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O estudo avaliou o conhecimento de enfermeiros sobre o aplicativo DigiSUS e a necessidade de um software para melhorar a comunicação na Estratégia Saúde da Família. A pesquisa, realizada com 39 enfermeiros, revelou que a maioria conhece as tecnologias do Ministério da Saúde, mas 64,1% não conhecem o DigiSUS. Os resultados indicam a expectativa dos profissionais por um aplicativo que facilite a comunicação com os usuários do Sistema Único de Saúde.
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O estudo avaliou o conhecimento de enfermeiros sobre o aplicativo DigiSUS e a necessidade de um software para melhorar a comunicação na Estratégia Saúde da Família. A pesquisa, realizada com 39 enfermeiros, revelou que a maioria conhece as tecnologias do Ministério da Saúde, mas 64,1% não conhecem o DigiSUS. Os resultados indicam a expectativa dos profissionais por um aplicativo que facilite a comunicação com os usuários do Sistema Único de Saúde.
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Artigo Original

Saúde digital e enfermagem: ferramenta de


comunicação na Estratégia Saúde da Família
Digital health and nursing: communication tool in the Family Health Strategy
Salud digital y enfermería: herramienta de comunicación en la Estrategia Salud de la Familia
Emerson Willian Santos Almeida1 [Link]

Simone de Godoy1 [Link]

Ítalo Rodolfo Silva2 [Link]

Orlene Veloso Dias3 [Link]

Leila Maria Marchi-Alves1 [Link]

Carla Aparecida Arena Ventura1 [Link]

Isabel Amélia Costa Mendes1 [Link]

Resumo
Como citar: Objetivo: Avaliar o conhecimento de profissionais acerca do aplicativo DigiSUS e verificar a necessidade de
Almeida EW, Godoy S, Silva IR, Dias OV, Marchi-Alves
LM, Ventura CA, et al. Saúde digital e enfermagem: desenvolvimento de software para comunicação entre profissionais de enfermagem e usuários da Estratégia
ferramenta de comunicação na Estratégia Saúde da
Família. Acta Paul Enferm. 2022;35:eAPE02086. Saúde da Família.
Métodos: Estudo descritivo, transversal com abordagem quantitativa. A investigação foi conduzida nos meses
DOI de abril e maio de 2020 em uma cidade com uma cobertura de 100% da Atenção Básica. Foram convidados
[Link]
todos os enfermeiros cadastrados (140) e atuantes na ESF do município.
Resultados: Foram analisadas as respostas de 39 enfermeiros, com idade entre 29 e 50 anos, maioria
mulher, com atuação há mais de 10 anos na Estratégia Saúde da Família do município norte-mineiro. A maior
parte dos enfermeiros informou conhecer as tecnologias disponibilizadas pelo Ministério da Saúde, porém 25
(64,1%) não conhecem o aplicativo do DigiSUS.
Conclusão: Esta pesquisa demonstra a necessidade e expectativa dos enfermeiros de terem acesso a um protótipo
de aplicativo que facilite a comunicação com os usuários da Estratégia Saúde da Família do Sistema Único de Saúde.
Descritores
Aplicativos móveis; Comunicação; Software; Projetos de
Tecnologias de informação e comunicação; Estratégias Abstract
eSaúde; Estratégia saúde da família
Objective: Evaluate the knowledge of professionals about the DigiSUS application and verify the need for software
Keywords development for communication between nursing professionals and users of the Family Health Strategy (FHS).
Mobile applications; Communication; Software; Information
technologies and communication projects; eHealth Methods: Descriptive, cross-sectional study with quantitative approach. The research was undertaken in April
strategies; Family health strategy and May 2020 in a city with 100% Primary Care coverage. All registered nurses (140) who were working in
Descriptores the city’s FHS were invited.
Aplicaciones móviles; Comunicación; Software; Proyectos
de tecnologías de información y comunicación; Estrategias
Results: We analyzed the answers of 39 nurses, aged between 29 and 50 years, mostly women, who had
de esalud; Estrategia de salud familiar been working for more than 10 years in the Family Health Strategy of the city in the North of Minas Gerais.
Most nurses reported knowing the technologies provided by the Health Department, but 25 (64.1%) do not
Submetido know the DigiSUS application.
29 de Julho de 2021
Aceito
Conclusion: This research demonstrates the nurses’ need and expectation to have access to a prototype
9 de Dezembro de 2021 application that facilitates communication with users of the Family Health Strategy in the Unified Health System.

Autor correspondente Resumen


Isabel Amélia Costa Mendes
E-mail: iamendes@[Link] Objetivo: Evaluar el conocimiento de profesionales sobre la aplicación DigiSUS y verificar la necesidad de
desarrollar un software para la comunicación entre profesionales de enfermería y usuarios de la Estrategia
Editor Associado (Avaliação pelos pares): Salud de la Familia.
Alexandre Pazetto Balsanelli
([Link]
Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de
1
Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.
São Paulo, SP, Brasil
2
Universidade Federal de Rio de Janeiro, Macaé, RJ, Brasil.
3
Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros, MG, Brasil.
Conflitos de interesse: nada a declarar.

Acta Paul Enferm. 2022; 35:eAPE02086. 1


Saúde digital e enfermagem: ferramenta de comunicação na Estratégia Saúde da Família

Métodos: Estudio descriptivo, transversal, con enfoque cuantitativo. La investigación fue llevada a cabo en los meses de abril y mayo de 2020 en una ciudad
con una cobertura del 100 % de la Atención Básica. Se invitó a todos los enfermeros registrados (140) y que trabajan en la ESF del municipio.
Resultados: Se analizaron las respuestas de 39 enfermeros, entre 29 y 50 años, mayoría de mujeres, que trabajan hace más de 10 años en la Estrategia
Salud de la Familia de un municipio del norte del estado de Minas Gerais. La mayor parte de los enfermeros informó que conocía las tecnologías que el
Ministerio de Salud pone a disposición, pero 25 (64,1 %) no conocen la aplicación DigiSUS.
Conclusión: Este estudio demuestra la necesidad y expectativa de los enfermeros de tener acceso a un prototipo de aplicación que facilite la comunicación
con los usuarios de la Estrategia Salud de la Familia del Sistema Único de Salud.

Introdução de 2030. Além disso, recomendou a adoção de es-


truturas tecnológicas que oportunizam o avanço
O progresso científico e, com ele, seus desdobra- digital em consonância com o acesso e cobertura
mentos tecnológicos e de inovação permitiram universal, dispondo de recursos como atendimento
aceleradas interações a partir das Tecnologias de virtual, banco de dados com sistema informatizado
Informação e Comunicação (TIC) e a da internet, na categorização de informações seguras de pacien-
especialmente com o advento dos smartphones, que tes, facilidade na organização e gestão do trabalho,
se configuram como verdadeiros computadores à plataformas digitais, inteligência artificial e demais
disposição das pessoas, em tempo integral, por ex- ferramentas que tragam melhorias aos sistemas de
pressiva parcela da população global. Resultaram saúde.(4)
dessa realidade novos formatos de comportamentos Nessa direção, as estratégias digitais de saúde do
influenciados pelo acesso e disseminação de infor- Brasil 2020-2028 visam conectar população/gover-
mações que acompanham a dinamicidade de desen- nos/órgãos ministeriais/universidades/profissionais
volvimento das sociedades e dos novos padrões do da saúde. O plano de ação dessas estratégias adota
processo saúde-doença. Assim, têm-se, a partir das prioridades e intervenções estabelecendo liderança;
TIC, novas estratégias para a democratização do co- ações governamentais com legislações e regulações;
nhecimento que permitem melhores condições para informatização nos três níveis de atenção à saúde e
assegurar o direito à saúde das pessoas. melhoria nos atendimentos; ações objetivas, como
Considerando, desse modo, o valor das TIC para telessaúde - formação de profissionais de saúde, bem
o acesso equitativo e universal à saúde, mediante o como melhoria dos espaços físicos, plataforma que
conhecimento favorecido a partir do acesso à infor- permita aos cidadãos acesso à informação e ecossis-
mação, em maio de 2005 a Organização Mundial temas interativos que garantam o fortalecimento do
da Saúde (OMS), durante a sua 58a Assembleia, princípio de universalidade do SUS.(5)
chamou a atenção para os benefícios daquilo que Ademais, o Programa de Telessaúde Brasil foi
considerou como saúde digital e seu impacto na ampliado e trouxe importantes benefícios aos pro-
prestação de cuidados.(1) A 66a Assembleia Mundial fissionais de saúde com ferramentas como telecon-
de Saúde reconheceu que a saúde digital promove sultoria, telediagnóstico, apoio científico às institui-
comunicação acessível entre os povos, qualidade ções de ensino, tele-educação, dentre outros.(6) Por
aos cuidados prestados à população, ressignificando meio da portaria Nº 1.434, de 28 de maio de 2020,
e fortalecendo os sistemas de saúde.(2) Cinco anos o Ministério da Saúde instituiu o Programa Conecte
depois, a OMS voltou a destacar a importância de SUS, o qual tem por objetivo a implementação da
implementação e desenvolvimento de estratégias de Rede Nacional de Dados em Saúde - RNDS. Dessa
saúde digital pelos seus países membros.(3) forma, o programa pretende informatizar e garan-
Resultou dessa sequência de decisões o estabele- tir integração entre os serviços de saúde, de modo
cimento de estratégias globais para o desenvolvimen- especial a Atenção Primária à Saúde, além de pro-
to da saúde digital para o quinquênio 2020-2025 e porcionar acesso aos cidadãos que utilizam o SUS.(7)
a convocação da OMS aos países para interlocução O princípio da universalidade do SUS deve ser,
tecnológica em busca de atender os Objetivos de portanto, pensado a partir de estratégias que per-
Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Agenda mitam concebê-lo em perspectiva que ultrapasse

2 Acta Paul Enferm. 2022; 35:eAPE02086.


Almeida EW, Godoy S, Silva IR, Dias OV, Marchi-Alves LM, Ventura CA, et al

a ideia de acesso físico das pessoas aos serviços de mação entre o acesso de informações, construção de
saúde e, assim, alcançar a projeção de acesso e aces- conhecimentos e mudanças comportamentais capa-
sibilidade de informações que possibilitem a cons- zes de modificar realidades a partir, por exemplo, da
trução de conhecimentos para a emancipação social adoção de hábitos saudáveis que modificam vulne-
capaz de favorecer a garantia do direito à saúde. rabilidades individuais e sociais. Logo, pode ser no
Assim sendo, as TIC, no contexto da saúde digital, âmbito da ESF que a saúde digital ocasiona maior
são fundamentais; logo, os profissionais de saúde impacto para o acesso universal à saúde.
são indispensáveis nesse processo. Nessa conjuntu- Nessa perspectiva e na confluência do trabalho
ra, a OMS reconhece e valoriza seus profissionais dos enfermeiros com a política de saúde digital, este
para que, por meio deles, sejam alcançadas eficiên- estudo tem por objetivo avaliar o conhecimento de
cia e resolutividade dos serviços.(8) profissionais acerca do software DigiSUS e verificar
Entre esses profissionais estão os enfermeiros a necessidade de desenvolvimento de software para
com a missão de promover saúde e bem estar da po- comunicação entre profissionais de enfermagem e
pulação, cuidando de indivíduos, famílias e comu- usuários da ESF.
nidades. Esses profissionais são reconhecidos como
fundamentais para a sustentabilidade dos sistemas
de saúde em níveis local e global, advogando pe- Métodos
los direitos dos pacientes em favor dos ODS; são,
também, formuladores de políticas, que se utili- Estudo descritivo, transversal com abordagem
zam de evidências que projetam a enfermagem no quantitativa. Trata-se da primeira fase de uma pes-
atendimento das necessidades da população. Estão, quisa aplicada ou tecnológica,(16) cuja finalidade é
portanto, aptos para o presente e, por serem inova- produzir conhecimentos científicos para melhorar o
dores e adaptáveis, são indispensáveis para o futuro acesso e a comunicação entre enfermeiros e usuários
que projeta estimativas epidemiológicas preocupan- da Estratégia Saúde da Família de um município lo-
tes para a saúde global,(9-13) levando-se também em calizado no Norte de Minas Gerais. Dessa forma,
consideração a relação custo-eficácia nos serviços faz-se necessário compreender o conhecimento e
de saúde.(12) Os profissionais de enfermagem cons- as necessidades dos enfermeiros que trabalham na
tituem o maior grupo ocupacional do setor saúde ESF, a fim de estruturar estratégias eficazes para a
globalmente, com aproximadamente 59% da força implementação e desenvolvimento de um protótipo
de trabalho;(14) no Brasil, a enfermagem represen- de software aplicativo baseado na metodologia do
ta aproximadamente 70% da força de trabalho em Design Centrado no Usuário (UX).(17)
saúde.(14,15) Esta metodologia permite a participação ativa
Assim, tem-se o entendimento de que a en- dos usuários na construção do protótipo de software
fermagem é indispensável para o desempenho do aplicativo; assim, antes de iniciar a criação da tecno-
SUS, que apresenta a Atenção Primária à Saúde logia móvel, os pesquisadores realizaram um inqué-
como principal contexto de promoção da saúde, rito para diagnosticar necessidades dos enfermeiros.
prevenção de riscos ou agravos e de reabilitação. Apesar do Ministério da Saúde possuir o aplicativo
Especialmente nesse nível de atenção à saúde, o Meu DigiSUS, o mesmo não apresenta funciona-
processo de descentralização é fundamental para lidades que permitam que o enfermeiro se comu-
garantir os princípios do SUS, em que a Estratégia nique com os seus pacientes. Portanto, tornou-se
de Saúde da Família (ESF) constitui importante necessário conhecer as necessidades do enfermeiro,
dispositivo de reorientação das ações e serviços de além de questioná-lo sobre eventual expectativa de
saúde pautados na família e no contexto domici- uso de um novo protótipo a ser criado, ou incorpo-
liar e comunitário que, em conjunto, conformam rar melhorias no já existente. Além disso, a justifi-
valiosa matriz de cuidados. É nesse contexto de in- cativa de utilizar a metodologia UX está fundamen-
terações que se insere a micropolítica de transfor- tada na teoria da usabilidade do usuário. O fato de

Acta Paul Enferm. 2022; 35:eAPE02086. 3


Saúde digital e enfermagem: ferramenta de comunicação na Estratégia Saúde da Família

convidar o usuário a participar da criação garante Os dados foram submetidos a análise estatística
melhores possibilidades de que o mesmo venha a descritiva com cálculo de frequência e porcentagem
utilizar o produto gerado. por meio do programa Statistical Package for the
Um questionário online foi desenvolvido espe- Social Sciences (SPSS) versão 25.
cificamente para este estudo. Antes de ser utilizado,
foi avaliado em face e conteúdo, bem como testado e
corrigido por cinco enfermeiros pesquisadores; con- Resultados
tém 69 questões distribuídas em cinco domínios:
(1) características pessoais, (2) organização e gestão Foram analisadas as respostas de 39 enfermeiros,
na ESF; (3) princípios e diretrizes do SUS; (4) fun- com idade entre 29 e 50 anos. Dentre os participan-
ções, ação e habilidades desenvolvidas na ESF e (5) tes, 32 (80%) são mulheres, sendo que 28 (71,8%)
conhecimento do enfermeiro em relação às tecno- possuem especialização lato sensu e 5 (12,5%)
logias digitais disponibilizadas pelo Ministério da atuam há mais de 10 anos na Estratégia Saúde da
Saúde. Este último domínio possibilitou avaliar o Família do município norte-mineiro. A maior par-
conhecimento que os enfermeiros possuem em rela- te dos 24 (61,5%) enfermeiros informou conhecer
ção ao aplicativo já existente - DigiSUS, e levantar as tecnologias disponibilizadas pelo Ministério da
informações sobre a necessidade de criação e imple- Saúde (MS), e que gostaria de utilizar um aplicati-
mentação de um novo protótipo software aplicativo, vo/software para comunicação com os usuários ca-
que facilite o acesso e comunicação entre enfermei- dastrados na ESF em que atua 33 (84,6%). Porém,
ro e o usuário da ESF na cidade pesquisada. 25 (64,1%) não conhecem o aplicativo do DigiSUS
A investigação foi conduzida nos meses de e 29 (74,4%) referiram não utilizar nenhuma tec-
abril e maio de 2020 em uma cidade com área ter- nologia para comunicação com o usuário da ESF
ritorial de 3.589,811 km², 413.487 habitantes e (Tabela 1).
Índice de Desenvolvimento Humano Municipal
de 0,770(18) contando com 89 Centros de Saúde / Tabela 1. Conhecimento e uso de tecnologias de comunicação
Unidades Básicas de Saúde, segundo dados abertos do Ministério da Saúde por enfermeiros em um município
disponíveis no CNESNet.(19) Dados obtidos pelo norte-mineiro
sistema de informação e gestão da Atenção Básica Questões
Sim Não
Sem
resposta
n(%) n(%)
e-Gestor indicam que o município possui uma co- n(%)

bertura de 100% da Atenção Básica.(20) Foram con- Você conhece as tecnologias digitais disponibilizadas
pelo Ministério da Saúde?
24(61,5) 14(35,9) 1(2,6)

vidados todos os enfermeiros cadastrados (140) e Você conhece o aplicativo DigiSUS? 13(33,3) 25(64,1) 1(2,6)
atuantes na ESF do município. Os participantes Na sua cidade é utilizada alguma tecnologia que
facilite o acesso e comunicação entre o Enfermeiro e
9(23,1) 29(74,4) 1(2,6)

foram recrutados por meio de convite, via e-mail, o usuário da ESF?


Você gostaria de utilizar um aplicativo/software para 33(84,6) 5(12,8) 1(2,6)
que esclarecia os objetivos da pesquisa, continha se comunicar com os usuários cadastrados na sua
link para acesso ao questionário no Google Forms ESF?

e anexo com o Termo de Consentimento Livre e


Esclarecido assinado pelos pesquisadores. Os en- Quando questionados quanto à aplicabilidade
dereços de e-mail foram fornecidos pela coorde- das tecnologias do MS no município, 29 (74,4%)
nação da Atenção Primária à Saúde do municí- enfermeiros a consideraram positiva. Sobre a apli-
pio estudado. O convite foi enviado três vezes a cabilidade do DigiSUS e de alguma tecnologia que
cada enfermeiro, durante o período estabelecido facilite o acesso e comunicação entre o enfermeiro e
para a coleta dos dados. O estudo foi aprovado o usuário da ESF, 18 (46,2%) consideraram positi-
pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de va e 22 (56,4%) não responderam, respectivamente
Enfermagem de Ribeirão Preto – USP (parecer nº (Tabela 2).
3.836.432) (CAAE: 27862620.0.0000.5393) e se- Em relação às tecnologias digitais disponibiliza-
guiu os preceitos éticos da resolução 466/2012.(21) das pelo MS, 29 (74,3%) enfermeiros informaram

4 Acta Paul Enferm. 2022; 35:eAPE02086.


Almeida EW, Godoy S, Silva IR, Dias OV, Marchi-Alves LM, Ventura CA, et al

Tabela 2. Respostas dos enfermeiros quanto à aplicabilidade e


necessidade de uso das tecnologias do Ministério da Saúde vistados, 24 (61,5%) conhecem apenas em parte as
Sem
tecnologias disponibilizadas pelo MS do Brasil; en-
Positiva Negativa
Questões
n(%) n(%)
resposta tretanto, 29 (74%) reconhecem que sua utilização
n(%)
seria positiva no seu serviço.
Como você percebe a aplicabilidade das 29(74,4) 2(5,1) 8(20,5)
tecnologias digitais disponibilizadas pelo Além disso, e consequentemente, 15 (38,4%)
Ministério da Saúde?
apontaram como dificuldades enfrentadas a falta de
Como você percebe a aplicabilidade do DigiSUS? 18(46,2) 3(7,6) 18(46,2)
estrutura, tais como dispositivos (computadores e/
Como você percebe a aplicabilidade de alguma
tecnologia que facilite o acesso e comunicação
13(33,3) 4(10,3) 22(56,4) ou tablets) e acesso à internet. Este conjunto de re-
entre o Enfermeiro e o usuário da ESF? sultados, por si só, denota a necessidade de capacitar
os enfermeiros quanto ao uso de ferramentas tec-
que passaram a utilizá-las nos últimos cinco anos, nológicas, de oferecer-lhes programas de educação
sendo que 18 (46,2%) apontaram facilidade, aces- continuada em vários temas afeitos ao trabalho que
sibilidade, agilidade, resolubilidade e banco de da- desenvolvem na ESF, de expô-los aos conteúdos do
dos, organização do trabalho, registro e segurança site do Ministério da Saúde estimulando o hábito
do prontuário do paciente e melhoria nos atendi- de acesso frequente para sua própria atualização,
mentos, enquanto benefícios desse uso. Em relação uso de tecnologias e mídias digitais, processamento
às dificuldades do uso, 15 (38,4%) destacaram a fal- e recuperação da informação e participação em re-
ta de estrutura como dispositivos (computadores e/ des sociais, incluindo um conjunto de habilidades
ou tablets) e acesso à internet. Quanto ao DigiSUS como uso de mídias digitais para o processamento
15,3% dos enfermeiros informaram que passaram a e a recuperação da informação, participação em re-
utilizá-lo nos últimos cinco anos e apontaram a agi- des sociais, alimentação de sistemas de informação
lidade, auxílio nos atendimentos, entretenimento no SUS para a geração de estatísticas, sobre fide-
e acesso à informação como benefícios de seu uso, dignidade e confiabilidade dos dados, enfim, para
sendo a falta de treinamento, de dispositivos e aces- a compreensão de seu papel nesse contexto. As
so à internet mencionadas como dificuldades. Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC)
reúnem repositórios, fontes de dados, dando am-
plitude ao compartilhamento de informações, for-
Discussão talecendo a comunicação, disponibilizando dados
e conhecimentos, resultando em desenvolvimento
O exercício da Enfermagem, como de outras profis- socioeconômico e cultural, influenciando as organi-
sões, requer uma atuação harmonizada com a tecno- zações e a sociedade.
logia digital. Impõe-se que os serviços sejam equipa- Numa era de avanço acelerado das mídias digi-
dos com instrumentos necessários, e que os recursos tais e em contraposição em circunstâncias de recur-
humanos sejam capacitados e recebam educação ao sos limitados, adesão organizacional insuficiente e
longo da vida laboral para sua satisfação no traba- mudança comportamental, a política de saúde di-
lho, para entrega de serviços de qualidade e para a gital deve estar no foco de atenção dos gestores de
segurança do paciente, do trabalhador e dos dados serviços de saúde.(22-26)
por eles gerados, já que são eles que devem alimen- Existem evidências de que o encaminhamento
tar os sistemas de informações para o SUS. para intervenções digitais têm elevado potencial
Considerando a faixa etária dos participantes para direcionar maior proporção de pacientes ao
desta pesquisa e seu envolvimento com tecnologias acesso de intervenções estruturadas para seu auto-
na sua vida diária, vivendo num contexto de saú- cuidado, promovendo mudança de comportamen-
de digital, seria de se esperar que a maioria conhe- to em relação à saúde em diferentes contextos,(27-32)
cesse as tecnologias digitais disponibilizadas pelo desenvolvendo também confiança profissional;(33)
Ministério da Saúde; no entanto, é alto o índice além disso, intervenções digitais de saúde podem
que diz desconhecê-las 14 (35,9%). Dos 39 entre- se configurar como estratégia de engajamento do

Acta Paul Enferm. 2022; 35:eAPE02086. 5


Saúde digital e enfermagem: ferramenta de comunicação na Estratégia Saúde da Família

cliente nos serviços de saúde,(34-37) podem integrar Inquiridos sobre o contexto em que vivem no
diferentes profissionais de saúde entre si, ou alinhar que tange ao uso de tecnologia que facilite a co-
determinados profissionais aos protocolos adotados municação entre o enfermeiro e o usuário da ESF
pelo sistema de saúde. Todavia, é notório que seu na cidade estudada, 24 (74,4%) dos enfermeiros
uso excessivo pode infringir o código de ética pro- que participaram no estudo informaram a inexis-
fissional e que o comportamento aditivo pode vir a tência de ferramenta tecnológica no município nor-
causar prejuízos.(33,38) te-mineiro que possa proporcionar essa interação.
Os benefícios do uso das tecnologias do MS são Importa salientar, contudo, que 33 (84,6%) enfer-
apontados pela facilidade, resolubilidade na organi- meiros participantes desejam que seja desenvolvido
zação do trabalho, além de constituir em banco de e implementado um aplicativo/software de comu-
dados com fontes seguras para acesso a prontuários nicação que promova maior comunicação com as
de pacientes, facilitando o atendimento. Em termos famílias cadastradas na ESF onde esses profissionais
de agendamento, a adoção de soluções digitais é de enfermagem trabalham, o que deve merecer nos-
cada vez mais interessante, cômoda e conveniente, so esforço para prosseguimento desta pesquisa.
tanto para os serviços como para a clientela.(35,39) O aplicativo DigiSUS pode ser encontrado na
No entanto, as realidades distinguem-se entre paí- versão para smartphones Android e IOS, cujas fun-
ses desenvolvidos e em desenvolvimento; no caso cionalidades permitem ao usuário do SUS acessar
aqui estudado, os enfermeiros da ESF enfrentam seus dados e informações, como o número do seu
dificuldades no acesso à internet, falta de materiais cartão SUS, lista de medicamentos, vacinas, exames
e estrutura física inadequada. Por essa razão, não é e estabelecimentos de saúde próximos à localização
de surpreender que, quando questionados, a maior dos usuários. Além de oferecer e implementar esse
parte dos enfermeiros - 25 (64,1%) tenham decla- tipo de tecnologia móvel, o MS deve direcionar es-
rado desconhecer os aplicativos do MS do Brasil, forços para capacitar os profissionais quanto ao uso
como o DigiSUS. Os participantes que informa- dessa ferramenta, disseminando e incentivando os
ram utilizá-lo afirmam que o aplicativo auxilia nos usuários à incorporação e melhoria da tecnologia
atendimentos, promove entretenimento e acesso à móvel em sua prática diária.(42,43)
informação com agilidade. O desempenho dos par- Nesse contexto, observamos, também, que o
ticipantes do estudo depende não só da estrutura Programa Saúde da Família criado em 1994, hoje
físico-funcional da unidade em que trabalham e da denominado Estratégia Saúde da Família, demorou
falta de liderança que invista na educação continua- cerca de 27 anos para elaborar estratégias de infor-
da. Temos que considerar, também, que o aplicativo matização na APS. No ano de 2019, o Ministério
DigiSUS teve seu lançamento no ano de 2015; o da Saúde instituiu, por meio da Portaria no 2.983,
fato de ser relativamente novo para o perfil etário de 11 de novembro de 2019, o Programa de Apoio
dos enfermeiros, aliado à falta de investimento na à Informatização da Atenção Básica, tornando prio-
educação continuada, explica seu desconhecimento ridade: rede de dados, capacitação de profissionais,
e nos coloca em alerta. A esses determinantes, por- prontuário eletrônico com registro de anamnese,
tanto, se deve adicionar o fator geracional, já que 22 prescrição de medicamentos, informações dos pa-
(56,4%) dos entrevistados nasceram entre os anos cientes, solicitação de exames, emissão de atestados,
1970 a 1989 e compõem gerações cujo domínio entre outros como meio de integração da rede de
restrito de tecnologias móveis e baixa alfabetização atenção à saúde do SUS.(44) No entanto, com o con-
digital é comum,(40,41) o que constitui um desafio texto pandêmico do Coronavírus (COVID-19), a
e deve ser levado em conta pelos gestores; portan- Portaria nº 1.247, de 18 de maio de 2020 prorro-
to, é importante que a incorporação de tecnologias gou o programa.(45)
na ESF seja acompanhada de educação continua- Sabemos que os princípios de saúde pública não
da, com foco nesses novos modelos de tecnologia devem ser modificados ao se adotar metas de saúde
digital. digital: esta meta vem para apoiar e promover me-

6 Acta Paul Enferm. 2022; 35:eAPE02086.


Almeida EW, Godoy S, Silva IR, Dias OV, Marchi-Alves LM, Ventura CA, et al

lhor atendimento à saúde das populações. Saúde di- Pan-Americana da Saúde para posicionamento do se-
gital é meio e não fim em si mesmo. A digitalização tor saúde dos países, em sintonia com a era de trans-
não deve modificar os princípios de saúde pública; formação digital em curso na região das Américas,
em vez disso, deve apoiar e permitir sua implemen- colocando em prática os oito princípios norteadores
tação, promover acesso, universalização, qualidade para esse fim: conectividade universal, bens digitais,
dos serviços prestados, eficiência, inclusão e equida- saúde digital inclusiva, interoperabilidade, direitos
de na atenção à saúde.(36) humanos, inteligência artificial, segurança da infor-
Acresça-se que para realizar intervenções visando mação e arquitetura de saúde pública.(50)
a adoção de métodos digitais envolvendo profissio- Com a primeira fase de nossa pesquisa con-
nais de saúde e também seus clientes, o planejador da cluída, temos agora o compromisso de prosseguir
intervenção precisa ter em perspectiva a compreensão para a segunda fase, construindo e dando acesso ao
do contexto psicossocial dos usuários, já que tais pro- aplicativo de que os enfermeiros necessitam para
cessos superam avaliação de aceitabilidade, satisfação uma atuação em que seja possível praticar os prin-
e usabilidade e, portanto, devem abranger elementos cípios da era da transformação digital e responder
comportamentais da intervenção. Tendo tais aspectos ao chamado à ação conclamado pela Organização
em perspectiva, os interventores poderão antecipar e Pan-Americana da Saúde. Consideramos reduzido
interpretar o uso e os resultados da intervenção, bus- o tempo decorrido entre a coleta de dados deste es-
cando também meios para torná-la persuasiva, viável tudo e a instituição da Portaria no 2.983, de 11 de
e relevante para os usuários.(46,47) novembro de 2019 do MS visando a informatização
A literatura tem fartas evidências de que as re- da Atenção Básica para uma avaliação, especialmen-
lações satisfatórias entre enfermeiro-paciente au- te em um contexto pandêmico, podendo consti-
mentam as chances de pacientes alcançarem saúde tuir-se um fator limitante e, portanto, indicativo de
e bem-estar; o contato presencial em serviços de necessidade de replicação do estudo e reavaliação.
atenção primária é essencial para estimular que in-
tervenções digitais possam vir a acontecer, especial-
mente para os pacientes mais idosos; e é importante Conclusão
ressaltar para a clientela que o uso de serviços digi-
tais pode ser mais acentuado onde ele não é percebi- Esta pesquisa demonstra a necessidade e expectati-
do como substituto do atendimento presencial, mas va dos enfermeiros de terem acesso a um protóti-
sim como uma solução equilibrada.(48,49) po de aplicativo que facilite a comunicação com os
É de se destacar os incentivos da OMS e a política usuários da Estratégia Saúde da Família do Sistema
de saúde digital que convidam os gestores a imple- Único de Saúde.
mentarem a saúde digital como processo de quali-
dade da assistência, impactando e transformando
os serviços de saúde. Dessa forma, faz-se necessário Agradecimentos
que o Ministério da Saúde estabeleça parceria com
as secretarias de saúde e demais órgãos públicos, apli- O presente trabalho foi realizado com apoio da
cando recursos necessários e estruturando os espaços Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
físicos das ESF; providencie aquisição de computa- Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de
dores e internet de qualidade; promova capacitação Financiamento 001.
dos profissionais e ensinamento aos usuários do SUS
a utilizarem as ferramentas disponibilizadas pelo MS
conectando a população com a rede de assistência à Colaborações
saúde, para gerar contribuição para o acesso universal
à saúde. Em assim atuando, o Ministério estará res- Almeida EWS, Godoy S, Silva IR, Dias OV,
pondendo ao recente chamado à ação da Organização Marchi-Alves LM, Ventura CAA e Mendes IAC de-

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