nas mãos de canibais, ou nas mãos de algo ainda
pior... Bruxas, não são suas aparências terríveis ou seus poderes
sobrenaturais ou até mesmo pelo fato de dançarem com o diabo ou
algo do tipo que me deixava aflita, era pelo simples fato de não saber
a veracidade desses fatos.
Apenas em pensar que uma de meus irmãos poderiam ser levados
me assola, o que seria de mim sem a vontade de proteção de Lex? ou
os abraços e perguntas de Katy? Ou o sorriso longo de orelha a orelha
de meu irmãozinho Viol?
Tenho medo de perder quem mais amo de maneiras terríveis, como
nossa vizinha que perdera o marido a tão pouco tempo, viúva e sem
ninguém, sendo constantemente acusada de bruxaria. Quem garante
isso? Não sei o que faz alguém para se tornar uma bruxa. Mas em
casos assim, quem poderia defender a pobrezinha da sr. Ghem?
Meus olhos começaram a pesar e o cansaço toma conta do meu
corpo, fecho meu caderno de anotações, e ando até minha cama,
puxo os lençóis brancos até meu peito e me viro de lado para poder
dormir, ainda pensando no pior.
O canto do galo me acorda cedo às 6 horas da manhã, me levanto
com o sono ainda assolando meu corpo, vou até a penteadeira e pego
minha escova de madeira para escovar o meu cabelo, quando
finalmente acabou de penteá-lo noto que a escova está cheia de fios
grudados nas cerdas da escova, puxo todos os fios e jogo o tufo de
cabelos ruivos pela janela do quarto, ao fundo ouço minha mãe me
chamando para a cozinha, então rapidamente corro até a cômoda, e
retiro um vestido azul escuro simples, feito de linho, e pego uma bota
preta que colocou em baixo da cômoda. Minha mãe grita novamente
o meu nome -Adrià! Desça aqui agora! -Já estou indo!
Abro a ponta do quarto e desço o mais rápido que consigo, não quero
ver a irá dá minha mãe logo pela manhã. Chego a entrada da cozinha
e pergunto. -A senhora chamou? Ela já sem paciência responde. -
Obvio que te chamei sua tola, se você não tivesse ouvido porque teria
respondido. Dou um longo suspiro tentando controlar a raiva. -Quero
que chame seus irmãos, e depois vá tirar leite, para quando seu pai
acordar tenha pão para ele comer.
Dou um leve balançar de cabeça e subo novamente as escadas, abro
a porta do quarto dos meus irmãos que é do lado do meu quarto, vejo
os 3 deitados todo ele tortos nas camas, então bato palmas repetidas
enquanto grito.
-Acorda, que o sol já nasceu!
Todos eles então se virão lentamente e me encaram como olhos entre
abertos, e fazendo grunhidos de quem não queria ter acordado a essa
hora, não posso julga-los, também queria estar na cama, mas por ser
a irmã mais velha não tenho esse controle por causa das
responsabilidades. -Levantem logo que a nossa mãe está chamando
todos.
Eles então começam a se levantar e a colocarem suas roupas. Desço
as escadas mais uma vez, e vou para a porta da frente da casa, saio
para fora e vou até o curral que é logo ao lado da casa.
Abro o curral e vou em direção a Mosa nossa única vaca leiteira,
temos além dela outra chamada Bela mas que por causa de uma
doença perdeu sua capacidade de produzir leite. Uma pena, quando
isso aconteceu quase implorei para meu pai deixá-la viva, por mais
que não produza leite, não acho que valha a pena sua morte para ter
apenas uma semana de economias com carne. Pego um balde de aço
ao lado da porteira e um banquinho para começar a retirar o leite de
Mosa. Com o balde cheio de leite volto para casa, coloco o balde
acima da mesa, enquanto vejo minha mãe preparando a massa do
pão, meus irmãos estão descendo as escadas, todos bem arrumados,
Lex usando um vestido em miniatura verde claro, a qual um dia já
pertencera a mim, seus cabelos soltos e ondulados caem sobre seus
ombros, fazendo a combinação perfeita entre seus olhos castanhos
seu cabelo cor de cenoura, Katy com o mesmo modelo de vestido de
Katy com a única diferença é que a cor de seu vestido é bege a qual
também se contrasta a sua pele parda e seus cabelos cacheados e
pretos porém seus olhos azuis se destacam. Por último meu irmão
Viol que usa uma blusa branca feita de um tecido barato a qual nem
mesmo eu sei o nome, junto a uma calça feita de retalhos velhos,
uma pena ele não poder herdar roupas de ninguém já que as roupas
de nosso pai foram jogadas fora quando eu ainda era apenas uma
menininha por volta de meus 9 anos. Mas mesmo assim sua beleza
me assusta seu cabelo preto liso e seus olhos castanhos se destacam
com o uso da blusa.
Todos se assentam ao meu lado na mesa, quase despedaçada da
cozinha, olhando por outro ângulo, a mesa durou muito tempo, mas
sua aparência transmite que seus dias estão contados. De repente
meu pai desce, não dizendo sequer uma palavra, se senta a mesa
com uma expressão enigmática, será que ele acordou de mal humor?
Minha mãe retira a primeira remessa de pães e os coloca na mesa,
enquanto retira todos os outros ingredientes largados a mesa, logo
após trazer um bullying de café com a alça quebrada, o segurado
com dois panos para não se queimar, me lembro do dia em que achei
esse bullying em uma tenda de quinquilharias no canto da feira que
todo dia se abre ao por do sol, o vendedor simpático nos tratava
diferente, nos oferendo um ótimo valor pelo bullying, então sem
pensar duas vezes minha mãe o comprou, sem perguntar nada só
meu pai, naquela noite renderam muitos gritos e barulhos vindos do
quarto deles.
São raras as vezes em que saímos de casa, minha mãe fala que as
pessoas não se agradam muito da cor do nosso cabelo, isso me deixa
pensativa e com mais vontade de sair de casa e andar sem me
preocupar pela vila, mas conheço os perigo, em um dia qualquer em
que sai apenas para tirar leite e Mosa percebi um grupo de homens
que passavam pela frente de nossa casa, pelo trajeto dele iam em
direção ao velho poço da vila, mas o paço deles diminuiu e suas
expressões eram de nojo e desgosto quando olharam para mim, isso
ficou na minha cabeça e me atormentou por dias, sem contar nas
raras vezes em que eu ia a feira com meus pais e meus irmãos, e
todos ficavam encarando eu e minha mãe, e não apenas nos
julgando, mas nossa família inteira, não somos bem falados, meu pai
pode ser normal como todo o resto, tarde de cabelo preto com
exceção dos olhos azuis que não são tão comuns, mas o criticam por
ser casado com minha mãe. O que me faz questionar a boa índole do
senhor que nos vendeu a aquele bullying, será que ele só não queria
acabar a feira sem vender nada?
De qualquer forma nada disso me impede de contornar a vila até uma
velha biblioteca no canto da cidade, o lugar que eu vou quando
terminar de comer o pão, com um pouco de café que minha mãe
servira. Me levanto da mesa e limpo as migalhas de pão que caíram
no meu colo, e saio avisando que vou para o poço pegar um pouco de
água e cuidar de Mosa. Minha mãe olha para os olhos de meu pai a
qual balança a cabeça permitindo.
Tive que mentir se não nunca conseguiria sair sozinha para a
biblioteca, nunca concordariam com isso, dou a volta em nossa casa e
contorno o vilarejo até chegar aos fundos da biblioteca, vou até a
porta da frente sendo cautelosa para não ser percebida. Olho pela
janela e o vendedor não está, deve estar no fundo pegando mais
livros ou algo assim. Entro pela porta de madeira e corro em direção a
estante onde se encontra os livros de história pego o primeiro título
que me vem a mão, e corro para fora voltando aos fundos da
biblioteca.